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The Aftermath of the Barricades

Creio que não há porque se interessar com a mera opinião que alguns detratores do movimento das doulas apresentam. Vejam bem… Se o título das matérias sobre este tema fosse “O problema das Doulas”, ou “Humanização e Doulas, conflito de interesses”, ou ainda “Doulas e o excesso de atores no parto”, eu até me informaria melhor para saber que tipo de argumentos poderiam ser apresentados (eu até teria argumentos razoáveis para combater as doulas…). Entretanto, o nome “As espertas da vez” deixa claro na primeira linha, que o texto é ruim, mal escrito, sem embasamento e se constitui apenas de uma grosseria em prosa, um xingamento sem substância e um simples extravasamento de indignação. Textos assim falam muito mais das frustrações e dificuldades do autor do que reais problemas relacionados às as doulas.  Por outro lado, eu me preocupo com o “aftermath of the barricades“, no dizer de Max.

Sim, temos dificuldades terríveis em fazer com que o modelo das doulas seja algo universalizado, exatamente porque muitos ativistas desreconhecem o “outro”. Ou seja: estão com tanta indignação que se esquecem de pensar em paralaxe, mudança de viés, empatia com a necessidade das instituições, etc. Por exemplo, pouca gente se preocupou em se colocar na pele de um administrador de hospital que recebe alguém que que se intitula doula e que não tem nenhuma condição emocional para estar numa sala de parto. Como saber se esta mulher, assim autodenominada, não é uma psicótica? E como ter garantias que ela vai se comportar educadamente, com respeito aos outros profissionais e com noções mínimas de ética e higiene? Quem se responsabiliza pelas doulas? Quem paga o pato se uma doula influenciar uma mulher a não ser operada (pois a doula “sabe” que não há necessidade) e o bebê não resistir? Existe algum órgão que as coordene, como um CRM, um conselho ou alguma instituição qualquer? Não, não existe, mas basta citar a necessidade de nos organizarmos em nível nacional para que algumas ativistas pirem, se enraiveçam, e coloquem toda a sua indignação contra os “médicos raivosos e grosseiros cesaristas, FDP, etc…”.

Parecemos as feministas da primeira hora. Os homens são o “mal” da humanidade. Estupradores, assassinos, violentos, agressores, violentadores de meninas. O “outro” era demonizado, como fazemos com os médicos, com boa dose de razão, mas inequívoco exagero. Precisamos de 40 anos de debates para entender que o patriarcado, a dominação masculina, não foi uma invenção dos homens, mas uma criação da sociedade, homens e mulheres. Estas últimas, beneficiárias milenares das benesses da alienação, somente agora despertam para a necessidade da participação e do protagonismo. No que diz respeito ao parto, somente agora uma parcela ínfimada sociedade começa a despertar para a importância do protagonismo feminino na sociedade, e no nosso caso em particular, no nascimento dos seus filhos.

Assim sendo, antes de atirar as pedras no modelo é fundamental entendermos o quanto somos partícipes de sua manutenção e disseminação, e ajudar a descobrir formas efetivas de modificá-lo. Abandonar as agressões, o revanchismo, o ódio e descobrir em conjunto uma solução para a inserção das doulas nos hospitais é um primeiro passo, mas não por isso menos importante.

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Barricadas

Nada é certo, apenas desejo e esperança. Depois dos marcantes acontecimentos ocorridos no último domingo, quando mais de mil mulheres saíram às ruas para lutar pelo direito a ter uma doula no parto, minha preocupação continua intensa. A consolidação de uma agenda das doulas passa por um necessário amadurecimento. Esse processo pressupõe o reconhecimento do “outro”, quais sejam os médicos, os hospitais, as instituições e os demais atores do cenário do nascimento. Essa mobilização poderá produzir o fortalecimento das consumidoras, criando uma nova postura das usuárias (o único setor com potencial para produzir alguma mudança) e, a partir delas, a elaboração de um novo espaço de debate para a questão da assistência ao parto humanizado. A passeata das doulas, com sua exuberância, me encheu de felicidade, alegria, esperança e… dúvidas.

Eu continuo preocupado e angustiado com o que faremos após uma mobilização como essa. Por um acaso, eu havia acabado de assistir o filme “Os Miseráveis” (versão musical) no dia anterior à marcha, e as belas imagens e músicas continuavam em minha memória. Naturalmente tracei uma linha – com um pouco de criatividade e imaginação – que poderia unir as realidades aparentemente díspares de uma passeata contemporânea e de uma cena revolucionária do século XIX. Lembrei imediatamente da cena das “barricadas” que fecharam as ruas de Paris em 1830, no levante popular contra as Ordenações de Julho (Ordenanças de Julho), que suprimiram a liberdade de imprensa, dissolveram a câmara, reduzindo assim o eleitorado, anulando as últimas eleições e permitindo-se governar através de decretos. Algo muito parecido com a “proibição das doulas” em hospitais privados de São Paulo.

Pois o levante dos “citoyens parisien” foi determinado pelos acontecimentos violentos e descabidos produzidos por um governo alheio aos desejos de um povo faminto e necessitado. Entretanto, apesar do afã, do brio, da coragem e da força dos maltrapilhos combatentes, a luta contra as tropas leais ao Rei terminou como vimos no filme: todos morreram, dizimados por uma fraqueza que não imaginavam possuir. Sim, não havia estrutura, nem armas, nem pessoas, nem ativistas e nem um conjunto de ideologias sólidas e estruturadas para enfrentar – com propostas seguras e firmes – a reação dos conservadores. E a batalha das barricadas passou à história como um banho de sangue sem resultado positivo, a não ser a criação de maravilhosas canções, musicais da Broadway e candidatos ao Oscar.

É disso que tenho medo agora. Alguns hospitais – na melhor das hipóteses – poderão reverter suas posições e dizer: “Muito bem, mandem suas doulas.” E diante dessa oportunidade, que doulas mandaremos? Ativistas? Mulheres portando baionetas, cheias de ideias, conceitos tênues e enfrentamentos? Quanto tempo resistiremos a uma situação de constante embate, pela ameaça implícita que uma conduta belicosa pode gerar em hospitais acostumados ao poder magnânimo e inquestionável de uma corporação? Quanto tempo resistirão as doulas a uma perseguição sem trégua, de profissionais que se sentem constantemente ameaçados?

Não acredito na possibilidade de que as doulas entrem no caminho do nascimento para transformá-lo se não for com as ferramentas da doçura, da resiliência, da calma, da compaixão e da paciência. Sei da importância do ativismo, e faço coro às palavras de Sheila Kitzinger que dizia “Não é com tapinhas nas costas que faremos uma revolução social”. Entretanto, há o espaço do ativismo e o espaço da atenção, e esse campos distintos não podem se misturar na assistência, sob pena de produzirmos muito choro e ranger de dentes. Bradar por justiça, por mais correto que possa ser, não poderá servir de estopim para mais injustiça. Atirar para todos os lados, com o rubro a cobrir a esclerótica, pode sepultar por muitos anos os esforços de adicionar afeto e carinho no parto, através do trabalho das doulas.

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“Menas Main”

O debate acirrado e, por vezes áspero, sobre “cesariana x parto normal” nunca vai morrer enquanto nascimento for uma clara e evidente manifestação da sexualidade feminina. Expressão do erotismo feminino, o nascimento guarda com a prática sexual relações emocionais, psicológicas, afetivas, físicas, hormonais e até espirituais. Exatamente por não ser uma questão restrita às variantes médicas e de segurança é que as mulheres se digladiam – as vezes de forma deseducada – sobre a questão do parto e suas opções. Nunca se estabelece um debate racional; ele é sempre carregado de afeto – e raiva, remorso, tristeza também são afetos. Sabemos que não é admissível, numa perspectiva subjetiva, julgar as escolhas de cada mulher sobre a sua sexualidade. Nenhuma mulher é menos mulher por namorar outra mulher, ou por se casar com um russo ou japonês, e isso nos parece bastante claro. A liberdade de fazer escolhas se expressa tanto nas suas opções amorosas quanto no nascimento de seus filhos.

A piada em questão aborda uma crítica (sim, mas em forma de humor) contra um modelo, um paradigma, que dificulta e até mesmo impede a livre expressão da sexualidade no nascimento (o parto normal) e oferece a elas como única opção digna a cesariana “salvadora”. Não é uma crítica contra as mulheres que, por uma razão ou outra, fazem escolhas sobre seus partos. Negar à elas a possibilidade de escolher é que é o verdadeiro crime, mas poucas mulheres se aventuram a falar sobre isso, e preferem desfiar justificativas intermináveis. O problema para mim nunca foi mulheres escolherem cesarianas (ou escolherem outras mulheres para amar, ou estrangeiros…) mas quando essa é a única opção digna que se lhes oferece!!!

Da mesma forma, se a heterossexualidade fosse a única opção digna para o encontro amoroso (e há pouco tempo era visto assim…) eu estaria levantando bandeiras para que as mulheres pudessem amar quem realmente desejassem. Se o parto normal fosse imposto às mulheres eu também sairia às ruas como defensor das escolhas informadas. Infelizmente o que se lê nos debates sobre a cesariana ainda é a ladainha chata do “menas main” e as explicações enfadonhas para cesarianas realizadas, na sua maioria injustificáveis à luz da MBE (Medicina Baseada em Evidências).

E, de uma forma mais intensa e clara nos últimos anos, testemunhamos o fato de que as evidências científicas provando a superioridade inquestionável do parto normal sobre a cirurgia cesariana incomodam cada vez mais as consciências. Antes ainda era comum – e até aceitável – dizer: “Fiz, sim, essa escolha e não me arrependo“. Hoje em dia, com a avalanche de pesquisas provando os malefícios da cesariana (principalmente as com hora marcada) está quase impossível continuar sustentando essa afirmação.

E viva o humor, que nos oferece a oportunidade de falar dessas questões enquanto esboçamos um sorriso especial; aquele que damos ao rir de nós mesmos.

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Responsabilidades

Mostrar a verdade não é a mesma coisa que empurrar a “sua” verdade goela abaixo para que as pessoas ao nosso redor sejam obrigadas a digeri-la. Como diria a minha mãe, a verdade pode ser “exposta”, mas jamais “imposta”. Assim sendo, concordo com a necessidade de respeitar as mulheres que realizaram cesarianas, principalmente naquelas cirurgias que aparentemente não possuem indicação clínica, levando em consideração a visão de mundo das mulheres que se submeteram a ela. Entretanto, acrescento que tais elementos – a liberdade e o tempo do outro – não podem nos impedir de falar e expandir a nossa visão sobre o abuso de cesarianas.

Eu prefiro dizer que todos nós, sem exceção, somos responsáveis pelas cesarianas desnecessárias que ocorrem no mundo, seja por uma postura pouco científica e/ou egoística, seja por inação diante das evidências que nos mostram as vantagens do parto normal. Portanto somos (nós, humanidade), sim, responsáveis pelas mazelas que ainda ocorrem no mundo, até pelos estupros e pelos genocídios. Isso não é o mesmo que ser “culpado” por isso. Se imaginarmos uma menina que sai à noite, de minissaia para uma festa na periferia, eu duvido que alguma mãe de adolescente em face dessa situação não diria: “Minha filha, você está oferecendo graciosamente uma oportunidade à manifestação da perversão de alguém“. Silenciar diante dessa evidência (de que existem perversos e que eles eventualmente cometem estupros) nos torna conectados ao crime, mesmo que de forma indireta e involuntária. Tais mães não são as culpadas do crime, mas pecaram pela falta de prevenção. Quando uma mulher nos diz “Estou consultando com meu médico e ele disse que se tudo der certo será parto vaginal” – e sabemos a fama cesarista do dito profissional – estaremos na mesma situação da mãe que resolveu silenciar.

Como diria Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos (mas há controvérsias quanto à origem dessa expressão), “O preço da Liberdade é a eterna vigilância“. O preço da humanização do nascimento é estar eternamente vigilante com as pressões econômicas e corporativas que colocam o nascimento a serviço de outras forças. Enquanto houver seres humanos, constituídos na infinita diversidade de estruturas psicológicas, haverá a necessidade de nos protegermos da maldade e da perversão. Infelizmente, não há como abandonar a vigilância. Por sua vez, enquanto houver chauvinismo e o desejo de controlar as mulheres, bloqueando a natural criatividade de seus corpos, haverá a necessidade de protegê-las e vigiar as tentativas de subjugá-las. Parir naturalmente ainda é uma batalha árdua, mas já foi ainda mais complexa. Hoje temos ferramentas que no passado não possuíamos, como esta (a internet). Tenho a esperança que no futuro a naturalidade do parto e da amamentação serão incorporadas à atitude de todos os povos, e uma cesariana desnecessária será tão mal vista como jogar no chão um papel de bala numa cidade que todos tentam manter limpa.

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Os Humanismos

Sobre a criação de uma nova comunidade de “Parto Humanizado” eu gostaria de tecer alguns comentários, que traduzem tão somente a minha visão pessoal, e não representam qualquer instituição ou grupo relacionado à humanização do nascimento.

Primeiramente, a humanização do nascimento não tem donos. Trata-se de um movimento internacional de resgate dos valores femininos do nascimento que foram eclipsados pela entrada do paradigma tecnocrático na cultura. O nascimento humano, por força das falhas que esse mesmo paradigma apresenta, acabou se tornando excessivamente artificial, frio, objetual, coisificante, incompleto e – por vezes – violento. Qualquer que seja a definição oferecida a esse conjunto de ideias e atitudes, isso não significa que qualquer grupo possa se apoderar de suas propostas, transformando um movimento de revolução social em um catecismo dogmático e rígido, que se nega a transformar-se pela constância do choque de propostas e discursos diversos.

Isto posto, creio ser importante aclarar a minha definição de parto humanizado. Apesar do uso confuso, e por vezes claramente equivocado desse termo, ainda acho útil a sua utilização. O termo “humanizado” se coloca ao lado da corrente de pensamento humanista, herdeiro do Iluminismo do século XVIII. O Humanismo é a filosofia moral que estabelece o HUMANO como elemento primordial na cultura. É uma perspectiva que se encontra em uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade. Esta corrente de pensamento vem se contrapor ao teocentrismo da idade média, que ignorava as capacidades humanas de adaptação e transcendência e colocava em Deus as diretrizes e o destino da humanidade.

Entre os humanistas se inclui Erasmus de Roterdã.Assim sendo, minha opinião é de que o movimento de humanização do nascimento se assenta sobre um tripé conceitual, que se constitui dos seguintes elementos:

1- O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisticando a tutela” imposta durante milênios pelo patriarcado.
2- Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “processo biológico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessidades atendidas.
3- Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o movimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo inteiro, funciona sob o “Império da Razão”, e não é movido por crenças religiosas, ideias místicas ou pressupostos fantasiosos.

Na minha visão esses são os constituintes fundamentais para entender as propostas de humanização. Em primeiro lugar está o protagonismo restituído à mulher, sem o que estaremos apenas mascarando as condutas e mantendo as mulheres atreladas a um modelo que não as reconhece como capazes de dar conta dos desafios da maternagem. Depois, a visão ampla e transdisciplinar do evento, retirando do parto a imagem de evento biológico ou médico, mas alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde além da medicina outros saberes poderão dialogar e oferecer sua contribuição. Por fim, a vinculação “umbilical” com a MBE – Medicina Baseada em Evidências – para que todo e qualquer procedimento realizado sobre o corpo de uma gestante ou puérpera seja comprovadamente útil a ela e ao seu bebê, sem que outras considerações de ordem moral, religiosa, política ou econômica prevaleçam sobre a saúde de ambos.

Portanto, ainda creio que o termo “parto humanizado” possa ser usado, apesar das confusões. Todavia, se um dia perceber que esse termo está gasto e que já não auxilia mais na compreensão do que queremos transmitir, aceitarei de bom grado que ele seja trocado por outro melhor. Já debatemos “parto livre”, “parto em paz”. “parto digno” e muitos outros, mas nenhum ainda consegue mobilizar as pessoas como este, que até na propaganda governamental da Rede Cegonha já aparece.

Quanto à criação de grupos com esse nome, em especial um que foi criado alguns dias atrás e com milhares de participantes surgidos da noite para o dia eu acho que vale a pena fazer alguns comentários. O grupo se chama “parto humanizado”, mas as pessoas que o controlam não são explicitadas na comunidade. Sobre elas recai uma cortina de sombras e enigmas. Este grupo esconde-se por trás de um nome que as abrigaria de críticas. Entretanto, tal proteção acaba por desumanizá-las, colocando-as em uma posição pretensamente superior, acima das veleidades e falibilidades da carne. Pior: não se trata apenas do nome não aparecer; ele é mantido em segredo, com a desculpa de que “as pessoas que estão por trás não importam, apenas as ideias”.

Eu não vejo dessa maneira, muito pelo contrário. Quando alguém faz um comentário e a resposta vem de “parto humanizado” parece que é a IDEIA, o MOVIMENTO, o ENTE “parto humanizado” quem está respondendo, como se fosse um canal direto com as “formas perfeitas” platônicas, sem a intervenção da mente humana, por definição imperfeita e passível de erros. Quando se lê a resposta oferecida por “parto humanizado” imaginamos que ela será a perspectiva final, a resposta derradeira e com as palavras que não permitirão qualquer contestação. Pode-se encontrar publicidade de cremes e cafeteiras na página. A explicação é de que pertencia à página de uma das “donas” da comunidade, mas a verdade é que aparece nitidamente na página do Facebook, o que deixa a desejar do ponto de vista de debates livres e isentos de pressões de ordem comercial. Posts cortados, palavras cassadas, reclamações suprimidas e toda a sorte de censuras à livre expressão de ideias contraditórias e discordantes.

Não creio que seja essa uma boa maneira de levar adiante um debate livre e democrático sobre a forma como atendemos o nascimento através de uma perspectiva plural e aberta. Violência excessiva nas palavras das “moderadoras anônimas”, misturadas com escárnio e uma pretensa “postura superior”. As controladoras da comunidade parecem ter “contas a ajustar” com os movimentos outrora construídos sobre o tema. A ladainha de “proteção às mulheres que realizaram cesarianas” foi, obviamente, mais uma vez utilizada, como que a acusar as defensoras da humanização do nascimento de “cruéis” ou “insensíveis”. Essa história tem a mesma idade dos primeiros modelos de construção coletiva de suporte ao parto normal. Para cada linha escrita sobre a importância de preservar o modo mais natural possível de conduzir o parto, havia várias linhas de queixas contra a exclusão das cesariadas.

Ora, é muito fácil entender o que se passa. Muitas mulheres, identificadas com as mulheres que sofrem cesarianas, achavam que é inútil e doloroso demais tocar nessa ferida. Muitos de nós, os mais antigos nesse movimento, pensamos o contrário. É claro que crueldade e insensibilidade são nefastas e desnecessárias para a construção de um modelo centrado no protagonismo e na dignidade restituídas, mas também não faremos nada de produtivo calando-nos diante de tantas cirurgias mal indicadas no nosso país. O meio termo sempre foi defendido pelos grupos de apoio ao parto “natural”, mas a citação dessa falsa discordância já é uma acusação velada (e falsa) contra os defensores dessa ideia. Imediatamente depois de entrar na comunidade eu me despedi, desejando boa sorte e bom trabalho, mas expliquei que o modelo criado para os debates em nada sintonizava com minha particular visão sobre as formas cibernéticas de fomentar a discussão sobre a humanização do nascimento.

A revivescência de contendas – como a famosa “menos mãe” – fez com que muitos ativistas achassem que tal iniciativa provinha de históricos inimigos dos projetos de humanização do nascimento, tamanha era a falta de maturidade para o debate. Para finalizar, eu acredito que existem infinitos espaços para a discussão de um tema tão múltiplo e estimulante. O gestar, parir, maternar e amamentar são questões tão antigas quanto a própria humanidade e a nossa necessidade de debatê-las desnuda as falhas dos sistemas contemporâneos de assistência à mulher em reconhecer e trabalhar com as verdadeiras e profundas necessidades femininas de suporte e cuidado. Por outro lado, os debates para serem úteis e profícuos precisam ser abertos, democráticos e respeitosos. Mostrar a cara, dizer que é, receber críticas e absorvê-las, não revidar questionamentos com grosserias e não excluir os que não se alinham em um catecismo estático não são apenas normas de convivência; são determinantes para o sucesso de qualquer projeto que se pretenda longo e construtivo.

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Nascer na Bulgária

Para quem quiser como é a assistência ao parto na Bulgária, o texto abaixo foi enviado a mim pela minha colega parteira Olga Ducat, de Sófia. Existem dados bastante interessantes, como a queixa sobre a rudeza na atenção às gestantes, o número crescente de partos desassistidos, a extrema medicalização dos nascimentos e a proibição de partos domiciliares (até agora, mas depois do julgamento da corte dos direitos humanos da Comunidade Europeia as coisas tendem a mudar). 

BULGÁRIA

General data

A small country by the black sea.
Democracy since 1994.
The population of Bulgaria is about 7.494.000 inhabitants
Babies born per year (2010): 76 000
There are about 130 maternity wards
There are no birth centers
The title “Baby-friendly hospital” is awarded to 12 hospitals.
Maternal mortality rates  – 13 per 100 000 (2008)
Infant mortality rates – 11.0 (2010)
Neonatal mortality rate – 7 (2010)

Pregnancy Care

The standard pregnancy care covered by national health insurance includes 9 free visits, some basic blood and other tests, and 2 ultrasounds – one during the first trimester and one between 16-20 weeks. Most women prefer to visit an ob-gyn during pregnancy but there is an option to visit a GP – some GPs implement the obligatory program “Maternity care”. However, many pregnant women choose to visit private consultancies despite the high expenses because of the special attention they are hoping to get. There is no practice for the obstetrician who takes care of you during pregnancy to attend your birth. Most obstetricians who work in hospitals also have private practice. So women who want a particular obstetrician to attend their birth are often forced to visit their private consultancies as well. Many women combine regular and private pregnancy care and visit two obstetricians in order to be sure that everything is all right. Every visit in a private consultancy includes ultrasound.

Preparation for birth

Some hospitals organize birth preparation courses or single lectures by a midwife or an obstetrician. The majority of hospitals have open door days once a month when future parents can see the delivery room, the neonatal ward, the rooms and ask questions. There are also privately run childbirth classes but most of them do not really inform women, they rather make them “fit into the system”. They describe the routine medical interventions but do not discuss their necessity or risks. There are also alternative childbirth classes – with focus on the normal physiology of birth, hormones during labour and delivery, alternative pain relief methods, routine hospital medical interventions and their risks, how to prepare your birth plan, how to communicate to the hospital personnel, etc. A lot of centers organize prenatal yoga or gymnastics.  More and more women inform themselves from books and the internet.

Birth place

With very little exceptions all women in Bulgaria give birth in hospitals. Homebirth is not regulated by Bulgarian law. There are no birth centers. There are only 3 hospitals in the country where water birth is available and there are very few doctors trained to attend water births.
The majority of hospitals charge for additional services such as birth in a private VIP delivery room, choosing a medical team, presence of the father. The cost of birth with the above extras exceeds the average monthly salary in Bulgaria.

There is a public and a private system. It is normal to pay in the public system too, under the table to doctors and midwives. By law you are entitled to have a person with you at birth, but many times you have to pay for that too.

The informed consent

The informed consent form includes description of the routine interventions that could be performed during birth, but the risks are not mentioned. Often there is no additional explanation by the personnel. Usually the woman signs this form while being admitted into the maternity ward when she has contractions and is unable to concentrate on the text. She can refuse signing the document, but it is very likely that this will affect negatively the personnel’s attitude. Birth plans are not commonly practiced yet. Parent attempts to make demands are usually not received well and they are often disregarded.

Interventions

Childbirth in Bulgaria is extremely medicalised. Most people only make a distinction between cesarean and “normal” birth and a lot of women don’t even realize they have another choice. On the basis of anectotal evidence from women birth stories there is practically no natural birth without interventions.

The cesarean rates are constantly growing in the last years. According to the WHO data base the cesarean rate in Bulgaria in 2002 is 17%. In 2006 the rate is 24% (from 73 978 births more than 18 000 of them are c-sections). The official cesarean rate in the 3 major hospitals in Sofia is 45%, in private hospitals it is even higher.

Midwives

Number of midwives – 3401 (2007)
Number of obstetricians/gynecologists -1356 (2007)

Midwifery has a longstanding tradition. The first midwives were taking their education in Saint Petersburg, at a school that was made after the Dutch model in the 18th century. Midwifery was given till the socialist regime was ending the home birth and every woman was giving birth in hospital setting. Midwives were no longer a freestanding professional but the assistant of the obstetrician. There was no midwifery organization till 2011.

Midwives were supposed to be member of the medical care givers organization. An organization, that only looks after the institutionalized caregivers interests.

Midwifes in Bulgaria are very dependent on the doctors, in fact they play the role of obstetric nurses. They are not allowed to work independently. Every birth in a hospital must be attended by an obstetrician. Compared with the obstetricians their salaries are extremely low.

Doula

The first Bulgarian doula started working in Sofia in the end of 2010. At the moment there are about 50 doulas in a process of a certification. 3 doula workshops were organized – one of them by DONA International, and two by European Perinatal School.

A lot of medical professionals have negative attitude to doulas. Another problem is that if you want to have a companion during birth, in the majority of hospitals you have to arrange an individual delivery room and to pay for all the VIP services. This is not accessible for most of the women. Besides that the attendance of more than one companion is not advisable/not allowed in most of the hospitals, so the woman has to choose between her partner and doula. Doulas usually charge about 100-150 EUR for their services.

Homebirth

Home birth was forbidden till Bulgaria became member if the EU and the directives can be mentioned. In fact it is not regulated by Bulgarian law and it is hard to find a doctor or a midwife who would attend homebirth. This stops mothers who would like to give birth at home. The idea of homebirth itself is revolutionary for Bulgaria; most people consider it terribly irresponsible, bordering on insanity.

The main arguments of doctors against homebirth are undeveloped infrastructure, heavy traffic and the impossibility to take the necessary equipment into the house. However there is an interesting tendency in the last few years – the number of planned unassisted homebirths has increased. The difficult situation in hospitals, the routine interventions and the rude attitude of the personnel force some parents to make this choice. Usually they inform themselves from the internet and order literature and home birthing sets from abroad. These births are usually assisted by the father. Sometimes doulas attend such births.

Women are very active for their rights in Bulgaria and are many times in the public eye with claims for change.

Postnatal care

After discharge from hospital the mother and the newborn are visited by a pediatrician (the baby’s GP). They do a routine check up of the baby and offer advice about breastfeeding and how to care about the baby. (Usually the recommendation is breastfeeding on a 3 hour schedule). Two weeks after birth they usually weigh up the baby in the pediatricians consulting room, after that the mother and baby attend monthly pediatric appointments. There is a postnatal gynecological appointment for the mother 6 weeks after delivery.

Breastfeeding and maternity leave

The situation with breastfeeding in Bulgaria is changing for the better during the last years. Some hospitals already have breastfeeding support consultants.

As of January 2009 mothers in Bulgaria receive 90% of their salary during the first year of their maternity leave. The law allows 2-hour paid leave within the working day to breastfeed the baby until 8 months old and 1 hour on prescription after that, but very few women are aware of this possibility.

Olga Ducat, Sófia – Bulgária

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Curso de Humanização do Nascimento

Este curso é aplicado em 10 módulos de 4 horas, totalizando 40 horas de aulas. Cobre desde os elementos iniciais da fecundação e início da gestação, até o pré-natal, a assistência ao parto, amamentação e cuidados iniciais com o recém-nascido. É oferecido para os profissionais que pretendem atuar em equipes interdisciplinares de atenção ao parto e nascimento, com ênfase na humanização, na visão integrativa e na Medicina Baseada em Evidências.

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Pré-história da Cidadania

Depois das turbulências sobre parto domiciliar, onde a população civil, a liberdade e a autonomia das mulheres saíram vitoriosas (as determinações do CREMERJ foram solenemente cassadas e nenhuma sanção foi aplicada ao nosso colega), resta ainda uma pergunta para qual não tivemos resposta: Porque a preocupação tão vigorosa com os partos domiciliares por parte do CREMERJ? Será mesmo para “proteger” mães e bebês? Se isso for verdade, porque nunca houve um alerta vigoroso contra as cesarianas desmedidas e abusivas, que são comprovadamente perigosas para o binômio mãe-bebê e não têm respaldo de nenhuma instituição internacional como a OMS, Biblioteca Cochrane, FIGO, RCOG entre tantas outras? Pelo contrário: o Brasil é visto como um país de abusos, de falta de rigor científico, de apatia do setor público e de uma libertinagem médica no que tange à realização de cesarianas.

Ao mesmo tempo em que o Parto Domiciliar é atacado, mesmo provando ser seguro por fontes diversas – e de forma reiterada – a cesariana imposta à população de mulheres desse país não é combatida pelas entidades representativas dos médicos. Se o interesse era “proteger a população”, qual a razão para o silêncio diante da epidemia de cesarianas? Porque se calam as entidades quando a proteção das mulheres esbarra nos interesses corporativos? Afinal, essas entidades se interessam em resguardar a saúde da população, ou apenas salvaguardar benefícios, vantagens e o poder conquistado?

Queremos, nós médicos, um CFM que se coloque ao lado da saúde das mulheres, e não afastado delas, olhando para o próprio umbigo. Atitudes como a do CREMERJ colocam os médicos como vilões da modernidade, atrelados aos interesses menores e pessoais, sem uma visão de saúde ligada à liberdade, assim como às escolhas e recusas informadas.

Por quanto tempo ainda nos manteremos na pré-história da cidadania?

Veja o link abaixo:

CFM nunca advertiu sobre riscos da cesariana

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,entidade-jamais-advertiu-sobre-riscos-de-cesarea-,914802,0.htm

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Cesariana “Humanizada”

O problema de expressões como “cesariana humanizada” ocorre porque existe um conceito no mundo da humanização do nascimento de que tal procedimento cirúrgico não pode ser chamado de “humanizado”, pois lhe falta um elemento essencial na humanização: o protagonismo. Sem o resgate do protagonismo nunca haverá verdadeira humanização. Portanto uma cesariana pode ser “humana”, gentil, digna e respeitosa, mas jamais “humanizada”, pois carece do elemento mais fundamental para contemplar essa definição. Não existe “apendicectomia humanizada”, “histerectomia humanizada”, ou qualquer cirurgia que mereça esse epíteto, pois o protagonismo será sempre do médico, e jamais da paciente. Numa cesariana a mesma coisa. Cesariana é cirurgia obstétrica, não é parto; portanto é um procedimento técnico, regido por protocolos médicos, e nesse contexto as mulheres são necessariamente passivas. O parto, pelo contrário, é ativo. É algo que a mulher faz, e não ao qual é submetida. Somente aí poderão aparecer os elementos constitutivos e definidores da humanização: o protagonismo, a visão integrativa – que inclui os aspectos biológicos, psíquicos, socais, emocionais e espirituais – e a firme vinculação com a medicina baseada em evidências.

Hoje em dia eu acredito que o ativismo só tem sentido quando está focado no bem estar subjetivo daqueles que procuram assistência. Até a biblioteca Cochrane se vacinou contra esse tipo de essencialismo obliterante e homogeneizante ao difundir a Medicina Baseada em Evidências. Creio também que nossas convicções, por mais adequadas e humanistas que sejam, não podem solapar a individualidade. Sou um defensor da liberdade, e acredito mesmo que o individualismo – mesmo com sua tendência egocêntrica – é o único anteparo que temos à barbárie. Com a ideia onipresente de que cada mulher é diferente da outra fica impossível dizer “eu jamais faria isso“. No que concerne a um evento tão complexo como o parto, é injusto condenar mulheres que optam por uma cesariana “sem andar 100 km calçando seus mocassins“, assim como não é adequado julgar um médico que, por alguma razão bem específica realizou uma cesariana a pedido, sem indicações clínicas evidentes. Se isso não nos autoriza a realizar cesarianas à rodo, pelo menos nos mostra que existem exceções, e que algumas vezes elas podem ser justificadas.

A multiplicidade das circunstâncias e a infinidade incontável de histórias constitutivas do sujeito fazem do parto um evento absolutamente único, vinculado às formas mais primitivas de organização psíquica. O nascimento conjuga no mesmo evento morte, vida e sexualidade, no dizer de Holly Richards. Como imaginar, então, que sua manifestação não seja repleta de dilemas únicos e de profunda complexidade? Portanto, a partir do momento em que aceitamos a visão complexa e subjetiva do fenômeno humano, expresso no nascimento, as posturas “fechadas” como “eu sempre” ou “eu nunca” acabam se tornando slogans do passado, anacrônicos, que apenas nos lembram dos ímpetos da juventude, mas que necessitam da  sabedoria que vem com o amadurecimento.

Mesmo que não compactuemos com a barbárie das cesarianas desmedidas, isso não pode significar abandonar as pessoas em função de suas escolhas. Podemos condenar as cesarianas sem indicação clínica, mas não as pessoas que, movidas por traumas, sofrimentos passados ou até desinformação, fazem escolhas que nos parecem inadequadas. Nosso compromisso é em primeiro lugar com aqueles que precisam de nossa ajuda, e em segundo lugar com nossos ideais. Todavia, isso não significa abrir mão da radicalidade de nossas propostas, que se direcionam ao bem estar, à segurança, à liberdade e à autonomia de nossos pacientes. Nada disso; tal posicionamento reforça a ideia de que não nos cabe julgar as motivações recônditas que determinam as escolhas que nossos pacientes fazem. Quando defendemos o arrefecimento das posturas radicais, não o fazemos pela desistência aos ideais. Pelo contrário: é para que os mesmos sonhos não se dissolvam no calor da arrogância ou na insensatez dos extremismos. Todas as ideias renovadoras na humanidade precisam ser bafejadas pela visão humanista, que coloca o Homem como centro de nossas ações. Nossa luta por partos humanizados só pode ter sentido se nos lembrarmos constantemente de que as ideias de nada valem sem as pessoas.    

E só pode ser para elas, em sua característica única, a nossa atenção.

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Rifles e Bisturis

O problema com o uso excessivo da tecnologia obstétrica não depende de pessoas ou profissionais. Nós precisamos nos livrar da ideia anacrônica de “Doutores = maus” e “Parteiras = Anjos”. Isso não é verdadeiro, e todos nós já tivemos a oportunidade de conhecer grandes médicos humanistas e parteiras “não tão maravilhosas e angelicais”. O importante não é apenas mudar as pessoas, mas mudar o sistema, transformar o paradigma, resgatar o parto para as mulheres e deixá-las decidir sobre seus corpos e nascimentos. Com o modelo de assistência ao parto que temos nenhum profissional consegue trabalhar de forma humanizada, da forma como é preconizada pelas grandes instituições. O problema no meu país, o Brasil, é que 90% dos nascimentos são assistidos por médicos, exaustivamente treinados no tratamento de patologias e no emprego de cirurgias. Os médicos, egressos das escolas médicas do meu país, não estão interessados na fisiologia “alargada” do parto, e são, em sua maioria, incapazes de compreender os dilemas psicológicos, emocionais, sociais e espirituais implicados no parto.

Precisamos, evidentemente, de profissionais largamente treinadas na fisiologia do parto: as parteiras. Nós, médicos não fomos ensinados a ver o nascimento como um processo vital; em vez disso, nós o vemos como uma doença, ou um “evento vital potencialmente ameaçador“. A grávida é frequentemente entendida como uma “bomba relógio” prestes a explodir. Normalmente nós obstetras somos bons para resolver problemas no parto (muitos deles criados através de excesso de intervenções), como as pré-eclâmpsias, diabetes, partos obstruídos, etc. Além dos medicamentos, possuímos uma ferramenta maravilhosa para ajudar nos casos que se afastam da fisiologia do processo de nascer: a cesariana. O problema é que uma vez que oferecemos para uma categoria profissional a capacidade de “resolver” o nascimento de forma tecnológica, a sedução para usá-la de maneira abusiva é tremenda. Vivemos na envolvidos pela “mitologia da transcendência tecnológica”, e ainda acreditamos cegamente que seu uso faz mais bem do que mal. Infelizmente, as pesquisas nos mostram que já fomos longe demais.  

A respeito disso, eu me lembrei de uma história interessante sobre o uso de tecnologia. Em uma específica “reserva natural” na África do Sul, os guardas ocupados com a proteção da vida selvagem eram recrutados entre os moradores locais, grupamentos populacionais que viviam próximos da selva por séculos. Certo dia, um guarda da reserva foi morto por um leão, algo muito raro naquela região. Em função dessa fatalidade, o diretor do parque foi acusado de não cuidar adequadamente dos seus funcionários oferecendo-lhes armas para a proteção pessoal. Pressionado pela mídia e pelos outros guardas, ele decidiu comprar um rifle para cada um, como forma de defendê-los de possíveis ataques. “Ok, feito; agora eles estarão protegidos“, ele pensou.  Certo tempo após essa decisão, ele notou que vários animais haviam sido mortos por guardas, em um ritmo nunca visto antes. Logo ele descobriu que, uma vez que eles tinham armas pessoais, qualquer risco, por menor que fosse (como a proximidade de um rinoceronte, ou um leopardo), era suficiente para assustar os trabalhadores do parque, um convite irresistível para usar a sua nova “arma tecnológica”.

Depois de alguns meses, o diretor do parque estava convencido de que as habilidades milenares desenvolvidas para lidar com os animais (o silêncio, o contato visual, os sons, a posição do corpo para encarar os felinos, a “linguagem” utilizada, o respeito pelos seus habitats, etc.) estavam sendo exterminadas por causa do atalho sedutor de “resolver” as ameaças dos animais com tiros de rifle. Os animais estavam perdendo suas vidas por causa da crescente incapacidade de compreender a forma como viviam, e a maneira de conviver com eles. Após essa constatação a decisão da reserva foi radical: os guardas do parque nacional voltaram a receber treinamento intensivo para proteger os animais, e as armas não foram mais permitidas na reserva.

Esta história de um retorno ao modo “natural” de lidar com o encontro com os animais selvagens pode nos oferecer algumas analogias preciosas. Estaremos destruindo a capacidade dos profissionais que atendem o nascimento de ajudar as mulheres em trabalho de parto e nascimento através do uso excessivo e abusivo da arma da cesariana? Para quantas mulheres e bebês ainda vamos recusar o direito de passar pelo processo mágico, transformador e natural do parto em razão do nosso medo e da nossa ignorância a respeito dos intrincados segredos do processo de parir? Estaremos perdendo completamente as nossas habilidades de ajudar mulheres no nascimento de seus filhos seduzidos pelo canto das sereia das tecnológicas?  Eu espero que estejamos no meio de uma grande revolução, reavaliando a desnaturalização do parto, entendendo os problemas decorrentes da hiper medicalização e o drama da alienação Mais ainda, eu sonho com o dia em que as mulheres não serão mais prejudicadas pelo sistema objetualizante que criamos.

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