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A doença sagrada

– Ajudem!! Ajudem!! Salvem o meu filho!!

O homem negro e magro entrou correndo na sala de atendimento com o filho desfalecido nos braços. No Pronto Socorro ele ultrapassou todas as portas aos gritos. “Salvem meu filho!!!”, gritava. Trazia nos olhos a marca rubra da embriaguez. O filho, também esquálido, não tinha mais do que 6 anos. Jogou a criança nos meus braços, jovem interno, estudante do 5o ano de medicina. Não houve tempo de chamar o médico responsável; corri com o menino nos braços e o coloquei sobre a maca de curvim azul.

– A gente estava num churrasco. Ele caiu e começou a tremer e chacoalhar. Tentei puxar a língua. Depois ele desmaiou.

O pobre homem trocava as palavras, enrolava a língua. Estava bastante embriagado, mas pude entender do que se tratava. Coloquei a mão sobre o peito do menino. O coração estava acelerado e a respiração normal. Em verdade, dormia. Estava em estado pós-convulsivo.

Eu também suspirei. Por um instante imaginei o pior. Atropelamento, bala perdida, acidente doméstico. Em verdade, o menino estava repousando seus sentidos após a descarga intensa de uma convulsão epilética.

O que eu ainda não sabia é que a sociedade não produz doenças em vasos estanques. Não havia apenas um paciente ali; ao meu redor havia pelo menos dois, além daqueles que ainda estavam por chegar. Um pai que passa pelo terror de carregar um filho supostamente morto nos braços também está enfermo, mesmo que nenhum órgão esteja (ainda) danificado.

– Ele está bem, disse eu afastando o estetoscópio do seu peito após escutar seus batimentos firmes e compassados. Pode aguardar ali fora, cuidaremos dele.

Nesse momento o homem se enfureceu. Fuzilou-me com seu olhar alcoólico e cuspiu as piores violências.

– Como pode estar bem? Estou vendo uma criança que não consegue acordar!! Ele vai morrer!! Vocês não estão fazendo nada!! Bandidos!! Façam alguma coisa!!

Ato contínuo, desferiu um soco no meu estômago. Senti o impacto duro do punho e meu corpo se projetou para trás. Ele, aparentemente assustado, recolheu os braços mas continuou os xingamentos. Meus colegas se colocaram entre nós, enquanto outros saíram da sala em busca dos seguranças.

Eu havia me tornado pai recentemente. Meu filho tinha poucos meses de vida. Podia ler nos olhos daquele homem a indignação, o medo, a dor e a impotência. Reconhecia estes signos e entendia essa fragilidade.

Quando os seguranças chegaram ele já estava mais calmo. Outros estudantes e o médico já lhe haviam confirmado o que eu tinha tentado explicar. Mais calmo ele começou a chorar. Sentou-se em uma cadeira no canto da sala e repetia “achei que ele tinha morrido”. Depois de uns poucos minutos levantou-se de lá, deu dois passos em minha direção e me abraçou. Entre soluços me disse:

– Desculpe doutor, eu estava com muito medo. Achei que tinha perdido meu filho.

Recordei essa história porque li de novo a reportagem que fala da agressão de um homem a um profissional que atendia o parto de sua esposa. Imediatamente houve a justa indignação da corporação, da imprensa e dos colegas.

Passei três décadas lidando com essa tensão e posso entendê-la. Pior ainda, atendia de forma não convencional, aguardando os tempos, respeitando a fisiologia e os desejos do casal. Todavia, nem sempre a “turma de fora” – a família e os amigos – pensavam da mesma forma. Não foram poucos os momentos de alto tensionamento.

Não há dúvida que há despreparo por parte dos familiares, por certo, mas também ocorre uma falsa expectativa produzida na cultura sobre os tempos do nascimento.

Além disso, nossa sociedade ainda acredita que a violência – física ou simbólica – é uma linguagem válida para solucionar conflitos.

Tanto na minha experiência como estudante quanto nos relatos de parto de que fui testemunha existem histórias colaterais que são igualmente interessantes. Por que explodiu dessa maneira? O que existe na sua história pessoal que foi despertado na tensão de um momento limite? Como atender estas pessoas que – assim como os doentes – também precisam de ajuda?

Claro que falta educação por parte de pais e familiares. Entretanto também é fato que os profissionais e os hospitais quase sempre estão despreparados para lidar com pessoas que enfrentam estas crises. É muito frequente que ao invés de acalmá-los, os ameaçam. Ao invés de conversar e tranquilizar oferecem cenários trágicos. Ao invés de valorizar sua presença e sua potencialidade positiva colocam valor apenas nos médicos, nos tratamentos e no hospital. O sujeito se sente encurralado; os profissionais sucumbem ao medo.

Todo mundo acha importante estudar o psiquismo das grávidas e (quase) ninguém se interessa pelos dramas emocionais dos pais, entretanto cobramos e/ou exaltamos a presença dos homens no evento. Da mesma forma, entendemos de forma bem precisa os mecanismos químicos que produzem uma convulsão, mas por vezes ignoramos como tratar a família que adoece junto com aqueles que sofrem este drama.

A atenção à saúde pressupõe uma percepção holística da doença, e uma abordagem inclusiva, que não despreza nenhum dos atores nela envolvidos.

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O Jardineiro Fiel

No corredor comprido e gelado do Hospital escola subitamente escuto uma voz ao meu lado, de alguém que acompanhava meus passos.

– Ricardinho, disse ele. Quanto tempo!!

