Arquivo da categoria: Ativismo

Violências


150816103934_surgery_624x351_thinkstock

Qualquer cirurgia é uma violência. Rasgar a carne, romper suas camadas, vislumbrar seu recôndito interior, desvendar seus mistérios; nada disso pode ser feito sem violar, abrir e penetrar. Até o código penal precisa se adaptar ao fato de que na sociedade alguns sujeitos específicos, dentro da lei que se obriga a existir, podem cortar, esfaquear, estripar e estrangular alguém no sentido de produzir-lhe algum benefício. 

Para fazer qualquer destes procedimentos é necessário, além do treinamento essencial, um agrandamento egóico que, ao mesmo tempo que destrava os temores, lhe coloca na rota do narcisismo, da vaidade e da temeridade. Eu sempre disse que levei poucos meses – ainda antes de formado – para aprender as etapas essenciais de uma cesariana e realizá-la com sucesso, mas passei os trinta anos seguintes aprendendo a não usá-la como recurso primeiro.

Infelizmente a corporação se preocupa mais com os egos inchados e as fantasias de poder oferecidas aos médicos pela cultura (que eles mesmos moldam e se adaptam) do que com o aprimoramento moral e ético que se segue ao esvaziamento desses egos e à retirada dessas fantasias.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Medicina

Pesos e Medidas

images

“O responsável pelo procedimento é o médico xxxxxxx. Familiares de sete pacientes de xxxxxxx alegam que os parentes morreram em decorrência de complicações da cirurgia, e outras sete declaram ter ficado com sequelas graves. O MPF (Ministério Público Federal) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) receberam as reclamações e pedem que a técnica seja proibida até que estudos científicos comprovem a eficácia e segurança do procedimento.” (www vejaagorabrasil. org)

Imaginem se esse médico, ao invés de fazer cirurgias bariátricas questionáveis (em termos de segurança), estivesse atendendo partos domiciliares em sua cidade da mesma forma como países democráticos estimulam e estabelecem como alternativa segura nos seus sistemas públicos de saúde. Como se comportaria o Conselho de Medicina? Sete pacientes já morreram e outros sete estão severamente incapacitados mas é ÓBVIO que este profissional tem TOTAL APOIO e suporte da corporação. Fazer cirurgias com fins fúteis, meramente estéticos, e colocar em risco a saúde dos pacientes NÃO desafia os poderes médicos. Pelo contrário, exalta a medicina como elemento social transformativo e curativo, e o médico como seu condutor por excelência.

Entretanto, o parto domiciliar, ao estabelecer a paciente como participante ativa e PROTAGONISTA do evento retira do médico sua importância capital e diminui sua relevância. Os médicos que dão suporte a estes partos sabem que sua função é outra, e se estabelece como uma vigilância silenciosa sobre os fatos que possam acarretar riscos acima do normal. Não se trata mais de “fazer partos” mas de os “acompanhar respeitosamente”. Essa nova postura dos profissionais ofende a velha guarda da corporação, que não aceita que médicos desafiem a hierarquia secular na atenção à saúde que os coloca acima de todas as outras considerações, inclusive os próprios desejos expressos do paciente.

As formas como a corporação julga estes casos NADA tem a ver com a segurança ou o bem-estar dos pacientes. O critério é sempre a proteção da categoria. Procedimentos que ameacem o valor profissional são atacados impiedosamente, enquanto aqueles que exaltam a sua posição na sociedade tem seus riscos desconsiderados ou despudoradamente negados.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Medicina, Parto

Radicais

images-22

É verdade que os grupos de humanização do nascimento e amamentação abrigam pessoas radicais e, as vezes, até violentas, mas lembrem que TODOS os movimentos sociais funcionam assim. Olhem para o feminismo, o movimento negro, os grupos de gênero, proteção animal, meio ambiente etc. Não é possível ser diferente porque somos todos humanos. Os grupos de parto humanizado e amamentação obrigatoriamente terão pessoas à esquerda e à direita, como todos os outros. Inevitavelmente surgem radicalismos e revisionismos, e isso faz parte do crescimento de qualquer ideia. No conflito entre essas visões de mundo os movimentos balançam e seguem em frente. Não há como se afastar muito desse roteiro.

A maioria das queixas aos ativistas merecem atenção e algumas até estão corretas, entretanto os julgamentos não nos ajudam em nada. Analisar levando em consideração os contextos, exercitando a empatia são atitudes fundamentais. Por outro lado, sem objetivos claros (como os benefícios do parto e do aleitamento materno), e o respeito aos ritmos do bebê não construiríamos movimentos como o do parto e da amamentação. Nosso desafio agora é ajudar sem julgar. Não é fácil, mas vale a pena tentar.

Meu único conselho é tentar manter os ideais acima das vaidades pessoais e cultivar o perdão e o respeito pelos que sonham o seu mesmo sonho, mas com matizes levemente diferentes.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

Escolhas e Demandas

valores-escolhas

Cesariana por demanda materna é um debate complexo, por certo. Não o considero simples, tampouco fácil. Eu entendo alguns argumentos de quem acha que o sistema público de saúde não deveria pagar por cirurgias desnecessárias e que, ainda por cima, arriscam o bem estar materno e fetal. Entretanto, assim como sou a favor da liberação do aborto e das drogas – apesar de não gostar de nenhum deles – eu prefiro que as mulheres tenham direito a fazer suas escolhas, mesmo as que julgo equivocadas, do que serem tuteladas e obrigadas a realizar o que outras pessoas julgam melhor para elas. Proibir nunca foi uma estratégia inteligente; infantilizar as mulheres, também.

Vou me manter firme em minha visão original: “Precisamos tornar  o parto normal tão prazeroso e gratificante que a opção por uma cesariana será a mais tola das escolhas. Mas, ainda assim, será uma escolha da mulher.“

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Ordem Natural

images-8

Se você espremer um direitista conservador neoliberal, cheio de convicções sobre a desonestidade de Lula, o “estrago petista” na economia ou a “corrupção sistemática” (que foi invenção do PT) em poucos minutos a máscara cai e o que aparece por baixo dela é a inconformidade explícita contra qualquer elemento que promova um reordenamento social. Essa ordem renovadora ofende e desafia as mentes mais simplistas que não suportam qualquer mudança nos planos que lhe oferecem conforto. Para muitos, como Janaína, estes não são nada mais do que os “planos de Deus” para nós.

Em outras palavras, o novo paradigma se impõe contra a “ordem natural”. Por isso mesmo tanto defendem o homem destinado apenas para a mulher, filhos, família, propriedade, tradição, meritocracia, livre iniciativa, estado mínimo etc. Não são modelos apenas, limitados pelo espaço e pelo tempo. Não, eles são o mapa que Deus desenhou para nós, o único caminho possível.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política

Lawfare

images-7

LAWFARE é um mecanismo que utiliza a lei de forma viciosa para condenar inimigos políticos, fazendo parecer que as perseguições abjetas e covardes tenham a aparência de simples “aplicação dura das leis”. Para isso é preciso usar os poderes à disposição para destruir o SUJEITO e desta forma atingir a MENSAGEM.

A humanização do nascimento é a MENSAGEM libertadora para milhões de mulheres sem voz e que sofrem todo tipo de violência no parto. Entretanto, ela incomoda muitos profissionais que se beneficiam do modelo atual, que objetualiza e coisifica gestantes. Por isso profissionais que se rebelam contra o abuso de cesarianas e procedimentos anacrônicos e abusivos estão sendo vítimas de LAWFARE. Como eu.

E como Lula sofre todos os dias.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política

Protegido: Para entender o caso

Este conteúdo é protegido por senha. Para visualizá-lo, digite a senha abaixo.

Digite sua senha para ver os comentários.

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Hecatombe


images-2

Se você ainda não percebeu que há algo de podre no Reino da Obstetrícia Brasileira, e continua acreditando nas perseguições medievais dos Conselhos de Medicina, preste atenção ao que está acontecendo ao seu redor. O “Caso Adelir” – cesariana sob ameaça da Polícia, em Torres, RS – foi um balão de ensaio. Ali ficou claro que, se for possível dispor do corpo da mulher sem que ela aceite e permita, a porta estará aberta para QUALQUER outra arbitrariedade.

(Não esqueçam que no caso de Torres as duas médicas que atenderam a gestante, além da juíza que lhe deu a intimação judicial, eram mulheres, o que expõe uma face cruel do nosso machismo: ele é reproduzido pelas próprias mulheres.)

Estamos muito próximos de uma “hecatombe médica”, quando nenhuma mulher mais tiver chance de ter seus filhos de parto normal pela total incapacidade dos médicos em atendê-las. O caso do Rio de Janeiro é emblemático: a Unimed não disponibiliza mais atendentes de parto normal. O parto, como evento fisiológico, está desaparecendo, consumido pelo monopólio médico que se interessa prioritariamente pelos ganhos e facilidades da cesariana, negligenciando seus riscos multiplicados. (veja aqui a decisão do tribunal do Rio de Janeiro)

Quem defende o parto normal é caçado (pode ser com “ss” também), agredido, violentado, difamado, perseguido e caluniado. Quem abusa de cesarianas recebe tapinhas nas costas dos colegas e jamais é admoestado por seus pares.

Somente a sociedade organizada, forçando a modernização dos operadores do direito, poderá mudar essa realidade. Não podemos mais admitir um ministério publico ainda tão inoperante nos casos de violência obstétrica  (ressalva aqui aos poucos e bravos procuradores que abraçam a causa) e a ignorância constrangedora de magistrados que continuam a julgar casos médicos por senso comum e sem a mínima noção do que seja medicina baseada em evidências.

O que mais precisa acontecer para que as mulheres percebam que seus partos foram roubados para oferecer conforto e dinheiro às corporações?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Lawfare

rasgando_a_folha1

“Lawfare é uma palavra inglesa que representa o uso indevido dos recursos jurídicos para fins de perseguição política”. Neste sentido, a lei é utilizada como uma espécie de “arma de guerra”, o que permite o uso de um instrumento jurídico com afeição política.

Lula, juízes garantistas e obstetras humanistas são perseguidos pela justiça e pelos seus pares, no caso dos obstetras, a corporação médica. A perseguição contra os médicos humanistas se insere como um capítulo negro na longa crise da obstetrícia brasileira que, sem capacidade de justificar a barbárie das cesarianas descabidas e outras tantas práticas anacrônicas, prefere atacar os médicos que se posicionam contrários a esta prática. No final, atira-se no mensageiro para atrasar a chegada da mensagem. Infelizmente para eles essa estratégia não dura muito tempo, e a verdade por fim se torna a única possibilidade de avanço.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política

Eu e as Doulas

– Você sabe o que é uma doula?

Sua pergunta era direta e seus olhos verde-água me encaravam com a mesma firmeza doce com que segurava Miguel, seu filho recém-nascido. Poucos dias haviam se passado do nascimento, e ela vinha ao meu consultório para a revisão de rotina. Os desafios daquela gravidez e os mistérios daquele parto haviam me oferecido inúmeros ensinamentos sobre as conexões entre o espírito, a mente, o corpo e suas inúmeras e enigmáticas falas. Quando a pergunta de Cristina me chegou aos ouvidos eu sequer sabia que as grandes transformações ainda estavam para começar…

cris-doula

Não, eu ainda não sabia o que era uma doula, mas Cristina teve paciência para me explicar o que elas faziam. Falou de Wendy, Klaus e Kennell, Dana Raphael, Penny Simkin. Falou do suporte psicológico, afetivo, emocional, físico e espiritual que elas podiam proporcionar. Falou também dos estudos, da biblioteca Cochrane, e de tantas outras verdades as quais eu desconhecia por completo.

– Eu sou uma doula, Ricardo, continuou ela. E nós vamos trabalhar juntos.

O convite inesperado me acertou em cheio. Sua proposta era simples: referência e contra-referência. Ela me encaminharia pessoas interessadas em um atendimento humanizado ao parto e eu encaminharia a ela gestantes que desejam um acompanhamento de Yoga durante a gestação e que desejam a presença de uma doula no parto. Os partos seriam uma tarefa compartilhada entre nós. Ali começava uma parceria que produziu muitos frutos, mas que também acabou atingindo de forma inquestionável um dos pilares da obstetrícia moderna: o poder sobre o corpo da mulher. O preço a ser pago, sei bem agora, seria o pior possível, e o perdão… impossível.

Nosso trabalho se iniciou de forma tímida, mas tinha uma característica importante: a busca de horizontalidade. Não se tratava de uma “auxiliar de médico” a fazer um trabalho acessório para ajudar o “nosso” trabalho. Não, o trabalho da doula vinha inserido em um outro entendimento da atenção, em que diferentes atores executam funções complementares e de igual importância. A doula fazia o trabalho de preparação física para o desafio do parto, e durante o processo se ocupava de oferecer conforto, confiança, determinação e relaxamento. Depois de cada parto conversávamos para ver os pontos positivos e negativos da nossa atuação, o que poderia ser melhorado e o que poderia ser repetido em novos atendimentos.

Todavia, o primeiro grande assombro do meu trabalho com as doulas não ocorreu pelos partos maravilhosos, pelo choro de felicidade, pela alegria de pais e mães envolvidos em um abraço comovido com sua cria, ainda úmida e quente, embalada nos braços. Não foi pelo clima maravilhoso de sensualidade, de carinho, de proteção e confiança. Não, não foram estas as causas do meu assombro.

Meu primeiro grande susto foi ver uma paciente escrever na internet uma nota sobre um parto que nós tínhamos atendido. Nela se lia, com palavras semelhantes a estas: “Agradeço ao meu marido, minha família, meus amigos e à minha doula. Sem ela eu jamais conseguiria.“

A sensação que eu tive foi de espanto. “Como assim sem ela eu não conseguiria? E eu? E a minha arte, meu esforço, minha dedicação, meu talento, meus anos de estudo?” Meus pensamentos incontroláveis eram o suporte da minha indignação, mas era preciso absorver o golpe e tentar entender. Com o passar do tempo consegui compreender que minha irritação se dava por não conseguir admitir nada além de mim mesmo como merecedor de qualquer tipo de elogio pelo nascimento. Minha mente ainda acreditava que eu “fazia” os partos de minhas clientes e, sendo assim, não haveria como alguém querer roubar este corpo e este parto que a mim pertenciam.

Era preciso sair deste lugar, e eu sabia disso. Sem abrir mão da posição de “dono do parto” eu jamais poderia dar um passo adiante. “Humanizar o parto é garantir o protagonismo à mulher“, dizia eu. Se o protagonismo a elas pertence, que disputa é essa que se pode estabelecer entre pessoas alheias ao evento? “Se a posição de coadjuvante não lhe é suportável, esqueça esse ofício“, repetia meu amigo Max. “Médicos, parteiras e doulas não são feitos para brilhar, são feitos para refletir e ampliar a luz que emana de uma mulher parindo“. Aquela era a lição mais dura, a mais difícil, a mais complexa e a mais desafiadora. Descer do pedestal de saber auto erigido sobre o corpo da mulher é terrível. Quando vejo os ataques ferozes de elementos da corporação médica às doulas fica claro para mim que eles são tomados pelo mesmo sentimento que me atingiu ao ler aquela nota, mas sem a fidelidade aos compromissos de equidade, justiça e protagonismo garantido às mulheres aos quais eu me propunha.

Meu trabalho com as doulas foi abrindo um portal que eu jamais teria imaginado. Era como se um aspecto gigantesco, imenso e misterioso do meu trabalho houvesse sido trancafiado por 10 anos e só então pudesses ser aberto. Os aspectos psicológicos, absolutamente negligenciados durante toda a minha formação médica e na residência, finalmente faziam sentido. O enigma da página 138 do livro “Nacimiento Renacido“, de Michel Odent, podia ser desvendado: era essa conexão física, emocional, intensa e profundamente feminina que oportunizava às mulheres percorrer os labirintos obscuros do seu ser feminino com mais confiança. Era essa a parte que me faltava, da qual eu carecia e que as doulas poderiam ajudar, acrescentando a feminilidade e o contato amoroso ao trabalho técnico de médicos e obstetrizes.

Duro reconhecer, mas durante muitos anos eu fui um médico manco, claudicante, que andava me arrastando, sem saber como oferecer uma atenção que contemplasse as reais e profundas necessidades das gestantes e seus parceiros. Foi através das doulas, com sua calma, silêncio, tranquilidade, compaixão e arte que eu aprendi muito sobre os intrincados caminhos da feminilidade. Se o parto verdadeiramente é “uma parte da vida sexual normal de uma mulher” como dizia Odent, então a própria sexualidade feminina se desenrolava diante dos nossos olhos no momento sublime do nascimento, o que nos obrigava a uma atitude de solene admiração e respeito.

As doulas me levaram a uma revolução interna sem precedentes. Com elas percebi que a única posição subjetiva coerente de um médico é a humildade, aliada a compreensão do nascimento como um fenômeno para muito além do que conseguimos atingir com a mera pesquisa biológica e mecânica. Existem segredos ainda reclusos, que precisam ser descobertos, e cabe a nós a coragem de procurá-los. Para as doulas, e para Cristina – minha primeira doula – fica a minha homenagem e os meus agradecimentos eternos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto