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Maioridade Penal

Este é um dos capítulos do meu livro: os sistemas de opressão dentro do universo prisional.

Um certo dia, enquanto estava trabalhando como interno do Sistema Prisional, ouvi ruídos vindo do jumbo – uma pequena cela usada para deixar os presos que estão sendo levados para outras partes da prisão. Por curiosidade eu me aproximei da pequena cela perto da sala da supervisão e vi um apenado sentado no banco lateral. Tinha o corpo bastante machucado e um ferimento na boca. Apresentava muitos hematomas, raspões e equimoses pelo corpo, e durante nossa breve conversa ele me relatou que havia tomado uma surra dos companheiros de galeria durante a saída diária para o pátio. Dei a ele o primeiro atendimento e conversamos mais um pouco, para que ele ficasse tranquilo de que nenhum osso estava quebrado. Depois disso, saí do jumbo e voltei para minha sala de trabalho, enquanto o preso continuou aguardando os curativos que seriam feitos. No corredor que leva à biblioteca e o nosso pequeno ambulatório, passei pela salinha da Copa e encontrei meu colega Zé, que terminava de preparar um bolo cheiroso de cenoura para o café da guarda. Comentei com ele o caso do rapaz e Zé, que conhece as regras mais crueis da cadeia, me fez um breve comentário.

– O mundo das galerias é a selva. Manda quem pode, obedece quem quer continuar com os dentes.

Respondi com um movimento de sobrancelhas e um leve contorcer do canto da boca, seguidos de uma observação baseada em fatos que eu havia testemunhado.

– Quando o Estado se afasta, deixando livre a organização da cadeia para os próprios presos, o resultado natural é ver os mais fortes se sobressaírem, assumindo o comando e, por fim, oprimindo os mais frágeis e fracos. A força é a lei suprema nesses contextos. Sempre que vejo a violência explícita tomar forma nas galerias eu penso: imagine o que aconteceria nesse ambiente se houvesse adolescentes de 16 anos convivendo com estes criminosos, precisando se defender de gente muito mais forte, muito mais poderosa e com muito mais experiência. Pense no nível de opressão a que eles estariam submetidos. Seriam escravizados, tratados como servos. Seriam reduzidos a objetos. Sem a força necessária para se defender dos adultos não sobrariam muitas alternativas além da total submissão. Ou então, para aqueles de temperamento arrojado – e por vezes suicida – sobraria a possibilidade de dobrar a aposta e abraçar a brutalidade como estratégia, contrapondo violência com ainda mais violência, oprimindo por meio da força bruta e da vigilância constantes para evitar serem engolidos pelo poder e pela selvageria dos mais velhos.

Zé concordou com minhas observações, mas emendou com a sabedoria de quem conhecia o monstro e suas entranhas.

– Só quem não conhece o mundo da cadeia se atreve a falar de diminuição da maioridade penal. Apenas aqueles que já entraram numa prisão serão capazes de entender quão danoso é para um adolescente o convívio com adultos nesse ambiente tóxico de confronto e ferocidade. Malditos sejam os que pretendem trazer crianças para cá.

Verdade, Zé. Uma triste verdade.

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Penas desumanas

Ela não vai comemorar o dia da mulher com sua família. Quem acha justo que uma mãe fique presa, afastada dos filhos pequenos, pelo crime “hediondo” de escrever com batom na estátua da Deusa Têmis, é porque vendeu sua alma ao fanatismo punitivista há muito tempo. Permitir que um tirano como Alexandre de Morais faça justiça conforme o seu humor, sem observar um preceito básico do direito, a proporcionalidade da pena, é jogar fora séculos de avanços civilizatórios. Um socialista verdadeiro não pode aceitar que o poder desmedido de um magistrado não sujeito ao voto esteja acima dos demais.

Pergunto: que tipo de “ato simbólico” – como manchar de batom uma estátua – é tão grave a ponto de fazer uma mãe ser afastada dos filhos e ficar presa, podendo ser condenada a 17 anos de prisão? Essas prisões estapafúrdias, grotescas, insanas e desumanas parecem a selva punitivista americana, na qual ainda existem penas capitais e onde um sujeito pode ser condenado a 10 anos de prisão por roubar um pedaço de pizza. E isso num país com uma população carcerária de quase 2 milhões de apenados.

Ou pior ainda: estas decisões parecem o sistema penal corrupto de Israel, onde lutar pela sua terra e pelo seu povo pode colocá-lo numa masmorra pela vida inteira. Que tipo de sociedade degenerada acredita que a insatisfação crescente do povo pela ocupação do seu país ou pela política das democracias burguesas pode ser solucionada com penas draconianas, pesadas, desumanas – e, portanto, injustas? Pelo contrário: a indignação do povo só aumenta com esse tipo de crueldade. Infelizmente quem se mobiliza até então é a direita fascista, porque a esquerda está inativa, paralisada pela ilusão de que Alexandre está ao lado da “democracia”. Apoiar esta insanidade ainda vai nos levar a uma tragédia.

Muitas manifestações da esquerda carnavalesca e identitária, favoráveis à prisão desta mulher, são copia-e-cola das manifestações da direita sobre a prisão de Lula, Delúbio, Zé Dirceu, Genoíno e José Kobori. Idênticas. “Quando roubou o sítio em Atibaia não pensou na família, né”? Ou seja: a sujeira jurídica do Impeachment, da prisão de Lula e a imundície da Lava Jato não nos ofereceram suficientes lições para desconfiar das sentenças da justiça burguesa e das decisões do supremo (que aceitou o impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma e manteve Lula preso de forma ilegal). Continuamos atacando personagens como Bolsonaro sem perceber que ele não é a doença; ele é o sintoma. A doença verdadeira é a tirania e a ditadura da burguesia, muito bem representadas por vampiros como Alexandre de Morais, indicado pelo vampiro-Mor Michel Temer, golpista maior dos nossos tempos.

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Inferno

Do manual de impropérios criativos:

“Não lhe mando para o inferno apenas porque sua presença lá seria tão tóxica que faria até despenar as almas penadas”. (Admoeser Rufus)

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Suicídio na Classe Médica

suicidio

Enquanto escrevo essas palavras podemos mentalmente nos despedir de mais um médico que tirou – em algum lugar do planeta – sua própria vida. Sim, em média um médico por dia se suicida no mundo. O estresse de lidar com o “twilight” entre a vida e a morte, o medo de ver sua carreira destruída por um erro ou um mau resultado, a perseguição perversa e vingativa de pacientes e colegas e a pressão por parte de uma corporação mais interessada em poderes e dinheiro… acabam, com o tempo, destruindo o que existe de humano nos médicos.

Os sobreviventes muitas vezes se refugiam no cinismo e no desinteresse. A morte das paixões muitas vezes ocupa o lugar da morte do corpo, mas transforma estes homens e mulheres em zumbis que olham sofregamente para o relógio aguardando a aposentadoria que lhes oferece, pelo menos, um pouco de paz.

Quatro centenas de médicos no mundo dizem “chega” à própria vida todos os anos. Perdi alguns colegas desta forma, alguns da minha especialidade, mas o suicídio de pessoas que deveriam ser o primeiro apoio a quem pensa em tirar a própria vida mostra que estamos falhando. E estamos matando o que existe de transcendente na medicina. Humanizar a medicina é humanizar também o trabalho de quem cuida. O modelo de “crime e castigo”, punitivo e cruel, anacrônico e inútil, é um dos que mais contribuem com tal tragédia.

Quem sabe no futuro possamos mudar a mentalidade para uma visão mais acolhedora e curativa, ao invés de investir na abordagem mutilatória que aplicamos nos profissionais da medicina, a qual arranca deles o que de mais nobre e justo podem oferecer à sociedade.

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