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“À bença, João de Deus”

Quando da visita do papa em 1980 ao Rio Grande do Sul, mais exatamente na minha cidade – Porto Alegre – foi realizada uma grande festa de recepção a ele. Nessa oportunidade houve uma gigantesca mobilização da população da província para a chegada do sumo pontífice em terras gaúchas. Entre as manifestações mais curiosas todos se lembram daquela, na frente da Praça da Matriz, quando o público em uníssono bradou com fé e paixão: “Ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho!”

Quando buscaram encontrar a origem de tamanha explosão de criatividade e poesia ufanista, encontraram um menino mirrado, cabelos escorridos, carinha de anjo rebelde, com as mãos carregadas de panfletos mostrando o rosto sisudo e sereno do “Papa do Povo”. Ao pé do palanque armado com canos e madeirame, com os olhos brilhando e o coração disparado de pura alegria infantil, o menino que havia criado o refrão não contava mais do que 14 anos e repetia a frase, mesmo quando ela já se havia extinguido na boca única da multidão que se aglomerava na frente da Catedral Metropolitana.

Esse menino sorridente era o Roger, meu irmão.

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Racismos

Uma página do site do hospital que proíbe doulas mostrava uma criança negra, linda por sinal, e uma pergunta abaixo da imagem: “Minha filha tem os cabelos excessivamente crespos. Com que idade posso fazer alisamento”? Muitas pessoas se indignaram com a pergunta (fictícia ou não) dessa mãe, por entenderem que se tratava de racismo, além de estimular vaidade em crianças muito pequenas. Depois da chuva de protestos contra a proibição absurda e grosseira da presença de doulas, a página que continha essa pergunta sobre cabelos de bebês também saiu do ar. Tenho uma história que pode lançar uma luz sobre isso. Claro, entendam como uma história que ocorreu há 30 anos, em um hospital da minha cidade, no sul do Brasil.

Estava na fila do hospital para o almoço. Era residente do primeiro ano do Hospital e meu irmão residente de segundo ano. Conversávamos sobre tratamentos clínicos, interações entre pediatras e obstetras (meu irmão estava terminando a residência em pediatria aquele ano) quando um casal com um bebê se aproximou. Era um casal de negros. O homem um sujeito de estatura média, cabelos raspados ao estilo “afro”. A mulher era uma negra, com o tom da pele bem mais “café com leite”, uma cor, aliás, bem brasileira, que dificilmente se vê nos Estados Unidos, pois que os puritanos americanos a achavam degradante.

Nosso “cadinho de raças” tem, para muitos estudiosos, esta raiz cultural. Somos um país mulato, misturado e, como diria o nosso ex-presidente Fernando Henrique, “só é racista quem não conhece sua árvore genealógica”. Eu, por exemplo: nome inglês, cara de branquelo, pai pernambucano, avós ingleses, bisavós espanhóis e portugueses do Alentejo. Do Alentejo uma pele mais escura, da “mouraria”. Dos mouros para a África, e de lá venho eu. Mas, voltando à história, o pai do bebê chamou meu irmão, que estava na fila, e pediu para falar-lhe. Marcus afastou-se da fila e por alguns minutos falou com o casal, que mostrava para ele uma ficha verde, para onde apontavam com insistência. Alguns minutos depois meu irmão volta para a fila com um ar assustado.

– Que houve, perguntei.
– Não vais acreditar o que eles estavam solicitando. Eu fui o pediatra que atendeu o nascimento daquele bebê há dois dias. O papel que eles me mostravam era a ficha pediátrica. Nela estavam escritos os dados principais do nascimento do menino: peso, comprimento, apgar, e … cor. Evidentemente eu coloquei a cor como sendo “negra”. Pois o pai estava solicitando para que eu mudasse a cor do bebê na ficha. Sim, ele queria que seu filho fosse oficialmente… “branco”.
– Mas… como assim?, disse eu. Eu vi o casal, o pai era preto, a mãe mulata. E também vi a criança. Você por acaso não esqueceu de fazer o…
– Sim, ele disse… claro que eu fiz o “teste do saquinho”. É preto, cara, claro que é…
– Mas por quê? Qual a razão para isso? perguntei
– Só um mundo ainda racista pode explicar isso, disse meu irmão desanimado…

