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Grosserias perigosas

Médico brabo

Sobre as grosserias em ambientes de trabalho, em especial nos hospitais, e que colocam em risco o resultado das intervenções e a própria saúde dos pacientes…

Eu sou do tempo em que a violência e a grosseria eram o padrão dentro de blocos cirúrgicos. Tais atitudes era “elogiáveis” e bem vistas pelos estudantes, que acreditavam na sua necessidade para manter claras e transparentes as hierarquias solidamente construídas na assistência aos doentes.

Havia dois elementos preponderantes nas condutas agressivas dos médicos: o viés de gênero e o de classe social, ou “casta”. Os médicos – em especial os cirurgiões – faziam de sua prática um festival de grosserias com subalternos (estudantes, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e limpeza) e um exercício explícito de sexismo e misoginia. Eram comuns os “chiliques” do doutor quando havia um problema qualquer durante os momentos tensos de uma cirurgia. Tesouras, pinças e afastadores voavam pela sala, assim como gritos eram disparados contra indefesas instrumentadoras e circulantes. A humilhação era conduta banalizada. As funcionárias, via de regra, se resignavam, pois qualquer reclamação era vista como insubordinação. Eu fui testemunha de suspensões e punições de técnicas de enfermagem que reclamaram quando a grosseria atingiu a sua própria honra, mas a cena comum e previsível era o choro solitário no vestiário e o silêncio mortificante.

A misoginia dos ambientes hospitalares sempre foi uma marca característica, semelhante demais com outros ambientes de confinamento social (como exército, igrejas e presídios) para não a entendermos como um elemento fundamental na criação de hierarquias rígidas e sistemas de poder baseados no gênero.

Alguns médicos mais antigos (lembrem que falo de uma realidade de três décadas atrás) justificavam sua crueldade e comportamento violento justificando que era essencial que “cada um soubesse seu lugar” ou ainda que “se elas tiverem medo de mim vão cuidar para não cometer erros“. Essa “tática de terror” sabidamente funciona em curtíssimo prazo, mas é uma tragédia quando se torna padrão de atitudes, pois fatalmente gera medo, seguido de raiva, ressentimento, rancor e mágoa. E isso pode ser trágico para o trabalho a ser realizado.

Cultivar um ambiente limpo de sentimentos negativos é tarefa muito difícil, mas as pesquisas comprovam que ele se associa a resultados melhores. Hoje em dia não vejo mais tais violências em hospital, mesmo sabendo que elas ainda existem, e fico esperançoso ao perceber que as mulheres que trabalham junto aos cirurgiões não precisam mais se esconder para chorar no escuro e podem usar de outros instrumentos para exigir o merecido respeito e consideração.

Com o tempo vamos limpando os ranços machistas e preconceituosos do trabalho sagrado de cuidar de quem sofre.

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Lágrimas Seletivas

LAGRIMA

Nossas lágrimas só vertem quando conseguimos nos identificar com os dramas que a vida apresenta. A tragédia só dói se for em nós, real ou imaginária. Se um jogador de futebol tem uma filha com problemas médicos milhares de torcedores vão ao estádio doar sangue. É fácil se identificar com alguém que conhecemos e podemos entender seu sofrimento. Se um terremoto destrói cidades inteiras na China como poderei me identificar e sofrer? É preciso que haja mínima conexão identificatória. Brancos europeus caindo de avião são parecidos comigo (que sou branco e também ando de avião), mas negros trancafiados como escravos são sub-humanos, quase animais. Professor universitário apanhando em delegacia na ditadura vira filme; preto e pobre apanhando, nem B.O. Enquanto não enxergarmos TODOS os humanos como iguais estas distorções continuarão acontecendo, e nossas lágrimas serão seletivas.

Porque nos assombramos com os coreanos que comem carne de cachorro? Porque nos horrorizamos com a morte de baleias e golfinhos? E porque não fazemos o mesmo com peixes (tubarões em especial), gado, porco ou aranhas? Porque elegemos alguns animais cuja morte achamos inadmissível que ocorra em nosso benefício, mas para outros não estabelecemos a mesma simpatia? Porque existem fundações para a proteção de baleias, mas não de lagartixas?

