Arquivo da categoria: Pensamentos

Parefeitos

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“A objetualização do paciente, sua coisificação e o tratamento frio a que ele é submetido NÃO SÃO “paraefeitos” do modelo de ensino contemporâneo. Pelo contrário; tais elementos formam a base do paradigma tecnocrático de assistência no processo de produção dos novos profissionais da saúde. Sem a plena compreensão dessa intencionalidade inconsciente e ritualística jamais completaremos a tarefa de humanização da assistência. O problema é que a violência praticada é invisível, como se, assim naturalizada, ela passasse a ser parte integrante da atenção. Com isso ela se torna inquestionável. Afinal, como questionar uma ação que é essencial para o atendimento? Botar alunos em fila para apalpar uma tireoide ou fazer um exame de toque, passa a ser o “certo“, o “essencial” e o “natural“. Como reclamar?”

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Higiene

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O historiador holandês Norbert Elias, no seu livro “O Processo Civilizatório” faz descrições muito curiosas sobre os hábitos de higiene da idade média, como a invenção das “roupas de baixo”, os banhos, o sexo, o suor, o cheiro do corpo e tantas outras adaptações humanas curiosas que a cultura produziu. Não podemos esquecer da famosa carta de Napoleão à sua amada Josefina, tão curta quanto explícita: “Chego na terça-feira. Não se lave“.

Mais interessante ainda é entender a forma de lidar com o corpo, seus cheiros, sua essência, sua “naturalidade”, suas funções, suas excreções (suor, urina, fezes) e tentar “desnaturalizar” o modelo contemporâneo, colocando-o no seu devido lugar: uma etapa como qualquer outra na longa linha de construções da civilização. Da mesma forma como a gordura corporal feminina (alguma, ao menos) era exaltada do século XVII em diante, como podemos ver em várias pinturas de época, também hoje a magreza das mulheres é estranhamente glorificada como “linda”, a exemplo do que ocorre com algumas figuras públicas femininas, cuja musculatura se assemelha à configuração masculina.

A construção de valores culturais obedece um ordenamento singular, onde finas camadas de sedimentação vão se estabelecendo lentamente, criando novas estruturas sobre as anteriores. Também o nascimento humano, cheio de aromas, sons, guturalidades, suores, secreções e sombras parece desfocado numa civilização moderna que exalta a limpo, o estéril, o claro, o brilhante, o insípido e o inodoro. Os ruídos metálicos de uma sala cirúrgica são o contraponto moderno do silêncio entrecortado por gemidos de um parto onde a sexualidade imanente do processo não é desconsiderada e, portanto, não é temida.

O nascimento contemporâneo nada mais é do que a vã tentativa de desviar nosso olhar do erotismo inegável dos corpos que se contorcem, do suor que brota da face lívida, do olhar perdido no infinito, da palavra de súplica e do desejo que se materializa magicamente, brotando da vagina ameaçadora, úmida e escura.

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Fluidez

Fluidez

A minha tese se mantém cada vez mais firme: seja qual for a apresentação ou a modalidade de parto os elementos determinantes para o controle do processo são aqueles que ocorrem “entre as orelhas” da gestante. Se ela estiver realmente empoderada e confiante – que é MUITO diferente de não ter medo – podemos ter resultados positivos e gratificantes. As últimas conversas no pré natal são decisivas para que ela possa estabelecer sua confiança e vinculação com a proposta. Ela também não pode encontrar receio ou dúvida entre os seus cuidadores, pois isso facilmente a conduz para uma espiral de negatividade e, por consequência, medo paralisante.

Quando se consegue este clima percebemos a fluidez do parto como deveria sempre ser. Uma mente carregada de pânico e angústia vai fazer o corpo se fechar e o parto obstruir. Todavia, quando a paciente inunda sua mente de positividade e confiança, temos um caminho iluminado em direção ao sucesso.

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Frio

Poemaroto…

O sol inclemente
Castiga a careca
Do velho ranzinza
O céu de anil
Pergunta intrigado
Quedêlhe o frio?

