Depois de 80 dias internado, em quase todos eles incapaz de se comunicar, meu pai Maurice Herbert Jones descansou hoje, dia 20 de junho, por volta das 18h. Perder o pai – mesmo para um velho como eu – é um processo muito complexo e único. Só agora, depois de tantos anos, eu consigo sentir por completo o que as pessoas me descreviam de sua dor e o significado pleno dessa tristeza.
Falar do pai que acabou de morrer é sempre um risco. Os obituários transitam entre a idealização e as manifestações puramente emocionais e – compreensivelmente – subjetivas. Pretendo me afastar, se possível, dessas narrativas. Prefiro não olhar para o meu pai como o “herói infalível” e desprovido de defeitos. Ele era um homem de sua época, com suas falhas e virtudes, mas soube deixar sua mensagem de racionalidade e coragem. Se posso dizer algo sobre ele, falo apenas que foi o norte que guiou toda a minha vida. Sei que tudo o que fiz foi para, após feito, mostrar a ele e esperar sua aprovação. Sua falta agora retira de mim a bússola, o olhar cuja direção apontava o caminho certo a seguir.
Quando eu ainda era um adolescente ele me contou um sonho que teve, cujo sentido serve a mim também como a melhor imagem para o profundo significado de um pai. Dizia ele que neste sonho seu pai – Samuel Jones, meu avô – ficou impossibilitado de conduzir uma sessão da maçonaria, onde era um reconhecido “Grande Mestre”. Os seus companheiros, diante da súbita falta do líder Samuel, imediatamente se voltaram ao seu filho dizendo “Na falta de seu pai, caberá a você tomar seu lugar. Faça a palestra e conduza os ritos”.
Em seu sonho, meu pai tremia de angústia e medo. “Não poderei jamais tomar o lugar dele. Não posso, não sei como agir; tenho medo”. Entretanto, premido pela pressão de seus pares maçons, assim como pela vergonha de recuar, aproximou-se do púlpito e fez a palestra que esperavam dele.
Ao finalizar temia ser criticado pela má condução dos trabalhos. Liderou o restante dos rituais e deu por encerrada a sessão. Ao descer do púlpito, seus companheiros maçons dele se aproximaram e o cumprimentaram pela fala vigorosa e centrada. Enquanto recebia os cumprimentos vislumbrou a figura de seu pai que, apesar de doente, veio assistir sua palestra. Este o abraçou e cumprimentou, sem muitas palavras, mas com um olhar carregado de orgulho. Meu pai contava da sensação de alívio e genuína felicidade que sentiu no sonho, em especial porque “não envergonhou seu pai”, como tanto temia.
Essa história é para mim a que melhor descreve a conexão que nos liga a figura de um pai. Para ele oferecemos nossas conquistas, e dele esperamos a compreensão pelos nossos fracassos e falhas. Este fragmento de sonho mostra que, mesmo em épocas aparentemente distantes no tempo, somos constituídos dos mesmos dramas psíquicos que guiaram centenas de gerações antes da nossa.
Eu penso que para homenagear um pai basta que se reconheça seu valor e sua trajetória. Meu pai deixou para seus filhos a mensagem de que a fidelidade aos princípios e ideais tem mais valor do que qualquer vantagem econômica. Para ele sempre valeu a máxima “Sê fiel a ti mesmo” e sua vida inteira foi guiada por este princípio.
Durante muitos anos ele me falava da curiosidade sobre o mundo espiritual. Dizia isso em especial quando a velhice chegou, e principalmente quando minha mãe faleceu há pouco mais de um ano. A saudade dela desempenhou um papel preponderante em seu último ano de vida, e por isso tenho certeza que nesse instante, quando ele recém chega no plano espiritual, minha mãe já está a fazer o que tanto gostava: está lá, ao seu lado, carinhosamente enroscada ao seu companheiro de uma vida inteira, aguardando que ele acorde da penosa travessia que acabou de empreender.
Vá em paz meu pai. Obrigado pelas seis décadas de debates, lições, exemplos, escutas e carinho. Em breve estarei aí ao seu lado e teremos, enfim, a eternidade para colocar nossas conversas em dia.
“Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê”.
Consigo enxergar essa frase escrita com a inconfundível letra desenhada de minha mãe. Seu sentido era dar a devida importância ao exemplo de vida, atos e palavras cotidianas, que têm o enorme poder de influenciar os nossos semelhantes.
Lembro de uma curta caminhada com meu pai pelo centro da cidade aos 5 anos de idade quando lhe perguntei porque não comprava vários bilhetes coloridos de loteria. “Podia a gente acertar o número e ficar rico”, disse-lhe eu na sintaxe infantil, pensando nas riquezas possíveis para um garoto daquela época – carrinhos, gibis e balas. Sem diminuir o passo ele respondeu: “Nenhuma riqueza pode vir se não for pelo trabalho”. Ele não notou – e por certo não lembra – mas ali fazia brotar a semente de um pequeno coração comunista.
De minhas brevíssimas conversas com Michel Odent, Marsden Wagner, Moysés Paciornik, John Kennell e Robbie Davis-Floyd (esta última não tão breves) retirei fragmentos que a eles não passaram de palavras, as quais sequer se detiveram a reter na memória, mas para mim significaram enormes setas de luz a indicar o caminho por onde seguir. Por esses pedaços de frases devo nada menos que a minha eterna devoção.
Digo isso porque ontem à noite uma moça me escreveu contando sua história de transformação através dos partos. Não me conhecia pessoalmente, mas leu muito o que postei nos últimos 20 anos e criou coragem (“o vinho ajudou”, disse ela) de escrever diretamente. Partindo de uma cesariana mal indicada chegou ao seu parto vaginal como “turning point” e ganhou ainda de bônus a bênção de ajudar uma vizinha a parir antes da chegada do SAMU. Agradeceu a mim por tê-la inspirado.
A frase que minha mãe escreveu e colocou na parede continua hoje plena de sentido. Hoje podemos influenciar pessoas do outro lado do mundo e de forma instantânea, sendo nossa experiência o evangelho que elas consultam diante dos seus dilemas. Nossos atos – e o que escrevemos – são adubo para o solo fértil de quem deseja aprender. O mundo de agora nos oportuniza encontros que jamais seriam possíveis há poucas décadas, o que só aumenta a responsabilidade que todos carregamos.
Olhados de cima, esses encontros são como linhas de luz a tecer a teia luminosa da vida por onde circulamos. As pontes luminescentes que são lançadas – para o bem e para o mal – acabam nos alcançando e sendo amplificadas. Que sejamos fiéis portadores do brilho que recebemos graciosamente da vida.
Em um seminário de fisiologia há 35 anos passados o nosso velho professor se dirigiu aos últimos 6 alunos que demoravam a sair da sala depois de encerrada a aula.
– Deixo a vocês um breve conselho: depois de se formarem em nenhuma hipótese façam greve.
Caminhando em direção ao bar pelos corredores da velha faculdade de Medicina debatemos o conselho do mestre. Metade de nós pensava que ele se referia a uma questão ética sobre a medicina e a saúde. Não caberia àqueles que cuidam do mais nobre objetivo – a vida e sua manutenção – paralisar o seu ofício por razões corporativas. Não seria moralmente lícito impedir o acesso à cura ou ao alívio dos sofrimentos apenas por dinheiro. “Está no código e no juramento!!”, diziam. A outra metade achava que ele se referia à inutilidade da greve como mecanismo de pressão em uma área repleta de representantes das elites e da burguesia diplomada. “Greve de janotinhas engravatados?”, diziam os outros, fazendo muxoxo.
Na semana seguinte aguardei o fim da aula e, não aguentando mais a dúvida, resolvi perguntar ao professor a razão para o seu rechaço aos movimentos paredistas na área da saúde. Expliquei a ele que metade de nós achava que sua manifestação se referia a uma questão ética e outra metade à dificuldade de mobilizar e manter uma greve com representantes da burguesia. Uma disputa, em última análise, entre o idealismo e o materialismo.
Diante da minha pergunta inusitada e fora do escopo da aula recém terminada, o velho mestre soltou uma risada e explicou.
– Nenhuma das duas. A razão é meramente estratégica.
– Como assim? perguntei…
– Ora, meu caro, quando os médicos entram em greve os pacientes melhoram. Quer propaganda pior do que esta?
Este foi meu primeiro contato com a Medicina Quaternária, muitos anos antes de se tornar modinha.
Há poucas semanas você partiu ainda antes de chegar. Theo, filho de Lucas e Ariane, com 30 semanas de gestação. Como disse meu irmão Roger, “um bisneto que se foi antes do seu bisavô”. Sem explicações e sem avisos, apenas fechou seus olhinhos enquanto ainda aguardava em silêncio, imerso no mundo aquático, quentinho e róseo que o circundava.