Olhei para o lado e encontrei um rosto conhecido. Sim, Gustavo – ou Guta – um amigo de infância, colega de escola. Jogamos muita bola juntos. Ele tinha um irmão mais moço, cujo nome não lembrava. Percebi que ele carregava uma enorme pasta, quase uma mala, e estava vestido de terno e gravata. O sorriso fácil estampado no rosto não deixava dúvidas: ele era um propagandista da indústria farmacêutica, profissionais que circulam dos hospitais fazendo publicidade dos seus remédios e oferecendo brindes, presentes, amostras grátis e outras facilidades para os médicos.

Foi muito cedo que eu conheci a Ciranda de benefícios, agrados e presentes que cercam os médicos nesta junção entre medicina e capitalismo. Ainda na faculdade assistíamos as apresentações dos propagandistas nos intervalos das aulas no hospital. Já naquela época recebíamos deles todo o tipo de agrado. Quando estava no último ano da Escola Médica, prestes a me formar, fomos em um grupo de doutorandos e residentes de ginecologia para um congresso sobre DST no Uruguai, onde um trabalho nosso seria apresentado. A viagem de ônibus – assim como os jantares, os lanches e até a bebida – foram pagos pelos laboratórios farmacêuticos. Era a semeadura, para que depois pudessem fazer a colheita.

– Conheces o Dr. F. aqui do hospital? perguntou meu amigo.

– Por certo que sim, Gustavo. Ele é o chefe do serviço. A equipe dele se reúne todas as segundas feiras. Precisas falar com ele?

– Ahh, se você pudesse me arranjar um encontro, mesmo informal aqui na cafeteria, isso seria o máximo. Eu represento o Laboratório N* e estamos lançando uma nova droga. Chama-se…

Ele me descreveu com pormenores o remédio que estava querendo apresentar ao meu chefe. Tratava-se de um medicamento anti-inflamatório não esteroidal, algo que nos próximos anos se tornaria um tremendo sucesso. Ele parecia excitado em me falar dessa droga, de tudo o que ela prometia, e como era importante que ela fosse padronizada na prescrição do hospital escola.

– Guta, disse eu, não passo de um mísero residente. Não tenho influência alguma sobre um médico famoso e importante como ele. Não creio que possa lhe oferecer ajuda.

Ele continuou com seu sorriso largo e explicou:

– Preciso chegar lá em cima, Ricardinho, nos chefes. É assim que funciona esse meu trabalho. Ele é um formador de opinião; se ele resolver padronizar “meu” remédio aqui e, mais ainda, se ele incorporar esta nova droga ao seu receituário pessoal não será sequer necessário falar com vocês. Ele é o “Papa”, e aquilo que o Papa escreve, os padres e as freiras copiam. Sacou? Por isso preciso “pegar” ele, o peixe grande.

Sorri para o meu velho amigo e o abracei. Desejei boa sorte e sucesso em sua empreitada. Hoje sei que foi plena de sucesso, já que o seu remédio se tornou um negócio multi milionário e um campeão de vendas. Mas, não foi a publicidade da droga o que ficou guardado em minha mente, nem a gravata extravagante ou o sorriso sedutor de meu amigo. O que eu nunca mais esqueci foi que aquela foi a primeira vez que me vi como “gado”, a ponta de lança de um negócio gigantesco, milionário e – muitas vezes – corrupto.

Depois de alguns anos desenvolvi um completo rechaço à mercantilização medicamentosa da saúde. Percebi o quão danosa esta relação entre dinheiro e saúde poderia ser e passei a ter uma visão crítica e – por vezes – ácida sobre estas questões. Com o tempo os propagandistas de medicamentos foram aos poucos deixando de me procurar, apesar de sempre tê-los tratado com educação e gentileza. Eu não era mais alguém em quem valia a pena investir tempo ou dinheiro.

Todavia, sempre fui fascinado por esse aspecto sombrio da medicina. Os propagandistas eram todos muito jovens (e os coroas, joviais), graduados na universidade, excelentes salários, bonitos, simpáticos, educados. Depois de alguns anos chegaram as mulheres. Uau, algumas eram de tirar o fôlego: sensuais, reservadas, simpáticas, lindas, conhecedoras do assunto. Todos eles nos envolviam magicamente apresentando os remédios com estudos de questionável qualidade, estatísticas igualmente frágeis, mas acompanhados de uma apresentação impecável.

Com os propagandistas aprendi muito. Não sobre drogas e seus usos, mas sobre o submundo da medicina. Depois de muitos anos eles acabavam criando confiança em mim e contavam o que ouviam nos consultórios.

– Um colega seu, aqui da Rua da Praia, ontem mesmo me disse: “Eu sempre prescrevi seu concorrente, mas posso mudar minhas receitas. O que você tem a me oferecer? Uma passagem de avião para o próximo congresso? A inscrição? Diga, o que eu ganho por esta troca?“

– Sério? O pessoal trata vocês assim? Pedem agrados, presentinhos, passagens, inscrições….. propina? Em troca de uma mudança de receituário?

– Sim, claro. Nem sabe como é para montar os congressos. A jogada é assim: quando compram um “stand” de promoção de seus produtos isso lhes dá direito a uma palestra para promover um determinado medicamento. Podem convidar os seus próprios pesquisadores, sejam daqui ou do exterior. Acredite, sempre rola muita grana nesses eventos.

– Claro, mas esses agrados são só para os grandes, os “chefes de serviço”, os formadores de opinião. A chinelagem, o gado…. recebe uma caneta com o nome do remédio.

