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DEBATE – Debra Pascali-Bonaro

DOULAS AND ACTIVISM

Bilingual Version

Ok.. a quick response, I am in a very very busy time, so not the best to write all I would like to as my statement are in no way selling the doula short or in support of dis-respectful, or  bad practices.  Always the doula supports the woman to have her voice, to advocate for a safe, satisfying and I would add pleasurable birth, but she does this with respect.  Like water, it is very gentle one drop at a time, but it can also be a very strong force.  Water finds it’s path, sometimes going under, around, through the cracks, as doulas we find the way to help the woman advocate in many creative ways.  I find that a doula can be gentle, yet powerful in her support at the same time helping the woman to navigate in peace and love.  

We want women to be surrounded by the energy of harmony and peace.  To bring our activism to someone’s birth does not serve the woman or the team if we create negativity.  The Doula’s role is: To hold the space for every woman to have respect, dignity, and fully informed decision making, this is powerful!  We help the woman to advocate for herself.  We ask her how she feels?  We ask what she would like, does she need more time to think about her choices, there are many questions that help women to navigate her options in childbirth. We always want the woman to have her voice. To speak for someone is dis-empowering – to help her to speak is allowing her to find her power.  I work with doulas to learn this important skill and distinction.  The doula encourages her client’s advocacy and stands with her for her rights.  

When I take my doula hat off after the birth, I put on my activist hat and as an Activist I can speak up and speak out for change in many ways, no longer representing the client.     I work to find the way to have a discussion with caregivers, to discuss the evidence, listening – and working through our differences.  The path to change is bumpy and I acknowledge it is not always easy, but as doulas we can find creative ways to be heard, to make change one birth at a time as women take back birth. For in the end it is the woman’s voices that must be heard.  To have their choices honored.  

I have a passion for normal, undisturbed pleasurable birth.  I have been a part of working with providers and facilities in changing their practices and have always stood strong and proud to defend every woman’s right to optimal MotherBaby care as defined by the International MotherBaby Childbirth Initiative www.imbci.org .  I wish I could talk to those who feel that my comments were less than what they see as the doulas role, as I feel we would see that we are all standing for the same  values, standing for normal birth and  respectful care for women.  yet our tactics to achieve  it may be different.

It is a fine line to see how advocating for someone, vs helping them to advocate for themselves makes such a difference.  Mother’s will have to advocate for her baby and child for a lifetime, helping her claim this right and power at birth sets the stage for a powerful mother.  This is an important aspect of the doulas role.  Again this is in our scope of practice:

The doula advocates for the client’s wishes as expressed in her birth plan, in prenatal conversations, and intrapartum discussion, by encouraging her client to ask questions of her caregiver and to express her preferences and concerns. The doula helps the mother incorporate changes in plans if and when the need arises, and enhances the communication between client and caregiver. Clients and doulas must recognize that the advocacy role does not include the doula speaking instead of the client or making decisions for the client. The advocacy role is best described as support, information, and mediation or negotiation.

Sorry I have to get some rest, please let the doulas know I hear them, I am with them and I hope one day we can talk in person as these are hard issues to handle in email.

With love and gratitude,

Debra Pascali-Bonaro LCCE, BDT/PDT(DONA) our
Chair International MotherBaby Childbirth Initiative, www.imbci.org
DONA International Doula Trainer
Lamaze International Childbirth Educator
Visit my new web site www.debrapascalibonaro.com 
www.eatpraydoula.com
www.orgasmicbirth.com
www.globalbirthfair.com

A tradução é minha (Ric Jones) sobre uma comunicação pessoal com esta que é a doula mais famosa e experiente do mundo. Debra oferece treinamento de doulas em cinco continentes, é a produtora e diretora do documentário “Orgasmic Birth”, além de ser co-autora do livro com o mesmo nome em parceria com Elisabeth Davis. Debra estava voltando de um tour pela Europa e encontrou tempo para responder um questionamento meu sobre os “limites da ação das doulas e sua relação com o ativismo”. Abaixo a sua resposta:

Eu trabalho duro nos meus workshops para enfatizar a ideia de que a doula faz parte da equipe. A doula oferece respeito para a família e sua cliente, mas também deve respeitar toda a equipe de profissionais. Em minhas aulas eu pergunto como lidar com uma mulher que tem medo, que tem dificuldades e é desafiadora, e é claro que minhas alunas dizem que, nestas condições, a resposta é oferecer mais amor, compreensão e carinho. Então eu lhes pergunto: E sobre os prestadores de cuidados que também têm medo e dúvidas, mas que estão a trabalhar o melhor que podem? Creio que a mesma resposta se aplica, e devemos ter com eles a mesma consideração. Eu uso a analogia de que temos um sistema quebrado, um sistema disfuncional.

A maioria de nós sabe como boas pessoas podem ser abatidas em uma relação disfuncional, seja em sua família ou em seu trabalho. Eu afirmo que todos que vão para o trabalho em uma maternidade o fazem com o mesmo coração carinhoso com que vivem suas vidas. Precisamos reconhecer que há pessoas boas em um sistema quebrado, e vamos precisar de todas elas para curar o nosso modelo de saúde: Doulas, médicos, parteiras, enfermeiros, cientistas sociais, etc. Devemos trabalhar todos juntos para a mudança. Eu passo muito tempo nos meus workshops tentando mostrar com exemplos e com essa linguagem como é possível levar adiante esse modelo.

Também trabalhamos com a visão da DONA no que se refere à prática e ao código de ética:

http://www.dona.org/aboutus/code_of_ethics_birth.php
http://www.dona.org/aboutus/standards_birth.php

DONA deixa muito claro que as doulas não fornecem cuidados clínicos e descreve no item “Advocacy” como a doula NÃO deve falar pela cliente ou tomar decisões por ela. Mais uma vez eu gasto uma enorme quantidade de tempo nos meus workshops para esclarecer o que isso tudo significa em cada situação, e como pode parecer simples adicionar a nossa opinião em um caso, o que seria considerado uma “conduta médica”, como na situação de aconselhar uma mulher a não aceitar o tratamento que seu médico está propondo.

Em vez disso, doulas devem ajudar as mulheres a fazer decisões informadas e colaborativas, facilitando a comunicação positiva entre a mulher e sua equipe de atenção, para que possa acessar a informação que deseja ou necessita para tomar uma decisão informada.

Vocês todos sabem disso, por isso a questão agora é o que fazer com as doulas que estão a atravessar as linhas de ação, e trabalhando através de suas próprias dores para serem ativistas de uma forma prejudicial. 

