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Armadilha

Hoje tive que me afastar de uma ex-amiga, defensora da “nova era”, daquelas ligadas às “deusas”, ao “sagrado feminino”, à “liberdade” e contra a “opressão dos homens”. Tenho para mim que muitas destas mulheres são o contraponto feminino dos ativistas chauvinistas da extrema direita. Não todas, por certo, mas muitas delas têm o mesmo discurso excludente dos mais arraigados defensores do machismo. A briga surgiu por um texto que mostrava uma mãe e uma filha usando burcas e dizendo que estas mulheres deveriam ser resgatadas da opressão que sofrem em suas culturas. No texto a autora tratava de forma profundamente ofensiva as mulheres muçulmanas, mas com uma pegada “patronizing“, tratando-as como coitadinhas, indefesas, frágeis e submissas, mostrando um profundo desconhecimento do mundo islâmico. Como eu disse anteriormente, o interesse era mostrar que as mulheres no ocidente, apesar da opressão que sofrem, estavam protegidas por uma cultura superior e democrática. Puro suco de orientalismo.

O texto era uma colcha de retalhos de clichês islamofóbicos e etnocêntricos. Entre tantas pérolas de misandria, sobressai a frase que mais me irritou: “Todos sabem que as mulheres maduras são as legítimas condutoras da civilização”. Ou seja, a condução da civilização não será feita pelos humanos, pelos cidadãos, pelos membros de uma sociedade (de preferência os mais aptos e capazes), os políticos ou os sujeitos mais votados em eleições livres. Não… será feito por mulheres maduras. Para a autora existe um gênero que é mais competente e mais capaz de comandar uma sociedade, e com mais sabedoria. Sim, poderia ser uma cor ou uma religião, mas neste caso foi um gênero (e uma faixa etária). Acham exagero? Então façam o exercício de trocar o gênero e me digam como classificariam esta frase: “Todos sabem que os homens maduros são os legítimos condutores da civilização”. Machismo que chama não? Como devemos considerar as pessoas que acreditam que as mulheres são mais capazes do que os homens para controlar a cultura, a política e a sociedade como um todo? Se condenamos manifestação de supremacismo do gênero masculino (machismo), da cor da pele branca (racismo) e da orientação sexual heterossexual (homofobia) porque deveríamos aceitar um texto que exalta a pretensa superioridade moral de um gênero sobre outro?

“Ahhh, mas e os 80 séculos de machismo”… “isso é mimimi de macho”…. “male tears”, etc. Pois eu apenas digo que se as mulheres realmente esperam que os homens lutem contra os desníveis criados pelo modelo patriarcal devem abandonar um discurso supremacista e preconceituoso. Porém, isso não foi o pior. O que me deixou profundamente preocupado com o debate com esta senhora, foi o fato de que o texto era evidentemente uma isca para capturar um tipo de personagem clássico das redes sociais: pessoas que desejam lutar contra o patriarcado mas acreditam que o alvo são os homens – e não o sistema. Uma coisa chamou à atenção logo de início: o texto foi escrito por uma tal de “Anna Park”, um nome tão genérico quanto Maria Souza. Tudo leva a crer que seja um texto apócrifo, escrito por AI, cujo único objetivo é estimular a ideia de uma distância civilizacional entre nós e o Oriente. A disseminação desse tipo de lixo, que visa capturar mentalidades identitárias que seriam simpáticas à pauta das mulheres islâmicas, nada mais é que uma armadilha imperialista cujo objetivo é desviar a atenção do público – em especial as mulheres – do massacre e da carnificina que está sendo realizada na Palestina. Não só isso, mas também para preparar o terreno para uma futura guerra contra os “bárbaros e infiéis”.