Minha resposta é que protegemos a NÓS mesmos, e não os animais. É nossa dor identificatória que queremos aliviar. Um cachorro me parece mais humano, mais parecido conosco que um peixe. Se for possível a identificação, aí sofremos, mas esta identificação vai ocorrer se encontrarmos naquele animal algo semelhante a nós. Num cão tal processo parece muito mais fácil de ocorrer do que em um molusco. É a dor que sentimos que pretendemos afastar, e não a dor por ser ele um animal indefeso. Quando o avião com os europeus cai no oceano isso nos maltrata porque fica simples e fácil a nossa identificação com o sofrimento das famílias envolvidas: também temos famílias brancas e que andam de avião. O mesmo não ocorre em um cargueiro cheio de negros fugitivos trancafiados em um porão.

Quando os americanos matavam vietcongues na Ásia Menor nos anos 70 isso era sentido pela opinião pública americana, mesmo que secretamente, como “matar formigas”. O documentário “Corações e Mentes” daquela época mostrava os políticos americanos se esforçando ao máximo para desumanizar o povo do Vietnã, exatamente porque, assim transformados, ficava mais fácil aceitar seu aniquilamento sistemático.

Desumanizar é fundamental para levar adiante qualquer projeto macabro de destruição. Judeus, negros e os palestinos foram sujeitos ao mesmo tipo de monstruosidade.

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Abraço, Fabrício…

Fabrício

Abraço, Fabrício…

Sabe o que é desumano?

É quando retiramos as qualidades humanas de um sujeito, sua unicidade e subjetividade, aquilo que o transforma em uma pessoa única. É quando ele deixa de ser alguém, e passa a ser uma “coisa”.

Ontem testemunhamos um fato raro no futebol. O jogador Fabrício do Inter, após ser vaiado por uma parte da torcida, investiu contra ela com gritos, insultos e gestos obscenos. Uma cena lamentável de violência e descontrole. Ato contínuo, foi expulso pelo juiz e tirou a camisa do seu clube. Arremessou-a ao solo e, mesmo sendo contido pelos colegas de profissão, rumou célere para a saída do campo, sinalizando com gestos que jamais voltaria. Boa parte da torcida colorada, em especial aquela que o estava vaiando, vibrou com a sua expulsão e a saída. O futebol, haja vista sua má fase, pouco perdeu. Mas e o nosso senso de humanidade?

Poucos dias atrás, uma outra desgraça, desta vez atingindo o (ex) todo poderoso José Dirceu, foi tratada com deboche e escárnio por centenas de internautas. Quando do anúncio de seu AVC (Acidente Vascular Cerebral) inúmeros comentários depreciativos surgiram nas redes sociais, fazendo troça com a doença do ex-ministro. Com os candidatos e a presidenta, o mesmo. O ministro Guido Mantega, em visita a um hospital, foi brutalmente hostilizado por pessoas na recepção. As figuras públicas perdem a sua condição de humanas, e passam a ser meros personagens, sem vida, história, subjetividade ou porvir.

Desumanizar é tirar do sujeito sua essência humana. É coisificá-lo para o nosso gozo, seja ele qual for. É olhar para uma mulher e reduzi-la a peitos e bunda, para um homem e torná-lo apenas força, poder e dinheiro. Um jogador de futebol vale apenas para o nosso gozo, sem que seus sofrimentos, sua vida, suas fragilidades e sua história sejam levadas em consideração.

O jogador Fabrício, soube-se hoje, tem um irmão que está preso, e outro que já morreu pelas mesmas razões: tráfico de drogas. Sofria pressão desumana de torcedores que achavam que ele não estava jogando o quanto devia. A pressão também chegava de uma “crônica esportiva” espetaculosa, insensível e grosseira, que ressalta ainda mais a objetualização dos jogadores, tornando-os marionetes de seus conceitos e alvos fáceis para suas piadas de gosto duvidoso. Por mais que se entenda que as gratificações monetárias para os jogadores são muito altas (para uma elite restrita e minúscula, como no caso do Fabrício) também é verdade que a tensão para cumprir metas, nunca errar, jamais falhar, lutar como um gladiador, oferecer o sangue, destruir a própria saúde em nome de uma bandeira é uma tarefa pesada demais para qualquer um, e mais ainda para meninos de origem pobre.

Não foram poucos os jogadores que pensaram em suicídio. Outro famoso jogador do Internacional, quando jogava no exterior, longe da família, sem falar o idioma local, sem amigos e sem referências, subiu no alto de um prédio e por pouco não se arrojou de lá, acabando com sua vida. Teve mais sorte do que Fabrício.

Fabrício explodiu, rompeu a corda. Diante de tanta tensão acumulada ele não aguentou a(s) pressão(ões). Não suportou o desprezo da torcida por quem se dedicava ao limite e jogou tudo para o ar. Todavia, quando o que ele mais precisa é de compreensão e de uma palavra amiga, ele recebe deboche, críticas, mais violência e desprezo. O objeto Fabrício passa a ser desimportante e, mais ainda, incômodo. “Joguem fora essa peça, ela já não nos serve mais.

Fabrício precisa de um abraço. Se serve o abraço de um gremista, aqui vai. Erga a cabeça, olhe para frente, pense na sua família, tente se acalmar. Existe um grande futuro ainda possível, se você puder ultrapassar este momento.

Vai passar, vai passar…

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Maioridade Penal

Criança presa 1

Existe uma “direita raivosa” (não me refiro a ninguém em especial) que pensa que a solução dos problemas da sociedade está numa visão moralizante, como se a humanidade se dividisse entre “bons” e “maus”. Uma espécie de moralismo fascista que acredita que eliminando os maus teríamos uma sociedade melhor. Isso gera uma série de atrocidades, principalmente porque nega a importância da própria estrutura social na geração de tais discrepâncias. Em verdade, os meliantes de hoje poderiam ser vistos como “resistentes” de uma guerra social, onde a maior parte dos recursos lhes é sonegada, e onde seu quinhão – a parte que lhes cabe neste latifúndio – nunca é entregue. Achar que seu extermínio ajudaria a sociedade é uma ingenuidade ou uma manobra interesseira.

Enquanto eles acreditarem que o sujeito é mau não vão perceber o quanto a sociedade é madrasta“.

Esta direita raivosa adora linchamentos e justiçamentos. Deve dar um prazer imenso ver um jovem de 16 anos apodrecendo numa prisão, enquanto a sociedade – fábrica de meliantes – mantém sua produção inalterada e a pleno vapor. Criar a injustiça e depois “limpar” os miseráveis da nossa vista é a maior prova de que nossa sociedade está doente.

Sempre que eu leio a historia desses meninos “bandidos” eu penso que provavelmente faria o mesmo que eles se minha vida tivesse sido regida pelas mesmas circunstâncias e contextos. Como Terêncio afirmo que “o que é humano não me é estranho“. Existe muito mais semelhanças entre um criminoso brutal e o filhinho de papai, bem alimentado, boa escola, pais presentes, afeto e necessidades supridas. Retire essa história dadivosa e sobrará apenas um humano desnudo, igual a todo outro, criminoso ou não. Dividir os humanos por uma essência “boa” ou “má” esquecendo-se da arquitetura social subjacente que os produziu é um crime contra a humanidade, uma perda de tempo e energias, que poderiam ser mais bem utilizadas na construção de uma sociedade justa e equânime.

Nas minhas peregrinações pelas redes sociais eu percebi que as mulheres eram majoritariamente  a favor da redução. Evidente que isso é apenas uma observação, e não tem valor científico. Mas sinto uma tristeza ao  constatar a queda desses mitos: o amor materno, o amor incondicional e a doçura essencial. Não… aparentemente elas amam os seus, acima de tudo. Os outros filhos, os deserdados da vida, os filhos das putas, esses que apodreçam nas cadeias infectas. Obrigado senhoras, por mais esta lição.

O que  penso ser relevante observar é que, de quem eu mais esperava sentimentos nobres e amorosos foi de onde vieram os comentários mais violentos. Quanto à ideia de diminuir a idade penal em si pouco resta a dizer. Mas as teses moralistas de uma parte da direita nacional – a mais raivosa – ficam evidentes. A ideia moralista e ingênua (minha opinião) é de um essencialismo pueril e preconceituoso: a divisão da sociedade entre “bons” e “maus”. Para completar a proposta de que, eliminando-se aqueles “maus”, sobrariam apenas os bons, ignorando a produção de criminalidade pela própria injustiça social. Esta tese nos obriga a acreditar que na Suécia os presídios estão sendo fechados por falta de prisioneiros porque os “suecos são bons em essência”, sem olhar para a distribuição adequada de renda e a dignificação do trabalho como fator civilizatório. Estamos colocando adolescentes para apodrecer na cadeia por esta visão estupidificante e tacanha da sociedade. E as mães, que na minha visão infantil seriam as guardiãs do amor e da compreensão, são as que mais aplaudem iniciativas que visam encarcerar meninos e adolescentes.

Mas não há nada a temer, senhoras; já sabemos que só pretos e pobres irão para lá. A senhora pode ficar tranquila: vamos limpar a sua rua dessa sujeira.

Veja o que acontece quando essa visão é levada às últimas consequências:

Criança presa nos Estados Unidos

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Negros

FMUFRGS 1985

Esta é a foto da minha formatura há 29 anos, na cidade de Porto Alegre. Tenho boas e más lembranças desta época, mas vejo que alguns dos meus colegas mantiveram um espírito crítico e uma visão positiva da profissão, apesar das agruras causadas pela “máquina de moer carne” da escola médica. Todavia, como se pode ver na imagem, não há nenhum negro representado na turma que posou para a foto na escadaria da velha escola médica. Aliás, durante os anos que frequentei a faculdade de Medicina conheci apenas um, que era sobrinho de um famoso político e que acabou também por seguir a carreira do tio. Nenhum outro negro, sequer mulato, compartilhava aquele espaço conosco. Claro, havia porteiros, serventes, auxiliares do biotério, faxineiras, e esses eram mais escurinhos. De resto todos brancos, claros, alvos e cristalinos. O que poderíamos entender do sofrimento de um negro?

Lembrei uma aula de quando eu estava no terceiro ano de medicina passando pela cadeira de semiologia. No ambulatório de clínica da universidade nos dividíamos para atender os prontuários que repousavam sobre a mesa. Nosso grupo ficou composto de 3 alunos, e a nós coube examinar um homem negro de meia idade, cujas queixas se perdem na névoa do tempo. Depois de feita uma anamnese, verificados os sinais vitais e colhida a história biopatográfica chamamos o professor para nos ajudar na continuação do atendimento. Nosso professor, já falecido há muitos anos, adentrou a sala e, ao notar que se tratava de um negro, disparou:

Queridos alunos. Quando temos pacientes “pardos” temos que pensar em três diagnósticos principais: hipertensão, escabiose e gonorreia. Já perguntaram sobre isso?

O senhor jazia deitado na mesa de exame e se manteve imóvel. Àquela época, passados mais de 30 anos, esta atitude não teria a mesma repercussão que hoje, mas mesmo assim eu fiquei estático e chocado. Olhei para o paciente deitado à nossa frente coberto com uma bata branca e esperei sua reação, enquanto eu me cobria de “vergonha alheia”. Passados alguns instantes sua atitude acabou sendo a pior possível, a mais terrível, a mais violenta e a que, por isso mesmo, mais me marcou.

Não, ele não se levantou e golpeou o professor. Sequer dirigiu-lhe palavras de indignação. Não, ele não reclamou do rótulo de promíscuo ou sujo. Ele também não tentou aclarar a situação, explicando as reais razões pelas quais ele procurava o serviço de medicina interna do hospital da universidade. Não, ele não mandou o professor se calar.

Ele apenas baixou o olhar, olhou para mim e tristemente sorriu.

Em seu sorriso eu podia ler toda a resignação com sua condição de negro, a qual nenhum de nós poderia jamais entender. Ser tratado dessa forma em um serviço público – que deveria entendê-lo e ampará-lo, acolhê-lo e tratá-lo sem julgamentos – era apenas mais um capítulo em sua longa história de humilhações cotidianas.

– De que adiantaria me indignar, jovem? disse ele em pensamentos durante seu breve sorriso amargo. Por acaso eu seria entendido? Tens alguma esperança de que o velho professor poderia entender o que é a dor de ser a vida inteira considerado inferior, sujo e indolente? Achas mesmo, menino, que meu sofrimento poderia ser captado, processado e transformado em empatia por alguém que nunca entendeu o que é nascer com “a cor errada”, ou ter o “cabelo ruim”? De que adiantaria gritar, esbofetear, reclamar ou sair correndo? De nada, meu jovem, de nada. Para vocês deixo apenas meu sorriso dolorido e meu silêncio. Talvez algum de vocês possa um dia entender o que significa nascer pintado de preto num mundo que só aceita o branco.

