Arquivo da categoria: Pensamentos

Maioridade Penal

Criança presa 1

Existe uma “direita raivosa” (não me refiro a ninguém em especial) que pensa que a solução dos problemas da sociedade está numa visão moralizante, como se a humanidade se dividisse entre “bons” e “maus”. Uma espécie de moralismo fascista que acredita que eliminando os maus teríamos uma sociedade melhor. Isso gera uma série de atrocidades, principalmente porque nega a importância da própria estrutura social na geração de tais discrepâncias. Em verdade, os meliantes de hoje poderiam ser vistos como “resistentes” de uma guerra social, onde a maior parte dos recursos lhes é sonegada, e onde seu quinhão – a parte que lhes cabe neste latifúndio – nunca é entregue. Achar que seu extermínio ajudaria a sociedade é uma ingenuidade ou uma manobra interesseira.

Enquanto eles acreditarem que o sujeito é mau não vão perceber o quanto a sociedade é madrasta“.

Esta direita raivosa adora linchamentos e justiçamentos. Deve dar um prazer imenso ver um jovem de 16 anos apodrecendo numa prisão, enquanto a sociedade – fábrica de meliantes – mantém sua produção inalterada e a pleno vapor. Criar a injustiça e depois “limpar” os miseráveis da nossa vista é a maior prova de que nossa sociedade está doente.

Sempre que eu leio a historia desses meninos “bandidos” eu penso que provavelmente faria o mesmo que eles se minha vida tivesse sido regida pelas mesmas circunstâncias e contextos. Como Terêncio afirmo que “o que é humano não me é estranho“. Existe muito mais semelhanças entre um criminoso brutal e o filhinho de papai, bem alimentado, boa escola, pais presentes, afeto e necessidades supridas. Retire essa história dadivosa e sobrará apenas um humano desnudo, igual a todo outro, criminoso ou não. Dividir os humanos por uma essência “boa” ou “má” esquecendo-se da arquitetura social subjacente que os produziu é um crime contra a humanidade, uma perda de tempo e energias, que poderiam ser mais bem utilizadas na construção de uma sociedade justa e equânime.

Nas minhas peregrinações pelas redes sociais eu percebi que as mulheres eram majoritariamente  a favor da redução. Evidente que isso é apenas uma observação, e não tem valor científico. Mas sinto uma tristeza ao  constatar a queda desses mitos: o amor materno, o amor incondicional e a doçura essencial. Não… aparentemente elas amam os seus, acima de tudo. Os outros filhos, os deserdados da vida, os filhos das putas, esses que apodreçam nas cadeias infectas. Obrigado senhoras, por mais esta lição.

O que  penso ser relevante observar é que, de quem eu mais esperava sentimentos nobres e amorosos foi de onde vieram os comentários mais violentos. Quanto à ideia de diminuir a idade penal em si pouco resta a dizer. Mas as teses moralistas de uma parte da direita nacional – a mais raivosa – ficam evidentes. A ideia moralista e ingênua (minha opinião) é de um essencialismo pueril e preconceituoso: a divisão da sociedade entre “bons” e “maus”. Para completar a proposta de que, eliminando-se aqueles “maus”, sobrariam apenas os bons, ignorando a produção de criminalidade pela própria injustiça social. Esta tese nos obriga a acreditar que na Suécia os presídios estão sendo fechados por falta de prisioneiros porque os “suecos são bons em essência”, sem olhar para a distribuição adequada de renda e a dignificação do trabalho como fator civilizatório. Estamos colocando adolescentes para apodrecer na cadeia por esta visão estupidificante e tacanha da sociedade. E as mães, que na minha visão infantil seriam as guardiãs do amor e da compreensão, são as que mais aplaudem iniciativas que visam encarcerar meninos e adolescentes.

Mas não há nada a temer, senhoras; já sabemos que só pretos e pobres irão para lá. A senhora pode ficar tranquila: vamos limpar a sua rua dessa sujeira.

Veja o que acontece quando essa visão é levada às últimas consequências:

Criança presa nos Estados Unidos

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política, Violência

Frustração e negação

frustacao

“É comum acreditar que um parto será “lindo” na dependência do que desejarmos. A prática nos mostra que, mesmo acreditando na importância dos desejos e projeções maternas, eles não são suficientes para garantir o destino de um nascimento. Parto é algo que acontece entre as orelhas, de uma forma subjetiva e única. Sua manifestação se encontra alicerçada no inconsciente, como qualquer outra manifestação da sexualidade humana. Assim, não há como se valer dos desejos expressos sem levar em consideração o universo de sensações, memórias da pele, lembranças, frases, marcas, sentimentos, sons, ruídos, luzes e cores que constituem nossa arquitetura psíquica. Só o que podemos fazer diante das demandas por experiências criativas e enriquecedoras é não criar falsas expectativas ou garantias ilusórias de um parto maravilhoso. Nem todos podem passar pelo parto como desejam: ele é um projeto que se consolida durante toda uma vida.

Estar preparado para as frustrações é sinal de maturidade e uma condição essencial para quem deseja se aventurar no campo da maternidade. Auxiliar na construção de uma experiência positiva e realista é dever de todos que se dedicam a acompanhar esta jornada.

É preferível se permitir frustrar por um não-parto do que criar uma ilusão de felicidade, a máscara mentirosa do não entristecer. Eu entendo quando se diz “não permitir que a natural frustração por um projeto que não vingou supere a alegria de um nascimento“. Isso sim é colocar as coisas em perspectiva, e estou de pleno acordo. Por outro lado eu desconfio muito quando pessoas negam suas dores. Por exemplo, quando mulheres se separam e me dizem que estão “felizes” ou que não sentem “nenhuma frustração”. O nome disso é negação, e ela não ajuda a superar os traumas e quedas. Assumir (e curtir!!!) suas tristezas é fundamental para a cura.

Um caso de cesariana bem indicada nos deixa tranquilos quanto à indicação cirúrgica, mas não significa um antídoto mágico contra as frustrações (dos pacientes e nossas). Que possamos vivê-las com a intensidade necessária para cada caso e cada sujeito, para que a recuperação seja a mais completa possível.”

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Rótulos

rótulo

Muitas pessoas se incomodam quando alguns profissionais do Brasil que atendem sob a égide da humanização do nascimento são chamados de “humanizados”. Eu não me importo com esta rotulagem.

O rótulo é inevitável. Se nós não falarmos os pacientes o fazem sem a menor cerimônia. Obstetra humanizado, enquanto rótulo, existirá enquanto houver necessidade de contrapor nossas condutas ao modelo hegemônico contemporâneo. Houve um tempo em que havia astrônomos heliocentristas, para diferenciarem-se daqueles que seguiam o modelo ptolomáico. Hoje eles se chamam apenas “astrônomos” e o heliocentrismo foi incorporado aos conhecimentos básicos deste ramo do saber.

Dia haverá em que os valores da humanização – protagonismo restaurado e garantido, visão interdisciplinar e respeito à MBE – serão a base para qualquer ação obstétrica, e o nome “humanização” cairá em desuso por redundância, e não por decreto;  muito menos por ferir suscetibilidades.

Eu não vejo problema algum em ser referido como obstetra “humanizado”, desde que o significado desta expressão esteja claro para quem a diz.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Pensamentos

Amamentação e Inteligência

Inteligente

Sobre a pesquisa recentemente divulgada que demonstra inequívocas vantagens na amamentação, principalmente no que tange à inteligência e ao sucesso pessoal.

Nenhuma pesquisa pode ser analisada de forma definitiva ou completa. Os resultados deste estudo a respeito da amamentação se assemelham com aqueles que demonstram as virtudes do parto normal em relação à cesariana. Se não é possível estabelecer uma linha reta de causa e efeito positiva (parto normal ou amamentação levando à saúde e ao sucesso) ou negativa (cesarianas e desmame levando à malefícios ou fracasso), também é verdade que as atitudes mais fisiológicas relacionadas com os ciclos femininos nos apontam para uma TENDÊNCIA de saúde e adaptação que não pode ser negligenciada.

Saúde, como sabemos, não ocorre por ações isoladas, mas através de uma rede interconectada de atitudes positivas. Amamentação e parto normal são elementos que, comprovadamente, atuam de forma positiva na promoção da saúde, mas pouca ação têm quando analisados isoladamente.

Simplesmente amamentar ou parir naturalmente não é garantia para o sucesso, e nem as cesarianas – ou a falta de amamentação – uma passagem só de ida para a derrota. Para conseguir esses benefícios é importante uma postura coerente, sistemática e constante em direção à harmonia de seus corpos e mentes com a natureza ao redor.

Criar “linhas retas” simplórias de causa e efeito só pode gerar frustração e interpretações equivocadas, mas negar os efeitos positivos dessas atitudes é cegar-se às provas e evidências do seu valor.

1 comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Pensamentos

Solidão

homem_so1

As vezes eu penso que a maioria das teses que defendo são simples e fáceis de entender. Parto humanizado, protagonismo da mulher no nascimento, uso judicioso e consciente da tecnologia, visão integrativa do parto, uso de medicina baseada em evidências, soberania dos povos, fim do apartheid na Palestina, etc. são teses que se aproximam dos ideais libertários iluministas de liberdade, fraternidade e igualdade. Um conjuntos de conceitos com quase dois séculos e meio de existência não poderia ser algo difícil de defender.

Todavia, basta um passeio rápido pelo Facebook para perceber a emergência de “heróis” que defendem o oposto de tais princípios. Ditadura, darwinismo social, prepotência, sectarismo, obscurantismo belicoso, exaltação mística religiosa interesseira, solução de problemas centenários com medidas de exceção e um culto aos “salvadores da pátria” podem ser achados em todos os cantos virtuais da Internet.

Isso para mim é quase um alívio. Saber-se minoria é reconfortante para quem acredita que as unanimidades são tolas e frequentemente erradas. Lutar por mudanças de base – como uma nova visão sobre o parto e o feminino – é seara de decênios, e neste tempo é fundamental acostumar-se com a margem. O centro e seu conforto é reservado para os de índole calma; aos angustiados sobrará sempre a marginalidade e suas agruras.

E muitas vezes a solidão…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Evidências

Evidencias

Para quem deseja acreditar, até a opinião do porteiro do hospital passa a ser evidência “nível A”. Por outro lado, para aqueles que não aceitam que seus paradigmas sejam questionados nenhuma metanálise será suficiente.

Nossa mente pensa racionalmente, mas atua emocionalmente. O desejo nos controla muito mais do que nossa vã filosofia ousa admitir.Ao alcançar o umbral da razão as certezas se desfazem como a bruma desaparece sob o sol da manhã.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Defesa da própria cesariana

Cesariana

“A defesa da cesariana pelas mulheres que se submeteram a ela nada mais representa do que a proteção que estas fazem do sentido último da sua sexualidade. Por isso esta defesa frequentemente oscila entre a paranoia e a fúria.”

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Sobre as Tetas

ACER

Historias curtas de Porto Alegre….

Aconteceu enquanto almoçava solitário em um restaurante de Porto Alegre.

Uma senhora desconhecida se aproxima de mim enquanto eu estava terminando meu almoço. Com olhos arregalados, boca de um vermelho vivo e brincos extravagantes, ela coloca a mão no meu ombro e com olhar severo me diz:

– Você é o João Vicente, não é?

Ainda tenho tempo de terminar minha última garfada e, claramente surpreso, respondo:

– Olha, infelizmente não. Eu me chamo Ricardo.

Ela fica desconcertada e me enche de desculpas. Diz que estava me olhando há alguns minutos, mas que tinha “obrigação” de me perguntar quem eu era. Eu, também sem jeito, resolvo ser simpático e lhe digo:

– Não se recrimine. Esse João Vicente deve ser um jovem senhor muito charmoso também. É natural que as pessoas se confundam assim.

A senhora dá uma boa risada e me explica:

– João Vicente é meu sobrinho, filho da minha irmã, e ele é a sua cara. Incrível como são iguais! Na verdade, eu estava furiosa porque achei que ele estava esnobando sua velha tia.

Sorri para ela amistosamente e disse que nenhuma pessoa em sã consciência esnobaria uma senhora tão charmosa e chique, muito menos um sobrinho.

Mais uma gargalhada e ela arrematou.

– Muito verdade, Ricardo. Imagina só, mamou nessas tetas e agora me esnoba!!

Bateu forte com a mão espalmada nos seios fartos e saiu caminhando. Eu só olhei para o lado e baixei a cabeça, com esperança que ninguém tenha escutado pela metade nossa breve conversa.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Paixões, prisões

Paixão, prisão

Paixões são prisões autoimpostas, cárceres da alma onde o Império dos Desejos exerce sua tirania. Mas sem reconhecer o profundo significado destas pulsões fica impossível entender a trajetória humana que, despida de tais impulsos, não seria mais do que uma escrava das forças da natureza.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Desajustado

linchamento

É, sou um desajustado mesmo. Não consigo ver sentido em achar que a doença de um criminoso poderia ser apaziguada – ou minimamente tolerada – se sobre ele for aplicada outra violência, igualmente desumana e brutal. Quem acha que as notícias de crimes hediondos desnudam um mundo cruel e absurdo deveria esperar os comentários antes de se escandalizar.

Os comentários, eivados de ódio e indignação, são frequentemente mais violentos que o próprio crime a que se referem, emitidos por criminosos em potencial, linchadores embrutecidos pelas frustrações pessoais, mas que ainda não tiveram oportunidade de delinquir.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos