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Epílogo

Em 1996 minha mãe visitou Paris pela última vez. Meu pai não parecia tão entusiasmado com esta viagem, mas ela sabia que seria sua última oportunidade de visitar a cidade dos seus devaneios de menina. Alguns anos depois meu pai perceberia os primeiros sinais da doença degenerativa que, por fim, a levaria. Tão logo voltaram para casa e meu pai me disse que esta havia sido a derradeira viagem, mas só muito tempo depois entendi a razão.

Desta vez meu pai resolveu alugar um pequeno apartamento onde ficaram por 3 meses. Neste período minha mãe escrevia cartas e as mandava para os filhos, netos e amigos. Era uma época anterior à internet quando a única forma de saber como estavam era aguardar as mensagens trazidas pelo carteiro.

Agora com tempo e energia, minha mãe percorreu a cidade inteira a pé. Desenhou em um mapa os trechos percorridos com meu pai e quando retornou ao Brasil me mostrou os rabiscos orgulhosa. Talvez em uma outra vida eu possa estar ao seu lado na “sua” cidade e poderei sentir a real emoção transmitida por ela.

Aqui está um dos cartões postais que ela enviou para sua amiga Marli, com quem estabeleceu uma relação de mãe para filha por muitos anos. Pode-se ver, brotando da caligrafia linda e com letras desenhadas, a emoção de estar na Paris dos seus sonhos. E quando dizia “minha cidade” ela estava realmente falando sério…

Sei que essa lembrança chegará a ela no mundo espiritual, mas não agora. Por certo que a esta hora estará olhando as vitrines da Avenue des Champs-Élysées.

A bientôt, maman…

Aqui e aqui estão dois outros posts que escrevi sobre a ligação de minha mãe com a França.

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Paris

Em 1964, alguns meses antes do golpe militar, meu pai fez uma viagem para Paris para estudar em uma Instituição Francesa de distribuição de energia, onde passaria seis meses. Na época eu tinha quatro anos de idade e os poucos flashes que me lembro são referentes às insistentes perguntas que fazia à minha vó ao estilo “falta muito para o meu pai voltar?”; seis meses para uma criança são décadas para um adulto. Esse período morando na casa da minha vó teve, por seu turno, um impacto muito profundo no resto da minha vida.

Nos anos 60 uma viagem internacional para a Europa era algo reservado aos muito ricos, ou àqueles aquinhoados com viagens a trabalho e intercâmbio, como meu pai. Quando meu pai retornou foi bombardeado por nossa curiosidade e contou a todos nós suas histórias de Paris, seu povo, sua língua, as alamedas, Turrefél, o Sena, o Louvre, e as imagens que criei desta cidade na minha mente remetiam a algo paradisíaco, um lugar que pensava jamais fosse possível conhecer.

Meu pai dava risadas diante da minha angústia. “Haverá um tempo em que visitar Paris será tão simples como ir a Florianópolis”, dizia ele. Não estava muito longe da verdade.

Minha mãe, por seu turno, desenvolveu uma espécie de “francofilia“. Passou a estudar francês, andava pela casa com um “Petit Robert” embaixo do braço estudando a cidade, as falas, as expressões. Seu sonho dourado passou ser visitar a cidade que só conhecia pelas imagens nos livros e pelos relatos do meu pai.

Depois de 10 anos meu pai foi convidado para um novo curso de atualização. Desta vez seria possível, apesar do seu salário de funcionário da Central Elétrica do Estado, levar a minha mãe para a segunda etapa da viagem, quando ele já teria terminado os estudos e contatos.

Essa foi a grande e memorável viagem romântica da minha mãe. Em 1975 ela embarcou no avião da falecida Varig para passar um mês em Paris com o meu pai, provavelmente o sonho de uma geração inteira de mulheres que dariam tudo para conhecer a “cidade luz” ao lado do amor de sua vida.

Fui ao aeroporto me despedir da minha mãe, e pedi a ela que, quando sentasse em sua poltrona, pegasse um lenço branco e nos abanasse através do vidro da janela. Foi o que ela fez, e por um estranho imbricamento de significados, significantes, emoções e percepções tudo o que eu me lembro é ver o lenço no vidro e mentalmente prometer a ela que estudaria medicina. Foi naquele instante que a decisão foi tomada.

Agora Zeza assiste “Emily vai à Paris” e me diz os lugares que quer visitar. Não creio que será possível, mas é bom saber que, como minha mãe, ela também se encanta com essa cidade.

