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Vícios

Uma pergunta que se faz necessária: se o indivíduo for impedido – química ou cirurgicamente – de desenvolver seu vício em crack, cocaína ou outro psicotrópico, qual outra droga ele vai eleger para completar o vazio ilusoriamente preenchido pelas substâncias das quais fazia uso?

Não esqueçam que uma margem grande dos pacientes de bariátrica desenvolvem algum tipo de adição ou transtorno psiquiátrico sério quando o vício de comer não pode ser satisfeito. O aumento dos casos de suicídio chega a 58% segundo alguns estudos.

Até quando vamos olhar para a consequência (o vicio) ao invés de reconhecer a causa (o trauma) para elucidar a longa e complexa tessitura da adição?

“Fatores como autoimagem corporal, traços de personalidade e presença de compulsão alimentar prévios à intervenção, dentre outros, têm sido implicados na evolução e no prognóstico desses pacientes”, completa Sallet. Entre os problemas, está o aumento do transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), complicação mais recorrente nos pacientes da cirurgia.

Por outro lado, o médico diz que, em alguns casos, é possível que condições psiquiátricas prévias se agravem, ou até mesmo novas doenças surjam após a cirurgia.

“Provavelmente, essas novas patologias são resultantes de fatores como necessidade de adaptação psicossocial à nova condição e de alterações psíquicas decorrentes de déficit nutricional”, detalha Sallet. Segundo o estudo, de 20% a 70% das pessoas que procuram a cirurgia têm histórico de transtornos mentais.

Os autores do trabalho brasileiro citam outro estudo, feito em 2007 por pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, que ilustra a incidência de mortes entre pessoas que passaram pela cirurgia. Segundo os americanos, mortes associadas a acidentes e/ou suicídio são 58% maiores em indivíduos no estágio pós-cirúrgico quando comparados aos que não fizeram a operação — isso sem contar os óbitos associados a comportamentos impulsivos, como bulimia e acidentes de trânsito. A maior parte dos suicídios se deu após apenas um ano da intervenção.”

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A ciência

Quem trabalhou como eu durante 40 anos em um ramo que se percebe científico, mas que funciona com os mesmos dogmas e sistemas de poder como qualquer igreja, entenderia mais facilmente minha crítica à ciência como expressão humana. Falo da ciência com “c” minúsculo, aquela construção humana, e não a “Ciência” abstrata, o conhecimento racional. A primeira é uma produção contemporânea, feita por mentes humanas e carregada com sua falibilidade e corrupção; já a segunda é o ideal racional, a ferramenta da transcendência humana, mas que quase nada existe no mundo real, sendo uma habitante do mundo das ideias.

Existem fatos inequívocos que mostram a veracidade dessa visão cética sobre a ciência. Estudos demonstram que metade das condutas médicas correntes não tem uma conexão com as evidências científicas. Outras pesquisas denunciam que que as próprias pesquisas – que deveriam dar suporte às condutas médicas – não são tão confiáveis como gostaríamos de acreditar. Veja aqui.

Por vezes parece que existe um totalitarismo dos cientistas, que seguem uma espécie de “ciência soviética”, a qual produz um monobloco de visões que se colocam na posição de saber acima de todos os demais, e que condena todos os outros saberes à extinção.

Isso torna a ciência a irmã dileta da religião…

Lembro de um encontro da UNIMED do Paraná em que fui convidado a falar sobre humanização do nascimento, um evento perdulário que se realiza todos os anos. No jantar fui colocado à mesa junto com uma psiquiatra que me falou: “Há muitos avanços na psiquiatria no mundo todo, mas nenhum maior do que a extinção de todo o resquício de pensamento freudiano. Hoje sabemos que tudo o que pensamos e sentimos se resume a alterações bioquímicas dentro do cérebro. Isso inclui dor, prazer e até o sabor dessa sobremesa“.

Fiquei esperando ela terminar dizendo “… e Fiel é o Senhor”, mas ela apenas sorriu com um olhar que apenas aqueles que falam de uma posição de certeza e fé inabalável possuem.

Quando trabalhamos dentro de um hospital ou de um laboratório é muito mais simples perceber de forma clara as incongruências e paradoxos do sistema. Da mesma forma, se você trabalhar na justiça verá que a mulher que segura a balança NUNCA está usando vendas e estará sempre com os olhos bem abertos para manter e garantir o poder para quem tradicionalmente o controla: as castas superiores que detém o domínio sobre os recursos e a produção.

E digo mais: quem trabalhou por muitos anos em traduções sabe que as traduções são realmente “traições” e não existe uma sequer que seja “isenta” ou “neutra”; sempre haverá a ideologia do tradutor na obra que traduz. A ideia positivista de uma tradução sem viés é tão ingênua quanto a de uma medicina ou uma justiça não ideológicas.

Por isso não é difícil dizer que na ciência não poderia ser diferente. O quê – e como – investigamos, assim como os próprios resultados que atingimos, são determinados pelas nossas ideologias e sustentadas pelos dois grandes pilares da civilização contemporânea: o capitalismo e o patriarcado. Ambos decadentes, mas ainda vigorosos o suficiente para ditarem as regras para o mundo em que vivemos. Enxergar a ciência pelo que ela verdadeiramente é, sem as fantasias de isenção ou neutralidade, não a diminui, mas a conduz à condição de criação social digna dos valores do seu tempo.

Perceber a complexidade da cultura é fundamental para não nos deixarmos engolir pelas visões ingênuas de imparcialidade que nos tentam impor. A decisão de passar um bisturi e rasgar a pele de um doente, ou de bater o martelo para condenar são produzidas no âmago de nossas convicções mais profundas, mais afetivas e menos racionais. Somos governados por nosso fígado, pelos nossos instintos menos nobres como medo, angústia e egoísmo, muito mais do que pela tênue camada de massa cinzenta que envolve nosso cérebro.

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Ciência

A solução está nos antibióticos? Mesmo? Fica então a pergunta: antes da penicilina como essas bactérias eram eliminadas? Todas as pessoas afetadas por infecções iam a óbito? E quais as razões para uma morrerem e outras sobreviverem? Quem – ou o quê – determina isso?

Minha inconformidade com esta imagem é que ela nos leva a pensar que APENAS A CIÊNCIA – experimental tecnológica e exógena – salva vidas. A proposta é essencialmente positivista, dando a entender que bacterias são destruídas apenas com “fungo de laranja” (Penicillium notatum), quando na verdade elas são destruídas – desde antes da existência do nosso gênero – por um sistema imunológico adequado e funcional. Assim, quando você mostra a penicilina se contrapondo às orações está colocando somente alternativas cuja dualidade é FALSA, pois muito mais importante do que AMBAS é o que o sujeito faz no seu processo dinâmico de autocura e homeostase, e pelos seus próprios mecanismos internos de regulação.

Pior ainda, aposta na ideia de que APENAS A intervenção tecnológica pode ser chamada de “ciência”, quando em verdade os estudos que demonstram as ações da meditação e oração também são Ciência – inobstante o quanto acreditamos em sua validade e/ou abrangência.

Humildade produz sabedoria. Ciência salva vidas, mas não apenas a ciência capitalista. Aquela que te ensina a ter um sistema imunológico forte, sem destruir o corpo com elementos “anti vida”, também.

Matéria recente do Correio Braziliense:

“Ao lado da ciência: O pneumologista Blancard Torres, titular do Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor do livro Doença, fé e esperança, não tem dúvidas: o paciente que tem fé incorpora em si a certeza da recuperação, aumentando a imunidade e as chances de resposta positiva ao tratamento. “Quando a ciência e a religião andam juntas, o combate aos males torna-se viável, a evolução do tratamento é completamente diferente do padrão observado em quem não têm espiritualidade, não acredita em bons resultados”, observa. (…)

(…) Koenig coordenou uma pesquisa realizada com 4 mil pessoas com idade acima de 60 anos que seguiam diferentes credos. O resultado do trabalho demonstrou que a fé também proporciona uma vida mais longa. Seis anos depois de começado o estudo, foi verificado que menos da metade dos indivíduos que não tinham uma crença religiosa estava viva. “Em contrapartida, 91% dos seguidores de alguma religião permaneciam saudáveis”, garante o americano.”

PS: Uma ressalva da minha parte: rezar não tem necessariamente NADA a ver com religião, mesmo que todas elas usem das orações em sua prática. Portanto, não se trata da ilusória união entre “ciência e religião” (para mim inconciliáveis, pois uma trabalha com a projeção e a outra com a realidade, uma com o desconhecido e a outra com o conhecimento) mas a abrangencia da metodologia científica sobre fatos até então do domínio exclusivo das religiões.

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Exatidão

Claro que existe exatidão em várias ciências humanas, e existe até humanismo nas exatas. Entretanto, o gráfico acima é para ser mesmo generalista. Certamente você terá muita dificuldade encontrar uma enfermeira, assistente social ou socióloga cuja PAIXÃO seja fazer cálculos e estatísticas, algo fácil de descobrir na engenharia ou na física. Da mesma forma, será difícil encontrar um engenheiro cuja atração maior seja a inexatidão dos sentimentos humanos na busca por espaços e vias.

Minha ideia, entretanto, traz uma provocação em outro sentido. A medicina é HUMANA por essência e por natureza, mas a tecnocracia e a cultura da inevitabilidade tecnológica a aproximam – ilusoriamente – das exatas. Tal migração não é capaz de produzir a melhoria da condição humana, sequer a mitigação do sofrimento e da dor, mas sem dúvida empobrece a própria medicina, seu ethos e sua profundidade. Tanto é intensa a invasão da medicina pela exatidão fria dos exames e testes que o médico mais famoso e respeitável dos dias de hoje não é aquele que oferece a compaixão como pressuposto básico e sequer um olhar caridoso para quem vê desaparecerem as esperanças, mas um que dá diagnósticos presumidos, tratamentos sem rosto e sem história e atende pelo nome de “Dr Google”.

Alias, o acho sempre muito estranho quando vejo gente se ofendendo quando dizem que as “ciências humanas são inexatas”. Ora, como diria Bohr “As certezas não são científicas; elas são o prêmio de consolação dado pelo criador às mentes frágeis“. Ou como diria Camões na voz de Caetano “Navegar é preciso, viver não é preciso“…

A Medicina Baseada em Evidências é uma justa intenção de aproximação da medicina com as ciências exatas. Em verdade, ela muito mais serve para barrar o intervencionismo comandado pelo capitalismo, o qual invadiu a medicina com a intenção de resgatar o sujeito – através da tecnologia – da falibilidade da natureza. Entretanto, essa proposta esbarra na própria condição humana deste, cuja história, percurso e subjetividade imprimem ao(s) seu(s) sintoma(s) uma qualidade inigualável e irreproduzível, que escapa à mensuração matemática e exata que é usada na Medicina Baseada em Evidências. Assim, se devemos saudar seu efeito protetor contra os abusos da tecnocracia, também é importante reconhecer seus claros limites, que se situam na própria condição única do sujeito.

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Rótulos

O gozo que os pacientes experimentam ao receber – em batismo médico – o nome de suas doenças e enfermidades sempre me surpreendeu. “Mas afinal, o que é isso que tenho?”, perguntavam com ávida ansiedade. O “carimbo” médico – a nomeação de seus males – era seguido de um suspiro de alívio. O esforço comovente que tantas pessoas fazem para colar nos outros – e em si mesmos – diagnósticos e rótulos para explicar suas mazelas é uma das marcas da nossa medicina. O efeito apaziguador dessas rotulagens oferece um sentido de pertencimento e delimitação. Desta forma, estabelecendo barreiras para o sofrimento, parece-nos mais simples imaginar uma cura para os males, mesmo que não seja mais do que uma fantasia com pouca conexão com a realidade. Também nos livra do isolamento que se abate sobre todo aquele que se vê vítima de uma enfermidade. “Somos muitos aqui nessa dor”, e não há como negar o quanto este compartilhamento apazigua o sofrimento.


Dr. James McKinnon, “Disease as a Matter of Fact”, Ed. Coltrane, Pág. 135

James McKinnon é um médico sul-africano nascido em 1943 em Cape Town. Com 24 anos de idade foi testemunha do primeiro transplante cardíaco realizado por Christiaan Neethling Barnard durante seu período como residente de cardiologia no hospital Grote-Schuur em Cape Town, quando o coração de uma pessoa falecida bateu pela primeira vez no peito de outro ser humano, exatamente às 5h 25min do dia 3 de dezembro de 1967. James McKinnon era da equipe de suporte da UTI do paciente transplantado, que sobreviveu a cirurgia apesar de vir a falecer de sepse 18 dias depois do transplante. Apesar do aparente fracasso, as equipes envolvidas nessa cirurgia inédita não se deixaram esmorecer e logo após realizaram uma nova cirurgia, onde o paciente sobreviveu por 1 ano e 7 meses. McKinnon iniciou uma carreira de sucesso como cardiologista e passou a se dedicar à literatura na maturidade, quando começou a escrever sobre temas médicos mais amplos, inclusive com uma visão muito crítica à medicina exógena e medicamentosa contemporânea. Seu livro “Medicina Quaternária” lançou seu nome como um dos importantes escritores médicos de língua inglesa. “Disease as a Matter od Fact” é seu último livro, e trata das relações entre médicos e pacientes, em especial na força curativa da relação transferencial.

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Os “doutores”

Um médico que precisa de roupa branca, estetoscópio pendurado no pescoço, caneta Parker no bolso, certificados nas paredes e um “doutor” na frente do nome está tentando impor ao paciente um saber e um discurso autoritativo que não se expressam pelo conhecimento, pela sabedoria e pelo talento de auxiliar.

É possível que tal ocorra por não saber que a cura verdadeira pertence ao sujeito enfermo e que a tarefa última de um terapeuta é fazer com que seu paciente descubra isso por si mesmo, o que sempre demanda grande humildade. Por parte de ambos.

James McEnvoy, “Thrive and Desire in Therapeutic”, Ed Solomon, page 135

James Edward McEnvoy é um cirurgião escocês nascido em Inverness, ao norte da Escócia, em 1966. Sua obra pode ser dividida em novelas nas quais médicos e medicina desempenham um papel central na trama, e aquelas que tratam de política, em especial sua participação no Partido Nacionalista Escocês e sua recente migração para o “Alba” (Escócia, em Gaélico). Nos livros sobre temas médicos – como em Gozo e Desejo na Terapêutica – aborda uma perspectiva humanística e com pontes claras de conexão com a psicanálise. É um cirurgião que, ao adotar uma visão holística da medicina, critica de forma aberta e determinada a hipermedicalização da sociedade e o poder das indústrias farmacêuticas.

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Médicos

Na verdade essas recomendações de exames médicos anuais, ou mesmo bianuais, se prestam a um sistema de controle biomédico sobre a população, agindo como uma “polícia da saúde” que constrange os sujeitos para que entreguem sua intimidade aos profissionais da saúde. Trata-se de um projeto higienista que coloca os profissionais de saúde na posição de “juízes dos comportamentos”, interferindo na alimentação (você está proibido de… complete com o vilão alimentar da moda), na vida social, nos sentimentos (aqui entra a criminalização da tristeza), nos desejos (aqui o papel fundamental da medicina na criminalização das práticas heterodoxas da sexualidade) e na vida política (e aqui podem entrar os médicos que fazem proselitismo político em consultório). Cabe ainda lembrar dos casos de médicos denunciando mulheres que fizeram abortos, numa atitude policialesca e que viola de forma grave o pacto de confidencialidade – que é o centro da ética profissional. A discussão contemporânea de denúncia compulsória de violências de gênero – que também violaria a confidencialidade – entra no mesmo debate.

Essa função social do médico (tão bem descrita por Foucault) ainda está ancorada em uma gigantesca e multibilionária indústria farmacêutica que transforma os médicos em “despachantes de drogas”, criando e mantendo pacientes escravizados a substâncias químicas, seja pela dependência direta da ação das drogas, ou pela vinculação psicológica, produzida por uma narrativa centrada no valor curativo de elementos externos – como drogas e cirurgias – que em última análise reforçam e mantém o poder médico. A medicina contemporânea acaba se tornando tanto um poder político quanto um braço que sustenta o patriarcado e o capitalismo.

Lembro apenas as palavras do meu querido Max, que há mais de 30 anos me afirmava “A medicina como projeto de cura vai se tornando paulatinamente mais diáfana e sutil, até o ponto em que se torna pura pedagogia…. e empatia.

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Escuta

O que seria “inútil” em uma consulta médica?

O que, no discurso de um paciente, “nada tem a ver” com a consulta? Ora… a verdade é que a Medicina procura enquadrar o discurso livre do sofrimento dos sujeitos à sua estreita visão etiológica e propedêutica. Em uma consulta padrão se objetiva traduzir toda a construção subjetiva dos pacientes para uma formulação farmacêutica, pois é para esse fim que os médicos são treinados.

A medicina, assim inserida no capitalismo, investe nos médicos como meros despachantes de drogas, e por isso mesmo os trata como crianças, oferecendo canetinhas coquetéis espelhinhos e amostras grátis. Em verdade, não há NADA na narrativa dos doentes que deveria escapar à atenção e ao escrutínio de quem se ocupa da cura. Não existem palavras vãs para ouvidos dedicados e compassivos

Aliás, a própria escuta atenciosa, respeitosa e livre de preconceitos já é a etapa inicial da terapêutica, e geralmente a mais importante. Como dizia o psicanalista Ballint, “O melhor medicamento que um médico pode oferecer ao seu paciente é ele mesmo“.

Desconsiderar a energia transformativa do encontro curador-paciente é a mais grave tolice da tecnocracia.

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Quebrando os Tabus

Sempre achei o “Quebrando o Tabu” um site “biscoiteiro”. Isto é: faz matérias para agradar sua audiência, sempre se posicionando ao lado do senso comum, exatamente como agora no caso do veto presidencial à notificação compulsória de violência contra a mulher. O grande problema é que, diante de temas complexos e multifacetados, muitas vezes o senso comum está errado, imerso no campo simbólico ainda conservador. Estar sempre do lado do time favorito tem seus reveses previsíveis

A defesa da mulher vítima de abusos e violências merece uma análise aprofundada PARA ALÉM do sentimento rasteiro de proteção policial. Foi muito oportuna a manifestação da Dra Melania Amorim e do seu coletivo mostrando o equívoco – científicamente evidenciado – de transformar profissionais da saúde em informantes das polícias, o que repetiria o descalabro com relação à notificação de casos de aborto provocado.

“Sem vínculo entre cuidador e paciente não há medicina”, já dizia meu colega Max. Aqui sempre enxerguei claras semelhanças entre a medicina e a pedagogia (que nada mais é do que o apice da ação médica). Este vínculo, como de resto todo processo pedagógico ou de cura, se estabelece na confiança que o aluno ou o paciente deposita nas mãos de quem o atende. Se essa confiança é quebrada TODO o processo se desfaz.

Se ao procurar ajuda para suas feridas físicas e emocionais as mulheres sentirem medo que isso acarrete a prisão de seu companheiro elas simplesmente recusarão esse atendimento. A abordagem precisa partir da proteção seguida do empoderamento para que elas mesmas possam dar conta do enfrentamento necessário. Colocar os profissionais de saúde na posição de informantes e delatores, quebrando a sacralidade do segredo profissional, é um absurdo, um erro e um equívoco irreparável.

Para concluir:

Para quem ainda não entendeu porque profissionais de saúde – médicos, enfermeiras e até agentes de saúde – não podem denunciar violência doméstica pense nos casos nos Estados Unidos onde mães e pais tem receio de levar uma criança machucada ao hospital por medo de que suas contusões sejam confundidas com maus tratos e isso acarrete ações penais e – até mesmo – a perda da guarda. Se o atendimento médico não for um lugar seguro para a atenção à saúde as pessoas vão naturalmente recusar o atendimento.

O mesmo problema ocorre com mulheres que, para fugir da violência obstétrica, procuram partos extra-hospitalares. Todavia, o pânico em receber represálias e maus tratos da equipe médica faz com que muitas vezes ocorra demora em procurar a assistencia do hospital, caso uma interferência acorra. Isso via de regra pode ter consequências muito ruins.

Por esta razão, o parto domiciliar tende a ser muito mais arriscado pela violência institucional do que pela falta de quipamentos, atenção ou pelo cuidado insuficiente. O maior risco do parto fora do hospital é o preconceito e o ressentimento do pessoal da retaguarda.

Hospital não é delegacia de polícia e profissionais de saúde não são delatores ou agentes de segurança pública.

Sem confiança nestes lugares e personagens sociais o serviço se torna precário.

Médico não é juiz para julgar suas escolhas.

Sem confiança não há vínculo e sem vínculo não há atenção digna e efetiva.

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Streptococcus

Sobre a pesquisa de streptococcus.

A primeira vez que ouvi falar disso foi de uma enfermeira num hospital que eu estava visitando em Cleveland, no início deste século. Depois das minhas palavras sobre o projeto de humanoização do nascimento no Brasil ela me perguntou:

– Como é a rotina de vocês com pesquisa de strepto? Usam Penicilina em todos os casos positivos?

Eu fiquei confuso com a pergunta e respondi que não havia pesquisa nos hospitais nos quais eu trabalhava e sequer protocolos de cultura para streptococcus no pré-natal referendados pelo Ministério da Saúde.

Ela sorriu e disse: “Apenas aguardem que em breve chegará lá“.

Ela estava certa, da mesma forma como estava correta uma amiga enfermeira americana que me perguntou há uns 25 anos “se já haviam chegado Pokemóns no Brasil“. Com a mesma surpresa eu respondi que não sabia se isso era produto pra comer ou pra passar no cabelo.

Ela deu risada, mas me avisou: “A onda vai chegar, e tanto como aqui, será devastadora. Aguarde…

Pokemóns e novidades médicas são ondas, movimentos de mercado, novidades. Acontecem em ciclos: nascem, alcançam o apogeu e morrem. A partir de um determinado tempo é preciso algo novo, um novo brinquedo, uma nova ferramenta; algo que nos dê esperança. Pokemóns foram deixando o espaço depois de gerar milhões em lucros. Streptococcus espalharam pânico e gastos imensos para o sistema de saúde sem que a antibioticoterapia apresentasse qualquer solução. Produziu-se o medo para vender uma esperança.

Há alguns meses uma amiga americana, também do Norte, me escreve perguntando se já temos Cannabis medicinal para vender nas farmácias. Desta vez eu apenas disse que ainda não…

“Aguarde, disse ela. Será a nova panaceia.”

Se você acha os gurus e salvadores da pátria soluções infantis e paliativos isórios para questões complexas, por que continua acreditando em drogas para solucionar os dramas de sua vida?

Para as novas descobertas sobre a inutilidade do rastreio de streptococcus vaginais e perineais, clique aqui.

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