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Parteria no século XXI

O desprezo pela arte da parteria e a introdução do médico no acompanhamento da gravidez de risco habitual e na assistência ao parto eutócico foram os piores decisões tomadas na assistência à saúde no século XX. Esse modelo tecnocrático foi muito mais fortemente introduzido nos países satélites dos Estados Unidos, e muito menos intenso na Europa, sendo estes últimos os países que apresentam qualidade melhor nos índices de saúde materna e neonatal. Não por acaso. Essas evidências deveriam nos guiar, mas precisamos aumentar a pressão para que sejam adotados modelos mais adequados e justos.

A falta de evidências científicas que amparem um sistema centrado no médico, associado ao desprezo pela qualidade milenar da assistência das parteiras, demonstram que essa imposição só se sustenta pelo uso da força. Somente uma narrativa despregada da ciência permite que continuemos investindo num modelo caro e inefetivo.

A adoção de um novo/ancestral modelo centrado na atuação das parteiras profissionais à gestação e parto de baixo risco deverá ser a tarefa a atravessar o século XXI para que as mulheres possam alcançar o melhor de dois mundos: a qualidade e a delicadeza do atendimento das parteiras associado ao melhor que a ciência pode oferecer na correção das patologias, com sistemas de referência ágeis e respeitosos com os profissionais envolvidos.

A manifestação da Febrasgo está em sintonia com esta imposição de modos pelo poder, seja ele econômico ou pela condução da narrativa enviesada que controla a tecnocracia. Deve ser repudiada não apenas por quem preza a assistência de qualidade às gestantes, mas também por quem respeita a ciência – com a qual estas decisões deveriam estar sempre conectadas.

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Midwifery

“Midwifery is a state of mind, that moves between anguish, fear, ecstasy and profound exhaustion. Is one of the most exciting professions, which combines tenderness and a strong spirit. It would be job that God Herself would be doing if she was not birthing the Universe”.

“Pregnancy is when the entire universe fits within your own belly”

Joanne Aston, “Midwifery in a nutshell”, ed. Politeus, pag. 135

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Argumento suicida

Uma das coisas que mais me irrita é quando vejo uma pessoa que está do meu lado em uma causa (antirracismo, anti-machismo, anarco socialismo, abolicionismo penal, doulas, homeopatia, luta antimanicomial, parteria, palestina livre, direitos gays, direitos humanos, anticonsumismo, infância sem violência, desadultização de crianças, etc…) apresentando um argumento absolutamente suicida. Chamo de “argumento suicida” aquele que é capaz de produzir uma “lacração” momentânea, uma ilusão de vitória contra um oponente, o qual parece nos levar à derrota de uma perversidade social, mas que por sua incongruência profunda abre um flanco gigantesco em sua retaguarda que – em médio e longo prazos – oferecerá munição inesgotável para nossos oponentes.

Exemplos? Dizer que a fascista gay tem mais é que apanhar. Soltar rojão quando fascistas são mortos. Apoiar pena de morte (ou pena de prisão abusiva) contra nossos oponentes. Acreditar cegamente em qualquer relato apenas porque a vítima está do nosso lado. Apoiar qualquer atitude de vingança que literalmente nos nivela aos criminosos que tanto criticamos. Em suma: agir da mesma maneira que nossos adversários, o que retira toda a legitimidade do nosso discurso. Alias, como diria o genial energúmeno, “Sem uma educação libertadora o sonho do oprimido é virar opressor“.

Quando vejo isso acontecer fico realmente furioso…

Não se passaram 24h e acabei encontrando um belo exemplo: descobriu-se através dos vídeos que a menina Karol não foi vítima de homofobia como muita gente acreditou, mas foi, em verdade, a agressora de um rapaz em um quiosque na praia. Ao que tudo indica estava sob efeito de drogas. Usou a arma da namorada (que é policial) para fazer ameaças, tentou se passar por policial federal e ainda agrediu a namorada.

Nenhuma violência pode ser justificada, seja contra negros, brancos, mulheres e homens. É o que diz a lei. O fato dessa moça ter chutado, cuspido, atacado a socos e humilhado com palavras a este rapaz não pode ser perdoado apenas porque ela faz parte de uma minoria que sofre agressões e humilhações constantes. Não dá para passar pano para agressor….

Pois hoje eu li alguém argumentando que o homem era o “verdadeiro” agressor porque, sendo maior do que a Karol, deveria “se conter”. Em outras palavras, a culpa é dele, a vítima da agressão física, porque errou ao não se controlar e revidou aos ataques.

Sabe o que significaria aceitar esse como um argumento válido? Que os argumentos dos machistas passariam a ter valor quando culpam a vítima por suas agressões. “Se estivesse na Igreja não seria ofendida“, “Se controlasse melhor sua forma de vestir não receberia cantadas sujas“, “Se não tivesse esse decote não seria abusada“, ou ainda “Se tivesse medido as palavras o marido não perderia o controle“. Quem ainda consegue admitir como válida essa argumentação machista e oportunista?

Esse é o maior exemplo de argumento suicida. Nesse caso se tenta colocar a culpa na vítima – que por acaso foi um homem – ao invés de reconhecer que sua agressão é que iniciou toda a confusão. E lembrem: o fato de ela ter se machucado não a torna vítima, assim como um homem que quebra a mão ao agredir alguém também não se torna. Os ferimentos da Youtuber foram consequência direta de suas agressões e do seu destempero. Não há porque culpar ninguém mais.

Nesse caso o melhor é fazer o que as mulheres tanto aconselham os homens – e com justiça: “Não fique dando desculpas ou jogando a responsabilidade para a vítima. Aceite o erro e mantenha um silêncio respeitoso“.

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Parteria

Call The Midwife Christmas

Sempre fui inspirado pela palavra “parteira”.

Antes de continuar é importante explicar que quando falo das parteiras estou explicitamente me referindo às profissões que atendem partos. Estas estão englobadas no conceito de “skilled attendants” da OMS. Minha ideia ao falar em parteira(o) é debater esta questão por cima das divisões corporativas que, aliás, apenas atrasam as discussões sobre o nascimento humano.

Eu não gosto do termo “obstetriz”. Quando fui, há alguns anos, convidado a falar no curso de obstetrícia da USP (EACH) dei um especial destaque a este tema para os alunos, apesar de não ser algo que pareceu muito importante para eles naquele momento. Segundo Robbie, sempre que uma mulher que atende partos se nomeia PARTEIRA ela está se conectando – de forma inconsciente, mas consistente – com os milênios de cultura e aprendizado de atuação junto às mulheres no momento de parir. Elas trazem consigo a alma das parteiras, a conexão feminina do “estar ao lado”, o respeito à fisiologia, o culto à paciência e o desejo de ajudar as mulheres a suplantarem seus desafios.

Por outro lado, sempre que estas profissionais insistem no termo “obstetriz” elas procuram, igualmente de forma inconsciente, se conectar ao modelo de atenção dos profissionais médicos, que surgiram muito depois, e acabam fazendo deles o paradigma de suas ações. Portanto, estas últimas tendem a ser mais intervencionistas, menos pacientes, mais técnicas e mais próximas do discurso médico. Também acredito que o termo adequado para descrever a ação das parteiras é a parteria, que tem o mesmo significado de midwifery.

Eu mesmo, desde há muitos anos, me descrevo como “parteiro”, quase numa provocação, pois este termo agora é utilizado de forma pejorativa pelos meus colegas. A arte de partejar, de atender partos normais e de respeitar a rota de fisiologia foi perdendo considerável terreno nos últimos anos. Passamos de uma espécie de “orgulho” de parteiro, no passado não muito distante, para um desprezo explícito a estas capacidades, na modernidade. E tal mudança tem a ver com o domínio total de vertente médica de atenção ao parto, que se tornou absolutamente hegemônica exatamente quando a última geração de profissionais que haviam aprendido a partejar com parteiras se aposentou. Hoje em dia, os alunos das escolas médicas aprendem obstetrícia com profissionais que nunca viram o trabalho de uma parteira, e isso é muito triste, mas explica de forma muito clara a atual situação.

Lembro um fato, ocorrido no hospital de periferia em que realizei meu treinamento enquanto estudante de medicina, e que me ofereceu uma imagem muito clara do que seriam os modelos de atenção ao parto vistos através distintos vieses.

Um colega recém-formado adentrou o espaço do refeitório enquanto tomávamos o lanche da tarde. Ele estivera ocupado no centro obstétrico atendendo um parto, e chegou atrasado ao nosso encontro vespertino para o café. Sentado na ponta da mesa eu era o estudante de medicina que vivia “peruando” plantões, perguntando coisas, investigando palavras, discursos, atitudes e olhares. Enquanto acercava-se da mesa simples coberta por uma capa plástica de estampa floral, meu colega exclamou:

– Vocês perderam uma maravilhosa aula de aplicação de fórceps de Kielland agora mesmo.

Sentou-se ao nosso lado na mesa e comeu seu sanduíche ainda orgulhoso de suas confessas habilidades. Para ele, a capacidade “positiva” de indicar um procedimento, produzir uma ação, aplicar uma técnica, usar uma ferramenta e conseguir um resultado eram o ápice do proceder médico. Eu conseguia perceber com clareza as razões para a felicidade e o orgulho que ele ostentava. Estava claro para mim, menino de 23 anos que cursava a escola médica, que o desiderato máximo da nossa profissão passava por essa sucessão clara de ações: diagnosticar, propor, intervir e reparar.

Mas a alegria do meu colega me provocou uma consideração um pouco mais profunda. Fiquei pensando que este discurso médico se assentava sobre um paradigma interventivo, masculino, racional e objetivo. Poderia, sem dúvida, produzir resultados muito bons nas inúmeras patologias que encontramos na experiência diária com o tratamento de pacientes. Entretanto, com o parto – a feminilidade em sua mais intensa radicalidade – a abordagem precisava ser diversa, pois existia uma formatação original, “de fábrica”, implantada em toda a mulher desde seu nascimento, que a conduzia para a realização do parto, sem que a ação interventiva humana fosse necessária. A maneira de enxergar o evento precisaria ser obrigatoriamente diversa e passaria longe do modelo de intervenção. Não há, via de regra, algo a ser consertado, ajustado ou corrigido. Assim deveria ser, a não ser que…

A não ser que considerássemos todo nascimento como uma patologia, um erro, um equívoco perigoso. Para entender o parto como um ato disfuncional seria necessário enxergar a própria mulher como essencialmente defectiva. Assim, a ideia de uma mulher “malfeita” produziu a necessária autorização social para a intervenção extemporânea ou intempestiva, mas que com o passar dos anos tornou-se a norma.

Minha brincadeira mental mais engraçada é imaginar a cena do meu colega em um universo paralelo, no mesmo refeitório do hospital de periferia, os mesmos pães na cestinha, o queijo fatiado em retângulos irregulares, o presunto magro, a térmica de café e as xícaras velhinhas com as bordas lascadas. Pela mesma porta entra uma parteira com um sorriso largo, os dentes brancos enfileirados e felizes, os olhos brilhando, os cabelos revoltos pelo gorro recém tirado, os olhos ainda vermelhos pela emoção que acabara de passar.

– Vocês perderam uma maravilhosa aula de parteria avançada agora mesmo, meninos.

Diz sem tirar o sorriso do rosto, enquanto pega nas mãos o pãozinho que aguardava sua vez de ser devorado.

– E o que você fez? pergunto eu, entre curioso e afoito para ouvir sua história.

Então ela responde com um suspiro triunfal:

– Nada. Nada mesmo. Precisamente nada.

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Agnodice

Agnodice, a mais antiga parteira da história grega.

Diz a lenda que uma antiga lei nos séculos V e VI antes de Cristo proibia as mulheres de estudar medicina e exercê-la. Agnodice, entretanto, por desejar o conhecimento e a possibilidade de se aproximar do mistério do nascimento, frequentou as aulas da escola médica do professor Hierophilus, devotando-se ao estudo da parteria e da ginecologia. Foi acusada e julgada por infringir essa lei, mas foi resgatada da prisão pelo testemunho da influente mulher de um político ateniense, a quem havia atendido no seu parto.

Agnodice foi uma parteira com uma face masculina. A coragem e a doçura encarnadas no mesmo corpo.

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