Arquivo da categoria: Pensamentos

Ódio

Hate

Mulheres que odeiam homens não precisam ler o que escrevo ou dissemino nos meus escritos e postagens, e podem guardar de mim uma distância respeitosa. Aliás, a mesma que me separa dos homens que odeiam mulheres, ou que as tratam como bibelôs idiotizados. Apenas entendam que o ódio que guardam dos homens não é espetaculoso ou explícito, mas opera nas sutilezas do discurso, nos silêncios e nos vãos que separam as palavras. O ódio que destilam pelos homens aparece nos pequenos detalhes dos comentários ou nos “calabocas” frequentes, que tentam impedir que um homem se manifeste sempre que a mulher é o assunto. Além disso, quando me dizem “eu não odeio os homens, tanto que casei com um” para mim faz tanto sentido quanto o velho clichê “não sou racista, já namorei uma negra“.

Homens que odeiam mulheres e as mulheres que os odeiam não precisam ler ou frequentar minhas ideias. Eu os respeito, mas não se faz necessária nenhuma proximidade.

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Lágrimas Seletivas

LAGRIMA

Nossas lágrimas só vertem quando conseguimos nos identificar com os dramas que a vida apresenta. A tragédia só dói se for em nós, real ou imaginária. Se um jogador de futebol tem uma filha com problemas médicos milhares de torcedores vão ao estádio doar sangue. É fácil se identificar com alguém que conhecemos e podemos entender seu sofrimento. Se um terremoto destrói cidades inteiras na China como poderei me identificar e sofrer? É preciso que haja mínima conexão identificatória. Brancos europeus caindo de avião são parecidos comigo (que sou branco e também ando de avião), mas negros trancafiados como escravos são sub-humanos, quase animais. Professor universitário apanhando em delegacia na ditadura vira filme; preto e pobre apanhando, nem B.O. Enquanto não enxergarmos TODOS os humanos como iguais estas distorções continuarão acontecendo, e nossas lágrimas serão seletivas.

Porque nos assombramos com os coreanos que comem carne de cachorro? Porque nos horrorizamos com a morte de baleias e golfinhos? E porque não fazemos o mesmo com peixes (tubarões em especial), gado, porco ou aranhas? Porque elegemos alguns animais cuja morte achamos inadmissível que ocorra em nosso benefício, mas para outros não estabelecemos a mesma simpatia? Porque existem fundações para a proteção de baleias, mas não de lagartixas?

Minha resposta é que protegemos a NÓS mesmos, e não os animais. É nossa dor identificatória que queremos aliviar. Um cachorro me parece mais humano, mais parecido conosco que um peixe. Se for possível a identificação, aí sofremos, mas esta identificação vai ocorrer se encontrarmos naquele animal algo semelhante a nós. Num cão tal processo parece muito mais fácil de ocorrer do que em um molusco. É a dor que sentimos que pretendemos afastar, e não a dor por ser ele um animal indefeso. Quando o avião com os europeus cai no oceano isso nos maltrata porque fica simples e fácil a nossa identificação com o sofrimento das famílias envolvidas: também temos famílias brancas e que andam de avião. O mesmo não ocorre em um cargueiro cheio de negros fugitivos trancafiados em um porão.

Quando os americanos matavam vietcongues na Ásia Menor nos anos 70 isso era sentido pela opinião pública americana, mesmo que secretamente, como “matar formigas”. O documentário “Corações e Mentes” daquela época mostrava os políticos americanos se esforçando ao máximo para desumanizar o povo do Vietnã, exatamente porque, assim transformados, ficava mais fácil aceitar seu aniquilamento sistemático.

Desumanizar é fundamental para levar adiante qualquer projeto macabro de destruição. Judeus, negros e os palestinos foram sujeitos ao mesmo tipo de monstruosidade.

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Cheiro Ruim

Perfume ruim

Hoje vi a última propaganda dos perfumes do Boticário. O filme começa com o anúncio da gravidez, as ecografias, a megalópole fria e feia onde a criança vai morar, os preparativos, as fotos da barriga crescendo, o último sorvete e termina…. tchan, tchan, tchan…. numa CESARIANA.

Lastimável que o exemplo de parto no Brasil é mediado por recursos tecnológicos usados de forma exagerada (ecografias) e por cesarianas. No vídeo fica claro a imagem da mãe impedida de tocar seu filho na hora em que isso é mais importante: a “hora dourada”. As imagens, para quem transita pelos caminhos da humanização do nascimento, são tristes de ver.

Todo o nascimento carrega a beleza da renovação e a esperança do futuro, seja ele de que maneira for, uma cesariana ou um parto normal. Não se trata, portanto, de desmerecer a beleza inerente da vida brotando em um nascimento. Entretanto, usar como EXEMPLO de nascimento uma cesariana apenas deixa mais evidente o atraso do Brasil em relação às grandes democracias no combate à banalização da cesariana. Propagandas como esta, vistas no exterior, dão a clara ideia de que no Brasil o normal da classe média (os usuários de perfumes do Boticário) é o nascimento pela via cirúrgica. A cesariana é limpa, moderna, chique e superior. Tudo errado, tudo falso. Cesarianas arriscam de forma clara e inquestionável o bem estar de mães e bebês. Este tipo de publicidade é lamentável e apenas reafirma nossa necessidade de mudar a atenção obstétrica cafona que este país tem.

