Arquivo da categoria: Humor

Irmãs Dempsey

“Na foto a histórica imagem das irmãs Dempsey, do condado de Bruns, que nasceram com uma espécie rara de gemelaridade siamesa chamada Mamófagos (ligadas pelo seio). Elas trabalharam no circo Rilling Bros durante 25 anos até morrerem de intoxicação por geleia contaminada em 1925. Elas se chamavam Ethel e Erna e se casaram com dois distintos cavalheiros londrinos chamados Ernst e Carlton. Ernst foi um homem conhecido na realeza britânica e chegou a ser condecorado por atos de bravura na batalha de Galipoli, na Turquia. Carlton por seu turno era um escritor de romances e colecionador de selos, e sempre teve uma vida reservada.

Acontece que Ernst e Carlton também eram gêmeos e igualmente xifópagos, porém unidos pelas nádegas (nadegófagos) e ficaram casados com as irmãs Dempsey até o fim de suas vidas. Os irmãos morreram em um acidente de paraquedas na semana seguinte à morte das irmãs. Esta morte quádrupla foi sentida de forma muito intensa pela sociedade inglesa em meados dos anos 20 e houve um minuto de silêncio de todos os palhaços de circo na Inglaterra naquela semana.”

Curiosidades curiosas de um mundo curioso “, volume 5, maio 1963, pág 135.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

Travesseiro

travesseiro-plooma-penas-e-plumas

Compassiva, ela sofria por tudo e por todos. Bastava ver uma tristeza alheia que logo a tomava para si. O mundo era uma fonte inesgotável de dissabores. Tanta pena tinha que à noite colocava sua cabeça sobre um travesseiro cheio delas.

James Elwood McCormick, in “The bright shade of the Moon“, Ed Palmarinca, pag 135.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Humor

Ofélia

Ofélia (2)

Conversa com Ofélia no MSN

Ofélia: Em que cidade você se encontra?

Ric: Que eu me lembre havíamos nos despedido, e você disse que me encontrar tinha sido um “equívoco”. Portanto, um equívoco em Lisboa, na Austrália ou no Rio, que diferença faz?

Ofélia: É que não estou conseguindo saber de onde podemos ter nos conhecido

Ric: … continua sendo um equívoco

Ofélia: Você disse que o adicionei, eu não me recordo do seu rosto

Ric: Você deve perguntar isso a você mesma, pois foi VOCÊ quem adicionou

Ofélia: Creio que fiz confusão, só pode ser

Ric: Ok. Mais uma vez…. te desejo boa sorte

Ofélia: Desculpe estar sendo incômoda

Ric: Não me incomodas…  tudo de bom e um ótimo fim de semana

Ofélia: Você acredita em acasos?

Ric: Não; acredito em causalidade, e não em “casualidade”

Ofélia: Estou procurando dar sentido ao ocorrido

Ric: Procure dentro de você, no universo complexo das suas motivações

Ofélia: Márcia é você? Só pode …

Ric: ???? Márcia? Credo. Boa sorte e bom trabalho, seja ele qual for

Ofélia: Sou arquiteta

Ric: Bons projetos para você.

Ofélia: Bom atendimento no PS para você

Ric: Obrigada querida. Puxa… levou tempo até você descobrir que era eu. Quase te peguei, né?

Ofélia: Que maneira estranha você tem de dialogar

Ric: É verdade; estranha, complicada, incisiva e, por vezes, dilacerante

Ofélia: Você está em uma fase negra, né?

Ric: Sim, problemas com marido, filhos… você sabe como é, e conhece bem a minha história

Ofélia: Gente, sem palavras.  És maçom?

Ric: Como poderia ser maçom sendo mulher? Você não sabe que esta ciência secreta é vedada a nós, mulheres?

Ofélia: Em que mundo você vive? Eu sou maçom. Existem lojas mistas

Ric: Eu e Platão vivemos no mundo das ideias. “Lojas mistas” é coisa sem aceitação. Modernismos de alguns poucos, sem representatividade

Ofélia: você demonstra muito conservadorismo

Ric:Eu não sou conservadora, a maçonaria é que é

Ofélia: Maçonaria não é assim

Ric: Meu marido é maçom, você sabe disso

Ofélia: Você frequenta apenas jantares?