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Masculino

Atlas

Nenhum homem jamais saberá o quanto sofre uma mulher, nem tampouco o que há de gozo em sê-lo. Também nenhuma mulher poderá entender o dilema masculino, sentido no peito, na dureza que vem ou que falta, na saliva que seca, na perna que fraqueja, nas costas nunca suficientes, na bala que cruza a rua e se choca ao peito, na guerra que escolhe os meninos, no filho que nunca viu e do qual nunca soube, do leão que naquele dia não matou, o olhar severo do pai, o avanço chamado abuso e a espera chamada covardia, o desejo tesão, o cansaço fraqueza, a vaidade crime, o medo fracasso.

E nenhuma víscera a crescer em seu corpo que lhe possa, por fim, garantir a masculinidade angustiosa, frágil e incerta.

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Cabelo Natural

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Qual sua proposta para solucionar o dilema do “Cabelo Natural”?

Vou contar uma história que talvez possa nos oferecer uma elaboração útil até para outras questões…

Um determinado sujeito – genial – inventa um xampu milagroso que cura a calvície de forma incontestável. Um tratamento adequadamente testado, aprovado e comprovado. Entretanto, ele levou 40 anos pesquisando e quer receber pela sua dedicação e trabalho. Resolve colocar o xampu no mercado e percebe (é claro!) que faz um grande sucesso. Pelo seu esforço e dedicação incansáveis ele cobra caro pelo tratamento de renovação capilar, mas mesmo assim constata uma fila enorme de pessoas que se dispõe a pagar pela solução do seu problema.

Entretanto, surge um questão facilmente previsível. Muitas pessoas gostariam de vencer a calvície, porque foram por décadas maltratadas por ela, porém não tem dinheiro suficiente para o tratamento. É claro também que, fosse mais barato, o médico não teria tempo e nem sossego para atender todos os seus pacientes; o preço é uma forma de diminuir a demanda e respeitar a lei de oferta e procura. Todavia, o inventor – que é uma boa pessoa – ensina alguns colegas a fabricar o xampu e a fazer o adequado tratamento, que é difícil e demorado. Outros profissionais chegam, mas o problema se mantém: como levar a descoberta a todos?

Ele se esforça, através de publicações e demonstrações, para que o governo tome conhecimento de que descobriu a cura da calvície, mas o governo tem outras prioridades. Afinal ser careca não é tão ruim assim, não é verdade? Existem coisas mais importantes a tratar. A imensa maioria dos colegas deste profissional ganha um bom dinheiro vendendo perucas e poucos estão realmente interessados na descoberta revolucionária. Por outro lado, quem teve o cabelo de volta sente-se muito agradecido, e coloca relatos e vídeos na Internet, o que só faz aumentar o número de interessados. Os poucos especialistas que se dedicam à nova descoberta ganham bem pelo tratamento, mas muitos pacientes sem recursos continuam carecas, enquanto outros acham que peruca é legal, pois o importante “é ter algo cobrindo a cabeça“.

Com o tempo os especialistas que restauram o cabelo são alvo de perseguições e difamações pelos colegas, os mesmos que lucram com as perucas. São atacados, vilipendiados, difamados e maltratados. Entretanto, colecionam sucessos e ficam conhecidos. São os “cabelistas“, que se contrapõem aos “peruquistas“, pelos quais são odiados. A associação de profissionais convoca reuniões para mostrar que são as próprias pessoas que escolhem usar perucas, pois o tratamento natural para restaurar cabelo é demorado e impõe uma certa dedicação do paciente. Além disso, se apressam em mostrar como as perucas são modernas, tecnológicas, feitas com fios “quase naturais”, não tem risco algum e são lindas.

O Movimento do Cabelo Natural, apesar de todos os ataques e mentiras, ganha as ruas, a mídia, os clientes e seduz cada dia mais profissionais, cansados de vender perucas para sujeitos que poderiam ter seu próprio cabelo. Esses pacientes são a melhor propaganda do novo tratamento, pois melhoram sua auto estima e impõem um novo direcionamento para suas vidas. “Se eu posso ter meu cabelo de volta, agora posso vencer qualquer desafio“, dizem os orgulhosos pacientes.

Ainda assim pessoas são condicionadas a comprar perucas, pois os profissionais mais conservadores não querem se reciclar ou não desejam perder tanto tempo com um tratamento que as vezes pode até não funcionar. Preferem continuar vendendo perucas, um tratamento simples e rápido, mas com inúmeros efeitos colaterais. Eczemas, dermatites, infecções, retração do couro cabeludo e até morte (3,5 x mais comum do que no tratamento capilar) pela anafilaxia causada pelos produtos de fixação da peruca.

