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Amor e Ódio

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Amor e ódio

Foi num livro de Dale Carnegie que eu entrei em contato pela primeira vez, há mais de 30 anos,  com a questão delicada das expectativas em relação ao trabalho que realizamos.

O texto, de seu célebre livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” escrito em 1936,   mostrava um profissional que oferecia um trabalho muito diferenciado no setor de vendas, com uma qualidade superior, a qual não era oferecida por nenhum dos seus concorrentes. Ao contrário dos seus colegas, fazia avaliações gratuitas depois de entregue o produto, e mais de uma, para cativar a clientela. Entretanto, não se tratava apenas de uma estratégia  para agradar seus fregueses, mas sim de um compromisso ético, algo que fazia para se sentir bem, auxiliando seus clientes com as orientações que ele julgava necessárias. Ele acreditava que a venda de um produto não se esgotava na entrega e no pagamento de uma mercadoria, mas precisava estar conectada com a utilidade, com a fraternidade e com a ideia de ajuda mútua.

Esse vendedor combinava visitar seus clientes depois de um determinado tempo, para ver se estavam se adaptando adequadamente com a nova peça. Fazia isso porque tinha prazer em ver a alegria dos compradores e para constatar o fato de que, mesmo que de forma humilde, havia sido útil para a realização de um sucesso. Entre seus colegas de venda, ninguém seguia seus passos. Acreditavam ser ele um tolo, que perdia seu tempo quando deveria estar planejando e executando novas vendas. Ele, apesar disso, continuava tendo fé na relação que estabelecia com seus clientes, que assim viravam amigos e parceiros. Hoje em dia isso tem um nome: “pós-venda“, mas na época de Dale, primeira metade do século passado, esse mentalidade ainda engatinhava.

Um dia, após fazer uma transação muito difícil, que incluiu inúmeras ligações para a indústria, fornecedores, empresas de transporte marítimo e rodoviário, alfândega e receita ele conseguiu fechar uma venda de uma máquina que resolveria os problemas graves de uma pequena fábrica. Os compradores ficaram agradecidos e ele combinou uma visita para a próxima semana. Entretanto, por problemas pessoais, não pôde comparecer à visita de cortesia que sempre realizava, e fez uma ligação pedindo que o dono da empresa fosse avisado.

No dia seguinte recebeu um telegrama duro, quase ofensivo, dizendo que a visita esperada não se concretizou e por isso estavam profundamente decepcionados com a venda. A mensagem terminava com um adeus severo, deixando claro que não mais fariam negócios com a empresa deste vendedor.

A questão que martirizava o nosso vendedor era: por que a conexão tão fácil e rápida entre amor e ódio? Por que o seu trabalho exemplar não foi reconhecido, e uma “falha” (era uma questão de saúde) humana cometida não foi perdoada? O que acabou faltando na sua venda foi exatamente aquilo que ninguém mais oferecia, apenas ele.  Por qual razão algo que era oferecido graciosamente foi considerado essencial para o julgamento do seu trabalho?

A única explicação que posso oferecer é de que o vendedor feriu algo de muito sensível para seus clientes: a expectativa.

Os compradores esperavam pouco dos outros vendedores. Sabiam o que poderiam receber. Tinham uma expectativa baixa em relação ao tipo de serviço oferecido. Nosso herói, entretanto, tinha a fama de oferecer um “plus”, algo diferenciado. Quando isso não veio, sentiram-se roubados de algo que, mesmo não sendo uma vantagem prometida ou compactuada, era conhecida por eles.

Quando se frustrou a expectativa, sobreveio o ressentimento.

Lembrei disso quando, há alguns meses, uma paciente – cujo parto natural foi uma grande vitória para todos nós em função dos inúmeros incidentes que o cercaram – queixou-se de maneira explícita e dura de pequenos detalhes que circundaram o nascimento do seu filho. Sentiu-se desconsiderada e magoada; ferida e ressentida. Ao invés de reconhecer o extremo esforço e dedicação oferecidos para garantir um parto empoderador ela preferiu fixar-se num detalhe absolutamente desimportante sob todos os aspectos.

Mas qual a razão disso?

Bem, não me cabe julgar suas razões por estar frustrada. “Cada um sabe a dor que carrega, a tristeza que sente e a mágoa que o corrói“, já me dizia um ébrio, mas perspicaz, Max. Deve haver razões suas, inexpugnáveis para mim, que justifiquem esse dissabor. Entretanto, muito do que ela me falou diz respeito à falha que tivemos em relação a tornar suas expectativas mais realistas. Não fôssemos tão dedicados à sua assistência e talvez os detalhes não ficassem tão evidentes. Tivéssemos agido como todos e nada disso apareceria. A fantasia de parto que ela sonhou não recebeu um contraponto de realidade de nossa parte: ela continuou acreditando que seu parto seria absolutamente isento de qualquer falha humana.

Quem trabalha com esse tipo de evento, como o nascimento humanizado, precisa estar atento a estes desafios. É importante educar os pacientes para que tenham metas factíveis, e que não esperem milagres dos profissionais. Cuidar de alguém também é preservar suas emoções, agindo profilaticamente em relação aos seus sentimentos.

Manter níveis de expectativas adequados e realistas  para as gestantes e seus companheiros é um dos mais importantes itens do pré-natal.

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Madre Teresa

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Há alguns minutos Madre Teresa de Calcutá apareceu na minha frente para conversar comigo. Era um pedido que há muito tempo eu fazia: “uma aparição, uma visão”, para que eu pudesse comunicar a ela meus dissabores. Pois eu fui finalmente agraciado com a materialização que ocorreu aqui, na minha frente.

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, a beata de Calcutá, vestia seu hábito de freira e tinha o corpo encarquilhado que costumamos reconhecer. Sua face enrugada e sua compleição pequena a tornavam inconfundível. Não podia ser um engano, e disso eu estava certo. Se você acha que isso não é verdade, pode parar de ler por aqui mesmo.

Quando a vi resolvi que era o momento de dizer a ela algumas verdades que estavam entaladas em a minha garganta e que eu pretendia dizer há muito tempo, mas nunca tinha tido a oportunidade. Esta chance chegou, finalmente, agora…

– Sra. Teresa, muito me impressiona o fato de ser tão reverenciada pelas suas ações “ditas humanizadas”. Não que sejam vazias ou inúteis, pois posso reconhecer virtude em tais atitudes. Entretanto acredito que elas, na verdade, escondem preconceito e desconsideração. Sim, se puder me escutar falarei o que tenho guardado em meu coração, mesmo que isso possa lhe ferir.

A velhinha apenas levantou a sobrancelha esquerda e continuou a me fitar de longe.

– Continuando, a senhora ajudou centenas de crianças na Índia, o que a fez merecedora do Prêmio Nobel, o que é algo que reconheço ter valor. Porém eu lhe pergunto: porque este elitismo? O que a senhora fez pelas crianças negras da Nigéria? E as crianças vítimas de Napalm no Vietnã? Qual foi sua ação para interromper a guerra que lá ocorria? Qual sua atitude para acabar com o Apartheid? Por que a senhora dedicou-se a uma determinada etnia e desprezou as outras? Por acaso as crianças indianas são melhores do que as demais? Mais limpas, mais dóceis? Ou existem questões financeiras envolvidas? Veja, não estou lhe acusando de nada, mas eu percebo um mercantilismo em suas ações, uma falta de verdadeira fraternidade, e um desejo de ajudar apenas as pessoas que a idolatram. Isso não é exatamente cristão, não lhe parece?

Madre Teresa continuava olhando para mim fixamente e não moveu um músculo sequer além do leve golpe de sobrancelha anteriormente citado. Seu rosto era calmo e sereno, como a tentar entender as razões da minha inconformidade.

Continuei.

– Tudo o que vejo na sua obra é para aqueles que a senhora considera os escolhidos. Pão, afagos, roupas quentes e abrigo. Mas e os que moram longe? E os que estão em outros países? Como a senhora aceita que apenas alguns sejam beneficiários de seu amor e compaixão, enquanto tantos outros sucumbem à dor e à miséria? Como pode manter essa face inexpressiva diante de tanta desconsideração com o que deixou de fazer por tanta gente?

Mantive meu olhar censurador e firme, não me deixando fraquejar pela doçura e calma de sua expressão.

– Olhe bem…. não sou dessa área. A caridade não é uma coisa que me mobiliza ou comove. Prefiro trabalhar aqui, atendendo partos e ajudando algumas poucas gestantes. Mas a senhora poderia ter feito muito mais, mas preferiu ser a “Madre de Calcutá” quando o mundo inteiro estava sequioso de ajuda, de afeto, de uma mão amiga, pessoas estas que a senhora se negou a ajudar por querer se manter apenas nesta cidade. De nada adianta me dizer os lugares que a senhora visitou e nos quais abriu filiais de sua Congregação “Missionárias da Caridade”, pois muito maior será a quantidade de cidades e vilarejos que a senhora NÃO visitou, deixando tais pessoas à própria sorte, à mercê da vilania do mundo.

Meu final foi apoteótico:

– Muito triste ver o que a senhora fez com os seus ideais…

A humilde senhora finalmente se levantou. Deus dois passos tímidos em minha direção. Colocou as mãos sobre o colo e de forma suave e lenta… sorriu. Pegou em minhas mãos e juntou-as com as suas. Olhou firmemente em meus olhos e disse uma única frase:

Faça diferença para aqueles que te procuram, ofereça o afago para todos ao teu redor e o perdão para quem não te entender, e para o resto procure exercitar a paciência“.

Largou minhas mãos, sorriu e caminhou em direção à porta.

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Amicus Plato

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“Amicus Plato, sed magis amica veritas”

(Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade.) Aristóteles

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca de pluralidade nas expressões, a liberdade garantida e a resiliência para suportar opiniões contrárias. Desta forma, também considero essencial a necessidade de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

A violência cometida contra as nossas opiniões é mais grave por ferir o direito de livre expressão do que por atacar algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. A humanização do nascimento é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores destas ideias: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre a assistência ao nascimento. Entretanto, é fundamental para isso que tenhamos as garantias que o estado de direito oferece aos cidadãos: a certeza de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento.

Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. Sem isso teremos uma situação grave, exatamente por agredir um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que os alguns não querem ouvir.

Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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O Outro

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Venho por meio dessa singela mensagem prestar uma homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida, a qual me mostrou os caminhos a seguir, minhas limitações, virtudes, defeitos e capacidades escondidas.

Minha eterna gratidão ao …. Outro.

Sem o Outro jamais teria a mais tênue noção de quem sou, nem a menor possibilidade de me situar no universo. Sem ele eu jamais compraria uma camisa nova, e nem pentearia meus poucos cabelos. Se não fosse pelo Outro jamais teria estudado ou me aperfeiçoado, e nem tentaria eliminar os constrangedores buracos negros da minha educação. O Outro me ensinou (e continua agindo assim) todos os dias a me comportar nas mais diferentes situações, garantindo que todo avanço é seguido de uma força contrária em sentido oposto. Sem o Outro eu seria um perfeito idiota, incapaz de me situar no mundo.

Nem um milhão de anos seriam suficientes para agradecer a você, Outro, o quanto me ajuda a transitar pelo mundo de forma positiva. Seus conselhos, sua ajuda incondicional, seus “toques” e dicas, seus puxões de orelha me ajudaram a ficar de pé até agora.

Sem você minha vida não teria nenhum sentido e nenhum futuro. Você é o espelho que olho todos os dias para seguir caminhando. Você me construiu, fez o que sou, me moldou e me nomeou. Você me define.

Obrigado, Outro.