Uma sociedade que criminaliza a cor da pele, que desvaloriza o ser humano pela etnia e afasta seres humanos por graus variáveis de melanina acaba produzindo cenas como essa. O pai dessa criança estava apenas tentando tirar do seu filho a penalização social de ser negro em uma sociedade dominada e controlada pelos brancos. Eliminar a negritude de seu filho parecia o melhor a fazer, pois tal ação poderia livrá-lo de um fardo pesado que carregaria por toda a sua vida. Ser negro, nos anos 80, era muito pior do sê-lo hoje em dia. Agora temos o sistema de cotas, que de uma forma rápida tenta equalizar o fosso que que a cultura escravagista cavou nesse país, separando negros e brancos pelas diferenças de oportunidade. Somente agora estamos vivendo em uma sociedade mais respeitosa, e ainda assim alguns abusos são encontrados.

Entretanto, muito ainda há a fazer para se construir uma sociedade justa e digna para todos. Eliminar o racismo é uma dessas tarefas que precisamos tratar com urgência. A mãe que quer livrar a filha dos cabelos crespos não está fazendo algo semelhante ao que este pai desejava para seu filho, há 30 anos?

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Ajuda?

Lembrei de uma história que eu acho muito emblemática dessa situação e que aconteceu no segundo parto de uma paciente minha que teve 3 filhos, sendo o último um parto em casa (que fez com que ela mudasse totalmente os planos para a sua vida, e decidisse ser doula e, agora, enfermeira obstétrica). Quando se encontrava nos momentos finais de seu segundo parto seu médico a colocou naquela conhecida posição de “litotomia” (também conhecida como posição de frango assado). Além disso, ele fazia coro com a sonorização mântrica habitual de “comandar” o parto, com gritos, frases feitas, etc…

– Força comprida, não para, não para. Prenda a respiração e empurre sem parar !!

O obstetra continuou assim por um bom tempo, enquanto a pequenina coroava lentamente, dentro do seu próprio tempo, apesar de prejudicada pela ambiência, os gritos e a posição desfavorável. Passados alguns poucos minutos ele resolveu escutar os batimentos cardíacos do bebê, o que é uma conduta adequada e baseada em evidências. Entretanto, provavelmente por causa da posição muito baixa de um bebê que já estava coroando, ele não conseguiu escutar os batimentos. Talvez – esta a hipótese mais provável – o coraçãozinho do bebê estivesse atrás do púbis e o meu colega, no afã de se acalmar com o som dos batimentos, não teve paciência para procurar com mais vagar. Diante da ausência de som tranquilizador brotando do sonar ele ficou apavorado, o que é muito comum entre os profissionais que, por formação, desconfiam das mulheres e dos mecanismos de parto, acreditando que toda a mulher é uma bomba relógio prestes a explodir. Com um bebê coroando e sem saber o que fazer, ele falou para a sua paciente, com a voz entrecortada de pânico:

– Bem, seu bebê tem que nascer, agora você vai precisar me ajudar…

Logo depois o bebê nasceu. É claro, um parto com “kit intervenção completo”: Kristeller, episiotomia, etc… O Apgar foi excelente, o bebê logo chorou e foi levado pelos pediatras. Tudo bem, como normalmente acontece, apesar das condutas equivocadas e/ou exageradas. Entretanto nunca esqueci o que minha paciente falou. A frase do seu obstetra é, para mim, emblemática da “couvade” da obstetrícia, a expropriação furiosa da medicina ocidental sobre o fenômeno do parto.

