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Um assento reservado no Inferno

Cada vez que eu vejo a lavagem cerebral de gente que chama o Putin de “carniceiro”, “louco”, “assassino” por sua invasão à Ucrânia eu fico pensando o quanto estas percepções são criadas e disseminadas pela gigantesca máquina de propaganda que controla nossas mentes. Longe de ser apoiador de um direitista autoritário como Putin, tudo o que eu gostaria é que o presidente eleito da Federação Russa fosse julgado com a mesma régua com a qual os presidentes americanos são avaliados.

Até 6 de maio de 2022 o número oficial de mortes de civis da Guerra na Ucrânia era de of 4.253 (1.617 homens, 1,064 mulheres, 100 meninas, and 105 meninos, assim como 67 crianças e 1.300 adultos cujo sexo é desconhecido) – e um número quase igual de feridos. Sim, nos primeiros 100 dias de guerra houve um número de mortes igual àquelas produzidas pelo trânsito brasileiro no mesmo período – que mata em média 32 pessoas por dia em nossas ruas e estradas. Podemos dizer que os soldados russos – treinados para matar e defender – são mais cuidadosos com a vida alheia que os nossos motoristas.

Algumas agências clamam que os números são bem maiores, mas não oferecem dados alternativos confiáveis e comprovados. Mesmo que fosse o dobro dos números oficiais, ainda assim seria uma guerra em que existe uma óbvia preocupação em não matar, não destruir e uma tentativa obsessiva em preservar vidas.

Agora analisem as invasões americanas na Síria e Iraque, apenas para citar guerras recentes provocadas pelo Império onde é evidente um sentimento xenófobo e islamofóbico. A maioria dos americanos – mas também nós, as colônias – não tem noção do massacre ocorrido lá e acham que morreram “dezenas de milhares”. Isso está muito longe da verdade, pois como disse o general Tommy Frank – general responsável pela operação inicial de invasão – “não contamos corpos”, exatamente porque os inimigos do Império são sempre desumanizados, deixam de ser gente, não passam de baratas. Um bom filme sobre isso é “Hearts and Minds”, um espetacular documentário de 1974 sobre a brutalidade da guerra e a “necessária” desumanização dos inimigos, no caso os vietnamitas.

Na primeira semana da invasão do Iraque, com o claro objetivo de buscar uma posição geopolítica favorável e roubar petróleo, algumas estimativas apontam que foram mortos 80.000 iraquianos, usando uma mentira disseminada pelas redes de TV sobre “armas de destruição em massa!!” contada ao vivo pelo Secretário da defesa americano Collin Powell. O total de mortes desse massacre imperialista – que destruiu o país de onde surgiu a civilização humana – chega a 2.4 milhões de pessoas. Alguém acha que Putin poderia estar na mesma turma de seres humanos perversos onde estão Bush (pai e filho), Obama, Trump e Biden? “They’re not in the same league“. Na Síria a destruição foi a mais violenta possível por parte das forças aliadas à OTAN. Mercados centenários, mesquitas e templos religiosos reduzidos a pó; imagens obtidas por satélite mostraram uma violenta destruição em 290 locais históricos de todo o país. A ONU alertou que a guerra na Síria já destruiu 24 áreas consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade e 104 sofreram danos profundos desde que o conflito teve início em 2011.

É preciso um mínimo de senso de proporção quando colocamos de um lado um autocrata de direita protegendo suas fronteiras de ameaças da OTAN e do outro assassinos perversos no comando de um Império decadente.

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Porteira aberta

Nossa esquerda identitária, que aplaudiu a cassação abusiva do idiota do “Mamãe Falei”, agora precisa fazer malabarismos retóricos e acrobacias legais para defender o vereador Renato, de Curitiba, que corre o risco de também ser cassado da Câmara de Vereadores de Curitiba. Para estas que fizeram vídeos comemorando a queda o Arthur do Val eu digo: era muito mais simples e justo defender todos os mandatos como princípio, e jamais permitir que o recurso extremo da cassação pudesse ser usado como vingança ou retaliação – mesmo que defender o bostinha do Arthur machuque o coração.

Postura e discursos machistas e asquerosos em privado, ou invasão pacífica de uma igreja – ambas ações tolas e impensadas – seriam atos para guardar na memória e repensar o voto nas eleições, talvez até para uma bela punição promovida pelo parlamento. Entretanto, não justifica a punição abusiva de expurgar um representante do povo. Esta ação deveria ser reservada às coisas extremamente graves…

Spoiler: para cada prazerzinho fugaz de ver o Mamãe Falei se ferrando teremos que suportar dezenas de ataques que virão contra parlamentares e outros representantes da esquerda. O mesmo ocorre quando batemos palmas para ações ilegais da polícia; como sempre, quando um bacana sofre esse tipo de ação (e soltamos gritinhos de excitação) ao mesmo tempo há dezenas de policiais chutando porta de barraco, sem qualquer mandato, arrombado a lei em nome dos interesses burgueses, batendo e matando gente preta e pobre.

Na minha opinião o parlamento não é um lugar para ser educado e comedido; pelo contrário. É um lugar de arriscar os limites da sua força com seu discurso. E para mim punir um parlamentar significa calar milhares – no caso da Dilma milhões – de cidadãos, e isso só poderia ocorrer em faltas gravíssimas. Nenhuma das que eu escrevi aqui merecia isso.

Para mim a democracia é (muito) mais importante do que chiliques morais ou sentimentos ofendidos. O estrago dessas cassações é deixar parlamentares acuados e amedrontados, temendo ferir sentimentos de minorias. Acho isso deplorável. O que pegou mesmo foi o Arthur do Val dizer “são fáceis porque são pobres”. O resto é interpretação subjetiva, e isso vai ser inexoravelmente usado contra a esquerda, porque no caso do Renato também pode ser feita uma interpretação viciosa e inclusive JÁ FOI, por isso perdeu na comissão de ética. O malabarismo é para provar que uma ligação telefônica privada, com conversa de garoto de 5a série (ou “locker room chat”) é algo gravíssimo, mas invadir uma igreja, desrespeitando a religião alheia não é. Quem deixa essa porta aberta agora vai ter dificuldade de fechar.

Sempre tem como achar um buraco, quando se quer encontrar. Minha queixa não é no mérito, mas na desproporcionalidade flagrante que agride o princípio democrático. O problema é a porteira aberta. A mesma falta de proporção no caso Daniel, e agora que os políticos (e o STF) perceberam que podem punir e cassar por vingança isso vai se tornar lugar comum nos parlamentos. Para mim, um abuso criminoso e oportunista.

Manter a escrita dura da lei é sempre bom para a esquerda e os oprimidos. Burlar a ordem, mesmo que para atacar notórios sacanas, sempre trará resultados negativos para as populações oprimidas.

PS: em São Paulo passar a mão na parlamentar durante uma sessão da Câmara de deputados vale 6 meses de suspensão. Já falar de forma privada ao telefone com a sua galera, dizendo bobagens sobre as mulheres… ah, isso é crime hediondo, precisa ser extirpado. Ou seja, quando a palavra se torna mais grave do que os atos é porque se pode fazer qualquer coisa na intenção de punir, e sobre quem quisermos. E nesse contexto, quem pagará a conta mais salgada seremos nós da esquerda, como sempre

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Direito internacional

Existe um clamor da imprensa ocidental que repete de forma circular o discurso sobre o “direito de países soberanos“, etc. A gente escuta e lê isso por todo o lugar, parece que esse tipo de perspectiva se origina de uma fonte única e se espalha por toda parte. Vale lembrar, sobre o tópico do direito internacional, que os Estados Unidos usam a doutrina Monroe, que retira a soberania da América Latina caso, por exemplo, queiram produzir e estocar seu próprio arsenal atômico. A crises dos mísseis no início dos anos 60 foi exatamente sobre essa questão, mas o “excepcionalismo americano” – fruto de uma estúpida autoimagem de superioridade branca ocidental – acredita que o que é válido cá, para os outros não vale. Sobre esse tema vale olhar um vídeo do prof John Mearsheimer.

Dizer que há poucos nazistas na Ucrânia é outra farsa disseminada. Existem inclusive (basta uma simples procura por palavras chave) sites que descrevem os lugares onde estão os principais monumentos nazistas na Ucrânia, incluindo o mais importante deles: Stepan Bandera, nazista ucraniano colaboracionista e implicado no assassinato de milhares de judeus ucranianos.

Sobre a quantidade, na Alemanha nazista o partido de Hitler era minoria – nas eleições teve 28% – mas chegou ao poder. Quando isso ocorre (como no Brasil de agora) é porque o povo foi conivente com os abusos e a retórica do seu líder. Portanto, a Ucrânia é um país nazificado, extremista e fascista. E para quem acha o nome incorreto, por acreditar que o nazismo é um fenômeno apenas alemão, deveria avisar ao Batalhão Azov, ao Pravyy Sektor e mesmo aos neonazis do mundo inteiro – inclusive aqui em Pindorama – para não usarem os uniformes do Hugo Boss, a iconografia, a suástica e o “heil”. Spoiler: eles não vão topar.

Claro que um governo nazista, ameaçando colocar mísseis nucleares em seu país após um golpe de estado é uma ameaça direta à Federação Russa. Para entender isso, basta conhecer um pouquinho só da história russa para perceber que eles jamais poderiam permitir essa afronta, pois ela significa uma “national security threat”, inadmissível pelos russos. A Rússia, desde muito tempo, foi invadida por Napoleão Bonaparte, por 16 nações durante a Guerra Civil e depois por Hitler. Imaginar que esta ação é uma maluquice do Putin é burrice e falta de noção. Hoje, mais de 82% dos russos apoiam Putin em suas ações nesta guerra; até seus adversários comunas estão cerrando fileiras com seu líder.

Não é lícito basear estas escolhas por julgamentos “morais” ou por uma noção republicana de “direito”; não se pode permitir uma gigantesca ingenuidade como essa. Tudo é feito com base no poder. Caso o “direito” reinasse, Israel sequer existiria, visto ser uma aberração jurídica desde sua criação. Sequer um país institucionalmente racista poderia ser aceito. Não existe país com mais condenações do que Israel, e porque nada acontece? Porque os Estados Unidos bancam cada uma e todas as suas atrocidades. Também o mundo interromperia as invasões americanas no Iraque, na Líbia, no Vietnã, na Coreia, no Afeganistão, no Panamá, na Palestina (através de seu enclave Israel), etc por serem todas afrontosas à soberania dos povos.

A questão russa é sua sobrevivência e por isso não pode permitir que uma estrutura inimiga e violenta como a OTAN coloque armamento destrutivo em suas fronteiras. A Rússia sabe muito bem com quem está lidando: o Império da Destruição, que deseja dividir o mundo em republiquetas controláveis e não suporta o gigantismo de concorrentes como Rússia, China e Brasil. Numa nação minúscula como a Geórgia bastaria um golpe de Estado (como houve na Ucrânia, que não é pequena) para o tirano da vez, um fantoche americano como o Zelensky, apertar um botão a mando dos Estados Unidos e iniciar uma guerra nuclear, ou usar dessa posição estratégica para chantagear a Rússia. A ação russa de agora pode até afrontar o direito internacional (como qualquer ação americana), mas é justa.

O que dizer de pessoas que dizem que o Donbass foi invadido pelo exército da Rússia??? De onde tiram essas informações??? Não havia tropas russas regulares no Donbass até o início da guerra. E quando dizem “invadiram antes de qualquer tentativa de negociar …” só dá para responder meu Deus!!! Foram oito anos de negociação e 14.000 mortos pelos nazistas ucranianos!!!! Até quando a Rússia deveria esperar para resgatar seus cidadãos????

A ideia de que a Ucrânia não é nazista faz tanto sentido como alguém em 1939 dizer que a Alemanha não era nazista, já que eles não passavam de uma minoria e que Hitler era um grande patriota. A Ucrânia se nazificou de forma perigosa e insidiosa. Sim nazista, e não há como esconder. A prisão dos nazistas escondidos como ratos em Mariupol ainda vai revelar muito mais do que já sabemos sobre o regime de tortura, racismo e opressão que era imposto pela OTAN através do seu presidente fantoche.

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1984 é aqui

No clássico “1984” do escritor George Orwell – nascido em Motihari, na Índia britânica em 1903 – Winston, o herói da trama futurista, trabalha no Ministério da Verdade, um importante setor governamental que lidava com notícias, entretenimento, educação e cultura e era responsável por falsear documentos, livros, escritos e até a própria literatura, desde que pudessem se referir ao passado de uma forma que desagradasse o governo. A ideia das mudanças nesses escritos era fazer com que tudo correspondesse sempre ao que o poder central trazia como verdade. Assim, o Ministério da Verdade estava encarregado de alterar a história passada para conformá-la com a vontade de quem estivesse no poder. Uma forma de fazer isso era mudar o significado de palavras, através de uma linguagem e uma tática de atualização de significado chamada “Novilíngua”.

O que parecia um futurismo macabro hoje em dia é o que chamamos de “atualidade”. O que vemos na guerra da Ucrânia segue exatamente esse roteiro que o genial escritor britânico nos deixou como profecia há mais de seis décadas. O que vemos agora uma tentativa sistemática de apagamento da história, fazendo com que os inimigos de outrora sejam hoje amigos, e trazendo elementos linguísticos diferenciados para descrever o que antes era tratado de forma diversa.

Assim, os nazistas da Ucrânia agora são chamados “nacionalistas”; as derrotas – como a vergonhosa rendição em Mariupol – de “atos heroicos”, as esposas chorosas dos nazistas feitos prisioneiros de “pobres esposas pedindo pela vida dos maridos” – em verdade elas próprias orgulhosas militantes nazistas (vide clip abaixo do canal “The Dive” de 17/05/2022 ). A imprensa corporativa ocidental tenta desesperadamente converter as derrotas sucessivas em vitórias, manipulando consciências e fabricando consensos. Uma das mais ridículas tentativas foi o esforço de comparar os covardes nazistas que se esconderam na fábrica de Azovstal com os “300 de Esparta”, como se os fascistas que levaram a cabo o massacre no Donbass pudessem ter sua ficha passada a limpo com estes golpes de propaganda.

Foram necessárias poucas décadas da publicação do livro seminal de Orwell para nos darmos conta que os poderosos não tem memória – tem apenas interesses, que mudam o passado conforme sua vontade e suas necessidades de domínio crescente. O fato de a Ucrânia ter se nazificado, ter dado um golpe de Estado e ter colocado no poder um fantoche dos americanos e da OTAN em nada incomoda esses senhores da guerra. Se for necessário criar estátuas não apenas para Stepan Bandera e tantos outros colaboracionistas do nazismo, mas para o próprio Führer, haverá de lhes ocorrer uma maneira de limpar a imagem desses personagens para que a imensa massa de manobra do mundo ocidental passe a considerá-los como “combatentes valiosos” contra a “ameaça comunista” (e o fato da Rússia não ser mais comunista certamente não será impeditivo para quem pretende transformar nazistas confessos em cordeirinhos). Pior ainda é o tratamento dispensado ao comediante fantoche americano Zelensky, como se fosse um estadista, mesmo quando sabemos que sua ascensão ao poder veio na esteira dos golpes de estado da praça Maidan.

Ao tentar reeditar a história, o poder de comunicação do Império Americano mostra, mais uma vez, o caráter autoritário das ações em relação ao resto do mundo. Seguindo o roteiro orwelliano, este “ministério da verdade” que se ocupa de modificar a história pregressa para que se adapte ao gosto dos poderosos da OTAN, nada mais é do que a grande máquina de propaganda da Imprensa ocidental corporativa, corrupta, suja, dependente dos financiamentos dos grande conglomerados financeiros, das indústrias farmacêuticas, do Vale do Silício e da máquina de Guerra. Como se pode facilmente constatar, o livro de George Orwell é bem mais do que uma simples publicação, mas uma fonte encadernada de predições e profecias do que seria o futuro próximo. Um livro profundamente atual.

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É possível mudar?

Eu não levo muita fé na pretensa mudança da essência profunda do sujeito. Estas são características basilares e formativas que não podem ser mudadas pelo simples confronto com a realidade. Acho difícil – quiçá impossível – as pessoas mudarem os princípios e o caráter; elas mudam tão somente os detalhes da forma, o embrulho que envolve sua estrutura de afetos. O caráter reacionário de Vargas Llhosa estará presente em sua obra, mas ele não precisa aparecer de forma explícita e sim camuflado, como os preconceitos de tanta gente que conhecemos. O racismo de Monteiro Lobato aparece em sua obra, apesar de ser um racismo diferente daquele que vemos hoje, há que contextualizar. Mas estava lá, desde sempre.

As vezes, na juventude, podemos deixar o brilho de algumas ideias mascararem nossa índole, mas na maturidade elas voltam. Reinaldo Azevedo foi trostskista na juventude, e muito reacionário que conheço costuma dizer “até já votei no PT” querendo nos fazer crer que “a maturidade os fez mudar”. Reinaldo nunca foi de esquerda e o voto no Lula de alguns conhecidos meus – se realmente ocorreu – foi por outras razões, e não por uma adesão ao ideário da esquerda.Essas experiências da juventude foram apenas arroubos para produzir outros efeitos até inconscientes (tipo contrariar um pai conservador ou impressionar uma garota de esquerda) mas jamais uma escolha definitiva e plenamente consciente. Confio mais na estabilidade dos valores do sujeito, algo que se forma do nascimento até o fim dos primeiros mil dias.

Deixo aqui uma pergunta: alguém acredita que o Lobão algum dia foi genuinamente de esquerda (para além das aparências e do discurso), maturou sua compreensão da realidade e hoje é esse reacionário icônico? Pois, pela minha tese, a fase “esquerdista” do Lobão era apenas um sintoma, uma forma de dar conta de elementos inconscientes que circunstancialmente o atormentavam.

Isso me lembra uma velha piada.

Um sujeito entra numa mecânica e pergunta ao sujeito deitado de costas embaixo de um fusca.

– O senhor tem leite?

O mecânico olha pro sujeito e diz secamente: “Sr, isso aqui é uma oficina. Vá incomodar outro!!!”

Ele dá de ombros e sai da oficina. Anda alguns metros e para na frente de uma borracharia. Chama o borracheiro e repete a pergunta:

– Por favor, o senhor tem leite?

O borracheiro olha o sujeito de cima a baixo e responde ainda confuso, de forma ríspida: “Isso aqui é uma borracharia. Temos pneus e câmaras. Só isso. Caia fora”.

O nosso herói segue seu caminho mais adiante até parar em uma loja de brinquedos. Abre a porta e faz mais uma vez a pergunta que resume sua busca:

– Por favor, a senhora por acaso teria leite?

A velha senhora, atendente da loja, educadamente explica que na loja não se vende leite e que ali só havia brinquedos, caso desejasse comprar algum ela teria prazer em lhe mostrar.

O senhor então dá de ombros, não diz uma palavra e sai da loja. Anda alguns metros e senta-se no meio fio da calçada. Coloca a mão no bolso do casaco e tira uma pequena garrafa de cachaça. Olha para o céu, suspira e exclama:

– Deus é testemunha do quanto eu tentei.

Para muitos de nós estas são buscas falsas. É o caso do cara que desiste da analise porque o analista é separado, ou chegou atrasado, ou não sorriu da sua piada. Na verdade, a confrontação com sua alienação era o real motivo da desistência. Somos pródigos em dar desculpas e produzir autoenganos, para satisfazer um superego cobrador.

Lobão bem que se esforçou para ser de esquerda, mas diante da primeira dificuldade da práxis política ele voltou para onde sempre esteve mais confortável.”

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Marionetes

Diante da minha necessidade em treinar a escrita no idioma inglês eu costumo participar de debates no Facebook sobre assuntos variados, e minha diversão é expressar teses polêmicas em notícias de empresas de “news”, como Insider Presents, Daily Mail, Washington Post, etc.

Vendo os comentários de americanos sobre a guerra na Ucrânia eu fortaleço a minha crença de que o cidadão médio dos Estados Unidos é o grupo humano mais manipulado que existe. A visão que eles têm sobre o conflito é um retrato fiel da avalanche de fake news e visões distorcidas despejadas pelas suas empresas de comunicação. Para estes espectadores, a Ucrânia está vencendo a guerra, a Rússia sofrendo derrotas humilhantes diariamente, a guerra é uma ação honrada da Ucrânia e essa história de nazistas, batalhão Azov, Pravyy Sektor e golpe de estado “não é bem assim”, e o verdadeiro nazista é Putin, o açougueiro.

Sobre as motivações da guerra, falam quase em uníssono sobre o absurdo da Rússia invadir uma “nação soberana” mas, quando confrontados com o fato do seu país fazer isso em todo o planeta, sendo responsável pela morte de 11 milhões de pessoas nos últimos 30 anos em suas buscas por petróleo e controle geopolítico, eles afirmam que isso ocorre para derrubar genocidas sanguinários e liberar os povos oprimidos, e as mortes seriam “efeitos colaterais”, um preço pequeno a pagar para levar a democracia liberal ao mundo.

O sujeito médio americano é um marionete da mídia corporativa, condicionado a repetir tolices da TV conservadora e condenado a aceitar as ações imperialistas determinadas pelos oligarcas americanos e o estado profundo.

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Parto, ideologias e modelos

Escrevi um texto sobre a humanização do nascimento (seguido de uma resposta complementar) em que eu criticava o abuso de cesarianas no nosso meio, além de reconhecer a importância dos paradigmas e as ideologias que comandam o pensamento no que diz respeito ao parto e à própria medicina. Muitas pessoas criticaram abertamente o texto, sendo que em uma destas críticas um médico dizia que havia uma “criminalização das cesarianas” por parte de “identitários do parto humanizado”.

Bem, não há porque se surpreender com este tipo de crítica, até porque a cesariana – recurso tecnológico em substituição aos processos fisiológicos do nascimento – por estar sob o controle dos médicos e do sistema hospitalar pareceria – à visão desarmada – ser a forma mais segura e menos danosa de parir. O entusiasmo inicial com esta cirurgia, capaz de salvar vidas quando a fisiologia do nascimento dá lugar aos caminhos espinhosos da patologia, acabaria produzindo sua disseminação mundial muito rápida. No início dos anos 80 a taxa de cesarianas no Brasil era de 24% e no início da 3a década deste século já temos mais do que o dobro: mais de 60% do bebês do Brasil nascem através de uma cesariana, sendo que na classe média – no setor privado e nas “medicinas de grupo” (Unimeds, Amil, Sulamérica, etc.) – a taxa de cesarianas se aproxima de 90% de todos os nascimentos. A forma mais “normal” de nascer no Brasil é através de uma cirurgia abdominal de grande porte, carregada de custos e riscos associados. Por esta razão pensadores do mundo inteiro, e também do Brasil, começaram a questionar sobre qual o real sentido da suprema artificialização do processo de nascimento e quais as consequências dessa perspectiva para a própria humanidade.

Entre as críticas à minha matéria algumas foram formuladas por pessoas pelas quais tenho profunda admiração por sua postura política e como pensadores com abrangência em várias áreas do conhecimento. Em verdade, a principal crítica foi pela dificuldade em aceitar um termo utilizado na matéria, quando falei que para entender o novo paradigma de atenção ao parto era necessário “descolonizar mentes“. Essa expressão foi alvo de críticas, pois dava a entender que se tratava de uma postura idealista.

Ora, eu não cobraria de ninguém que viesse a entender as engrenagens da assistência médica ao parto, algo que refleti durante 40 anos, mas me parece um equívoco acreditar que para combater o idealismo é necessário afirmar que “as ideias de nada valem”. O idealismo parte do pressuposto de que o mundo não pode ser compreendido e que os sentidos humanos deturpam a análise das coisas exteriores. Ora, as ideias movem o mundo e o mundo como podemos enxergar é constituído por elas. Quando se diz que a “mudança das ideias não modifica nada” é um erro. As ideias impulsionam as ações. Enquanto solitárias elas serão estéreis e infrutíferas, mas sem as ideias as ações são caóticas e incapazes de produzir transformação. Além disso, a proposta de que o problema da violência no parto seria solucionado com a simples suplantação do capitalismo não passa de uma ilusão. Um exemplo fácil é a constatação da brutalidade da assistência aos partos na União Soviética, baseada na atenção médica, intervencionista, tecnocrática e mecanicista do parto.

Os dilemas e as concepções sobre o corpo e seus limites não poderiam se esgotar somente pela queda do capitalismo, e os relatos dos partos e dos protocolos utilizados na Rússia soviética não deixam dúvida sobre sua violência estrutural que extrapola os aspectos relacionados ao capitalismo. Seria necessário acreditar que o sistema econômico tivesse o poder de moldar relações de opressão que são anteriores ao próprio capitalismo. O parto já era brutal muito antes do capitalismo se estabelecer, tornado assim por forças culturais de outra natureza. O controle do corpo e da sexualidade das mulheres, surgido com o modelo patriarcal, não pode ser negado se quisermos entender a dinâmica da violência obstétrica. Uma pesquisa rápida sobre as modalidades de assistência ao parto no mundo inteiro – e seus graus variados de violência, inobstante o sistema econômico vigente – pode nos mostrar que precisamos de novas perspectivas, além da suplantação do horror capitalista, para resolver estas questões.

Portanto a “descolonização das mentes” é essencial para que a AÇÃO possa ocorrer, até porque a assistência ao parto no Brasil é uma cópia mal acabada – e mais pobre – do modelo capitalista americano de assistência ao parto que historicamente produz maus resultados. O “extermínio” das parteiras se iniciou nos Estados Unidos no início do século XX, e se estendeu para os países do terceiro mundo – mas não para o consolidado e milenar paradigma europeu de assistência centrada na figura da parteira profissional. Por esta razão é que nossa ação, enquanto ativistas, deve ser lutar junto com as mulheres (em especial) para que abandonemos um sistema ruim, como o americano, para adotar o sistema europeu – igualmente capitalista!!! – centrado na figura da parteira profissional, que apresenta os melhores resultados que a experiência humana já conquistou.

Percebam: tratam-se de dois modelos inseridos em sociedades capitalistas e com resultados absolutamente díspares. Dois paradigmas de atenção conflitantes, divergentes e que competem pela hegemonia da assistência mesmo que compartilhando – em essência – o mesmo modelo econômico.

Assim, a ideia de “descolonizar as mentes” se ampara na proposta de escolher entre os modelos existentes (o modelo tecnocrático, de matriz americana, e o modelo humanista, de matriz europeia), e não é “idealista”, pois reconhece a realidade material dos fatos – a assistência violenta oferecida às mulheres – ao mesmo tempo em que afirma que uma compreensão mais abrangente dos fenômenos é essencial para que as ações possam ser direcionadas e produzir seus efeitos. Não devemos esquecer que o próprio Marx asseverava que “Uma ideia torna-se uma força material quando ganha as massas organizadas”.

Não há dúvida que o fim do capitalismo diminuiria muitas idiossincrasias da atenção médica, mas esta mudança não seria capaz – por si só – de mudar muitos dos conceitos equivocados sobre o que seja a assistência à saúde, qual o sentido da cura e qual o propósito último de um tratamento de saúde. Essas transformações só podem brotar do conflito de ideias, do choque de concepções e novas percepções de realidade. Somente depois que estes paradigmas entrarem em choque, e que a falência dos modelos anteriores produzir uma crise, é que partiremos para a ação e a mobilização políticas, para que assim seja viável a transformação.

Não há dúvida, então, de que entre estes conceitos que precisam ser transformados estão aqueles referentes à assistência médica contemporânea ao parto, uma ideia baseada num sistema de poderes que vai muito além da visão capitalista. A assistência tecnocrática contemporânea parte do conceito de que o acréscimo de tecnologia e intervenções sobre o processo de nascimento poderia mudar para melhor os resultados – uma proposta que se mostrou um fracasso, pois que a objetualização das mulheres pela mecanização do parto produz efeitos deletérios ao negar-se a reconhecer as necessidades psíquicas, físicas, sociais, e espirituais das mulheres durante o nascimento de seus filhos. Como diria a antropóloga Wenda Trevathan, em “Evolutionary Medicine”:

“(…) as raízes do suporte emocional e social às mulheres durante o trabalho de parto são tão antigas quanto a própria humanidade, e a crescente insatisfação com o modo como conduzimos o nascimento humano em muitos países industrializados está baseada na falha do sistema médico em reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas relacionadas com este evento”

Berçário em hospital chinês

Ou seja: o sistema médico é contaminado por uma ideologia que enxerga os pacientes de forma objetualizada e, por isso, as parturientes são frequentemente alienadas das decisões sobre seus próprios corpos. Se essa visão objetual sobre o outro pode produzir alguns benefícios para o exercício da profissão (em especial a proteção psíquica dos cuidadores) ela esteriliza e dessensibiliza as relações entre médicos e pacientes. O parto, por não ser uma intervenção médica, tem essa clara particularidade, pois ao contrário da exérese de um tumor – algo que o médico faz – o parto é algo que a paciente faz, e a expropriação do processo com a consequente alienação das mulheres só poderia ter, em longo prazo, consequências deletérias.

Durante décadas eu apoiei a visão reformista e revisionista da obstetrícia. Acreditei que a informação dos médicos e sua educação para as vantagens do modelo humanístico de atenção ao parto poderia fazer que ocorresse uma “modificação por dentro” do sistema. Fui levado a crer que o problema das práticas defasadas era a ausência de uma adequada orientação aos profissionais. Todavia, foi apenas depois de experiências frustrantes que eu me dei conta que esta é uma estratégia fracassada. Não existe nenhuma maneira de fazer médicos trabalharem contra suas próprias vontades e inclinações, contrapondo-se à própria lógica intervencionista e tecnocrática da medicina. A única solução é encarar a assistência ao parto como um campo de batalha em que poderes competem para o controle dos corpos e da reprodução, muitas vezes alienando as próprias mulheres dos processos decisórios. É para a luta que devemos estar preparados, e não para a inútil tentativa de convencer médicos a contrariar seus próprios interesses.

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O Comuna da Galileia

E no meio da multidão Tadeu e Josias debatem sobre os ensinamentos recém recebidos. Junto com tantos outros eles se aglomeraram na pequena vila na Palestina para escutar as palavras de Paulo, o Apóstolo dos gentios.

– Jesus? Não sei, nunca confiei. Mania de andar com pobre e puta. “Divida o pão e o peixe”? Qualé rapá? Achei dinheiro no lixo? Se ele acha mesmo que tem que dividir, por que não dividiu a túnica dele? Que ande pelado, aí sim quero ver. E viu como ele chegou em Jerusalém? Montado num burrico. Agora diga… comunista de burrico? Queria ver chegar a pé, cheio de bolha nos dedos. Vai pra Galileia!!! Depois que foi pra cruz e ressuscitou virou esquerdalha, mas tinha que ver o vinho que eles tinham na última ceia!! Coisa boa, importado. E tu acha que chamar Leonardo da Vinci pra pintar saiu barato? Esses caras cobram o olho da cara e só trabalham prá meia dúzia de riquinhos. “É arte moderna” dizem eles. Tudo comuna rabanete; vermelho por fora branquinho por dentro. Explica essa mané: se Roma é tão ruim assim por que todas as estradas levam pra lá? Agora diz aí quantos romanos querem vir morar na Palestina? Tem gente que se joga no Mediterrâneo pra chegar lá a nado e morre afogado no meio, mas me diz onde está o pessoal que prefere vir para cá, comer areia em Nazaré.

– Cara, são perspectivas, pontos de vista. Tenha calma antes de julgar. Agora fique em silêncio que o palestrante principal vai falar.

– É quem é?

– Não sei, mas é um operário sem dedo. Jesus costumava chamá-lo de “meu garoto”.

– Hummm, da pra sentir daqui o cheiro da mortadela. E essa multidão aí, tudo pago. Todos mamam nas tetas. Pode apostar que essa mamata vai acabar.

– Rapaz, você nunca vai entender, nunca…

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O Café e o Cocô

Nos Estados Unidos da América o dono do Twitter ameaça oferecer liberdade total de expressão no seu novo brinquedo de poder o Twitter. Curiosamente, a esquerda americana – os leftists – não estão reclamando com a devida veemência contra a concentração obscena de poder na mão de um sujeito egocêntrico e paranoico como Elon Musk, mas centram sua artilharia na possibilidade de que possamos escrever, a partir de agora, sem censura. Sim, a esquerda americana – que na verdade é uma direita identitária – teme que muitas mentiras serão disseminadas sem qualquer filtro. “O que será dos gays, dos negros, das trans, etc”.

Ora, esse tipo de vigilância de costumes não poderia perdurar muito mais tempo. Ninguém mais aguenta patrulha de expressões, de vocabulário e de sentimentos ofendidos. Ninguém suporta mais essa infantilização que se criou nas relações – em especial na Internet – e que trata a todos como crianças frágeis que não aguentam piadas ou críticas fortes.

Para piadas ruins conte outra melhor. Para ofensas, use ironia – ou ofenda também, se não lhe resta mais nada na sua caixa de ferramentas. O que não é mais admissível e o espetáculo constrangedor de correr sempre para a mamãe – seja ela o estado, o Twitter, o Facebook, o Instagram, etc – e fazer queixa para que uma instância de poder venha nos proteger. Um dia as pessoas teriam que crescer e enfrentar por si mesmas estes desafios.

Uma pena que a esquerda raiz, socialista e marxista não teve força para liderar a luta pela liberdade de expressão. Somos poucos a lutar contra os desmandos autoritário e da censura. Enquanto isso a esquerda liberal foi invadida por identitários que são os primeiros a pedir cancelamentos, silenciamentos, censura e cerceamento da liberdade de expressão. Uma lástima que essa nova onda veio de um bilionário Ancap, representante da direita mais perversa e concentradora de riquezas.

Bem, dizem que o melhor café do mundo é o Kopi Luwac, feito com grãos retirados do cocô da Civeta. Quem sabe essa metáfora sirva para a gente lembrar que em longo prazo a liberdade é sempre melhor do que qualquer censura, e que a gente pode consegui-la mesmo que tenha que separar seu valor da bosta que a envolve.

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Xerifismo do STF

Três perguntas:

1Quantos anos de cadeia cada cidadão brasileiro se arriscaria a pegar caso o ministro Alexandre de Morais tivesse a mesma rigidez que teve com o bombadão fascista a respeito das postagens nas suas redes

2O que impediria a justiça de fazer isso com qualquer pessoa, na dependência apenas do humor de um super poderoso juiz que não gosta das suas palavras?

3Desde quando está valendo o crime de opinião no Brasil?

Realmente poucos teriam a coragem enfrentar um STF acovardado, que deveria mesmo ser suprimido, exterminado, pois que é um poder abusivo que age autoritariamente sobre os outros poderes democraticamente constituídos e que atua politicamente, de forma descarada, para fazer valer a vontade das elites e da pequena burguesia.

Só não vale reclamar quando o STF prender um amigo ou quando impedir o seu presidente predileto de concorrer; claro, nosso apoio só vai se expressar quando esses velhos medíocres atacarem um bombadão idiotizado pelos anabolizantes por dizer tolices em rede social. Nove anos de prisão por fazer gracinhas em redes sociais – e vamos deixar bem claro que “atacar” um poder constituído é um conceito bem diferente do que foi dito pelo réu, de que tinha “um sonho”. Ora, esse sonho de acabar com o STF até eu tenho, pois que esta instância é uma mistura de autoritarismo e xerifismo com o mais abjeto punitivismo.

Estamos cavando nossa própria cova. Esses julgamentos são absurdos, ou no mínimo exagerados e o caso do Daniel é emblemático. Quem agora comemora deve pensar que muito em breve este tipo de ação autoritária dos Ministros que julgam em causa própria vai se voltar contra um parlamentar da esquerda. Ontem, milhares de votos foram cancelados, e de novo através do autoritarismo do STF.

Aplaudir o ministros punitivistas, que agem como perfeitos xerifes de um filme de bang-bang, é pura estupidez, comparável a ficar feliz com os editoriais lidos pelo Bonner contra Bolsonaro. Não importa que o personagem da bolha fascista de agora seja um perfeito idiota, fascista e golpista, estamos abrindo uma porta que não seremos capazes de fechar. Anotem…

Precisamos com urgência de um órgão mais democrático, não vitalício e com pessoas realmente comprometidas com o cumprimento da constituição. Uma suprema corte que diz “O STF precisa escutar a voz do povo” (e não das leis!!!) deveria ser extinto no dia seguinte. Mas quando o STF faz algo que, circunstancialmente nos agrada, muita gente (inclusive da esquerda liberal) coloca a cara do Ministro Alexandre como wallpaper do celular e o transforma em herói da nação. Realmente, muitos preferem ser complacentes e servis com as diatribes de cortadores de pé de maconha e evitam críticas aos venais que agem como se a constituição fosse algo que pudesse ser criada a todo momento, na dependência de suas vontades, dos momentos e das oportunidades propícias para a autoproteção e a defesa dos interesse do mercado.

Cito aqui 5 exemplos de abuso obsceno de poder bem recentes protagonizados pela suprema corte:

1) golpe de 64 sancionado pela suprema corte, tratado como algo feito para o “bem da democracia”;
2) impedimento de Lula assumir como ministro de Dilma (o que poderia obstaculizar o golpe em marcha);
2) prisão inconstitucional de Lula,
prisão violando o artigo 5o da constituição, impedindo-o de concorrer; talvez para estes a prisão de Lula “era do jogo”, mesmo…
3) “impeachment” da presidente Dilma sem crime de responsabilidade – conforme amplamente comprovado, e até aceito por Temer, que reconheceu que o impeachment foi deflagrado porque Dilma não quis aceitar a “ponte para o futuro”. Pois também esse crime foi validado pelo STF;
5) a prisão arbitrária e absurda por 9 anos de um idiota que teve atitude de fanfarrão e boquirroto em rede social.

Uma breve pesquisa adicional e seria fácil achar outras centenas de atos autoritários para se somarem a estes. Com a adoção do “crime de opinião” ninguém está livre de ser perseguido por ter expressado sua opinião e sua perspectiva política sobre o país.

Muitos argumentam como se as leis fossem feitas de ferro, e bastaria se apoiar nelas para fazer valer o que é justo, ético e correto. Não… a lei não é feita de ferro, talvez de uma borracha maleável. Pensando bem, esta não é a melhor imagem; as leis são feitas de “slyme” e o STF faz o que quer com elas, moldando-as de acordo com os seus interesses intestinos e espúrios. Não apenas as leis regulares, mas a própria constituição, que é usada de acordo com as vontades desse colegiado medíocre. “Não tenho prova cabal contra José Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite” lembram dessa pérola da ministra Rosa Weber? Sabe quando uma aberração como essas seria aceita num tribunal europeu? Jamais…. mas por que continuamos a aceitar estes absurdos jurídicos por aqui?

A resposta é óbvia, porém triste: é porque esse país é cheio, repleto, transbordante….. de gente comportada.

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