Ric: E os encontros também…

Ofélia: Que chatice, né? É maçante

Ric: Maçom, maçante…. a palavra “maçom” deve ter surgido daí.

Ofélia: Você tem humor, maravilha, seria interessante tê-la em nossa loja.

Ric: Quem sabe; se o meu marido deixar

Ofélia: Você só faz o q seu marido permite?

Ric: Só… é da minha religião, você sabe

Ofélia: Qual sua religião?

Ric: Sapratista

Ofélia: De religião sou leiga

Ric: Na minha religião o marido manda em quase tudo, mas as mulheres podem determinar o tamanho das melancias e a qualidade das manteigas

Ofélia: Você só pode estar brincando comigo

Ric: … e podem comprar sapatos (sem cadarço) aos sábados, por isso a religião chama-se “sapratista“, que mistura as palavras “sábado” e “sapato”…

Ofélia: Sua mente é criativa

Ric: As religiões são criativas

Ofélia: Neste ponto concordo com você, muito criativas em criar ilusões. Você deveria pensar em escrever

Ric: Mas a nossa religião é um avanço da epistemologia e da metafísica. Acreditamos num Deus gay, portanto ele é soberbo e altivo

Ofélia: qual sua idade?

Ric: 49

Ofélia: Já era tempo de ter descoberto que somos livres para pensarmos e agirmos. Nenhuma religião ou pessoa (marido) tem direitos sobre você.

Ric: Por certo

Ofélia: Se você está nisso é porque gosta e permite

Ric: Mas fui eu que escolhi esta religião. Porque as escrituras apontam neste sentido, e a verdade está na palavra de Deus

Ofélia: Creio que já passou da hora de você acordar para o mundo real e você interpreta errado, com certeza

Ric: E você interpreta de forma certa, é isso? Quem te garante isso?

Ofélia: Nenhum Deus quer alguém escravo, amiga. Ou você é tapada ou quer se passar por tal

Ric: Eu não sou escrava… sou uma odalisca do Senhor dos Universos

Ofélia: Seu marido deve ter dindim e você está mal resolvida. Deveria se tornar voluntária. Com certeza faria bem ao seu espírito.

Ric: Mas eu SOU voluntária

Ofélia: Nem vou perguntar em quê.

Ric: Porque você resolveu me agredir? Eu te fiz algum mal?

Ofélia: Querida. Você não desenvolve diálogo. Você tem problemas de comunicação.

Ric: Você é que não consegue se comunicar comigo. Fica falando de maneira soberba, como se fosse a dona da verdade.

Ofélia: Senhora !!

Ric: Eu apenas falei da minha crença e da minha fé

Ofélia: Não existe dona da verdade

Ric: Então não se coloque neste lugar !!!!

Ofélia: Visto que a verdade pode ser compreendida por diversos ângulos.

Ric: Mas você parece só ver o seu.

Ofélia: Eu venho procurando desenvolver assuntos de maneira a compreender de onde possa ter surgido seu MSN…

Ric: Minha flor; você me adicionou !!!

Ofélia: Obrigada pela flor

Ric: Talvez estivesse querendo falar com uma amiga, desabafar

Ofélia: Isso você expôs no inicio

Ric: …ou um lado lésbico seu estivesse aflorando. Sem preconceitos. Tenho um irmão meu que é lésbico

Ofélia: Eu não preciso de amiga para desabafar, para isso existe profissional neste quisito

Ric: Meu irmão fez cirurgia de troca de sexo e agora só transa com mulher. Eu acho que ele é meio pirado até. Mas eu respeito Katielle (antes ele se chamava Afonso). Bem, eu não tenho esse quesito na minha vida

Ofélia: Definitivamente não sei quem você possa ser

Ric: Tive um tempo, mas agora ele é um ex-quisito

Ofélia: Não conheço seu marido, assim sendo, boa diversão no que esteja fazendo

Ric: Igualmente amor

Ofélia: Deletado está

Ric: Beijos nas crianças

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

Sorte Grande

Business Man Displaying a Spread of Cash over a green vintage background

Recebido agora por e-mail. Estou exultante de felicidade!!!