Dizia isso e mostrava para eles a canetinha que acabara de ganhar. Eles davam uma risada constrangida, tentavam explicar, mas era óbvio que eu era a ponta menos importante da equação das vendas. Peixe pequeno quando comparado àqueles que devotavam boa parte da sua energia para ocupar estes postos de poder. Agora eu entendia de onde vinha tanta energia para as disputas ferozes e violentas que meus colegas empreendiam para subir de importância dentro da corporação.

Com o tempo estes personagens foram escasseando da minha sala. Não vinham mais nem para tomar o sagrado cafezinho. Na volta do almoço eu os via aglomerados esperando os meus colegas de andar voltarem para as consultas da tarde. Eu ficava tentando imaginar como eles me enxergavam. Talvez como o tolo, o iludido, o ingênuo, o burro. Afinal, que mal poderia haver em receber estas amostras grátis, as suas belas palavras, suas agendas e seus porta-canetas?

Minha explicação para eles sempre foi: “Ninguém faz propaganda de pastel. Se estas empresas precisam contratar alguém como vocês para me fazer prescrever esta droga é porque, sem toda essa sedução, ela não se sustentaria”.

Já nesta época já me vinha à cabeça uma frase que me acompanhou até meu último dia de consultório: “Se a saúde baseada em evidências fosse realmente levada a sério a medicina praticada a partir de então seria um espetáculo completamente irreconhecível por nós”. Nenhuma propaganda seria necessária e os poucos medicamentos administrados seriam facilmente encontrados e muito baratos. As consultas seriam ricas de detalhes, plenas de envolvimento afetivo, orientação, exercícios, educação sobre caminhadas, comida de verdade, sexo, alegria, família, futebol, gargalhadas, etc.

Porém, nunca me deixei iludir. Eu bem sabia que a nossa medicina, capitalista e decadente, ainda reinaria por muitos anos, lucrando com nossas doenças e com nossa infelicidade.

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Marcas no corpo

– Adeus mãe, melhor dizendo, até breve.

Suas mãos pálidas cruzavam o peito deixando à mostra os ossos proeminentes. Os olhos fundos e as bochechas encovadas registravam a solidão de seus últimos tempos. Solitária em seu mundo de lembranças e visões pouco absorvia do mundo que a rodeava. A memória, como chama fina no candeeiro, esmaeceu-se lentamente, como o frio que nos invade na chegada do inverno. Lembrei, por alguns momentos enquanto olhava seu rosto pela última vez, das histórias de “Juca e Bolão” que contava para nos seduzir a secar a louça com ela, da letra linda, dos cadernos que corrigia, do meu imenso prazer em fazê-la explodir em gargalhadas. Suas histórias de tombos fantásticos, que adorava contar pela metade, pois as crises de riso a impediam. Sua comida cujo cheiro reconhecia a uma quadra de distância ao chegar da escola. Arroz, feijão, guisado, farinha de mandioca. Suas sonecas na tarde e a porta trancada do quarto. Olhei mais uma vez a cicatriz que trazia no antebraço, que vinha do punho até quase o cotovelo, lembrando a história que se escondia por detrás, e que me foi contada há tanto tempo que sequer consigo recordar a época exata.

Foi uma brincadeira infantil que quase produziu uma tragédia. Escondida debaixo de um sofá, num inocente jogo de esconde-esconde, foi finalmente encontrada pelos amigos. Quando foi resgatada de lá o braço ficou preso, trincou e quebrou. Não tinha mais do que 5 anos na época. Ainda assustada, ela é levada ao hospital e faz um tratamento padrão para a época, meados dos anos 30. Alguns dias depois acorda com febre e uma mancha vermelha e feia no local da fratura. Seus pais a levam para o hospital e recebem o diagnóstico, dos poucos que a minha mãe sabia dizer: osteomielite.

Estávamos há décadas de comercializar antibióticos. O médico inglês Alexander Fleming desenvolveu pesquisas sobre estafilococos e acabou por descobrir a Penicilina em 1928, dois anos antes do seu nascimento. Esta descoberta, assim como tantas outras na ciência, deu-se em condições muito curiosas, graças a uma sequência de eventos imprevistos. Mas quando minha mãe chegou ao hospital nada disso estava à disposição dos médicos.

– Será preciso amputar o braço de sua filha, disse o médico, sem devaneios, ao meu avô, “Seu Olinto”.

Meu avô ficou absolutamente arrasado, mas aceitou o que o destino havia lhe reservado. Saiu da sala do médico e foi até a cafeteria do hospital Moinhos de Vento para fumar um cigarro e tomar um café. Lá encontrou um amigo para quem compartilhou a história, e puderam juntos lamentar o ocorrido. Quando estava indo embora, sentiu um toque no ombro e se virou. Lá estava um jovem rapaz, com seu chapéu nas mãos.

– Eu escutei a história que você contou ao seu amigo. Desculpe pela intromissão. Sou o Dr. Heinrich* e acabo de voltar de um ano de estudos na Alemanha. Eu vi que meus colegas preconizaram a amputação do braço da sua filha, mas nós desenvolvemos um tratamento para estas condições que talvez permita curar a infecção sem precisar agir de forma tão radical.

Meu avô a tudo escutava com paciência, que aos poucos se transformou em esperança. Se era possível uma cura sem extirpar um dos seus braços, por que não tentar? Pediu ao médico que tomasse conta do caso e assim foi feito.

Minha mãe contava que o tratamento se baseava em abrir a extensão da pele até o osso e fazer “raspagens” e lavagens, até que ele curasse de dentro para fora. Quando minha mãe descrevia essas peripécias e essa aventura eu tremia, tanto de excitação quando de medo ao ouvi-la descrevendo as raspagens dolorosas e sacrificiais mas, acima de tudo, corajosas. Ao fim do tratamento estava curada, apenas com a vistosa cicatriz a lembrá-la para sempre do que passou.

Hoje eu creio que muito do que eu fiz da minha vida está inscrito nessa história. Para o bem e para o mal a minha trajetória está marcada por esta narrativa.

Estava ali a sua cicatriz, marca de sua força e resiliência, que a acompanhou até o fim da vida. A longa marca que lhe riscava o braço permaneceu com ela até depois da memória ter se recolhido para o último sono.

– Até breve, disse eu, mais uma vez.

* um nome inventado. Minha mãe contava que era um médico da comunidade alemã de Porto Alegre, onde todos se conheciam pelos sobrenomes e pelas origens.

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Sobre dor e perdão

Quando sua filha nasceu estava de plantão no último dia como doutorando no hospital escola onde estudou. Passados 13 dias veio a se formar, e apenas três semanas depois já estava novamente de plantão, agora como residente. No dia do parto não tinha mais do que 26 anos e, além dos temores que cercam o parto, ainda estava angustiado com a escolha dos novos residentes, o que deveria acontecer nos próximos dias.

Por certo que o jovem estudante prestes a se formar não interferiu no parto da própria esposa, que ficou a cargo de uma residente. O parto foi muito tranquilo, apesar das violências de praxe comuns daquela época. Entretanto, depois de várias horas de ocorrido, já no fim da madrugada, o recém pai foi profundamente maltratado pela residente. Esta foi grosseira, maldosa e até ameaçadora. Fez uma cena em pleno centro obstétrico apenas porque o doutorando foi acompanhar sua mulher e filha recém nascida à maternidade e não permaneceu ao seu lado para passar os dois casos restantes da noite anterior para os próximos plantonistas.

Nunca conseguiu aceitar a violência daquelas palavras. Era impossível entender as razões pelas quais ela foi tão bruta com um colega seu que acabava de ser pai e precisava dar assistência à sua esposa e filha. A raiva do seu olhar nunca lhe saiu da cabeça, como uma interrogação, uma dúvida. Entretanto, intuía que tal manifestação era direcionada a outro sujeito, e que estaria tão somente ocupando o lugar de outra pessoa.

Muitos anos mais tarde ele finalmente ficou sabendo do que se escondia por detrás do meramente manifesto na cena. Aquela médica era namorada – há vários anos – de um homem casado. Certamente que nutria a esperança que ele abandonaria a esposa para, finalmente, ficar com ele, e testemunhas lhe contaram que esta médica era verdadeiramente apaixonada por aquele sujeito. Entretanto, exatamente na época deste parto, o namorado comunicou que estava abandonando sua esposa… mas também não a queria mais. De uma só tacada livrou-se das duas mulheres de sua vida para se juntar a uma terceira, a qual nenhuma das duas tinha conhecimento.

Para ela o efeito foi devastador. Uma relação de muitos anos desmoronava de uma hora para outra. Nesse ínterim, seu colega – um sujeito sem importância, sem brilho, sem destaque, sem glamour – torna-se pai durante o seu plantão. A alegria do nascimento e a exaltação do parto conquistado foram demais para ela. Explodiu em indignação e, por certo, enxergava na felicidade do jovem colega o amante a quem tudo ofereceu e nada obteve em troca. Colocou naquele amanhecer toda a sua indignação nos ombros de alguém que passava por um dos momentos mais intensos e transformadores de sua vida.

Por muitos anos ele a odiou em silêncio. Não podia admitir que tamanha grosseria pudesse ser justificada. Sua alma só veio a serenar quando, finalmente, pode conhecer o drama que se desenrolava por detrás da violência verbal a que foi submetido em um momento onde só deveria haver felicidade.

Por fim foi possível perdoá-la, mesmo sem jamais ter lhe dito como havia ficado magoado com suas atitudes. Sua dor iniciou e findou sem que ela soubesse.

Não há dúvida que, fosse possível conhecer as dores que habitam os corações machucados, seria mais fácil entender as reações violentas que nos atingem. Por certo que muito mal já fizemos aos outros sem sequer notar a amplitude do dano que causamos, mas tenho a esperança que o perdão possa um dia acalmar estes corações.

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Hierarquias

*Eu já disse, há uns 25 anos, algo parecido com “cidadão, não”, mas por sorte os celulares ainda não haviam sido inventados. Não me convidem para linchamentos de crimes que já cometi.*

O sargento se aproximou de mim carregando nas mãos as folhas de papel datilografadas nas velhas máquinas do quartel. Trazia consigo as escalas de plantão de “médico de dia” e as escalas da obstetrícia do hospital militar onde eu trabalhava. Eu havia pedido a ele algo razoavelmente simples: a troca de plantão da sexta feira porque ele coincidia com trabalho que eu realizava em outro hospital. Era notório que, apesar de ter vontade, eu não possuía o dom da ubiquidade. Como tenente médico eu estava acostumado a estes encontros com os sargentos que trabalhavam na administração do hospital. Como todos tínhamos plantões fora do hospital era normal e corriqueiro que tivéssemos choques com nossa “agenda externa”.

Esse era o dia-a-dia dos sargentos que trabalhavam no setor administrativo do hospital. Homens por volta de 45 a 50 anos de idade, geralmente em final de carreira, que haviam seguido por anos a fio a carreira militar dentro do hospital ou do quartel adjacente. De nossa parte, éramos oficiais médicos, mas também enfermeiras, dentistas e bioquímicos – muitos, como eu, temporários – que apesar da pouca idade (eu tinha na época menos de 30 anos) éramos hierarquicamente superiores a eles.

“Nunca chame um soldado, cabo e mesmo um sargento pelo nome”, era a regra não escrita. O correto era chamá-los pela função, uma forma de torná-los “uniformes” e retirar deles qualquer caráter de subjetividade. “Passe-me a lista de plantões, sargento”, disse-lhe eu ao chegar no setor. Assim, sem qualquer sinal de que estava falando com outro ser humano igual a mim.

Esse foi o primeiro grande choque que senti entre o mundo civil e o mundo militar. Sempre fui ensinado a chamar as pessoas mais velhas de “senhor”, pois além da determinação bíblica que nos fala “honrai pai e mãe”, há que respeitar uma específica gerontocracia cultural, que nos fala que os mais velhos precisam ser tratados com a devida reverência.

Ali era o contrário. Um senhor de quase 50 anos tratava um garoto de 29 como “senhor”, enquanto nós, meninos imberbes e garotas recém formadas, tínhamos que tratá-los por “tu”, ou “você”. Isso criava uma distopia que só podia ser entendida no contexto militar.

– Não há como trocar seu plantão, doutor. Seu nome já saiu no boletim.

Eu não podia aceitar essa negativa. Meu plantão em outro hospital era tradicionalmente às sextas feiras e eu não tinha como fazer a troca por lá. Precisava ser no hospital militar. Disse-lhe, do enorme problema que teria caso não houvesse a troca, mas ele apenas remendou:

– Não é possível, doutor. Estou com o boletim em mãos e o seu nome já consta aqui.

Eu sabia que ali também estava presente a “opressão dos pequenos poderes”. Sei bem que era possível fazer uma “gambiarra”, colocar uma emenda no boletim, riscar um nome e colocar outro. Sabia, entretanto, que as trocas só podiam, dentro da lei, ser feitas com 48 horas de antecedência, e faltavam apenas 36 horas para o meu plantão. Eu estava errado, eu havia esquecido, eu não tinha razão.

Fiquei furioso, mas nada disse. Eu sabia que a culpa do choque de plantões era só minha. Fiquei olhando para o sargento e pude imaginar a sua alegria dissimulada por dizer não para um superior. Pensei argumentar mais alguma coisa, mas foi um pequeno deslize do sargento que me salvou.

– Você pode falar com o Coronel, se quiser. Eu não tenho autorização para fazer a troca.

Foi a sua única falha. Pontual e quase imperceptível. Talvez ele mesmo a tenha percebido imediatamente após a última sílaba dita, mas já era tarde. Foi a minha deixa.

– Você? Tem algum “você” aqui? Pois saiba, SARGENTO, que eu sou TENENTE, e que devo ser chamado por “senhor”. Está bem entendido? Agora veja como vai consertar este meu problema…. Sargento.

Ele ficou em silêncio e seu olhar se dirigiu para o chão, onde quatro sapatos lustrados nos sustentava. Logo depois balançou afirmativamente a cabeça. Não podia dizer nada. Silenciosamente pegou os papéis à sua frente e riscou meu nome.

– Vou trocar seu plantão e colocá-lo na próxima semana.

Prestou a devida continência e se afastou. Meu problema estava resolvido.

Bastou ele virar as costas para eu entender que havia quebrado um mandamento pessoal que havia criado para mim mesmo quando comecei a trabalhar como médico em uma unidade militar. “Jamais permitir que as artificialidades do mundo militar me corrompam”. Era minha promessa silenciosa que acabava de ser quebrada; bastou chegar em um ponto limite de tensão para usar as mesmas prerrogativas que eu desprezava. Fui arrogante, fiz um uso indecente da autoridade que tinha. Humilhei um sargento usando de minha patente superior. E tudo isso para resolver uma questão que era de inteira culpa minha, por ter esquecido de trocar o plantão.

Já se vão 25 anos dessa experiência, e jamais me esqueci dela. Ficou marcada como uma mancha, uma nódoa. Percebi que ninguém pode se dizer infenso a estas veleidades sem ter passado por um teste, onde seus valores serão avaliados no limite. Eu passei por este teste e fracassei.

Não tenho nenhuma autoridade moral para criticar aqueles que, diante de momentos de tensão e angústia, também sucumbiram à tentação fácil da arrogância.

PS: curiosamente, eu já havia contada essa história há muitos anos, exatamente com o mesmo sentido: mostrar que todos nós, por melhor que seja a imagens que temos de nós mesmos, carregamos máculas que aparecem em circunstâncias limítrofes, mostrando uma parte escondida de nossa alma – aquela que não gostamos de enxergar. Se quiser conferir a versão antiga (e mais completa) ela está aqui.

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Consulta Virtual

Depois de 35 anos de análise dei uma parada em função da pandemia. Fui convidado a continuar na modalidade “à distância”. Via Skype ou Whatsapp.

De pronto me neguei.

Entendo a necessidade de manter os atendimentos. Entendo que é possível manter uma análise à distância e compreendo o ineditismo da pandemia em termos de confinamento, mas não consegui aceitar para mim este modelo. Até porque não aceitaria atender assim, salvo emergências.

Após receber o convite fiquei pensando sobre as “sessões virtuais” e cheguei a conclusão que minha dificuldade em aceitá-las tem a ver com a sacralidade que reconheço nesse tipo de encontro.

Não apenas o contato direto com o terapeuta me parece essencial mas todo o ritual que o cerca – sair de casa, pensar no caminho, aguardar uns minutos antes de ser chamado, voltar para casa, ruminar sobre o que foi discutido, tomar decisões. Todos esses passos fazem parte do processo. Para além das terapias, também é um ritual que está impregnado na forma como se estabelecem os encontros médicos. Três décadas escutando pacientes me mostrou que existe muito mais numa visita ao médico do que as palavras ditas na brevidade de uma consulta.

Muitas vezes o não dito é mais importante do que o debatido, assim como as palavras podem ser menos importantes do que os silêncios. As vezes sobrevém a sedução de pensar “mas era algo simples, olhar um exame“, mas as coisas são simples tão somente na aparência. Cada encontro desses carrega um fardo de angústias, tensões, histórias, lembranças e um pedido sutil de ouvidos benevolentes em uma escuta gentil e respeitosa. Muitas consultas eliminam sintomas bastando para isso sentar e chorar um pouco.

Em silêncio.

Para além disso, as questões do “olhar”, que considero muito importantes, são fundamentais. Lembro das queixas de pacientes sobre seus médicos quando diziam “ele nem olhou para mim”. Isto é, ele não reconheceu sua dor, sua tristeza, sua angústia.

Sei que sou cafona, boko-moko e saudosista. Sei também que talvez não haja saída ou futuro para este médico que, não só estava presente mas ia na sua casa e sabia o nome do seu cachorro. Sei que os vínculos hoje são tênues e os médicos carregam epítetos estranhos e despersonalizantes como “médico do posto” ou “médico do convênio”, sem rosto, sem nome, sem estilo e sem história. Todavia, a velhice apenas deixou mais evidente uma crença da juventude:

“O maior remédio que um médico pode oferecer ao seu paciente é sua presença e sua escuta isenta de preconceitos, e nenhuma cura verdadeira ocorre sem vínculo” (adaptado de Balint)

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Piadas

A piada era: “qual a pior parte da b*? A mulher que vem junto.”

Na adolescência isso parecia engraçado entre os garotos. A gente estava numa fase “incel”, e agia como a raposa diante de cachos saborosos de uva, desprezando o que não podíamos alcançar. Depois de amadurecer um pouco – e encontrar a alma feminina que se escondia por debaixo das curvas – a piada se revelava em sua objetualização horrenda e, assim, perdia a graça e o sentido.

Pois agora percebo, sem surpresa, que este tipo de piadas vira de lado, com o mesmo caráter depreciativo. São os homens que agora são tratados com desdém, descritos como os “maridos dos programas de TV” – estúpidos, ignorantes, infantis, tolos, limitados e inúteis. A naturalidade com que as meninas contam essas piadas – iguais àquelas da nossa juventude e com sentido trocado – prova que não há nenhuma superioridade moral de um gênero sobre o outro. Para mim sempre foi clara essa semelhança por cima de todas as outras diferenças superficiais: dadas as mesmas condições, homens e mulheres são igualmente grosseiros ou virtuosos, estúpidos ou geniais.

Todavia, as mulheres que amam seus homens – pai, marido, filhos, irmãos – sentem desconforto com estas piadas depreciativas, exatamente porque sabem que elas desprezam o próprio amor que devotam a eles.

Qualquer ideia de uma diferença essencial esbarra na realidade evidente: ambos carregam a mesma centelha de inteligência ou violência.

PS: A razão dessa reflexão foi ler uma menina escrevendo em um fórum do qual participo “eu gosto mesmo é de p*, o problema é o homem que vem de brinde”. As gargalhadas que se seguiram fizeram eco com o que acontecia na minha adolescência. A mesma piada agora sendo contada pelas mulheres, e talvez pelas mesmas razões de antigamente.

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Zíper

Ainda impactado com as novidades que vivenciei em meu primeiro plantão em um centro obstétrico, encontrei meu pai recostado em sua poltrona lendo um livro e tomando uma xícara de café. Eu não tinha muito mais do que 20 anos de idade e o contato com o nascimento humano me havia deixado deslumbrado. Mais do que o universo químico, hormonal e mecânico que eu só aprenderia mais tarde, esta oportunidade me havia jogado de cabeça na realidade crua e selvagem do parto. Em verdade, mal eu sabia que esta experiência me transformaria de tal maneira que seria o funil pelo qual, por muitos anos, eu enxergaria o mundo.

No plantão que fiz como estudante em um pequeno hospital de periferia acompanhei, junto ao médico, o nascimento de uma criança. Lembro até hoje do nome do bebê que nasceu: Maurício. Não pude esquecer porque se parecia com o nome do meu pai, “Maurice”, uma provável homenagem ao cantor, ator e humorista parisiense Maurice Chevalier. A explosão sensorial a que fui submetido foi estupenda. Senti-me catapultado para um estrato de percepção completamente diverso daquele a que um menino ainda adolescente vive em seu cotidiano. As dores, os puxos, os esforços, o suor, o sangue, o líquido da bolsa, o grito, o alívio. Depois o cansaço, a dúvida, as incertezas. Também vi o abandono e a superação, todos juntos e embrulhados em um pacote chamado “vida”.

– Acompanhei um parto ontem no hospital, disse-lhe eu, fingindo uma naturalidade que evidentemente era falsa.

– Humm, disse ele. Que tal?

– Interessante, respondi.

– E como é? Em verdade eu sou do tempo em que os pais eram proibidos de entrar em um centro obstétrico. Mas, para ser sincero, nunca me passou pela cabeça assistir algo assim. Mesmo se tivesse esse direito eu declinaria. No nascimento dos meus 4 filhos minha única preocupação sempre foi saber se havia gasolina suficiente no carro para levar até o hospital. O resto era com as freiras e com os médicos.

– Eram outros tempos, disse eu. Pois é muito curioso ver uma criança nascendo. A dilatação, o aparecimento da cabeça, o corte no períneo para permitir a saída e o nascimento e depois os pontos para fechar o corte.

– Corte na vagina?

– Sim, se chama “episiotomia”.

Ele parou alguns instantes, tomou um gole de café. Ficou me olhando com uma face desconfiada. Por fim, perguntou:

– Como é feito este corte na vagina?

– Com bisturi ou tesoura. Fazemos assim para não estragar a vagina. Se o corte não for feito os tecidos esgarçados pela passagem da cabeça podem se romper de forma errática, destruindo a anatomia dessa região, o períneo. É uma forma de “civilizar o parto” que, de outra forma, poderia trazer danos para a mulher.

– Hummm, respondeu ele coçando a cabeça. Ok, eu entendi, mas com qual material é feito esse bisturi? E a tesoura?

– Creio que de aço inoxidável, por quê?

Ele sorriu e respondeu:

– Sua história não faz sentido. Não consigo entender como poderiam usar aço inoxidável para fazer isso.

Eu sabia que havia um truque em sua pergunta, mesmo assim resolvi continuar.

– Qual o problema? Queria que usasse outro material? A questão é que nos hospitais a esterilização e as autoclaves pre….

Ele me interrompeu com a mão espalmada a frente.

– Calma, não estou fazendo críticas ao material, mas não consigo entender como um processo fisiológico e natural como o parto precisa de uma ajuda tecnológica que tem apenas algumas poucas dezenas de anos. Para mim, ajudar tecnologicamente um parto é como furar o nariz para aumentar a passagem de ar, como se nossos narizes fossem insuficientes, defectivos e falhos. Como o processo adaptativo de milhões de anos se esqueceu de dotar as mulheres de um “zíper” neste local para auxiliar na passagem de um bebê? Como as parteiras primitivas cortavam o períneo na pré-história? Com pedra lascada?

Tomou mais um gole de café e continuou a me bombardear com perguntas desconcertantes.

– Como podemos admitir que um processo fisiológico e natural necessita de um “conserto” que só vai ocorrer milhões de anos depois? Essa conduta – romper as vaginas para alargar a passagem – me parece insensata se formos analisar por uma perspectiva darwinista. Onde estava o processo evolutivo que não olhou para as mulheres? Por que a natureza se esqueceu delas e ficou milhões de anos aguardando um garoto como você para ajudar estas senhoras a terem seus filhos?

Para um eletricitário aposentado ele tinha uma observação muito objetiva da realidade. Eu fiquei sem entender sua posição e por causa disso resolvi fazer o que qualquer um faria: desconsiderei sua fala acreditando ser apenas uma tolice produzida por alguém que não conhecia o tema em profundidade. Troquei de assunto e contei as outras peripécias do meu dia de plantão.

Corta a cena e, oito anos depois, eu fazia plantões – agora como obstetra – em um hospital de periferia. Depois de costurar um períneo na madrugada lembrei das ponderações do meu pai naquele encontro regado a café. Pensei na sua observação e nas suas exatas palavras: “Não faz sentido”. Questionei solitariamente os significados últimos desse procedimento e o que lugar ele ocupava na narrativa contemporânea da obstetrícia. Lembrei de suas origens com De Lee e a emergência da obstetrícia como especialidade médica, ao mesmo tempo em que ocorria o ocaso da parteria. Alguns anos depois Robbie Davis-Floyd escreveria “Birth as an American Rite of Passage” e este enigma, em minha mente, seria solucionado. Antes disso, no início dos anos 90, durante a solidão de um plantão de periferia, eu decidi que não faria mais episiotomias de rotina, que não mais perpetuaria um procedimento que, lentamente, ia se configurando como uma real violência contra as mulheres e sua integridade física. Naquele exato dia, com as lembranças da perspectiva do meu pai sobre esse procedimento, eu abandonei essa prática.

Ainda perplexo pela minha decisão, resolvi escrever nas costas de um manual de obstetrícia, um código pessoal de conduta para os procedimentos obstétricos. Procurei ser o mais sucinto possível e criei uma lista que se baseava em cinco pontos capitais, sendo o sexto adicionado apenas 10 anos depois quando do surgimento das doulas no Brasil:

1- Ambiente acolhedor
2- Posição vertical como padrão
3- Suporte físico e emocional
4- Uso restrito de drogas
5- Uso restrito de intervenções
6- Auxílio de doulas

A observação do meu pai havia plantado uma semente de dúvida sobre o que era, em essência, o proceder médico. Pude enxergar que tais procedimentos são baseados no que eu mais tarde chamaria de “misoginia essencial”, que pode ser definida como a incapacidade da sociedade patriarcal em reconhecer as mulheres como intrinsecamente capazes e aptas para suportar os desafios que lhes cabem, em especial aqueles ligados à reprodução. Por fim, entendi que a tarefa de auxiliar as mulheres durante o parto passava por uma compreensão da real posição de um cuidador: aquele que deve estar ao lado, invisível, como feito de vidro, para que suas intervenções não venham a ofuscar a luz que emana daquelas que devem brilhar.

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Desculpas

Há alguns anos escrevi um texto a respeito de um post em um blog que eu havia lido. Era uma história sobre sexualidade que mexeu comigo porque sempre tive esse tipo de angústia em relação aos filhos, crianças, adolescentes, etc… Por impulso escrevi um texto no Facebook sem citar de onde vinha este relato, mas dizendo que discordava do que havia sido escrito por uma série de razões. Era, por certo, um chamado à reflexão, não um ataque a uma pessoa que sequer sabia quem era.

Na minha cabeça era como escrever um texto a partir de uma notícia da Reuters que dizia (inventei a notícia): “Mulher búlgara adota apenas um dos gêmeos”, e eu respondesse: “Ora, eu não acho justo que apenas um seja adotado. Isso é cruel”. Assim, de forma impessoal, sem jamais imaginar que essa mulher do outro lado do planeta viesse me contestar pela minha posição pública quando ao caso, sem maiores aprofundamentos.

(Espero que o presidente atual não venha me cobrar pelas coisas que digo dele também…)

Para minha surpresa a pessoa que escreveu o post me escreveu indignada – furiosa até – e, anos passados, ainda existem reverberações dessa onda de contestação dura que surgiu após a sua manifestação. Acabei fazendo bloqueios em massa, não por discordância das teses em questão, mas por ofensas, agressões, ameaças e ódios. Só anos depois descobri quem era a autora do post e sua luta contra abusos sexuais, mas quando descobri já era tarde.

Não quero tratar do tema do post e da minha crítica a ele, e também sei que as pessoas que desenvolveram ódio por mim não vão me perdoar pelo que vou dizer agora, mas acho que é melhor dizer isso do que deixar em silêncio.

Eu errei. Errei rude. Eu me arrependo do que escrevi. Novamente, nem se trata de questionar o conteúdo – sobre ele poderia haver muito debate – mas certamente da forma. Não há desculpa para uma coisa feita até com boa intenção, mas que acaba ferindo pessoas. Fui ingênuo e burro ao não perceber que minha crítica poderia – pelas vias fluidas da Internet – chegar aos olhos da pessoa a quem eu me referia, mesmo morando em outro país. Além disso, a questão central – a sexualidade – não poderia ser tratada num post público desta forma, pois ela oferece gatilhos para muitas identificações e angústias.

Errei duramente por ter publicado de forma aberta. Poderia ter escrito privadamente para amigos que pensam de forma parecida – ou mesmo antagônica – para ver os limites do tema, mas jamais abertamente, imaginando que isso pudesse ser tratado “em tese”.

Na época eu escrevi para a autora do post original pedindo para conversar, mas ela, compreensivelmente, não quis. Creio que por muitos anos me odiou e não tiro suas razões. Errei, mesmo sem o desejar, ao expor suas escolhas, com as quais na época discordava.

Sim, gostaria de pedir perdão pois vi que muitas pessoas lembram desse fato ainda com rancor. Sei também que para elas eu não serei perdoado, e também não as culpo, mas o pedido de desculpas públicas não exige respostas de quem solicita, apenas o reconhecimento do erro por quem o praticou.

Aprendi com esse erro e procurei não repeti-lo, já passados quase 4 anos. Tive mais cuidado. Não fiz um pedido de desculpas anterior porque não queria despertar o vendaval de acusações que agora voltou à tona. Ou talvez apenas por medo, insegurança e vergonha. Talvez tivesse sido melhor fazê-lo antes, mas este, por certo, foi outro erro.

Todavia, nunca é tarde. Peço humildemente perdão também e – em especial – para seu filho que acabou sendo envolvido na discussão. Peço desculpas para as pessoas a quem ofendi e magoei, mas não peço nada em troca. Apenas deixo claro que reconheço o meu erro e que devo desculpas a todos por não entender a dor que poderia provocar com a amplitude das minhas palavras.

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Desapego

Minha decisão de morar de modo muito simples foi fortemente influenciada pelo Caminho de Santiago. Lá podemos ver de forma marcante que as “coisas” em nossa vida funcionam muito mais como peso do que por sua utilidade real, sejam carros, casas, roupas, utensílios, etc, e que desprender-se delas é uma parte importante do nosso caminho em direção à alegria das coisas simples.

Só depois de morar em uma casa pequena me dei conta do quanto de inutilidade existe no nosso modelo de vida. Vivemos existências perdulárias cercadas de redundâncias coloridas. As casas grandes precisam ser preenchidas com mais coisas, porque seus vazios denunciam a tolice dos exageros.

Nas casas pequenas a exiguidade do espaço nos faz repensar a utilidade dos artefatos. Depois de um certo tempo nos damos conta de que a qualidade de vida em nada foi prejudicada com a auto expropriação de centenas de badulaques e do lixo sofisticado que carregamos. E também nos damos conta que não possuímos coisas, mas que elas nos possuem.

Roupas? 10 calças? 20 sapatos? 3 carros? Camisas e ternos? Sério que precisamos tudo isso? Será que não somos todos – dentro do capitalismo – acumuladores patológicos em uma sociedade que preenche seu vazio de valores com coisas e objetos cuja utilidade é questionável?

Penso nas mansões dos artistas de Hollywood, gigantescas obras recheadas de inutilidades, apenas para que tantos quartos vazios não os lembrem todos os dias da miséria de uma sociedade em que milhares dormem nas ruas pela falta de um canto para repousar.

Viver na simplicidade, como fazia Gandhi, parece ser uma forma muito mais leve de carregar a vida

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