Arquivo da categoria: Pensamentos

Montanha

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“Na minha vida houve momentos tão belos que se tornaram instantes de pânico, pois de tão lindos pareciam o clímax de toda uma existência, a partir dos quais não faria mais sentido existir. É como escalar uma montanha invisível; num dado momento você olha para trás e vislumbra a paisagem esplendorosa atrás de si. Extasiado com o que vê fica paralisado, pois parece não haver mais sentido em continuar a subida.”

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Títulos

Uma pausa para o esporte “bretão“:

Depois dos títulos “mundiais” por fax inaugurados pelo Palmeiras agora alguns torcedores de clubes (não por acaso atravessando fase de vacas magras) inauguram outra modalidade: o confisco do título alheio por e-mail.

Tais aficionados insistem no tal “título mundial FIFA” como sendo o único válido, o único “legitimamente” conquistado, quando o universo inteiro reconhece há décadas os títulos obtidos antes da FIFA encampar a competição. Essa estratégia fala mais do desespero de torcedores de clubes que atravessam crise sem precedentes do que um argumento válido para questionar estas conquistas.

Ora, sejamos justos. Para tirar os títulos de grandes clubes como Grêmio, São Paulo, Flamengo e Santos (assim como Boca, Real Madri, etc) precisa mais que um e-mail. Seria preciso apagar todos os livros de história do futebol, todos. Não poderia sobrar uma única página sequer, pois se encontrarem uma só nota sobre o assunto já será possível lembrar de Miller, Raí, Zico, Nunes, Pelé, Coutinho, Renato, De León e tantos outros heróis que tornaram verdade o sonho de fazer de seus clubes os maiores do mundo. Seria igualmente necessário arrombar todos os museus de todas as sedes de clubes para arrancar de lá os vistosos troféus e apagar da memória de todos os fatos relacionados a estas épicas e gloriosas conquistas.

Essa tarefa é impossível de se concretizar, além de ser abjeta e tola. A história não se apaga: se aprende com ela e se tenta imitar. Para aqueles novatos nestas conquistas aprendam com quem tem essa faixa pendurada há mais de 30 anos: ninguém se torna maior tentando diminuir os adversários. A grandeza ocorre pelo oposto, quando ao exaltar a conquista de todos nós nos tornamos maiores, pois a nossa vitória também é contemplada.

Obrigado

Na foto, Eurico Lara, goleiro e mito.

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Silêncio

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“O silêncio é o momento mais sagrado de uma análise. Cultiva-se através do aprendizado duro e da intimidade com nossos próprios limites e dores. Entretanto, rompê-lo demanda coragem e sabedoria. A fala do analista é um caminhar às escuras em uma loja de cristais.”

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Dengue asiática

Dengue asiática

A dengue de Xiaoping o deixou muito Mao. O grande problema é que ele a adquiriu de um simples Beijing. Por esta razão tome cuidado. Caso encontre alguém com essa doença, não Tóquio, porque é sempre possível o karatê e não ser visível. Esperamos que este alerta não fique Confúcio e que medidas sejam tomadas.

Lembre-se sempre:

“If you can’t understand this message, Gengis Khan”.

Espero que esse comentário a judô você.

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Meu P* te ama

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Música ao estilo “sertanejo universitário” (o nome mais malandro inventado na história da música) que é onipresente na cultura e toca nas rádios toda hora, fala de 4 assuntos básicos: mulheres que chutam homens que não lhes dão o valor que julgam merecer, baladas, sofrência de corno e bebedeiras. A cafonice das letras é de arrepiar, mas hoje em dia elas estão presentes em todos os ambientes. É quase impossível não escutar. Aqui na cafeteria estou há 15 minutos escutando o DVD do Luan Santanna, que agora definitivamente está assumindo um estilo “melaqüeca“.

Eu não aceito falar em termos de “no meu tempo era melhor”, mas gostaria de escutar alguém que entenda de música me dizer o que aconteceu com o refinamento, a delicadeza, a profundidade das letras, e a sofisticação de melodias nos últimos 30 anos.

Veja só, quando eu era adolescente Chico Buarque era POPULAR. Não precisava ligar a Rádio Cultura para ouvir. Ele ia no programa do Chacrinha e o povo cantava em uníssono suas canções. Caetano, Gil, Tim, Betânia eram artistas do povo, e suas letras estavam na cabeça de todos nós.

O que aconteceu para chegarmos até “Meu pau te ama” e “Eguinha Pocotó”?

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A Origem do Mundo

A Origem do Mundo – Gustave Corbet

A Origem do Mundo

O papa Francisco disse esta semana que “As mulheres são a harmonia do mundo”.

Se reclamam de Freud pelos seus erros a respeito do feminino o que dizer de um homem que passou a vida rodeado de outros homens e que jamais foi íntimo o suficiente das mulheres a ponto de arranhar a superfície de seus segredos e histórias? Como cobrar profundidade sobre os limites e a essência femininas trazendo como mapa um livro que é a essência do patriarcado e o roteiro da submissão das mulheres em um mundo de homens?

As mulheres não merecem ser descritas assim. Não existe NADA de harmonia nas mulheres. Elas são puro desequilíbrio e pura energia. Não existe NADA de calmaria nos maremotos da alma de uma mulher. Elas são a fonte de toda desordem e toda a convulsão; estão na origem de todas as guerras e conflitos. São todas Helenas, são muitas Marias. As mulheres desprezam a harmonia e a ordem; sua presença produz desejos e ardores, disputas e ódios. Mais ainda, delas é a invenção do amor. “Se amor existe ele é o sentimento de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados

O desejo não é masculino ou feminino. O desejo não é de um homem por uma mulher. O princípio do desejo está na mulher, pelo menos enquanto todos nascermos de uma. E não acho que idealizo as mulheres; pelo contrário. Reclamo da idealização do Papa sobre elas, tratando-as como “harmoniosas”, ou produtoras de harmonia.

Se amor existe, e sobre isso há controvérsias, ele se origina dessa fissura aberrante na ordem cósmica, quando um ser incompleto se uniu à sua mãe. Esta visão das mulheres não tem nada de calma ou harmoniosa, só enxerga turbulência e desejo. E isso se aplica ao amor, obra e graça das mulheres, mas nada tem a ver com a orientação sexual, pois o amor vale para qualquer uma.

Que fique claro aos apressados que por desequilíbrio não me refiro à “loucura” ou à insanidade.  Para mim o desequilíbrio trata da energia que torna possível o movimento. Para cada passo que damos é necessário, primeiramente, se desequilibrar. Harmonia, para mim é estagnação; desequilíbrio, por sua vez, é entropia.

Definitivamente, as mulheres não são a harmonia do mundo; elas são apenas o núcleo de onde se origina todo o desejo. Em verdade elas são a origem do mundo.

(Imagem: “A Origem do Mundo“, Gustave Corbet)

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Aneurisma

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Se você puder entender a ruptura do aneurisma de Dona Marisa como o epílogo de um processo de violência psicológica, forte pressão emocional e o consequente sofrimento pessoal pela perseguição insana a ela, seu marido e seus filhos então poderá aceitar que Marisa Letícia sofreu tortura e morreu como consequência indireta dos ataques desonestos e cruéis que sofreu.

Curioso como é mais fácil entender o bullying psicológico que leva ao suicídio jovens homossexuais nos Estados Unidos mas relutamos em aceitar que a mesma pressão tenha ocasionado a ruptura de um aneurisma. Parece simples aceitar que uma mulher sofre por assédio moral de um marido violento ou de um patrão sem escrúpulos, mas não queremos aceitar que Marisa pode ter sucumbido a este mesmo tipo de agressão, insidiosa, contumaz e renitente.

Quando ocorre com nossos inimigos todos os indícios desaparecem. Quando ocorre conosco, mesmo a agressão mais diáfana e a mais impalpável fantasia torna-se fato e realidade inquestionável.

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Honestidade

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No excelente documentário “(dis)Honesty, the truth about lies” – (des)Honestidade, a verdade sobre as mentiras – o ponto alto e engraçado ocorre quando uma senhora da plateia pergunta ao pesquisador se nas suas investigações constatou-se diferença entre homens e mulheres no que diz respeito à honestidade. Sua resposta foi excelente:

– Sim, existem enormes diferenças, e a grande diferença observada é que apenas as mulheres fazem essa pergunta. Mas… nos testes realizados nunca se observou o fato de um gênero mentir mais do que outro.

Pensei agora que praticamente todas as virtudes, qualidades, vícios e defeitos humanos teriam o mesmo resultado, incluindo a agressividade. Por isso me irritam tanto as análises essencialistas, que dizem que as “mulheres são menos isso do que os homens” e vice versa. Talvez existam alterações hormonais que determinem comportamentos diferentes entre os sexos (o fator testosterona, por exemplo), mas não acredito em NENHUMA qualidade MORAL que sobre em um e esteja faltando no outro.

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História Fabricada

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Acabei de descobrir, em uma postagem do prof Luis Felipe Miguel, que a frase “Quem gosta de miséria é intelectual” não é de Joãozinho 30, mas do jornalista Elio Gaspari, que a colocou na boca de Joãozinho em uma entrevista fabricada. Esta era uma estratégia do velho jornalismo: criar fábulas, entrevistas inexistentes (mesmo que baseadas na verdade) e depois apresentar aos entrevistados para que concordassem. É claro que nem todos os jornalistas agiam desta forma, mas a esperteza destes velhos jornalistas me chamou a atenção.

Por outro lado eu lembro de uma história (ou lenda) de que um dos primeiros empregos do Woody Allen foi criar frases inteligentes e espirituosas para serem proferidas – com falsa originalidade – por atores de Hollywood, celebridades emergentes e políticos americanos. É provável que muitas reputações na época tenham sido forjadas por este artifício. É possível também que muitos “grandes” jornalistas do passado usavam estratégias deste tipo; talvez fosse mais usual do que imaginamos. Imensas entrevistas prontas eram entregues ao “entrevistado” apenas para conferência. Mentiras que se eternizaram pela criatividade de quem tinha a atribuição de (d)escrever a história.

E as biografias históricas de personagens do passado distante, escritas pelos colunistas sociais da época? Que verdades podemos retirar de tais textos? Quantos canalhas perversos recebem estatuto de santidade hoje em dia por histórias fabricadas dessa forma? Quantos sujeitos íntegros foram destruídos em vida, e após ela, por estas artimanhas?

Eu também não sabia da real autoria da frase sobre os intelectuais e a miséria e jurava que a frase era de Joãozinho 30.

A propósito de Woody Allen, ele escreveu um conto em que o presidente dos Estados Unidos diz a um assessor direto:

– Quando estivermos em reunião mais tarde pergunte-me “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”. Entendeu?

– Mas por que essa pergunta, senhor, indagou o assessor surpreso. 

– Ora, porque tenho uma ótima resposta: “Ideal para que alcancem o chão”. Não é maravilhoso?

Eu sempre interpretei essa piada do Woody Allen como um resquício do tempo em que ele fazia exatamente isso para políticos,  celebridades e atores. Entregava uma piada pronta, ou uma observação espirituosa, e pedia para alguém servir de “escada” para que fosse dita em público.

Isso não é a história sendo descrita ou contada; é a história sendo fabricada.

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Diploma

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Sobre a citação de Foucault abaixo, que algumas pessoas comentaram, eu ousaria acrescentar:

Lattes, pau“.

Diploma é como cash, dinheiro. Se você olhar com atenção e crítica poderá perceber que aquele objeto não passa de papel e tinta colorida, ainda que com a cara estampada de um antigo opressor. Entretanto é preciso que todos ao seu redor acreditem que ele tem valor. Esse é o pacto: eu lhe dou esse papel colorido e você me dá uma vaca.

O diploma também é (apenas) um papel pendurado na parede que é feito para garantir autoridade externa – e indireta – ao que dizemos e fazemos. Vale para quem não o tem, mas só quem o conquista sabe o quanto ele é valorizado acima do que merece. Por isso concordo plenamente com as palavras de Michel Foucault abaixo: o diploma não vale pela presença, vale pela ausência. Ele é feito para ser valorizado por quem não o tem, e não para ser admirado por quem o possui.

O diploma serve apenas para constituir uma espécie de valor mercantil do saber. Isso permite também que os não possuidores de diploma acreditem não ter direito de saber. Todas as pessoas que adquirem um diploma sabem que ele não lhes serve, não tem conteúdo, é vazio. Em contrapartida, os que não tem diploma dão-lhes um sentido pleno. Acho que o diploma foi feito precisamente para os que não tem.” (Michel Foucault)

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