Caro beneficiário:

Meu nome é Collins Helms e eu estou entrando em contato a partir da United Nations no Reino Unido para informar que seu e-mail xxxxcxx foi listado para receber a soma de US $ 4,000,000,00 USD como fundo de compensação da Organização das Nações Unidas.

Queremos que você saiba que o seu check herança de $ 4,000,000,00 USD foi aprovado em seu nome e você é aconselhar a contate-nos imediatamente para permitir que nosso correio afiliados para enviar o pacote para você. Aconselhamos mais você a manter esta transação confidenciais a si mesmo, de modo a evitar mal-entendidos indesejados e comprometimento do seu fundo de herança.

Esperando sua resposta
Obrigado

Collins Helms
_____________________________________________________________________________

Caríssimo Sr Collins Helms

Obrigado pela notícia alvissareira.

Receber esta soma de dinheiro sem aviso prévio é o que eu chamaria de surpresa deveras agradável.

Ademais, fico ainda mais feliz em receber esta maravilhosa notícia logo agora. Por uma dessas coincidências da vida, hoje mesmo iniciei as conversações para o recebimento de uma quantia fabulosa de uma senhora de Benin que, ao me encontrar na Internet, resolveu graciosamente me oferecer a soma de 10 milhões de euros que estão confiscados pelo sistema bancário do seu país. Os entraves burocráticos serão rapidamente vencidos, o que resolverá, em breve espaço de tempo, minhas agruras financeiras.

Está herança de 4 milhões de dólares americanos já tem um destino certo, tão logo cheguem ao meu bolso: comprar um barquinho de lata para o meu sítio. Caso sobre alguma quantia comprarei um Triplex no programa “Meu Triplex, minha Vida“.

Agradeço de coração pelo seu interesse em fazer com que a herança que me é devida chegue o mais rápido possível às minhas mãos.

Eternamente agradecido

Wassif Dehr

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

Caneta

Caneta

A piadinha autodepreciativa mais comum na minha época de doutorando e residente era feita pelos professores e contratados durante os episódios tediosos de espera no centro obstétrico.

“Qual a definição de médico?”, diziam eles com cara debochada.

Os alunos ficavam se entreolhando e esperando pela bobagem que inevitavelmente viria.

Depois de um breve silencio, a resposta:

“Um médico é um sujeito que tem um fusca, uma caneta Parker e um par de chifres”

Ra, ra, ra… todos os sorrisos tingiam de amarelo a sala do cafezinho.

A foto abaixo é da caneta Parker que meu pai me deu como presente de formatura. Ali se lê 13-12-85. Já se passaram três décadas desta data.

O fusca vendi há muitos anos.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Humor

O Retorno do Soldado

O Retorno do Soldado

(Roteiro adaptado sobre uma ideia original de Isabel Jones)

Depois de passar 12 anos foragido Ricachensky (Rick) Yonewsky voltou a ser visto em público. A sua trágica desaparição há mais de uma década destroçara sua família, destruíra seus afetos e criou uma dúvida entre todos os que de alguma forma privaram de sua intimidade.

O que, afinal, aconteceu com Rick Yonewsky?

As marcas no rosto denunciavam a dor e a penúria que sofreu. Do pouco que disse soube-se que vagou entre os campos de concentração na Armênia e o exílio no Turcomenistão. Quando, por fim, terminaram seus dias de angústia e pôde voltar para casa, só desejava o afago da família e o abraço dos filhos que, sem surpresa, sequer o reconheceram. Mas por que foi e, mais importante ainda, porque voltou? Que mistério rondava a “fuga” do soldado Rick?

Eu não lembrava mais da sua cara, papai“, disse Bebeluska, que mal sabia seu nome, já que há doze anos fora dado como morto ou foragido. “Porque voltou depois de tanto tempo?“, perguntou ela.

O velho soldado nem sabia o que dizer. “Voltei porque amo meu país, porque quero provar minha inocência, porque quero resgatar minha honra. E também porque acabou meu dinheiro”, disse ele derramando uma lágrima que driblava os sulcos profundos de sua máscara de sofrimento.

Sua mulher, Olga Zeziskaya, era duplamente viúva. De si mesmo, dado como desaparecido ou desertor, e de Vladimir Cocorutchka, vendedor de puxadores de persiana com quem havia se casado legalmente após Rick ser dado como oficialmente morto.

Infelizmente para ela Vladimir havia caído da janela em que instalava um puxador de persianas. Ao falsear o pé na borda ainda teve tempo de gritar “Perdoe-me Rick. Fiz tudo por amor”. As últimas palavras de “Vlad” denunciavam sua participação no “desaparecimento” de Rick, e talvez o regresso do soldado pudesse por fim esclarecer o mistério de 12 anos.

“Tenho muito a falar, e depois que o fizer não sobrará pedra sobre pedra. Aqueles que fizeram de minha vida um inferno pagarão por cada minuto de exílio e humilhação. E que Deus tenha piedade de suas almas, pois eu jamais perdoarei aqueles que tanto mal me causaram.”

Bebeluska chorava ao ver o pai tão velho e tão amargurado. Em sua cabecinha de menina era incapaz de imaginar as atrocidades pelas quais seu velho pai passou. Ela era toda espanto e surpresa, tanta que nem alegria pela volta do pai cabia em seu coração.

“Tudo isso ficará para amanhã. Quero todos aqui ao meu lado para que eu possa contar-lhes toda a verdade, a longa história suja que cerca meu desaparecimento. Aguardem.”, disse o velho combatente de olhar duro e face dolorida.

“Hoje apenas me permitam ir ao futebol, me afastar do mundo, desviar o olhar e a memória de tantos horrores e, por fim, olhar o preto, azul e branco vencer. Hoje só quero repousar a mente e, por alguns minutos, esquecer o que fiz, e o que fizeram de mim”.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

O Leopardo Surdo

BRIAN-BONDS-SOLO-604x270

Na verdade a banda estava afundando. Desavenças internas, disputas de beleza, vaidades, mulheres e drogas. A tensão era insuportável. Com tantas brigas muitos shows acabavam em bebedeiras e discussões e muitos contratos estavam sendo cancelados. Dick Chertok, empresário da banda, aconselhou a dissolução e que Jake Leopard, vocalista da banda (que é surdo, por isso a banda se chama Deaf Leopard – “leopardo surdo”) seguisse a carreira solo.

A partir desse conselho, Jake cheirou uma carreira inteira sozinho e convocou um reunião da banda. Era importante que todos soubessem o que viria pela frente. Vieram todos, menos o empresário, que foi buscar Coca no super e ficou preso no tráfico.

“A banda vai acabar, já sabemos”, disse Aaron, o baixista, mas Jake não o escutava. Jake é surdo do ouvido esquerdo, e o direito nunca se desenvolveu. Jake então pediu a palavra e falou:

“Vocês não sabem ainda, mas a banda vai acabar. Não há como pagar os custos. Gente demais, música de menos”. Disse isso e olhou para Martin, o tecladista, que era seu colega de escola e fundador da banda junto consigo. De uma certa forma eram parentes, pois Martin teve um caso com sua mãe que precisou ser resolvido na polícia e com a supervisão de um advogado de família.

Jake continuou: “Temos na banda um sujeito que toca triângulo e esse som aparece por 3 segundos em apenas uma de nossas músicas, mas ele viaja nas turnês sempre. Isso me parece absurdo e caro demais.”

Jerry, o trianguleiro, tenta reclamar. “Nunca me deixaram fazer um solo”, mas os outros o calam. “Cale a sua boca, Jerry!”

“Além disso, sinto informar, mas nossa música está ultrapassada, pois o roque morreu.”

Todos ficam em silêncio em respeito ao Roque, que tocava tuba na banda e saiu para excursionar com os alunos do colégio Maria Imaculada. “Não recebo o reconhecimento que mereço nesta banda”, disse ele ao abandonar o grupo”.

“O Roque errou, mas ele vai viver para sempre nos nossos corações”

“A banda acabou. Vamos encarar os fatos. O “Leopardo Surdo” não tem mais o que dizer ou cantar. Voltem para suas casas.”