Continuando…

Talvez não seja o melhor tempo para escrever tudo o que eu gostaria, mas de forma alguma minhas palavras são no sentido de diminuir as doulas, apoiar o desrespeito ou reforçar práticas inadequadas.  A doula sempre apoia a mulher para que ela tenha sua voz, na defesa de um parto seguro, gratificante e – eu gostaria de acrescentar prazeroso – mas ela deve fazer isso com respeito. Assim como a água, que é uma gota muito suave de cada vez, ela pode também ser uma força muito forte. Pois a água encontra seu caminho às vezes  por baixo, em torno de e através das fendas, e também as doulas encontram alguma forma de ajudar as mulheres de muitas maneiras criativas. Acho que uma doula pode ser suave, ao mesmo tempo em que é poderosa em seu apoio de ajudar a mulher a navegar em paz e amor. Queremos que as mulheres sejam cercadas pela energia da harmonia e da paz. Trazer o nosso ativismo ao nascimento de alguém não serve à mulher ou à equipe, se isso criar um clima de negatividade. O papel da doula mais importante é em garantir o espaço para que cada mulher seja respeitada, tenha dignidade e possa tomar decisões informadas, e isso é poderoso!! 

Nós ajudamos a mulher para que ela fale por si mesma. Nós perguntamos como ela se sente? Perguntamos o que ela gostaria, se ela precisa de mais tempo para pensar sobre suas escolhas? Há muitas questões que ajudam as mulheres a navegar em suas opções de parto. Nós sempre queremos que a mulher tenha sua voz. Falar por alguém é desempoderador – ajudá-la a falar é permitir que ela encontre seu poder. Eu trabalho com doulas para aprender essa habilidade importante e distinta. A doula estimula a defesa de suas clientes e fica ao lado delas pelos seus direitos.

Quando eu tiro meu “chapéu de doula” após o nascimento eu coloco meu “chapéu ativista”, e como ativista eu posso falar de mudanças em muitos aspectos, mas aí já não estou representando a minha cliente. Eu trabalho para encontrar o caminho para uma conversa com os cuidadores, para discutir as evidências, ouvindo e trabalhando através das nossas diferenças. O caminho para a mudança é acidentado e eu reconheço que nem sempre é fácil, mas como doulas podemos encontrar formas criativas de sermos ouvidas, de fazer mudanças “um nascimento de cada vez”, enquanto as mulheres tomam de volta seus partos. Porque no fim, é a voz das mulheres que deve ser ouvida; para terem honradas as suas escolhas.

Eu tenho uma paixão por partos normais, não perturbados e prazerosos. Tenho trabalhado conjuntamente com provedores e instituições no sentido de mudar suas práticas e sempre me mantive forte e com orgulho para defender o direito de cada mulher de ter um parto ótimo centrado na “mãebebê”, como definido pelo “International Motherbaby Childbirth Initiative” (IMBCI – www.imbci.org). Eu gostaria de falar diretamente com aqueles que sentem que os meus comentários são menos do que o que eles pensam como sendo o papel doulas, porque eu sinto que todos defendemos os mesmo valores, defendemos o parto normal e respeitoso para as mulheres, ainda que nossas estratégias para alcançá-lo possam ser diferentes. É uma linha muito tênue e difícil de perceber esta de defender as mulheres ou ajudá-las a que se defendam por si mesmas, e isso pode fazer uma grande diferença. Uma mãe terá que defender seu bebê e sua criança para o resto da vida; ajudá-la a reivindicar esse direito e esse poder já no parto pavimenta o caminho para uma mãe poderosa. Este é um aspecto importante do papel doulas. Novamente,é assim em nosso âmbito de ação:

A doula defende os desejos do cliente, como expresso em seu plano de parto, em conversas de pré-natal, e em discussões durante o trabalho de parto, encorajando-a a fazer perguntas ao seu cuidador e expressar suas preferências e interesses. A doula ajuda a mãe a incorporar mudanças nos planos, se e quando surgir a necessidade, e se esforça por melhorar a comunicação entre a cliente e o cuidador. Clientes e doulas devem reconhecer que o papel de defesa não inclui a doula falando no lugar da gestante ou a tomada de decisões no lugar dela. O papel de defesa é mais bem descrito como apoio, mediação, informações e ou negociação.

Desculpe, eu tenho que descansar um pouco, por favor, deixe as doulas saberem que eu as escuto, estou com elas, e espero que um dia possamos falar pessoalmente, pois  essas são questões difíceis de lidar à distância.

Com amor e gratidão,

Debra Pascali-Bonaro LCCE, BDT / PDT (DONA) nosso
Cátedra Internacional Mãe-Parto Iniciativa, http://www.imbci.org
DONA Internacional Treinador Doula
Lamaze Internacional educador do parto
Visite meu http://www.debrapascalibonaro.com novo site web
http://www.eatpraydoula.com
http://www.orgasmicbirth.com
http://www.globalbirthfair.com

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DEBATE – Ricardo Jones

 

DOULAS AND ACTIVISM

Bilingual Version

We are currently having a great social awakening in Brazil about the role of doulas, since two private hospitals in São Paulo banned doulas from entering, claiming that doulas “could increase the levels of hospital infection.” We all know that’s not true. Doulas were trying to lower the absurd cesarean section rates, which are 90% in both hospitals. To protest the ban, on Feb. 3, 2013, doulas from Sao Paulo organized a March for women’s right to have a doula during labor. They walked from one hospital toward the other, and held a huge demonstration with almost 1000 participants. Important leaders of the doula movement wrote letters and articles to newspapers and magazines, and received bitter replies from the doctors. The problem was that the relationship between doulas, from one side, and doctors and institutions, from the other side, had become harsh and disconnective. Yet, as I strongly suggest in this article, for the good of women and babies, doulas should work to establish smooth connections between themselves, mothers-to-be, and the medical staff, and should not challenge the medical team during labor and birth with anger and resentment.

Nothing is certain, only desire and hope. After the remarkable events of February 3rd, 2013, , my concern remains intense. Certainly, consumer power must be strengthened in order to develop a new space to debate the issue of humanized birth care and to produce change. Yet a clear national agenda for Brazilian doulas needs be developed through a maturation process that recognizes the concerns of the “other”—the medical professionals and institutions. The March for Doulas, with its exuberance, filled me with happiness, joy, hope and … doubts. I’m concerned about what our next steps should be after such a large mobilization.

By chance, I had seen the movie Les Miserables the day before the March, and the beautiful images and music were still in my memory. Naturally I drew a line—with a little creativity and imagination—that could unite the seemingly disparate realities of a contemporary march for doulas and a revolutionary scene from the 19th century. The “barricades” scene in the movie enacts a real historical event that closed the streets of Paris in 1830—the popular uprising against the government’s July Ordinances, which suppressed freedom of the press, dissolved the Chamber, nullified the latest elections and allowed the government to rule by decree. I could see a tiny thread connecting those July Ordinances and the “ban on doulas” in private hospitals in São Paulo.

The uprising of the “citoyens parisien” stemmed from the outrageous actions of a government oblivious to the desires of its people, who were hungry and needy. Yet despite their courageous efforts, the ragtag citizens fighting against troops loyal to the King finished as we saw in the film: they all died, decimated by a weakness they hadn’t noticed—they had no physical or ideological infrastructure solid enough to tackle the conservative government with clear and workable proposals. So the Battle of the Barricades was recorded in history as a bloodbath with no positive result (beyond the creation of wonderful songs, a Broadway musical, and Oscar contenders).