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Paralaxe

Paralaxe

Alguém escreveu uma frase a respeito de um tema que sempre me interessou, e ultimamente de uma forma mais intensa e profunda. Disse ela:

“Assim, se você opta por acreditar que um lado é bom e o outro é mau, que só há dois extremos, que só existem dois lados, então você automaticamente exclui todas as infinitas nuances e possibilidades com que a vida nos contempla.”

Concordei de pronto com a manifestação de minha amiga. Entretanto, alguns minutos depois outra amiga escreveu um post declarando que em algumas circunstâncias – em especial na necessidade de “sobrevivência” – é importante “não perdoar“, e adequado “não compreender“. Não posso reproduzir o que ela escreveu, mas a tese central era a de que em momentos especiais temos que fazer escolhas e optar por um lado, colocando o outro lado como inimigo e aceitando “não compreendê-lo“.

Achei confusa a manifestação e respondi indagando se eu tinha entendido de forma correta, mas acabei sendo bloqueado, provavelmente por questões passadas. Mas o que eu queria dizer, e acho que isso sim tem importância, é que a visão compreensiva sobre a posição do outro, e a possibilidade de analisar um fenômeno por diferentes perspectivas, permite fugir do reducionismo maniqueísta e injusto no qual frequentemente incorremos. A busca de uma “paralaxe”, o olhar múltiplo sobre o mesmo objeto, enriquece nossa compreensão sobre qualquer fenômeno. “Para combater o racismo e o nazismo é preciso entender porque eles foram (e são) tão populares…”, disse eu.

Simplesmente eleger os nazistas, xenófobos, homofóbicos, racistas e coxinhas (mas poderiam ser os esquerdopatas, ok) como inimigos, desreconhecendo as razões que os motivam, impede que possamos defender nossas ideias com determinação e abrangência. Não é necessário concordar com tais atitudes, por certo, mas perceber que elas são expressões legítimas do pensamento humano é importante até para que um dia possam, finalmente, desaparecer.

Eu respondi à amiga: “Mas, abrir mão de uma visão imparcial e abrangente em nome do quê? Compreendo que se deva tomar partido e fazer escolhas, mas daí a reduzir o adversário à sua condição de “inimigo” e aceitar “não compreendê-lo” como uma desculpa para não aceitar suas razões é demais para mim. Não entender as razões do outro pode ser considerado certo? Por quê? Pois é exatamente no momento da “sobrevivência” que essa compreensão se torna uma ferramenta fundamental! Revoltar-se é legítimo e necessário, até no que diz respeito à violência obstétrica, entre outras mazelas. Mas “não entender” as razões daqueles que perpetuam estas atitudes seria o mais inaceitável dos erros.”

Olhar para o outro como igual, na infinitude de diferenças que a vida nos contempla, é tarefa árdua. Entretanto, sem esta mirada respeitosa com a experiência alheia jamais poderemos absorver as verdades que o adversário graciosamente nos propicia com a oferta do contraditório.

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Cala boca…. negro!

Ela ainda não acabou em nossos corações
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Até quando vamos fechar os olhos para a realidade dos excluídos?

Estávamos, eu e meu irmão Roger, assistindo uma partida de futebol nos anos 80, em um estádio da capital gaúcha. Os chutes incertos, as pisadas na bola, a monotonia do placar não ajudavam a melhorar aquela noite de quarta-feira. Não era a ruindade dos times, era…. a fase. Talvez uma sinistrose, uma falta de conjunções estelares adequadas, ou mesmo uma falha do esquema tático.

Fossem os anos 90 e diríamos: “Tem que jogar com três zagueiros para liberar os alas”. Mais recentemente diríamos: “Também, eles fizeram duas linhas de quatro, assim não dá para furar a retranca”. Talvez alguma dessas explicações pudesse se adequar à partida. Ou tratava-se simplesmente de azar. “Mau humor da Deusa Álea”, diria Max, referindo-se à Deusa que coordena os eventos inesperados e imprevisíveis.

O jogo morfético repetia lances banais, sem que a periculosidade eminente de um gol nos oferecesse um estímulo para despertar. Com os queixos apoiados nas mãos devaneávamos deixando o jogo como pano de fundo para pensamentos mais produtivos.

Subitamente, o centroavante do nosso time, um negro possante, comprido e que não tinha na velocidade o seu mais forte atributo, vê escorrer por baixo dos pés a bola que, fosse dominada, poderia produzir calafrios no guarda-balas adversário. Ouviu-se um “Uuuuu”, pelo estádio, seguido de uma série de palavrões usuais em estádios de futebol. Coisas desopilativas, exonerativas e fundamentais na catarse coletiva do esporte bretão. Passados alguns segundos, quando já se fazia o silêncio e as pessoas voltavam a se sentar, escuto o grito de um torcedor que estava sentado dois lances de arquibancada acima de nós.

“TE MEXE… NEGRO!!”

Voltei a cabeça para ver de onde vinha, e pude ver um jovem, não mais de 30 anos, sentado ao lado de um senhor mais velho. Ele apenas sorriu de forma debochada quando viu que sua exclamação chamou a atenção de muitas pessoas em volta. Olho para o meu irmão, um tanto incrédulo, e pergunto: “Ele disse isso mesmo?”

Meu irmão baixou os olhos e aquiesceu. Depois olhou para mim e disse: ”Não te mete. Fica quieto”.

Sempre que escuto histórias de racismo e violência eu imediatamente recordo dessa cena da minha juventude. Curiosamente, o que mais me chamava à atenção não era a palavra grosseira, aquela mesma que os americanos chamam de “n word”, mas o hiato violento e obtuso que a precedeu. A brutalidade de um espaço entre as palavras corrói meus ouvidos e me envergonha até hoje. A distância entre “mexe” e “negro” é que tornou essa cena violenta, estúpida e inaceitável. Para mim soava como “Mexa-se, porque você é negro!!” A ênfase na cor funcionava como uma viagem de um século e meio para trás. Lá, em muitas partes desse país, um senhor de escravos teria dito a mesma coisa, e com as mesmas palavras, e por sobre os mesmos direitos presumidos. “Mexa essa carne escura que me pertence, Negro. Não esqueça que eu te dou de comer para que trabalhes na minha terra. Anda, negro, levanta. Deixa de ser mole.

Naquele dia senti vergonha de ser branco. Mais ainda, senti vergonha de ser humano. Senti vergonha do meu silêncio e da minha cumplicidade. Senti pena do homem que a disse, mas raiva por ter me omitido. Passou, agora eu lamento.

Esses pensamentos todos vieram a minha mente ao ler um relato de parto de uma mãe negra que foi publicado no blog “Blogueiras Negras” , de autoria de Raíssa Gomes.

(http://blogueirasnegras.org/2013/08/12/negra-gravida/)

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As discussões sobre humanização do parto e nascimento eram praticamente novidade total para mim quando me descobri grávida, em janeiro de 2011. Apesar de não ter muita informação, de cara eu já sabia que queria que meu filho ou filha viesse ao mundo por parto normal. Mal sabia eu a luta que precisaria enfrentar para que isso fosse possível.

A realidade dos atendimentos nos serviços de saúde não é animadora de um modo geral, e o quadro piora quando se trata de atendimento a mulheres negras. De acordo com Alaerte Martins (2000), as mulheres negras tem 7,4 vezes mais chances de morrer antes, durante ou pouco tempo após o parto, do que mulheres brancas. Além de doenças pré-existentes e falta de acesso a serviços de saúde, o atendimento prestado às mulheres negras pode ajudar a explicar esses números.

Eu comecei a me deparar com este tipo de atendimento quando, ao sofrer um sangramento, com apenas cinco semanas de gestação, imaginei, como a maioria das mulheres em início de gravidez, que aquilo significava que eu estava perdendo o filho que tinha acabado de descobrir que teria. Corri com a minha mãe para a emergência de um hospital particular de Brasília, demorei muito para ser atendida e, quando conseguimos realizar uma ecografia, o técnico responsável pelo exame, que foi grosseiro desde o início do atendimento, me disse: “Não tem NADA aí dentro de você.”

Não sei dizer exatamente o que me fez ficar calma naquele momento. Perguntei pra ele se eu havia perdido meu filho e ele disse, sem olhar nos meus olhos, que eu nunca havia estado grávida. Algo me dizia que eu deveria desconsiderar as palavras daquele homem. Vesti-me e fui para o consultório do obstetra que me acompanhava, sem saber direito o que pensar. “Durante a consulta, o médico me disse para ficar calma e fazer exames de sangue nos próximos dias, se as taxas que indicam a gravidez continuassem subindo, eu estava grávida, senão, não.”

Realizei os tais exames, a gravidez se desenvolveu muito bem. As consultas com o médico eram sempre tranquilizadoras e práticas, como eu achava que gostava. Mas sempre me colocavam num lugar de coadjuvante da gravidez. O que interessava era o bem estar do bebê e quem sabia tudo o que eu deveria fazer, era o médico.

Já aos nove meses de gravidez, esperando Malik chegar a qualquer momento, tive uma infecção urinária. Fui a uma emergência para conseguir tratar a infecção o mais rápido possível para que não fosse necessário cair numa cesariana por conta disso. Fui atendida por uma médica, que mais uma vez não olhou no meu rosto. Fez perguntas sobre porque estava ali, eu disse que estava com cistite. Ela disse com um tom irônico (sem me olhar): como você sabe? Eu respondi que já tinha tido isso anteriormente, solicitei o exame e saí da sala. Quando voltei com o resultado do exame, ela me passou um antibiótico fortíssimo, que eu tinha certeza que não poderia tomar estando grávida. E questionei: “Doutora, mulheres grávidas podem tomar esse medicamento?” e ela disse: “Você não me disse em momento nenhum que estava grávida”. Não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu achei que com uma barriga dessas, não seria necessário avisar que estava grávida.

Eu grávida aos 9 meses de gestação

Naquele momento não consegui nem questionar a médica. Apenas disse que achei que minha gravidez era evidente tomei a receita da mão dela e saí totalmente revoltada do consultório. Tudo o que já tinha ouvido falar, lido, escutado e vivido na minha trajetória como mulher negra militante veio com toda força. Até que ponto conseguimos ser invisibilizadas mesmo com uma barriga deste tamanho? O que me tornou tão invisível? Chorei. Primeiro por passar por isso a essa altura e perceber que a minha vida e a do meu filho não valem nada na mão de pessoas que supostamente deveriam cuidar da nossa saúde, e depois porque não consegui reagir, não consegui me defender e nem defender meu filho desse racismo atroz contra o qual eu decidi dedicar a minha vida.

Algumas semanas depois, chegou o momento de Malik nascer. Eu tinha feito muitos exercícios, caminhada, subi e desci ladeiras. Já estávamos com 40 semanas e 3 dias de intimidade e eu morrendo de ansiedade para conhecê-lo e sofrendo os “avisos” do médico de que ele não deixaria a gravidez passar de 41 semanas (a OMS orienta que uma gestação normal pode chegar até 42 semanas sem risco para mãe e bebê).

Chegou o dia da consulta, o médico estava operando algumas mães para tirar os filhos dela via cesariana, e iria se atrasar. Fui então, para o hospital que tinha uma propaganda de humanização. O site mostrava salas com bolas, música ambiente, banqueta, um monte coisas. Corri pra lá. Fui atendida por uma médica plantonista, que fez um detestável exame de toque e me disse que eu estava com 4 centímetros de dilatação, mas que eu tinha que chamar meu médico, porque meu filho não poderia nascer naquele hospital, já que ela não ia deixar de atender 18 pessoas no plantão só para fazer UM parto. E que se fosse realmente necessário eu ter meu filho ali, ela iria me submeter a uma cesariana porque não poderia ficar esperando.

Saí, mais uma vez, indignada do hospital. Meu filho nasceu algumas horas depois, num parto muito diferente do que eu havia imaginado pra gente, mas, imagino, melhor do que o que poderia ter acontecido, com o auxílio do médico que acompanhou a gestação inteira, mas que imaginei que não estaria presente no momento do parto. Enquanto sentia a ocitocina sintética nas minhas veias e quase perdi o controle da situação, respirei fundo e conversei com Malik sobre como o momento que tanto esperávamos havia chegado. Não poderia permitir que as intervenções naquele momento fossem mais fortes e importantes do que o nascimento do meu filho e o meu nascimento como mãe. Respirei fundo, e enquanto sentia o meu corpo se mobilizando para o encontro de Malik com este mundo. Quando ele nasceu, olhando tudo e chorando forte, veio para os meus braços, nos olhamos e conversamos. Naquele momento, renasceu em mim toda a força e desejo de transformação possível. Com todo o medo e a responsabilidade de criar uma criança negra no Brasil, mas com a certeza de que eu e outras companheiras podemos transformar o mundo ao nosso redor, por nós e pelas que vieram antes de nós, por todos os meios necessários.

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