Arquivo da categoria: Pensamentos

Imigrante

Imigrante

Imagine a seguinte situação hipotética. Em função de erros na condução da minha vida pessoal e familiar, por culpa minha e do contexto em que vivo, sofro uma perda financeira catastrófica e fico incapacitado de manter-me no local onde sempre vivo com minha família. Essa é uma “pequena” tragédia familiar muito comum no mundo contemporâneo. Felizmente meu irmão, apiedando-se da minha situação dramática, me convida a morar em sua casa. Para lá me dirijo contrariado, levanto minha família e minhas frustrações, pois se pudesse desejaria continuar na minha casa. Infelizmente isso não é mais possível. Ela foi vendida, perdida, confiscada ou nem existe mais, e no seu lugar restam escombros.

Na casa do meu irmão é tudo limpo e chique. O ônibus para na porta. Próximo de lá existe uma boa escola para os meus filhos. O bairro é seguro e tranquilo. Meu irmão e minha cunhada me tratam bem; minhas sobrinhas idem. Tudo parece bom.

Os moradores do prédio não falam comigo, mas apenas porque não me conhecem. O porteiro pediu para que eu subisse pelo elevador de serviço, mas expliquei que estava morando ali, no apartamento do meu irmão. Ele parece ter entendido, mas depois eu soube que ele ligou para confirmar com minha cunhada. Ele é uma boa pessoa, apenas se enganou.

Ontem meu irmão ralhou com sua filha por ela ter comido todo o doce que estava na geladeira, mas ela explicou que foi meu filho quem o comeu. Fiquei em silêncio e constrangido, mas meu irmão tentou dizer que se enganou e que, afinal, não havia problema algum. Meu filho chorou envergonhado. Minha mulher também ficou triste ao ouvir um comentário de que a conta de luz está mais alta ultimamente.

Precisei ligar para conseguir um emprego e, como meu irmão e minha cunhada não estavam em casa, pedi licença para a minha sobrinha de 7 anos para usar o telefone . Depois me senti envergonhado por ter feito isso. Humilhado seria um termo melhor.

Sou bem tratado aqui, pelo menos na minha frente todos são gentis e educados, mas sei que as pessoas falam pelas minhas costas. Os serviços são bons, e a escola é próxima. Minha mulher está bem adaptada. As crianças estão seguras. Como poderia ousar reclamar?

Entretanto – sei que é complexo entender – aqui eu sou convidado e minha presença é tolerada, pelas circunstâncias. Sou bem recebido no prédio, mas algumas mulheres mais ricas de lá simplesmente viram a cara para mim no elevador.

Se eu pudesse abriria mão de todas as aparentes vantagens que tenho para ter minha casa de volta. Não queria ter o constrangimento recidivante de não ser dono de nada, de não ser igual às pessoas com quem convivo no lugar onde moro. Ter autonomia e liberdade, ser reconhecido como um igual e com os mesmos direitos, não tem preço.

É possível que isso seja uma especial sensibilidade minha. “Frescura” diriam alguns, dizendo ser imoral reclamar com a barriga cheia. Já ouvi dizer de muitas pessoas que dão de ombros quando escutam “vá para sua casa”, “você não é bem vindo“, mas isso para mim tem uma sonoridade destrutiva.

Eu sei a dor de não ser dono do chão em que caminho.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Uma Crítica à Veneração

Einstein2

(Um elogio à iconoclastia sistemática)

Será mesmo que podemos abrir mão da iconoclastia?

Serão realmente desnecessários os franco-atiradores que tentam solapar as “verdades” que com tanto amor nos aferramos?

Veja bem, não tenho nenhum gosto especial em ler os escritos difamatórios contra personalidades ou ideias. Entretanto, não serão eles apenas remédios muito amargos que necessitamos tomar para a depuração de uma doença insidiosa chamada “veneração”? Não serão eles importantes elementos para a cura da nossa credulidade cega nas personalidades e descobertas do passado? Não serão fundamentais tais críticas para que possamos enxergar o que de humano havia por detrás de figuras mitificadas da ciência, filosofia, artes e do conhecimento em geral?

Sei que a busca insana pela iconoclastia é aparentemente obsessiva, talvez até doentia. Mas e daí?

