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Psicopatas

Nas redes sociais adoram dizer que Putin é um “assassino psicopata”. Afinal, ele é russo e tivemos mais de 100 anos de propaganda imperialista para nos convencer que este povo comia criancinhas. Tudo isso é claramente intoxicação produzida por estes anos todos de propaganda americana. Aliás, aposto o quanto quiserem como estes que atacam o presidente russo são incapazes de sustentar a afirmação. Desafio que mostrem onde ele foi assassino e onde foi psicopata.

Ninguém responde a isso, o mesmo silêncio que sempre escutei quando pedíamos as provas de que “Lula é ladrão”.

Só uma dica: estima-se que Clinton + Bush + Obama mataram diretamente por volta de 11 milhões de pessoas em suas guerras. Isso sem contar as mortes decorrentes dos embargos, sanções, boicotes e sabotagens, ou as guerras por procuração, como as mortes produzidas por Israel. Digam onde o “assassino psicopata” Putin chegou perto disso.

Agora peço que mostrem a guerra que ele iniciou, o país que invadiu em busca de petróleo, o número de mortos, os governos nacionais que derrubou, os golpes que patrocinou e as cidades que destruiu.

Vamos, desafio…

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Paradoxo da Paz

“Desculpe, sou contra o Putin, um diabo medonho, e porque tenho horror a qualquer guerra. Não existe justificativa para elas. Ah, e dizem que o Putin é homofóbico”

É impressionante a dificuldade dessa esquerda liberal de entender que essa guerra não pode ser avaliada por critérios morais aplicados a seus personagens principais. Também parece difícil entenderem que a guerra já estava acontecendo há 8 anos mas, curiosamente, só quando a Rússia reagiu é que os “pacifistas” se escandalizaram. Lembra muito o horror que surge quando uma bombinha Palestina atinge Israel alertando os “pacifistas” – que saem as ruas vestindo branco e pedindo paz – mas são os mesmos que respondem com absoluta apatia quando ocorrem os repetidos massacres em Gaza (que os sionistas tratam como “mowing the lawn” – aparar a grama).

Pois agora aparecem oportunistas que são contra a Guerra da Ucrânia, mas sequer ficam com a cara vermelha ao apoiar nazistas “old school” – que sequer podem ser chamados de neonazis, porque de novo nada têm. Querem a paz, mas só a paz do domínio, da submissão e do silêncio.

Em nome de uma russofobia e um ódio infantil à “pessoa do Putin” (e não sua política nacionalista e seu governo de direita) aceitam de bom grado passar pano para fascistas e assassinos, que queimaram mais de 50 pessoas vivas em um sindicato em Odessa, construíram laboratórios para guerra química, amarram cidadãos em postes, espancam ciganos e aniquilaram – através de suas brigadas de ultradireita – mais de 14 mil cidadãos em Donetsk e Lugansk desde o golpe de 2014

Por que apenas agora a guerra se tornou inaceitável? Por que admitiram até então que um país dominado por nazistas se juntasse à OTAN e se armasse com bombas atômicas ao mesmo tempo em que rasgavam o acordo de Minsk? Por que se negaram a perceber que uma ogiva nuclear em Kiev leva 4 minutos para atingir Moscou e estaria sendo colocado em uma cabeça de ponte da OTAN na Europa Oriental? Qual país no mundo inteiro aceitaria essa ameaça no seu vizinho? Por certo que o Império americano não, visto que a crise dos mísseis de Cuba em 1963 teve a mesma motivação.

É impossível não se indignar quando vemos xenofobia e desrespeito à todas as pessoas que defendem a Rússia e que cometem o “crime” de refletir com conhecimento de causa e sensatez, fugindo da propaganda imperialista massacrante, entreguista e oportunista que nos invade. A mesma imprensa corporativa que, em nome dos interesses do sistema financeiro internacional, emporcalha redações e redes de TV com mentiras que transformam nazistas declarados em “nacionalistas” e “forças da resistência”.

Estar contra o Putin (que é um direitista, autoritário, anticomunista e, talvez, homofóbico – who cares??) significa cerrar fileiras com a OTAN e a barbárie maligna e genocida do Império americano. Putin, por mais defeitos que tenha, está do nosso lado, lutando por um mundo multipolar, contra o Imperialismo corrupto e racista. Muitos ainda confundem a paz com a falta de reação e a apatia diante da violência imposta. Muitos mais acreditam numa “pax americana”, onde o imperialismo reinaria sem reação. Esta é uma visão ingênua e paradoxalmente violenta, pois condena muito mais pessoas à opressão e à morte.

Ninguém que se diga de esquerda pode estar ao lado dos golpistas ucranianos e do Império Americano. Uma improvável vitória dos nazistas da Ucrânia poderia determinar as bases irreversíveis para uma terceira guerra mundial. Aí reside o maior paradoxo: os pacifistas pró imperialismo e defensores da OTAN esperam como resultado desse conflito algo que inevitavelmente levaria a uma guerra de proporções catastróficas.

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A busca pelo idiota comum

Vejo muita gente – inclusive à esquerda do espectro político – tratando a guerra como se ela partisse das propensões despóticas, dos valores morais e do estado de espírito dos líderes envolvidos. Assim, a guerra da Ucrânia teria acontecido pelo (mau) humor do presidente Putin, pelos seus defeitos, pela sua índole belicosa e violenta, como nas histórias da idade antiga onde um Rei invadia um país estrangeiro – levando à morte milhares em ambos os lados do conflito – apenas porque roubaram dele a mulher que amava.

Nada pode ser mais ingênuo do que isso. Entretanto lembrei do Presidente Bush filho dizendo “vou vingar o que você fez ao meu pai” dirigindo-se a Saddam Hussein quando da invasão do Iraque. Retórica que se usa na busca do “idiota comum”, aquele que tenta reduzir as complexidades da geopolítica às emoções comuns, suas batalhas diárias, seu mundo limitado de relações. Reduzir uma guerra a um embate de vaidades pessoais feridas é a mais absoluta tolice. O que existe por trás dessas narrativas é a tentativa de reduzir a complexidade geopolítica e econômica de uma guerra a questões pessoais e morais, porque assim o “idiota comum” consegue se engajar e juntar-se à grande massa de manobra que forma a opinião pública.

Percebo o mesmo fenômeno nos ataques que os identitários americanos fizeram ao presidente Trump. Era quase engraçado observar as críticas que se fazia ao então presidente por suas posições pessoais – e claramente orquestradas – sobre mulheres, imigrantes e negros. Existe um conluio que envolve ambos os partidos americanos para que as discussões em nível nacional durante as eleições se concentrem nas questões morais e de costumes. Por isso tanto se valoriza o fato de que o presidente é “fiel à esposa”, que “frequenta a igreja”, que é um sujeito “temente a Deus”, porque tal enfoque afasta a todos da realidade acachapante de que existe apenas um partido a governar os Estados Unidos: o “Deep State”, composto dos membros de Wall Street, Indústria de Armas, BigPharma e as empresas tecnológicas do Vale do Silício.

Todavia, o eleitor americano médio precisa de circo, e para isso a vida pessoal, os (des)amores, as frases descontextualizadas ditas no passado e a história familiar entram em cena roubando o lugar dos debates sobre saúde, economia, política externa, educação, etc. No Brasil as questões morais são menos importantes, mas nossa fixação na “corrupção” (uma chaga moral) ocupa o lugar onde deveriam estar programas e propostas. Aqui também temos nossos “idiotas comuns” que atacam a pessoa dos mandatários por não conseguirem entender a complexa tarefa que lhes cabe.

É exatamente este tipo de visão moralista e obliterante que permite que um presidente desastroso como Barak Obama, que invadiu SETE países durante a sua administração, pode ser visto ainda hoje como um “exemplo de administração” um exemplar “homem de família”, e ganhar o prêmio Nobel da Paz de 2009, mesmo que seu governo tenha sido um dos mais violentos e assassinos dos últimos anos, e um dos mais desastrosos no que diz respeito à classe média americana – o que levou à eleição de Trump. Este último teve celebrada sua derrota pelo mundo inteiro, que o considerava um monstro, homofóbico, racista e misógino, sem se dar contra de que esta é uma construção fartamente alimentada pela máquina de guerra americana, ávida por colocar no poder um presidente ligado às suas intenções imperialistas e fomentadoras de conflitos mundo afora. Como disse muito bem Glenn Greenwald em uma recente entrevista “Nada do que Trump fez pode ser comparado à maldade moral das guerras patrocinadas por Bush e Obama”.

Quando escuto pessoas no Brasil e fora daqui “torcendo” pela Ucrânia e se justificando com algo como “Putin não dá para aceitar, afinal, ele é homofóbico!! sou obrigado a reconhecer que esta redução da complexidade das guerras à lógica de uma briga de rua produz efeitos até entre as pessoas esclarecidas. Mas não deixa de ser lamentável.

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Propaganda imperialista

Entre conhecidos portugueses vejo também constantes ataques a Putin. Por lá também viceja uma EPB – Esquerda Pequeno Burguesa – anti Rússia, anti Putin e anticomunista que mascara suas perspectivas imperialistas com um falso “discurso pela paz”. Não há porque acreditar que seja um fato isolado; a Europa inteira deve estar infestada por esse tipo de narrativa.

Não aceitam o contraditório e acreditam que apoiar os nazistas da Ucrânia – que mataram 12 mil civis no Dombass e queimaram vivos sindicalistas em Odessa – poderia ser um passo em direção à “paz”.

Nunca é demais alertar a todos sobre a pervasividade da propaganda imperialista; ela está por todo lado.

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Sonhos desmoronados

Há alguns anos acompanhei o sucesso meteórico dos garotos do MBL e me convenci que esse resultado era devido a algo eles tinham e que faltava à esquerda. Sim, sobrava eles uma atitude propositiva, nova e divertida, que prometia a quem se juntava a eles a possibilidade de entrar no mundo dos vencedores. Na esquerda eu via culpa, ressentimento, o estímulo aos cancelamentos, ódio aos opressores, censura e o moralismo identitário. Culpa cristã por todo o lado e um gozo vitimista. Era óbvio que esse jogo nós íamos perder.

Esses garotos neoliberais do MBL foram eleitos. Tiveram milhares de votos. Alguns ficaram ricos. A fábrica de fake news que eles possuíam era também uma engrenagem de engajamento midiático, o que levava ao culto de personalidades e dinheiro, bastante dinheiro.

Agora, o castelo de areia que eles construíram nos últimos 9 anos começa a desmoronar. Renan foi “dedurado” sobre o “tour de blonde” no leste europeu. Rolidei está isolado em São Paulo. Kim está envolvido no “caso Monark”. Alan dos Santos está foragido e Arthur “Mamãe Falei” esta soterrado pelo escândalo de suas gravações sobre as mulheres da Ucrânia, algo difícil de perdoar pela grosseria e insensibilidade. Não acredito que possa se recuperar. Todos eles agora estão envolvidos em pequenos e grandes escândalos.

O episódio lembrou um sistema de pirâmide. Durante algum tempo as pessoas se entusiasmam com as promessas e passam adiante o esquema. Num determinado momento as pessoas da ponta se dão conta do engodo em que foram envolvidas e pedem o resgate do seu dinheiro. Como o dinheiro já desapareceu, de uma hora para outra tudo desaba. O MBL era apenas essa proposta arrogante e vazia de conquistar as mentes com a ferramenta das mentiras e do neoliberalismo sem freios, mas não havia um real substrato que sustentasse tais propostas. Agora, tudo desabou.

Eu não gosto de linchamento midiáticos; eles me fazem muito mal. Quando Eduardo Cunha foi cassado eu estava num aeroporto na Escócia com meu filho e – apesar de Eduardo Cunha se tratar de um crápula – eu me senti mal com sua desgraça. Agora, procuro não me associar ao gozo da vingança contra esses garotos, mas não posso deixar de pensar que esse final era mais do que previsível.

Por outro lado, penso que fizemos algo de muito errado enquanto sociedade quando permitimos que um sujeito como Arthur tenha sido escolhido como representante por milhares de pessoas em seu estado. Nossa sociedade está doente e a emergência desses meninos do MBL no cenário nacional é um sintoma evidente dessa enfermidade. A falta de empatia diante de uma situação de guerra – onde impera o instinto de sobrevivência e a miséria humana transparece nos conflitos – é chocante e desumana.

Como é possível estar no meio de uma guerra e olhar para as pessoas de forma tão objetual?

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De novo o imperialismo…

An American cartoonist in 1888 depicted John Bull (England) as the octopus of imperialism, grabbing land on every continent.

Sem querer ser ofensivo….

De onde a esquerda liberal tirou a ideia de “Imperialismo russo”? As repúblicas TODAS da URSS se desmembraram sem disparar um tiro sequer quando ocorreu a queda da União Soviética. Que imperialismo é tão mansinho assim? Pergunta se o Havaí ou Porto Rico poderiam fazer o mesmo, caso seus movimentos separatistas tomassem corpo. Que imperialismo é esse que nunca invade ninguém desde os anos 50 na guerra fria, e por razões meramente de política local? Que expansionismo russo é esse? Pois parece o dinheiro “roubado pelo Lula” que não aparece em lugar nenhum…

Que imperialismo é esse sem domínio econômico, político, cultural e militar e que não tem NENHUMA influência econômica fora do raio de ação dos seus vizinhos (como o Brasil ou Argentina). Está no DNA dos russos a ideia de que o Ocidente vai invadir, e eles sabem que precisam eternamente se defender. Foi assim com Napoleão, depois na guerra civil e por fim com o Führer. Em todas o povo russo unido se defendeu. Eles sabem que qualquer desatenção pode ser a última. Não consigo entender como esse mito proliferou, em especial na esquerda liberal…

Como disse bem Mário Berlese:

“Não se pode usar aleatoriamente a definição de “imperialismo” através de um arsenal de senso comum sem ter a mínima noção do conceito. Em primeiro lugar, a “anexação territorial” não é um elemento definidor do conceito de imperialismo, mas um fator de conjuntura específica, quando países de economias monopolistas altamente desenvolvidas entram em choque por áreas de influência. O que nem de longe pode ser considerado o caso da Rússia. A ideia central que Lênin expõe em “Imperialismo, fase superior do capitalismo” é que um país só pode ser considerado imperialista se sua economia for desenvolvida a tal ponto que sua espinha dorsal será sustentada pela exportação monopolista de capital financeiro, tendo em vista que o alto desenvolvimento de seu capital interno concentrado não mais o permite crescer dentro dos seus limites territoriais, o que força tais países a se lançarem desenfreadamente à imposição predatória e parasitária contra países de economias atrasadas. O que, definitivamente, está MUITO LONGE de ser o caso da Rússia. A guerra da Rússia contra a Ucrânia não tem rigorosamente nada a ver com o expansionismo do capital financeiro, pois economia do russa é subdesenvolvida, seu sistema especulativo é atrasado e sua base de sustentação é o extrativismo – o que é uma característica típica de países retardatários, explorados pelo imperialismo. Ao contrário dos Estados Unidos, Inglaterra e França, a Rússia não possui nenhum tipo de relação colonial contra nenhum país do mundo. “Rússia imperialista” é a terra plana do marxismo. Ninguém leva a sério.”

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Que esquerda é essa?

A “esquerda” brasileira tem algumas figuras patéticas que insistem na tese do “nem-nem” e na ideia de que a Guerra na Ucrânia é um choque entre “imperialismos”. Eu pergunto: até quando vão insistir nessa loucura do “imperialismo russo”????

Respondam aí com sinceridade….

* Qual a série russa vocês tem acompanhado no Netflix?
* Qual a cotação do rublo hoje?
* Você sabem onde tem cursinho de língua russa?
* Qual o tênis russo vocês curtem?
* Que filme russo vocês assistiram esse ano?
* Qual carro russo vocês gostariam de ter?

* Qual a expressão usada por nós no cotidiano deriva do idioma russo, brother?

Imperialismo significa dominação GLOBAL econômica, política, militar e cultural. A Federação Russa não tem nenhuma dessas condições. “Imperialismo russo” não passa de uma narrativa imperialista criada para relativizar a barbárie do Império americano. A Rússia é uma grande Venezuela altamente militarizada, vive de commodities – em especial fósseis, como Petróleo e gás – e tem um PIB menor que o do Brasil. Sim, a Rússia é mais pobre que o nosso país.

Essa história de imperialismo russo é apenas absurda. Ver gente de esquerda reproduzindo a narrativa de uma Rússia expansionista, que deseja recriar a grande “União Soviética”, é apenas ridículo. Mais uma farsa criada pela fábrica de fake news da mídia corporativa

A maioria das pessoas que apoiam o comediante ucraniano e exaltam a “bravura da resistência” – o que, em última análise, exalta um governo nazista na Ucrânia e desmerece a vida de 12 mil russos étnicos mortos até agora pelas milícias no Dombass – se considera de esquerda. Essa é a maior tragédia para o nosso campo, sem desconsiderar o horror e as mortes de uma guerra, por certo.

Ver uma parte da esquerda brasileira parear-se com nazistas, milicianos, anticomunistas e assassinos comuns é o pior que poderíamos assistir aqui. Sem uma visão do contexto geopolítico, e sem abandonar esse anticomunismo infantil, a esquerda brasileira continua a ser esse puxadinho identitário e liberal da direita.

Esses textos que celebram Zelensky e atacam Putin e a Rússia refletem uma perspectiva política reacionária, e poderiam ser usados como libelo para a criação de uma frente neonazi no Brasil.

PS: Jesus tá vendo esse apoio ao nazis e ao Batalhão de Azov. Depois não adianta fazer beicinho quando São Pedro disser que seu nome não está na lista…

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Figurantes

Quando meu filho tinha por volta de 7 anos ele conheceu o universo dos “jogos de computador”. Eu, que vivi o apogeu do fliperama, nunca consegui ser influenciado por estes jogos – estava velho demais para ser contaminado – mas meu filho por alguns anos se dedicou aos jogos de guerra em “primeira pessoa”, onde era possível incorporar um soldado que enfrentava os inimigos em campos de batalha. Eu não gostava de jogar, mas adorava assisti-lo jogando e não me furtava de fazer alguns comentários. O mais comum – e que virou piada interna – era reclamar das matanças que seu personagem protagonizava. Eu lhe dizia: “Olha, você matou vários soldados inimigos!! Você acha que eles não tem família? Acha que eles não têm mulher e filhos? Acha que eles não tem uma casa para voltar quando você desliga o computador?”. Ele me explicava que eles não eram pessoas de verdade, e eram apenas as dificuldades que o jogo colocava para chegar até o “chefão” e vencer o jogo.

Fiquei feliz ao saber que, anos mais tarde, a minha piada sobre os “capangas” (que continha uma crítica à desumanização) um dia apareceu em uma comédia dos irmãos Zucker. Na verdade, estes jogos expõem, de forma dissimulada, uma face bem cruel da nossa sociedade – mas absolutamente verdadeira. Existem aqueles que merecem a condição de protagonistas da vida e da história, enquanto para outros esta condição não é oferecida; eles apenas merecem a condição subalterna, condenados a ser figurantes. Estes últimos são desumanizados, não contam, suas mortes não precisam ser lamentadas e são apenas o suporte para que os protagonistas possam brilhar.

Quando vejo os comentaristas da imprensa corporativa contextualizando o massacre das mulheres e crianças de Gaza, colocando a culpa das mortes nos próprios palestinos, dizendo que as mortes não aconteceriam se eles se rendessem ou parassem de usar suas mulheres e filhos como escudos humanos (uma mentira repetida mil vezes…), é inevitável trazer à memória Golda Meir. Foi ela, antiga primeira ministra de Israel, que popularizou a frase genocida: “Jamais perdoaremos os palestinos por terem obrigado nossos filhos a matarem os seus”, em conversa com Anuar Sadat, presidente do Egito. Como Israel é uma colônia ocidental, criada por invasores europeus e encravada em terra árabe na última e mais mortífera de todas as experiências colonialistas, percebi que a sociedade europeia continua a se considerar protagonista do planeta, e a periferia (em especial os palestinos, os negros africanos, os habitantes da Indochina e os “cucarachas” do Brasil) são como os capangas do jogo de computador do meu filho, cujo sofrimento e morte não contam porque ocorrem nos corpos dos figurantes no grande tabuleiro do planeta. Para eles nosso mundo continua dividido entre aqueles cujas vidas e mortes contam e os “outros”, para quem a a existência não faz diferença alguma na grande contabilidade do capitalismo.

Mesmo após termos eliminado boa parte do colonialismo em África, Ásia e Oceania, a mentalidade ocidental ainda é guiada pela ética dos colonizadores europeus que dizimavam populações nativas inteiras, dando gargalhadas com a desorientação de aborígenes que jamais haviam visto uma arma de fogo. Somos como os franceses na Argélia, os belgas no Congo, os alemães na Namíbia. Somos insensíveis às lágrimas e gritos das mães palestinas, mas questionamos a resistência palestina chamando-a de “brutal”. Não aceitamos que os figurantes assumam o controle do seu destino, usem de sua própria língua, plantem e colham de sua própria terra e conquistem sua tão sonhada autonomia.

A fala emocionada dos jornalistas também me lembra os clipes carregados de emoção que mostram soldados americanos voltando do front da Ásia central ou oriente médio, fazendo surpresa para suas mães, companheiras e filhos. Depois de destruir as famílias de líbios, afegãos, sírios, palestinos, vietnamitas, coreanos e qualquer um que ouse enfrentar o Império, eles voltam felizes e emocionados para abraçar os seus, todos lindos, limpos e loiros. As mortes que causaram nos “outros” são irrelevantes diante da felicidade do reencontro, mas foram importantes para que seu heroísmo fosse exaltado. Essa é a face mais cruel do imperialismo, e por isso deve ser combatido se desejamos um mundo com equidade e justiça para todos os povos

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O cisco no olho alheio…

Yuval Noah Harari, escritor israelense bastante popular, escreveu uma matéria ao Guardian onde afirma que “Putin já perdeu a guerra”. Seus argumentos parecem ter sido copiados das redes de TV americanas, mas chama atenção que um israelense seja porta voz deste tipo de raciocínio, que acusa a Rússia pela beligerância.

Não dá para dar ouvidos para um israelense que escreve sobre guerra, invasão de países e destruição de populações. Ora senhor Yuval, olhe a destruição que vocês promovem na Palestina com a invasão europeia e branca realizada na região desde o Nakba, em 1947. São VOCÊS que consideram a Palestina um “não-país” e os palestinos um “não-povo”. Olhe para a destruição da população que vocês oprimem, do qual o senhor é beneficiário, antes de acusar falsamente a Rússia.

Quando esse sujeito diz: “He may win all the battles but lose the war. Putin’s dream of rebuilding the Russian empire has always rested on the lie that Ukraine isn’t a real nation, that Ukrainians aren’t a real people, and that the inhabitants of Kyiv, Kharkiv and Lviv yearn for Moscow’s rule” (Ele pode vencer todas as batalhas, mas perderá a guerra. O sonho de Putin de reconstruir o império russo sempre se baseou na mentira de que a Ucrânia não é uma nação real, que os ucranianos não são um povo real e que os habitantes de Kyiv, Kharkiv e Lviv anseiam pelo governo de Moscou) ele está apenas mentindo. Uma farsa, uma narrativa claramente controlada pelo imperialismo.

A Rússia não declarou guerra à Ucrânia mesmo quando a população de origem russa estava sendo massacrada pelos nazistas que detém o poder neste país – estima-se mais de 14 mil mortos no Dombass desde 2014 (muito mais do que esta guerra aberta provocou até agora). Não declarou guerra nem quando sindicalistas e comunistas – russos étnicos – foram queimados vivos dentro do sindicato em Odessa por forças de extrema direita de inspiração nazista.

A guerra veio pela insistência dos nazistas ucranianos em apontar armas atômicas para Moscou através das promessas explícitas de Zelensky de fazer isso ao aderir à OTAN. Uma bomba dessas em Kiev atinge Moscou em 4 minutos.

NA MÃO DE NAZISTAS!!!!

A Ucrânia INICIOU A GUERRA em 2014 quando realizou um golpe de estado financiado pelos Estados Unidos – em mais uma revolta colorida – e colocou no governo um fantoche dos interesses do Império. A Rússia está se defendendo, e vai se defender até a morte. Está no DNA russo, um povo que foi invadido por Napoleão, depois pelos 10 exércitos estrangeiros (inclusive americano) que deram apoio aos mencheviques na luta contra os revolucionários bolcheviques na guerra civil e depois ainda por Hitler na II Guerra Mundial. Todos foram rechaçados, com custos altíssimos em vidas humanas. Não serão os nazistas mais uma vez que vencerão a Rússia.

Antes de decretar a derrota russa lembre que esta guerra é para a defesa russa. Sua ideia de que Putin deseja ressuscitar a “União Soviética” é pura narrativa fantasiosa para justificar os ataques à Rússia.

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Máscaras

Aliás, um dos efeitos colaterais dessa guerra na Ucrânia foi fazer caírem as máscaras de “progressistas” da esquerda americana, como Bernie Sanders. Quando se trata de proteger o Império todos tocam a mesma música. Internamente pode haver diferenças entre os “burros e os ursos”, mas para quem olha de fora são todos idênticos na proteção de seus privilégios, na defesa do “excepcionalismo americano” e na manutenção do Império.

Assim funciona nossa indignação seletiva. Somos obrigados a levantar quando um nazista se senta à mesa, mas nem um pigarro para quem solta bombas no Yemen, na Somália ou na Palestina, ou para as sanções assassinas no Afeganistão, Cuba ou Venezuela. E agora no Brasil você pode ser nazista, agir como nazista é até dormir com a foto do Führer debaixo do travesseiro. Só não pode falar ou admitir sua existência, e não pode criar um partido com esse nome. O mesmo tipo de hipocrisia que havia com os gays na minha infância.

As vezes eu fico tentando me colocar no lugar de um sírio, palestino, iraquiano ou iemenita escutando as pessoas chorando pelos ucranianos e pedindo o fim da guerra. “Oh, meu Deus, essa guerra precisa acabar!!!”. Sério? Agora? E porque só essa?

Quero ver gente colocando bandeirinhas da Somália no perfil em solidariedade. Nahh, branco matando preto ninguém reclama. Nunca o nosso racismo eurocêntrico ficou tão evidenciado.

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