O texto, em última análise, quer estimular a desumanização dos árabes e muçulmanos, para que futuras bombas atômicas no Oriente Médio sejam vistas como uma forma de salvar mulheres, gays, trans e vegetarianos da cultura depravada que os oprime. Não sejam ingênuos: este tipo de discurso correu livre na primavera árabe, no golpe frustro na Praça da Paz Celestial e no Irã. É por esta fresta cultural que o imperialismo vai atacar, mas não deveria causar espanto que as mulheres, gays, negros, indígenas serão – mais uma vez – massa de manobra do imperialismo, produzindo uma cortina de fumaça das verdadeiras razões das guerras que estão destruindo o planeta. “É pelo petróleo, seus tolos”, não pelo tamanho da saia, casamento gay, visibilidade negra e pronomes!!! É preciso combater frontalmente este tipo de armadilha das redes, que usam mentes frágeis e compassíveis para dourar a pílula amarga da submissão à ordem imperialista

E vejam, não me cabe tratar de questões particulares; cada um sabe a flor e a cruz que carrega, mas posso entender o que significa um choque cultural. Imagino como seria há 100 anos, antes da Terra se tornar uma aldeia global, se eu fosse me relacionar com uma mulher de uma cultura onde os relacionamentos são, como regra, abertos. Como eu me sentiria? Seria injustificável meu desconforto? Estaria ela errada? E se eu fosse visitá-la em casa e todos de sua família estivessem nus, como indígenas? Seriam eles todos depravados? Estaria errado na minha surpresa? Compreendo o quanto os atritos entre diferentes culturas podem ser complexos, mas prefiro sempre adotar uma posição de relativismo cultural. O etnocentrismo, e o olhar de censura das populações europeias aos povos colonizados, levou a muitos genocídios. Respeitar – mesmo sem concordar!!! – com as posições divergentes é sinal de maturidade, tanto de sujeitos quanto de culturas. Desta forma, é necessário respeitar todas as culturas em qualquer circunstância, o que não significa que não seja necessário debater, questionar, criticar e mesmo condenar as culturas onde a plenitude dos direitos humanos não são obedecidos.

Façamos um exercício: pode o seu corpo ser comandado por alguém além de você? É lícito que alguém esteja no controle dele, acima de sua vontade? Então, partindo desse princípio, deveríamos invadir países onde o aborto é condenado e as mulheres presas? Deveríamos atacar países onde a monogamia é a norma? Ou deveríamos esclarecer os homens e as mulheres das vantagens de um sistema mais libertário? O drama dessa questão do comportamento, em especial a sexualidade, é que ela é usada como bandeira para o imperialismo. Esse é o grande risco!!! Não é por outra razão que os movimentos identitários são mal vistos em muitos países, como na Rússia, por exemplo. Ora, os russos não tem nada contra a orientação sexual de alguém, tanto quanto nós, mas sabem que estes movimentos são utilizados como ferramentas pelo Império para desestabilizar a cultura e o poder político.

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Mediocridade

Meu pai certa vez me contou que estava numa fila de banco e pode observar uma cena curiosa. Claro, isso ocorreu na época em que as pessoas frequentavam agências bancárias para sacar dinheiro vivo, pagar suas contas, falar com o gerente, etc. Enquanto esperava sua vez de ser atendido, ficou por alguns minutos observando as expressões faciais da moça que atendia no balcão. Claro, isso aconteceu algumas décadas antes da criação do celular. As expressões da jovem bancária variavam da quase absoluta inexpressividade até o sorriso aberto e incontido. Ele, então, se deu conta que a reação da moça era modulada pela pessoa a quem atendia: quando era um homem feio ela se mantinha sisuda, mas diante de um homem muito bonito e jovem, ela se tornava a “moça dos sorrisos”, e se tornava solícita e afável.

Por certo que sua reação era instintiva e automática. Não haveria como – e nem porquê – ser mais atenciosa ao entregar um envelope de dinheiro para um cliente esperando algo em troca. Não, sua ação não tinha interesses objetivos, era tão somente sua resposta natural a um estímulo. O estímulo, para ela, era a beleza das pessoas com quem interagia, em especial os rapazes. Meu pai repetiu a observação pelo tempo em que ficou na fila e viu o quanto era evidente essa conexão.

Diante disso discorreu sobre o quanto era vantajoso para um sujeito ser bonito. Por certo que tal valor ainda era mais importante para as mulheres, pela estrutura patriarcal que sustenta nossas sociedades. Fosse um jovem bancário e talvez a reação à beleza das clientes seria ainda mais evidente. De qualquer forma, muitas portas se abrem à beleza, e não há como duvidar disso. Num mundo visual e guiado pelo desejo, a atração sexual cumpre uma função primordial na relação que estabelecemos com os outros, mesmo que estes sentimentos corram por trás da cortina do meramente manifesto ao olhar.

Por outro lado, a beleza e muitos outros talentos – e mesmo a riqueza – também fecham portas. Lembro de uma vez que fui ao casamento de uma paciente e houve um recital, onde um tenor, com raro brilhantismo, cantou uma ária de ópera. Fiquei encantado com a apresentação e sussurrei para Zeza “Queria poder cantar assim”, ao que ela respondeu: “Se você cantasse assim, teria que deixar de lado muitas outras coisas na sua vida. Estaria preparado?”. Ela insinuava que um talento assim teria a possibilidade de eclipsar outras virtudes que porventura pudessem existir. O mesmo ocorrem com aqueles cuja fortuna, beleza e charme hipnotizam e magnetizam todos à sua volta: para que investir na cultura, no conhecimento e na sua formação pessoal se o mundo já está aos seus pés pelo seu dinheiro, sua formosura, seu charme e sensualidade?

Essas conversas do passado me tornaram um apologista da mediocridade. Hoje eu valorizo sobremaneira o sujeito mediano, porque ele não se ocupa em investir em um talento isolado. Sua condição média o faz se esforçar tanto em ajeitar seu pouco cabelo e fazer uma dieta quanto ter algum conhecimento, leitura e formação para não dizer tolices. O sujeito mediano é totipotencial; o superdotado ou milionário é manco, pois seu talento especial, via de regra, atrofia suas outras possibilidades de expressão. Por isso vemos tantos milionários arrogantes, tantas modelos incultas e esnobes e tantos homens bonitos e vazios.

O sujeito que mais aproveita a vida é o que se equilibra entre suas faltas e suas habilidades. Talvez não seja o mais útil, pois crescemos através da beleza das formas e da genialidade de alguns, mas certamente é o mais equilibrado. Se me fosse permitido escolher um perfil para uma próxima vida seria bem claro: me livrem da exuberância das formas, da beleza estonteante, da abundância obscena de riqueza, do conhecimento de uma única especialidade na infinidade dos saberes ou do carisma arrebatador. Por mais que sejam chamativos e sedutores, eles são verdadeiros fardos a carregar pela vida.

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Sintomas nas esquinas

Em uma das esquinas mais nobres – e caras – da cidade de Porto Alegre será inaugurado um dos símbolos mais emblemáticos da sociedade do capitalismo tardio: uma farmácia.

O que se pode pensar de uma sociedade onde, em cada esquina, das mais simples às mais nobres, se ergue impávido um ponto de venda de drogas? Que sinalização isso dará aos escafandristas de um futuro distante, quando mergulharem no oceano quente dos nossos valores mesquinhos? Que dirão os paleontologistas intergaláticos ao constatar que nossa sociedade precisava se drogar para suportar a carga que a vida cotidiana propiciava? Que acharão os sábios de um futuro não tão distante sobre a nossa vinculação às soluções exógenas para os dramas da alma?

Essa epidemia mereceria uma análise mais profunda, mas parece evidente que, se acreditarmos que uma sociedade é um organismo vivo, formado de células – que somos nós – esse fato social é um sintoma local de uma enfermidade sistêmica, uma nódoa, uma mancha, um cancro. Todo tumor é a tentativa desesperada que o organismo encontra para circunscrever o mal que ameaça a totalidade da economia orgânica. As farmácias e as “academias” – outra proliferação acelerada na tessitura das cidades – são a tentativa frustra que o “organismo social” encontra para remediar o desacerto crônico que ataca a sociedade. Por um lado oferecem uma gama enorme de bengalas e lenitivos para aliviar as dores causadas por uma construção social injusta e malévola; de outro lado, as academias nos cedem o sonho de mudar as formas, imaginando que, assim modificadas, elas transformarão o conteúdo.

Por que tantos sedativos, estupefacientes, calmantes, analgésicos e remédios anti-vida? Quem saberá encontrar o amor que outrora existiu, se nas ruínas dessa civilização apenas encontrarem nossa vã tentativa de afastar a dor? Quem vai decifrar os hieróglifos sinistros da tristeza estampada nos rótulos dos remédios? Os analistas do futuro terão um rico e vasto material para entender o que nos movia, se é que sobrará algo para ser decifrado.

“Os historiadores em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigos sintomas
Fragmentos de receitas, queixas
Mentiras, relatos e dores
Vestígios de estranha civilização.
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Doutores serão sempre amáveis
Futuros doentes, quiçá
Adoecerão sem saber
Com a dor que eu um dia
Deixei pra você”

Grato, Chico

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Silvio Santos

É curioso como a postura do esquerdismo em relação à morte do Silvio Santos cumpre o mesmo roteiro dos ataques à todas as celebridades: usam a as pequenas falhas humanas do personagem e negam a importância de sua obra. É como se dissessem: “Você errou por não ser o sujeito perfeito que existe dentro da minha cabeça, e por isso jamais será perdoado”.

As queixas são sempre ligadas às questões pessoais, aquilo que no sujeito ataca suas feridas subjetivas. O rei do futebol não foi perdoado por mulheres cujo pai igualmente não cumpriu seu papel com elas. Silvio Santos, o rei da comunicação, fazia piadas de “tiozão do pavê”, e não era aceito, mas esquecem que essa era a cultura da época. Sim, teve falhas terríveis, e tinha também os erros comuns da sua época, mas era o estereótipo do comunicador, e do vendedor impecável. Entretanto, durante décadas trouxe alegria para as camadas mais pobres da população com seu programa de variedades. Sim era oportunista, reacionário e sem escrúpulos, mas era genial na comunicação.

Menos elitismo ajudaria a entender essas personalidades e nos faria compreender porque fizeram tanto sucesso.

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ETs

Curiosamente (mas não de forma surpreendente) as ideologias contemporâneas que falam de migrações interplanetárias e que incluem a interação, aqui na Terra, de seres de outros planetas – reptilianos, sirianos, alienígenas nórdicos, pleiadianos, etc – sempre se estruturam a partir de “raças”, “clãs”, “estirpes” e “falanges”, constituídos de formas distintas e sobre hierarquias morais (seres de luz, de cura, das trevas, guerreiros, etc.), o que diz muito mais sobre as pessoas que adotam estas visões escatológicas e menos sobre as características específicas ou a plausibilidade de tais ideologias. Ou seja: as pessoas criam ficções baseadas em suas próprias visões de mundo, tipicamente estruturadas em classes e hierarquias. Nada muito diferente da maneira como traduzem o contexto à sua volta.

Em uma sociedade que produz diferenças essenciais entre os humanos, do racismo explícito às classes sociais, parece natural que nossa ficção científica reproduza esta perspectiva divisionista. O que me parece mais chocante é que, para analisar a humanidade, ou mesmo estruturas sociais alienígenas, somos levados a fazer uma leitura muito superficial do sujeito. Para quem acredita nestas histórias, os seres humanos podem ser classificados de acordo com sua aparência externa e sua persona social, a imagem que vendemos aos outros, negando o fato de que todos temos um “lado B”, uma sombra escura e ameaçadora, uma história escondida de desejos, mentiras, falsificações, fraudes e ações egoísticas.

Não há santo ou benemérito que sobreviva ao escrutínio selvagem de sua existência. E, ao mesmo tempo, não há criminoso, bandido ou monstro que não tenha doçura, carinho e afeto escondidos nas dobras profundas da sua alma, encobertas pelas crostas sangrantes das feridas abertas. Somos seres múltiplos e complexos; qualquer definição será limitante ou oportunista. Carregamos dentro de nós o germe da santidade e a cicatriz da mais violenta maldade. O que deixamos aparecer em nosso rosto é apenas a maquiagem enganosa do ego.

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Break Free

Movido pela curiosidade despertada pela apresentação estranha de uma competidora da nova modalidade olímpica, o Break Dance, eu li a análise de uma articulista sobre a apresentação desta representante australiana chamada Raygun (nome artístico da professora de dança Rachel Gunn). Concordei com vários pontos de sua abordagem sobre a performance desta break dancer de 36 anos que dá aulas sobre a cultura do hip hop e street dance. Por certo que sua apresentação foi chamativa, exatamente por não parecer muito elaborada. Parecia ser realmente um deboche, alguém que se prestou a “brincar” com os movimentos da dança. Não surpreendentemente, ela tirou zero; não recebeu um mísero ponto sequer por sua rotina de movimentos. Isso não é exatamente uma novidade; houve outros competidores fracassados que mal tinham domínio sobre a arte que representavam, como Eddie no salto de esqui ou o nadador da Guiné Equatorial. No caso de “B-Girl Raygun”, muitas pessoas deram gargalhadas de sua aparente “incapacidade” e falta de talento, mas isso deveria nos alertar para uma mensagem subliminar em sua apresentação. Os mais atentos começaram a suspeitar que poderia haver algo mais interessante por trás da sua dança bizarra.

Conhecendo um pouco mais a historia da personagem vamos descobrir que ela é a autora de um artigo acadêmico intitulado “A cena do Breaking Australiano e os Jogos Olímpicos: As possibilidades e a política da esportificação”. Ou seja; ela lança a pergunta sobre a adequação da “esportificação” do break dance, que nada mais e do que o confinamento da modalidade a uma série de regras e limites que oportunizam uma avaliação objetiva. Desta forma, se o break dance for institucionalizado através das Olimpíadas, é provável que perca a sua própria essência. O seu ponto de vista é que, se esta dança nascida nas ruas e criada pela comunidade negra for forçada a aderir a um código rigoroso controlado por um órgão central (como o COI), perderá inevitavelmente sua essência criativa, contestadora e rebelde. Diante dessa informação, cabe a pergunta: Terá sido sua apresentação um ato de profunda rebeldia? Terá ela produzido uma performance de contestação ao próprio evento que participava? Se assim foi, deixo para ela minha admiração.

O mesmo debate ocorreu há alguns anos sobre a institucionalização e regulamentação da função das doulas, auxiliares de parto, que (res)surgiram no cenário do parto e nascimento enquanto movimento social a partir da virada do milênio. Sua aparição foi um sopro de renovação impressionante na atenção ao parto, por duas vertentes igualmente essenciais: em primeiro lugar o suporte afetivo, físico, social e espiritual das gestantes em trabalho de parto, reestabelecendo a ponte que une os aspectos físicos e fisiológicos do parto com os milênios de adaptação psicológica aos desafios de parir. Em seguida, mas não menos importante, está o que se chama efeito Hawthorne. Este fenômeno ocorre quando as pessoas se comportam de maneira diferente ao saberem que estão sendo observadas. Isso pode afetar qualquer tipo de comportamento, desde as atitudes dos moradores da Casa do Big Brother, até o nosso agir banal cotidiano. As doulas, mesmo que reservadas e silenciosas, funcionam como observadores da ação dos médicos, da mesma forma como a entrada dos companheiros e/ou familiares produziu um pouco antes: sua presença ao lado das gestantes fez com que o parto deixasse de ser um evento exclusivo para médicos e demais atores da cena obstétrica.

O efeito Hawthorne explica porque os médicos que trabalham em instituições hospitalares fazendo parte de equipes têm taxas de cesarianas muito menores do que os mesmos médicos trabalhando isoladamente com suas pacientes em hospitais privados. O fato de serem observados e avaliados por seus colegas faz com que suas ações recebam este tipo de contenção; no hospital particular eles não sofrem qualquer tipo de “censura velada”, e suas atitudes médicas tendem a ser mais reguladas pelos seus medos e necessidades pessoais, ao invés de serem guiados pelas evidências científicas e o bem-estar da paciente. O mesmo efeito se faz presente nas câmeras acopladas ao uniforme dos policiais: a queda dramática das mortes causadas por excessos da polícia está ligada ao fato de, usando este equipamento, os policiais sabem que estão sendo observados, e suas ações gravadas para posterior auditagem. Isso produziu uma mudança espetacular, tanto na queda das mortes quanto na brutalidade e violência das abordagens.

No caso das doulas, essas duas características – o suporte holístico das pacientes e o efeito Hawthorne – produziram uma profunda mudança positiva na cena obstétrica; ouso dizer a mais importante deste século na atenção ao parto. Porém, a regulamentação do trabalho das doulas tem a potencialidade de produzir uma alteração muito mais significativa, mas na direção oposta. Regulamentar algo da livre expressão afetiva não vai limitar a sua individualização? Haverá elementos contraindicados na fala de uma doula? Quem avalia os movimentos corretos na atenção subjetiva de uma gestante em trabalho de parto?

A partir dessa perspectiva, deixo estas perguntas: Qual a vantagem de institucionalizar, burocratizar e regulamentar atividades humanas tão antigas quanto a própria existência da nossa espécie? É possivel criar regras rígidas sobre as expressões artísticas? Por acaso alguém regulamenta o balé? Alguém regulamenta a música? Por que o break dance deveria ter regras, se é da sua origem e da sua essência “quebrar as regras”? A maior visibilidade dessa dança – que ao contrário do atletismo, natação e demais esportes não tem na competição seu elemento inicial – vale o preço de conter, restringir e amordaçar a natural versatilidade criativa desta arte? Se posso dizer que regulamentar as doulas coloca sobre elas uma constrição inadequada e prejudicial, digo o mesmo sobre as regras e limites aplicados a uma expressão artística que nasceu pela necessidade de produzir arte pela exaltação da liberdade nos corpos em movimento.

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Scribo

Escrever significa marcar com um cinzel, “traçar uma linha, marcar, assinalar, gravar, marcar com cunho”. Toda escrita fere, marca, risca, separa. Escrever significa deixar no mundo um pedaço de si, um sinal de sua passagem. Por outro lado, também faz todo o sentido olhar para a escrita como um abraço que se abre em direção ao outro. Para quem escreve, usando as letras como um lenitivo manuscrito de suas dores, a leitura por outra alma solidária e atenta é um acréscimo, mas igualmente um bálsamo que alivia o sofrimento de quem grita em solidão.

Entretanto, a escrita é uma forma de expressão que suplanta a necessidade de ser lido. Mais do que uma forma de comunicação, ela é um modo de expressão, distinto da voz, do cinema, da música ou do teatro. Escrever extrai do sujeito o sumo mais refinado de seus lamentos, aquilo que oferece sentido e direção à sua luta. Desta forma, os cadernos de poesia da velha senhora, os diários da adolescente, os contos eróticos do senhor ranzinza são válvulas de escape para sua verdadeira essência. Não são peças para simples leitura, mas para o autoconhecimento. Não importa que tenham sido por tantos anos escondidos no fundo de uma gaveta, infensos ao olhar de qualquer curioso; eles ainda representam o que de mais verdadeiro sempre habitou os escrevinhadores.

A partir de um vídeo da atriz Denise Fraga e uma conversa com Giane Flora

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Esportes e mulheres

“E você acompanha o boxe feminino para opinar?”

Ora, esse argumento é absurdo. Dizer que não se pode opinar sobre a condição da atleta Imane Khelif, foco da atenção mundial por sua aparência diferente do padrão das mulheres, apenas porque “não acompanha o boxe feminino” é algo ridículo e tolo. Caso fosse admitido na competição um homem que se identifica como mulher (uma mulher trans) no levantamento de peso eu me posicionaria contra, mesmo sem jamais ter visto sequer uma competição desse esporte, pois não se trata de debater boxe, mas de discutir o espaço das mulheres no esporte; qualquer um. E não se trata de atacar atletas ou pessoas trans, muito menos de combater a diversidade. Pelo contrário, o objetivo é defender as mulheres e possibilidade de conquistarem títulos concorrendo com pessoas com sua mesma condição de gênero.

A questão é simples: se ela é mulher e não usa drogas, pode competir nas competições femininas, inobstante sua condição hormonal. Ao que tudo indica, ela é mesmo uma mulher com condições fisiológicas raras (níveis altos de testosterona). Sei que existem controvérsias, mas a questão extrapola em mundo o “boxe” e se ocupa de responder uma questão elementar nos dias atuais: o que em verdade define uma mulher. Podemos analisar pela genitália, pelos órgãos reprodutores internos, pelos cromossomos, ou por uma mistura de todos esses marcadores biológicos de gênero. Desta forma, fica evidente a necessidade de definir o que é uma mulher, algo que há alguns poucos anos era fácil, mas agora se tornou complexo, entre outras questões pela onda woke no mundo – que só agora parece estar arrefecendo. A ideia de “identificar-se” com um gênero e impor essa percepção subjetiva (legítima) aos outros gerou estas confusões.

“A boxeadora argelina nasceu mulher, foi registrada como mulher, viveu sua vida como mulher, lutou boxe como mulher, tem um passaporte feminino”, disse o porta-voz do COI, Mark Adams, na sexta-feira.

O debate sobre os níveis de testosterona natural (hiperandrogenismo) é desnecessário. Sim, é uma vantagem sobre os outros concorrentes, mas tanto quanto ter mais de dois metros de altura em esportes como o basquete ou o vôlei. O mesmo também ocorre nos jogos de futebol em altitude, onde os jogadores que vivem nestes locais têm níveis de hemoglobina mais altos por causa do ar rarefeito. Por certo que é uma vantagem, mas é um efeito adaptativo natural, não exógeno ou artificial. Portanto, não se trata de questionar as vantagens que um lutador possui sobre os outros, mas a própria divisão das modalidades esportivas em gêneros, que foi criada para que as mulheres – em desvantagem física pelo dimorfismo sexual da nossa espécie – tivessem condições de vencer competições disputando provas apenas com outras mulheres.

Essa lutadora da Argélia, sendo mesmo uma mulher assim definida pelos órgãos esportivos, tem todo o direito de competir, mas não é necessário para isso que tenha perdido lutas para outras mulheres e muito menos é preciso acompanhar o boxe feminino para ter uma posição honesta e lúcida sobre esta questão.

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Os idosos

A maioria das pessoas da minha idade são conservadoras na política e nos costumes; isso é um fato que não é difícil de constatar. “Eu gosto desse político porque ele não é radical”, dizem. Ou, em contrapartida, “não gosto do fulano; ele é um radical, e os extremos são sempre ruins”. Quando elogiam uma personalidade pública fica nítido que se deixam ofuscar pela imagem de mídia que é produzida sobre ela, na maioria das vezes fantasiosa, produzida nos laboratórios de imagem das empresas que se ocupam da vida de celebridades. “Ahh, o fulaninho é uma pessoa super simples. Sabe que ele doou 1 milhão para os flagelados?”. Nessa fase da vida é muito comum que os “maduros” comecem a se interessar pela religião, pela morte, pelo cristianismo e coisas afins. Também os coroas se tornam céticos em sua visão política, alguns no nível do negacionismo; tornam-se ranzinzas, rabugentos e não acreditam haver possibilidade de que suas utopias da juventude possam se materializar.

“É sempre a mesma coisa, os políticos são todos iguais, é a roubalheira de sempre”. Via de regra, colocam os problemas políticos como afecções de caráter, máculas morais, não estruturais. Muitos acreditam na ideia de um “messias” no governo, no “bom ditador”, na “censura do bem”, “na ação enérgica da polícia”. Para estes, as pessoas que chegam ao poder político são corruptas, egoístas, espertas e desonestas. Curiosamente, não dizem o mesmo dos banqueiros, dos mega empresários, dos herdeiros, dos rentistas e nem sequer do próprio empresário que corrompeu o político. “Ahh, mas ele só fez isso para sobreviver e manter o emprego dos seus empregados”. Os políticos são sempre os que mais apanham: “Não sobra um, é preciso acabar com tudo isso que está aí, e colocar pessoas técnicas em posição de comando”. Assim, o Ministério da Indústria seria de…. um industrial, o da saúde deveria estar na mão de um médico, o ministério da agricultura, controlado por um latifundiário, etc., mas os coroas não pensam que estas posições sejam ocupadas por um operário, uma técnica de enfermagem ou um agricultor familiar, por certo. Seria radical demais.

Na maturidade o vigor das utopias e o colorido dos sonhos de uma sociedade mais igualitária vão desbotando paulatinamente. Não passa um dia sequer que eu não veja um colega de escola ou faculdade fazendo coro às manifestações mais reacionárias do momento, agindo de uma forma absolutamente individualista, falando de seus interesses próprios e sem qualquer perspectiva para a sociedade. Seu pensamento parece ser “Bem, já que meus sonhos de igualdade não vão acontecer, melhor que eu garanta um pouco de conforto na minha velhice; afinal, quem mais do que eu merece um descanso digno?”

Os antigos já diziam que o grande avaliador da honestidade é ter em mãos a possibilidade de efetuar o delito e mesmo assim recusar (ou recuar), o que me parece justo. Afinal, denunciar o suborno de alguém quando nunca teve sua honestidade realmente colocada à prova é sempre tarefa muito fácil. Da mesma forma eu digo que a grande prova do idealista e do sonhador é envelhecer mantendo jovens e vibrantes os seus ideais, sem deixar-se sucumbir pelo negativismo, pelo derrotismo e pelo cinismo. Manter suas ideias joviais, nutridas pela esperança e pela visão positiva do mundo é o que nos mantém jovens, mesmo quando a carroceria já não tem mais o vigor dos anos dourados. Por isso eu aceito ser comunista, espirita laico, internacionalista, anti-imperialista e ativista pelo parto normal, mesmo tendo plena consciência de que não estarei aqui para ver nenhum dos meus sonhos de adolescência se tornarem realidade.

Tomem aí, meus netos, a semente que vos deixo…

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Pensamentos e emoções

Correto. Acontece que para chegar no pensamento as ideias precisam percorrer inúmeros filtros; não existe pensamento que seja a perfeita expressão do que você sente. Já a emoção brota de forma rebelde, livre e espontânea. Por isso o sujeito se revela de forma mais pura nas epifanias e nos paroxismos de medo, raiva e paixão. O terapeuta atento e isento de preconceitos precisa prestar a máxima atenção nestes episódios, e ter uma desconfiança radical com racionalizacões e autoavaliações que o sujeito produz. Somos mentirosos e dissimulados sobre nós mesmos; condescendentes e parciais. Na profundeza do inconsciente, onde impera a escuridão e o segredo, tudo é úmido, sujo, empoeirado e feio; porém, quando as ideias emergem à consciência aparecem penteadas e de banho tomado.

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