Será que realmente precisamos de mais gurus? É esse tipo de “levante” espiritual que necessitamos? Os caras chegam aqui falando inglês para nos “salvar”? Já não foi suficiente o Jim Jones na Guiana? Mais espertalhões que misturam espiritualidade com negócios? Outro Rajneesh? Mais um Edir Macedo, desta vez um “que habla”? Outros reacionários conservadores que usam a pobreza, a miséria e a carência para vender seu salvacionismo conservador e bilionário?
Mais promessas? Mais sucesso econômico e cadeira cativa no céu? Ainda mais dízimos sendo recolhidos para a ganância das igrejas? Trago seu amor de volta? Mais assistencialismo que escraviza as mentes? Mais torniquetes emocionais de culpa? Mais líderes carismáticos que lucram com a fé? Afinal, quem financia esse gente? Quem paga essas apresentações midiáticas? Quem está por trás da fortuna que circula nessas instituições? Posso apostar que procurando bem podemos encontrar o dedo do Departamento de Estado Americano, que pretende nos fazer a creditar que o fim da pobreza está na … fé.
Esses espetáculos não são feitos para acordar; pelo contrário, são feitos para nos manter em sono profundo, anestesiados, imóveis e sem reação. Acordar significaria revolucionar nossa realidade de tal sorte que a sociedade, ao fazer uma mudança tão radical, não teria mais nenhum pobre para ajudar.
Pensem por esta linha: se a representatividade fosse realmente determinante para a mudança dos modelos não seria de esperar que a entrada de mulheres na obstetrícia (onde hoje já são a maioria) deveria transformar as práticas de atenção ao parto de forma que se tornassem mais humanizadas? Ou seja, com tantas médicas mulheres atendendo partos, não deveriam os nascimentos ser mais centrados na autonomia das mulheres, na vinculação com a saúde baseada em evidências e na abordagem interdisciplinar do evento? E por que isso não ocorreu? Por que a prática obstétrica se mantém violenta e “iatrocêntrica” (centrada no médico) a despeito da entrada massiva de mulheres na profissão?
Ora, esse fenômeno ocorre por razões até simples de entender. As mulheres que entram num ofício caracteristicamente masculino como a obstetrícia que opera na lógica da intervenção (ao contrário da parteria, que é essencialmente feminina e opera na lógica do cuidado) adaptam-se à ideologia hegemônica, tornando-se veículo de uma ordem de poderes e de uma ideologia que mantém o poder nas mãos dos médicos. Nessa ideologia os corpos das mulheres precisam ser controlados e domesticados, retirando-se deles a natural energia selvagem e criativa. Via de regra, não se observa nenhuma diferença marcante na atenção prestada por homens e por mulheres no que diz respeito àspráticas condenáveis como episiotomia, posição de litotomia, Kristeller, corte prematuro de cordão, cesarianas, etc. Da mesma forma, na atenção médica ao parto não há diferença alguma entre homens e mulheres quando avaliamos as boas práticas e as posturas que estimulam a humanização. Portanto, as obstetras mulheres claramente se adaptam ao sistema de poderes no qual se inserem e não foram – até então – capazes de transformá-lo pela identificação de gênero que teriam com as gestantes.
Da mesma forma, uma mulher negra representando o imperialismo, como Linda Thomas-Greenfield, que vetou o acordo de paz da guerra de Israel contra os palestinos, jamais se posicionaria ao lado das populações negras (ou não brancas) que lutam contra o sistema imperialista, a opressão, o apartheid e a violência de Estado que ela própria representa. Ela também se adapta ao sistema que a abriga, tornando-se uma emissária dos interesses imperiais, e não uma mulher negra em posição de comando. Sua negritude e sua feminilidade desaparecem diante da magnitude de sua posição.
Pois é exatamente por isso que esse modelo de representatividade, que é apregoado e disseminado pela direita – mesmo a direita travestida de esquerda identitária – é uma falácia. Esta estratégia divisionista foi criada pelos “neocons” americanos para produzir a divisão da classe operária entre suas múltiplas identidades – pretos, gays, mulheres, transsexuais, etc. – oferecendo a estas identidades uma pífia representatividade, enquanto mantém intocados os poderes do capitalismo e obstrui a luta de todos nós – a luta de classes. Em troca oferece uma fatia do bolo para essas personagens, mantendo os milhões de representados na mesma condição de miserabilidade e exclusão.
Não existe possibilidade de avançar nas lutas por uma sociedade equilibrada através desses truques narrativos. Assim como mulheres, negros, gays etc. assumem a roupagem do poder que os acolhe, suas ações serão sempre reflexo desse poder, e não das identidades que carregam.
Eu acho mesmo que a publicidade sobre personalidade das redes sociais atua de forma desfavorável para os profissionais liberais, como obstetras, médicos em geral, advogados, psicólogos, etc. Eu ainda acho mais seguro que estes profissionais usem perfis enxutos, básicos, muito simples e que ofereçam orientações simples sobre o seu ofício, mostrando a direção e o sentido amplo da sua proposta de trabalho (por exemplo, humanização do nascimento), mas sem exposição intensa e ostensiva dos profissionais – excesso de fotos, prêmios, filhos, conquistas, casa, férias, etc.
Cada dia mais me convenço que uma postura pessoal discreta é o melhor caminho, o mais seguro. Aqui na minha terra há uma expressão que diz “não alerte os gansos”, ou seja, não chame tanta atenção para si mesmo, pois poderá em breve se tornar alvo dos invejosos e daqueles que se sentem ameaçados pelo seu sucesso. As redes sociais devem ser prioritariamente usadas para disseminação de ideias, não de propaganda pessoal, pois a exaltação de egos é uma luz muito forte, que invariavelmente projeta uma enorme sombra. O número de profissionais famosos que sucumbiram ao tsunami do próprio ego deveria nos ensinar algo sobre os perigos dessa vitrine virtual.
PS: Isso não é indireta para ninguém, só uma digressão sobre superexposição midiática.
Diz-se que na segunda Grande Guerra a opção pelo extermínio em larga escala de judeus, ciganos, gays, eslavos, russos, etc., ocorreu por dois grandes motivos. O primeiro foi de ordem econômica, já que a guerra se prolongava por mais tempo que o previsto e as balas dos fuzis eram muito mais necessárias no front de batalha do que nos campos de concentração. Não era admissível gastar tanta munição em prisioneiros esquálidos e desimportantes para a grande economia de guerra. A segunda razão, descoberta mais tarde pelos estudiosos do fenômeno nazista, foi preservar a sanidade mental dos soldados alemães.
Sim, a banalização da morte acontece em qualquer guerra, e um nível de isolamento emocional é sempre essencial para manter a sanidade. Corações empedernidos suportam melhor os horrores dos combates. Criamos uma redoma de proteção psíquica para poder sobreviver à carnificina e ao absurdo do extermínio de semelhantes de forma cotidiana. Até os médicos e enfermeiras, que lidam com a morte no seu dia a dia, precisam desse recurso para não destruir seu aparelho psíquico com cada óbito que testemunham em seu labor diário. Entretanto, esse tipo de proteção afetiva e emocional tem suas falhas e com o tempo se deteriora e se torna ineficiente. Quando somos o vetor da destruição de dezenas ou centenas de inocentes não há isolamento emocional seja suficiente para sustentar tamanha desgraça. Com o tempo os soldados dos pelotões de fuzilamento nazistas acabavam tendo crises emocionais graves e muitos deles apelaram ao suicídio para se livrar da dor insuportável de serem os algozes dos prisioneiros.
As perdas de jovens soldados alemães acabaram mostrando ser impossível manter este tipo de aniquilação sem pagar um custo elevado entre as próprias tropas nazistas. A decisão pelas mortes “por atacado” foi muito baseada na necessidade logística dos comandantes alemães de eliminar o máximo possível, no menor período de tempo e com o menor custo psicológico entre os próprios combatentes.