De sua breve passagem, algumas descobertas. A primeira é de que o valor da vida está em sua fragilidade. Como pétala, quanto mais delicada mais rara sua beleza. Para além disso, o aprendizado de que a dor, por mais violenta e dilacerante, sempre carrega consigo várias lições . No seu caso Theo, você nos ensinou o valor da comunhão, do suporte, da família, da vida e do perdão. Também nos mostrou a importância da resiliência e da aceitação, assim como nos lembrou que juntos somos mais fortes e capazes de suportar mesmo as perdas mais dolorosas.
Theo, você seguiu seu caminho e à nós resta a saudade de tudo que não vivemos ao seu lado: as brincadeiras com seus irmãos, primos e amigos, a vida na Comuna, o amor dos seus pais e tios, os vovôs carecas e as avós doces e carinhosas. Todavia, sabemos que você está em algum lugar imaginando quando poderá voltar. Quiçá antes do que pensamos…
Vá Theo. Siga o seu caminho. Curta as nuvens, as estrelas e o céu azul. Brinque com os pássaros e a chuva. Estará para todo o sempre vivendo em nossos corações.
* Fotos da cerimônia de despedida com a família mais próxima na Comuna *
Passei boa parte da minha vida escutando a expressão “pensamento de pobre” para definir pessoas que tinham o costume de economizar em bagatelas, como comprar roupas de qualidade menor, pedir carona, comprar em menor quantidade ou simplesmente que deixavam de consumir para não gastar seu dinheiro.
Evidentemente, como em qualquer ação humana, essa postura é sempre acompanhada de infinitas racionalizações. Ora dizem que a marca genérica é igual à oficial, que não vale a pena gastar com supérfluos ou que não acham justo gastar tanto com algo que é possível viver sem. Quem critica este “Pensamento de pobre” afirma que se trata de um defeito de mentes constritas; um paraefeito da menos-valia. Apontam que esse pensamento constrói atitudes diminutas, tímidas, pequenas em sua amplitude, e que a conduta justa para uma alma ambiciosa é pensar sempre com grandiosidade e valor.
“Vou me dar de presente porque mereço“, falam aqueles cujas atitudes são opostas ao pensamento de pobre. Dizem que as coisas boas da vida são oferecidas àqueles que fazem jus a elas, mas que é responsabilidade de quem quer vencer buscá-las ativamente. “Pense alto, pense grande e permita-se fazer uso do que conquistou”, dizem estes. Eu compreendo muito bem a perspectiva de quem pensa positivamente e se acredita merecedor dos benefícios que podem ser comprados. Não posso dizer nada contra essa forma de enxergar a si mesmo inserido no mundo. Entretanto, sou obrigado a reconhecer que desde tenra idade cultivo o “pensamento de pobre”.
Reconheço pertencer a esta “corrente” sem nenhum constrangimento ou culpa, E mais: não se trata de defender dessa escolha, mas tão somente fazer uma confissão: meu pensamento foi sempre guiado pela lógica da escassez. Uso celular modesto, e sempre de segunda mão. Os poucos carros que tive na vida (com exceção de um que tirei num consórcio há 30 anos) eram todos usados. Minhas roupas compro muito baratas ou em “thrift shops” durante uma viagem. Não há “etiqueta” em nenhuma roupa que visto. Vivo em uma casa pequena e sem luxos e nunca me deixei seduzir pelo brilho das mansões, dos carros, das festas ou da opulência, mesmo quando ganhava muito mais do que a média dos brasileiros.
Digo isso sem qualquer vaidade, ensejando mostrar superioridade espiritual ou mesmo a correção de minhas ações. Não se trata disso, mas sim o reconhecimento de uma decisão subjetiva ligada à valores do inconsciente: nem pior nem melhor, apenas enxergo o mundo dessa forma. Suspeito que a escassez foi minha companheira em vidas passadas e que este traço se manteve nesta existência atual. Isso explicaria a tendência irrefreável de enxergar as coisas pela perspectiva da contenção.
Faço uma analogia com outras escolhas que fiz na vida. Minhas pacientes por vezes se assombravam com o fato de eu ter sido pai ainda muito jovem, mal adentrando a terceira década de vida. Perguntavam se eu achava melhor ter filhos mais cedo ou mais tarde na vida, e eu sempre lhes dizia que “o melhor momento é quando se quer”. Eu quis ser pai muito cedo, mesmo sem plena consciência disso, e por este fato sou muito grato, mas entendo perfeitamente quem prefere adiar esta decisão para celebrar uma juventude livre e sem amarras. Da mesma forma, entendo quem prefere usufruir de todas as coisas “compráveis”, acreditando que elas podem lhes trazer alegria e prazer. Não há erro algum em admirar o belo ou usar o dinheiro para garantir conforto e segurança.
Entretanto, como eu disse, não se trata de escolhas plenamente conscientes. Tanto quanto a escolha por uma gravidez prematura ou mais tardia, a opção por colocar alegria e realização nas “coisas” não é feita de forma racional, mas opera nos porões da mente, e sobre essa decisão não cabe nenhum julgamento de valor. De minha parte estou certo de que continuarei com o pensamento de pobre até o fim dos meus dias. Não creio que haja cura para o meu mal e, se houver, talvez o tratamento seja muito caro. Prefiro não gastar com isso.
Existem dias em que a atividade médica nos oferece surpresas inesperadas. As vezes pelas alegrias de um nascimento; muitas vezes pela chegada da morte, fim inexorável de todo aquele soprado pela benção de nascer. Outras vezes quem morre é a inocência.
– Tem um senhor aí que não marcou consulta mas disse que precisa falar com uma certa urgência.
Minha secretária havia entrado com um café e avisou do sujeito sentado na recepção aguardando para falar comigo. Olhei para minha colega e consenti; afinal ainda tínhamos alguns minutos até a próxima consulta. Ele entrou na minha sala parecendo cabisbaixo e triste. Carregava uma sacolinha de supermercado na mão e se vestia de forma muito simples. Pediu licença para sentar e explicou a razão de sua presença.
– Boa tarde, doutor. Eu me chamo Fabrício e sou o marido da Maria, sua paciente da Liga Homeopática. O senhor deve lembrar… baixinha gordinha, sempre sorridente.
Voltei os olhos para cima e passei a vista no meu catálogo mental de pacientes. Quase 25 anos atendendo voluntariamente na “Liga”, quantas Marias poderiam ter passado por mim? Gordinha, sorridente. Não apareceu ninguém na tela da minha memória, mas apenas respondi que sim.
– Então o senhor é o marido da Maria… em que posso ajudá-lo?
Ele se arrumou na cadeira e respondeu de chofre.
– Na verdade doutor eu “era”. Maria morreu ontem.
Senti a informação como um soco no estômago. Olhei para o lado e vi minha colega com o rosto paralisado pela notícia.
– Ontem? Como assim? O que houve?
– Pressão doutor. Foi internada ontem porque estava com dor de cabeça. O senhor deve se lembrar, ela estava grávida do nosso terceiro filho, e já estava de 9 meses. Teve convulsões no hospital, fizeram uma cesariana de emergência. Nasceu uma menina linda, que está lá com a avó, mas ela não resistiu e morreu da hemorragia. Eclampsia que chama, não?
Bastou dizer estas palavras e o homem à minha frente desabou em choro convulsivo. Suas lágrimas escorreram pela face enrugada e se chocaram contra a pedra dura da mesa. Abalado, olhei para minha colega, que só dizia “Meu Deus que tristeza”…
Perguntei se ele queria um copo d’água, e ainda me lembrei que este gesto em nada diminui a dor de alguém, mas é usado em contextos de tensão desde tempos imemoriais. Cumpre a função de um ritual que nos livra do silêncio aterrorizante destes momentos. Ele sequer conseguiu responder por causa dos soluços e lágrimas que saíam aos borbotões. Esperei que se acalmasse um pouco e perguntei se haveria algo com o que poderia ajudá-lo.
– Não preciso de nada, vim apenas lhe contar porque ela falava muito bem do doutor e das consultas que tiveram na Liga Homeopática. Ela tinha muito carinho pelo senhor. Na verdade, fui avisado hoje pela manhã e estou indo para a rodoviária comprar uma passagem de ônibus para Passo de Torres onde ela estava internada. Se o senhor quiser ajudar na passagem eu agradeço.
Olhei para minha colega e ela me fez um sinal apontando para meu bolso. Tirei uma nota de 50 reais e coloquei mas mãos do pobre homem. Ele agradeceu ainda secando as lágrimas e se levantou. Caminhou comigo até a porta e me disse, ainda consternado: “Deus lhe abençoe doutor. Obrigado por ter atendido Maria durante esses anos todos. Fique em paz”. Agradeci ainda emocionado, mas tão logo fechei a porta uma peça dentro do meu cérebro fez barulho. Um “click” que eu conhecia muito bem. Olhando fixo para a parede eu disse em voz alta: “Não pode ser, não acredito, não, não. Mais uma vez não!!”. Imediatamente peguei a lista telefônica e encontrei o número da prefeitura de Passo de Torres. Eu conheço bem o lugar – passo por lá quando faço a pé a Travessia Torres-Cidreira – e por isso mesmo achei que havia algo estranho. Passo de Torres é a primeira cidade do lado catarinense de quem atravessa o rio Mampituba vindo de Torres, no Rio Grande do Sul. Liguei para lá e uma telefonista atendeu.
– Por favor, pode me dar o telefone do hospital da cidade?
A moça do outro lado ficou em silêncio por alguns instantes e depois respondeu:
– Moço, nossa cidade não tem hospital, só posto de saúde. Se precisar de atendimento precisa ir a Torres.
Olhei para minha colega e depois para a minha secretária. Perguntei a esta última como ele havia se apresentado ao chegar no consultório.
– Olha doutor, ele chegou aqui e perguntou se o Dr. Ricardo estava atendendo. Respondi que sim, e ele perguntou depois sobre algum outro lugar onde o senhor atendia, e eu respondi que era na Liga Homeopática. Por que, algum problema?
“Maria” – nome genérico – o nome e a especialidade do doutor na placa colocada na porta e o local onde trabalha além do consultório. Some-se a estas poucas informações um talento teatral extraordinário. Hoje tenho quase orgulho de ter caído na encenação mais espetacular de que já fui testemunha, a mais absoluta excelência na arte de representar.
Fui punido pelo Facebook por mostrar uma foto de Spencer Tunick, um artista que faz grandes montagens com gente nua. Um puritanismo tosco do Facebook para castigar alguém por mostrar corpos em profusão de carnes e curvas.
Isso me fez pensar nos paradoxos do pudor. Penso na naturalidade dos biquínis na praia e o furor que causariam no centro da cidade ou num restaurante. Penso nas mamas que são decentes mesmo quando 99% estão à mostra. Também lembro de pessoas nuas com corpos pintados com peças de roupas – teoricamente vestidas.
Penso ainda no despudor dos meus netos que aos poucos vai desaparecendo pelo surgimento insidioso de algo se vai lhes acompanhar por toda a vida: a vergonha.
Temos vergonha de nossos corpos, talvez porque o que escondemos pode revelar quem verdadeiramente somos. Nosso medo é que vejam a real matéria que nos constitui.
Sempre tive inveja dos despudorados. Não dos exibicionistas; desses sempre guardei uma certa distância, tanto os marombados de camiseta apertadinha quanto das mulheres voluptuosas de pernas e decotes à mostra. Mas, ao mesmo tempo que admiro o pudor e a reserva eu invejo as pessoas que não carregam nenhuma vergonha de seus corpos e o enxergam com respeito e reverência. Tipo… gente que é gordinha, magricela, baixinha ou barrigudinha mas não se incomoda com isso e também não tem vergonha de falar do seu corpo e das coisas dele.
A história mais curiosa sobre isso ocorreu comigo ainda na residência médica. Estava de plantão na emergência quando observei ao longe no corredor do hospital uma moça alta, esguia, bonita e de passos largos caminhando em minha direção. Vestia um longo vestido colorido e uma blusa solta de tecido transparente. No peito vários colares se enroscavam, reluzentes e coloridos.
Naquela época se chamavam “ripongas”. Aproximou-se de mim e abriu um sorriso.
– Ric, estava à sua procura. Sou eu, Délia, sua paciente do ambulatório. Disseram que estava na emergência e vim aqui falar com você.
Estacionei no meio do corredor e reconheci de imediato minha paciente. Uma moça “nova era”, pós-hippie, bonita, cabelos soltos, sem pinturas, de olhar intenso e sorriso cativante.
– Claro Délia. Em que posso lhe ajudar?
Ela passou a explicar que apesar dos anticoncepcionais continuava sangrando todos os dias, em quantidades variáveis.
Imediatamente pensei se tratar de “spot”, um efeito secundário dos anticoncepcionais à base de progestágenos que atrofiavam excessivamente a parte interna do útero. Algo comum e de fácil resolução.
Cometi, então meu grave erro. Perguntei à minha paciente:
– Mas qual o volume desse sangramento? Muito pouco ou parecido com uma menstruação normal?
