Pontes

Como é curiosa e perfeita a sabedoria da natureza, que faz correr um curso de água por baixo de cada ponte construída.

Edouard Lefay “Quotes from the underworld”, Ed. Sullivan, pág 135

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Misandria

Deveria o feminismo repetir os erros do machismo?

A imensa maioria dos homens daria a vida para proteger a vida de uma mulher, fosse ela sua esposa, mãe, filha ou mesmo uma desconhecida. É isso que nos demonstra a história da humanidade e nosso entorno. Sim, existem canalhas espancadores e abusadores, mas apenas uma parcela ínfima e insignificante de homens desprezaria os códigos masculinos e machucaria uma mulher. Ainda assim, existem aqueles que desejam acreditar que esta “franja maldita” de homens feridos seja o retrato da própria masculinidade.

Toda a civilização foi construída por homens objetivando proteger as mulheres e seus filhos. Olhem ao redor e vejam as maravilhas criadas pela engenhosidade masculina e observem como são usadas para o bem de todos, homens e mulheres. A frase “mulheres e crianças primeiro” deveria fazer soar um sino de alerta. Quem a disse, e repetiu por milênios, não o fez por amor às mulheres e seus significados no mundo? Se existem homens perversos e cruéis com as mulheres – por certo uma minoria – por que não haveria o mesmo número de mulheres a odiar, desprezar, torturar e desconsiderar os homens? Ou por acaso devemos acreditar que as mulheres são mais doces, amorosas, nobres e dignas que os homens? Seriam elas mais inteligentes? E se disséssemos isso de negros em relação aos brancos, não seria esse um preconceito malsão e inaceitável? Por que aceitamos para os gêneros o que repudiamos nas “raças”?

Mulheres e homens compartilham as mesmas virtudes morais e intelectuais, mas também as mesmas tragédias e dramas, determinados pela condição humana. Querer determinar um gênero mais inteligente, capaz ou honesto que outro – elementos da essência moral e intelectual da humanidade – é um erro grosseiro, que apenas estimula ódio e divisionismo. Quando esta divisão foi aplicada às raças produziu o holocausto, e hoje quando é usada para tratar um gênero como superior ao outro apenas atrasa as propostas de um entendimento mais equânime e justo.

Esse ódio aos homens precisa parar.

Maggie Maxwell Wilkinson, “The Spirit of Innovation”, Ed. Oxford Press, pág 135

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Isonomia

Se a esquerda reclamava – e hoje sabemos, com razão – do ativismo jurídico da Lava Jato e seus métodos medievais de tortura, precisamos lutar para que isso jamais se repita, inobstante a vítima que esteja sendo submetida a este processo desumano e cruel. Exigir que as delações citassem Lula para que a delação fosse aceita e o preso fosse liberado foi uma praxe entre os procuradores em conluio com o juiz de Curitiba. Todavia, este tipo de prática abusiva e imoral é literalmente o mesmo que exigir dos atuais prisioneiros da operação da Polícia Federal que investiga os atos ocorridos em 8 de janeiro que citem a participação direta de Bolsonaro. Condicionar estas delações seletivas à liberação da prisão é o que se condicionou chamar de “tortura” quando o perseguido era Lula. Deveria ser diferente com nossos adversários?

E vejam; isso não significa que Bolsonaro seja inocente, que não tenha participação nos atos de 8 de janeiro. Não significa também que ele não tenha sido a mente por trás dos atos golpistas e da manifestação tosca e histérica (desculpem o termo aparentemente machista) de uma turba de celerados gritando palavras de ordem, misturando exortação ao “espírito santo”, com o “juízo final”, “Jesus”, Olavo de Carvalho e o coronel Ustra. Entretanto, não podemos incorrer no mesmo erro que causou a debacle da Lava Jato. Qualquer ato que demonstre um interesse em penalizar Bolsonaro e sua turma para além dos crimes deveras cometidos corre o risco de produzir nulidades e oferecer ao ex-presidente o destaque que 20 milhões de brasileiros ainda acham que tem.

Quem luta pelo Estado Democrático de Direito não pode ser oportunista – a lei deve ser igual para todos. Acreditar que os problemas da democracia brasileira estão atrelados à figura burlesca de um Bolsonaro com as calças sujas de farinha atirando perdigotos para sua claque ainda não entendeu os reais dramas da democracia liberal brasileira. Se acreditamos que a exaltação de um juiz parcial e desonesto por parte da mídia corporativa era inadmissível, pois que sua conduta era arbitrária e autoritária, porque não temos o mesmo sentimento ao ver os arroubos de estrelismo do ministro calvo disparando sentenças claramente punitivistas? Por que devemos acreditar que os abusos de Moro são muito piores do que o de ministros do STF, que há poucos meses pisavam na Constituição para manter preso e alijado das eleições o presidente Lula? Se não houver um cuidado muito preciso com cada passo na direção da adequada punição a Bolsonaro a militância fascista e de extrema direita vai afirmar (talvez com razão) que se trata de uma perseguição política contra Bolsonaro. Não temos o direito de fazer contra os bolsonaristas o que os acusamos de fazer contra nós.

Não vejo necessidade de pressa para punir Bolsonaro; prefiro que seu julgamento seja justo e estritamente legal, mesmo que tenhamos que esperar até que todas as condições legais sejam cumpridas. Isonomia é um direito de todos nós, e abrir exceções apenas para dar vazão ao nosso desejo de vingança pode ser motivo de arrependimento logo adiante.

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Bichos

Careca, a chefona da Comuna

Por que será que não me impressiona o fato de que a mulher que fez a acusação grosseira contra Lula no interior do RS – dizendo que a distribuição estaria suspensa até sua chegada – é defensora de bicho e trabalha em uma ONG de proteção aos animais? Por se tornaram tão comuns na sociedade atual esses personagens, como o “ecofascista” e o “fascista dos direitos animais”? Isso me faz lembrar a frase de um conhecido ditador brazuca que se gabava de “gostar mais do cheiro dos cavalos do que do cheiro de gente”. No ano passado uma apresentadora de programas infantis declarava que “preferia ficar com bichos do que com gente”.

Não parece coincidência. Essas são as pessoas que dizem que os animais são “superiores” aos humanos, que são fiéis, amorosos, inteligentes e bondosos. Essas pessoas adoram exaltar bichos e desmerecer as pessoas. Ouvi de uma paciente, há muitos anos, que ela gostava mais dos seus cães do que dos seus familiares. Existem nas grandes cidades supermercados dedicados exclusivamente ao mundo “pet”, com centenas de produtos, equipamentos, roupas, casas, brinquedos, comida, etc. O que isso significa para a cultura?

O Brasil ocupa a 3ª posição no ranking mundial de países com a maior população total de animais de estimação. Estes dados são da Abinpet (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação). Não apenas isso, mas o crescimento é vertiginoso, e a associação indica que deve ocorrer um aumento de até 14% no setor em relação ao ano passado, quando atingiu R$ 46 bilhões. Só para comparar, o orçamento da educação no Brasil é de 147 bilhões. Qual a explicação para o gigantismo crescente do “amor pelos animais”?

Ok, as pessoas tem menos filhos. O fenômeno começou na Europa quando, por lá, a classe média resolveu refrear a natalidade, enquanto o Brasil ainda crescia 3% ao ano. Entretanto, o modelo logo chegou aqui. Os sentimentos maternais e paternais seriam desviados para os pets, que assumiriam a condição de crianças da casa. Não é à toa que se usa tão abertamente a expressão “mãe” e “pai” de pet, e a relação com eles se estabelece com essa configuração familiar. Entretanto, para alguns o amor aos pets vem acompanhada de uma marcada e indisfarçável misantropia, um ódio pelas pessoas, associada a uma percepção fantasiosa e idealizada dos animais, que seriam como “adultos sem maldade”, ou seja “sem dolo”. Exato, crianças.

Nem é necessário lembrar de Freud e seus estudos sobre a sexualidade infantil que apontavam para o egoísmo visceral e natural das crianças, desmontando a imagem angelical dos pequenos. Também não é difícil perceber que o amor desmedido pelos animais esconde elementos menos nobres, os quais a superficialidade das análises por vezes impede nossa visão de perceber. Este amor, como se sabe, é sempre seletivo. É amor, mas por certo ele só acontece por alguns animais, aqueles com os quais é possível a identificação. Para amá-los é preciso torná-los gente, com sentimentos, emoções e desejos que podemos reconhecer. É por isso que amamos golfinhos, mas não atuns; os primeiros são capazes de demonstrar de forma clara sua semelhança conosco.

Nada tenho contra os animais – todos eles – muito menos condeno quem os ama, um sentimento que, reconheço, não fui dotado. Digo isso mesmo tendo quatro cachorros que convivem comigo e que me consideram como parte da sua família. Entretanto, não tenho por eles amor, tão somente respeito. Não os condiciono às minhas vontades e permito que sejam livres e soltos; sem compromissos. Entretanto, percebo que alguns apaixonados pela “causa animal” usam do ativismo pelos pets para esconder sua profunda aversão aos seus semelhantes, o grave ressentimento com seres humanos e uma rejeição ao contato com gente. Por isso é tão comum ver esses ativistas envolvidos em atos condenáveis.

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Emaranhado

Machado de Assis também estava errado ao dizer que “o ladrão já nasce feito”, e que a ocasião apenas oportuniza o crime. Essa proposta é de um essencialismo brutal e imobilizante pois, se admitirmos que o caráter é inato, infenso aos condicionantes sociais e às necessidades artificiais criadas pelas sociedades de classe, então teremos de aceitar os determinismos lombrosianos de que o caráter deformado é uma marca de nascença, e nenhum processo educativo seria possível.

Não aceito esta perspectiva, e creio mesmo que a ocasião também faz o ladrão. Basta uma leve investigação no mundo ao seu redor para perceber que muitos sujeitos de caráter dúbio atravessam a existência com aparência de honestos apenas porque a ocasião adequada não lhes foi ofertada pelo destino. Outros, sucumbem à pressão dos desejos e se atiram nos atalhos da vida, mas suas falhas apenas se tornam escândalo quando a porta da oportunidade se abre. Prefiro crer que entre o Santo e o Criminoso se ergue um tênue e translúcido véu, onde o acaso têm um fator preponderante em sua tessitura, e que a razão para suas rotas divergentes se esconde no emaranhado de escolhas e circunstâncias que os envolvem.

Dionélio Souza Ribeiro, “Encruzilhada das Letras”, Ed. Panteão, pág 135

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O que não mata…

Há um velho ditado que diz que “aquilo que não te mata te fortalece”. Por trás dessa afirmação está a ideia de que, com exceção dos eventos fatais, os episódios dolorosos na vida fortalecem aquele que por eles passam, deixando o sujeito mais preparado, capacitado e fortalecido. Não é muito difícil entender que existe sabedoria nesta perspectiva: se a vida é feita de aprendizados, nossos sofrimentos e traumas também podem ser vistos como duras lições que o destino nos oferece. Os sábios do deserto diziam que “a única dos insuportável é aquela para a qual não damos sentido e significado”. Assim, se é possível entender os sofrimento como plenos de ensinamento então aquela dor que não lhe mata (pois a morte encerra a possibilidade de crescimento) pode ser valiosa, dependendo do que você fizer com ela, qual o sentido que oferecer a ela. Portanto, o que não lhe mata lhe fortalece sim, por oferecer experiência, e ela será a principal ferramenta de sobrevivência para os futuros desafios – semelhantes ou iguais a este. Esta é a pedagogia por excelência da nossa espécie, responsável pelo fantástico aprendizado das crianças. Não há dúvida que uma série de problemas podem ocorrer causados pelos traumas inevitáveis que a vida proporciona, porém muito pior que isso é acreditar ser possível uma vida sem desafios, dores, quedas e traumas.

Pensem na perspectiva da “descoberta das Américas” pelos europeus. Os indígenas que aqui viviam não foram expostos aos “traumas” das doenças endêmicas causadas pelo convívio íntimo com os animais domésticos, como ocorria há séculos com os europeus. Desta forma o sistema imunológico deles não estava fortalecido pelas múltiplas exposições. A falta deste tipo de doença na América pré-Colombiana foi o principal causador do extermínio das populações originárias, muito mais do que os enfrentamentos com os invasores do velho mundo.

O que não havia matado os europeus – as doenças causadas pela domesticação de animais – os havia deixado imunologicamente mais fortes, preparados e protegidos. A falta deste “mal” entre os nativos da América os tornou mais fracos, presas fáceis da invasão microbiana. Porém, esta específica perspectiva dos sofrimentos não é uma apologia do “trauma” ou uma visão masoquista da história, e sim o simples reconhecimento da importância fundamental desses processos dolorosos para o fortalecimento de sujeitos, ideias e nações

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Embriões

No dia seguinte ao ataque das Torres Gêmeas, há exatos 22 anos, eu estava auxiliando uma cirurgia num hospital da cidade. Comentei com a minha colega cirurgiã que de tanto ver os Estados Unidos lançando bombas em outros países chegava a dar um certo prazer mórbido de vê-los sofrendo do mesmo mal que aplicavam no mundo inteiro. Por acaso houve consternação em solo americano quando um terço da população da Coreia Popular morreu nos escombros dos bombardeios americanos? Alguém teria se chocado nos Estados Unidos quando soube das ordens dadas aos combatentes para que destruíssem toda a infraestrutura – escolas, hospitais, rede elétrica, saneamento – coreana nos anos 50? E os vilarejos inteiros varridos pelas bombas de Napalm no Vietnã? E o que dizer sobre as 250 mil mortes instantâneas causadas pelas bombas nucleares lançadas sobre as populações civis em Hiroshima e Nagasaki? Quem lamentou por eles? Havia à época jornalistas chorando em frente às câmeras, tendo a fumaça das bombas como fundo de tela?

Imediatamente surgiu por detrás da cortina que separa os campos cirúrgicos a cabeça do anestesista. Intrometendo-se em nossa conversa, estava absolutamente irado. Em suas palavras me acusava de estimular o terrorismo, quando em verdade eu apenas denunciava o terrorismo de Estado praticado pelo imperialismo há décadas, desde o final da segunda guerra mundial – e até antes disso. Mas o anestesista não se conformou com minhas explicações. Passou a atacar o comunismo, a Coreia, depois a China e terminou (que surpresa!) em Cuba. Em poucos segundos completou o circuito dos reacionários, vociferando lugares-comuns, clichês anticomunistas e a favor da “liberdade”. Não faltou o famoso “quantos americanos se atiram ao mar em direção à Cuba” e nem a tradicional “socialismo nunca deu certo“.

Sim, apenas 12 anos nos separavam da queda do Muro de Berlim e muitos no ocidente nutriam a convicção do fim da história. O socialismo havia sido derrotado, o neoliberalismo de Reagan e Thatcher haveria de se espalhar pelo planeta, os Estados seriam encolhidos ao limite do desaparecimento e o capitalismo era a força vitoriosa no embate das ideias. Mas foi o ódio incontido – e até o desrespeito – do anestesista para com a minha particular perspectiva geopolítica que me fez perceber que havia ocorrido apenas um “round” na luta entre estas propostas, e não o fim do combate. Aquela agressividade grosseira era a emergência de um sentimento que eu ainda não havia presenciado com tanta intensidade, mas que ficou evidente quando, apenas dois anos depois, Lula venceu as eleições, levando um partido de trabalhadores ao poder pela primeira vez neste país. O sucesso de Lula, em especial em seu segundo mandato, fez esse sentimento crescer ainda mais, produzindo, a partir da derrota de Aécio para Dilma, o surgimento dessa força de extrema direita pró imperialista, conservadora, de caráter fascista e – como depois constatamos – até golpista.

Há 22 anos eu conheci o bolsonarismo embrionário, o protofascismo que tão facilmente se alastrou entre a pequena burguesia e em especial na classe médica, a mesma que organizou um “corredor polonês” para constranger os médicos cubanos que chegavam ao país e que fez coro ao “Fora Dilma” apoiando seu impeachment fraudulento. Ali era possível ver o que estava se gestando nas estranhas da classe média ressentida, um rancor silente produzido pelos avanços civilizatórios da esquerda, que culminariam nos golpes, na prisão arbitrária de Lula e na eleição de um sociopata para a presidência da República. Gostaria de ter percebido, já naquele instante, o que estava por vir. Pensei se tratar tão somente da compreensível indignação pelo ataque contra civis no coração dos Estados Unidos, mas em verdade sua ira descontrolada estava expondo a extrema direita fascista que se preparava para renascer depois da sua derrota na segunda guerra mundial. Ao meu lado, naquela cirurgia, estava o embrião de extremismo de direita que produziu a direita do ódio. Hoje eu lamento não ter decifrado essa charada quando a vi por primeira vez.

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Genialidade

Eu penso que todas as coisas que já fiz, tanto as “boas” quanto as “ruins”, são basicamente sintomas, fenômenos adaptativos psíquicos aos dilemas, dramas, tragédias e desafios que a vida me apresentou. Ou seja: pouco foi realmente produzido por uma inquestionável virtude ou esforço; quase tudo veio como resposta a uma inquietude, um desconforto ou uma dor.

Também vejo o quanto isso ocorre com quase todo mundo; aquele sujeito especial, capacitado ou mesmo genial provavelmente criou suas habilidades e talentos a partir de buracos, faltas, vazios que geraram mecanismos compensatórios muitas vezes plenamente inconscientes. Algo parecido com a vida de vários pensadores europeus, muitos deles feridos pela gigantesca falha afetiva causada pela perda precoce do pai em suas vidas.

Desta forma, a genialidade humana seria muito mais obra das desgraças – grandes ou pequenas – que se abatem sobre nós, agindo como a irritação da areia no interior das ostras, que acaba por provocar nelas a produção das tão admiradas pérolas. Resta reconhecer que somos o produto das nossas quedas tropeços e erros; o resultado do que fazemos de nossas dores

Marie Thérèse D’Arvigny, “La Fleur Cachée”, Ed. Roche-Ambroise, pág. 135

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Marionetes?

Circula entre a esquerda identitária psolista a tese de que, quem critica a indicação de uma jurista negra ao STF pelo fato de ser uma pressão comandada pelos interesses imperialistas (bem, ao menos eles já reconhecem este fato) deveria também ser contra a libertação dos escravos, já que ela foi “determinada pelos ingleses”. Ou seja, cobram “coerência” dizendo que, se um dia apoiaram medidas dos ingleses deveríamos acolher da mesma forma a estratégia americana de indicar uma mulher negra ao STF. Nesta análise, não haveria matizes ou circunstâncias históricas a envolver cada um desses fatos.

Vamos deixar claro: ninguém é contra uma jurista negra em qualquer lugar. Ninguém se opõe a que pessoas negras ocupem qualquer cargo no governo ou na iniciativa privada, desde que demonstrem a necessária competência para isso. Aliás, Lula acabou de indicar uma juíza negra ao STJ, algo que não ocorreria se ele fosse movido por preconceitos contra a comunidade negra. Entretanto, seremos sempre contrários à pressão identitária que visa impor uma representante dos interesses de específicas identidades num órgão jurídico – que deveria apenas defender a constituição, não as cores de pele ou orientações sexuais. Mais ainda, somos contra a visão ingênua que se espalha entre os liberais de que tal indicação poderia representar algum avanço civilizatório, na “defesa” dos interessas das mulheres e dos negros, dentro de um órgão corrupto e burguês como o STF. Ora, não é o que fatos antigos, e até bem recentes, nos demonstram.

É um fato inegável, mas necessário citar repetidamente, que as indicações anteriores foram desastrosas, em especial àquelas feitas pelos presidentes Lula e Dilma. Mas não porque desejávamos um ministro que defendesse nossas bandeiras – esta não é a função de um ministro – mas que tivesse fidelidade à constituição e coerência em seus votos. O que vimos foi o contrário; o STF manteve-se dentro do padrão de sua história: um órgão pusilânime, sensível às pressões burguesas, acovardado e incoerente. Tivemos votos que se tornaram péssimos exemplos de atuação vindos exatamente daqueles ministros que, em teoria, deveriam ser da confiança do Partido dos Trabalhadores e do Presidente da República. Assim foram as manifestações das ministras mulheres, golpistas e lavajatistas, Carmem Lúcia e Rosa Weber, assim como do ministro negro Joaquim Barbosa, responsável pelos ataques violentos contra a democracia, a esquerda e o PT – balões de ensaio para os golpes em sequência que ocorreram logo após.

De que adiantou a cor da pele e sua condição de mulher para rasgar a constituição e manter Lula preso? De que elas foram úteis quando inventaram tipos legais para prender José Dirceu? Para piorar, afirmar que os negros foram “libertos por pressão britânica” é desmerecer e jogar no lixo a memória de grandes abolicionistas brasileiros. Cito apenas 3 negros: Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, que agora, por esta interpretação viciosa da história, seriam tão somente “fantoches nas mãos dos ingleses”. Não valeram de nada os esforços de Joaquim Nabuco, Castro Alves e Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar”? Por fim: quem está por trás da campanha milionária para esta indicação, que obtém apoio de tantas instituições imperialistas e de suas ramificações no Brasil?

Aliás… há poucos dias um youtuber comunista do PCB chamou Lula de “Janjo”. Ao seu lado, outros do campo da esquerda tratam Zanin como um reacionário. Pergunto: quando é que os anti-Lula, os identitáries e a direita, em conjunto e unidos, sairão do armário? Vão esperar para julho?

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Este blog

Criei um blog há 11 anos para guardar tudo que eu escrevia, não para mostrar para alguém ou para se tornar algo relevante. Queria tão somente um relicário, um baú cheio de papéis misturados, com notas escritas em pedaços de papel, em alvas servilletas, uma pasta de documentos velhos, recibos de vida, notas fiscais de sentimentos, duplicatas de idéias, holerites de sensações confusas. Sabia da brevidade da vida e desejava manter meus pensamentos vivos depois ainda da decomposição da minha última célula.

Durante os últimos 11 anos colecionei histórias pessoais e contos, crônicas e aulas, e as depositei silenciosamente nesta caixa virtual. O nome “Orelhas de Vidro” é a mistura de “Entre as Orelhas” e as “Memórias do Homem de Vidro”, meus dois livros publicados, e este título só tem uma única virtude: contei para o meu pai o nome e ele sorriu.

Hoje percebi que algumas pessoas vão até lá para espiar e ver o que há dentro dessa caixa. Na última década acumulei quase 2500 artigos, histórias, piadas, relatos e tudo aquilo que me parecia relevante. Não são muitas estas pessoas, mas são muito mais do que eu achava possível. O que Deus me sonegou de talento me ofereceu de impulsividade; se não aprendi a escrever, não foi por falta de vontade ou treino. Ainda acredito que tudo que aqui se faz poderá ser usado em outra dimensão; portanto jamais haverá trabalho inútil. Tudo se acumula e se transforma.

Para quem aceitou se arriscar, meus agradecimentos…

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