Hoje, com a banalização das mortes de civis na Palestina, ainda usando as mentiras surradas e antigas de crianças sendo usadas como “escudos humanos” ou que o “Hamas bombardeou o próprio povo”, podemos estar testemunhando o mesmo fenômeno, agora do lado sionista. Eu tento entender o que acontece com as emoções de um jovem piloto sionista ao receber a ordem de bombardear um hospital, uma escola, um edifício de moradia sabendo que suas bombas vão matar e mutilar centenas de crianças, mulheres, velhos e profissionais de saúde. Como esse sujeito volta para casa para abraçar sua mulher e seus filhos? Como suporta ser o veículo de tanta dor, tanta desgraça, tanta desumanidade? Até quando vai suportar o peso de sua culpa? Com o tempo o peso dessa barbárie começa a pesar sobre os ombros dos próprios israelenses. Muitos já são os reservistas que preferem ir para a prisão à participar de operações do IDF que são verdadeiras chacinas. Outros resolvem se tornar ativistas pela paz e até se unem em organizações pró Palestina. Não há como manter-se são quando suas mãos estão manchadas do sengue de crianças.
Espero que a mesma dor sentida pelos jovem atiradores alemães atinja também os matadores de hoje, e que ela seja capaz de transformar suas consciências ado(rm)ecidas. A grande revolução na Palestina também vai contar com o que resta de humanidade entre os israelenses.
Essa equivalência entre os “terroristas do Hamas” e o terrorismo de Israel, que coloca lado a lado uma potência nuclear e um grupo de resistência armada de “pés descalços”, é o que existe de pior dentro da esquerda liberal. Enquanto a estratégia para os Palestinos foi a “não violência” só os palestinos morreram, só eles pagaram com a vida; só eles tiveram suas casas roubadas, suas oliveiras queimadas e suas crianças mutiladas. Só um lado foi massacrado por 7 décadas. Bastou o garoto que sofre bullying na escola reagir para exigir-se dele – e somente dele – que não seja violento. Por que as décadas de terrorismo de Israel contra a população palestina passaram despercebidos por aqueles que, agora, clamam pela paz e abominam a violência contra inocentes?
O Hamas é tão terrorista quanto o foi Zumbi de Palmares ou os bravos combatentes da resistência francesa. Quem agora acha inaceitável a violência do Hamas acredita que com flores os nazistas deixariam a França ou que a França deixaria a Argélia ocupada? Acreditam mesmo que sem a violência bruta das brigadas insurgentes algum país colonial conquistaria sua independência? A esquerda precisa abandonar o discurso frouxo e pusilânime do “amor vencerá” e assumir que autonomia e liberdade só se conquistam com força e, se necessário, violência e guerra. Admitir que apenas Israel use toda sua perversidade racista contra os palestinos sem que haja uma resposta dura é aceitar pacificamente o próprio extermínio.
É inaceitável metralhar um banheiro químico? Isso não poderia ocorrer em hipótese alguma? Sério? Procurem imaginar como seriam 70 anos de morte, opressão, fome, assassinatos, abusos, humilhações criando um caldo de cultura de ódio e ressentimento. Quem pode dizer que, no desespero, não apelaria para uma resposta no mesmo tom dos seus agressores?
Qual alternativa resta para os palestinos? Manifestações pacíficas? Cartazes? Abaixo-assinados? BDS – Boycott, Divestment and Sanctions? Isso eles já fazem há mais de meio século e continuam sendo despejados de suas terras, mortos pelos colonos, queimados vivos, despojados de seus bens, assassinados e presos aos milhares – sem julgamento. Como é possível rotular o Hamas de “terrorista” quando suas ações são a reação inevitável a uma violência sem fim? Como ousam pedir moderação aos oprimidos quando suas crianças são mortas em casa, dormindo, quando suas mulheres enterram os filhos ainda pequenos e quando uma legião de mutilados vagueia pela cidade de Gaza? Será que ainda não perceberam que a solução que Israel apregoa desde sempre é o extermínio ou o exílio forçado? Ainda não notaram que Israel jamais aceitou negociar? Como conseguem culpar este povo por fazer a única coisa possível: resistir e não se entregar ao extermínio?