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A Criação das Avós

Existem muitas teorias para explicar a existência da menopausa. Afinal, essa é uma dúvida válida: por que poderiam os homens manter sua capacidade reprodutiva até o fim da vida enquanto as mulheres a teriam até meados da sexta década? Por que oferecer aos homens uma possibilidade maior de disseminar seus genes do que às mulheres? Por que algo tão caro à vida como a reprodução é abruptamente interrompido nas fêmeas humanas – mas não nos machos?

A melhor resposta que eu conheço se chama “fator avó”, que conheci pela primeira vez no livro “Birth” da paleoantropóloga americana Wenda Trevathan. Esse processo de “produção de avós” supõe que as mulheres entram na menopausa para, liberadas do peso das próprias gestações e maternagens, poderem se dedicar à sobrevivência dos seus netos e, assim, da própria comunidade onde estão inseridas. Como esse cuidado era uma tarefa quase exclusiva das mulheres, interromper sua capacidade reprodutiva facilitaria esta nova função social, deixando-as livres dos cuidados com seus próprios filhos para dedicarem-se à geração seguinte.

(revi)Vendo a ação das avós nos cuidados intensivo junto aos netos – e de forma muito próxima – pude perceber com clareza como esta tarefa é complexa, estafante e só pode ser realizada com uma quantidade enorme de habilidades e capacidades adquiridas por aprendizado não formal, que as mulheres aprendem no transcurso de suas vidas e pelas suas próprias experiências prévias como mães, tias, irmãs e filhas. A quantidade de informações, ideias, saberes e conhecimentos de várias áreas (puericultura, amamentação, nutrição, psicologia, suporte emocional, etc.) é vasto e impressionante, e não poderia ser diferente, já que se debruça sobre habilidades que garantem sobrevivência de seres tão frágeis quanto os recém-nascidos.

Testemunhando a riqueza dessa relação avó-bebê é possível, com um pouco de imaginação, entender que a presença de uma avó ajudando no cuidado dos netos pode significar a diferença entre a vida e a morte em contextos de miséria, guerra, fome aguda, desastres naturais, etc. Se o surgimento da menopausa realmente ocorreu para a criação de avós, essa passagem na história pessoal das mulheres precisa ser valorizada, ritualizada e homenageada, pois é uma das estratégias mais eficientes de sobrevivência produzida pela cultura humana.

Às vovós todo o meu respeito e minha reverência. Quem ainda tem a bênção de ter avós ao seu lado, pense nelas com carinho e reconheça o quanto foram – e são – fundamentais na sua vida.

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Enfermeiras Padrão

Quando eu comecei a trabalhar em hospitais a Enfermeira Padrão era a enfermeira diplomada, com curso superior. Naquele tempo ainda existiam as auxiliares de enfermagem, que eram pessoas sem qualquer formação, apenas prática. No hospital da periferia de Porto Alegre onde trabalhei por 4 anos, no início dos anos 90, ainda havia auxiliares de enfermagem que atendiam os partos, quando o convênio pagava pouco ou para deixar o médico dormir. Eram mulheres que entraram no hospital como auxiliares de limpeza e foram “progredindo na carreira”. Tornaram-se, muitas delas, “parteiras” cujo aprendizado se deu no auxílio aos médicos e junto às outras parteiras mais experientes. Seriam “parteiras tradicionais urbanas”, por seguirem uma “tradição” de assistência e serem oriundas do povo, e não das escolas ou da Academia.

Algumas delas eram espertas e muito hábeis. Foi com uma dessas auxiliares que aprendi na prática a ação da água no trabalho de parto. Mal as pacientes começavam a esboçar algum tipo de desespero e ela as colocava debaixo do chuveiro quente. “Vamos secar a caixa d’água do hospital, doutor” dizia ela dando risadas.

Entretanto, apesar de uma certa sabedoria oriunda da experiência, seu conhecimento de partos era limitado às práticas violentas que testemunhavam cotidianamente. Assim, a assistência que davam mimetizava as más condutas que observavam no procedimento médico. Seus partos eram na posição de litotomia (pacientes deitadas de costas na maca), faziam episiotomias, kristeller, gritos, comandos, luzes fortes ligadas, corte prematuro do cordão, etc e tudo aquilo que há 30 anos já sabíamos ser inadequado. Elas eram, mesmo sem o saber, o espelho justo de uma assistência indigna às mulheres.

Quando cheguei no plantão resolvi (como sempre) botar o pé na porta. Decidi no primeiro dia que no meu plantão os partos seriam todos na posição de cócoras (como padrão), cesarianas seriam marcadas com indicação clara (o que produzia ódio nos anestesistas que eram obrigados a comparecer de madrugada ao hospital) e decidi abolir por completo as episiotomias. Também o bebê seria colocado no colo da mãe após o nascimento.

É evidente que minha passagem pelo hospital foi marcada por perseguições. Numa instituição com 45% de cesarianas, e que atendia quase exclusivamente SUS, ter um médico que tinha 10% de intervenções gerava inconformidade e resistência.

Entretanto, a raiva dos médicos era compreensível. Sabia que isso abalava seu conjunto de crenças e, em especial, questionava seu poder absoluto sobre o corpo das mulheres. Dizer para uma mulher “fique na posição que desejar” é um tapa na onipotência médica, e isso não poderia ficar impune.

Contudo, eu não esperava a contrariedade das “parteiras”, as auxiliares diretas do meu trabalho. Sim, elas também não gostavam de ver um médico agindo diferente da cartilha que elas mesmas haviam aprendido. O que eu trazia de novo as incomodava e suspeito que isso tem a ver com fidelidade e dívida amorosa.

Acreditar que eu estava certo seria dar as costas aos seus antigos professores e tudo que eles lhes ensinaram com sua prática e seu exemplo. Seria trair seus mestres com a “velha novidade” que eu trazia. Isso parecia grave demais para elas. Era preferível continuar com os mesmos procedimentos violentos contra as gestantes – mulheres como elas – e manterem-se fiéis aos seus orientadores e referenciais do que se arriscar e fugir com o jovem aventureiro de ideias renovadoras. Mudar suas condutas seria uma crítica contundente e indisfarçável aos seus superiores.

“Se isso que o senhor faz fosse o certo todos estariam fazendo, seu doutorzinho do passo certo”, disse-me uma delas. E como não entender o medo da novidade, que carregava o risco de colocar por terra tudo que haviam aprendido a duras penas nos últimos 30 anos?

Sobrou da experiência uma válida reflexão: quem ousa mudar um paradigma sempre carrega essa carga: a incompreensão e a resistência serão os únicos resultados certos e obrigatórios. Mas, como eu aprendi muito cedo, é preciso agir por um imperativo ético, jamais pela promessa de sucesso ou para ser, finalmente, aceito e compreendido.

Também restou o agradecimento àquelas mulheres simples de onde retirei muitos ensinamentos válidos para toda a vida.

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Cultura da dor

Nossa cultura sempre tenta associar parto a dor, sofrimento e angústia. Essa é uma forma fácil de apavorar as mulheres diante de sua própria fisiologia. Quanto mais apavorada, mais fácil lhe vender a alienação do cuidado médico. Mulheres com medo são presas fáceis de uma cultura de afastamento, onde são controladas e destituídas de autonomia.

Não compare parto com sofrimento; compare com êxtase.

Uma conhecida minha foi ao Cabo Kennedy assistir o lançamento de um foguete da NASA. Quando o descreveu para mim disse assim: “Foi espetacular, maravilhoso e lindo. Parecia um…. parto”.

Achei justo. Aliás, escrever pode ser difícil e ao mesmo tempo prazeroso. Como um parto.

Uma vez fui dar aula na turma da Odontologia e um aluno desculpou-se por ter chegado atrasado informando que ficou preso no consultório por causa da extração de um siso que mais pareceu “um parto”. Disse a ele que não era justo comparar um ato tão prazeroso como parir uma criança com o ato brutal de arrancar um dente. Além disso, parto é algo que uma mulher faz, e um dente é algo que arrancam dela.

Autonomia é o conceito chave para dar sentido às dores de um nascimento.

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Destino

Durante muitos anos pedi ajuda ao ecografista que trabalhava no mesmo prédio do meu consultório para casos complicados e urgentes. Ele era muito bom e tinha um especial talento para adivinhar o peso dos bebês. Tínhamos diferenças políticas absolutamente antagônicas, o que não me impedia de admirar a paixão que tinha por sua arte.

Diante da necessidade da minha nora fazer uma ecografia pedi que o procurasse, por confiar em seu talento. Ela ligou para lá, mas não conseguiu marcar a ultrassonografia com este colega pois me informou que ele faleceu há 3 anos.

Liguei para sua clínica e falei com sua esposa, atual coordenadora. Ela disse que foi traumatismo craniano, num acidente tolo de motocicleta, sua paixão.

Tinha a minha idade. Um bom colega e um excelente profissional.

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Desfile

Quando fiz o curso de preparação para os oficiais R2 da aeronáutica, há mais de 3 décadas, eu fui o segundo colocado da turma. O primeiro lugar ficou com um anestesista que gabaritou a prova e que desejava seguir a carreira militar. Já eu queria apenas um emprego e um lugar para colocar em prática algumas ideias revolucionárias sobre parto normal fisiológico. Entretanto, não há como negar que essa condição de segundo mais “antigo” (graduado) da turma me garantia uma série de pequenas prerrogativas, mas que as vezes eram muito bem vindas. Eu nunca quis ser militar e rejeitei todos os convites para ingressar na vida militar ativa. Sempre tive com o militarismo uma postura critica e desconfortável. A ideia de hierarquia e disciplina para um sujeito caótico como eu, e que tem profunda aversão à prepotência, tornava a minha estada numa instalação militar um exercício diário de adaptação forçada. lembro bem que não era fácil.

Lembrei hoje de uma passagem quando estávamos nos aproximando do desfile de 7 de setembro e quando percebi, com absoluto horror, que me caberia – pela escala – comandar o pelotão de saúde do hospital durante o desfile. Entrei em pânico. Comandar um batalhão demanda conhecer a ritualística dos toques de corneta e dos comandos para os soldados e sargentos da tropa. Precisa ainda outro elemento: coordenação motora, outro atributo que não veio no meu pacote vital básico. Que fazer? Eu certamente cometeria uma série de pequenos vexames durante o desfile. Pensei em ficar doente, provocar um acidente, me internar no hospital por diarreia aguda. Estava sem saída. Foi quando passei pelo saguão do prédio do hospital e escutei a conversa de dois coronéis a respeito do suporte de ambulâncias para o desfile.

– Precisamos de alguém da equipe médica que se “voluntarie” para ficar ao lado da ambulância durante o desfile. Mas, já sei de antemão ninguém vai querer pegar essa bomba, porque precisa ficar até o fim do desfile.

Bastou escutar esse fragmento de conversa para imediatamente me apresentar ao coronel.

– Coronel, eu me voluntario para ficar ao lado da ambulância. Posso ajudar, pois sei que é uma posição que as pessoas evitam. Eu não me importo, ficarei feliz em ajudar.

– Então já coloco agora seu nome na convocação. Obrigado, tenente.

Saí do saguão do comando exultante e ainda ouvi o coronel falando para seu colega “É desse tipo de oficial que precisamos. Nem foi preciso mandar, pois ele se apresentou para ajudar”. No dia seguinte, vi afixada a escala para o desfile, e notei meu nome riscado do comando da tropa e colocado como o responsável pela ambulância. Pude ainda, no dia do desfile, desfrutar da sensação de ser uma estrela, vendo os familiares dos soldados pedirem para tirar fotografias comigo. Eu sinto culpa até hoje por ter dado àquelas pessoas a falsa ideia de que eu estava tentando ajudar quando, em verdade, estava agindo pelo mais egoístico dos motivos. Tenho certeza que os deuses responsáveis pelos desfiles militares me entenderão e me deixarão entrar marchando – descoordenadamente – no céu.

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Borboletas

Sonhei que estava em uma aula com várias moças muito jovens e alegres, que conversavam entre si alegremente enquanto eu me mantinha quieto. Um certo momento entra uma senhora mais velha, mas muito “faceira”. Apresenta-se, fala algumas poucas palavras, apresenta-se como a professora e diante da turma abre uma caixa de onde saem inúmeras borboletas multicoloridas.

“Será nossa aula de “borboletologia“, disse ela. Tirei do bolso um papel-sonho e anotei “Confirmar o nome ao acordar”. Foi o que fiz, e descobri que o nome da ciência que estuda as borboletas é a “lepidopterologia“, um ramo da entomologia.

Uma das borboletas, que mais parecia uma planta de jardim disfarçada, pousou bem à minha frente. Enquanto observava os detalhes curiosos de suas asas de matizes multicores a professora se aproximou de mim.

“Por que está cara tão fechada?”, disse ela, olhando bem em meus olhos com sua reprovação amorosa. “Veja quantas borboletas!!”. Só então me dei conta da tensão do meu rosto e da minha incapacidade de sorrir diante da surpresa que nos foi oferecida. Olhei ao redor e pude ver todas as minhas colegas alegremente correndo atrás delas com seus smartphones engatilhados e suas risadas fáceis.

Notei que as borboletas eram “camaleônicas” e se transmutavam, mudando o formato das asas e suas cores na medida em que falávamos com elas, isso tudo diante de nossos olhos incrédulos.

A professora tinha razão; não fazia sentido algum ser rabugento diante de tanta e tão efusiva beleza.

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No Internato Feminino

Durante o tempo em que fui estudante universitário trabalhei como “interno” em um Pronto Socorro da minha cidade. A gente atuava como auxiliar de médico, aplicando injeções, levando oxigênio nas casas, fazendo a burocracia dos convênios, dirigindo ambulâncias e verificando sinais vitais. Para um menino de 19 anos era a glória. Meu pai me chamava de “padioleiro“, “maleteiro” (pela enorme maleta de medicações que carregávamos) ou “maqueiro“. Eu não me importava; para mim ajudar no atendimento médico era uma enorme diversão.

Certa noite fomos chamados a um internato feminino. Era um prédio antigo, próximo da Estaca Mórmon, controlado pelas freiras. Durante a festa de recepção das novas internas uma das veteranas se excedeu e bebeu demais. “Caipirinha” disseram suas colegas. Fomos até seu quarto onde foi fácil constatar o coma alcoólico. Sua respiração era normal, batimentos cardíacos idem, mas estava “apagada” em razão da alcoolemia. O médico presente prontamente iniciou as orientações e o tratamento.

Entretanto, achei curioso que no criado mudo ao lado da cama estava um pacote aberto de “Açúcar União”, e havia açúcar espalhado pela cama, seus cabelos, nariz, boca e até ouvidos. Perguntei a uma colega sua a razão de tanto açúcar espalhado.

“Ah, é por causa da bebedeira. Quando vimos que ela estava ficando tonta começamos a dar grandes quantidades de glicose para ela comer. Sei que é assim que se cura bebedeira nos atendimentos de Pronto Socorro, certo? Quanto tempo vai demorar para ela melhorar?”

Puxei a menina para o lado e expliquei que, em média, o corpo precisa de 60 minutos para metabolizar um copo de cerveja ou cada uma das doses de uma bebida destilada, como vodka ou whisky. Ou seja, se ela tivesse ingerido 5 doses, haveria álcool circulando pelo seus corpo por 5 horas, mas sabemos que os efeitos do álcool variam de acordo com gênero, raça, o peso do sujeito e até mesmo se ela comeu algo ou não, pois o estômago vazio absorve mais rápido a bebida. Mulheres e pessoas asiáticas têm menos enzimas para a metabolização do álcool e por esta razão são mais suscetíveis aos efeitos da bebida. Aquelas que são maiores (tamanho ou peso) podem ter mais resistência.

Ela concordava e balançava a cabeça. Continuei.

“Contudo, dar açúcar para uma pessoa inconsciente não faz sentido algum e pode piorar o caso. Você deve ter visto programas na TV ou relatos de pessoas que foram ao hospital e fizeram injeções de glicose, mas não é a mesma coisa que dar açúcar para uma menina inconsciente comer. Entendo sua boa vontade, mas tome cuidado.

Ela concordou e explicou de forma muito sucinta: “Diante da situação achei que alguma coisa, qualquer coisa, deveria ser feita”.

Lembrando hoje desse fato percebo que este é ainda um dos grandes problemas da medicina: “o imperativo positivo”. Criamos a ilusão de que sempre “fazer alguma coisa” é melhor do que não fazer nada. Temos a angústia positiva, o impulso de agir, mesmo quando NADA comprova que nossa ação tem sentido ou pode ajudar.

“Pelo menos fiz alguma coisa…”, pensamos.

O grande problema é que boa parte das vezes, o fazer algo pode ser tornar a pior tragédia, a qual poderia ser evitada se fosse possível controlar nosso medo de não fazer nada e aguardar.

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Nostalgia

O carro recheado de badulaques que sacodem a cada curva afoita. As conversas animadas, a direção mais apressada, a noite e sua brisa, o rádio ligado na Continental – ou na Cultura – onde gritam Fagner, Sandra Sá e os Love Songs are back again. Os barulhos da noite que entram pela fresta do vidro misturados com os odores da madrugada. No ar a mesma excitação que nos embalou por mais de duas décadas.

Parece um encontro de escola secundária, todo mundo mais velho, mais tranquilo e mais calejado. Os cabelos caíram ou se tingiram de neve, abaixar-se para ouvir os sons da vida tornou-se mais difícil, mas para quem viveu neste mundo e sorveu desta energia sabe que esta é a experiência mais espetacular pela qual alguém pode passar. O tempo se contempla, e o relógio da vida dá mais uma volta.

Que a Deusa Álea esteja conosco. Seja bem vinda, Ava!!!

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