Entendo que a iconoclastia pode trazer prejuízos à sanidade de quem a professa ao apresentar um viés mais obscuro aos fatos, para contrastar com o nosso, que é suave e brando com as falhas de nossos mentores. Entretanto, a insanidade do nosso irmão pode ser de ajuda para se chegar mais perto de uma verdade límpida.

Seria lícito impedir críticas a Einstein, provando a falsidade de algum dos seus experimentos, apenas porque ele “não está aqui para se defender“? Ora, nenhum físico realmente sério desprezaria FATOS em nome do culto à personalidade do mestre de outrora. Se tais fatos forem mentiras, cairão por terra com o passar do tempo. Se forem, entretanto, verdades é importante que estejamos preparados para assimilá-las.

Repito: não há porque eleger figuras intocáveis nas ciências e nas artes, como de regra em nenhum ramo do conhecimento humano. Os gurus são paralisantes, e sua existência depende do esvaziamento de seus seguidores. Eliminar indivíduos “acima de qualquer suspeita” é humanizar o conhecimento e a “verdade”.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Mônica

mônica

Nas histórias de Maurício de Sousa a personagem Mônica batia nos meninos da rua, e esta era a característica que fez sua fama e sua imortalidade. Ela era protagonista e poderosa, figura central da trama (era a “Turma da Monica”) mas sua forma de reação diante das contrariedades era através da violência física explícita.

Seria ela a personagem a anunciar uma nova mulher que abandonava os estereótipos femininos (candura, docilidade e submissão) desde a mais tenra infância, mas para isso tendo de mimetizar as estratégias de dominação violentas masculinas? Seria Mônica o protótipo da nova mulher que – assim como Batman anunciara o homoerotismo na cultura – nos trazia a nova postura feminina para o século XXI? Ou podemos achar que se trata de uma coincidência, apenas histórias sem um objetivo e sem ter uma conexão com o campo simbólico por onde circulavam?

No creo en coincidéncias. ..

Monica era uma personagem baseada na filha de Maurício de Souza, inclusive nas suas principais características. Hoje a filha é executiva das empresas. Mas se é baseada ou não na realidade é o menos importante, até porque ele poderia escolher outras qualidades dela como exemplares e definidoras, mas preferiu destacar sua força bruta e violência.

Batman também. O criador disse que jamais pensou em Batman como um personagem gay, mas aqui cabe a pergunta: por que a solteirice, a amizade com Robin, a criação especial (sendo mimado pela tia), a figura paterna frágil de Alfred e o sofrimento brutal, cuja indignação o leva a ser o “paladino da justiça“, sublimando sua dor (a constrição sexual) através da luta contra o crime?

Mas a Mônica era violenta. Espancava os meninos. Não era apenas protagonista das histórias, mas além disso usava os recursos masculinos de subjugar através da violência, os quais são naturalmente masculinos, por isso tão universais. Isso existe antes mesmo da cultura: tem a ver com a testosterona, a estatura, a configuração muscular e a fragilidade imposta pela gravidez às fêmeas da espécie.

Mas aqui me refiro, evidentemente, à violência explicitamente física. A violência moral é igual para ambos (apesar de eu achar que é maior nas mulheres, pela supressão da sua vertente física). A escolha da estratégia de fazer Monica FISICAMENTE violenta é que me fez pensar na questão.

Para subjugar, por certo, não é necessário utilizar violência física. Ela pode ser moral, e essa capacidade os homens a tem tanto quanto as mulheres. Muitas mulheres más subjugaram pessoas e nações sem jamais terem cometido uma mínima ação fisicamente violenta.

E não é vergonhoso reconhecer que os homens são fisicamente mais fortes e rápidos que as mulheres.  A”virilidade” é mesmo um atributo masculino, e essa palavra vem de “viril”, “varão”, etc. Força é outra coisa. Mônica batia com e sem coelho. Ela usava seus músculos e sua força para maltratar e subjugar. Por isso mesmo a pergunta: por que Mônica foi mostrada como uma menina que imitava os homens em suas características mais masculinas (pelo menos no que a cultura assim definiu) como a violência física? Por que não reclamamos que Monica usa seus atributos “para dominar quem não os possui.

Fosse Cebolinha um “macho alfa” da história e teríamos um escândalo. Ele seria o opressor, o sujeito que comete bullying, que maltrata, que destrói e que humilha seus amigos através da força. Mas de Mônica suportamos sua violência contra os amigos, e Mônica é perdoada… por ser mulher. Fazemos vista grossa à sua prepotência e à sua violência. Nas histórias acabamos convencidos que as surras que Cascão e o Cebolinha recebiam era, no fundo, “merecidas”.

Não é curioso? Quando as “vítimas” cometem os mesmos erros e pecados dos algozes sempre temos boas desculpas a dar.

E é exatamente por essa razão que eu julgo essa personagem rica e interessante. Ela parece demarcar a virada de uma consciência feminina. Na época em que ela surgiu o feminismo tinha essa cara: “vamos fazer o mesmo que eles“.

Monica era MUITO mais forte que eles, por isso eles apanhavam. Mas era menina, e por isso estava perdoada. A condescendência com a Monica é que me parece o novo. Ela batia, espancava, maltratava os amigos, mas era a protagonista e nós a víamos com bons olhos. Nunca havia pensado muito nessa questão e sempre gostei das histórias, mas Zeza me falou hoje que ficou espantada com a quantidade de violências que ela pratica contra seus “amigos”. Zeza não conseguiu ler uma história até o fim para o meu neto Oliver, pois teria que pular os espancamentos. Não lhe pareceu adequado ou pedagógico contar essas partes.

As pessoas davam MUITA bola para as surras que ela dava nos meninos, pois essa era sua MAIOR característica, lembrada por TODOS. Ela era uma espancadora. Usava a violência como arma e como estratégia de dominação. Entretanto, era perdoada por ser mulher, pois naquele período da cultura era isso que as mulheres ensaiavam: a revanche contra as violências historicamente sofridas. Neste tipo de retruque os excessos são perdoados, as surras têm sua dimensão diminuída, porque é como a tentativa “justa” de equilibrar um placar de abusos francamente desequilibrado.

Cebolinha era esperto e malévolo, pois tentava sempre ludibriar sua opressora. Como todo oprimido usava a fofoca, a maledicência e a dissimulação como armas. Cascão as vezes o ajudava em seus planos, mas era o “sujo”, o que sofria para tomar banho. Mas a característica mais chamativa era o poder superior de Mônica conquistado através da força. Ela não era esperta, ladina, curiosa, vivaz ou bonita. Era forte e, por isso, poderosa. Os meninos apanhavam e a gente sempre tinha a impressão que eles haviam merecido; a surra havia sido bem dada. Por isso é interessante: como julgamos as mulheres que apanham AINDA hoje? “Ah, vai ver que mereceu, que pediu para isso, que usou roupas curtas“. Parece que Maurício fazia uma crítica reversa, mostrando a forma como a sociedade enxerga os …. homens!!! Mas no corpo de uma menina abusadora.

Creio que Mônica é anacrônica hoje, com sua violência explícita, tanto quanto as belas adormecidas o são quando retratam a mulher que é beijada sem autorização, ou que fica em um castelo esperando seu “salvador” para lhe resgatar de uma vida encarcerada. Por outro lado, eu ainda gostaria de ver um filme – ou animação – que fizesse uma releitura de Monica a exemplo que fizeram com “Malévola”, que faz a releitura da “Bela Adormecida”. Queria mesmo ver Mônica se ferrar, sofrer, perder os amigos, ser abandonada e ficar solitária agarrada com seu coelho, enquanto os meninos teriam vidas produtivas apesar das marcas dos abusos que receberam durante toda a infância. Não acredito que o criador de Mônica agiu através de um “radicalismo”, porque sequer acredito que tenha sido consciente (assim como o homoerotismo implícito em Batman), mas suas histórias hoje me parecem o retrato fiel (mas codificado) de um momento de mudança importante na cultura.

Sim, pode ser essa uma boa leitura da obra de Maurício de Souza. Cebolinha e Cascão eram as mulheres da trama, sempre apanhando e tratadas de forma inferiorizada.

É essa a leitura que fiz.

A Mônica agredia porque era agredida” (mas não fisicamente, que fique claro) pelos seus amigos. Bem, há um problema aqui. Tal “explicação” pode justificar todas as guerras e todas as matanças. Todavia, como eu mesmo já falei, Mônica continua sendo perdoada por ser… mulher. No contexto histórico em que ela surgiu essa vingança brutal por parte das mulheres era tolerada e até valorizada. Tínhamos que empatar o jogo da violência. Chega de só o “nosso lado” apanhar. Nessa época uma imigrante latina cortou o pênis do seu marido (supostamente) agressor e não apenas foi absolvida, mas exaltada como heroína por algumas feministas radicais dos Estados Unidos. Não se tratava de uma luta contra a violência aplicada às mulheres, mas uma luta contra os homens violentos, e nessa luta a violência era apenas mais uma arma (O marido tinha o curioso nome de John Wayne).

O problema de justificar a violência física de Mônica é que muitos maridos descrevem EXATAMENTE assim as pancadas que dão em suas mulheres. Vejam que Cebolinha e Cascão agiam como “mulheres” que menosprezavam, humilharam, desmereciam, agrediam verbalmente o “marido” e acabavam sendo espancadas(os). Os homens (Dado Dolabella) que assim se comportam chamamos violentos e espancadores. Para pessoas assim agimos com dureza, punimos com a lei e fazemos doer no bolso, o que para mim está ABSOLUTAMENTE correto. Homem que espanca, em especial as mulheres, merece o rigor da lei, e para isso não há desculpa. Cadeia e multa.

Mas para Mônica, bem, ela sofria na mão deles, era vítima de bullying, era debochada, era humilhada (numa intensidade parecida com a humilhação de um homem enganado), era maltratada por ser dentuça. Nada mais JUSTO que espancar, maltratar, agredir, desmontar e fazer valer seus argumentos através da força superior e da violência.

Pesos e medidas cujas diferenças só podem ser entendidas (mas não justificadas) pela cultura dos anos 70 e 80. Para entender Mônica há que se mergulhar nos valores e no próprio feminismo de décadas passadas. Foi pelo choque de novos valores que Zeza ficou impedida de ler a história até o final, e foi pela sua surpresa que resolvi interpretar o universo de valores que se escondiam por detrás dos desenhos de Maurício, numa exegese obviamente superficial, mas que pode levar a um entendimento mais criativo do fenômeno.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Contraditório

Discutir

Se você não suporta o contraditório não deveria entrar em controvérsias. Precisa saber que, ao expor seu ponto de vista, encontrará pessoas que pensam o oposto de você (ou de forma muito diversa) e que, até determinação nem contrário, podem se manifestar. Minha opinião é apenas isso: uma mera opinião carregada de intenção. Não se pretende “A Verdade” como alguns podem insinuar, mas tão somente meu ponto de vista sobre determinado tema ou questão.

Isso não deveria ofender ninguém, pois as visões discordantes deveriam ser sempre bem vindas. Se discordar de uma opinião através de argumentos ofende quem diverge da minha, peço desculpas.

Mesmo correndo o risco de não ser entendido e de aumentar cada vez mais a legião de pessoas que nutre por mim aversão e antipatia, ainda acho que é do choque de ideias e propostas que construímos um mundo mais plural.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Parefeitos

exame-mulher-350

“A objetualização do paciente, sua coisificação e o tratamento frio a que ele é submetido NÃO SÃO “paraefeitos” do modelo de ensino contemporâneo. Pelo contrário; tais elementos formam a base do paradigma tecnocrático de assistência no processo de produção dos novos profissionais da saúde. Sem a plena compreensão dessa intencionalidade inconsciente e ritualística jamais completaremos a tarefa de humanização da assistência. O problema é que a violência praticada é invisível, como se, assim naturalizada, ela passasse a ser parte integrante da atenção. Com isso ela se torna inquestionável. Afinal, como questionar uma ação que é essencial para o atendimento? Botar alunos em fila para apalpar uma tireoide ou fazer um exame de toque, passa a ser o “certo“, o “essencial” e o “natural“. Como reclamar?”

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Pensamentos

Higiene

Medieval01

O historiador holandês Norbert Elias, no seu livro “O Processo Civilizatório” faz descrições muito curiosas sobre os hábitos de higiene da idade média, como a invenção das “roupas de baixo”, os banhos, o sexo, o suor, o cheiro do corpo e tantas outras adaptações humanas curiosas que a cultura produziu. Não podemos esquecer da famosa carta de Napoleão à sua amada Josefina, tão curta quanto explícita: “Chego na terça-feira. Não se lave“.