This is what I’m afraid of now. What if these hospitals reverse their positions and say, “Well, send your doulas!” Which doulas will we send? Activists? Women carrying bayonets with which to “fight the system”? How long can a situation of constant tension and confrontation in the labor room last between activist doulas and the hospital professionals who constantly feel threatened by their presence?

I do not believe that doulas can make birth better just by being sweet, resilient, calm, compassionate, and patient. I know the importance of activism and reinforce the words of Sheila Kitzinger, who said “We will not make a social revolution with pats on the back!” Yet there is a space for careand a space for activism, and those are very different social spaces. The cry for justice, even when correct, must not serve as a trigger for more injustice. Shooting wildly at all sides can bury for many years the efforts that many of us have been making to bring loving and humanized care to childbirth through the work of doulas.

There is a large and ongoing concern in Brazil among hospital practitioners that doulas are interfering in medical practice, giving medical advice, and performing activities that are not within their scope of practice. I think it is important to stimulate a discussion about this topic to improve the work we are doing in training and working with doulas as essential caregivers for the humanization of childbirth. It is important to stress that the role of the doula has nothing to do with giving medical advice or diagnosis—rather, their role is as helpers of women and supporters of women’s needs.

Some Brazilian doulas are trained by professional doula trainers (also doulas themselves), while others are trained by health professionals with extensive experience in caring for women during pregnancy, birth and breastfeeding. The health professionals who conduct doula trainings in Brazil include the internationally renowned obstetrician Michel Odent, the nationally renowned obstetrician Hugo Sabatino (a major proponent of squatting birth), the pioneering direct-entry homebirth midwife Ana Cristina Duarte, and myself—I am a holistic ob attending births at home and in hospital as part of doula-midwife-ob team (see Jones 2009).

The focus of the work of doulas is the laboring woman, not the birth itself. Doulas do not perform (and are not taught how to perform) any medical procedure, diagnostic or therapeutic, nor any nursing activity, such as taking a temperature, checking blood pressure, listening to the fetal or maternal heartbeat. Doulas do not make recommendations or diagnoses. Doulas are not allowed, let alone encouraged, to provide any medication to patients, whether allopathic, homeopathic or herbal. They are there to help women overcome the challenges of labor via physical and emotional support, not to interfere with medical practice. Doulas are prepared to help women and hospital staff by giving the mother-to-be and her partner a sense of calm and confidence during birth.

Numerous studies conducted in various countries show that when a doula is present, even epidurals become less frequent and less necessary, because the physical, emotional, psychological, and spiritual comfort doulas offer help the mothers to realize that the contractions are beneficial and thus to better cope with the pain. Doulas help mothers avoid both analgesia and cesarean sections by helping them find their inner strength. (The latest scientific evidence on the beneficial effects of doulas can be found in the Cochrane Library of Evidence-Based Medicine, and in the recommendations of the World Health Organization and the Ministry of Health of Brazil.)

It is important not to confuse the political ACTIVISM of doulas (and others who protest the objectification of women during labor and the massive overuse of interventions in hospitals) with doulas’ ACTIONS in providing childbirth assistance. It is not appropriate for doulas to express their opinions about medical topics while attending laboring women, nor to disregard the doctor’s authority or try to control the doctors or nurses. The labor room must not become a battlefield. Inside that room, doulas must be focused exclusively on the comfort and wellbeing of the laboring mother, and on working to ensure good communication between the pregnant couple and hospital personnel. They may conduct their ACTIVISM out there in the world, but never during labor.

What seems imperative now for the maturation of the doula profession in Brazil is to build a professional model and a national doula board for the whole country. This board should provide a Code of Ethics that specifies the doula’s scope of practice, and a set of guidelines for doula practice inside hospitals. As long as we have only separate individuals doing their best to support women in their own ways, we are not going to create a feasible system that provides a doula for every woman who wants one. We must work to make doulas welcome in hospitals, showing doctors and staff that they are not a threat to the work they are doing, but a help in their efforts. Many US hospitals have begun to welcome doulas because both nurses and obstetricians have found that the doula’s supportive presence lessens their workloads, freeing them to attend to other patients and other tasks. That’s the opportunity we have here in Brazil—to give women and babies the best of two worlds: the proven benefits of having a compassionate caregiver at the mother’s side during the challenges of childbirth focused only on helping and supporting her, and the help that medical technology and medical practitioners can bring for those who need it.

That’s the challenge, and doulas cannot meet it alone. They will need the help of humanistic doctors, interested nurses and well-informed couples. To change the way we are born is a huge social transformation that requires the participation of all individuals, because the changes we make at birth will ultimately change the world we all live in.

Ricardo Herbert Jones MD
Obstetrician, gynecologist, and homeopath
Author of Memoirs of the Man Made of Glass and Between the Ears: Stories of Birth (both in available only in Portuguese)
International speaker and teacher

Acknowledgement

I hereby express my profound appreciation to anthropologist Robbie Davis-Floyd for her extraordinarily helpful edits on the English version of this article.

Reference

Jones, Ricardo. 2009.  “Teamwork: An Obstetrician, a Midwife, and a Doula in Brazil.” In Birth Models That Work, edited by Robbie Davis-Floyd, Lesley Barclay, Betty-Anne Daviss, and Jan Tritten, pp. 271-304. Berkeley and London: University of California Press.

 Ricardo Herbert Jones
Obstetrician, gynecologist and homeopath
Professor invited in many doula courses in Brazil and Portugal
Writer of “The Memoirs of the Man Made of Glass” and “Between the Ears”
International speaker, with talks in many cities in Brazil and countries like USA, Mexico, Uruguay, Argentina, Portugal, UK and Bulgaria

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Nada é certo, apenas desejo e esperança. Depois dos marcantes acontecimentos ocorridos no dia 3 de fevereiro de 2013, quando mais de mil mulheres saíram às ruas para lutar pelo direito a ter uma doula no parto, minha preocupação continua intensa. A consolidação de uma agenda das doulas passa por um necessário amadurecimento. Esse processo pressupõe o reconhecimento do “outro”, quais sejam os médicos, os hospitais, as instituições e os demais atores do cenário do nascimento. Essa mobilização poderá produzir o fortalecimento das consumidoras, criando uma nova postura das USUÁRIAS (o único setor com potencial para produzir alguma mudança) e, a partir delas, a elaboração de um novo espaço de debate para a questão da assistência ao parto humanizado. A passeata das doulas, com sua exuberância, me encheu de felicidade, alegria, esperança e… dúvidas.

Eu continuo preocupado e angustiado com o que faremos após uma mobilização como essa. Por um acaso, eu havia acabado de assistir o filme “Os Miseráveis” (versão musical) no dia anterior à marcha, e as belas imagens e músicas continuavam em minha memória. Naturalmente tracei uma linha – com um pouco de criatividade e imaginação – que poderia unir as realidades aparentemente díspares de uma passeata contemporânea e de uma cena revolucionária do século XIX. Lembrei imediatamente da cena das “barricadas” que fecharam as ruas de Paris em 1830, no levante popular contra as Ordenações de Julho (Ordenanças de Julho), que suprimiram a liberdade de imprensa, dissolveram a câmara, reduzindo assim o eleitorado, anulando as últimas eleições e permitindo-se governar através de decretos. Algo muito parecido com a “proibição das doulas” em hospitais privados de São Paulo.

Pois o levante dos “citoyens parisien” foi determinado pelos acontecimentos violentos e descabidos produzidos por um governo alheio aos desejos de um povo faminto e necessitado. Entretanto, apesar do afã, do brio, da coragem e da força dos maltrapilhos combatentes, a luta contra as tropas leais ao Rei terminou como vimos no filme: todos morreram, dizimados por uma fraqueza que não imaginavam possuir. Sim, não havia estrutura, nem armas, nem pessoas, nem ativistas e nem um conjunto de ideologias sólidas e estruturadas para enfrentar – com propostas seguras e firmes – a reação dos conservadores. E a batalha das barricadas passou à história como um banho de sangue sem resultado positivo, a não ser a criação de maravilhosas canções, musicais da Broadway e candidatos ao Oscar.

É disso que tenho medo agora. Alguns hospitais – na melhor das hipóteses – poderão reverter suas posições e dizer: “Muito bem, mandem suas doulas.” E diante dessa oportunidade, que doulas mandaremos? Ativistas? Mulheres portando baionetas, cheias de ideias, conceitos tênues e enfrentamentos? Quanto tempo resistiremos a uma situação de constante embate, pela ameaça implícita que uma conduta belicosa pode gerar em hospitais acostumados ao poder magnânimo e inquestionável de uma corporação? Quanto tempo resistirão as doulas a uma perseguição sem trégua, de profissionais que se sentem constantemente ameaçados?

Não acredito na possibilidade de que as doulas entrem no caminho do nascimento para transformá-lo se não for com as ferramentas da doçura, da resiliência, da calma, da compaixão e da paciência. Sei da importância do ativismo, e faço coro às palavras de Sheila Kitzinger que dizia “Não é com tapinhas nas costas que faremos uma revolução social”. Entretanto, há o espaço do ativismo e o espaço da atenção, e esses campos distintos não podem se misturar na assistência, sob pena de produzirmos muito choro e ranger de dentes. Bradar por justiça, por mais correto que possa ser, não poderá servir de estopim para mais injustiça. Atirar para todos os lados, com o rubro a cobrir a esclerótica, pode sepultar por muitos anos os esforços de adicionar afeto e carinho no parto, através do trabalho das doulas.

Em referência às críticas a uma possível “intervenção das doulas” nas condutas médicas nas maternidades brasileiras, creio que é importante estimular uma reflexão sobre este tema e, a partir dela, melhorarmos o trabalho que estamos fazendo na formação e na utilização das doulas como grandes propulsoras da humanização do nascimento.

As doulas recebem treinamento de profissionais de saúde com larga experiência na atenção às mulheres gestantes. O foco do trabalho das doulas é a grávida, e não o parto propriamente dito. Elas não realizam (e não são instruídas para tanto) qualquer procedimento de caráter médico, diagnóstico ou terapêutico, e nenhuma ação de enfermagem, como verificar a pressão, escutar batimentos fetais, avaliar temperatura ou batimentos cardíacos maternos.

Doulas não estão autorizadas, muito menos estimuladas, a oferecer qualquer medicação às pacientes, seja esta alopática, homeopática ou fitoterápica. Elas são ajudantes da mulher e sua ação serve para auxiliá-las a vencer os desafios do trabalho de parto. Não cabe às doulas qualquer ação que se confunda com a prática médica.

Doulas são preparadas para auxiliar as mulheres, os médicos e os hospitais, oferecendo às gestantes e ao seu companheiro a necessária tranquilidade durante o nascimento. Doulas não interferem em condutas médicas e não fazem recomendações de caráter diagnóstico.

Por outro lado, inúmeros estudos comprovam que, quando a doula está presente, até mesmo as analgesias se tornam menos frequentes e menos necessárias, pois o aporte afetivo, psicológico, emocional, físico e espiritual que elas oferecem ajuda as parturientes a perceberem o sentido benéfico das dores pelas quais estão passando. Essa compreensão dos objetivos do processo de parto faz com que tais dores sejam suportadas de forma muito mais fácil, a ponto de dispensarem as analgesias e mesmo as cesarianas em muitas ocasiões.

É importante não confundir o ATIVISMO das doulas e de outros profissionais que atendem o nascimento – em função da objetualização de pacientes e do exagero no uso de intervenções durante o parto – com a sua AÇÃO durante a assistência ao parto. As doulas não “opinam” sobre temas médicos durante o parto, não dão orientações diagnósticas e não desconsideram a autoridade do médico. Como foi dito, sua ação é voltada exclusivamente para o conforto e o bem estar das mulheres. Elas não são “controladoras” do proceder dos profissionais; pelo contrário, estão agindo durante todo o tempo em que se encontram na atenção às parturientes para garantir uma boa comunicação entre elas e a equipe médica. Qualquer atividade de ATIVISMO poderá ser realizada em outros momentos de sua vida social, mas jamais durante o trabalho de parto.

Doulas são comprovadamente benéficas, em diversos estudos realizados em várias partes do mundo. Doulas são recursos baseados em evidências científicas atualizadas e tal comprovação pode ser encontrada na Biblioteca Cochrane, em determinações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Ministério da Saúde do Brasil.

O que parece imperativo agora é a construção de um modelo profissional e um conselho nacional de Doulas para todo o país. Este conselho deve fornecer um Código de Ética que estabeleça o âmbito específico de ação no qual as doulas vão atuar. Enquanto temos apenas indivíduos separados fazendo o seu melhor para apoiar as mulheres durante o parto, não teremos um sistema viável que forneça uma doula para cada mulher que assim desejar. Além disso, nós temos que fazer com que as Doulas sejam bem vindas aos hospitais, mostrando aos médicos e a todo o pessoal de suporte que elas não representam uma ameaça para o trabalho que eles estão realizando, mas uma ajuda em seus esforços. Essa é a grande oportunidade que temos de dar às mulheres e bebês o melhor de dois mundos: os benefícios comprovados de ter uma pessoa compassiva ao lado durante os desafios do nascimento, ao lado da ajuda que a tecnologia pode trazer para os que dela necessitam.

