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Pos verdades

Numa guerra a primeira vítima é a verdade“. Num conflito os “false flags” – encenações de ataques para justificar retaliações – são disparados de todos os lados, e os tolos as recebem de braços abertos, bastando para isso que a mentira se encaixe na narrativa que momentaneamente nos interessa. Pode ser uma causa humanitária – mataram criancinhas inocentes!!! – ou para fazer valer nossos sentimentos racistas e xenofóbicos inconfessos – foram os malditos árabes!!!. Não importa, o objetivo é mirar no coração e deixar a razão de fora dessa briga.

Para tanto bastam cenas chocantes e até com pouca sofisticação; afinal é fácil contar uma história, por mais falsa que seja, para quem DESEJA acreditar nela. Coloque árabes, crianças sufocando, turbantes, cortes rápidos de cena, pais inconsoláveis e temos uma narrativa. Podemos tirar as imagens de vários contextos e de vários lugares, até de datas distintas. Como em um clip musical, seu objetivo é afastar a razão da arena das ideias, e colocar os nossos sentimentos mais primitivos no comando das ações. Da identificação primitiva e profunda que emana das cenas sobrevém o ódio àqueles que as tornaram fato, e a consequente onda de ódio, raiva e por fim o desejo de vingança. Com isso é possível manipular milhões de almas sem uma bala, um canhão ou um soldado.

Esta estratégia foi usada em um famoso “false flag” sobre um ditador na República Centro Africana há uns dois anos. Cenas de crianças sequestradas, usadas como escravas sexuais ou combatentes escravizados inundaram por semanas as telas dos computadores. Muitos bradavam que, por razões humanitárias, os Estados Unidos deveriam entrar nessa “guerra humanitária em nome da civilização“. Tudo muito justo e nobre não fosse o fato de que o ditador não era visto há dois anos e que provavelmente já estava morto. Tudo fantasia pós moderna, tudo pós-verdade. O criador da campanha internacional pela deposição do suposto ditador foi visto correndo nu pelas ruas de sua cidade, em um surto psicótico, quando toda a mentira veio à tona.

Acreditar piamente no que as agencias de notícias nos jogam diariamente é crer que o poder da informação em um mundo controlado pela infotecnocracia é democrático e se pauta pela verdade dos fatos. A importância da Globo nos golpes do Brasil e da Fox na eleição fraudada nos Estados Unidos há poucos anos (reeleição de Bush) nos deixa claro que esta é uma perigosa ingenuidade.

Se é verdade que milhares estão morrendo na Síria, e que algo precisa ser feito, também é certo que acreditar nas informações que nos chegam sem um “double check” das fontes é fazer o jogo infame dos poderosos, os que controlam as armas e a mídia. Reagir a isso não significa fechar os olhos, mas entender que a imposição de narrativas únicas serve a interesses políticos claros, dos quais nós – simples mortais – não somos quase nunca os beneficiários.

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Deputado X

Para ponderar:

A partir de mais uma demonstração explícita de fascismo do deputado X, a questão que nos cabe debater é como reagir. Que ele representa o que há de mais fascista, anacrônico e obtuso na política nacional já não há mais dúvidas, mas a reação que podemos produzir é que precisa ser meticulosamente analisada, e da forma mais racional possível.

Temos o exemplo recente de Donald Trump que deveria nos oferecer boas lições. Trump vomitava asneiras e frases de efeito racistas e xenófobas TODA A SEMANA; ele nunca saía das manchetes. Nada disso era ao acaso; tudo foi meticulosamente planejado. Acabou sendo visto como “autêntico”, aquele candidato de fala original, verdadeiro e espontâneo; o antipolítico que diz a verdade e o que lhe vem à cabeça, sem filtros. Aquele que não tem o “rabo preso”; o nacionalista que é contrário ao politicamente correto. O anti feminista que bem soube explorar as contradições do feminismo. Ele fez uma campanha memorável. Saiu de azarão e “piada” e tornou-se presidente da maior potência do mundo. Uma tragédia para o mundo e em especial para os americanos.

Todavia, lembrem-se que ele foi torpedeado por TODA a imprensa e TODA a intelectualidade, sem piedade. Houve “frentes” que se formaram de artistas, intelectuais, cineastas e escritores. O próprio partido lhe virou as costas (uma parte). As “frentes” que o atacavam aumentaram ainda mais a sua aura de “diferente de tudo que está aí”. Ele era uma máquina de declarações absurdas e violentas e a imprensa reproduzia tudo o que ele dizia, e com isso vendia muito.

Pois ele ganhou e se você prestar atenção o deputado X (em menor escala o atual alcaide de São Paulo) está encampando esta estratégia de sucesso, passo a passo. A pergunta é se temos o direito de incorrer nos mesmos erros e repetir o papel que os liberais americanos fizeram. Podemos repercutir e combater suas falas racistas e homofóbicas, vociferar contra sua mente medieval e criar “frentes” de intelectuais,  pacifistas, feministas e artistas para combatê-lo …. e assim agindo fazê-lo a grande estrela das próximas eleições.

Por outro lado, talvez possamos usar outra estratégia desta vez. Penso que parar de viralizar seus discursos e repetir seu nome seja uma etapa essencial.

Que acham?

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Infâmias

Copiado de um debate em família:

“Existe uma tentação irresistível para algumas pessoas em disseminar “fake news” que destilam ódio e infâmias contra personalidades, em especial àquelas situadas no espectro oposto de nossas crenças políticas. Mesmo quando a notícia é absolutamente inverossímil (Friboi, mansões, roubo de objetos do Palácio, etc.) estas pessoas não resistem ao apelo emocional de destruir a vida de um inimigo distribuindo mentiras absurdas e grosseiras.

Qualquer pessoa minimamente educada percebe que essa tática de atingir a honra de um sujeito é um golpe baixo, mas ela sempre vem de pessoas que não conseguem atingir a fala ou as obras de seus adversários, e por isso mesmo rebaixam o nível do debate. Até crianças discutem assim: quando a razão falha a emoção brota com a máxima intensidade e o idioma se torna a ofensa pessoal, e toda a retórica se concentra nos ataques à honra. “Se você não consegue atingir a mensagem, atire no mensageiro”.

Existem inúmeras formas de criticar os governos de esquerda no Brasil mas a maioria das formas de ataque são baixas e desonestas. Dilma e Lula podem ser criticados (e devem) pela esquerda e pela direita, como qualquer governante, mas apenas por suas obras ou pela falta delas. Ataques pessoais falam muito mais dos acusadores do que dos acusados.

Os adversários da social democracia popular proposta pela esquerda brasileira podem ser interlocutores honestos do modelo conservador, levando adiante sua proposta liberal e a ideia de “estado mínimo”. Por outro lado,  podem se tornar difamadores odiosos de histórias inventadas que são facilmente desfeitas logo depois. É uma escolha, mas se escolherem a segunda vão acabar inexoravelmente cercados de difamadores igualmente fanáticos e mentirosos. Eu insisto em acreditar que uma pessoa honrada não merece essa companhia, esteja ela em qualquer um dos lados do espectro político..

Pensem bem: a escolha está entre fazer crítica firme, dura, intensa mas serena ou semear a mentira e a injúria contra a honra de pessoas no campo adversário. Podemos olhar para o lado que quisermos, mas não é lícito reclamar depois quando ficarmos cercados de gente que tem o ódio como unico idioma.

Tal é a lei da sintonia.”

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Manifestação

“Não havia nada de sincero nessa manifestação do dia 26/03.  Nenhuma das pautas era verdadeira. Se houvesse interesse em combater a corrupção não teriam colocado Temer e tirado Dilma que, junto com Lula, deu toda a liberdade para os exibicionistas da PF e os fanáticos religiosos do MP. Colocaram Temer e toda a camarilha no poder, os mesmo que, junto com Cunha, boicotaram o governo Dilma desde o primeiro dia do segundo mandato.

O movimento de domingo foi contra Lula que SÓ CRESCE NAS PESQUISAS. Foi contra o “comunismo” (leia-se justiça social) e a favor de Temer (era proibido falar mal dele). Por isso mesmo foi um gigantesco fiasco e uma humilhação terrível para o MBL que tende a desaparecer por ser um movimento de aluguel cujo único objetivo era dar uma cara popular ao golpe. Morrerá pela ausência de substância e pela falta de caráter dos fantoches do instituto Millennium.

E quem teria coragem de se associar aos velhos brancos, frustrados e impotentes, viúvas de militares e outros alienados que – pelo fetiche de serem escravos – pedem a volta da ditadura militar?”

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Trans

Existe um sujeito que circula no mundo real e virtual a quem todos nós conhecemos. É um indivíduo da classe média, profissional liberal ou comerciante e que diuturnamente fala mal do Brasil e dos brasileiros, mas acima de tudo tenta desmerecer qualquer conquista social dos governos de esquerda. Ele é o “paneleiro”, que saiu às ruas munido de ódio e indignação para pedir o impeachment da presidenta. Se é verdade que para alguns o sentimento era de legítima inconformidade com os erros cometidos pelo governo, para uma enorme parcela a motivação profunda e inconsciente era outra, e esse é o ponto essencial para entender o paneleiro típico.

O comportamento desse brasileiro está na raiz da atitude do colonizador, aquele que explora e vai embora, que goza “na ausência do pai”, sem limites e com total desapego ou lealdade ao lugar onde vive. Sua postura é a do explorador que jamais se conecta com seu lugar, pois não se enxerga nele.

Esse sujeito me lembra muito a figura de um colega médico que há quase 30 anos atrás visitou Paris pela primeira vez. Na volta ao Brasil, rodeado pelos seus colegas no hospital, contava os detalhes da sua viagem exagerando suas virtudes (só o soube muito depois) e minimizando seus defeitos, ainda encantado e deslumbrado pela “cidade luz”.

Todavia, uma frase do seu extenso relato nunca me saiu da cabeça, mesmo após três décadas. Enquanto descrevia os encantos de Paris, em um momento de e abração exclamou: “É esse o lugar que eu mereço viver“. Sua expressão, seu sorriso e sua postura indicavam que a nacionalidade brasileira que carregava como um peso era uma injustiça, mais do que um engano. Ele havia nascido no lugar errado e rodeado da gente “errada”.

Meu colega fazia parte de uma casta brasileira que conheço muito bem por ter transitado pela medicina por quase 40 anos. Eles são os “transidentitários“, sujeitos nascidos no Brasil mas que nunca se sentiram como parte desse país. O sobrenome estrangeiro funciona como um lembrete atávico de que sua identidade “verdadeira” está alhures, em outro país e em outra latitude. Essas pessoas detestam o nosso país, suas misturas, sua pele morena, seu idioma, seus sotaques e seu jeito de ser.

Esse brasileiro que não se aceita como tal, as vezes emigra e se torna um “americano-trans” ou um “europeu-trans”. Era ele mesmo que estava misturado com pobres indignados vestindo verde-amarelo há alguns poucos meses. Esse sujeito transidentitário por vezes usa toga e sempre que pode vai beber civilização nos Estados Unidos. Volta para cá e lamenta sua língua, sua cor, sua história e sonha com o dia em que uma cirurgia transformativa o fará ser o que sempre sonhou e desejou.

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Evangelismos

A atuação das igrejas evangélicas (as outras muito menos) foi fundamental para criar entre a ralé (e aqui uso “ralé” na concepção de Jessé Souza – os despossuídos, o lúmpen, os esquecidos) um sentimento conservador, antipetista, antigay, retrógrado e alienante que atua contra seus próprios interesses e direitos.

Não me parece esdrúxula a tese de que a ralé é o principal mercado do evangelismo nacional e de que a mensagem veiculada pelos governos petistas de união das classes desprivilegiadas através das medidas de inclusão social COMPETIA com o messianismo das igrejas, roubando para a militância política e social os fiéis que aguardavam na fila longa e incerta da graça divina. O PT ao diminuir a miséria e a fome, dar esperanças e consumo para as classes baixas, encher o aeroporto de pessoas que só viam aviões na TV ou no céu e triplicar o número de negros na Universidade ofereceu uma via de realização que se chocava com o mercado da graça, a salvação pela fé e o comércio do dízimo. Isso enfureceu os grandes “missionários”, sendo Malafaia e Edir apenas os exemplos mais contundente.

Isso pode explicar os discursos odiosos e vingativos do “bispo” Malafaia contra o PT e as esquerdas, a evidente (e natural?) vinculação com os setores capitalistas do boi e da bala, e suas ligações com o poder de Israel. O estado laico é mais do que uma obrigação civilizatória; ele representa a luta contra formas sutis de alienação mental representadas por grandes vertentes do evangelismo de direita no Brasil e no mundo.

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Hipocrisia

Escuto todos os dias os radialistas populistas de direita com esse discurso de armar a “população de bem” para combater a onda de violência e acabar com os criminosos. Entretanto, eu lembro que essa indignação só emerge quando a vitima é branca, de classe média e o crime ocorreu em um bairro onde transitam as castas superiores. Só escuto silêncios quando morrem dezenas de negros e pobres nas ações da Polícia na periferia ou nas guerras entre as as facções que lutam pela primazia de abastecer a droga para estes mesmos cidadãos de bem. A morte só nos afeta quando próxima e as vidas ainda valem tanto quanto a cor de quem as carrega.

A hipocrisia agora é o idioma oficial da nação.

Esta hipocrisia contemporânea nos oferece a oportunidade de chorar pelo menino branco de tênis Nike morto na guerrilha urbana, mas nos anestesia para morte de uma legião de pretos e pobres que morrem todos os dias para nos garantir o direito de fumar aquele baseado em paz.

Edgar Alan Pontes, “Ruas de Fumaça” Ed, Bonett, pág 135.

Edgar Pontes é um colunista de jornais nascido em Curitiba em 1985. Escreveu no “Diário do Povo”, no “Correio Popular”, na “Folha de Maringá”, todos no Paraná. Dedicou-se ao jornalismo popular e policial, tanto para o jornal quanto para o rádio, e seu programa “A Hora do Crime” ficou famoso nos anos 70 por apresentar uma visão mais pessoal e intimista dos criminosos, apresentando-os como pessoas de verdade que se colocavam entre dilemas humanos e complexos. Recebeu críticas de ambos os lados: dos justiceiros sociais, punitivistas e apologistas da pena de morte e dos representantes dos direitos humanos. Depois do término do seu programa de rádio dedicou-se à literatura e escreveu “Ruas de Fumaça” onde mostra o lado mais perverso das delegacias, as torturas, o preconceito social, o racismo e a misoginia que permeiam o encontro dramático entre os sujeitos e as autoridades policiais. Seu livro foi celebrado como um “retorno” às suas origens humanistas e um rechaço à política de extermínio das polícias do país.

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A conta

“Tanto Collor quanto Dilma foram eleitos sem ter a garantia de um parlamento capaz de sustentá-los. Nenhum deles jamais teve o carisma e a genialidade de Lula, que sempre teve o povo ao seu lado; nenhum presidente na história democrática moderna terminou seu governo com 92% de aprovação.

Collor e Dilma caíram por golpes parlamentares, apesar do caso Collor haver provas de crime eleitoral que ficaram claros no processo. No caso de Dilma se tornou impossível governar por causa das “pautas bomba” de Cunha e pelo impeachment, ações planejadas por Cunha-Temer para a desestabilização e o golpe. Mas não se iludam: o recorde de assassinatos em Pernambuco, que hoje testemunhamos horrorizados, está intimamente ligado ao golpe. Existe uma sensação clara de que não há porque obedecer às leis: manda o mais forte. Se é possível tirar uma presidente ao arrepio da lei, então você mesmo pode fazer sua lei.

Aos paneleiros, a conta”.

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Um Vinho com Moro

A postura de Leandro Karnal no papel de “Guru” acima do bem e do mal, sua atitude afetada e debochada contra elementos da cultura popular (como Luan Santana), suas tentativas infindáveis demonstrar sofisticação e erudição e suas ironias e frases de efeito clichê sempre me incomodaram. Porém, como ele está “do nosso lado” sempre relevamos. Talvez estejamos vendo o ocaso de um ícone da esquerda que em pouco tempo se transformará em “liberal”. Sairá reclamando da intolerância e dos xiitas. É provável que e as análises mais sombrias estejam corretas.

Leandro Karnal é um inegável sucesso recente da Internet através dos seus vídeos no YouTube. Eu não o conhecia antes disso, apesar de ele ser de São Leopoldo. Não há como negar que ele é inteligente, culto e sabe se expressar. Brinca com as palavras, os tempos do discurso e seus silêncios. Cativou multidões de fãs por oferecer pérolas de autoajuda ou por explicar alguns conceitos complexos com palavras simples.

Entretanto ele sempre me pareceu, em todas as suas manifestações, ser dominado por uma vaidade inegável. Sua fala é cheia de citações e referências que emolduram um discurso empolado e por vezes afetado. Por mais que sua erudição me pareça admirável creio que ele sucumbiu à soberba, engolido pela fantasia de se tornar um guru, ao invés de se contentar com o lugar de livre pensador.

Ora, um pensador mais cedo ou mais tarde terá suas ideias contestadas ou sua imagem arranhada por outro artista da palavra, mais brilhante e capacitado. Pode inclusive acabar produzindo um grupo muito grande de detratores e contestadores.

Já um guru atinge o desejo, e não a razão. Ele não quer que suas ideias sejam aprendidas ou que seus pensamentos tragam luz à escuridão que nos ameaça. Não, o guru quer ser amado.

Não acredito que o jantar com Moro tenha sido casual. Creio mesmo que o encontro e a foto são propaganda de um projeto pessoal. Eu lamento por um lado – ao ver um pensador à esquerda fazer média com uma pessoa nefasta para o país – mas por outro lado fico feliz ao ver a imagem de um “guru da esquerda” se esfacelar.

Triste do povo que precisa de heróis ou gurus.

PS: Uma piada que não consegui evitar “Foi só um vinho ou também rolou um encontro Karnal?”

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Governo do PT?

Na entrevista do Jo Soares com Luciana Genro na última disputa presidencial este perguntou-lhes como faria para governar sem parlamento caso fosse eleita. Sua resposta mostrou como sua candidatura era muito mais uma fantasia e uma propaganda do partido (o que acho válido e importante) do que um real projeto de poder. Disse ela:

– Não importa; eu governarei com o povo.

Temos que lembrar que ainda está viva na nossa memória o impeachment (forçado, ao meu ver) do “caçador de marajás”, o Collor. Seu problema foi EXATAMENTE esse: imaginar que poderia governar sem um parlamento. Nunca esquecerei dos votos austeros dos parlamentares que faziam parte dos “anões do orçamento” – bandidos que assaltavam o orçamento da nação – a favor do impeachment e contra a “roubalheira”. A história se repetiu como farsa, e nos dois casos o presidente acabou como refém de parlamentares fisiológicos e canalhas, como estes que protagonizaram o espetáculo bufão da votação na câmara.

Ainda não aprendemos que, por pior que seja o presidente, é melhor para a nação mantê-lo e reforçar a democracia e respeitabilidade do país do que mantermos esta postura de republiqueta de bananas que nunca sustenta o voto dos seus cidadãos. Levaremos mais uma geração inteira para recuperar a imagem do Brasil no exterior e para mostrar a nós mesmo que democracia é um valor e não apenas uma conveniência.

Essa tese, da pureza doutrinária, eu me lembro muito bem nos primórdios do PT, e ela foi derrotada no processo de amadurecimento do partido. Sabia-se que, a continuar com o maniqueísmo que ainda contamina uma parte considerável da esquerda, o partido jamais teria a possibilidade de chegar ao poder. Na verdade, esta é a arte da política: engolir ou beijar “sapos barbudos”.

O problema é que as críticas feitas aos governos Lula e Dilma foram em muitos aspectos injustas porque seus críticos – em especial aqueles da esquerda – não quiseram entender que para governar é necessário que haja um parlamento capaz de oferecer as condições para a aprovação de leis. No parlamentarismo isso é automático: o primeiro ministro é o RESULTADO de um parlamento favorável. No Brasil o presidencialismo não permite isso, e os governos do PT sempre foram grandes composições de um partido à esquerda com seus parceiros fisiológicos, entre eles o PMDB. Assim, o PT nunca governou pelas suas vontades e planos, mas para garantir uma maioria suficiente com elementos até da direita em nome da governabilidade. Eu compartilho com o assombro de tantos quando dizem que o PT fez uma grande revolução social sem possuir uma maioria garantida.

Esse mesmo tipo de problema existe nas críticas à Obama, sem levar em consideração uma casa parlamentar fortemente republicana que sempre foi muito contrária aos seus projetos, em especial o Obamacare. Por outro lado, essa crítica NÃO SERVE ao alcaide golpista e traidor que ocupa a presidência com 88% de apoio dos parlamentares, num golpe jurídico-midiático que atravessará a história como uma das grandes vergonhas desta nação.

O PT nunca governou por suas ideias e projetos: governou no limite do que podia suportar a tênue aliança com partidos, a maioria deles sem ideologia e sem projetos, mas que sempre sobreviveram como rêmoras no entorno dos tubarões. Sim, o PT fez uma grande revolução social sem ter uma maioria garantida.

O preço da governabilidade era esse. Quisesse governar por suas próprias ideias, sem fazer concessões e conchavos, e ainda teríamos o PSDB governando o país para os interesses internacionais, não teríamos revolucionado o ensino e não teríamos oferecido aos pobres e miseráveis a dignidade que alcançaram com os governos do PT. Se os acertos espúrios precisam ser criticados e condenados, é também necessário entender que na encruzilhada da esquerda ela se colocava entre a pureza virginal do PCO e do PSTU e a possibilidade de, entrando no jogo sujo da política, construir mais do que palavras, e fazer do Brasil um país em que os menos favorecidos pudessem ter dignidade e orgulho de nascer aqui.”

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