Mais interessante ainda é entender a forma de lidar com o corpo, seus cheiros, sua essência, sua “naturalidade”, suas funções, suas excreções (suor, urina, fezes) e tentar “desnaturalizar” o modelo contemporâneo, colocando-o no seu devido lugar: uma etapa como qualquer outra na longa linha de construções da civilização. Da mesma forma como a gordura corporal feminina (alguma, ao menos) era exaltada do século XVII em diante, como podemos ver em várias pinturas de época, também hoje a magreza das mulheres é estranhamente glorificada como “linda”, a exemplo do que ocorre com algumas figuras públicas femininas, cuja musculatura se assemelha à configuração masculina.

A construção de valores culturais obedece um ordenamento singular, onde finas camadas de sedimentação vão se estabelecendo lentamente, criando novas estruturas sobre as anteriores. Também o nascimento humano, cheio de aromas, sons, guturalidades, suores, secreções e sombras parece desfocado numa civilização moderna que exalta a limpo, o estéril, o claro, o brilhante, o insípido e o inodoro. Os ruídos metálicos de uma sala cirúrgica são o contraponto moderno do silêncio entrecortado por gemidos de um parto onde a sexualidade imanente do processo não é desconsiderada e, portanto, não é temida.

O nascimento contemporâneo nada mais é do que a vã tentativa de desviar nosso olhar do erotismo inegável dos corpos que se contorcem, do suor que brota da face lívida, do olhar perdido no infinito, da palavra de súplica e do desejo que se materializa magicamente, brotando da vagina ameaçadora, úmida e escura.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Fluidez

Fluidez

A minha tese se mantém cada vez mais firme: seja qual for a apresentação ou a modalidade de parto os elementos determinantes para o controle do processo são aqueles que ocorrem “entre as orelhas” da gestante. Se ela estiver realmente empoderada e confiante – que é MUITO diferente de não ter medo – podemos ter resultados positivos e gratificantes. As últimas conversas no pré natal são decisivas para que ela possa estabelecer sua confiança e vinculação com a proposta. Ela também não pode encontrar receio ou dúvida entre os seus cuidadores, pois isso facilmente a conduz para uma espiral de negatividade e, por consequência, medo paralisante.

Quando se consegue este clima percebemos a fluidez do parto como deveria sempre ser. Uma mente carregada de pânico e angústia vai fazer o corpo se fechar e o parto obstruir. Todavia, quando a paciente inunda sua mente de positividade e confiança, temos um caminho iluminado em direção ao sucesso.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Frio

Poemaroto…

O sol inclemente
Castiga a careca
Do velho ranzinza
O céu de anil
Pergunta intrigado
Quedêlhe o frio?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Masculino

Atlas

Nenhum homem jamais saberá o quanto sofre uma mulher, nem tampouco o que há de gozo em sê-lo. Também nenhuma mulher poderá entender o dilema masculino, sentido no peito, na dureza que vem ou que falta, na saliva que seca, na perna que fraqueja, nas costas nunca suficientes, na bala que cruza a rua e se choca ao peito, na guerra que escolhe os meninos, no filho que nunca viu e do qual nunca soube, do leão que naquele dia não matou, o olhar severo do pai, o avanço chamado abuso e a espera chamada covardia, o desejo tesão, o cansaço fraqueza, a vaidade crime, o medo fracasso.

E nenhuma víscera a crescer em seu corpo que lhe possa, por fim, garantir a masculinidade angustiosa, frágil e incerta.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Cabelo Natural

careca-pente-calvicie-original

Qual sua proposta para solucionar o dilema do “Cabelo Natural”?

Vou contar uma história que talvez possa nos oferecer uma elaboração útil até para outras questões…

Um determinado sujeito – genial – inventa um xampu milagroso que cura a calvície de forma incontestável. Um tratamento adequadamente testado, aprovado e comprovado. Entretanto, ele levou 40 anos pesquisando e quer receber pela sua dedicação e trabalho. Resolve colocar o xampu no mercado e percebe (é claro!) que faz um grande sucesso. Pelo seu esforço e dedicação incansáveis ele cobra caro pelo tratamento de renovação capilar, mas mesmo assim constata uma fila enorme de pessoas que se dispõe a pagar pela solução do seu problema.

Entretanto, surge um questão facilmente previsível. Muitas pessoas gostariam de vencer a calvície, porque foram por décadas maltratadas por ela, porém não tem dinheiro suficiente para o tratamento. É claro também que, fosse mais barato, o médico não teria tempo e nem sossego para atender todos os seus pacientes; o preço é uma forma de diminuir a demanda e respeitar a lei de oferta e procura. Todavia, o inventor – que é uma boa pessoa – ensina alguns colegas a fabricar o xampu e a fazer o adequado tratamento, que é difícil e demorado. Outros profissionais chegam, mas o problema se mantém: como levar a descoberta a todos?

Ele se esforça, através de publicações e demonstrações, para que o governo tome conhecimento de que descobriu a cura da calvície, mas o governo tem outras prioridades. Afinal ser careca não é tão ruim assim, não é verdade? Existem coisas mais importantes a tratar. A imensa maioria dos colegas deste profissional ganha um bom dinheiro vendendo perucas e poucos estão realmente interessados na descoberta revolucionária. Por outro lado, quem teve o cabelo de volta sente-se muito agradecido, e coloca relatos e vídeos na Internet, o que só faz aumentar o número de interessados. Os poucos especialistas que se dedicam à nova descoberta ganham bem pelo tratamento, mas muitos pacientes sem recursos continuam carecas, enquanto outros acham que peruca é legal, pois o importante “é ter algo cobrindo a cabeça“.

Com o tempo os especialistas que restauram o cabelo são alvo de perseguições e difamações pelos colegas, os mesmos que lucram com as perucas. São atacados, vilipendiados, difamados e maltratados. Entretanto, colecionam sucessos e ficam conhecidos. São os “cabelistas“, que se contrapõem aos “peruquistas“, pelos quais são odiados. A associação de profissionais convoca reuniões para mostrar que são as próprias pessoas que escolhem usar perucas, pois o tratamento natural para restaurar cabelo é demorado e impõe uma certa dedicação do paciente. Além disso, se apressam em mostrar como as perucas são modernas, tecnológicas, feitas com fios “quase naturais”, não tem risco algum e são lindas.

O Movimento do Cabelo Natural, apesar de todos os ataques e mentiras, ganha as ruas, a mídia, os clientes e seduz cada dia mais profissionais, cansados de vender perucas para sujeitos que poderiam ter seu próprio cabelo. Esses pacientes são a melhor propaganda do novo tratamento, pois melhoram sua auto estima e impõem um novo direcionamento para suas vidas. “Se eu posso ter meu cabelo de volta, agora posso vencer qualquer desafio“, dizem os orgulhosos pacientes.

Ainda assim pessoas são condicionadas a comprar perucas, pois os profissionais mais conservadores não querem se reciclar ou não desejam perder tanto tempo com um tratamento que as vezes pode até não funcionar. Preferem continuar vendendo perucas, um tratamento simples e rápido, mas com inúmeros efeitos colaterais. Eczemas, dermatites, infecções, retração do couro cabeludo e até morte (3,5 x mais comum do que no tratamento capilar) pela anafilaxia causada pelos produtos de fixação da peruca.

Como fazer para que todos os carecas, não só os que tem recursos, possam ter o direito assegurado a um cabelo natural e mais seguro? Como garantir liberdade de escolha para ter seus cabelos naturais, ou para ter uma peruca (para quem assim escolher)? Como forçar os “peruquistas” a utilizar o tratamento mais natural se muitos não querem, não sabem ou não se interessam?  Como lidar com o fato de que os intermediários pagam o mesmo pelo cabelo natural ou pela peruca, mas esta última se coloca em 30 minutos, enquanto um tratamento natural leva meses?

Mas… a culpa pela falta de profissionais para tratar os carecas menos abastados é dos poucos profissionais que se dedicam e se expõe oferecendo a terapia mais lógica, segura e racional? Ou é do sistema? Ou será dos pacientes, que não se mobilizaram para garantir o direito a um cabelo sedoso, abundante e natural pago pelo governo?

Qual sua proposta para a encruzilhada do cabelo natural?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos