Arquivo do mês: fevereiro 2020

Parto e Privacidade

Diante da explosão de emoções suscitadas por um parto me parece justo que a equipe possa descrevê-lo a partir de SUA perspectiva, até porque um parto sempre terá inúmeras interpretações. Sem dúvida que as mais importantes são as “de dentro” e todas as outras “de fora”.

Uma equipe pode falar que um parto foi maravilhoso ou problemático, desde que o descreva do ponto de vista da atenção prestada. Só uma mulher pode falar de como se sentiu ou como digeriu sua experiência de parir.

Para além disso, nem a descrição que a mulher faz do próprio parto pode ser considerada “a definitiva”. Apesar da primazia de suas percepções – já que é a óbvia protagonista – suas expectativas e projeções subjetivas podem obscurecer a realidade dos fatos, fazendo com que muitas vezes ela descreva seu parto de uma forma completamente diferente de outras perspectivas.

Um parto, por ser um evento humano e multifacetado, sempre comportará várias interpretações e vieses. Além disso, é um dos eventos mais complexos da existência humana, que conjuga em sua essência vida, morte e sexualidade. Exatamente por essas características o nascimento será um processo sensível e reservado. As pessoas convidadas a participar dele precisam entender a importância de resguardar sua privacidade. Assim, não faz sentido que aqueles que o testemunham revelem suas particularidades sem a aquiescência da protagonista, e isso deve ser um consenso entre os cuidadores.

Não se trata de determinar a existência de uma única verdade no parto, a perspectiva justa e certa, pois que isso não existe. Parto só pode ser entendido pela paralaxe de múltiplas visões, em que todas completam o todo interpretativo de um evento múltiplo. Porém, as características pessoais de cada nascimento impõem a reserva e o respeito de todos os que dele participam.

Resguardar a sacralidade do parto depende do preparo dos assistentes e da capacidade de entender sua posição subjetiva como auxiliares de um evento cujas repercussões estão muito além da nossa compreensão.

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Patriarcado

TODAS as religiões abrahâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), surgidas da mesma fonte na Palestina, foram criadas para espelhar o PATRIARCADO nascente. Por isso mesmo o Deus era homem, guerreiro, duro, inexorável e cruel; não por acaso chamado de “O Senhor dos Exércitos”. Isto é: as religiões CRIARAM um Deus homem para refletir a mudança substancial na estrutura da sociedade, que passou a ser marcadamente patriarcal, falocêntrica, baseada nos valores do masculino, na invasão, na conquista e – acima de tudo – na proteção da propriedade e das identidades. Veja como as deusas da antiguidade foram todas suprimidas e deixadas de lado para que o Deus masculino e fálico fosse colocado no posto máximo entre as divindades. Leia “As Brumas de Avalon”, por exemplo, para ver o destino das deidades femininas.

O patriarcado, para se impor como a estrutura básica da sociedade, precisava se apoderar de todos os símbolos e mitos, e assim o fez.Desta forma, jamais seria possível criar um modelo patriarcal – para defesa dos territórios, surgidos com a agricultura e a pecuária – e fazer com que a divindade superior fosse uma mulher!! Precisava ser homem, pois só assim seria temido e exaltado pelos exércitos. Ele seria a imagem mais fiel do espírito dos guerreiros e – num mundo agora patriarcal – era necessário que esse Deus mimetizasse os valores dos líderes humanos que guiariam seus povos. O patriarcado se espalhou desta forma pelo planeta inteiro exatamente porque produzia uma sociedade forte e bem protegida. Hoje pode ser questionado, mas há 10 mil anos pensar diferente significava a aniquilação.

Ao dizer que, uma sociedade que elege uma Deusa como figura máxima JAMAIS poderia ser patriarcal, digo apenas que o sistema de domínio seria “matriarcal”. Teríamos uma cultura invertida, nem pior e nem melhor do que a que temos hoje, e talvez nesse mundo imaginário os homens é que deveriam ser protegidos de um “matriarcado opressor”.

Quem acredita que as mulheres são MORALMENTE superiores, ou estão espiritualmente acima dos homens é tão sexista como o pior dos machistas, e só não está matando e estuprando por falta de coragem ou força. Como já foi escrito de diversas formas e em inúmeras línguas, “feminismo é busca por equidade, e não por supremacia”.

Quem acredita nisso – que homens e mulheres são intelectualmente e moralmente iguais em essência – deveria entender as coisas simples expressadas acima. Colocar um gênero abaixo OU ACIMA de outro é tão asqueroso quanto colocar uma raça, uma religião ou uma orientação sexual acima ou abaixo das demais. Sexismos e racismo são filhos do mesmo pai: o preconceito.

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Cirurgias mutilatórias

Aqui no Brasil a episiotomia ainda é feita com frequência. A sociedade de ginecologia e obstetrícia nunca teve uma posição firme contra essa cirurgia até porque, historicamente falando, ela é a intervenção que inaugura a divisão entre a prática dos médicos e das parteiras. É o divisor de águas, surgida de um trabalho mal feito e mal avaliado por De Lee, no início do século passado. Tem a fama de ser a única cirurgia do Ocidente a ser realizada sem o consentimento das pacientes. É responsável pela maior parte do desconforto físico pós-parto e pode causar dores na atividade sexual mesmo vários meses após ter sido realizada.