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Privilégios

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Para aqueles que adoram exaltar suas próprias virtudes, talentos e qualidades, as quais surgiram do seu valor pessoal e do seu esforço solitário preciso declarar que:

O meio foi SUPER, HIPER, MEGA benevolente comigo, por TODA a minha vida. Faço parte da camada mais privilegiada desse país, e estou no TOP 2% do planeta. Sou um ENDIVIDADO com as circunstâncias que fizeram o que sou. Anotem aí apenas 10 benesses que gratuitamente recebi da vida:

  1. Sou branco e homem
  2. Heterossexual (juro!)
  3. Nasci na classe média
  4. Tive irmãos maravilhosos
  5. Estudei em escolas próximas da minha casa e nunca me faltou um livro, uma caneta ou um caderno.
  6. Conheci meus avós
  7. Tive uma mãe maravilhosa
  8. Tive um pai filósofo e erudito
  9. Fiz uma faculdade PAGA por VOCÊ, e mais alguns milhões de brasileiros.
  10. Casei jovem com uma mulher espetacular, e por pura sorte… Também por pura sorte meus filhos se espelharam nas virtudes da mãe…

Nada do que está escrito aqui consegui por talento ou muito esforço. Tudo isso eu GANHEI da vida. Por isso me sinto devedor da enormidade de privilégios que cercam os burgueses brancos e heterossexuais como eu.

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Responsabilidade e Culpa

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Uma das confusões mais comuns que vejo no mundo das redes sociais é entre os conceitos de “responsabilidade” e “culpa“. Isso gera discussões e até exclusões, como muitos já foram vítimas. Por isso creio ser importante clarificar o que estes termos pretendem, para que fiquem bem assimilados.

Podemos dizer que os negros não tiveram culpa pela escravidão, e nem os gays pela exclusão e preconceito. Nenhuma dessas condições é feita por escolha do sujeito. Entretanto, é responsabilidade dos negros e dos gays mudar sua realidade. Ninguém vai carregá-los no colo, o que seria estúpido e indigno. Somente eles podem protagonizar suas lutas e sua busca por espaço e reconhecimento. Esse protagonismo é deles.

Isso não implica que sujeitos como eu, branco e heterossexual, não possam ser estimuladores de uma nova realidade inclusiva para negros e homossexuais. Faz parte das nossas tarefas eliminar as diferenças possíveis. O mesmo pode ser dito das lutas femininas e em especial pela dignificação do Parto. Não é culpa delas a situação objetualizante e coisificante, mas é responsabilidade delas – com o auxílio de todos nós – a retomada do protagonismo.

Espero que isso ajude a descomplicar esta confusão semântica.

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Profundo e Sagrado

“As doulas representam para o mundo contemporâneo o resgate da mais profunda das relações humanas aplicada ao mais sagrado dos rituais de passagem: a solidariedade e o apoio no auxílio incondicional a quem vai parir.”

Quando eu vejo as manifestações raivosas de colegas em relação às medidas que estão sendo tomadas no Brasil em resposta aos descaminhos do nascimento (cesarianas em excesso, intervencionismo, práticas defasadas, etc…) eu penso que a medicina precisa ser “doulada” para passar por esta crise. Sempre que eu vejo uma manifestação de puro ódio e violência contra o que propomos (ou contra mim mesmo) tento imaginar o que eu diria para estas pessoas se elas fossem meus filhos, cuja raiva se insere num contexto inevitável de passagem pela crise da adolescência. Certamente que jamais responderia com a mesma agressividade da qual somos vítimas; a resposta só poderá vir pela via da compreensão e do diálogo.

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Segurança Afetiva

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Conversa com um senhor no shopping hoje à tarde. Disse-me ele:

“Nos dias atuais talvez seja justo dizer que uma criança adotada por um casal gay tenha um risco menor de sofrer por desamor e desamparo do que por um casal “comum”, numa relação heterossexual. Digo isso porque esta criança será necessariamente adotada, fruto da vontade expressa e de uma longa preparação emocional do casal. Em contrapartida, na ausência em nosso meio de interrupções voluntárias da gravidez, muitos filhos de casais heterossexuais chegam a esse mundo contra a vontade e o desejo de seus pais. São concebidos muitas vezes por um arroubo emocional, uma noite “caliente“, um destempero, um ato impensado. A gestação é, com frequência, seguida por culpas e remorsos.

É claro que muitos bebês assim concebidos serão bem recebidos e amados, mas uma parcela muito grande cai na vala dos que jamais serão bem aceitos. Esse problema é muito mais raro entre casais gays em que a adoção parte de um planejamento conjugal associado a um forte desejo de amar e cuidar de uma criança.

Portanto, do ponto de vista de “segurança afetiva”, estas crianças estão – na média – mais amparadas do que as crianças trazidas à vida do modo tradicional. Não quero dizer que esta opção seja isenta de riscos, e o preconceito de ter dois pais ou duas mães pode persegui-la por toda a infância – ou mesmo pela vida afora – mas pelo menos elas terão a garantia de que foram muito desejadas por quem as cuidará.”

Quem disse isso foi um senhor de 85 anos.
Meu pai.

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Novo Amor

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Esta semana uma paciente veio me contar de um novo amor.

Novo, recém parido. A descrição que ela me fez da novidade foi muito interessante, instigante e curiosa. Por instantes pude reviver as sensações inebriantes de sentir-se vivamente apaixonado. A perda no espaço e no tempo, a angústia, a saudade, o medo, a cegueira, a surdez, a impulsividade e a deliciosa sensação de estar se incinerando nas chamas da paixão. Se algo existe que pode nos tirar do prumo, esta é a sensação de estar sendo consumido pelo desejo.

É algo que “dá dentro da gente e que não devia, que desacata a gente, que é revelia, que é feito uma aguardente que não sacia, que é feito estar doente de uma folia, que nem dez mandamentos vão conciliar, nem todos os unguentos vão aliviar e nem todos os quebrantos, toda alquimia“.

Feliz daquele que se permite desmanchar nestas chamas, queimar nestas labaredas, sentir na pele o sopro gélido de um olhar fugidio e banhar-se na lava incandescente de um beijo.

Quem dera a vida, por curta que fosse, pudesse oferecer àqueles que por ela passaram, um pedaço desse paraíso, uma fatia desse calabouço e uma dose dessa aguardente.

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Horda de Imbecis

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Sim, eu concordo com a frase de Umberto Eco de que “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis“. Uma rápida leitura de comentários de leitores feitos após notícias da política, futebol ou polícia mostra que a imbecilidade, a perversidade e a pura maldade estão à solta, correndo livres pelo espaço cibernético.

Todavia, não é a primeira vez que um fenômeno como esse ocorre. Talvez o principal culpado por ele nem seja americano ou brasileiro, mas grego.

Clístenes, que viveu na Grécia cinco séculos antes da era cristã estabeleceu o que se poderia chamar de primeira experiência humana em que a voz dos cidadãos era levada em consideração na administração da “res publica“, as coisas de todos. A este tipo de processo chamamos democracia – governo do povo – que tem múltiplas faces e expressões, mas se caracteriza por uma tentativa de olhar a todos de forma igualitária, sem diferenças artificiais de ordem étnica, social, econômica e religiosa. Seu maior objetivo é a igualdade entre os homens, a responsabilidade repartida pelo sucesso ou fracasso dos governos e suas ações.

Por outro lado, ninguém há de negar que a experiência de Clístenes deu voz a imbecis e idiotas, sem dúvida. A democracia ofereceu milhares de votos a “cacarecos”, e todos sofremos as repercussões das más escolhas feitas por este sistema. Ela iguala seres com visões diferentes e desejos díspares, e dá voz até a quem deseja suprimi-la.

Entretanto, mesmo com todos seus problemas e males, ainda é melhor a liberdade de cometer erros (e aprender com eles) do que sermos amordaçados e ter nossa voz contida. A pior democracia é sempre melhor do que a mais benevolente e bem intencionada das ditaduras.

Apesar de concordar com Umberto Eco ainda acho que a assombrosa idiotice e perversidade das redes sociais, onde a democratização da tolice alcança seus mais altos níveis, apenas desnuda o que sempre fomos. Nada disso foi “criado” pela Internet e seus tentáculos: o que ela fez foi apenas desnudar a violência, a grosseria e a estupidez humanas. As redes sociais são uma janela para o calabouço da alma, onde escondemos nossos monstrengos mais primitivos.

Ainda prefiro saber que vivemos em um mundo cheio de brutamontes que pregam ditaduras militares em pleno século XXI do que ignorar esta realidade e achar que a democracia é um conceito tão firme em nossa cultura quanto a lei da gravidade.

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