Como fazer para que todos os carecas, não só os que tem recursos, possam ter o direito assegurado a um cabelo natural e mais seguro? Como garantir liberdade de escolha para ter seus cabelos naturais, ou para ter uma peruca (para quem assim escolher)? Como forçar os “peruquistas” a utilizar o tratamento mais natural se muitos não querem, não sabem ou não se interessam?  Como lidar com o fato de que os intermediários pagam o mesmo pelo cabelo natural ou pela peruca, mas esta última se coloca em 30 minutos, enquanto um tratamento natural leva meses?

Mas… a culpa pela falta de profissionais para tratar os carecas menos abastados é dos poucos profissionais que se dedicam e se expõe oferecendo a terapia mais lógica, segura e racional? Ou é do sistema? Ou será dos pacientes, que não se mobilizaram para garantir o direito a um cabelo sedoso, abundante e natural pago pelo governo?

Qual sua proposta para a encruzilhada do cabelo natural?

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Morte e dor

Ao voltar para casa fomos surpreendidos por uma confusão na esquina próxima de nossa casa. Pensávamos ser um acidente, mas depois de firmar a vista no breu que recém se avizinhava, vimos que um corpo jazia estirado ao lado de uma motocicleta. Minha filha viu uma pistola na mão de um jovem e grita. Sim, um assalto seguido de morte. Desta vez, o ladrão imprudente levou a pior: havia assaltado um policial civil, que reagindo desferiu três tiros mortais à queima-roupa. Estacionei meu carro no meio fio e corri para acudir o jovem esticado no asfalto. Tarde demais; minha pressa apenas me permitiu presenciar seus últimos suspiros. Os olhos revirados, a boca descorada, o rubro do sangue a colorir de dor o piche negro da rua. O pulso já findava, enquanto os dedos cor de cera se reviravam. Em vão eu tentava achar o pulsar de alguma artéria que resistisse ao destino trágico. Nada, nada…

Ao meu lado o policial à paisana explicava os detalhes da abordagem e sua pronta reação. Pediu que eu não me assustasse com a arma que ainda mantinha em punho. Eu entendi sua preocupação e expliquei que era médico, e que o menino aos meus pés estava se esvaindo em sangue.

O jovem não tinha muito mais do que 20 anos. Pardo, da cor da exclusão. No bolso do casaco pouco, uma navalha. Tiro o capacete envolto em sangue e sua cabeça encosta o chão escuro. “Não vai voltar para casa, para sua mãe e sua família. Não vai saber o resultado do jogo de domingo. Não saberá se a menina que ele tanto gosta um dia vai aceitar uma carona em sua moto. Não dará um abraço derradeiro em seu pai, e nem poderá pedir desculpas para o irmão com quem brigou. Um telefonema na entrada da noite avisará a família, que conformada, sequer vai se surpreender. Havia muito que todos se preparavam para uma ligação como esta“.

Um ônibus passa vagarosamente no contrafluxo, de onde um cobrador grita: “Tem mais é que matar!!“. Não me contive e gritei: “Cale a boca, seu animal. Tenha respeito“. Zeza e Bebel fazem coro comigo, com a voz embargada. Ele não me entendeu, e continuou a vociferar como um cão colérico. Nada havia além ódio naqueles gritos. Nenhuma consternação pelo jovem morto, nenhuma ideia de que uma vida acabava de se desfazer de forma estúpida.

O policial, ao contrário do que eu poderia esperar, estava tenso. Sabia que sua ação foi para preservar sua própria vida. O menino da moto estava armado e ameaçante. Não havia o que fazer, era matar ou morrer. Mesmo assim, ele sabia que alguém havia morrido por suas mãos, e seu semblante denunciava este peso.

A polícia chega ao local, e eu desisto de procurar algum sinal de vida no pescoço magro do menino. Ao longe escuto as sirenes da ambulância. A turba de passantes se aproxima para dar vazão à inescapável curiosidade mórbida das massas. Levanto-me, aperto o ombro do menino e digo: “Siga em paz“.

Ao voltar para o carro Zeza e Bebel tremiam ao meu lado; ninguém consegue dizer nada. Mas havia uma revolta, não contra o crime, mas contra a insensibilidade.

Será que ninguém notou que um menino morreu?

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Violência e Catarse

Rhonde x Bethe


Só eu que acho absurdo do ponto de vista estético, psicológico e cultural as lutas de MMA, em especial o espetáculo grotesco (é o meu ponto de vista) das batalhas entre mulheres? Só eu me escandalizo com a publicidade exagerada sobre algo que aos meus olhos não passa de selvageria – exatamente aquilo de que o processo civilizatório tentou se afastar nos últimos 10 mil anos? Só eu acho que as lutadoras parecem homenzinhos castrados, imitando cara, bocas e trejeitos dos seus ídolos másculos?

Existe uma pergunta: por que as mulheres também querem bater e exercer essa violência explícita, assim como os homens sempre fizeram – em razão dos seus papeis sociais milenarmente construidos – durante a construção de nossa civilização? Esse fato é um processo de “liquefação dos limites de gênero” ou um sintoma de desajuste, se entendermos a violência explícita como uma incapacidade de encontrar formas sublimadas de exercê-la?

Eu sei que as mulheres podem fazer tudo, elas tem o direito de fazer o que bem desejam, até imitar os homens em suas violências atávicas. As mulheres agora se identificam com essas lutadoras da mesma forma como os homens se identificam com os ícones testosterônicos de Rambo e Schwarzenegger? Ou são os homens que adoram ver a carnificina entre as mulheres, num duplo curioso com a pornografia? Não se trata de condenar as pessoas que se aproveitam de uma brecha na cultura para fazer valer suas aptidões. Não desejo impor limites às mulheres no sentido de “isso elas não podem por serem delicadas”. Não, não é isso. Quero apenas problematizar e expor minha dúvida. Minha pergunta é se a popularidade do MMA – e em especial as lutas de mulheres – não é o sinalizador de um desequilíbrio, uma doença social.

Seriam estas demonstrações os estertores da sociedade individualista? Ou estaremos valorizando a violência explícita por desprezar algo que a civilização tão penosamente construiu nos últimos milênios?

Futebol pode ser violento, mas não é seu objetivo machucar ou colocar a nocaute. Futebol é balé. Futebol é “quinta dimensão”, é pensar em conjunto, equipe. Mas eu não consigo ver MMA nem de homens. Acho estúpido e selvagem. Sinto uma angústia estranha vendo lutas, uma espécie de identificação atávica. Mas de mulheres acho apenas triste e grotesco. Mas, verdade seja dita, não sinto o mesmo com judô. Este parece civilizado. A arte de Gigoro Kano tem uma filosofia pacifista em sua origem: a neve nos galhos das árvores, a resiliência e o uso da violência do oponente para neutralizá-lo. Sobre chacoalhar os papéis sociais de homens e mulheres pode ser um bom resultado, mas não é o objetivo, assim como queimar Londres num incêndio (ou Barcelona) teve um resultado bom para a estética da cidade, mas não foram feitos para isso. E sobre as “divas” não faço julgamento de mérito, apenas estendi a pergunta: porque as mulheres de hoje são diferentes na sua estética? O que houve com elas e conosco? É uma pergunta, e não uma posição pois, como eu disse, a minha opinião sobre Marilyn ou Rondha é completamente desimportante.

Minha crítica é com a condescendência que desenvolvemos com a violência explícita do UFC. Não é para vencer com a imobilização ou o golpe: é para destruir o outro, partir sua perna ao meio, dar uma joelhada na cara. No MMA o objetivo é produzir o MÁXIMO de dano. Bater o quanto der. Machucar em lugares específicos, que causam mais dor e mais lesão (cerebral, por exemplo). O “estudo” e as “técnicas” são para otimizar o dano ao adversário, jamais para protegê-lo.

Esses lutadores, que nos “divertem” como galos de rinha, encurtam suas vidas e detonam sua saúde. Fazem lesões cerebrais pelos traumatismos repetitivos por anos a fio. Muhammad Ali é um triste exemplo disso ao desenvolver Parkinson muito cedo em sua vida. Vale a pena mesmo tanto sangue?

As lutas sempre foram privilégio dos homens, algo cultivado e venerado pelo universo masculino, em todas as culturas. No mundo primitivo não faria sentido algum as mulheres se engalfinharem com outras(os) e arriscar suas vidas e gestações. Aos homens coube o peso da guerra, e toda a cultura da violência que ela acarretou.

As mulheres podem fazer o que bem desejam, mas por que seria vedado aos homens perguntar as razões? Os papéis masculinos e femininos EXISTEM, e isso é um fato, quer se queira ou não, basta andar na rua para ver que eles existem. Quando se fala em papéis femininos não significa que se deseje que isso seja fixo pela “essência” dos gêneros, mas apenas que se reconheça que a civilização assim os estabeleceu. Eles são mutantes e instáveis, e não mudam com a mesma velocidade em todos os lugares, mas papéis são naturais na estrutura social. Talvez estes papeis que temos na atualidade sejam ruins, mas cabe somente a nós trocá-los. Minha pergunta – mais uma vez – é se fazer as mulheres brigarem entre si como espetáculo é um avanço social ou o sintoma de uma doença…

Entendo o sentido da catarse e, mais do que isso, concordo com essa ideia, mas pergunto se a mudança radical do papel feminino na sociedade a partir dos últimos 40-50 anos – diminuição no número de filhos e entrada triunfal no mercado de trabalho formal – não tenha propiciado a elas as mesmas angústias historicamente destinadas aos homens e, como consequência, a mesma necessidade do lenitivo por eles usado: a catarse coletiva através da violência explícita.

Hoje em dia a violência obstétrica existe de igual forma entre homens e mulheres, os comentários sádicos nas notícias da Internet também. Pena de morte aparece de forma igual ou muito parecida no imaginário de ambos os gêneros. As mulheres se brutalizaram?

Meu medo é que essa mudança retire das mulheres uma característica admirável do universo feminino: a candura e a suavidade. Quando mulheres admiram a violência e a força elas podem deixar de lado a delicadeza. Eu disse “podem”, e não que elas “devem”. E não estou falando das atletas, cuja vida ignoro por completo, mas de quem as venera. Acho que, seguindo o pensamento freudiano, as atletas, o esporte e os ícones (como Rhonda), são a consequência de uma mudança estrutural na sociedade através de uma alteração dos papéis. Elas as lutadoras, são apenas o resultado da transformação do campo simbólico. Os gladiadores foram criados para dar conta de uma necessidade dos homens e, ao que parece, agora também das mulheres.

Não tenho coragem de fazer um julgamento de mérito sobre esse fato. Não sei se isso é bom ou ruim para a civilização, mas creio que ver mulheres tentando destruir a cara uma da outra é chocante e – para mim – preocupante.

Sobre a estética masculinizada das atletas isso é um fato, não uma opinião. Se isso é bom ou mau, bonito ou feio… aí é apenas opinião pessoal e a minha consideração sobre isso só vale para mim. Mas não é essa a questão. O que eu pergunto é a razão disso. Alguém falou que essa americana é “a mulher mais linda do mundo”. Mas compare-se ela com as divas de 50 anos passados – Marilyn Monroe, por exemplo – e me expliquem o que houve com a imagem que cultivamos das mulheres.

Podemos concordar que houve um câmbio impressionante? A brutalidade era uma reserva de mercado masculina, mas agora ela também atinge as mulheres.

Acho que a melhor explicação está longe do “isso é um esporte com regras“. As regras foram sendo retiradas paulatinamente. Se você olha “de fora” percebe a semelhança com o boxe, mas sem os aparatos civilizatórios, como as luvas. As regras existem apenas para evitar as mortes, mas as concussões cerebrais, os desmaios e o os knock-outs são celebrados, quase da mesma forma como eram em Roma imperial.

Para mim MMA é catarse primitiva, mas parece que as mulheres começaram a necessitar deste artifício na modernidade. Mas se há tanta raiva para ser desviada através das lutas (como em Roma – panis et circenses) não existe uma pergunta que precisa ser feita?

Curiosamente, eu convivo com uma pessoa que deplora qualquer violência, mesmo verbal. Para ela qualquer expressão explícita de confronto é ruim, deletéria, desnecessária e aviltante ao sujeito. Ela se parece com um arquétipo de feminilidade, pois está longe de ser apática ou acomodada; apenas não acredita – como Gandhi – na solução de qualquer conflito por meio da agressão.

Feio e bonito são termos que não uso para isso, a não ser para falar de algo absolutamente desimportante: minha própria opinião. Já falamos acima das razões pelas quais criamos o “circo“: a catarse identificatória. Todavia, o que me atraiu em especial foi a novidade. As mulheres se envolveram nessa atividade em função – minha tese – de mudanças sociais e em especial os papéis femininos. Também o capitalismo e sua vertente individualista, mas esse seria um outro tema. Mas, antes que passe batido, “feio e bonito” não são conceitos que me atrevo a abordar. Prefiro entender que, seja horroroso ou sublime, houve uma mudança, e seria bom entender as razões.

Quebrar a cara das pessoas. Qual a ideologia – ou a filosofia – por trás desta “arte”?

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Discutir

Batalha grega 01

Sempre que eu entro em um debate – em especial nas redes sociais – eu me recordo de uma passagem da Odisseia de Homero onde, durante uma batalha que se iniciava, um soldado pergunta ao seu oponente:

“Diga-me antes de lutar se você é humano ou um Deus. Caso seja um Deus, portanto imortal, não perderei meu tempo numa batalha cuja vitória é, por definição, impossível”.

Em muitas discussões nossos argumentos se comportam como “imortais”. De nada importam as evidências e provas que a nós são lançadas. Somos imunes a elas, infensos ao seu poder destrutivo, pois a couraça que nos protege não é construída pelos tijolos frouxos e débeis da razão cambiante e frágil, mas pelo rochedo inexpugnável dos dogmas.

Quando enfrentamos adversários que se comportam dessa maneira, faz-se necessário agir tal qual o bravo soldado heleno e perguntar ao seu oponente:

“Estarias disposto a deixar morrer seus argumentos se a força dos meus lhes for superior? Permitirias que uma nova ordem invadisse teu pensamento à força de um exército de palavras a mudar a tua mente?”

Se a resposta for negativa, afaste-se da luta. Estás diante de um imortal, que permanecerá intocado pelas novas verdades, preso no cimento de seus preconceitos.

Lembre que “discutir” é “sacudir“. Discutir vem do termo latino “discutere“, que deriva de “quatere” (daí a palavra inglesa “quake“, como em “earthquake“) que significa sacudir. Dessa forma, “discutir” significa sacudir alguma coisa com o fim de separá-la. É o mesmo que fazemos quando discutimos: sacudimos as palavras para verificarmos se o argumento é sólido. Quando se discute com outra pessoa presume-se que os argumentos do seu oponente PODEM mudar sua visão de mundo – ou sua opinião sobre aquele assunto específico – desde que sejam coerentes e lógicos. Também é certo que SEUS argumentos poderão modificar a visão seu adversário sobre a questão debatida, desde que sejam igualmente corretos e abrangentes.

Entretanto, se você aprioristicamente se nega a mudar de posição e fecha as portas para uma nova postura então a discussão é absolutamente inútil. Quem se nega a mudar, mesmo com a força dos argumentos, não tem opinião: tem fé, e esta é irracional por definição. Como regra de ouro, “nunca discuta racionalmente com alguém cujos argumentos não forem racionalmente construídos”.

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Amor e Ódio

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Amor e ódio

Foi num livro de Dale Carnegie que eu entrei em contato pela primeira vez, há mais de 30 anos,  com a questão delicada das expectativas em relação ao trabalho que realizamos.

O texto, de seu célebre livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” escrito em 1936,   mostrava um profissional que oferecia um trabalho muito diferenciado no setor de vendas, com uma qualidade superior, a qual não era oferecida por nenhum dos seus concorrentes. Ao contrário dos seus colegas, fazia avaliações gratuitas depois de entregue o produto, e mais de uma, para cativar a clientela. Entretanto, não se tratava apenas de uma estratégia  para agradar seus fregueses, mas sim de um compromisso ético, algo que fazia para se sentir bem, auxiliando seus clientes com as orientações que ele julgava necessárias. Ele acreditava que a venda de um produto não se esgotava na entrega e no pagamento de uma mercadoria, mas precisava estar conectada com a utilidade, com a fraternidade e com a ideia de ajuda mútua.

Esse vendedor combinava visitar seus clientes depois de um determinado tempo, para ver se estavam se adaptando adequadamente com a nova peça. Fazia isso porque tinha prazer em ver a alegria dos compradores e para constatar o fato de que, mesmo que de forma humilde, havia sido útil para a realização de um sucesso. Entre seus colegas de venda, ninguém seguia seus passos. Acreditavam ser ele um tolo, que perdia seu tempo quando deveria estar planejando e executando novas vendas. Ele, apesar disso, continuava tendo fé na relação que estabelecia com seus clientes, que assim viravam amigos e parceiros. Hoje em dia isso tem um nome: “pós-venda“, mas na época de Dale, primeira metade do século passado, esse mentalidade ainda engatinhava.

Um dia, após fazer uma transação muito difícil, que incluiu inúmeras ligações para a indústria, fornecedores, empresas de transporte marítimo e rodoviário, alfândega e receita ele conseguiu fechar uma venda de uma máquina que resolveria os problemas graves de uma pequena fábrica. Os compradores ficaram agradecidos e ele combinou uma visita para a próxima semana. Entretanto, por problemas pessoais, não pôde comparecer à visita de cortesia que sempre realizava, e fez uma ligação pedindo que o dono da empresa fosse avisado.

No dia seguinte recebeu um telegrama duro, quase ofensivo, dizendo que a visita esperada não se concretizou e por isso estavam profundamente decepcionados com a venda. A mensagem terminava com um adeus severo, deixando claro que não mais fariam negócios com a empresa deste vendedor.

A questão que martirizava o nosso vendedor era: por que a conexão tão fácil e rápida entre amor e ódio? Por que o seu trabalho exemplar não foi reconhecido, e uma “falha” (era uma questão de saúde) humana cometida não foi perdoada? O que acabou faltando na sua venda foi exatamente aquilo que ninguém mais oferecia, apenas ele.  Por qual razão algo que era oferecido graciosamente foi considerado essencial para o julgamento do seu trabalho?

A única explicação que posso oferecer é de que o vendedor feriu algo de muito sensível para seus clientes: a expectativa.

Os compradores esperavam pouco dos outros vendedores. Sabiam o que poderiam receber. Tinham uma expectativa baixa em relação ao tipo de serviço oferecido. Nosso herói, entretanto, tinha a fama de oferecer um “plus”, algo diferenciado. Quando isso não veio, sentiram-se roubados de algo que, mesmo não sendo uma vantagem prometida ou compactuada, era conhecida por eles.

Quando se frustrou a expectativa, sobreveio o ressentimento.

Lembrei disso quando, há alguns meses, uma paciente – cujo parto natural foi uma grande vitória para todos nós em função dos inúmeros incidentes que o cercaram – queixou-se de maneira explícita e dura de pequenos detalhes que circundaram o nascimento do seu filho. Sentiu-se desconsiderada e magoada; ferida e ressentida. Ao invés de reconhecer o extremo esforço e dedicação oferecidos para garantir um parto empoderador ela preferiu fixar-se num detalhe absolutamente desimportante sob todos os aspectos.

Mas qual a razão disso?

Bem, não me cabe julgar suas razões por estar frustrada. “Cada um sabe a dor que carrega, a tristeza que sente e a mágoa que o corrói“, já me dizia um ébrio, mas perspicaz, Max. Deve haver razões suas, inexpugnáveis para mim, que justifiquem esse dissabor. Entretanto, muito do que ela me falou diz respeito à falha que tivemos em relação a tornar suas expectativas mais realistas. Não fôssemos tão dedicados à sua assistência e talvez os detalhes não ficassem tão evidentes. Tivéssemos agido como todos e nada disso apareceria. A fantasia de parto que ela sonhou não recebeu um contraponto de realidade de nossa parte: ela continuou acreditando que seu parto seria absolutamente isento de qualquer falha humana.

Quem trabalha com esse tipo de evento, como o nascimento humanizado, precisa estar atento a estes desafios. É importante educar os pacientes para que tenham metas factíveis, e que não esperem milagres dos profissionais. Cuidar de alguém também é preservar suas emoções, agindo profilaticamente em relação aos seus sentimentos.

Manter níveis de expectativas adequados e realistas  para as gestantes e seus companheiros é um dos mais importantes itens do pré-natal.

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