Uma lástima Boticário…. Suas usuárias são “Too posh to push“, right?

Com tanto parto bonito e empoderador para apresentar preferiram se manter fiéis à classe média – a mais sofrida e castigada pelos abusos de cesariana – como estratégia de marketing. Para estas empresas, mais importante do que enfatizar um novo conceito – o parto humanizado, com óbvias consequências na saúde pública – é manter em alta a venda de seus produtos.

Publicitários precisam entender que uma propaganda não é boa apenas quando aumenta os lucros, mas quando imprime uma marca positiva na cultura. Propagandas assim tem cheiro ruim…

Nossa queixa é que a propaganda auxilia de forma marcante a banalização da cesariana. Se por exemplo, a propaganda mostrasse esta mãe fumando durante a gravidez poderíamos dizer que foi uma “escolha” dela, e que isso reflete a liberdade de determinar o que deseja. Verdade, mas o quanto esta conduta influenciaria outras mulheres? Como combateríamos o fumo na gravidez se uma propaganda associa felicidade, nascimento e vida com cigarro? Cesarianas desmedidas tem impacto na saúde das mulheres e precisam ser combatidas da mesma forma como tentamos diminuir cigarros e álcool na gestação. Concordo que “não podemos colocar a CAUSA em tudo“, mas eu acho que colocar cesarianas como o paradigma da gestação feliz é demais. Se esta moça filmou toda a sua gestação e ela terminou em uma cesariana, sinto muito, mas essa mensagem não pode ser veiculada. Se ela fuma, sinto muito. Não dá mais para tratar dessas questões sem – pelo menos – oferecer uma crítica severa e um contraditório.

Banalização de uma conduta se faz nos detalhes, e não com discursos grandiloquentes. Banalização das drogas é colocar um cara fumando maconha durante 15 segundos de um filme, e não fazendo um longa metragem sobre “as maravilhas da Cannabis”. Fica muito complicado o debate sobre o abuso dessa cirurgia quando a publicidade brasileira continua tratando como uma coisa bonitinha, uma opção como qualquer outra, tipo a cor do esmalte ou o corte de cabelo. Não, eu acho demais. Não tem mais como continuar estimulando essas práticas no Brasil. Não é por outra razão que somos os campeões mundiais de cesariana: ela é tratada com requinte e glamour em todos os espaços.

A queixa, entretanto, nem é exatamente contra a publicidade ou os publicitários, que talvez tenham feito um trabalho sob encomenda ou aquilo que lhes foi solicitado por uma empresa que avalia a preferência dos consumidores desta marca. Nosso incômodo é ver a cesariana – mais uma vez – banalizada e tratada como “perfumaria”. Escolhe-se por fazer uma cesariana como quem escolhe um dos perfumes da empresa. “Liberdade de escolha”, não? Pois é…. mas quando analisamos a barbárie das cesarianas desmedidas e abusivas no Brasil entendemos que este descontrole só pode acontecer exatamente porque a cesariana é tratada assim no imaginário popular. Talvez a deformidade nos pés das chinesas que usavam sapatos pequenos só foi possível porque era tratada como uma coisa corriqueira. A clitoridectomia talvez seja descrita em África como um “cortezinho” que cicatriza rápido e “ajeita” a deformidade natural da vagina. A circuncisão, prática medieval e amputativa da sexualidade masculina, é tratada pela cultura como uma cirurgia que retira a pela “que sobra” no pênis de crianças indefesas.

É assim que se constrói uma cultura: nos detalhes, na forma de descrever, na maneira de contar, no jeito que escolhemos relatar um fato, um evento ou uma cirurgia. O que é uma propaganda de TV senão uma história que se conta? O que é a publicidade senão uma janela da cultura, uma forma de absorver e observar os nossos valores e nossas características. Um comercial que trata a cesariana de forma tão “natural” e “banal” contribui para a construção de uma ideia positiva, afetiva e moderna de uma cirurgia que – como bem sabemos – só deveria ser usada em casos excepcionais. Não é à toa que propagandas de cigarro são proibidas: elas sempre tentaram vincular o cigarro ao sucesso profissional e erótico. Essa propaganda do Boticário faz o mesmo: vincula a cesariana ao sucesso de uma história de amor, e por isso ela deve ser repudiada.

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Mundo prisional

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Palavras de um colega médico que trabalhou durante muitos anos na maior penitenciária do meu estado…

“Depois de trabalhar durante anos no mundo prisional eu descobri que nós trancafiamos as vítimas, para que sua presença não deixe constrangidos os algozes, também conhecidos como “pessoas de bem”. Quanto mais eu falo com esses meninos mais me convenço de que são sobreviventes de um mundo que, ao mesmo tempo que os explora, guarda repulsa e nojo por eles.”

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Teia de Mentiras

Teia de Mentiras

Quando uma teia bem costurada de mentiras é vendida gradualmente para as pessoas através de gerações, a Verdade nos parece profundamente absurda e aquele que a traz um lunático em delírio“. (Dresden James)

Pensei nisso hoje quando discutia questões como episiotomias, circuncisões e cesarianas com um grupo extremamente ativo e lúcido de feministas americanas. Algumas mentiras (como a superioridade das cesarianas em oferecer segurança, os benefícios da episiotomia ou a inocuidade das circuncisões) foram enfiadas goela abaixo de gerações de homens e mulheres com tanto vigor e intensidade que qualquer um que ouse questionar estas inverdades é imediatamente tratado como ignorante ou maluco. Mentiras que, de tanto usarem a capa da verdade, acreditamos serem legítimas. Só o contraditório, a informação, o debate e o confronto podem nos auxiliar na busca do aprimoramento.

E o tempo, senhor de todas as verdades…

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Trânsito

Transito caótico

“Quantas vezes eu já me surpreendi no trânsito dizendo: “Por que esses babacas todos resolveram sair de casa na mesma hora que eu?“. Claro, depois tive que rir da minha cretinice. Afinal, eu não era uma ilha de correção num oceano de calhordas; eu era apenas um sujeito sem a adequada noção da parte que lhe cabe na formatação do caos de cada dia.”

Fiz esse comentário e lembrei daquela velha história de um homem (mas poderia ser uma mulher) que passa por uma mulher sem-teto embriagada e atirada na rua quando se dirigia ao supermercado. Na volta ele encontra a mendiga no mesmo lugar e comenta com um popular que passa ao seu lado. “Passei por esta mulher há meia hora e ninguém fez nada por ela desde então. Que gente sem coração! Custa tanto assim ser um pouco solidário? Que falta de fraternidade!!!” Diz isso, troca as sacolas de mão, olha mais uma vez para a pobre mulher e apressa o passo em direção à sua casa.

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Híbridos

Partolandia

No link abaixo pode-se escutar uma entrevista de um médico em período de transição, o que é interessante de analisar do ponto de vista das modificações lentas e graduais nos paradigmas e no “campo simbólico” que governa o nascimento humano. O profissional é o que se poderia chamar de “híbrido”: de um lado mantém-se colocado ao lado do paradigma médico intervencionista, mas percebe-se o seu real interesse em estabelecer uma crítica a este modelo. Ao mesmo tempo em que apoia o protagonismo do nascimento e as posições verticalizadas (o que infelizmente é raro entre os profissionais médicos) ainda insiste no mito da “cesariana humanizada”, usa o termo “parto cesárea“, investe na tese dos “riscos possíveis do parto na água“, e outros ideias que julgo ultrapassadas. Diz que não gosta do termo “parto humanizado”, e que prefere o “parto natural”.

Minha posição clara e histórica a este respeito é pela impossibilidade absoluta de seres humanos terem “partos naturais”, exatamente porque seres humanos dotados de linguagem são incapazes de se inserir no mundo natural. Seres humanos não são objetos da natureza, mas agentes, sujeitos de seu destino. A entrevistada também insiste na ideia de que o parto humanizado “não precisa ser vaginal”, pois que a cesariana também pode ser feita sob este paradigma.

Os pontos positivos aparecem na ideia de não interferência no processo e na postura clara de “restituir o protagonismo”. Durante a sua fala cita até “partolândia”, um termo consagrado há muitos anos em nossas falas. Ao que parece está cada vez mais claro que a humanização do nascimento, como há muito tempo reclamamos, parte de uma visão de direitos humanos reprodutivos e sexuais, onde o DIREITO de escolha por parte da mulher ocupa a posição central. “Humanização do Nascimento é restituir o protagonismo a mulher, o resto é apenas sofisticação de tutela”, já me dizia o colega Max há mais de 30 anos.

A entrevista mostra que é impossível ficar alheio à humanização do nascimento e as transformações inerentes a este novo paradigma quando se trabalha no dia a dia com um novo padrão de “clientela”. As MULHERES – únicas e legítimas proprietárias desta revolução – estão mudando a cabeça dos médicos aos poucos. Não há como voltar atrás: esta revolução veio para ficar.

http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2015/03/parto-humanizado-e-como-todo-o-parto-deveria-ser-diz-obstetra

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Admirável Mundo Novo

Acompanhei meu pai a uma consulta médica em um centro clínico ligado a um hospital da minha cidade. A princípio seria uma consulta banal, para entrega de exames e uma conversa sobre os medicamentos que ele utiliza. Marcada a consulta nos dirigimos ao hospital.

A entrada do prédio é majestosa, por onde seguranças discretos passeiam de um lado para outro, com os indefectíveis fones de ouvido. O hall é grande, amplo, marmóreo e limpo. Se de um lado tal magnitude reforça a imponência do ambiente, por outro lado diminui de forma considerável a importância do sujeito que o procura. Eu me senti pequeno, diminuto, uma minúscula engrenagem num sistema gigante. Apresentamos nossos documentos de identidade para funcionários de uniforme. Meu pai tentou dizer uma gracinha costumeira para a funcionária, para tentar desmanchar seu olhar soturno. Nada conseguiu. Após dizermos o nome da médica e a sua especialidade, recebemos nossos crachás magnéticos e brevíssimas instruções de como usá-los nas catracas eletrônicas.

Ao lado da recepção uma grade é interrompida por pequenos monstrengos cromados: as catracas. Uma leve aproximação do crachá modernoso e uma seta verde brilha no aparelho trifásico. Está liberada. “Catrrracc“, grita o bichano quando meu corpo empurra seus braços de ferro. Sim, ponderei… nada mais é que uma onomatopeia, mas só hoje, depois de mais de 50 anos, eu me dei conta dessa banalidade. Nunca é tarde para se aprender com a experiência cotidiana. Pegamos o elevador que vai para o décimo segundo andar. Impossível não lembrar:

Estranho é gostar tanto do seu All Star Azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje

Infelizmente não era Cássia Eller que estava nos aguardando para terminar aquela conversa que começamos no outro dia. Na verdade eu gostaria de lhe dizer muita coisa. Queria ouvir sua voz rouca, falar sobre seu filho, a dureza de uma vida conturbada, suas dificuldades em lidar com a sexualidade sem arreios. Queria também lhe perguntar, por exemplo, naquele fatídico dia, o que ela…

Meu pai interrompe meus pensamentos e aponta para uma máquina pequena à nossa frente. Pequena e amarela, com um botão azul. Sobre ela o lia-se um cartaz: “Retire sua senha e aguarde ser chamado”. Aperto conforme determinado e o aparelho vomita uma tarja amarelo-biliosa com um número destacado: 341. Digo ao meu pai que é melhor sentar e aguardar, pois ainda teremos 340 consultas antes da nossa. Ele sorri, pois sabe que este é um humor típico da nossa família, e a culpa é sua por essa herança maldita. Seguimos em frente e entramos na ampla sala de espera do centro clínico.

A sala estava repleta de pessoas, mas achamos vagas duas poltronas no canto. À nossa frente uma linha de recepcionistas com telefones acoplados à cabeça. As pessoas na recepção não sorriem, parecem tensas ou conformadas. Não existe nenhum vestígio de alegria. Meu pai ainda tenta me contar piadas, ou fazer comentários curiosos sobre as pessoas presentes, mas o ambiente não ajuda. Ficamos alguns minutos aguardando que algo viesse a acontecer, mas a TV ligada à nossa frente com reprises de novelas dos anos 90 era o único som a preencher o ambiente carregado. As janelas mostravam um dia radiante, com temperatura ainda amena e agradável, mesmo que o clima dentro da sala de espera fosse artificialmente controlado. Os raios de sol passavam raspando pela última das janelas, deixando um filete radiante e dourado na parede adjacente, anunciando que o pôr do sol não tardaria.

Resolvi me levantar e perguntar o que ocorreria a seguir. Dirigi-me à recepcionista que estava livre e sem dizer nada apresentei a ela minha “senha”: 341. Ela me cumprimentou sorridente e disse que já ia mesmo chamar. Avisou que a consulta está confirmada com a doutora “P”, neste mesmo andar, e que anunciaria no sistema de alto-falantes quando fosse a hora de entrar. Já haviam transcorrido mais de 30 minutos de nossa chegada e o horário da consulta também já tinha passado.

Voltei para o meu lugar e meu pai apenas deu de ombros. Continuamos a conversar sobre amenidades: meu neto, a comunidade que pensávamos criar, minha mãe. Alguns minutos mais tarde o alto-falante anunciou: “Pacientes da doutora “P”….

Levantamos imediatamente, mas notamos que ao nosso lado outra pessoa também se ergueu. O som do alto-falante continuou: “Pacientes da doutora “P”…. as consultas estão atrasadas em uma hora”. Percebemos que o senhor que se levantou ao nosso lado também esperava por uma consulta com a mesma médica. Olhou para nós conformado e resolveu ligar para alguém da família avisando o atraso. Finalmente, uma hora e meia após o horário previamente marcado, e a recepcionista nos avisou. “Por favor, dirijam-se ao consultório de número 11 no corredor à esquerda”, diz a secretária. Um pequeno passeio pelo labirinto e fomos levados pelos números nas portas idênticas até o consultório. “Consultório 11 – Office 11”, dizia a placa bilíngue, obviamente preparada para a Copa do Mundo.

Era tudo branco. Uma parede branca, cadeiras brancas. Um computador sobre uma mesa branca e nua. A Dra. “P” nos recebeu amavelmente, com um sorriso e boas-vindas. Nem uma palavra sequer sobre o atraso de uma hora e meia. Lembrei das palavras do meu filho, quando costumava almoçar comigo próximo do meu consultório, na época em que ele estudava no centro da cidade. Saíamos do restaurante, depois de muita conversa, às 14h, o exato horário em que estava marcada a minha primeira consulta da tarde. Na verdade o consultório ficava na mesma quadra do edifício onde eu trabalhava, o que me faria chegar 5 minutos atrasado. Diante dessa minha desculpa, meu filho sempre respondia: “Claro, são os SEUS cinco minutos, e não os do paciente. Eles que esperem, afinal são pacientes, certo?” Ele tinha razão, mas os atrasos em consultórios médicos, excetuando-se a parcela menos expressiva de atrasos justificáveis, são derivados da curiosa tessitura que compõe esse encontro. A espera do paciente – muitas vezes torturante – é a primeira parte da consulta; ela serve para mostrar quem manda naquela relação. O chá de banco é uma instituição que normatiza relações de poder desde que o mundo é mundo – ou desde que os bancos foram inventados. O tempo, a mais importante mercadoria, se mantém sob o controle de quem detém o poder. Ao doente, já desempoderado pela sua fragilidade física ou emocional, só cabe esperar. E ser “paciente”.

A Dra. “P” começou a sua consulta e pediu para que o meu pai esclarecesse o que ocorreu em suas últimas entrevistas. Percebi que ela lembrava muito pouco do caso que estávamos trazendo à sua frente. Olhava para meu pai tentando lembrar detalhes, até que ele mencionou um exame realizado, o que a fez ligar instantaneamente uma lanterna mental que iluminou um espaço obscuro de suas lembranças. Depois disso ela perguntou as reações a algumas medicações e os efeitos previstos no organismo.

Nenhum papel, nenhuma anotação. Não havia uma caneta sobre a mesa. Nada, uma mesa branca, limpa, estéril. Não havia marcas da consulta anterior, nenhuma ficha sobre um canto da sala. Este ambiente era idêntico a um pequeno ambulatório, como aquelas salas de hospital onde se aplicam injeções ou se faz uma nebulização. As paredes, alvas e nuas, não tinham nenhuma marca, nenhum prego. Somente atrás da cadeira da doutora havia uma pintura abstrata, igual a várias outras espalhadas pelo centro clínico. Percebi que estas obras eram feitas em série: o mesmo artista, a mesma técnica. “Ah, você é artista? Pois queremos comprar umas obras suas. Quantas? Umas 100, todas do mesmo modelo, assim, como se diz? Ahhh… abstrato

Não havia livros na sala. Ou revistas. Qualquer informação era obtida pelo computador. Percebi que a história do meu pai estava ali, na tela, mas era apenas a fotografia biológica de um sujeito; nenhuma percepção subjetiva, impressão, ideia ou intuição. Não, apenas cálcio, sódio, ferro, hemogramas, eletrocardiogramas, ureia e fosfatases. A nudez absoluta, a minimalização extremada: uma pessoa reduzida aos seus componentes moleculares. A complexidade infinita de um sujeito condensada em poucos elementos químicos e desenhada nas linhas de traçados sinuosos.

Percebi, com uma espécie de espanto, que aquele consultório não era da Dra. “P”. Aquele era um “consultório genérico”. Uma mesa branca, uma maca branca, paredes brancas e um computador. A Dra. “P” provavelmente chegou ao hospital e perguntou às secretárias qual consultório havia sido designado a ela para as consultas daquele dia, e para lá se dirigiu. Não havia nenhuma marca pessoal: a foto do namorado, ou do marido, uma foto de crianças ou de um lugar que lhe trazia lembranças agradáveis. Não, ela era tão alienígena ali quanto nós.

Fui obrigado a fazer uma comparação mental com o meu consultório. Livros pela sala, que servem de consulta à Matéria Médica e ao Repertório Homeopático. Livros de obstetrícia e manuais do Ministério da Saúde. Quadros nas paredes da recepção. Pedras sobre a mesa, presentes de uma paciente geóloga. Ao lado esquerdo dos pacientes um nu feminino e as fotos de meus filhos misturadas – propositalmente – com crianças fotografadas em Serra Pelada por Sebastião Salgado. Papéis espalhados, fichas de pacientes, calendários de data menstrual, anotações de partos futuros e datas de palestras. Café, muito café. Crachás de palestras que participei, coleção que imitei de Debra Pascali-Bonaro. Música no computador, onde uma foto sorridente do meu neto Oliver aparece em alta definição. E Zeza ao meu lado…

A Dra. “P” explicou pacientemente as medicações e as medidas a serem tomadas. Foi educada e mostrou interesse em todas as informações, mas era possível perceber, mesmo que de forma muito sutil, a impaciência para o término da consulta. Sim, não mais do que 20 minutos já haviam passado, mas o que mais há para se falar sobre moléculas, exames laboratoriais e efeitos colaterais de medicações? Meu pai, ingenuamente, espichava a conversa e tentava falar dele, de suas manias, seus jeitos, suas ideias e suas suposições. Arriscava disgnósticos baseados em suas percepções e na sequência lógica de eventos que experimentava. Criava fantasias sobre suas dores e sofrimentos e a possível conexão destes com seu mundo afetivo e emocional. Nada disso parecia cativar a atenção e muito menos atiçar a curiosidade da jovem doutora; nada a fez aprofundar qualquer dessas questões. Meu pai falava de uma conexão para ela inexistente, mundos separados por séculos, onde os desejos, as paixões e a angústia haviam se divorciado da carne crua, e com ela não mantinham nenhum contato. Mas meu pai não sabia desse divórcio litigioso e continuou a falar sobre sua alma até que eu, gentilmente, lhe toquei o braço, anunciando que era tempo de “liberar” a doutora da nossa presença.

Combinamos uma nova consulta para um par de meses, apenas para acompanhar o andamento das novas medicações. Nos despedimos e caminhamos em sentido inverso no corredor branco que nos levava de volta à recepção, e de lá para os elevadores, as catracas e o mundo. Falei ao meu pai que aquela consulta poderia ter sido feita por telefone, durando não mais do que 15 minutos de simples informações, o que ele concordou. Comentei que naquele ambiente nós não somos relevantes; somos peças de uma engrenagem, da qual o médico é também apenas mais um elemento. Percebi que quem fez a consulta foi o computador, o sistema: os exames, as análises laboratoriais, as pesquisas dos remédios, tudo isso é feito por programas específicos que guardam todas as informações. Ao mesmo tempo em que somos estorvo, o médico se torna, paulatinamente, supérfluo.

Eu havia visitado com meu pai o “Admirável Mundo Novo”, ou as clínicas de eutanásia de “Soylent Green”. O cenário futurista e tecnológico servia para deixar claro que o importante no local é o fluxo ordenado, a segurança e o controle; as consultas são meros acessórios para a fluidez mecânica e programada de todos os elementos do atendimento. A identificação, as catracas, as senhas, a espera tediosa, a consulta meteórica, as salas nuas e despojadas, o tratamento educado, gentil e intencionalmente impessoal, tudo me mostrava que ali não éramos as estrelas. Sim, Cássia, ali nós não fomos “All Star“. Não, os pacientes são pontos escuros em um mapa de circulação humana numa central cibernética. Nada naquele dia me mostrou afeto, proximidade, carinho, cuidado centrado no sujeito, entendimento e visão complementar. Tudo era branco demais, limpo demais, claro demais. Estéril.

Pensei na minha abordagem “narrativa” de pedir a uma paciente – que me procurava por um corrimento ou uma dificuldade em engravidar – que discorresse livremente sobre sua vida e suas paixões; sua história e seus sonhos. Percebi que é provável que muitas clientes pensassem nisso como uma absurda perda de tempo, uma conversa sem sentido e que apenas atrasava a chegada “ao ponto”: a mancha, a dor, a cólica, o prurido, as tripas, as angústias e as feridas. Por outro lado, algumas percebiamm que é exatamente nessa conversa e nessa experiência exonerativa que se instalava a verdadeira conexão terapêutica. Não é no remédio, na droga ou no bisturi: é na palavra, a não ser quando o desequilíbrio avançava a ponto de não ser mais possível recuperar o dano que se instituía no corpo.

Minha mente me fez lembrar, sorrindo, das minhas consultas na Liga Homeopática. Lá, mesmo que não soubessem, os pacientes marcavam uma consulta mas recebiam duas. A minha, consulta médica propriamente dita, e a “consulta” que tinham com a secretária que os atendia na recepção. Esta mulher, dotada de uma rara sabedoria, acalmava, tranquilizava, oferecia alternativas, orientava e preparava os espíritos para a consulta que ocorreria em alguns minutos. Por mais que entendamos os limites destes encontros, é importante reconhecer e reverenciar seus aspectos terapêuticos. Ali, tudo era conexão: os filhos, o emprego do marido, as dores nas pernas, a gastrite e as gripes; nada fugia à necessária conexão com o todo.

Já na rua me despedi de meu pai. Foi um prazer poder acompanhá-lo à consulta, e penso que os filhos deveriam fazer isso sempre. Infelizmente percebi que o mundo contemporâneo não trata os pacientes como as estrelas no cenário da atenção. A tecnologia, com seu canto sedutor, nos faz acreditar que as paredes brancas e assépticas de uma clínica, o avental impecável de uma jovem doutora, o computador cheio de dados e números, possa – por fim – nos desvendar os mistérios últimos que nos constituem. A pobreza das respostas, a falha de cumprir com sua promessa de nos redimir da dor e da morte, nos mostram que pouco ou nada sabemos de profundo sobre os enigmas que nos rondam. Saímos do centro clínico com algumas angústias a mais do que tínhamos ao chegar. Voltei meu olhar para a rua e caminhei em direção ao estacionamento. Pensei mais uma vez em Cássia… e falei com ela em meus pensamentos. Na minha cabeça chegaram palavras, palavras ao vento…

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras

PS: Voltei a ler esse texto 10 anos após ter sido escrito. Coloquei minhas impressões no papel logo depois da consulta com meu pai. Nesta época, tanto ele quanto minha mãe ainda estavam vivos. Na verdade, ao escrever o texto ocultei detalhes importantes. Não era uma “doutora P”, mas um médico, muito jovem, um neurologista com poucos anos de formado, e a consulta era para a minha mãe (que não tinha condições de estar presente). Esse jovem neurologista era profundamente arrogante, insensível e sem qualquer tipo de empatia. Ele havia atendido a minha mãe durante uma crise terrível que ela passou no hospital Moinhos de Vento e chegou 2 horas após ter sido chamado, e para esse atraso sequer pediu desculpas ou se explicou. Chegou ao hospital vestido como se estivesse em uma festa, e fez questão de deixar claro – por suas atitudes – que a crise neurológica de minha mãe estava atrapalhando sua vida social. A consulta havia sido marcada com ele porque foi automaticamente agendada quando minha mãe recebeu alta.

Não revelei isso no texto original porque era a minha irmã quem controlava os médicos do meu pai e da minha mãe e eu não queria que ela soubesse da minha contrariedade; não desejava ser o responsável por atrapalhar uma transferência que podia existir. Muitos anos depois meu pai me disse que havia detestado a consulta e o médico, mas não quis me dizer para que eu não pensasse mal dele. Fiquei muito impressionado com o péssimo atendimento da chamada “medicina de grupo” (meu pai tinha Unimed) e percebi o quanto este tipo de seguro saúde vale muito mais como divisor de classe social do que um verdadeiro “upgrade” na qualidade do atendimento. Uma sociedade realmente evoluída não divide a atenção à saúde por classes: num mundo ideal, o médico do Ministro atenderia também os faxineiros do Palácio.

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Fabrício e Adelir

Fabrício-Adelir

Exatamente nos umbrais de abril, um ano depois de Adelir ser forçada a realizar uma cesariana sob ameaça e coerção, um jogador de futebol se rebela, joga a camisa do clube que o sustenta ao solo, sai de campo vaiado, recebe ofensas de todo tipo (raciais?) e termina seu ato dizendo que vai embora para não mais voltar.

Qual a relação entre estes dois fatos, ocorridos na mesma terra, no extremo mais conservador do Brasil?

Não creio em coincidências, e muito menos que a distância entre estes fatos não possa ser ultrapassada com um pouco de análise crítica. Penso que os valores que circulam no campo simbólico acabam se acumulando sobre as nossas cabeças como nuvens, as quais por fim se precipitam sob a forma de raios e tormentas aparentemente sem causa, diante de fatos cuja intensidade oportuniza uma fissura na casca protetora dos discursos.

Os elementos que ressaltam em ambos os casos são relativos à forma como a sociedade enxerga estes personagens. Se de um lado Adelir era uma “máquina de parir” à nossa disposição, cujo produto – o bebê – a nós pertence, também Fabrício é uma “máquina de jogar”, cujo passe pertence ao clube, e sua arte a todos nós. Um jornal local chegou a chamar Fabrício de “um ativo financeiro do clube” e que, por isso (seu valor como mercadoria), deveria ser preservado.

Em ambas as situações os sujeitos coisificados se rebelaram.

Adelir refugiou-se em sua casa com uma doula, aguardando o momento mais adequado – o mais tarde possível – para chegar ao hospital, esperando com isso conseguir seu parto normal. Foi ameaçada, trazida de casa por policiais armados e sem chance de defesa. Sucumbiu ao poder maior dos proprietários de corpos, os que manipulam nossa vida em nome de uma ordem imutável. O objeto de parir foi conduzido para o lugar que a cultura designa, sem qualquer autonomia sobre sua vida e seu destino. Calou seu corpo e submeteu-se à lâmina fria que cortou seu ventre e seu sonho.

Fabrício também deu seu grito de basta. Com as vaias e apupos trancados na garganta, misturados com uma história pessoal de perdas, dores, mágoas, tristezas e decepções, ele explode de raiva e indignação incontidas. O objeto de jogar chora e grita em campo, afasta-se dos companheiros, xinga a turba ensandecida, caminha de cabeça erguida para o vestiário e grita para todos “eu vou embora, aqui não jogo mais“.

Nós testemunhamos um sujeito se desmanchar emocionalmente em campo. Quase todos viram um jogador desesperado, mas alguns viram um ser humano despencar devido a uma pressão violenta e insana. Um gladiador que, ao ver a turba ensandecida clamando por sangue e glórias, se rebela. Tira seu escudo e suas armas, joga-as ao solo. Olha para os assistentes com indignação, os quais respondem com incredulidade, que logo dá lugar ao ódio.

Penso na crise existencial de Fabrício e não consigo tirar da mente a imagem de Spartacus…

Dois atos separados por um ciclo solar, mas unidos pela rebeldia. Em Fabrício e Adelir vemos a insistência em ser protagonistas de suas vidas, e de não entregar seus corpos ao gozo alheio. Adelir tornou-se um símbolo na luta contra a violência obstétrica institucional, e um ícone do protagonismo responsável que almejamos. Fabrício e seu ato tresloucado representam a insurgência contra um modelo que objetualiza pessoas para servirem como depositários de nossas frustrações, mágoas e fracassos.

Que ambos sirvam de reflexão para a posteridade. Que o protagonismo da mulher no parto seja sagrado e respeitado por todos, e que o respeito à pessoa humana do artista, ou de qualquer figura pública, seja uma constante.

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Abraço, Fabrício…

Fabrício

Abraço, Fabrício…

Sabe o que é desumano?

É quando retiramos as qualidades humanas de um sujeito, sua unicidade e subjetividade, aquilo que o transforma em uma pessoa única. É quando ele deixa de ser alguém, e passa a ser uma “coisa”.

Ontem testemunhamos um fato raro no futebol. O jogador Fabrício do Inter, após ser vaiado por uma parte da torcida, investiu contra ela com gritos, insultos e gestos obscenos. Uma cena lamentável de violência e descontrole. Ato contínuo, foi expulso pelo juiz e tirou a camisa do seu clube. Arremessou-a ao solo e, mesmo sendo contido pelos colegas de profissão, rumou célere para a saída do campo, sinalizando com gestos que jamais voltaria. Boa parte da torcida colorada, em especial aquela que o estava vaiando, vibrou com a sua expulsão e a saída. O futebol, haja vista sua má fase, pouco perdeu. Mas e o nosso senso de humanidade?

Poucos dias atrás, uma outra desgraça, desta vez atingindo o (ex) todo poderoso José Dirceu, foi tratada com deboche e escárnio por centenas de internautas. Quando do anúncio de seu AVC (Acidente Vascular Cerebral) inúmeros comentários depreciativos surgiram nas redes sociais, fazendo troça com a doença do ex-ministro. Com os candidatos e a presidenta, o mesmo. O ministro Guido Mantega, em visita a um hospital, foi brutalmente hostilizado por pessoas na recepção. As figuras públicas perdem a sua condição de humanas, e passam a ser meros personagens, sem vida, história, subjetividade ou porvir.

Desumanizar é tirar do sujeito sua essência humana. É coisificá-lo para o nosso gozo, seja ele qual for. É olhar para uma mulher e reduzi-la a peitos e bunda, para um homem e torná-lo apenas força, poder e dinheiro. Um jogador de futebol vale apenas para o nosso gozo, sem que seus sofrimentos, sua vida, suas fragilidades e sua história sejam levadas em consideração.

O jogador Fabrício, soube-se hoje, tem um irmão que está preso, e outro que já morreu pelas mesmas razões: tráfico de drogas. Sofria pressão desumana de torcedores que achavam que ele não estava jogando o quanto devia. A pressão também chegava de uma “crônica esportiva” espetaculosa, insensível e grosseira, que ressalta ainda mais a objetualização dos jogadores, tornando-os marionetes de seus conceitos e alvos fáceis para suas piadas de gosto duvidoso. Por mais que se entenda que as gratificações monetárias para os jogadores são muito altas (para uma elite restrita e minúscula, como no caso do Fabrício) também é verdade que a tensão para cumprir metas, nunca errar, jamais falhar, lutar como um gladiador, oferecer o sangue, destruir a própria saúde em nome de uma bandeira é uma tarefa pesada demais para qualquer um, e mais ainda para meninos de origem pobre.

Não foram poucos os jogadores que pensaram em suicídio. Outro famoso jogador do Internacional, quando jogava no exterior, longe da família, sem falar o idioma local, sem amigos e sem referências, subiu no alto de um prédio e por pouco não se arrojou de lá, acabando com sua vida. Teve mais sorte do que Fabrício.

Fabrício explodiu, rompeu a corda. Diante de tanta tensão acumulada ele não aguentou a(s) pressão(ões). Não suportou o desprezo da torcida por quem se dedicava ao limite e jogou tudo para o ar. Todavia, quando o que ele mais precisa é de compreensão e de uma palavra amiga, ele recebe deboche, críticas, mais violência e desprezo. O objeto Fabrício passa a ser desimportante e, mais ainda, incômodo. “Joguem fora essa peça, ela já não nos serve mais.

Fabrício precisa de um abraço. Se serve o abraço de um gremista, aqui vai. Erga a cabeça, olhe para frente, pense na sua família, tente se acalmar. Existe um grande futuro ainda possível, se você puder ultrapassar este momento.

Vai passar, vai passar…

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