Arquivo da categoria: Pensamentos

Minority Report

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Quanto mais leio sobre a chacina em Campinas mais me lembro do filme “Minority Report” de Stephen Spielberg, e fico pensando na possibilidade de sermos avisados quando um psicopata como este venha a agir. Quem não gostaria de saber a tempo e correr para impedir tantas mortes? A sensação foi a mesma quando um pai matou 3 filhos pequenos em Porto Alegre há alguns anos e um conhecido meu falou “Ele era o mecânico do meu carro e eu jamais reparei nada. Parecia uma ótima pessoa”. Nunca sabemos dos monstros que habitam em nós, mas eles estão sempre esperando uma brecha para mostrar sua face de horror.

Nesse caso havia sinais prévios de violência, mas se fôssemos encarcerar todos os homens violentos ou que ameaçam faltaria cadeia para tanta gente descompensada.

Talvez a chance de diminuir a ocorrência dessas tragédias, no terreno individual, seja estudando os gatilhos que cada um dos agressores carrega e trabalhá-los com psicoterapia compulsória. Já no aspecto social, podemos agir muito precocemente através da educação para a equidade de gêneros e para uma sociedade menos violenta, onde os conflitos possam ser resolvidos sem agressões físicas ou morais. Podemos também  estabelecer em nível comunitário uma vigilância severa sobre sinais precoces de agressividade descontrolada, em especial relacionada a gênero e em populações de risco.

Se não funcionar podemos tentar mergulhar sensitivos em uma banheira e esperar que tenham visões. Ou apenas lamentar o ocorrido e amaldiçoar a alma do malfeitor.

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Chacina

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O assassino era como o monstro de Frankenstein, composto por centenas de pequenos fragmentos de rancor e decepção. Uma estrutura de ódio, retalhos de misoginia, um pouco de raiva, umas pitadas de indignação seletiva e um punhado generoso de auto condescendência. E como pano de fundo, o amor deteriorado e doentio.

Não há nada de novo na sua fala e nos seus sentimentos, assim como não há nenhuma novidade em salitre, carvão e enxofre. Entretanto a mistura desses elementos produz a força destruidora da pólvora, enquanto a combinação de indignação, culpa, frustração, banalização da violência, machismo e uma mente frágil e doente produz incontáveis tragédias.

Só o amor é capaz de produzir este tipo de horror que nos agride e tritura a alma. O amor, quando desvirtuado, é maligno e destrutivo, mas ainda assim é amor. Sim, é domínio, é ódio, é desprezo, é possessividade e angústia. E ainda assim é amor. O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

Não é justo “romantizar o amor”, no sentido de enxergar nele apenas sua potencialidade positiva. O amor pode ser doce e calmo, mas também furioso e agitado. Preferimos não olhar para esta face do amor, mas ela é igualmente verdadeira.

Não se trata de macular o amor, mas tirar-lhe a máscara. Ódio e desprezo são legítimos filhos do amor, e por isso mesmo, onde houver ódio e desprezo podemos procurar um amor corrompido que de imediato ele se mostra em todas as suas nuances.

É preciso enxergar o amor em suas infinitas dimensões, e entender que até a lua, por mais resplandecente e brilhante que seja, possui seu lado escuro.

Para reflexão, trago este texto de Slavoj Zizek:

“Mas o conjunto da realidade é só isto. É estúpido. Está lá fora e eu não ligo pra isso. Amor, para mim, é um ato extremamente violento. Amor não é “eu amo todos vocês”. Amor significa que eu seleciono algo e é, de novo, esta estrutura de desequilíbrio, ainda que este algo seja só um pequeno detalhe, uma frágil pessoa individual. Eu digo “eu amo você mais que qualquer coisa” e neste preciso sentido formal, o amor é o mal.” 

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“Revelhom”

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Fotos de revelhom:

Mulheres: lindas e sorridentes (ok, já disse), arrumadas, produzidas, pintadas, batom, lápis, delineador, cabelos (ohhhh!!!), sapatos, poses, caras e bocas, blusas, vestidos, tubinhos, mini-tubinhos, pretinhos, adereços, gloss (não sei exatamente o que é), calcinhas (não vi nenhuma, mas sei da preocupação), bijuteróias (um blend das duas), filhos e filhas.

Homens: Bermuda, chinelo e cerveja na mão.

Na maior parte do tempo ser homem é algo muito pesado. Morremos mais cedo, infartamos, brigamos, somos feridos e mutilados, precisamos matar o leão todos os dias para apresentar ao Pai. Mas nas festas temos uma folga. Casamentos, batizados, velórios, Natal e Ano Novo nossa preocupação com a apresentação é quase nula. Isso é uma bênção.

Durante 1 ano antes de me formar escutei as conversas das colegas sobre as “provas” que tinham a fazer, mas não eram os exames da residência médica, e sim as provas de roupa de formatura nas suas exigentes costureiras. Pior ainda, algumas delas me mostravam desenhos de roupas e pediam minha opinião!!

Toda a preocupação que tive com minha roupa de formatura foi engraxar meu sapato no dia da cerimônia e vestir exatamente a mesma roupa do meu casamento, que eu havia usado há 3 anos.

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Calabouço dos desejos


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Das minhas motivações sei eu; as dos outros, só eles mesmos poderiam saber. Também não carrego a esperança de um dia entendê-las ou descobrir-lhes a intimidade, pois sequer os autores dos crimes mais hediondos as conhecem plenamente.

Fico feliz de saber que as pessoas  que condenam os sujeitos (e não seus atos) o fazem agindo pelo primado da consciência e jamais tenham feito algo de forma claramente irracional e irrefletida. Nestes momentos é que percebo que durante toda a minha vida muito me afastei da lucidez e da clarividência das condutas acertadas pois que 99% das minhas ações diárias tem quase nenhum controle consciente.

Minha racionalidade é mesmo um verniz intelectual, uma fachada altiva que me dá a sensação de afastar os medos e as superstições através de uma ilusão de controle, mas que funciona como um soberano cuja imponência apenas esconde sua fragilidade.

Somos governados pelas sombras e as vozes mais poderosas que proferimos vem dos porões úmidos e frios, e não das altas e ensolaradas torres.

Condenar os que se afastam do nosso horizonte de ações não nos torna superiores, mas demonstra o quão limitado é o nosso conhecimento da alma humana no que ela guarda de luz, penumbra e profunda escuridão.

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Empatia

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A primeira vez que me deparei com essa perspectiva foi há muitos anos quando li a história de um sociólogo americano que foi estudar as comunidades negras e latinas do Harlem, em Nova York, e sua vinculação com o crime. Seu interesse era saber quais as razões levavam os jovens a entrar no mundo do tráfico  de drogas.

Sua resposta a esta pergunta me chocou pela simplicidade. Ao invés de elencar as conhecidas explicações educacionais, familiares, morais etc. ele respondia com outra pergunta: “Por que deveriam eles NÃO entrar para este mundo?

O que ele testemunhou foi um universo de valores muito semelhante aos que controlavam nosso mundo branco e de classe média. As pessoas daquele espaço amavam, sofriam, cantavam, choravam, tinham ciúme e inveja e sonhavam como todos os humanos. Entretanto, ao contrário dos outros, eram marginalizados por não ter acesso ao consumo. Em uma sociedade em que a cidadania é constituída pela capacidade de consumir seu estatuto de pessoa era frágil, tornando-os sujeitos à margem.

Sim, marginais.

Nesse contexto, por que não aderir a uma proposta que poderia lhes oferecer acesso ao mundo do consumo, dando-lhes a possibilidade de ser, em fim, cidadãos?

“Mata!!”

“Bandido!!”

“Deixa apodrecer na cadeia!!”

Das virtudes humanas a que anda mais escassa é a empatia. Tão ocupados estamos com a periferia de nossos próprios umbigos que pouco tempo sobra para nos preocuparmos com a dor e o sofrimento alheios.

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Protegido: Para entender o caso

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Amor demais

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Lembrei de um conceito que escutei quando meus filhos eram muito pequenos: “Ame seus filhos bastante para que eles tenham autoconfiança, mas não demais para que eles nunca precisem procurar amor por si mesmos”.

A pior coisa do mundo é não ser amado; a segunda pior é ser amado demais. Amor em falta faz definhar; demais faz enlouquecer. O mundo nos impõe a falta; o desejo nos empurra ao excesso.

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Motocicletas

Sobre as motocicletas…  

Vamos esclarecer alguns pontos fundamentais: Qual relação com motocicletas NÃO é sexualizada? Em outras palavras: como colocar no meio das pernas um monstrengo metálico rígido e gigantesco e não sentir aquilo como sendo uma poderosa prótese fálica? Por que “quanto maior, melhor”? Por que tanto empenho em comprar um veículo responsável por grande parte das mortes no trânsito? Por que uma relação tão insensata entre custo e benefício?  

Só o sexo explica. A mesma explicação que eu imagino para espartilhos e saltos altos.  

“Vital e sua moto”. Por quê? Ora, por ser “vital” ter uma moto para conseguir “sucesso reprodutivo”.

Mas a minha tese é de que pela dinâmica adaptativa das espécies, possuir uma motocicleta tem um altíssimo fator positivo para conseguir se dar bem no sexo. Isto é: funciona, mesmo que incomode algumas vizinhas. O dia que não funcionar mais, desaparece.  

Aliás… eu acho engraçado mulheres usando próteses fálicas como motocicletas e guitarras. Veja bem, nada contra elas usarem pelos seus óbvios aspectos operacionais – deslocamento urbano ou música – mas pelas suas características simbólicas, ao meu ver, inquestionáveis. Percebam o jeito com que um “easy rider” trata sua moto mas olhem para as guitarras com a mesma atenção e perceberão a lascívia masturbatória que os guitarristas demonstram, em especial nas músicas juvenis como o rock.

As motos, em especial, se prestam para jovens (em busca de) e fulanos carecas de meia idade (na raspa do tacho da virilidade).  

Faz sentido?

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Morte prematura


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Cinquenta e poucos anos é muito cedo para morrer, e não creio que dá para usar a surrada desculpa de que “viveu 100 anos em 50”, porque essa vivência não inclui uma das fases mais criativas e interessantes da vida: a plena maturidade, o arrefecimento da sexualidade bruta, a velhice e o fim. Não abriria mão de assistir a desintegração do meu corpo e a sabedoria capaz de fluir das cinzas dessa queima. Não faz sentido uma vida em que só a infância e a juventude tenham espaço. Muito do que sei adquiri faz pouco, exatamente pela derivação proporcionada pela paulatina e insidiosa perda do vigor.

Se eu tivesse a oportunidade de escolher minha vida futura fugiria da beleza física, da riqueza e do talento desmedido. É muito difícil ver pessoas profundamente talentosas, belas e ricas felizes e gratas à vida; mais fácil é vê-las prisioneiras de suas virtudes e qualidades. Ter excelência em qualquer área – em especial na arte e no corpo – é um fardo pesado, muitas vezes difícil de carregar sem uma quantidade as vezes insuportável de sofrimento.

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Festas

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Frases campeãs nas festas de fim de ano…

“O Panetone está seco, mas ainda tá bom”.
“Sobrou sorvete?”
“Não foi assim que eu falei pra tia Marilda, você está exagerando”.
“Bêbado como, se só tomei uma cerveja”?
“Também achei ridícula a roupa dela. Ela não tem mãe?”
“Ele sempre conta aquela piada quando bebe”
“Eu achei bom, mas tava meio seco”
“A gente sabe que o valor em dinheiro não é o mais importante”
“Como engordou tua prima, né? Se tu não te cuidar vai por esse caminho. Olha a genética”
“Sidra? Faz favor, né?”
“Qual a porra do problema de vocês com uva passa e maçã na maionese?”
“O sapato novo me destruiu”
“Mas é pravê ou pracumê?”
“Como você pode ter certeza que eu fui com a mesma bermuda o ano passado?”
“Eu me cuidei o mês inteiro, mas ontem fugi da dieta”
“Como é que a minha irmã aguenta aquele marido dela?”
“Ela não é uma criança má. Isso é uma fase que todas passam”
“Claro que isso é reflexo da mãe que ela tem”
“A mais moça é bonitinha, mas a mais velha pegou o nariz do pai. Pobre criança”
“Eu lamento pelos meus pais. Estão velhos, não mereciam passar por isso”
“Como é o nome daquela moça que estava falando com a minha filha? Como assim? Curiosidade só. Não posso perguntar?”
“Como cresceram os filhos dela!! Até ontem eu pegava no colo.”
“Também acho que não fica bem pra uma mocinha da idade dela”
“Ele já terminou o Colégio?”
“Gorda nada, meu amor. Estavas ótima. Linda mesmo”.
“Não, não chegou a enrolar a língua, mas quando começou a contar a piada da freira me despedi de todos e peguei a chave da sua mão”.
“Ah meu Deus, senti pena dos cachorros”
“Nunca mais vou na festa de Natal da família”
“Família? Hospício, você quer dizer”
“Que bom que a gente tem família para poder encontrar. Nem que seja uma vez por ano.”

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