Por certo que ninguém acha bom metralhar banheiros químicos, mas todo mundo aceitaria atirar em um ladrão que aponta uma arma para a cabeça do seu filho. Israel está há mais de 70 anos não só apontando, mas matando e mutilando crianças palestinas muitos anos antes da existência do Hamas. Os apologistas da solução pelo “amor” acreditam mesmo que a violência é evitável? O que fariam?? Aceitariam que suas famílias fossem assassinadas sem nada fazer? Sem mover um dedo, impassíveis, imóveis? Em nome da “paz”?
É lamentável ver a defesa que alguns fazem de Israel, em especial entre aqueles que se consideram de esquerda. Olham para a ação desesperada de alguns dias atrás de forma maximizada, como se não houvesse por trás dessa ação mais de 7 décadas de abusos, torturas e morte. Agem como o Estadão e sua “decisão difícil” ou a turma do “nem-nem”, que colocavam no mesmo patamar um político vagabundo é o maior estadista do Sul global. Tentam equiparar as reações dos palestinos aos crimes brutais a que são submetidos desde o Nakba.
Estas mesmas pessoas, há poucas décadas, estariam criticando os insurgentes do gueto de Varsóvia pela sua violência “injustificável” contra os nazistas, recomendando àqueles que se mantivessem impassíveis diante da morte certa que se aproximava de sua família e de si mesmos. E se houvesse qualquer reação, mesmo que fossem os gritos lancinantes ao ver a morte se aproximando, mesmo essa indignação seria censurada, pois que demonstra uma rebeldia que precisa ser calada.
A falta de empatia com milhões que sofrem, e a solidariedade com a dor ocasional dos invasores, é algo que não é possível entender, a não ser pela lavagem cerebral produzida pela propaganda sionista massiva, intensa e obliterante.
Nunca houve paz duradoura sem que os opressores fossem vencidos. Não haverá paz com a continuidade do apartheid de Israel, com o racismo, com as prisões arbitrárias, com as mortes à granel. Como dizia Nelson Mandela, “Sabemos muito bem que nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos”
Acho curioso o investimento que se faz em tecnologia aplicada à gestação, o período da vida de uma mulher onde se concentram os mais intensos medos atávicos e onde se manifesta o maior temor das mulheres: não ser capaz de gerar e parir seus filhos com segurança. Agora surgem no mercado empresas sofisticadas que oferecem serviço de ultrassonografias seriadas, insinuando que este acompanhamento aumenta as chances de “ter um bebê vivo e saudável no colo” (sic). Esse tipo de serviço representa o ápice da alienação, onde se consuma o afastamento mais intenso da mãe com seu bebê. Como a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd já dizia há décadas, depois de convencermos a todos – em especial as mulheres – de que o corpo feminino é frágil, falho e incompetente, nada melhor do que “arrancar” o feto do seu ventre e colocá-lo dentro de uma máquina, onde poderá ser medido, vigiado, avaliado e cuidado por pessoas confiáveis – médicos, cientistas – afastando-o dos perigos representados pelo corpo incompetente da sua mãe.
Eu, pessoalmente, acho esse movimento na cultura absolutamente inaceitável. Ele representa a subserviência suprema da mulher à tecnocracia, guiada pelo medo construído e disseminado pela cultura que, agindo de forma oportunista, gera lucros para médicos, indústrias de equipamentos e instituições, porém sem oferecer o que explicitamente promete através de propaganda.
Em tempo: não existe nenhum estudo até hoje publicado que demonstre que ecografias seriadas de rotina melhoram resultados maternos e neonatais em gestações de risco habitual. Ou seja: trata-se de um embuste tecnológico, mas que é vendido como “o futuro”, “tecnologia aplicada”, “prevenção” e “cuidado”…
Sim, é muito difícil gerar consciência nas pessoas, explicando a elas que tais exames não diminuem os riscos de uma gestação sem que haja uma indicação clara para o seu uso. Isso ocorre porque a tecnologia assume o lugar da religião no imaginário social, a qual nos vinculamos de forma irracional porque criticar seu uso é o mesmo que questionar a razão e o conhecimento científico. Guardadas as proporções, seria como explicar para um sujeito qualquer na Idade Média que fazer uma romaria ou rezar um terço não melhoraria suas chances de sobreviver à peste negra. Para ele não rezar seria inadmissível, pela potente conexão mágica que estabelece com esse ato, da mesma forma como a gestante se sente insegura se não se submeter a várias ecografias, nem que seja para dar “uma olhadinha e ver se está tudo bem”.
Na idade das trevas se você não rezasse e fizesse penitências seria uma herege que não merece a salvação. Hoje, se você fizer apenas os exames que comprovadamente melhoram suas chances durante a gestação, você será considerada uma irresponsável e relapsa.
Creio que as críticas à Netanyahu como primeiro ministro de Israel seguem há décadas o mesmo roteiro repetitivo, para posteriormente serem disseminadas através do sionismo de esquerda que se espalhou pelo mundo. A ideia de construir uma disputa fulanizada onde, de um lado está um líder corrupto e assassino e do outro uma organização terrorista, sempre é usada para nos impedir de ver a realidade do colonialismo na Palestina e seu sistema de opressão. No caso de Benjamin Netanyahu ele é sempre a desculpa perfeita para os sionistas diante da barbárie cotidiana contra a população de Gaza e da Cisjordânia, mas está na hora de olharmos este personagem de uma maneira mais realista para entender as verdadeiras origens de sua ascensão ao poder.
Em primeiro lugar, é possível que Netanyahu seja o mais moderado entre os chacais fascistas que o acompanham no Knesset. Basta escutar e ler as declarações de alguns ministros e membros do Likud para ver o nível de barbárie racista e genocida que são capazes de expressar. Portanto, dizer que o problema de Israel é o seu líder inconsequente e a extrema direita que tomou conta do país há muitos anos, e afirmar que a queda de Netanyahu seria mandatória, é no mínimo uma proposta ingênua. Imaginar que um outro primeiro ministro teria uma atitude mais humana, condescendente e que objetivasse a paz com a Palestina não encontra respaldo algum na história recente. Nunca houve um representante de Israel que aceitasse a paz com os palestinos, seja através da constituição de uma nação plurinacional seja através da combalida proposta dos “dois Estados”. Os acordos de Camp David (1978) e Oslo (1993) demonstram de forma inequívoca que nunca houve real interesse em Israel para negociar. Assim sendo, a simples retirada de Netanyahu do poder não deveria nos oferecer qualquer esperança de mudança. Talvez até o pior viesse a acontecer: seu substituto poderia apoiar a “solução final”, que está na boca de muitos israelenses desde há muitos anos.
O que é preciso entender sobre o Estado Sionista de Israel é de que essa “rogue nation” está assentada sobre a criação de um “Estado Judeu“. Ou seja, foram muito mais adiante do que até a própria África do Sul se aventurou a fazer, criando um país artificial para uma única etnia. Seria como se o Brasil criasse um país cristão onde todas as outras religiões não teriam acesso à plena cidadania; ou se nosso país se tornasse a nação para apenas uma cor de pele, a qual teria direito exclusivo à moradia ou a postos no governo. Todavia, ao contrário do que a farsa da esquerda sionista tenta nos convencer, esta não é uma proposta do governo de extrema direita que governa o país, mas um projeto de Estado, um modelo excludente e racista que vai se manter inobstante o governo que estiver à frente dos cidadãos israelenses. O sionismo que apregoa a exclusão dos habitantes da Palestina e que nega a própria existência do povo palestino, é a espinha dorsal da sociedade de Israel, e nenhum governante chegaria ao topo da escala de poder sem respeitar suas premissas. Como dizem muitas autoridades israelenses, para o cidadão Palestino só restariam 3 opções: 1- emigrar, 2- submeter-se aos israelenses como serviçais e 3- morrer.
Gritar “Fora Netanyahu” é um ato diversionista, incapaz de produzir qualquer solução em médio prazo. Esta não passa de uma tentativa desesperada de maquiar a estrutura apodrecida de Israel, ao conectar os dramas atuais à contingência política, como se o governo de Netanyahu fosse diferente dos demais. Na perspectiva dos palestinos todos os governos sionistas são idênticos. É preciso entender, de uma vez por todas, que esse primeiro ministro é tão somente a consequência de uma estrutura colonial e opressora sobre a região, e não sua causa. Afastá-lo do poder sem entender as forças que o conduziram para lá apenas retira o tirano da ocasião, sem estabelecer um novo paradigma. Tanto quanto Bolsonaro, Trump ou Milei, estes sujeitos são construções sociais que obedecem à demanda de um sociedade que os comanda, e é esse povo que precisa ser transformado – ou vencido.
A ideia do “homem essencialmente bom”, como apregoada por Jean Jacques Rousseau, definido como o sujeito que, nascendo bom, depois é corrompido pela sociedade, não resiste às análises mais superficiais. Creio mesmo que o homem nasce essencialmente egocêntrico, fixado em si mesmo e em sua própria sobrevivência, colocada acima de todos os outros valores. Somente a lenta maturação é capaz de afastá-lo de sua propensão natural a preservar a si mesmo como tarefa precípua. Nascemos “maus”, no sentido de nossa essência egoísta. O altruísmo – se é que ele existe – só é conquistado com muito labor e bem mais tarde, e só ocorre pelas forças sociais; somos fraternos por imposição do meio.
Aí matam seus irmãos, roubam sua terra, derrubam a casa dos seus pais, queimam suas oliveiras, prendem seu filho, espancam sua filha, amordaçam seu vizinho e chutam o seu cachorro até a morte. Um dia, por puro desespero, você atira uma pedra contra os assassinos do seu povo, e então lhe dizem: “Que vergonha. Nenhuma violência é justificável”.
Para quem acha que os ataques do Hamas foram horríveis, deixo claro que numa guerra nada é bonito. Só é menos feio do que bombardear um edifício de apartamentos enquanto crianças dormem em seus quartos. Responda: a revolução americana que em 1776 encerrou o colonialismo britânico foi realizada com flores, abraços, despedidas e convenções de paz? Os insurgentes americanos não cometeram atrocidades durante a revolta? Seria imaginável que a Revolução Francesa ocorresse sem derrubar a Bastilha e sem as prisões (e morte) de membros da Realeza? As revoluções anticoloniais de Angola, Moçambique e Argélia – que encerraram as dominações cruéis e brutais do imperialismo europeu em África – poderiam ocorrer sem violência? Com diálogo? Com debates? Com acertos e cumprimentos? Ou alguém acha que Zumbi deveria ter sido gentil e “civilizado” com os colonos portugueses que escravizavam e brutalizavam seu povo? Por que esse tipo de civilidade só se cobra quando os oprimidos se insurgem?
A libertação da Coreia do jugo japonês e posteriormente do controle imperialista americano seria possível sem uma guerra sangrenta? Que povo opressor até hoje na história desistiu de seu domínio sem terror? A libertação do Vietnã da dominação da França e dos Estados Unidos seria viável sem utilizar o terror e a guerra sangrenta? Que tipo de libertação de um povo ocorreu sem guerra? Se a guerra é evitável, por que Israel massacra o povo Palestino desde o Nakba? Por que atacam agora ao invés de negociar a paz?
Estes que se horrorizam com as mortes de israelenses quantas vezes se manifestaram contra o terrorismo de Estado de Israel nos últimos 70 anos, que destrói famílias inteiras em nome do colonialismo sionista? Será mesmo que só agora souberam dos massacres, das torturas, das humilhações e do confinamento em Gaza? Por que só agora, quando os oprimidos finalmente reagem, puderam enxergar a brutalidade e a violência “injustificáveis”? Se o ataque do Hamas permitiu que a realidade do horror Palestino viesse à tona, então ao menos algo de bom brotou de tamanha tristeza. Por que dois pesos e duas medidas? Por que desumanizamos mais uma vez os palestinos, condenando-os a sofrer em silêncio, imóveis, sem sequer o direito de reagir ao seu próprio extermínio?