É também vista como a cirurgia que é feita no corpo de uma pessoa para produzir efeitos no corpo de outra. Por isso mesmo, por estar no limiar entre esses dois mundos, esta intervenção cirúrgica é cercada de mitos, e permanece avessa às evidências científicas a pelo menos 3 décadas. É o procedimento mais emblemático da luta das mulheres pela autonomia corporal. Sua execução, entretanto, resiste às evidências porque simboliza a supremacia da tecnologia – representada pelo bisturi – sobre a natureza implicada no nascimento fisiológico. Episiotomia é a grande cirurgia ritualística e mutilatória da Medicina ocidental.

A derrocada da episiotomia e da posição de litotomia (a posição mais usada para parir, deitada de costas na mesa obstétrica) ocorrerá ao mesmo tempo de uma mudança paradigmática profunda, com o retorno das parteiras ao centro da atenção ao parto e com a máxima valorização da fisiologia do parto sobre as intervenções, que ocorrerão apenas em situações limite, e não como o padrão do cuidado.

Veja mais sobre este tema aqui

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Cadetes

Hoje vi pessoas reclamando das regras das escolas cívico-militares como se esses regramento pudesse ser entendido desvinculado do todo. “Qual o problema do cabelo comprido?“, perguntam. “Afinal, por que as saias abaixo dos joelhos?“, dizem sem entender.

Minha resposta é simples: praticamente nenhum problema com cabelos ou saias. Para estes sujeitos o cabelo ou o comprimento da saia tem pouca importância. Os cabelos poderiam ser todos compridos e encaracolados até. Não é essa a questão. O que se busca com estas medidas é a UNIFORMIZAÇÃO. Todo mundo igual. Mesmo cabelo, mesma roupa, sem maquiagem, adereços ou qualquer sinal externo que denuncie a subjetividade, ou que permita ver a alma única que habita aquele corpo.

É pelas mesmas razões que soldados, clérigos, prisioneiros e gestantes se uniformizam: para que possam ser tratados pela sua FUNÇÃO, e não pelo que realmente são. O nosso sistema educacional procura como elemento primordial de sua ação a domesticação dos alunos, a sua conformação às regras e normas, mesmo que para isso seja necessário fragilizar seu espírito inventivo e sua criatividade.

As escolas cívico-militares funcionam na lógica militar, onde se ensina a obedecer cegamente – e jamais questionar!! – as hierarquias artificialmente construídas por uma sociedade de castas. Com estes fortes sinais semióticos, como o cabelo igual, roupas idênticas e obediência servil às figuras de autoridade, se almeja a doutrinação de crianças para a produção de “cidadãos de bem” – ou seja, sujeitos que perderam a capacidade de questionar as injustiças e se satisfazem com migalhas de dignidade.

Cortar os cabelos funciona da mesma forma como funcionam as roupas comuns retiradas das gestantes, ou a forma como as tratamos. Servem como uma potente mensagem de submissão à ordem estabelecida. Aceitar isso muitas vezes é empurrar a primeira peça do dominó…

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Verdades

Não existe “verdade ou mentira. Aliás, não existem sequer fatos, apenas perspectivas. A “verdade” é uma ficção contada por quem controla a narrativa, por aqueles que detém o discurso hegemônico.

Verdade e mentira se inserem nessa luta pelo discurso autoritativo, e não podem ser analisados de forma positiva. Sempre existirá uma disputa por narrativas, pois que essa é a essência humana. Já a verdade é uma construção coletiva que depende de poder e persuasão para estabelecer hegemonias. A construção da “verdade” nunca é solitária e pessoal, mas uma construção de uma coletividade. Você pode ter sua opinião pessoal e seu viés, mas não pode produzir seus próprios fatos. A disputa por versões da realidade é inalienável do humano. As muitas versões construídas sobre qualquer tema estabelecem uma disputa entre perspectivas e julgamentos. Vence a versão mais poderosa, mesmo quando falsa.

É óbvio que nosso ego sempre cultivará a ilusão de tudo saber, basta escutar qualquer sujeito falando de suas perspectivas Entretanto, a “verdade” não é uma construção subjetiva ou pessoal; ela se constrói socialmente nos choques paradigmáticos tão bem descritos por Thomas Kuhn em sua obra “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

Por isso a verdade contemporânea é de que a terra é esférica, mesmo que visões pessoais a tratem como plana. Não esqueça que o terraplanismo já foi a vertente hegemônica de saber sobre a forma da terra!!!

Assim como no modelo darwiniano de sobrevivência das espécies, a sobrevivência das ideias também obedece as mesmas regras. Não são os mais fortes ou os “corretos” que sobrevivem na natureza, mas os mais adaptados. Mutatis mutandis, algumas ideias toscas – e inclusive comprovadamente falsas – sobrevivem pela sua maleabilidade e pelos poderes e interesses que a sustentam.

O capitalismo é apenas uma dessas ideias que sobrevivem pela força e pelo poder de quem o mantém, mesmo dando sinais inequívocos de decadência e incapacidade de solucionar os graves entraves do planeta.

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