“Bem, seu bebê tem que nascer, agora você vai precisar me ajudar…”Como assim? Para parir uma mulher tem que “ajudar” o médico? Não seria o contrário, o médico ajudar a mulher, principalmente evitando gritos e procedimentos desnecessários e abusivos?  Mas, no mundo contemporâneo o parto não pertence mais às mulheres. O nascimento nos dias atuais é algo que médicos e hospitais fazem, e as mulheres são meras ajudantes. Pior ainda é o fato de elas serem consideradas como um “obstáculo” à boa condução de um procedimento médico, totalmente incapazes de favorecer um nascimento, de forma que ele ocorra com segurança e a “necessária” rapidez. Para transformar esse quadro, só se mudarmos a maneira como as mulheres enxergam a si mesmas.

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Presentes

Uma pergunta, para estimular a reflexão: Quando a gente dá um presente, que tipo de mecanismo psicológico se produz, qual o processo mental que ocorre e quem verdadeiramente recebe o benefício? Digo isso porque vejo muitos avós dando presentes para os netos (mas não apenas avós; tias, mães, etc…), mas o verdadeiro presenteado me parece ser quem efetivamente DÁ, e não quem recebe. As descrições que elas me fazem deixam muito claro que o presente funciona (inconscientemente, é claro) como uma forma de pagamento para o verdadeiro produto: o agradecimento que o segue. Quando uma criança recebe um brinquedo (que ela joga fora logo depois) e agradece dizendo “Obrigado vovó, eu te amo!” eu me questiono quem realmente recebeu e quem ofereceu. O problema é que muitas pessoas usam presentes exatamente com o intuito de receber afeto de volta, criando nas crianças a noção de que existem mediadores nas demonstrações de afeição e carinho. Isso eu acredito ser profundamente deletério para o desenvolvimento dos pequeninos.  

Max sempre me disse: “As coisas verdadeiramente importantes na vida são absolutamente gratuitas“. Eu não compro presentes para os meus filhos desde que eles eram pequenos. E fazia de propósito. Natal na minha casa era com chazinho, bolo, avós, tias, e sem presentes. Eu me negava a entrar no círculo vicioso dos presentes. Não há como fugir dessa troca de favores regulado pelo dinheiro, a não ser com uma atitude drástica. Quando meus filhos eram pequenos a Zeza, reuniu os avós e algumas tias e disse: “Não quero presentes para os meus filhos. Natal não é para isso. Não quero criar uma mentalidade consumista em crianças pequenas.” E eu apoiei inteiramente.  

Eu creio que dar presentes para crianças pode ter um efeito deletério, inadequado e também pode produzir efeitos ruins em longo prazo. Mas é claro que não é o presente em si que é ruim, mas a carga afetiva que o acompanha. Criar uma mentalidade consumista em crianças, onde o dinheiro media carinho e amor, pode destruir a ideia central de que a afeição deve se bastar por si, e não ser comprada. É claro que comprei presentes para meus filhos durante vida deles, mas também me perguntei quem é que estava ganhando alguma coisa, e me questionei sobre o “preço” verdadeiro que estava sendo pago. Dar presentes mascara, muitas vezes, necessidades afetivas de quem presenteia. E não estou generalizando, mas (como disse na primeira linha) provocando uma reflexão sobre o verdadeiro valor dos presentes, dados e recebidos.

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Sobre os Poderes

Pessoas poderosas (imagine aqui qualquer uma, dos políticos aos artistas) sofrem pela terrível pressão do poder. Eu não sei exatamente como é isso – sou um mísero parteiro da província – mas posso ter uma ideia do que seja este peso pelas experiências reveladoras pelas quais passei. Uma delas foi importante, e a ela sou muito grato.