Esse é o desafio, e Doulas não pode fazer isso sozinho. Eles vão precisar da ajuda de médicos humanistas, enfermeiros interessados ​​e casais bem informados. Alterar a forma como nascemos é uma enorme transformação social que exige a participação de todos os indivíduos, porque as mudanças que fazemos no nascimento vão acabar por mudar o mundo em que vivemos.

Ricardo Herbert Jones

Obstetra, ginecologista e homeopata
Autor dos livros “Memórias do Homem de Vidro” e “Entre as Orelhas”
Professor convidado em dezenas de cursos de doulas no Brasil e em Portugal
Palestrante Internacional, tendo realizado palestras em várias cidades brasileiras, e países como Estados Unidos, México, Uruguai, Argentina, Portugal, Inglaterra e Bulgária

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The Aftermath of the Barricades

Creio que não há porque se interessar com a mera opinião que alguns detratores do movimento das doulas apresentam. Vejam bem… Se o título das matérias sobre este tema fosse “O problema das Doulas”, ou “Humanização e Doulas, conflito de interesses”, ou ainda “Doulas e o excesso de atores no parto”, eu até me informaria melhor para saber que tipo de argumentos poderiam ser apresentados (eu até teria argumentos razoáveis para combater as doulas…). Entretanto, o nome “As espertas da vez” deixa claro na primeira linha, que o texto é ruim, mal escrito, sem embasamento e se constitui apenas de uma grosseria em prosa, um xingamento sem substância e um simples extravasamento de indignação. Textos assim falam muito mais das frustrações e dificuldades do autor do que reais problemas relacionados às as doulas.  Por outro lado, eu me preocupo com o “aftermath of the barricades“, no dizer de Max.

Sim, temos dificuldades terríveis em fazer com que o modelo das doulas seja algo universalizado, exatamente porque muitos ativistas desreconhecem o “outro”. Ou seja: estão com tanta indignação que se esquecem de pensar em paralaxe, mudança de viés, empatia com a necessidade das instituições, etc. Por exemplo, pouca gente se preocupou em se colocar na pele de um administrador de hospital que recebe alguém que que se intitula doula e que não tem nenhuma condição emocional para estar numa sala de parto. Como saber se esta mulher, assim autodenominada, não é uma psicótica? E como ter garantias que ela vai se comportar educadamente, com respeito aos outros profissionais e com noções mínimas de ética e higiene? Quem se responsabiliza pelas doulas? Quem paga o pato se uma doula influenciar uma mulher a não ser operada (pois a doula “sabe” que não há necessidade) e o bebê não resistir? Existe algum órgão que as coordene, como um CRM, um conselho ou alguma instituição qualquer? Não, não existe, mas basta citar a necessidade de nos organizarmos em nível nacional para que algumas ativistas pirem, se enraiveçam, e coloquem toda a sua indignação contra os “médicos raivosos e grosseiros cesaristas, FDP, etc…”.

Parecemos as feministas da primeira hora. Os homens são o “mal” da humanidade. Estupradores, assassinos, violentos, agressores, violentadores de meninas. O “outro” era demonizado, como fazemos com os médicos, com boa dose de razão, mas inequívoco exagero. Precisamos de 40 anos de debates para entender que o patriarcado, a dominação masculina, não foi uma invenção dos homens, mas uma criação da sociedade, homens e mulheres. Estas últimas, beneficiárias milenares das benesses da alienação, somente agora despertam para a necessidade da participação e do protagonismo. No que diz respeito ao parto, somente agora uma parcela ínfimada sociedade começa a despertar para a importância do protagonismo feminino na sociedade, e no nosso caso em particular, no nascimento dos seus filhos.

Assim sendo, antes de atirar as pedras no modelo é fundamental entendermos o quanto somos partícipes de sua manutenção e disseminação, e ajudar a descobrir formas efetivas de modificá-lo. Abandonar as agressões, o revanchismo, o ódio e descobrir em conjunto uma solução para a inserção das doulas nos hospitais é um primeiro passo, mas não por isso menos importante.

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Barricadas

Nada é certo, apenas desejo e esperança. Depois dos marcantes acontecimentos ocorridos no último domingo, quando mais de mil mulheres saíram às ruas para lutar pelo direito a ter uma doula no parto, minha preocupação continua intensa. A consolidação de uma agenda das doulas passa por um necessário amadurecimento. Esse processo pressupõe o reconhecimento do “outro”, quais sejam os médicos, os hospitais, as instituições e os demais atores do cenário do nascimento. Essa mobilização poderá produzir o fortalecimento das consumidoras, criando uma nova postura das usuárias (o único setor com potencial para produzir alguma mudança) e, a partir delas, a elaboração de um novo espaço de debate para a questão da assistência ao parto humanizado. A passeata das doulas, com sua exuberância, me encheu de felicidade, alegria, esperança e… dúvidas.

Eu continuo preocupado e angustiado com o que faremos após uma mobilização como essa. Por um acaso, eu havia acabado de assistir o filme “Os Miseráveis” (versão musical) no dia anterior à marcha, e as belas imagens e músicas continuavam em minha memória. Naturalmente tracei uma linha – com um pouco de criatividade e imaginação – que poderia unir as realidades aparentemente díspares de uma passeata contemporânea e de uma cena revolucionária do século XIX. Lembrei imediatamente da cena das “barricadas” que fecharam as ruas de Paris em 1830, no levante popular contra as Ordenações de Julho (Ordenanças de Julho), que suprimiram a liberdade de imprensa, dissolveram a câmara, reduzindo assim o eleitorado, anulando as últimas eleições e permitindo-se governar através de decretos. Algo muito parecido com a “proibição das doulas” em hospitais privados de São Paulo.

Pois o levante dos “citoyens parisien” foi determinado pelos acontecimentos violentos e descabidos produzidos por um governo alheio aos desejos de um povo faminto e necessitado. Entretanto, apesar do afã, do brio, da coragem e da força dos maltrapilhos combatentes, a luta contra as tropas leais ao Rei terminou como vimos no filme: todos morreram, dizimados por uma fraqueza que não imaginavam possuir. Sim, não havia estrutura, nem armas, nem pessoas, nem ativistas e nem um conjunto de ideologias sólidas e estruturadas para enfrentar – com propostas seguras e firmes – a reação dos conservadores. E a batalha das barricadas passou à história como um banho de sangue sem resultado positivo, a não ser a criação de maravilhosas canções, musicais da Broadway e candidatos ao Oscar.

É disso que tenho medo agora. Alguns hospitais – na melhor das hipóteses – poderão reverter suas posições e dizer: “Muito bem, mandem suas doulas.” E diante dessa oportunidade, que doulas mandaremos? Ativistas? Mulheres portando baionetas, cheias de ideias, conceitos tênues e enfrentamentos? Quanto tempo resistiremos a uma situação de constante embate, pela ameaça implícita que uma conduta belicosa pode gerar em hospitais acostumados ao poder magnânimo e inquestionável de uma corporação? Quanto tempo resistirão as doulas a uma perseguição sem trégua, de profissionais que se sentem constantemente ameaçados?

Não acredito na possibilidade de que as doulas entrem no caminho do nascimento para transformá-lo se não for com as ferramentas da doçura, da resiliência, da calma, da compaixão e da paciência. Sei da importância do ativismo, e faço coro às palavras de Sheila Kitzinger que dizia “Não é com tapinhas nas costas que faremos uma revolução social”. Entretanto, há o espaço do ativismo e o espaço da atenção, e esse campos distintos não podem se misturar na assistência, sob pena de produzirmos muito choro e ranger de dentes. Bradar por justiça, por mais correto que possa ser, não poderá servir de estopim para mais injustiça. Atirar para todos os lados, com o rubro a cobrir a esclerótica, pode sepultar por muitos anos os esforços de adicionar afeto e carinho no parto, através do trabalho das doulas.

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Ventre Fechado

Apesar do ativismo pela humanização do nascimento, e da luta para que as mulheres tenham autonomia e liberdade para fazer escolhas informadas sobre sua maternidade, eu ainda creio na existência de “distócias psi”, como diz o Max. Digo isso porque eu mesmo testemunhei vários casos em que os obstáculos para a concretização de um nascimento estavam profundamente alocados nos porões obscuros do inconsciente. Tais distócias podem ser entendidas por bloqueios psicológicos que dificultam – ou até mesmo impedem – o trabalho de parto e o parto.

Ora – dirão os incrédulos – então como as mulheres davam conta dessas distócias no século XVI, já que tais transtornos devem acompanhá-las desde o início dos tempos humanos?

Como seriam os transtornos que se imiscuem nas circunvoluções de afeto, escondidas entre as orelhas , no século XVI? Ou nas imemoriais épocas das cruzadas, entre as populações indígenas (algumas contemporâneas) ou na aurora das civilizações? Talvez se resolvessem da forma mais brutal possível: uma força de nascer sendo contraposta por um muro de músculos e medos a travar o processo. Por outro lado, é possível que tais transtornos fossem tão incomuns no passado que seria pouco comum deparar-se com eles. Eu acredito que o parto é uma expressão do tempo e da latitude, encravado na história e na geografia dos povos. Creio mesmo que tais distócias são produto da cultura, criadas e nutridas por um modelo bem determinado no tempo e no espaço, que funciona para sustentar os valores inconscientes que essas sociedades, por interesses variados, cultivam.

Tais variações culturais explicam porque na antiguidade as deusas eram onipresentes nas manifestações artísticas, incluindo extensa iconografia da amamentação, mas foram paulatinamente substituídas por outras imagens, mais afeitas aos valores e as nuances políticas preponderantes. Hoje em dia, no império da infotecnocracia, os valores humanos e a superação de nossas dificuldades só podem ocorrer pela via da tecnologia. Desvalorizam-se as conquistas femininas de gestar e parir, consideradas pelas sociedades modernas como um “masoquismo insensato e atrasado”. Entretanto, o parto, a amamentação e a maternagem são percorridos por um fio invisível que os conecta, naquilo que chamamos do “continuum da humanização“, onde intrincados processos psicológicos, afetivos, químicos, físicos e até bacteriológicos participam de uma orquestração milenar de adaptação.

Ao mudar de forma atabalhoada tal arquitetura podemos produzir traumas ainda não suficientemente estudados pelas ciências humanas, mas que já são percebidos pelos ficcionistas e poetas. Mesmo reconhecendo a possibilidade de que algo por demais violento ocorra “entre as orelhas” a ponto de impedir um nascimento, lutar para que os partos ocorram de forma espontânea e fisiológica é oferecer as melhores garantias para que um bebê chegue a esse mundo com segurança.

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“Menas Main”

O debate acirrado e, por vezes áspero, sobre “cesariana x parto normal” nunca vai morrer enquanto nascimento for uma clara e evidente manifestação da sexualidade feminina. Expressão do erotismo feminino, o nascimento guarda com a prática sexual relações emocionais, psicológicas, afetivas, físicas, hormonais e até espirituais. Exatamente por não ser uma questão restrita às variantes médicas e de segurança é que as mulheres se digladiam – as vezes de forma deseducada – sobre a questão do parto e suas opções. Nunca se estabelece um debate racional; ele é sempre carregado de afeto – e raiva, remorso, tristeza também são afetos. Sabemos que não é admissível, numa perspectiva subjetiva, julgar as escolhas de cada mulher sobre a sua sexualidade. Nenhuma mulher é menos mulher por namorar outra mulher, ou por se casar com um russo ou japonês, e isso nos parece bastante claro. A liberdade de fazer escolhas se expressa tanto nas suas opções amorosas quanto no nascimento de seus filhos.

A piada em questão aborda uma crítica (sim, mas em forma de humor) contra um modelo, um paradigma, que dificulta e até mesmo impede a livre expressão da sexualidade no nascimento (o parto normal) e oferece a elas como única opção digna a cesariana “salvadora”. Não é uma crítica contra as mulheres que, por uma razão ou outra, fazem escolhas sobre seus partos. Negar à elas a possibilidade de escolher é que é o verdadeiro crime, mas poucas mulheres se aventuram a falar sobre isso, e preferem desfiar justificativas intermináveis. O problema para mim nunca foi mulheres escolherem cesarianas (ou escolherem outras mulheres para amar, ou estrangeiros…) mas quando essa é a única opção digna que se lhes oferece!!!

Da mesma forma, se a heterossexualidade fosse a única opção digna para o encontro amoroso (e há pouco tempo era visto assim…) eu estaria levantando bandeiras para que as mulheres pudessem amar quem realmente desejassem. Se o parto normal fosse imposto às mulheres eu também sairia às ruas como defensor das escolhas informadas. Infelizmente o que se lê nos debates sobre a cesariana ainda é a ladainha chata do “menas main” e as explicações enfadonhas para cesarianas realizadas, na sua maioria injustificáveis à luz da MBE (Medicina Baseada em Evidências).

E, de uma forma mais intensa e clara nos últimos anos, testemunhamos o fato de que as evidências científicas provando a superioridade inquestionável do parto normal sobre a cirurgia cesariana incomodam cada vez mais as consciências. Antes ainda era comum – e até aceitável – dizer: “Fiz, sim, essa escolha e não me arrependo“. Hoje em dia, com a avalanche de pesquisas provando os malefícios da cesariana (principalmente as com hora marcada) está quase impossível continuar sustentando essa afirmação.

E viva o humor, que nos oferece a oportunidade de falar dessas questões enquanto esboçamos um sorriso especial; aquele que damos ao rir de nós mesmos.

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Responsabilidades

Mostrar a verdade não é a mesma coisa que empurrar a “sua” verdade goela abaixo para que as pessoas ao nosso redor sejam obrigadas a digeri-la. Como diria a minha mãe, a verdade pode ser “exposta”, mas jamais “imposta”. Assim sendo, concordo com a necessidade de respeitar as mulheres que realizaram cesarianas, principalmente naquelas cirurgias que aparentemente não possuem indicação clínica, levando em consideração a visão de mundo das mulheres que se submeteram a ela. Entretanto, acrescento que tais elementos – a liberdade e o tempo do outro – não podem nos impedir de falar e expandir a nossa visão sobre o abuso de cesarianas.

Eu prefiro dizer que todos nós, sem exceção, somos responsáveis pelas cesarianas desnecessárias que ocorrem no mundo, seja por uma postura pouco científica e/ou egoística, seja por inação diante das evidências que nos mostram as vantagens do parto normal. Portanto somos (nós, humanidade), sim, responsáveis pelas mazelas que ainda ocorrem no mundo, até pelos estupros e pelos genocídios. Isso não é o mesmo que ser “culpado” por isso. Se imaginarmos uma menina que sai à noite, de minissaia para uma festa na periferia, eu duvido que alguma mãe de adolescente em face dessa situação não diria: “Minha filha, você está oferecendo graciosamente uma oportunidade à manifestação da perversão de alguém“. Silenciar diante dessa evidência (de que existem perversos e que eles eventualmente cometem estupros) nos torna conectados ao crime, mesmo que de forma indireta e involuntária. Tais mães não são as culpadas do crime, mas pecaram pela falta de prevenção. Quando uma mulher nos diz “Estou consultando com meu médico e ele disse que se tudo der certo será parto vaginal” – e sabemos a fama cesarista do dito profissional – estaremos na mesma situação da mãe que resolveu silenciar.

Como diria Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos (mas há controvérsias quanto à origem dessa expressão), “O preço da Liberdade é a eterna vigilância“. O preço da humanização do nascimento é estar eternamente vigilante com as pressões econômicas e corporativas que colocam o nascimento a serviço de outras forças. Enquanto houver seres humanos, constituídos na infinita diversidade de estruturas psicológicas, haverá a necessidade de nos protegermos da maldade e da perversão. Infelizmente, não há como abandonar a vigilância. Por sua vez, enquanto houver chauvinismo e o desejo de controlar as mulheres, bloqueando a natural criatividade de seus corpos, haverá a necessidade de protegê-las e vigiar as tentativas de subjugá-las. Parir naturalmente ainda é uma batalha árdua, mas já foi ainda mais complexa. Hoje temos ferramentas que no passado não possuíamos, como esta (a internet). Tenho a esperança que no futuro a naturalidade do parto e da amamentação serão incorporadas à atitude de todos os povos, e uma cesariana desnecessária será tão mal vista como jogar no chão um papel de bala numa cidade que todos tentam manter limpa.

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Brilhar ou Refletir

Minha mãe sempre dizia que as “palavras carregam energia”, mas Freud já dizia isso antes dela. As palavras desnudam nossos conceitos, que por sua vez modulam nossas atitudes. Quando, mesmo há muitos anos durante a residência, um colega me dizia que havia “feito cinco partos no último plantão” aquilo me informava de forma muito clara como era o específico olhar desse profissional sobre seu trabalho. Uma das questões mais delicadas sobre o ofício das doulas (mas também funciona sobre o trabalho de parteiras e médicos) se relaciona com o protagonismo dos profissionais no cenário do parto. Eu conheço muitas doulas que falam exatamente isso que foi dito aqui em cima: “minhas mãezinhas”, “minhas barrigas”, etc., e isso me parece uma necessidade (absolutamente humana, por certo) de ser protagonista do evento, junto com a mãe. Mesmo entendendo essa necessidade eu acredito que tais questões devem ser educadas e controladas em todos aqueles que trabalham com nascimento humano.

Max sempre me disse que “parteiros não devem ser os que brilham, mas os que refletem a luz”. Portanto concordo plenamente com a ideia de que precisamos nos educar para uma essencial humildade sobre nosso papel como cuidadores do parto. E gosto de pensar que quando brilhamos demais sempre é à custa de um desaparecimento da luz que emana de quem está parindo. Claro que muitas vezes o protagonismo dos profissionais é necessário, como no caso de uma medicação adequada ou uma cesariana salvadora. Entretanto, tal expropriação pode ocorrer de forma abusiva, como a alienação que brota de uma cesariana desnecessária e as consequências funestas que ela pode trazer para uma mulher que realmente deseja parir, mas também pode ser através de uma palavra mal colocada que, mesmo sutilmente, desloca a gestante do centro de nossas atenções, retirando dela a liberdade e o poder de tomar decisões.

Por parte dos profissionais de saúde ocorre uma intromissão (sempre bem intencionada, por certo) numa relação que apenas se inicia: a família que se forma em frente aos nossos olhos. Para além das questões relacionadas com a mãe, a construção da paternidade é ainda mais delicada do que a da maternidade, porque nossa (masculina) participação (ao contrário da materna) é dispensável e (portanto) frágil. Dessa forma, por nos faltar a materialidade visceral dessa ligação, ela precisa ser construída pelas palavras. Entretanto, muitas vezes os profissionais de saúde – que deveriam ser elementos facilitadores dessa ligação – funcionam como os principais obstáculos para a elaboração da conexão pai-filho. Se essa intromissão é ruim para a mulher, deslocada do centro das decisões, para o pai pode ter um efeito decisivo e dramático, que poderá se tornar o capítulo final de um afastamento que talvez nunca mais possa ser consertado. Nós, os profissionais da saúde, nos encontramos exatamente no vértice dessa encruzilhada, e temos a possibilidade de levar nossos clientes a uma experiência positiva de ligação afetiva. Todavia, nossas atitudes e nossas palavras podem se tornar desastrosas e produzir marcas profundas de afastamento.

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Violências Dissimuladas

O homem se distingue dos outros animais por ser o único em que a violência que pratica pode ser escondida, escamoteada e não percebida. Para um leão, um macaco, um rinoceronte, uma mordida é uma mordida, uma patada é uma patada. Já entre nós, ditos humanos, a violência pode ser praticada ao extremo sem que seja necessário levantar um dedo. As violências institucionais, principalmente no que diz respeito ao parto, se enquadram entre as “agressões invisíveis” nas sociedades contemporâneas. Pior: ao não marcarem o corpo elas se direcionam diretamente à alma, e lá, nos movimentos obscuros do inconsciente, elas crescem, se transmutam, se agrandam e ferem. Tal qual um cravo inserido na carne, as memórias tristes dos abusos, humilhações e maus tratos cometidos no nascimento permanecem por anos a gerar tristeza e ressentimento. “Violência no parto” é um dos piores tipos de agressão contra a mulher, pois as feridas que aí são geradas se mantêm até o fim da vida.

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Nascer na Bulgária

Para quem quiser como é a assistência ao parto na Bulgária, o texto abaixo foi enviado a mim pela minha colega parteira Olga Ducat, de Sófia. Existem dados bastante interessantes, como a queixa sobre a rudeza na atenção às gestantes, o número crescente de partos desassistidos, a extrema medicalização dos nascimentos e a proibição de partos domiciliares (até agora, mas depois do julgamento da corte dos direitos humanos da Comunidade Europeia as coisas tendem a mudar). 

BULGÁRIA

General data

A small country by the black sea.
Democracy since 1994.
The population of Bulgaria is about 7.494.000 inhabitants
Babies born per year (2010): 76 000
There are about 130 maternity wards
There are no birth centers
The title “Baby-friendly hospital” is awarded to 12 hospitals.
Maternal mortality rates  – 13 per 100 000 (2008)
Infant mortality rates – 11.0 (2010)
Neonatal mortality rate – 7 (2010)

Pregnancy Care

The standard pregnancy care covered by national health insurance includes 9 free visits, some basic blood and other tests, and 2 ultrasounds – one during the first trimester and one between 16-20 weeks. Most women prefer to visit an ob-gyn during pregnancy but there is an option to visit a GP – some GPs implement the obligatory program “Maternity care”. However, many pregnant women choose to visit private consultancies despite the high expenses because of the special attention they are hoping to get. There is no practice for the obstetrician who takes care of you during pregnancy to attend your birth. Most obstetricians who work in hospitals also have private practice. So women who want a particular obstetrician to attend their birth are often forced to visit their private consultancies as well. Many women combine regular and private pregnancy care and visit two obstetricians in order to be sure that everything is all right. Every visit in a private consultancy includes ultrasound.

Preparation for birth

Some hospitals organize birth preparation courses or single lectures by a midwife or an obstetrician. The majority of hospitals have open door days once a month when future parents can see the delivery room, the neonatal ward, the rooms and ask questions. There are also privately run childbirth classes but most of them do not really inform women, they rather make them “fit into the system”. They describe the routine medical interventions but do not discuss their necessity or risks. There are also alternative childbirth classes – with focus on the normal physiology of birth, hormones during labour and delivery, alternative pain relief methods, routine hospital medical interventions and their risks, how to prepare your birth plan, how to communicate to the hospital personnel, etc. A lot of centers organize prenatal yoga or gymnastics.  More and more women inform themselves from books and the internet.

Birth place

With very little exceptions all women in Bulgaria give birth in hospitals. Homebirth is not regulated by Bulgarian law. There are no birth centers. There are only 3 hospitals in the country where water birth is available and there are very few doctors trained to attend water births.
The majority of hospitals charge for additional services such as birth in a private VIP delivery room, choosing a medical team, presence of the father. The cost of birth with the above extras exceeds the average monthly salary in Bulgaria.

There is a public and a private system. It is normal to pay in the public system too, under the table to doctors and midwives. By law you are entitled to have a person with you at birth, but many times you have to pay for that too.

The informed consent

The informed consent form includes description of the routine interventions that could be performed during birth, but the risks are not mentioned. Often there is no additional explanation by the personnel. Usually the woman signs this form while being admitted into the maternity ward when she has contractions and is unable to concentrate on the text. She can refuse signing the document, but it is very likely that this will affect negatively the personnel’s attitude. Birth plans are not commonly practiced yet. Parent attempts to make demands are usually not received well and they are often disregarded.

Interventions

Childbirth in Bulgaria is extremely medicalised. Most people only make a distinction between cesarean and “normal” birth and a lot of women don’t even realize they have another choice. On the basis of anectotal evidence from women birth stories there is practically no natural birth without interventions.

The cesarean rates are constantly growing in the last years. According to the WHO data base the cesarean rate in Bulgaria in 2002 is 17%. In 2006 the rate is 24% (from 73 978 births more than 18 000 of them are c-sections). The official cesarean rate in the 3 major hospitals in Sofia is 45%, in private hospitals it is even higher.

Midwives

Number of midwives – 3401 (2007)
Number of obstetricians/gynecologists -1356 (2007)

Midwifery has a longstanding tradition. The first midwives were taking their education in Saint Petersburg, at a school that was made after the Dutch model in the 18th century. Midwifery was given till the socialist regime was ending the home birth and every woman was giving birth in hospital setting. Midwives were no longer a freestanding professional but the assistant of the obstetrician. There was no midwifery organization till 2011.

Midwives were supposed to be member of the medical care givers organization. An organization, that only looks after the institutionalized caregivers interests.

Midwifes in Bulgaria are very dependent on the doctors, in fact they play the role of obstetric nurses. They are not allowed to work independently. Every birth in a hospital must be attended by an obstetrician. Compared with the obstetricians their salaries are extremely low.

Doula

The first Bulgarian doula started working in Sofia in the end of 2010. At the moment there are about 50 doulas in a process of a certification. 3 doula workshops were organized – one of them by DONA International, and two by European Perinatal School.

A lot of medical professionals have negative attitude to doulas. Another problem is that if you want to have a companion during birth, in the majority of hospitals you have to arrange an individual delivery room and to pay for all the VIP services. This is not accessible for most of the women. Besides that the attendance of more than one companion is not advisable/not allowed in most of the hospitals, so the woman has to choose between her partner and doula. Doulas usually charge about 100-150 EUR for their services.

Homebirth

Home birth was forbidden till Bulgaria became member if the EU and the directives can be mentioned. In fact it is not regulated by Bulgarian law and it is hard to find a doctor or a midwife who would attend homebirth. This stops mothers who would like to give birth at home. The idea of homebirth itself is revolutionary for Bulgaria; most people consider it terribly irresponsible, bordering on insanity.

The main arguments of doctors against homebirth are undeveloped infrastructure, heavy traffic and the impossibility to take the necessary equipment into the house. However there is an interesting tendency in the last few years – the number of planned unassisted homebirths has increased. The difficult situation in hospitals, the routine interventions and the rude attitude of the personnel force some parents to make this choice. Usually they inform themselves from the internet and order literature and home birthing sets from abroad. These births are usually assisted by the father. Sometimes doulas attend such births.

Women are very active for their rights in Bulgaria and are many times in the public eye with claims for change.

Postnatal care

After discharge from hospital the mother and the newborn are visited by a pediatrician (the baby’s GP). They do a routine check up of the baby and offer advice about breastfeeding and how to care about the baby. (Usually the recommendation is breastfeeding on a 3 hour schedule). Two weeks after birth they usually weigh up the baby in the pediatricians consulting room, after that the mother and baby attend monthly pediatric appointments. There is a postnatal gynecological appointment for the mother 6 weeks after delivery.

Breastfeeding and maternity leave

The situation with breastfeeding in Bulgaria is changing for the better during the last years. Some hospitals already have breastfeeding support consultants.

As of January 2009 mothers in Bulgaria receive 90% of their salary during the first year of their maternity leave. The law allows 2-hour paid leave within the working day to breastfeed the baby until 8 months old and 1 hour on prescription after that, but very few women are aware of this possibility.

Olga Ducat, Sófia – Bulgária

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