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Medicina e medo

Heis aqui algo que denuncio há 30 anos: “Médicos são treinados a SE proteger em primeiro lugar, e só depois disso a resguardar a saúde de seus pacientes“. Este é um problema ético basilar em uma profissão que é regulada pelo medo, pelas pressões e pela mão do capitalismo.

A disfuncionalidade do sistema é evidente e escandalosa. Pacientes, enquanto consumidores de produtos e serviços, são estimulados a um consumo abusivo, insensato e perdulário. Para constatar isso basta ficar 20 minutos sentado na sala de espera de uma emergência. O nível de equívocos por parte de pacientes e médicos é inacreditável.

Os profissionais também estimulam o uso exagerado dos seus próprios serviços ao determinarem regras sem evidências científicas que as embasem, através de chavões como “consulte seu médico regularmente“, ou “não esqueça de fazer o exame preventivo” e mesmo com os famosos Setembro isso, Outubro aquilo, Dezembro etc… colocando aí qualquer cor e fazendo pacientes frequentarem serviços especializados movidos pelo medo culturalmente instilado por estas campanhas publicitárias.

Realmente, a responsabilidade dos administradores dos sistemas de saúde é inequívoca. Aliás a ideia corrente que os chama de “praga” é maldosa, mas não está muito longe da verdade. Entretanto, como direi mais adiante, trocar administradores não resolveria a questão, apenas criaria outra crise. É preciso ir muito mais além, e modificar uma cultura médica anacrônica, alienante, objetualizante e cientificamente defasada.

Médicos são, via de regra, muito medrosos. Se borram de medo dos seus conselhos profissionais. Não ousam arriscar sua pele, e para isso não se importam de arriscar a dos seus pacientes. A cesariana é um bom exemplo dessa disfuncionalidade. Todo obstetra sabe que os riscos são maiores em curto e longo prazo com a realização de uma cesariana – tanto para a mãe quanto para os bebês. Precisaria ser muito alienado – ou inescrupuloso – para negar as evidências claras e insofismável a esse respeito. Entretanto, é inegável – e facilmente constatável – que a cesariana é MUITO MAIS SEGURA para os profissionais, exatamente porque a cultura tecnocrática criou o mito da “transcendência tecnológica” e com isso produziu uma atitude profissional chamada “imperativo tecnológico” que diz que “na existência de uma tecnologia, ela deve ser usada“, inobstante sua inutilidade ou mesmo o aumento dos riscos para o paciente com sua utilização. Médicos são premidos pelo medo a usar recursos para além da natureza, como operar e medicar, mesmo quando as evidências mostram que não fazer nada seria a melhor escolha. O resultado é uma epidemia de cesarianas, uso irrestrito de uma tecnologia que deveria ser usada apenas na exceção, e o aumento de mortes em decorrência dos maiores riscos envolvidos.

Os Conselhos de Medicina (CRMs), por sua vez, são órgão de proteção da corporação, e não dos pacientes ou da boa prática médica, como os próprios clientes dos serviços de saúde são levados a pensar. Para lá afluem médicos sequiosos de poder ou que trabalham em áreas complexas, onde precisam de “carta branca” para atuarem – a qual pode ser conseguida tornando-se um julgador de médicos. Os conselheiros são temidos por usarem seu poder como uma arma apontada contra inimigos ideológicos e contra todo aquele que questione o poder abusivo da medicina. Geralmente os profissionais que trabalham no Conselho são os que falharam no objetivo de conquistar poder através da sua prática, seja na atuação privada ou na academia. São violentos, sem grande brilho profissional e abusam do poder de aterrorizar colegas. São como policiais de ronda, sabedores de suas limitações, mas ávidos para exercer seu poder sobre o cidadão comum. São os tiranos dos “pequenos poderes

Parafraseando Napoleão Bonaparte, “São tantos os detalhes e as questões subjetivas envolvidas num atendimento médico que nenhum profissional está livre de ser massacrado por um conselho que antagoniza suas ideias ou posturas”. (“Há tantas leis que ninguém pode se julgar livre de ser enforcado” – Napoleão). Sem dúvida, a forma como um caso qualquer será visto nestes tribunais profissionais dependerá de fatores extra-médicos como poder, influência, dinheiro e – acima de tudo – o quanto o caso em debate vai ofender os pilares sagrados da relevância social do médico. O que julga os médicos é sempre o sentimento de ameaça que os conselheiros percebem em sua prática, e não o dano que possa causar aos pacientes.

Marco Bobbio no livro “O Doente Imaginado” fala muito dessas questões políticas e econômicas determinando a conduta médica, deixando a saúde e a segurança dos pacientes em plano secundário. A propaganda médica, os medos dos tribunais, a pressão insana a que são submetidos tudo isso produz uma medicina bizarra, onde o elemento chave para a sua compreensão é o MEDO, e a ideia de que médicos e pacientes estão distantes, julgando-se mutuamente como inimigos em uma arena de ameaças.

O grande problema, para mim, é o fato de que não é suficiente que se modifiquem os administradores, e que se lhe capacite a atuação para que seja mais científica e embasada. Isso apenas não funcionaria, assim como a oficialização da “humanização do nascimento” como prática padrão nos hospitais do Brasil poderia gerar caos e até mesmo tragédias, pelo simples fato de que os próprios PACIENTES ainda não estão prontos para uma medicina centrada na ciência e no uso racional de recursos – entre eles a tecnologia.

Para que isso seja realidade é necessário que ocorra uma revolução cultural, de baixo para cima, onde os médicos e administradores serão forçados pelo novo paradigma a revisitar os seus conceitos e práticas.

Para finalizar, o comentário sobre a frase de John Kenneth Galbraith “Toda a revolução é um pontapé em uma porta podre” feita pelo meu amigo, o professor Francisco Ferreira Carmo: “As pessoas acham que a revolução é dar o pontapé… sou da opinião que é fazer apodrecer a porta.

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Pos verdades

Numa guerra a primeira vítima é a verdade“. Num conflito os “false flags” – encenações de ataques para justificar retaliações – são disparados de todos os lados, e os tolos as recebem de braços abertos, bastando para isso que a mentira se encaixe na narrativa que momentaneamente nos interessa. Pode ser uma causa humanitária – mataram criancinhas inocentes!!! – ou para fazer valer nossos sentimentos racistas e xenofóbicos inconfessos – foram os malditos árabes!!!. Não importa, o objetivo é mirar no coração e deixar a razão de fora dessa briga.

Para tanto bastam cenas chocantes e até com pouca sofisticação; afinal é fácil contar uma história, por mais falsa que seja, para quem DESEJA acreditar nela. Coloque árabes, crianças sufocando, turbantes, cortes rápidos de cena, pais inconsoláveis e temos uma narrativa. Podemos tirar as imagens de vários contextos e de vários lugares, até de datas distintas. Como em um clip musical, seu objetivo é afastar a razão da arena das ideias, e colocar os nossos sentimentos mais primitivos no comando das ações. Da identificação primitiva e profunda que emana das cenas sobrevém o ódio àqueles que as tornaram fato, e a consequente onda de ódio, raiva e por fim o desejo de vingança. Com isso é possível manipular milhões de almas sem uma bala, um canhão ou um soldado.

Esta estratégia foi usada em um famoso “false flag” sobre um ditador na República Centro Africana há uns dois anos. Cenas de crianças sequestradas, usadas como escravas sexuais ou combatentes escravizados inundaram por semanas as telas dos computadores. Muitos bradavam que, por razões humanitárias, os Estados Unidos deveriam entrar nessa “guerra humanitária em nome da civilização“. Tudo muito justo e nobre não fosse o fato de que o ditador não era visto há dois anos e que provavelmente já estava morto. Tudo fantasia pós moderna, tudo pós-verdade. O criador da campanha internacional pela deposição do suposto ditador foi visto correndo nu pelas ruas de sua cidade, em um surto psicótico, quando toda a mentira veio à tona.

Acreditar piamente no que as agencias de notícias nos jogam diariamente é crer que o poder da informação em um mundo controlado pela infotecnocracia é democrático e se pauta pela verdade dos fatos. A importância da Globo nos golpes do Brasil e da Fox na eleição fraudada nos Estados Unidos há poucos anos (reeleição de Bush) nos deixa claro que esta é uma perigosa ingenuidade.

Se é verdade que milhares estão morrendo na Síria, e que algo precisa ser feito, também é certo que acreditar nas informações que nos chegam sem um “double check” das fontes é fazer o jogo infame dos poderosos, os que controlam as armas e a mídia. Reagir a isso não significa fechar os olhos, mas entender que a imposição de narrativas únicas serve a interesses políticos claros, dos quais nós – simples mortais – não somos quase nunca os beneficiários.

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