Ela me olhou com seus olhos verdes e grandes por breves instantes. Depois, em silêncio e sem titubear, sem qualquer sinal de pudor ou desconforto, colocou a mão por baixo da saia de cigana e puxou o absorvente. No meio do corredor do hospital.
Fiquei paralisado e tudo que pude fazer foi olhar ao redor para ver se havia testemunhas. Por sorte o corredor de acesso à emergência estava vazio àquela hora. Colocou o “modess” próximo do meu rosto e com o polegar apontou a pequena mancha vermelha ao centro.
– Sempre fica assim. Todos os dias.
Disse isso com a mais absoluta e sincera naturalidade, como se estivesse mostrando um ferimento na ponta do dedo. Depois de mostrar por vários ângulos e falar da cor e do cheiro curvou novamente seu corpo e, levantando a saia rodada, recolocou o absorvente em seu devido lugar. Por fim, perguntou o que eu achava. Ainda atônito, respondi:
– É isso mesmo, disse eu. Trata-se de um sangramento comum. Passe em alguns minutos no ambulatório que lhe faço uma receita.
Ela me abraçou efusivamente dizendo “até lá” e me deixou plantado no meio do corredor sem saber para onde ir.
Até hoje lembro da cena com um sorriso. Penso que talvez aquela bela moça tenha mantido a inocência que perdemos ao longo da vida e que nos espanta quando com ela nos defrontamos. Talvez a vida devesse mesmo ser um pouco mais simples e natural.
Lembrei da história de dois garotos de 5 e 6 anos que abrem uma gaveta na casa do avô e descobrem uma folha de “papel carbono”.
– Pra que serve isso vovô? perguntam.
Sem dizer nada o avô corta uma folha branca ao meio e coloca o papel carbono entre as duas partes. Com uma caneta desenha um rosto na folha de cima. Olha para os netos e diz:
– Estão preparados para ver um milagre?
Os dois arregalam os olhos e balançam a cabeça afirmativamente. O avô levanta lentamente a primeira folha junto com o papel carbono e mostra a imagem exata do seu desenho na folha de baixo.
Eu passei a melhor parte da minha vida observando a transição das mulheres – em menor intensidade também a dos homens – em direção à maturidade, como mães e pais. O parto, como corte brutal na percepção egoística do mundo, nos joga de forma mais ou menos intensa nas agruras da insegurança e da tarefa de cuidar dos que chegam. Todavia, ainda me surpreendo com a velocidade com a qual essa transformação ocorre. Muitas vezes fiquei espantado ao falar com pacientes apenas algumas semanas após o parto quando já era possível perceber – na forma como se posicionavam diante dos temas – as mudanças de perspectivas, de ênfases e de posturas. É como se a partir do parto fosse aberto um portal pelo qual a realidade ampliada pelo fórceps da experiência lhes permitisse enxergar o mundo de forma mais alargada.
O malho da dor aguda, da espera e da angústia produz a transformação, que será tanto mais intensa e profunda quando maior forem os significados depositados sobre ela. Por isso continuo a achar que a experiência da maternidade e da paternidade são dores e angústias que valem a pena ultrapassar. Por certo que saímos um pouco menos piores, menos arrogantes e mais humildes depois de termos a carne triturada na passagem por este purgatório de êxtase e lágrimas.
Além disso, tais experiências pelo vale da paternidade e da maternidade nos permitem olhar os próprios pais com mais condescendência. Fico feliz de estar vivo para ver meus filhos passando por esta transição.
Ela entrou no consultório vividamente alterada. Sentou-se rapidamente na cadeira à frente da escrivaninha de granito e sentou-se com o corpo projetado à frente, como a se jogar contra mim. Colocou as mãos sobre a pedra fria e me olhou fundo nos olhos.
– Não vim consultar, doutor; estou aqui para conversar porque sei que o senhor se posiciona firmemente contra a violência obstétrica e acredita que os pacientes precisam ter voz. Venho pedir para que o senhor me ajude a condenar um colega seu que cometeu um crime. Ele matou meu sobrinho.
Dava para sentir na pele o clima pesado. Ela estava no último estágio da indignação. Sua dor era perceptível; seu ódio queimava a pele e se irradiava à distância. Respirei fundo. Pensei no quanto de angústia ela já havia vivido até sentar-se à minha frente. De certa forma eu era sua esperança de paz, uma forma de auxílio para carregar o pesado fardo do sofrimento.
– Quer me contar o que houve? disse eu, temendo abrir uma comporta que seria posteriormente incapaz de fechar.
Ela fez uma pausa e contou sua história.
– Meu sobrinho, morreu. Ele nasceu com uma malformação cardíaca. Foi diagnosticada apenas depois que nasceu porque não conseguia respirar direito, ainda na sala de parto do hospital. Ele nasceu roxo e assim continuou, doutor. Foi direto para a UTI onde ficou no oxigênio. No dia seguinte foi dado a nós o diagnóstico da malformação no seu coração. Ficamos totalmente arrasados. Morreu dois dias depois de nascer.
– Posso imaginar a dor de vocês, disse eu ingenuamente.
Ela me censurou com o olhar e disparou frases duras, como se essas palavras estivessem presas há tempo em seu peito.
– Vocês não sabem o que é isso, disse ela. Vocês não conseguem sentir o que nós sentimos. Essa dor passa longe da experiência de vocês. Sempre frios, assépticos, insensíveis e distantes. Não, doutor, vocês não conhecem a dimensão dessa dor, o vazio que fica, o amargo na boca e a escuridão que se interpõe entre o agora e o amanhã. Só estando desse lado da mesa é que é possível entender o quanto dói esta ferida.
Preferi ficar em silêncio pois a porta da empatia havia sido fechada. Mentalmente disse “entendo”, mas percebi que entender, compreender e colocar-se no lugar era para mim vedado. Ela exigia a exclusividade do lugar de sofrimento, impedindo que eu pudesse ao menos me aproximar dele. Só para ela havia o direito de sofrer. Resolvi me acercar, com todo o cuidado, da motivação expressa do contato.
– E como quer que eu lhe ajude? Ainda não me disse onde houve o erro que conduziu seu sobrinho ao óbito.
Outra fuzilada no olhar.
– O médico do pré-natal, o Dr. Fulano – e faço questão de dizer seu nome com todas as letras, F-U-L-A-N-O – não pediu ao meu sobrinho uma ultrassonografia cardíaca durante o pré-natal. Se nós soubéssemos de antemão tudo poderia ter sido diferente. Foi negligente, impediu um diagnóstico a tempo. Por isso quero vê-lo pagar pelo crime que cometeu.
Ela tocou em um tema muito delicado, pelo menos para mim. O abuso de exames para a gestação sempre foi um assunto que me interessou desde os tempos da escola médica. Esse parecia ser um daqueles casos que, lidos ao contrário, poderiam nos dar a ilusão de que “algo poderia ser feito” para evitar a tragédia, bastando para isso que os médicos pudessem ler o futuro. Retrospectivamente tudo faz sentido e todos os pontos se ligam. Seria como internar todas as crianças com febre porque uma em um milhão poderia estar iniciando uma meningite. Não faz sentido fazer isso na vida real, mas quando se olha para trás sempre é possível perguntar: “mas por que não internaram na UTI quando a temperatura começou a subir?”
– O que você acha que seria diferente se ele tivesse solicitado este exame? Em que ele poderia mudar o cenário? Veja, este bebê nasceu em um hospital plenamente equipado. Foi direto para a UTI neonatal. Esteve ao cuidado dos profissionais de lá e sucumbiu ao drama terrível de uma malformação no coração. O que poderia ter sido feito para evitar este desfecho, pela sua perspectiva?
Hoje, lembrando da cena, acredito que aqui esteve sempre o meu grave erro. Já era óbvio que sua indignação era sem objeto. Não havia dolo; não havia sequer culpa de nenhum profissional que atendeu aquela mãe e seu bebê. Entretanto, o caótico da vida é insuportável para quem sofre seus reveses. A pior dor é aquela que não pode ser colocada em uma linha clara de causalidades. Se uma criança – que carregava esperanças e idealizações de uma família – não sobrevive, então alguém deve ter falhado. Exercer o ódio arrefece a dor da nossa alma; apontar o culpado nos oferece alívio.“Ufa, afinal sabemos o que houve. Foi um erro médico”. A pior escuridão é quando nos falta a luz de uma resposta; como a procura por um filho que desapareceu aguardando por uma resposta – qualquer uma – que possa acalmar um coração imerso na dúvida mordaz e corrosiva. Por outro lado, ser compreensivo, acalentar essa dor, acolher esse sofrimento e ficar em silêncio diante do seu relato, apenas atrasaria a necessária tomada de consciência sobre a verdade que ela se negava a encarar. Minha dúvida nunca será desfeita: qual o enfoque caberia utilizar, o “materno” ou o “paterno”?
Certa vez um colega foi duramente punido no hospital onde eu trabalhava. Muitas vezes escutei a sua história e quanto mais a ouvia mais era fácil perceber que não havia culpa alguma em seus atos. O diretor o puniu porque se sentia obrigado a dar algum tipo de satisfação à família enlutada. Para a família produziu um efeito calmante, mas para o meu colega – injustamente acusado – o resultado foi devastador. Ele me dizia que a pior punição era mental: “Sou prisioneiro dos meus pensamentos. Revivo a cena centenas, milhares de vezes por dia. Eu preciso me livrar dessa prisão e dessa tortura que parece não ter fim”.
Todavia, as minhas próprias dores diante das injustiças me impediram de guardar o devido silêncio, assim como a escuta respeitosa e calma. Respondi. Devolvi para ela a irracionalidade de suas palavras. Tentei responder com a razão uma demanda puramente irracional, fruto da dor, da mágoa e dos afetos destroçados. Um erro que carregarei para sempre comigo. Depois de fazer a pergunta ela perdeu os limites da civilidade.
– Como você ousa perguntar isso? Não percebe a tolice de suas palavras? Todos os dias somos bombardeados por informações das maravilhas da medicina e da tecnologia, e negar isso aos pacientes é um crime inaceitável. Se houvesse esse diagnóstico antes do nascimento ela poderia ter sido operada até mesmo antes de nascer!! Ou você não sabe da existências dessas cirurgias?
Lembrei da foto do braço do feto pendurado para fora do útero aberto segurando o polegar do cirurgião, uma foto que correu o mundo mostrando a possibilidade de uma cirurgia fetal intrauterina. Provavelmente era esse tipo de intervenção que ela se referia, mas por certo que ela não tinha a menor ideia do que se tratava. Apenas juntou em sua mente a doença congênita e a possibilidade – mesmo que apenas teórica – de mudar o quadro através de uma operação heroica. Também ela era vítima de uma propaganda médica tecnológica fantasiosa e sem limites, como se um novo mundo se descortinasse à nossa frente pela via dos equipamentos maravilhosos que a criatividade humana produz. Diante de tantos avanços a morte de uma criança inocente só poderia ser o resultado da brutal negligência daqueles que controlam essas maquinas fantásticas e seus feitos extraordinários. Na minha frente apareceu Marsden Wagner me sussurrando: “Quem brinca de Deus acaba pagando pelos desastres naturais”.
– Não tenho como lhe ajudar. Entendo seu sofrimento, mas não acredito – pelo seu relato dos fatos – que tenha ocorrido qualquer falha dos profissionais que acompanharam seu sobrinho na sua breve passagem por aqui. Perdoe minha sinceridade, mas acredito que esse tipo de ação provocará ainda mais dor e, na pior das hipóteses, produzirá injustiças contra pessoas que fizeram o possível para ajudar essa criança.
Ela, finalmente, explodiu em ódio e indignação.
– Eu sabia!! Você é como todos os outros. Achei que poderia encontrar em você alguém diferente, que pudesse me ajudar nessa busca por justiça, mas não passa de mais um covarde. Vocês sempre se protegem e encobrem os erros uns dos outros. Não passam de carniceiros e mercenários, incapazes de entender e respeitar a vida dos pacientes. Acham-se deuses, infensos aos sentimentos de empatia e amor ao próximo. São cães, arrogantes e prepotentes!!
Desta vez fiquei em silêncio. Quando ela se levantou, também me ergui da cadeira.
– Vocês podem escapar de tudo, menos da justiça divina. No dia do julgamento seu silêncio será colocado na balança. Passar bem, doutor.
Eu a acompanhei até a porta. Na passagem pela secretária fiz um gesto com a mão para que ela ficasse tranquila, já que escutou os gritos que vieram da sala. A paciente saiu porta afora e nunca mais a vi. Na volta para a minha sala pedi um café para a secretária e me sentei, ainda sentindo os músculos do corpo retesados. Por sorte haveria meia hora para me acalmar, já que a consulta fora abruptamente interrompida. Em minha mente eu apenas pensava. “Sim, muitos se acreditam deuses; entretanto, se acham mesmo que essa postura é arrogante e sem sentido, por que insistem tanto em nos colocar nessa posição?”