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Escândalos

Talvez a exagerada exposição pública dos abusadores seja uma etapa necessária (ou inevitável?) para a reparação da violência contra a mulher. Para que se produza um novo patamar nas relações de gênero parece que o escândalo não pode faltar. Talvez a pletora de condenações públicas produza a mesma reação de um abscesso que, depois de causar muita dor, finalmente se rompe. Se de uma forma produz aversão, por outra nos traz alívio, pois sabemos que sua exposição é a única forma de curar o processo infeccioso.

Jaizkibel Oier Echepare, “El Correo”, Bilbao

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Mata!!!

Se eu fosse exposto à sanha justiceira de uma massa ensandecida, você me defenderia? Pense bem: ajudaria a colocar uns gravetos em solidariedade às mulheres e às crianças ou pensaria nas outras hipóteses (exagero, ilusão, mentira, fantasia)? Vou mais longe: se fosse um filho, marido, namorado, amigo, seu pai você teria o mesmo sangue frio e decretaria que “criança não mente” ou “não se duvida da vítima“? Ou diria “ah, mas esse caso é diferente“?

Eu não li nada sobre o caso de abuso da menina no avião além da manchete que é jogada na nossa cara pelas redes sociais. Em verdade eu me nego a ler sobre isso porque me dói pelas duas possibilidades: se for verdade e se não for. Se for um caso verdadeiro de abuso a descrição do que ocorreu me faz identificar com a indignação da família e com a sensação de impotência diante da violência cometida. Porém, se não for verdade, penso na dor terrível de sofrer uma acusação dessa gravidade sem ter cometido crime algum. Posso sentir ambas as dores e por esta razão me protejo ao não querer saber nenhum detalhe. Se alguém tiver curiosidade em entender como me sinto diante desses relatos assista “The Hunt”, um filme brilhante e sensível sobre uma acusação de pedofilia. Qualquer um que já tenha sido vítima de uma injustiça e sofreu julgamentos pelo “senso comum” poderá entender a minha angústia.

Já participei de perto de uma situação que ocorreu com um amigo de parentes meus. Uma menina acusou na policia o ex-namorado de abuso em uma situação aparentemente normal. O caso teve seguimento na justiça, não houve nenhuma prova substancial que sustentasse a acusação e nenhuma evidência de que o rapaz que tivesse agido com violência. Por isso foi absolvido. Essa foi a decisão do processo, mas nunca fiquei sabendo dos detalhes pelas razões que expus acima. Se houve ou não algum abuso é algo que ficará sepultado na memória dos dois envolvidos.

Entretanto, pude ver como as mulheres próximas apoiaram o rapaz diante da acusação. A irmã, a mãe, as amigas e outras mulheres próximas ofereceram a ele o apoio fundamental para suportar os ataques. Desta forma percebi que a adoção de uma postura de defesa irrestrita à narrativa feminina não é automática ou natural; outros afetos entram em pauta.

Quando vejo linchamentos assim (ou desejos de justiciamento) sou sempre tomado de uma espécie de pânico, talvez por coisas bem pessoais e subjetivas. Consigo entender o mal que um abuso pode causar à uma criança, uma mulher e sua família, mas já vi tantas injustiças sendo cometidas pelo “fenômeno de boiada” que sempre temo que esse possa ser mais um sujeito destruído pela ânsia de linchamentos causados por uma raiva esparsa que se concentra em um sujeito, como ocorre com o menino que rouba seu celular e é espancado à morte por uma multidão que encontra nessa catarse de ódio uma espécie de alívio para suas tragédias pessoais.

Diante de uma acusação dessa gravidade  como o abuso sexual, eu jamais correria a dizer que o sujeito é culpado sem ter plena certeza disso. A possibilidade de atingir um inocente me paralisa. A ideia de sacrificar alguém que nada fez apenas por sentimentos de raiva e indignação me causam profundo horror. A sensação é semelhante àquela de quando algo desapareceu da sua casa e todas as suspeitas recaem sobre a faxineira negra e pobre. A possibilidade, mesmo minúscula, de não ser ela a culpada pelo desaparecimento me impede de tomar qualquer atitude acusatória, pois para mim é simples e fácil me identificar com a dor de ser acusado desta forma, ainda mais por gente poderosa contra a qual não se tem chance alguma.

Tentem enxergar essa história pelo outro lado. Procurem imaginar-se na outra ponta do dedo em riste. Mais uma vez: nada sei do que houve nesse e em outros relatos. Não sei qual a narrativa da mãe ou quais as provas que ela possui. Este é apenas um desabafo diante do monstro de indignação que se forma, cujos olhos ficam muitas vezes embaciados pelo calor de uma raiva justa, mas que não raro acusa e destrói inocentes.

Posso, todavia, afirmar que se a acusação fosse contra um amigo dileto eu correria para lhe defender, mesmo correndo o risco de “quebrar a cara”. Prefiro mil vezes errar por proteger meus amigos de uma possível injustiça do que ser fiel a conceitos abstratos e, assim, acabar por permitir – por ação ou omissão – que um afeto seja levado à fogueira.

Alguns argumentos deste debate me deixam com muito medo. Tipo “a mulher nunca é escutada“, ou “o depoimento dela não vale nada“. Ora, isso é verdadeiro na maioria das situações, mas ninguém pode ser julgado por ser homem ou por vivermos em um mundo machista. Precisa haver provas concretas de que um crime foi cometido, caso contrário haverá um caos jurídico onde qualquer acusação é tomada como verdadeira apenas por ter sido feita por um sujeito que pertence a um grupo oprimido. Lembrem que há poucos séculos as bruxas eram julgadas assim. Diante de um mal social qualquer os dedos eram apontados para elas, de forma imediata. Talvez tenha sido a partir daí que eu desenvolvi minha aflição.

Eu reconheço o sentimento de pessoas que acham que a solidariedade a uma causa (as mulheres, as crianças, o fim da impunidade, etc.) se sobrepõe à dor de alguém que pode estar sendo injustiçado. Eu entendo está atitude, mas só de pensar sinto calafrios.

Podemos então aceitar como verdade que qualquer ação peremptória de acusação é errada, seja ela dirigida ao suposto autor ou quando dirigida à queixosa. Mas eu defenderei a inocência de qualquer um até prova em contrário e trânsito julgado. E não sou eu que defendo esta posição; a própria evolução civilizatória escreveu este preceito de presunção de inocência nas constituições.

Como eu disse, defendo qualquer pessoa que está sendo acusada e se julga inocente, exatamente porque ela É inocente…. até se provar o oposto. Defender um homem só porque ele é homem é tão errado quanto defender uma mulher por ser mulher, ou uma criança por ser assim. Isso é preconceito. Eu não me identifico com os homens e não faço para eles defesas peremptória, mas me identifico com o sujeito – homem ou mulher – que vê a horda sequiosa de sangue se aproximar com a lenha e a gasolina sem que sua voz possa ser escutada.

Exemplo: um negro rouba um celular e tem várias testemunhas. Ele se diz inocente. O juiz o absolve porque nessa sociedade “ninguém escuta os negros”. Sério???? Seria lícito a um juiz falsear a realidade para contrabalançar a injustiça social histórica contra os negros????

Existe um preconceito histórico contra as mulheres e uma desconsideração da fala das crianças. Entretanto, não se conserta estes erros milenares criando outras injustiças ou oferecendo às mulheres uma voz que não possa ser contestada. Está errado. Não são a polícia e o juiz que vão consertar os preconceitos deixando de agir dentro da lei. O fato de crianças e mulheres serem desconsideradas nesta sociedade é um problema cultural que precisa ser resolvido…. pela cultura, e não pela justiça!!!

Quero apenas que as pessoas que o julgarem o façam sem preconceitos contra ou a favor, e que a verdade prevaleça. Espero que essa menina esteja bem e ouso esperar que o próprio acusado também fique bem. Se for inocente que consiga suportar os ódios que recebe; se for culpado que possa suportar o castigo merecido e que isso sirva de lição para o que resta de sua vida.

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Big Brother de Comida

Sobre os “Reality Shows de Culinária”…

Escrevi sobre o tema há alguns meses dizendo que o programa tinha como pano de fundo cozinha e comidas, mas teria igual formato e quase a mesma audiência se fosse uma oficina de conserto de bicicletas. Nunca assisti o programa, exatamente porque não aceitaria ser enganado por um esquema tão óbvio.

Na época chamei de “Big Brother de Comida” e fui criticado. Não concordei com a crítica e mantive minha opinião. Em uma das edições a discussão ficou centrada no machismo dos concorrentes contra uma menina (que disse não ser feminista, mesmo tendo sido colocada nas alturas por estas).

Este episódio me comprovou que os concorrentes eram escolhidos por qualidades alheias às suas habilidades de fazer boa comida ou ao paladar aguçado, mas pela capacidade de gerar identificações com estereótipos (a tímida, o palhaço, o sóbrio, o pobre batalhador, o arrogante, a gordinha simpática, a bonita, etc) e a chance de gerar tretas e brigas sobre temas alheio à culinária. Essa interpretação dos programas de culinária me representa, mas sei que muitos vão continuar discordando de mim. Abaixo um fragmento do texto de Marcos Nogueira (na coluna Cozinha Bruta) publicado na Folha de São Paulo sobre estes reality shows gastronômicos:

“Quem liga a TV em um reality culinário não quer aprender a cozinhar. Tanto faz se queimou o “beef Wellington” do gordo simpático, ou se a menina que chora esqueceu o açúcar do merengue. O espectador está faminto pelo cardápio de maldades oferecido nos bastidores. As intrigas, as panelinhas, os conchavos.”

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Festa fora de casa

Analisem com isenção estes dados: o Inter tem 10 grandes títulos em nível nacional e internacional, enquanto o Grêmio, por esse critério, tem 15. Não há como contestar esses números. Falo de campeonatos importantes e reconhecidos, e não de copas Surugas, Juan Gamper, torneio de Futsal, sub-15 etc. Caso queiram juntar tudo isso o Grêmio tem 33 conquistas e o Inter 19 (vejam no site dos clubes). Analisei apenas as grandes conquistas e ainda coloquei a sul-americana neste balaio, mesmo sendo contestado o seu valor porque é necessário ir muito mal no campeonato do seu país para poder disputar esta competição. Além disso o Inter venceu jogando contra clubes com times reservas e, na época, sem garantia de acesso à Libertadores. Analisando os títulos importantes, o quadro comparativo ficaria assim;

Inter:

3 Nacionais série A,

1 Copa do Brasil

2 Libertadores

1 Sul-americana (série B da América) e

1 Mundial

2 Recopas

Total 10 títulos

Um fato chamativo é que o Inter jamais conquistou nenhum desses títulos importantes na casa do adversário. Os campeonatos nacionais e as duas Libertadores foram conquistadas em sua casa. Agora compare com as conquistas do seu rival:

Grêmio:

2 Nacionais série A

1 Nacional série B

1 Copa Sul

5 Copas do Brasil

3 Libertadores

1 Mundial

2 Recopas

Total 15 títulos

Houve duas Libertadores do Grêmio vencidas fora (Buenos Aires e Medelín), um campeonato brasileiro vencendo o São Paulo no Morumbi lotado, e duas Copas do Brasil vencidas na casa dos adversários, exatamente contra Corinthians e Flamengo, as maiores torcidas do Brasil e os clubes queridinhos da Rede Globo. (O Grêmio é um dos poucos clubes que calou São Paulo, Corinthians e Flamengo em seus domínios em final de campeonato nacional). Além disso a Batalha dos Aflitos foi em Recife contra o Náutico e a final da Copa Sul foi em Curitiba, contra o Paraná Clube.

Assim sendo, dos 15 grandes títulos conquistados pelo tricolor gaúcho fizemos festa na casa do adversário em 7, quase a metade!! Isso porque resolvemos não acrescentar os Mundiais de Clubes (em campo neutro), que não ocorrem no estádio do adversário, mesmo sendo longe de casa. E vamos combinar que festejar e ver o adversário pagar a conta da festa é muito mais divertido.

O nome disso é CAMISETA, o a história e a tradição que se impõe sobre os adversários.

Quer comparar?

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Inacreditável!!!

A BATALHA DOS AFLITOS

Em 26 de novembro 2005 ocorria um dos eventos mais espetaculares da história do futebol mundial. Sem precedentes. Não é exagero: isso nunca mais vai se repetir em lugar nenhum do mundo envolvendo grandes clubes na disputa por um campeonato em nível nacional.

As finais da série B daquele ano envolviam quatro equipes classificadas na fase anterior: Grêmio, Náutico, Portuguesa e Santa Cruz. Um gaúcho, um paulista e dois pernambucanos. Na rodada final e decisiva o Grêmio jogava contra o Náutico em Recife enquanto o Santa Cruz jogava na mesma cidade contra a Portuguesa de Desportos. Estas seriam as duas partidas do quadrangular final da série B daquele ano. Das 9 combinações de resultados possíveis para estas duas partidas 8 favoreciam o Grêmio. Só não podia acontecer uma combinação: a derrota do Grêmio combinada com a vitória do Santa Cruz. E aos 36 minutos do segundo tempo era exatamente isso que estava acontecendo. Vamos então recordar os acontecimentos daquele dia.

O Grêmio tinha um time horrível derivado da hecatombe da falência da ISL – uma empresa Suíça de marketing esportivo. Apesar disso, ali estavam Anderson e o garoto Lucas, mas o resto do time era composto de jogadores medíocres. O técnico era local, sem nome e sem história – Mano Menezes, que depois chegou até a dirigir a Seleção Brasileira. Costumo dizer que se o goleiro Galatto não fizesse o que fez Mano Menezes seria motorista de táxi em alguma cidade do interior do Rio Grande até hoje. Durante o campeonato fez muitas burradas, inclusive deixar Anderson – o melhor jogador do time – no banco. Foi criticado de forma contundente pela imprensa e até hoje eu o considero o técnico de futebol mais sortudo de toda a história do futebol.

Antes mesmo de se iniciar a partida o Náutico fez de tudo para prejudicar o Grêmio. Prenderam jogadores e comissão no vestiário, não permitindo o aquecimento no campo, mas antes se deram ao trabalho de pintar as paredes, deixando os jogadores tontos pelo cheiro forte de tinta. O clima era de uma verdadeira guerra, incendiado pela imprensa local que queria os dois times pernambucanos na categoria de elite do futebol brasileiro; os jogadores de ambos os times eram gladiadores preparados para toda sorte de infortúnio.

O jogo na primeira etapa foi sofrível. Pouquíssimo futebol sendo apitado por um juiz inseguro e tecnicamente ruim. Muitos anos depois foi envolvido em escândalos da polícia militar. Marcou um pênalti absurdo contra o Grêmio no primeiro tempo que não foi convertido. Teve sorte.

Enquanto isso na outra partida em Recife, a Portuguesa saía na frente, o que aliviava o Grêmio. Entretanto, não durou muito para o Santa Cruz empatar e virar o jogo. O alívio durou pouco.

No segundo tempo o jogo continuou horrível em termos de futebol, mas o Grêmio resistia. O jogo do Santa Cruz não parecia mudar em nada; estava definido. O destino do Grêmio seria mesmo nos Aflitos.

Em um contra-ataque do Náutico, o goleiro do Grêmio – Gallato, guarde esse nome – fez pênalti em Kuki mas o juiz não marcou, o que me deu a certeza de que não havia por parte dele interesse em ajustar resultados. Se quisesse favorecer o Náutico esse seria o momento. Os lances que ele marcava eram sob brutal pressão dos jogadores e da torcida. Estava perdido e apavorado.

Quando faltavam 9 minutos para acabar a partida o juiz Djalma Beltrame marcou um pênalti contra o Grêmio de forma absolutamente equivocada. Nessa hora já tínhamos perdido um jogador, Escalona ao 26 min, que foi expulso ao levar o segundo cartão amarelo, mas estávamos resistindo. Nessa nova marcação de penalidade máxima equivocada o jogador Nunes do Grêmio se virou de costas após o chute do adversário e o juiz apontou para a marca da cal de forma imediata. Não foi falta, e as milhares de repetições na TV confirmaram. Indignação total de toda a nação tricolor. Ele provavelmente marcou este pênalti para compensar o fato de não ter marcado o pênalti anterior.

Surgiu-se um brutal o confronto e os jogadores do Grêmio foram sendo expulsos de campo, um após o outro, por indisciplina. Antes da cobrança mais três acabaram indo para rua. Ao todo 4 jogadores saíram: Escalona (antes do entrevero), Nunes, Patrício e Marcel. O juiz ficou cercado, a polícia entrou em campo, dirigentes dos dois clube também. Brigas, empurrões e o Grêmio já estava diante do pior cenário que um clube pode enfrentar: partida final do campeonato, com 6 jogadores apenas na linha, o adversário completo, um pênalti contra si, na casa do oponente, com o estádio lotado e faltando apenas 9 minutos para acabar a partida. As imagens marcantes que antecedem a cobrança são da torcida do Náutico de mãos dadas rezando, em silêncio reverencial.

Do outro lado, no time Timbu, sobreveio uma crise. Ninguém queria bater a penalidade. Os jogadores mais experientes “pipocaram” e serão para sempre cobrados por isso. Era muita responsabilidade: a bola do jogo, aquela que daria acesso à “série A”, o grupo de elite do futebol brasileiro. Acabaram determinando que um jovem lateral, um menino recém saído da base, batesse o pênalti. Ademar seu nome.

Era visível seu pânico ao se posicionar para a cobrança. Um garoto diante da possibilidade de acesso de seu clube à série A. Depois de muitos minutos de brigas, empurrões, discussões, ameaças e tensão o juiz apita. A respiração da torcida do Grêmio é interrompida e o silêncio se faz em todo o Brasil. Ademar caminhou trôpego para a bola, enquadrou o corpo para bater de esquerda. Disparou o chute e…

Galatto!!!! Inacreditável!!!! Seu corpo caiu para a esquerda, mas mantendo o pé no centro conseguiu tirar a bola para escanteio. A maior torcida do Rio Grande gritava de euforia, mas eu permaneci quieto e apreensivo. Tínhamos 7 jogadores em campo contra 11 do adversário. Quatro jogadores do Grêmio já haviam sido expulsos: Escalona, Nunes, Patrício e Domingos. Se já é difícil equilibrar um jogo com um jogador a menos imagine com 4 jogadores faltando! Era possível que o gol do Náutico ocorresse até no escanteio que ocorreria em sequência, com tantos jogadores a mais em campo. Não havia muito para se tranquilizar, e os 9 minutos restantes seriam um século, mesmo que o empate ainda nos garantisse o segundo lugar e o acesso para a série A.

Foi então que o mais improvável aconteceu. Depois do escanteio a bola espirrou para a esquerda e caiu nos pés de Anderson. Ele se livrou do adversário com um drible e na sequência foi atropelado pelo zagueiro Batata, sendo arremessado violentamente para fora de campo. O juiz não teve alternativa a não ser dar o segundo cartão amarelo e expulsar o defensor do Timbu, mas ainda restavam 9 jogadores vermelhos contra 6 gremistas na linha. Todavia, o time do Náutico estava tão perturbado que não sabia o que fazer em campo. A cobrança da falta foi tão rápida que chegou a enganar o cinegrafista. Anderson saiu correndo solitário em direção ao gol adversário, livrou-se do zagueiro com um jogo de corpo, entrou área adentro e desviou do goleiro, colocando a bola no fundo das redes.

Impossível, milagre!!!!! Exatos 71 segundos após a defesa de Galatto o Grêmio marcou um gol espetacular. Sete bravos guerreiros (1 goleiro e mais 6 na linha) contra os erros de um juiz em pânico, uma torcida que lotou o estádio e um time com 9 adversários na linha. A torcida foi à loucura em todos os cantos do mundo!!! A essa hora o jogo do Santa Cruz já havia terminado e os jogadores do time “cobra coral” chegaram a dar a volta olímpica, iludidos de que haviam conquistado o campeonato da série B. Ledo engano!!! O Imortal tricolor jamais se entrega até o apito final.

Depois do gol do Grêmio baixou uma incrível apatia no time pernambucano. Nos 9 minutos que se seguiram não houve sequer uma situação de gol, mesmo com tamanha diferença numérica. Os jogadores do Grêmio se multiplicavam em campo, obstruindo as investidas, e assim o fizeram até quando Beltrame terminou o jogo e o Rio Grande do Sul veio abaixo.

Ali se confirmava a lenda da imortalidade cantada meio século atrás por Lupicínio Rodrigues no hino tricolor.

Saí da casa do meu pai onde assisti o jogo e fomos para a avenida Goethe, próximo de onde era a antiga Baixada, estádio do Grêmio até os anos 50. Uma multidão enlouquecida lá reunida dizia em uníssono “Eu não acredito“, “Não é possível“, “Milagre“. Nenhum título poderia ser mais comemorado, não pela taça em si, mas pelas circunstâncias de bravura, luta, heroísmo e enfrentamento das adversidades.

A Batalha dos Aflitos é o ápice do heroísmo no futebol. Nada parecido isso aconteceu jamais ocorreu no âmbito do futebol profissional. Ela deve ser valorizada por por sua façanha épica sem paralelo no mundo esportivo. E não esqueçam que o futebol não vive de campeonatos que são vencidos com quatro rodadas de antecedência, mas de fatos improváveis, vitórias inesperadas, derrotas humilhantes e retornos triunfantes.

O futebol não vive da qualidade e da excelência, mas da paixão e da superação.

Por esta razão, para chegar a essa epopeia em Recife, foi necessário uma série imensa de erros e incompetências, e isso deve ser lamentado. Inclusive não se deve esquecer dos erros na concepção do time e as mancadas absurdas do técnico. Portanto, não é justo analisar o evento da Batalha dos Aflitos com maniqueísmos; a “batalha” deve ser exaltada pelo heroísmo inédito, pelas circunstâncias e contextos, pela superação e pela magia que a cerca. Todavia, precisa ser lamentada pelos erros, pelas falhas e equívocos que levaram a ela.

De qualquer maneira, esta data ficará na lembrança de todos os gremistas como a maior prova de que é preciso lutar e acreditar até o último instante, porque se a vitória se afigura impossível e distante….. “até a pé nós iremos!!”

Para quem quiser entender mais sobre esse momento épico do futebol mundial veja este clip….

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Desejos Infinitos

“As necessidades são finitas, os desejos não. Passado o ilusório alívio da compra ele volta com mais força tão logo o impacto da satisfação se desfaz. Isso equaliza o rico e o pobre: os objetos podem até ser diversos, a angústia é a mesma. Por esta razão a cura da angústia pelo dinheiro é um engodo. Ouso dizer, sem medo de errar, que eu e Warren Buffet temos o mesmo mal-estar. Sobressai, nessa compreensão, a sabedoria de Sêneca: “A pobreza não ocorre pela escassez das coisas, mas pela multiplicidade dos desejos”. 

Creio que aqui Sêneca exclui as necessidades básicas como comida, proteção, calor e afeto essencial. Acima dos ditames básicos da vida biológica sobressaem os desejos, emergentes da linguagem, insaciáveis e infinitos. Buscar a cura dessa angústia pela falta é como dar uma dose de vinho a Pantagruel imaginando assim saciar seu desejo e sua sede.”

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A Coisa em Si

A melhor citação de Hegel, segundo a opinião de Zizek, é de que “o mais importante efeito da Guerra do Peloponeso é o fato de Tucídides ter escrito um livro sobre ela”. Essa visão curiosa – que faz a descrição da coisa ser mais relevante do que a coisa em si – poderia ser emprestada a Euclides da Cunha e “Os Sertões”, onde o mais relevante aspecto da rebelião de Antônio Conselheiro seria o livro que a expôs à consciência nacional. Minha filha, com raro sentido de síntese, já afirmava: “Tudo vale se do fato sobra uma bela história a contar”

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Anjos Caídos

Harvey, Kevin, Cosby e Waack

A história destes quatro poderosos da comunicação poderia nos oferecer alguns ensinamentos, para além do “bem feito” que agora dizemos entredentes. Todos se tornaram ricos e famosos concentrando em si uma quantidade volumosa de poder. Também eles trabalhavam na ribalta midiática contemporânea que coloca egos nas alturas ou transforma sujeitos em poeira num piscar de olhos. Em seus ramos específicos na indústria do entretenimento suas vozes soavam sobre a dos demais, criando ao seu redor um misto de veneração e medo.

Natural que para dois deles as vitimas fossem as mulheres que deles se aproximavam em busca de um lugar ao sol e uma chance de fugir do anonimato. Para outro, a vítima eram os rapazes, mas a lógica do poder abusivo era a mesma. A simpatia conquistada poderia abrir portas e fechar contratos. A indústria da imagem é cruel e desumana e o comércio de corpos e consciências é uma realidade amarga. Para o último, as vítimas foram os negros e pardos, enquadrados no preconceito diminutivo e característico de boa parcela da branquesia de classe média desse país.

Boa parte dessas personalidades carregadas de fama e dinheiro, mais por sorte do que por talento, passam incólumes por toda a vida, como o apresentador Jimmy Saville da BBC, que conseguiu driblar por 40 anos as evidências e testemunhos de abusos cometidos contra crianças, vindo a morrer sem ser acusado. Com o aumento da vigilância sobre os abusos sexuais isso se torna cada dia mais difícil. Os personagens acima não tiveram a mesma sorte, e terão que amargar um fim de vida sombrio e triste, sob os dedos apontados de muitos acusadores.

Se é verdade que o poder embriaga e que somente depois de tomar desse cálice nos é permitido entender a profundidade de sua abrangência, também é certo que desse deslumbramento seremos inevitavelmente vítimas. O poder enlouquece, nos afirmava Gore Vidal ao analisar a vida dos Césares. A loucura vem da falta de limites, da sensação de onipotência e da certeza da impunidade. Uma falha gritante na castração, levando à insanidade.

O episódio último, do jornalista antiPT, nos mostra que por trás de uma máscara de sobriedade e pretensa isenção havia o mais abjeto preconceito de classe. Assim como Boris Casoy e sua agressão aos faxineiros, Waak foi vítima de suas próprias palavras carregadas de racismo. Pode ter sido um “deslize”, mas não há como negar que estas “falhas” e fissuras no discurso apontam para o que verdadeiramente somos, e nos levam ao cerne dos nossos valores constitutivos.

A lição a ser aprendida é jamais confiar que o poder, por maior que seja, nos torna indestrutíveis. Sem uma base ética sólida e firme qualquer um desaba e cai estrondosamente ao solo, tão certo como ao dia sobrevém o escuro da noite. Quanto maior o tamanho, maior será a queda.

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Gorjeta

Uma das coisas mais curiosas da cultura americana é a tradição da “gorjeta”. Para as pessoas do resto do mundo, em especial do Brasil, ela é muito curiosa e interessante.

Não tenho interesse em fazer julgamentos da cultura americana, pois existem inúmeras “manias” brasileiras que poderiam sofrer este tipo de crítica. Entretanto, poucas coisas revelam melhor as características do povo americano do que isso.

Depois de um jantar, uma corrida de táxi, um serviço qualquer de conserto, uma babá ou um serviço de manobrista sempre surge a pergunta e a angústia entre as pessoas: “Quanto devo dar de gorjeta?”. Nos restaurantes e táxis a regra é 10 a 15% da despesa (na Califórnia restaurantes estabelecem 20%), mas nos outros lugares o valor pode flutuar. De qualquer maneira, não dar gorjeta é algo muito rude, e muito mal visto pelos americanos.

Curiosamente, médicos, advogados, engenheiros e alguns profissionais de nível superior ou que ganham bem pelo seu trabalho achariam absolutamente estranho o fato de receber um “algo a mais” por fazerem seu trabalho. Então pergunto: qual o sentido de dar uma gorjeta, ou “una propina”?

Os americanos, mergulhados em uma cultura que introduz essa prática desde muito cedo, sempre usam a mesma explicação: “Ora, esses trabalhadores ganham muito pouco e muitos deles vivem só das gorjetas”. É curioso como essas pessoas veem com a maior naturalidade o fato do trabalhador ser explorado pelo seu patrão e a transferência da responsabilidade de uma vida minimamente digna ser automaticamente transferida para o cliente de um restaurante ou de uma viagem de Uber.

Outro argumento é que é um “adendo” para um “bom serviço”, como se servir bem alguém em um restaurante, ser cuidadoso ao dirigir ou cuidar bem dos seus filhos não fosse exatamente a essência do trabalho realizado e não um “plus” oferecido pelos profissionais que o realizaram.Nesse aspecto a gorjeta se assemelha ao “bicho” por vitória que existe no futebol, como se o esforço para vencer não fosse a única obrigação que se exige de um jogador.

Minha pergunta é: por que aceitam com tanta naturalidade a transferência de responsabilidade de pagamento dos capitalistas para os clientes? Por que os americanos dizem “Se você se nega a dar uma gorjeta é um sujeito cruel, pois já trabalhei de garçonete e sei como elas recebem mal”.

Caraca!!! Como não conseguem perceber que o mau pagamento NÃO é um problema do cliente, mas do PATRÃO!!!

Creio que a essência psicológica da gorjeta está na sensação de que, se você pagar mais (usar a força do seu capital) poderá ter um tratamento diferenciado, isto é, melhor do que o que é oferecido aos outros. O salário do funcionário, por ser igual para todos naquela função, não permite que você exija um serviço “especial”, “personalizado”, exatamente aquilo que você acha que merece. A gorjeta lhe dá a sensação de ser especial, de ter um tratamento acima do comum.

PS: estou escrevendo aqui porque quando quis mostrar isso para amigos americanos alguns se ofenderam com a minha opinião sobre essa prática – que eles acham a ação mais caridosa e gentil do mundo – e as respostas ásperas que recebi fizeram com que a autora do post o apagasse. Outra curiosidade: questionar ações que julgamos nobres, levantando-lhes o véu, pode parecer ofensivo para quem acha que a caridade (mesmo que aparente) é uma ação inquestionável. Se eu fosse capitalista americano abriria um bar que traria no menu: “Nossos funcionários não aceitam gorjeta porque não são explorados e seu salário é muito bom”.

PS1: uma vez na Disney vi uma bandinha passar dentro de um parque e uma menina de uns 4 anos foi até eles e deu uma nota de 5 dólares. O músico escondeu a nota atrás do corpo, procurou a mãe da menina e devolveu o dinheiro. Interessante, não?

PS2: Gorjeta vem de “gorja“, sinônimo desusado de garganta, de onde proveio também o gorjeio dos pássaros. A gorjeta era uma pequena quantia que se dava a quem tivesse realizado trabalho extenuante e cansativo, a fim de que ele comprasse uma bebida para molhar a garganta.

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Tempos e julgamentos

“Quando no século XXIII não existir mais nenhum traço de monogamia nas relações humanas você acharia justo que seus descendentes acusassem você de “forçar seu parceiro para uma vida de escravidão sexual através de uma abjeta exclusividade”?

… ou acha que as escolhas honestas obedecem os valores de seus tempos e circunstâncias?”

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