Quando eu servi como militar nos primórdios da década de 90, fiquei de início – como qualquer calouro – muito intrigado e impactado com o modelo hierárquico rígido existente na unidade médica em que eu trabalhava como obstetra. É importante destacar que as hierarquias são absolutamente necessárias em um modelo que prepara homens para o combate. Não fosse assim, existiria um exemplo de “exército democrático” na história da civilização, mas isso obviamente nunca ocorreu. A rigidez desses níveis de poder e responsabilidade são fundamentais para certas ações que ocorrem nos cenários de guerra. Entretanto, para mim era estranho, e até constrangedor, que um sargento que tinha idade para ser meu pai precisasse me chamar de “senhor” (por eu ser um oficial médico) e eu fosse obrigado a chama-lo de “tu”, mesmo sendo ele muito mais experiente e maduro do que eu. Apesar de entender a lógica por trás dessa determinação, o costume de mais de 30 anos com a vida fora da caserna produzia em mim esse “choque de valores”. Quando por fim me acostumei com esse modelo (muito à contragosto e de maneira forçada) eu prometi a mim mesmo que, exatamente por ser um oficial temporário, jamais usaria esse tipo de prerrogativa – a patente militar – como um argumento válido em uma disputa qualquer.

Entretanto, certo dia, lá estava eu discutindo com um sargento sobre as famigeradas “escalas vermelhas”, que eram as escalas de oficiais em fins de semana e feriados. Lá pelas tantas da conversa eu percebi que meu nome havia sido colocado em uma data muito inadequada. Não havia como estar de plantão, pois me faltava o “dom da ubiquidade”. Imediatamente expliquei ao sargento responsável que nesse dia específico eu estaria fazendo um curso (provavelmente minhas aulas de pós-graduação em homeopatia) e que eu poderia fazer este plantão em outra data, bastando para isso que trocassem meu nome pelo de um colega. O sargento me interrompeu dizendo que a escala já havia sido enviada para o “boletim” e que nada mais havia a fazer.

Virei uma fera. Expliquei que não poderia deixar de ir à aula por causa de uma burocracia e disse que chamasse o soldado de volta trazendo a escala e que, depois disso, trocasse a data que iria para o boletim. Ele respondeu que não faria isso, pois isso seria burlar uma regra existente sobre as escalas de plantão. Nesse momento, irritado pela negativa peremptória da “praça”, eu disparei: “Ah, você vai fazer isso sim, …sargento“. A última palavra estava frisada propositadamente, destacada para mostrar que eu estava dando uma ordem baseada na minha hierarquia, e não na minha razão ou na correção do meu pedido. Era violência, pura arrogância. O poder explicitado; a determinação inquestionável.

Imediatamente eu me lembrei do compromisso que havia assumido alguns poucos anos antes. Meu olhar inexpressivo fixou-se na parede em frente e o filme da minha “promessa” passou diante dos meus olhos, tal qual o filme que Pedro assistiu depois de negar o Mestre por três vezes. Petrifiquei-me em silêncio e, envergonhado, nada falei. Vi o sargento buscar a folha de escalas e trocar as datas na minha frente. Nada disse, nada comentei. Silenciei diante da minha escandalosa prepotência.

Um pouco de mim eu conheci naquele dia, e a partir de então pude entender a pressão que existe pela prática do poder. Eu falhei vergonhosamente no meu teste, e tive plena certeza desse fato. Eu por muito tempo cultivara a ingênua ilusão de que, mesmo tendo a possibilidade de dar ordens inadequadas em função de uma posição artificialmente construída pela corporação, eu jamais usaria tal prerrogativa em benefício próprio. Engano. Falhei como falham muitos os que subestimam a força coercitiva de uma posição de destaque. Errei como tantos os que acusam os corruptos, os assassinos e os ladrões, como se estivessem infensos à sedução de usar o poder – todo ou em parte – que lhe foi concedido ou conquistado. Errei ao supor que minhas frágeis convicções poderiam suportar o peso das necessidades egoísticas emergentes.

Publius Terentius Afer (Terêncio) já dizia: “Eu sou um homem, e nada do que é humano me é estranho”, e com isso nos ensinava que a iniquidade, a falha, o egoísmo, a vaidade e o medo, que tão facilmente percebemos nos outros, habita igualmente em nós. Apenas depois dos testes que a vida nos oferece é que podemos acreditar em nossos valores. Sem a prova da realidade, ficamos apenas com as palavras vazias e as boas intenções. Mas A Virtude espera mais do que belas citações; elas nos chamam à pratica dessas posturas.

Nossos amigos que abusam do poder provavelmente acreditam estar fazendo o melhor que podem diante do peso que carregam. Mesmo parecendo lícito combater e criticar o suborno, a corrupção, a mentira e a falsidade, também é verdadeiro que tais ações, quando analisadas subjetivamente, não podem ser alcançadas pelo nosso juízo pessoal. Para criticá-las talvez seja mesmo necessário caminhar os tais mil quilômetros usando os mocassins de quem as praticou.

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Plata por un Corazón Eterno

*articulista especialmente convidado, Roger Jones*

Miguelita Hernandez Santa Cruz de la Santíssima Concepción é uma bem sucedida jornalista de Tegucigalpa, Honduras. E graças ao seu radiante talento e simpatia diante das câmeras, torna-se apresentadora do mais famoso programa de auditório da América Central: “Plata Por Un Corazón Eterno”. Todas as semanas, ela oferece um milhão de lempiras ao casal que demonstrar que o amor “vale a pena”.

Mas, curiosamente, nunca, durante anos, qualquer casal ganhou o prêmio.

Até que um candidato aparece no programa. Ele está sozinho e diz, com olhar desafiador: “Quero provar, Miguelita… que vale a pena.”A apresentadora gosta dele:

“Ok, ok ! vamos para mais um Plata Por Un Corazón Eterno ! uma salva de palmas para o candidato ! uhuuuuu ! mas… e quem é o seu par ?”

O candidato responde em tom macho e sedutor:

“Você, Miguelita.”

“Ahahah, eu? ah, que bonitinho… ei… tá falando sério? gente ! ele tá falando sérioooooooo! ai pára de me olhar assim! nah… não pode… eu estou aqui para me darem esperança, apenas… e… ai, gente! olha a ousadia do rapaz! uhuuuuu!”

A plateia adora a ideia do destemido candidato, e grita pra Miguelita:

“Aceita!! aceita!! aceita!! aceita!! aceita!!”

Aos poucos o semblante de Miguelita transforma-se. Diante de todos, deixa de ser a apresentadora descontraída e segura, expondo, com desconcertante veracidade, a face feminil do seu desamparo, da sua solidão e do seu desejo por amor. O sorriso televisivo dá lugar à expressão da mais profunda tristeza. E, com os olhos úmidos, silencia diante dos gritos da plateia e dos telespectadores de todos os recantos de Honduras.

O candidato, olhando para as câmeras, propõe as regras:

“Se eu provar à Miguelita que o amor vale a pena, abdico de receber um milhão de lempiras… pois me sentirei o homem mais rico do mundo… mas se não conseguir provar… eu… eu cometerei suicídio… aqui nesse palco, diante de vocês… pois a minha vida não terá mais nenhum sentido… eu quero apenas uma noite, Miguelita… a noite de hoje.”

A plateia volta a gritar:

“Aceita! aceita! aceita! aceita! aceita!”

Após longos minutos de gritaria e suspense, Miguelita, atordoada e com o olhar perdido, pede auxílio à produção:

“Por favor, tragam-me o pacote com um milhão de lempiras.”

Miguelita, séria e morrendo de medo, recebe o embrulho com as cédulas e oferece ao candidato. Mas ele recusa o prêmio:

“Eu quero você, Miguelita.”

“Não… leve o dinheiro… você me provou… são as regras.”

Desta vez a turba histérica grita para o candidato:

“Não aceita! não aceita! não aceita!”

Miguelita ignora o desejo de seu público:

“Tome o dinheiro… vale muito mais do que uma noite comigo.”

“Não, Miguelita… uma noite com você vale muito mais do que um milhão de lempiras… uma noite com você vale uma vida… vale a minha vida…”

Mais gritaria no ambiente. Miguelita está tão apavorada que volta a se defender em sua personagem. E fala ao povo:

“Ai, gente ! agora eu não sei!! Agora eu não sei se esse homem é perfeito ou se é um pateta!! ahahahahah!! Até quinta que vem para mais um… Plata Por Un Corazón Eterno!! uhuuuuu!! eeeeehhh!!”

A apresentadora se despede do público e abandona o palco. Apesar de ainda faltar mais de uma hora para terminar o programa.

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O Capeta

Essa é uma velha piada da família. Meu filho Lucas, quando pequeno, adorava a música “Capeta”, que é muito antiga, mas foi relançada nos anos 80 pelo Sérgio Mallandro. No meu segundo livro, no capítulo chamado “Paternidade” eu falo dessa passagem quando menciono que…

“… Ele, então, sorriu graciosamente. Desfez a cara de choro e deu mais um salto. Pulou de satisfação. Girou, rodopiou. Lançou-se ao vazio. Gritou como se não houvesse espaço nem tempo. Cantou mais uma música de palavras embaralhadas. Sorriu um sorriso gigantesco e mágico. Talvez ele estivesse percebendo, na sua cabecinha prodigiosa de criança, que, ao seu lado, seu pai acabara de nascer.”

Pois nessa música o Lucas cantava “Onecy” e não adiantava a gente explicar que a letra da música era “Co-nhe-ci um capeta em forma de guri“. Ele sapateava e dizia que era assim e pronto. Um dia estávamos todos assistindo ao programa do Sérgio Mallandro na TV, em que as crianças se apresentavam num show de variedades, quando uma delas pediu para cantar uma música. Oferecendo o microfone, Sérgio Mallandro perguntou “Qual a música?”, ao que o menino (que tinha a idade do Lucas, uns 5 anos) respondeu “A música do Capeta!!”. Eu e a Zeza imediatamente chamamos o Lucas dizendo:

“Lucas, aprende agora como se fala. Presta atenção como é a letra verdadeira da música!!”.

Então a criança esperou os primeiros acordes do playback e disparou:


“O-necy, um Capeta em forma de guri!!”

Bem, fomos obrigados a escutar um “Eu não falei!!!“… e a partir desta data resolvemos que era inútil tentar dizer qualquer outra coisa. Hoje em dia até eu tenho sérias dúvidas sobre qual a verdadeira letra dessa canção…

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Função Paterna

Esse é é um tema que sempre me atraiu e que deveria ser mais explorado, já que o movimento de contracultura no mundo inteiro trouxe o pai para a sala de parto na esteira das profundas modificações dos papéis masculinos e femininos do pós-guerra. O tema é: “Função paterna no nascimento. O pai (dis)funcional”. Minha posição de homem presente no nascimento me propiciou muitos momentos delicados em que pude observar de uma forma evidente a função paterna no processo. Entre tantos, lembro-me do episódio de um parto que acompanhamos, eu e Zeza, em Coimbra Portugal.

Estávamos acompanhando um conhecido parteiro português, em um atendimento domiciliar. O local era ermo, distante da cidade; uma espécie de sítio bem afastado. Lá estava uma menina de uns 17 anos em suas dores. Primeiro filho, o namorado não passava dos 20, mas se comportava como se tivesse 16. Lá também se encontravam o pai da menina e a namorada deste (a mãe morava na Inglaterra). Ah, detalhe importante: eram todos ingleses, que moravam em Portugal. Lá pelas tantas, no período de transição, ela começou a fazer os resmungos que nós tão bem conhecemos, típicos da famosa “fase de transição”: “não aguento”. “parem tudo”, “me deixem”, “quero uma cesariana” e assim por diante. Continuou com esse comportamento por muitos minutos, enquanto na sala contígua, eu e o pai dela conversávamos, tentando desviar a atenção das tensões inexoráveis de um trabalho de parto. Num determinado momento, incomodado com as reclamações da menina, e sem sair da sala em que nos encontrávamos, o pai se levantou e bradou:  

– Escute aqui, pare com essa choradeira. Você escolheu isso. Vai continuar até o bebê nascer. Você não tem outra escolha. Agora feche a boca e se concentre em ganhar esse bebê!  

Ele disse isso no limite tênue que separa a “voz alta” do grito; entre a firmeza e a grosseria. Eu achei que o comportamento do pai havia resvalado para a rudeza desnecessária, mas o que se viu a seguir foi deveras interessante. Depois dos brados paternos só o que se ouviu foi o silêncio; mais nenhuma palavra, muxoxo, reclamação ou pedido. Apenas um leve ranger de dentes entremeado com suspiros profundos. Da sala contígua só podíamos imaginar o que ocorria no quarto, onde o parteiro acompanhava a parturiente, ladeada pela madrasta e por sua irmã. Mais alguns minutos e ouvimos os sons graves que anunciam um bebê achegando-se ao portal vaginal; o limite último do túnel que o leva à luz e à vida. As palavras exultantes do nosso amigo enfermeiro nos anunciaram a chegada do menino antes que ele pudesse chorar. As mulheres gritavam e podíamos escutar os seus abraços, mesmo que seja difícil definir a sonoridade que eles produzem. Alegria, lágrimas e a festa que tanto conhecemos.

O que restou como interrogação para mim foi a intervenção paterna, cortando um ciclo de vitimização, numa espiral de fragilidade que a estava levando a uma desistência. Sua voz firme e autoritária pode ter cumprido uma função que mesmo eu, no papel de médico, jamais poderia realizar. Para mim, havia, sim, alternativas. Não me caberia acabar com a possibilidade de desistência, pois que nunca poderia julgar os desafios que só ela poderia aquilatar. Desistir de um parto é, apesar da dor que possa nos causar, uma das alternativas legítimas. Mesmo que isso possa ser motivo de um eterno arrependimento, qualquer intervenção da equipe médica nessa decisão entra na categoria de “tutela”. Não nos cabe tomar esse tipo de deliberação; apenas a mulher pode decidir em que ponto de suas dores – do corpo ou da alma – ela considera ter alcançado o limite.  

Entretanto, a intervenção moral das palavras do pai teve um efeito apaziguador. Parecia que a ela faltavam o “limite”, a contenção e a borda. Quando ele bradou, exigindo que ela mantivesse seu propósito original, a mim pareceu que ela acordou (mesmo que ainda dentro do seu sonho de partolândia) para um compromisso maior, anteriormente firmado. Funcionou. Mesmo que seja um espaço impossível de ocupar por quem aceita o pleno protagonismo feminino no parto, tal ação com a marca da função paterna parece ter algum ensinamento a nos oferecer.

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No Texas, com Vitor e Bebel

Uma tarde de julho de 2011, na modorrenta cidade texana de Austin, eu trafegava na Capital of Texas Highway com minha filha Bebel Jones, de volta de Barton Creek Mall e em direção ao Barton Springs Swimming Pool, local ideal para nos refrescarmos do calor escaldante do verão texano. Ao passar exatamente pela ponte da I360 – um dos mais bonitos cartões postais da cidade de Austin – o locutor da rádio da UT – University of Texas – anunciou a próxima música a ser tocada. Disse que essa canção era do sul do Brasil, de um local próximo da Argentina, uma cidade chamada “Porto Alegre”. Ao ouvir a nossa cidade ser comentada com um sotaque anasalado texano eu e Bebel pulamos do assento. “Quem será?”, pensamos em uníssono mental. Quem estaria ali conosco, no Texas, representando a arte do sul do Brasil? Lupicínio? Alguma música regional? Música de gaudério?

Ele continuou sua fala elogiando o intérprete e compositor, chamando-o de “grande talento da música brasileira”. Finalmente nossa angústia chegou ao fim, e ele disse o nome do autor da próxima música. Eu e Bebel sorrimos ao ouvir o nome óbvio, dito pela voz enrolada do “speaker”. Sim, só poderia ser Vitor Ramil, e a música escolhida foi “Livro Aberto” do seu CD Satolep Sambatown. Abri o vidro do carro e coloquei a música no volume total. “Escutem, gringos, a música do Brasil!!”. Grande emoção, como se um pedaço dos meus valores e lembranças viesse me encontrar em um local distante através das ondas e da sonoridade de um rádio.

Esta é a Pennybacker Bridge em Austin, Texas, que passa por cima do Lake Austin. Eu me emociono sempre que passo por sobre ela, também porque me lembro da canção do Vitor Ramil e da companhia da minha filha Bebel Jones.

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O Poder Feminino

Rafael Bublitz nasceu há 16 anos em um parto domiciliar na cidade de Porto Alegre. Sua mãe teve os filhos em sua própria casa pela absoluta impossibilidade de se transferir para um hospital. Nunca houve tempo para isso; seus cinco filhos nasceram no aconchego do acanhado apartamento no bairro Cristal. Seus trabalhos de parto não contavam mais do que poucos minutos, e quando ao anoitecer o telefone gritava em minha casa era apenas para anunciar um fato já consumado: “Ela acabou de ganhar o bebê, doutor”, me repetia – sempre com a mesma entonação que misturava assombro e alegria – o seu orgulhoso marido Álvaro.

De tão impactado fiquei ao testemunhar estes nascimentos percebi que era necessário contar a história desses partos, tão puros, simples, rápidos e fáceis. Precisava dizer que o nascimento podia ser entendido de outra maneira, visto por uma ótica mais suave e lírica, e que talvez a forma técnica, fria e impessoal com a qual tratamos as mulheres nesse momento tão especial seja um dos mais importantes fatores para a “desumanização” de um momento tão rico em significados e formas de expressão.

Convencido da importância de não deixar que as histórias se percam no vazio das palavras não ditas, o nascimento de Rafael foi descrito no meu primeiro livro “Memórias do Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista” no capítulo “Madalena e os Mistérios do Nascer”.

Hoje “Madalena”, nome fictício da verdadeira mãe de Rafael, veio ao meu consultório com um sorriso no rosto e um jornal na mão. Queria me mostrar o que Rafael tinha escrito. O texto de seu filho havia sido selecionado entre centenas de alunos do ensino médio em um concurso literário cujo tema era “Amélia”. Sim, aquela mesma da música do Mário Lago. O tema, que se escondia por detrás do título, era a “mulher” e sua nova posição na sociedade contemporânea individualista e ocidental. Um imenso desafio para um garoto de 16 anos que sonha estudar direito. Pois Rafael resolveu tratar desse assunto abordando o “Poder Feminino”, e – talvez mesmo sem o perceber – fez uma linda homenagem à mãe poderosa e valorosa que, num ato de coragem e ousadia, recebeu seus filhos neste mundo como cidadãos, e não como pacientes.

Mesmo que o essencialismo de Rafael possa ser criticado, quando fala que “o papel feminino se define pela capacidade de ser mãe”, creio que sua exaltação da maternidade como expressão legítima do poder feminino é digna de elogios. Rafael Bublitz tem apenas 16 anos, e isso explica alguma falha, mas o que se mostra evidente é que um nascimento digno e respeitoso carrega consigo consequências que ultrapassam a nossa experiência imediata, produzindo um “imprint” indelével que marcará a alma por toda a existência.

Abençoadas sejam para sempre, todas as “Madalenas” que despertam para a importância de um nascimento pleno de PAZ.

Aqui o texto de Rafael Bublitz publicado no Jornal Zero Hora em 8 de agosto de 2012:

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