Alguns ainda tentaram argumentar, mas Christian, o baterista, deixou claro que nada mais havia a fazer.

Sertanejo universitário é o que toca agora. Recomendo a todos que façam cursinho e passem no vestibular. É a única chance que temos.

Todos baixaram a cabeça, menos Jake, que disse: “Sertanejo universitário é o que mais toca, e…“, mas todos continuaram a sair cabisbaixos, sem dizer uma palavra.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

Jung, Freud e as polainas

Tive um sonho estranho na noite passada.

Sonhei que, após uma briga terrível com Freud por causa da cor das polainas do mestre, Jung teria voltado para casa, feito suas malas e apagado todos os selfies que tirara com seu ídolo. Feito isso, resolveu sair da cidade. “Espairecer, é o que preciso”, pensou ele.

Dirigiu-se à estação de ônibus e pediu um bilhete para a cidade em que morava sua mãe, Nova Hartz. Precisava de um carinho materno, colo, doce de figo e alguém que lavasse três malas de roupa suja que ele trazia consigo.

Mal entrou no ônibus (Ouro e Prata, semi-leito) olhou para a janela e viu sua cidade apequenar-se no horizonte, à medida em que se lembrava das circunstâncias de sua briga com Freud, ainda recordando, palavra por palavra, sua última desavença com ele:
“O uso de polainas salmão com calças pretas não era algo simplesmente derivado de uma predileção ou um fato aleatório. Não, Siggy, não! Não há coincidências!! É preciso haver uma conexão com algo maior, algo que extrapole a própria subjetividade, que seja resgatado de um poço de desejos e imagens, significantes e mitos, algo como… como um arquivo onde todos colocassem valores que circulam de forma não-sabida, em um campo simbólico, onde eles volitam até que alguém deles se aposse momentaneamente, e volte a colocá-los em circuito. Eles existem e nos governam, sem que possamos ter sobre eles consciência. Poderia chamar este lugar de… agora me foge o termo.”

Jung irritou-se com a impossibilidade de encontrar o termo adequado para a sua teoria, que parecia fazer todo o sentido. Freud, por sua vez, apenas acendeu seu charuto e respondeu: “Não creio que o inconsciente esteja preocupado com minhas polainas, Karl. Muitas vezes uma polaina é apenas uma polaina para esquentar as canelas. Faz frio nesse bairro, por Deus! Pare de buscar explicações que não existem para satisfazer suas teorias tolas!”

O mestre ainda teve tempo de dar uma baforada em seu charuto, visivelmente bravo e com seu nariz avermelhado pelo frio. Freud somente o chamava de Karl quando estava profundamente irritado, do contrário Gustav era o nome mais carinhoso. Jung não esperou que seu mentor completasse sua lista de ofensas prediletas. “Suiço comedor de queijo”, era uma das mais infames. Pegou seu chapéu de feltro com fita vermelha e saiu porta afora, não sem antes gritar: “Não me chame pelo whatsapp, Siggy. Você está definitivamente BLOQUEADO!

Dentro do ônibus, mareado um pouco pelas curvas, Karl mordeu o lábio ainda remoendo angustiosamente a raiva pelo acontecido. “Por que desprezar minha ideia? Por que ele sempre faz isso comigo? Por que insiste em me humilhar quando Sándor Ferenczi está por perto? E por que insiste em chamá-lo de “Sandy” na minha frente?”

O ônibus sacoleja quando sai da BR 116 e entra em direção a Taquara. Seus pensamentos estão cheios de mágoa, mas não consegue esquecer que a razão fundamental para esta briga estava alicerçada em uma disputa fálica: o mestre que jamais admitiria ver seu pupilo oferecer uma ideia inovadora. O filho que ousa desafiar o pai; o lobo velho que resiste e luta até sangrar e, por fim, morre. Porque precisa ser assim? Qual a razão de desprezarmos tanto o amor. Sim, o amor…

Subitamente um estrondo. O guincho estridente dos pneus é seguido de uma batida seca, o que faz tudo escurecer. O ônibus, ao desviar de uma vaca perdida, freia de forma brusca. A ação rápida do motorista salva o animal, mas faz o “Ouro e Prata” girar sobre si mesmo e cair na ribanceira que se estende ao lado da pista. Depois apenas o silêncio e breu…

Karl Gustav acorda com um policial rodoviário a lhe bater levemente no rosto. Sua face encovada e seus lábios finos estão ainda mais descorados. O quepe cor de cáqui do oficial quase lhe bate na testa. “Senhor Karl, senhor Karl, por favor, diga algo. O senhor está bem?”

Jung estava confuso. Lembrava da conversa na noite anterior no bairro do Bom Fim com Freud, e sabia que haviam brigado. “O que aconteceu depois? Onde estou? O que houve?”

“O ônibus caiu no barranco, senhor Karl. Foi muita sorte terem escapado com vida. O senhor esteve inconsciente no coletivo este tempo todo. Estamos aqui para lhe resgatar”.

“Ah, estive inconsciente… no coletivo? Inconsciente … coletivo?”

Jung ficou subitamente alerta. Foi tomado de uma espécie de euforia, que poderia ser traduzida pelos policiais que o cercavam como um surto de loucura. Arregalou seus olhos azuis helvécios e exclamou:

“É isso, é isso!! Preciso escrever, escrever!! Onde posso arranjar uma caneta BIC?”

O som dos passarinhos agride meus tímpanos em repouso e acordo com o alarme do celular. Olho para a mesa de cabeceira e vejo “Memórias, Sonhos e Reflexões”, de K. G. Jung.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor

Como saí do Armário

Hand of a child opening a cupboard door

É claro que eu contei primeiro para a minha mãe. Todos nós sentimos mais confiança nela, não? Ela é nossa reserva de amor, e confiamos que seu julgamento será baseado no afeto que tem por nós. Um dia, com um misto de coragem e um senso de urgência, eu falei assim prá ela:

– Sabe mãe, eu não sou como os outros meninos. Sempre soube que era, digamos, “diferente”. Desde o tempo da faculdade que tenho esses sentimentos estranhos. De inicio eu não me aceitava, ficava tentando me enganar. Até fiz coisas que me violentavam. Hoje sinto vergonha de coisas que fiz só por medo de não ser aceito. Não queria que os outros meninos me achassem estranho, bizarro e fizessem troça de mim. Todo mundo quer ser aceito, mãe. Na verdade a gente faz qualquer coisa nesse sentido; até faz coisas que agridem seus princípios.

– Sua mãe vai lhe apoiar sempre, filho…

– Sei disso, mãe, por isso tenho certeza que posso me abrir. Mãe, eu preciso lhe contar…

– Diga meu filho…

O momento era de angústia, e se podia sentir na própria pele. Um segredo por tempo guardado, mas que precisava ser revelado. Minha esperança é que minha mãe pudesse escutá-lo com ouvidos amorosos, e que seu julgamento não fosse duro e cruel como tantos que já havia presenciado.

– Mãe, preciso te dizer, antes que você fique sabendo por outros. Eu, eu, eu… eu não gosto tanto de cesariana quanto gosto de parto normal. Veja bem, não é que eu não goste de operar, mas é diferente. É uma sensação difícil de explicar. Operar não me completa tanto quanto ver uma mulher parindo pelas suas próprias forças. É uma coisa assim, sublime. É como se a cada parto eu pudesse ver um arco-íris na minha frente, brilhante, colorido e resplandecente. Espero que me entenda. Agora não tenho mais medo de lhe contar…

Minha mãe sorriu se escutasse uma história antiga.

– Meu filho, tolinho. Eu sempre soube e agora que você me contou eu o amo mais ainda. Vem aqui dar um abraço na sua velha mãe…

Foi assim. Levou tempo para contar, mas depois de dizer a ela eu me senti muito mais leve. Limpo e digno.

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção, Humor

O Judiciário e os autos

Porsche

Vamos parar com esse preconceito contra o judiciário do Brasil. Não há nada de errado na história do juiz dirigir o Porsche do Eike Batista pela simples razão de que essa apropriação está prevista na LEI.

Vejam bem: “é dever do juiz conduzir os autos do processo“.

Pronto. Está tudo explicado.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor