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Liberdade e Fascismo


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Uma proposta de debate:

Fato: ativista pró-Bolsonaro, vestido a caráter (camiseta Bolsominion) participa de um debate na UFMG e nas poucas frases que diz exalta o que chama de “nosso candidato”. Imediatamente a plateia reage ao orador e o expulsa do ambiente, primeiro com gritos e depois com imposição física. Ele não conseguiu expor suas ideias. Os gritos foram “Fascistas não passarão!!”. O vídeo que recebi tem um título mais ou menos assim: “Bolsominion tenta falar em evento na UFMG e se dá mal”.

Como eu sou um fanático da liberdade de expressão esse tipo de atitude sempre me faz muito mal, mais ainda quando vi o vídeo pela segunda vez e me certifiquei que o objetivo do pretenso palestrante NÃO ERA falar, mas ser expulso. Com essa expulsão ele conseguiu que sua imagem fosse disseminada pelas redes sociais e – mais importante – ser visto como vítima da intolerância (das esquerdas).

Em outras palavras, um fascista montou uma armadilha que todos caíram. Pior, saiu como herói da liberdade de expressão que foi silenciado a murros e gritos por um grupo de intolerantes. Era TUDO que ele e seu grupo desejavam.

Claro que foi uma provocação, mas por que temos que continuar caindo nessas armadilhas?

No mesmo dia recebo e publico no Facebook o vídeo de um dos (meus) heróis contemporâneos, o Snowden, que vai na direção oposta. Ele fala que o combate às mentiras na Internet (fake news) não pode ser feito através da censura ou qualquer ato proibitivo, mas através de MAIS abertura e mais debate. Esconder as posições fascistas FORTALECE O FASCISMO e censurar bolsominions os deixa mais coesos e firmes. O que pareceu aos olhos desavisados da esquerda como uma vitória dos democratas presentes contra um elemento fascista foi – ao meu ver – uma derrota da livre expressão e da própria democracia.

Afinal, o que devemos temer nesse discurso? Porque haveríamos de ter medo de um discurso grotesco e reacionário? Por que não permitimos que eles exponham toda a sua violência e radicalismo para assim serem mais facilmente combatidos?

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Estratégias

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Infelizmente sou obrigado a reconhecer que este ato de apoio à vereadora Juliana em São Paulo ofereceu toda a visibilidade que o vereador Holiday queria. Ele passa a ser um herói dos fascistas. Não nego que o movimento em solidariedade a Juliana se tornou mandatário, mas ao mesmo tempo coloca holofotes na dupla Holiday – Kataguiri. Eles estão conseguindo trazer suas pautas para a mídia e com isso buscando apoio dos fascistas em toda parte. Se foi planejado – como imagino que foi – então está dando certo.

Desde o início a estratégia dos fascistas é a polarização: nós contra eles. Isto é histórico e aconteceu em todos os lugares onde os modelos fascistas foram implantados; como uma receita de bolo que só é diferente nos detalhes externos e decorativos. Nunca houve um real desejo de compor ou construir, mas apenas de se CONTRAPOR a tudo que vem do “outro”. Além do mais, colocar a culpa no outro (a corrupção, o desemprego, a desonestidade, o Mal) é uma sedução que eternamente nos acompanha.

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Pêndulo

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Quando você consegue alcançar vitórias importantes em algum tipo de movimento social isso significa que, inevitavelmente, alguma reação virá em sentido oposto. O movimento “menas main” surgiu em resposta aos avanços da humanização do nascimento, chegando a criar horrores como “Não me obriguem a um parto normal” entre outros. O movimento feminista, após importantes conquistas e as tantas mudanças na sociedade pelas denúncias de violência contra a mulher (inclusive no parto) recebe agora um ataque violento de machistas (homens e mulheres) insatisfeitos com estes avanços. Até a alimentação saudável agora está na mira de pessoas que não suportam mais a “ditadura da alimentação saudável”. Alguns chegam a dizer que querem comer “tudo que tiver vontade” e não aceitam ser controlados por “xiitas como Bela Gil”.

Todos os novos insatisfeitos reclamam que se sentem “oprimidos” pelas novas “ondas”, mas não conseguem enxergar que os movimentos que agora estão em destaque surgiram para combater as ditaduras do lixo alimentar, das cesarianas e do poder testosterônico abusivo. Não é errado aceitar que a humanização do nascimento, o feminismo e a alimentação saudável cometeram erros, em especial ao julgar as pessoas fora desses grupos sem contextualizar as razões para as cesarianas, as relações abusivas ou a comida sem qualidade. Entretanto, não há como invalidar suas conquistas pelos exageros e equívocos, tão naturais quanto inevitáveis. O que sobra como lição é a necessária dialética pendular que faz com que o sucesso das novas propostas seja o prenúncio de um ataque violento às suas premissas por aqueles que se sentem ameaçados pela emergência dos novos paradigmas.

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Cócoras

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Há exatamente 30 anos comecei a atender partos de cócoras no meu estado e por muitos anos eu fui o único profissional a usar essa posição em em uma região onde moram 10 milhões de pessoas. Isso, entre outras atitudes (como corte tardio do cordão) era motivo de deboche, escárnio, desprezo e bullying. Naquela época posições alternativas sequer eram mencionadas, quanto mais oferecidas ou aceitas pela comunidade dos obstetras.

Hoje em dia parece fácil debater esta questão, mas há 3 décadas quando resolvi atender partos de cócoras no hospital de Sapucaia do Sul houve uma sessão especial da Câmara de Vereadores para impedir que isso continuasse. Um dos vereadores disse que tinham que fazer algo com o médico que colocava as mulheres para “parir como galinhas“. Mesmo 30 anos depois da minha iniciativa os hospitais de Porto Alegre – em especial os hospitais universitários – não estimulam partos verticais como padrão ou rotina.

Quando quiser saber o nível de abertura e atualização de um obstetra pergunte a ele sobre partos verticais, em especial de cócoras. Se ele falar coisas como “isso é coisa de indígenas“, ou “civilizadas não podem parir assim“, ou “mulheres de cidade perderam essa habilidade” pode ter certeza que ele está usando os mesmos argumentos furados e sem embasamento de 30 anos atrás.

Na verdade o que ele tem em mente mas não consegue dizer é “eu não sei atender um parto que seja bom para a mãe; só sei assistir quando é bom para mim“.

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Medicina Americana

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Uma amiga minha que mora nos Estados Unidos foi acometida de uma dor abdominal violenta que se manteve por alguns dias. Em seu histórico o (ab)uso de remédios, em especial anti-inflamatórios e antidepressivos. Não tinha cobertura de nenhum seguro saúde, mas dentro de 5 dias ela alcançaria o vencimento de sua carência. Sozinha e em pleno desespero decidiu-se por procurar uma emergência, pois teve medo de morrer. Foi admitida e realizaram muitos exames, todos os possíveis em um caso de dor epigástrica aguda sem febre, diarreia ou sintomas sistêmicos.

Durante 5 horas permaneceu na emergência. O diagnóstico final foi “gastrite aguda”. O tratamento foi basicamente aquele para quadros similares: antiácidos e bloqueadores.

Preço do atendimento: 30 mil dólares.
Sim… mais de 90 mil reais. Tudo discriminado. 30 mil dólares por 5 horas de atendimento.
(Se eu cobrasse 20% disso por 20h de atenção ao parto seria chamado de muitas coisas desabonatórias)

No SUS, que está prestes a acabar nas garras de Temer, o valor seria zero. Mas por este tipo de relato podemos entender as forças que atuam nas sombras e que desejam acabar com o sistema universal de assistência à saúde no Brasil.

Outro problema que vamos enfrentarem breve é a transformação da assistência médica em um processo industrial, com a mesma lógica da linha de montagem de uma fábrica comum.

Uma vez conheci um oftalmologista que ganhava fortunas pela Unimed. Ele atendia mais de 300 pacientes por mês. Em função do alto custo uma equipe da Unimed foi avaliar porque suspeitaram de fraude. O resultado da investigação não podia ser pior: não era fraude.

Ele passava pacientes de 10 em 10 para sua sala de exames. Pingava colírio dilatador de pupila em um por um e depois disso pedia que saíssem e esperassem para serem chamados. Chamava outros 10 e repetia as gotinhas dilatadoras. Depois disso chamava a primeira turma novamente e fazia exame de “fundo de olho” em todos, ditando os achados para uma secretaria que copiava ao seu lado. Quando terminava essa fase repetia o exame na segunda turma. Quando finalizava essa etapa chamava de novo a primeira turma e distribuía os diagnósticos e as receitas. E assim ia fazendo, realizando um verdadeiro atendimento oftalmológico fordista, industrial. Máxima eficiência no mínimo de tempo.

Meu comentário na época foi…

Eu entendo porque ele faz este tipo de atendimento, porque aumenta os lucros diminuindo os intervalos entre a saída e a entrada dos pacientes. Mas até hoje não consigo entender as razões que levam um paciente se submeter a tal desumanidade“.

Ah…. era pela Unimed. Se fosse pelo SUS imaginem o que estaríamos falando.

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Violências


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Qualquer cirurgia é uma violência. Rasgar a carne, romper suas camadas, vislumbrar seu recôndito interior, desvendar seus mistérios; nada disso pode ser feito sem violar, abrir e penetrar. Até o código penal precisa se adaptar ao fato de que na sociedade alguns sujeitos específicos, dentro da lei que se obriga a existir, podem cortar, esfaquear, estripar e estrangular alguém no sentido de produzir-lhe algum benefício. 

Para fazer qualquer destes procedimentos é necessário, além do treinamento essencial, um agrandamento egóico que, ao mesmo tempo que destrava os temores, lhe coloca na rota do narcisismo, da vaidade e da temeridade. Eu sempre disse que levei poucos meses – ainda antes de formado – para aprender as etapas essenciais de uma cesariana e realizá-la com sucesso, mas passei os trinta anos seguintes aprendendo a não usá-la como recurso primeiro.

Infelizmente a corporação se preocupa mais com os egos inchados e as fantasias de poder oferecidas aos médicos pela cultura (que eles mesmos moldam e se adaptam) do que com o aprimoramento moral e ético que se segue ao esvaziamento desses egos e à retirada dessas fantasias.

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Pesos e Medidas

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“O responsável pelo procedimento é o médico xxxxxxx. Familiares de sete pacientes de xxxxxxx alegam que os parentes morreram em decorrência de complicações da cirurgia, e outras sete declaram ter ficado com sequelas graves. O MPF (Ministério Público Federal) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) receberam as reclamações e pedem que a técnica seja proibida até que estudos científicos comprovem a eficácia e segurança do procedimento.” (www vejaagorabrasil. org)

Imaginem se esse médico, ao invés de fazer cirurgias bariátricas questionáveis (em termos de segurança), estivesse atendendo partos domiciliares em sua cidade da mesma forma como países democráticos estimulam e estabelecem como alternativa segura nos seus sistemas públicos de saúde. Como se comportaria o Conselho de Medicina? Sete pacientes já morreram e outros sete estão severamente incapacitados mas é ÓBVIO que este profissional tem TOTAL APOIO e suporte da corporação. Fazer cirurgias com fins fúteis, meramente estéticos, e colocar em risco a saúde dos pacientes NÃO desafia os poderes médicos. Pelo contrário, exalta a medicina como elemento social transformativo e curativo, e o médico como seu condutor por excelência.

Entretanto, o parto domiciliar, ao estabelecer a paciente como participante ativa e PROTAGONISTA do evento retira do médico sua importância capital e diminui sua relevância. Os médicos que dão suporte a estes partos sabem que sua função é outra, e se estabelece como uma vigilância silenciosa sobre os fatos que possam acarretar riscos acima do normal. Não se trata mais de “fazer partos” mas de os “acompanhar respeitosamente”. Essa nova postura dos profissionais ofende a velha guarda da corporação, que não aceita que médicos desafiem a hierarquia secular na atenção à saúde que os coloca acima de todas as outras considerações, inclusive os próprios desejos expressos do paciente.

As formas como a corporação julga estes casos NADA tem a ver com a segurança ou o bem-estar dos pacientes. O critério é sempre a proteção da categoria. Procedimentos que ameacem o valor profissional são atacados impiedosamente, enquanto aqueles que exaltam a sua posição na sociedade tem seus riscos desconsiderados ou despudoradamente negados.

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Radicais

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É verdade que os grupos de humanização do nascimento e amamentação abrigam pessoas radicais e, as vezes, até violentas, mas lembrem que TODOS os movimentos sociais funcionam assim. Olhem para o feminismo, o movimento negro, os grupos de gênero, proteção animal, meio ambiente etc. Não é possível ser diferente porque somos todos humanos. Os grupos de parto humanizado e amamentação obrigatoriamente terão pessoas à esquerda e à direita, como todos os outros. Inevitavelmente surgem radicalismos e revisionismos, e isso faz parte do crescimento de qualquer ideia. No conflito entre essas visões de mundo os movimentos balançam e seguem em frente. Não há como se afastar muito desse roteiro.

A maioria das queixas aos ativistas merecem atenção e algumas até estão corretas, entretanto os julgamentos não nos ajudam em nada. Analisar levando em consideração os contextos, exercitando a empatia são atitudes fundamentais. Por outro lado, sem objetivos claros (como os benefícios do parto e do aleitamento materno), e o respeito aos ritmos do bebê não construiríamos movimentos como o do parto e da amamentação. Nosso desafio agora é ajudar sem julgar. Não é fácil, mas vale a pena tentar.

Meu único conselho é tentar manter os ideais acima das vaidades pessoais e cultivar o perdão e o respeito pelos que sonham o seu mesmo sonho, mas com matizes levemente diferentes.

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Escolhas e Demandas

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Cesariana por demanda materna é um debate complexo, por certo. Não o considero simples, tampouco fácil. Eu entendo alguns argumentos de quem acha que o sistema público de saúde não deveria pagar por cirurgias desnecessárias e que, ainda por cima, arriscam o bem estar materno e fetal. Entretanto, assim como sou a favor da liberação do aborto e das drogas – apesar de não gostar de nenhum deles – eu prefiro que as mulheres tenham direito a fazer suas escolhas, mesmo as que julgo equivocadas, do que serem tuteladas e obrigadas a realizar o que outras pessoas julgam melhor para elas. Proibir nunca foi uma estratégia inteligente; infantilizar as mulheres, também.

Vou me manter firme em minha visão original: “Precisamos tornar  o parto normal tão prazeroso e gratificante que a opção por uma cesariana será a mais tola das escolhas. Mas, ainda assim, será uma escolha da mulher.

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Ordem Natural

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Se você espremer um direitista conservador neoliberal, cheio de convicções sobre a desonestidade de Lula, o “estrago petista” na economia ou a “corrupção sistemática” (que foi invenção do PT) em poucos minutos a máscara cai e o que aparece por baixo dela é a inconformidade explícita contra qualquer elemento que promova um reordenamento social. Essa ordem renovadora ofende e desafia as mentes mais simplistas que não suportam qualquer mudança nos planos que lhe oferecem conforto. Para muitos, como Janaína, estes não são nada mais do que os “planos de Deus” para nós.

Em outras palavras, o novo paradigma se impõe contra a “ordem natural”. Por isso mesmo tanto defendem o homem destinado apenas para a mulher, filhos, família, propriedade, tradição, meritocracia, livre iniciativa, estado mínimo etc. Não são modelos apenas, limitados pelo espaço e pelo tempo. Não, eles são o mapa que Deus desenhou para nós, o único caminho possível.

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