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Reescrever a história do planeta

Primeiramente, vamos deixar claro que concordo com a recente entrevista do Roda Viva com o biólogo Ítalo Iamarino sobre o Covid19, especialmente pelo reforço da ciência diante do ataque insistente do obscurantismo bolsonarista. Todavia, minha única crítica à entrevista do biólogo é que, apesar de reconhecer as origens da pandemia – a insensata e violenta intervenção humana sobre a natureza – ele acredita que a resposta para a humanidade será através de MAIS intervenção tecnológica, na famosa equação do “Punch Theory”, onde o primeiro impulso é nossa ação destruidora sobre o mundo natural e os impulsos subsequentes atuam no sentido de consertar os estragos iniciais, porém sem questionar sua origem com a profundidade necessária.

Evidente que a resposta para a EMERGÊNCIA de agora será tecnológica, mas para evitar que sejamos atacados eternamente por tais ameaças virais a resposta poderia ser outra, muito diversa em sua essência.

Parece que continuamos presos no mesmo paradigma de mais de um século: estamos cercados por seres vivos maldosos cujo único sentido na natureza é destruir os humanos. Darwin se revira na tumba cada vez que alguém fala desse antropocentrismo cafona.

Para ilustrar essa ideia a imagem que me vem à mente é, obviamente, a do parto. Acreditamos que a solução para os transtornos do parto é MAIS intervenção tecnológica: hospitais, drogas, leitos de UTI, cirurgias, antissepsia, antissépticos, antibióticos e profissionais altamente treinados em patologia. Porém, a experiência nos prova que o afastamento sistemático e insidioso da natureza do parto produziu a maior parte dos distúrbios que hoje testemunhamos. Desta forma, nos transformamos em técnicos especializados em consertar os problemas criados pela nossa própria atuação inadequada.

Ao invés de investir pesadamente na proposta de REVER e REESCREVER o roteiro da nossa atuação junto à natureza, parece que ainda não nos convencemos que o verdadeiro vírus destruidor deste planeta somos nós mesmos.

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Prognósticos

Eu respeito todas as análise prognósticas feitas com base científica mas, como sou velho, acho mais adequado aguardar o desenrolar dos fatos antes de entrar em pânico. Se há alguma vantagem em envelhecer, esta é o acúmulo de histórias vividas e experiências acumuladas. Lembro claramente de duas projeções trágicas surgidas no meu tempo de faculdade e exploradas à exaustão pela mídia e pelos senhores da ciência: “explosão demográfica” e “AIDs“.

De acordo com as previsões dramáticas e negativistas do início dos anos 80 estaríamos exterminados por uma delas, ou pela combinação de ambas. Quem não lembra a progressão geométrica do incremento populacional? Lembro muito do filme “Soylent Green”, com Charlton Heston. A versão brasileira tinha um título ridículo mas curioso: “No Mundo de 2020”, ou seja, agora. O filme mostrava um mundo insuportavelmente quente e abarrotado de gente e me marcou pessoalmente por sua visão pessimista do futuro, onde o suicídio aparecia como uma opção válida e justa. E sobre a Aids? “Vai passar dos homossexuais para os bissexuais e de lá para os ‘normais’ da população”, combinando um catastrofismo irreal com os preconceitos de orientação sexual da época.

Nada disso se cumpriu. A população decrescente já é um problema social em várias partes da Europa, em especial na Itália, Portugal, Irlanda e no norte da Espanha. O aumento que ainda ocorre na África é muito mais em função de uma cultura agrária e pela falta de desenvolvimento social, determinados em função da longa exploração colonialista. Todavia, estamos muito longe de uma hecatombe populacional e esse assunto quase não é mais tratado pela imprensa. Sobre a AIDs, esta síndrome continua sendo um problema de saúde pública, mas longe de ser um problema maior que os tradicionais “exterminadores” que se mantém na ativa, como podemos ver na lista abaixo (PAHO):

1ª) Cardiopatia isquêmica
2ª) Acidente vascular cerebral (AVC)
3ª) Doença pulmonar obstrutiva crônica
4ª) Infecções das vias respiratórias inferiores
5ª) Alzheimer e outras demências
6ª) Câncer de pulmão, traqueia e brônquios
7ª) Diabetes mellitus
8ª) Acidentes de trânsito
9ª) Doenças diarreicas
10ª) Tuberculose

Mais da metade das pessoas no mundo morrerá das doenças acima listadas, a maioria delas produzidas na esteira da distribuição miserável dos recursos do planeta, originada pelo capitalismo e sua ideologia de acúmulo. A cura para estas enfermidades não está nos remédios, na medicina tecnológica, nos hospitais ou no aporte gigantesco de recursos para o tratamento de enfermidades, mas na adoção de um modelo político e social mais justo, que não condene os sujeitos a uma alimentação ruim, stress crônico, sedentarismo e pobreza. Buscar essa mudança em nível global é mais importante do que a cura de doenças que, por si só, seriam exterminadas se as suas verdadeiras causas fossem eliminadas.

Com a atual pandemia podemos esperar o mesmo curso normal de enfermidades transmissíveis conforme a história nos ensina. O catastrofismo precisa ser evitado, o que não significa negar as medidas de isolamento que parecem ser, por ora, nossa única defesa reconhecidamente justa de proteção.

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Justicia Adhatoda para Corona virus

O uso homeopático de Justicia Adhatoda não se contrapõe aos cuidados de ISOLAMENTO que estão sendo utilizados em todo o mundo.

Trata-se de um medicamento complementar para ser usado nos quadros gripais leves, sem falta de ar, sem febre alta e sem fadiga extrema – os quais devem ser encaminhados para o hospital. Informe-se com um homeopata de sua região.

Também conhecida como Vasaka, é uma planta de origem asiática cujo nome oficial é Justicia Adhatoda, mas também é comumente conhecidos como “noz Vasaka” ou “Malabar”. É um arbusto perene e altamente ramificado (1,0 a 2,5 mm de altura), com cheiro desagradável e sabor amargo. Possui ramos ascendentes opostos com flores brancas, rosa ou roxas. É uma planta medicinal altamente valiosa usada para tratar resfriado, tosse, asma e tuberculose (Sharma et al., 1992). Sua principal ação é expectorante e antiespasmódico (broncodilatador) (Karthikeyan et al., 2009).

Além disso, a importância da planta Vasaka no tratamento de distúrbios respiratórios pode ser entendida a partir do antigo ditado indiano: “Nenhum homem que sofre de tuberculose precisa de desespero enquanto a planta Justicia adhatoda existir” (Dymock et al., 1893).

Assim, o uso frequente de J. adhatoda resultou na sua inclusão no manual da OMS “O uso da medicina tradicional na atenção primária à saúde”, destinado aos profissionais de saúde do sudeste da Ásia (OMS, 1990). Os principais alcalóides da planta, vasicina e vasicinona, são biologicamente ativos e são a área em discussão de muitos compostos químicos e estudos farmacológicos.

Maiores informações aqui.

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Caridade

“Quero vê qual profissional da saúde que vai atender domiciliar nas favelas de suas cidades, de forma gratuita e sem infra estrutura! Mandem fotos.”

Por quê profissionais deveriam atender de graça em favelas??? Por acaso professores entram de graça em favelas para dar aula? Bombeiros apagam incêndios sem salário? Policiais garantem segurança sem pagamento? Por que tratar profissionais da saúde como vestais, infensos às necessidades humanas?

Vamos deixar bem claro: Não existe nenhuma contradição entre humanização do nascimento e qualquer recorte de classe e/ou raça. Humanização é direito humano reprodutivo e sexual para todos, e não apenas para uma parcela da população que pode pagar por estes serviços. Entretanto, também é dever do Estado, e cabe a NÓS cobrarmos que tais deveres sejam cumpridos e nossos direitos respeitados.

Médicos, parteiras ou doulas não são monges; são profissionais que devotam tempo e dinheiro nas suas formações. A falta de profissionais humanizados em áreas pobres e carentes NÃO É culpa dos raros profissionais que enfrentam suas corporações e a ignorância provinciana da nossa mídia financiada pela elite, mas do Estado frágil e dominado pelas corporações financeiras, que relega essa parcela majoritária da população carente à própria sorte.

Transferir a responsabilidade da atenção à saúde dos negros, pobres, favelados e destituídos para os profissionais não é justo ou honesto. “Saúde é um direito do povo e um dever do Estado”, como diz nossa carta, tão jovem e tão depauperada. Assim, é importante reconhecer que os bravos profissionais que enfrentam um sistema injusto e cruel deveriam ser aplaudidos, e não tratados com desdém ou desconfiança. A eles devemos o exemplo para a mudança necessária. Sua coragem e resiliência devem ser exaltadas e celebradas.

A entrada da saúde, educação, policiamento e saneamento nos bolsões de pobreza desse país jamais poderá depender de caridade, mas da ação conjunta e POLÍTICA da sociedade organizada, através da escolha de pessoas DESTAS COMUNIDADES – como Marielle!! – e destes estratos sociais para serem as dignas e legítimas representantes de suas reivindicações comuns.

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Catastrofismo

Uma das formas de preservar a saúde emocional nestes tempos de Corona é não dar ouvidos a prognósticos catastrofistas – mesmo que venham de profissionais confiáveis. Eles carecem de valor, assim como as análises que os economistas fazem dos rumos da economia. Tais manifestações não passam de especulações, sejam positivas ou negativas.

Não esqueçam que as visões negativistas do futuro frequentemente escondem interesses escusos, via de regra ligados ao capitalismo mais abjeto. “Se não investirmos na compra de …… morrerão 1 milhão de pessoas”. A experiência com o Tamiflu deveria nos servir de exemplo. O remédio foi comprado na epidemia do H1N1 e nunca se mostrou superior a uma prosaica aspirina. Todavia, muita gente enriqueceu com o pânico e a compra insensata dessa droga.

O que temos como verdade no momento é a ideia de ficar em casa. Preservar os idosos e os imunodeprimidos. O número de mortos – ou o tamanho do desastre financeiro que teremos adiante – são tiros no escuro. Não se deixe impressionar por isso, porque ninguém sabe exatamente a intensidade do problema que no Brasil.

Prepare-se para o pior e visualize o melhor.

Nesse momento de dados incertos e previsões conflitantes é importante evitar o catastrofismo inútil pois ele causa pânico e até imobilismo. Não esqueça: ser alarmista é diferente de ser realista. Enquanto isso, veja as pesquisas e as evidências que surgem, evitando ao máximo os reducionismos, as projeções matemáticas que ignoram outros elementos e as fantasias mórbidas que agora estão na moda.

Aos muito jovens não custa lembrar de algo que foi muito debatido no final dos anos 70: a “explosão demográfica”. Pelas contas catastrofistas da época o mundo em 2020 deveria ter uns 15 bilhões de pessoas, todas amontoadas e vivendo num mundo pós apocalíptico. Os recursos seriam escassos, as guerras constantes e a fome uma dura realidade. Nada disso aconteceu, e até o reverso se percebe em muitos países europeus. Por quê?

Ora… porque os nossos prognósticos nunca levam em consideração os OUTROS fenômenos sociais que vão ocorrer ao lado dessa tendência, mantendo congelados para o futuro os condicionantes de HOJE. Por isso é INÚTIL fazer previsões deste tipo, assim como foi ridículo e vexatório ver os economistas neoliberais prevendo dólar a 3 Reais se a Dilma viesse a cair. Barrigadas sem sentido, pois eles não sabiam (na verdade, ninguém sabia) o que ocorreria no seguimento do golpe contra a presidente.

Eu não sou contra precauções, pelo contrário, mas sou contra os mensageiros do apocalipse…

As ciências biológicas erram pra caramba todas as suas previsões. Não a tratem como ciências exatas!! Avançamos nos diagnósticos mas ainda somos fracos em prognósticos, exatamente porque o curso das doenças tem características subjetivas e únicas, impossíveis de prever com exatidão.

As epidemias, assim como os sujeitos, também tem inúmeros condicionantes (idade da população, clima, cultura, hábitos, alimentação, recursos, genética, época do ano, etc). Por esta razão, extrapolar a performance de uma pandemia de um país para outro, é quase impossível – ou no mínimo muito arriscado.

Por isso eu repito: NÃO devemos dar importância a previsões catastróficas!!! Elas não tem base na realidade, tanto quanto as pessoas que dizem que se trata de uma “gripezinha“. Só o que nos cabe no momento é tomar as ÚNICAS medidas que aparentemente funcionam bem: higiene e isolamento. Dizer que 1 milhão de pessoas morrerão no Brasil é um alarmismo que não ajuda ninguém – mesmo que ajude os gestores a se prepararem para os piores cenários – porque trata realidades diferentes como se fossem semelhantes ou iguais.

Essa gripe não tem cura exógena. Não tem remédio, nem vacina e nem droga alguma comprovadamente efetiva. Portanto, só nos resta manter o isolamento e aguardar a primeira onda do tsunami passar.

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Corona

Medical staff in protective suits treat coronavirus patients in an intensive care unit at the Cremona hospital in northern Italy, in this still image taken from a video, March 5, 2020.

Na minha perspectiva – e se estiver errado eu vou me retratar – sair de casa para dar uma volta sem andar de ônibus, metrô ou participar de qualquer aglomeração não produz nenhum problema em relação à pandemia. Ficar trancado sem ar livre e sem sol tem a potencialidade de piorar os resultados.

Sei que esta é uma estratégia de classe média, onde existem carro, praças, etc., mas não está errado pegar o carro com a família e caminhar ao ar livre para dar uma volta. O perigo está no CONTÁGIO, de pessoa para pessoa, ou nos objetos que outras pessoas manipulam. Digo isso porque existem alguns riscos associados ao confinamento. Um deles é a violência doméstica de toda natureza (entre os adultos e sobre as crianças). Ficar sob aprisionamento pode produzir a eclosão de processos psíquicos violentos pelo choque constante dentro de um espaço restrito.

Acrescente -se a isso o fato de que a “segunda onda do tsunami” – que é a questão econômica – vai bater à nossa porta assim que a questão médica ficar estabilizada. Isso vai acrescentar mais stress às famílias, e as consequências bem sabemos quais podem ser.Assim, sair de casa SEM ENTRAR EM CONTATO com outras pessoas pode ser uma atitude de auxílio à saúde mental. Se houver alguma evidência em contrário estarei pronto para rever essa ideia.

Não quero ser alarmista mas acho que estamos vivenciando apenas o primeiro vagalhão do Tsunami Corona, que é a própria doença e os óbitos dela decorrentes. Depois da estabilização dos casos haverá uma espécie de euforia (como se pode ver na China agora) seguida de uma consternação ao constatarmos o tamanho do estrago. Aí vem o segundo vagalhão da depressão econômica.

Como será possível reerguer o país sem um governo, sem liderança, sem planos? Como usar o Estado como motor da recuperação quando somos liderados por um bando de fanáticos, fundamentalistas de mercado, que desprezam a posição privilegiada do Estado como propulsor de desenvolvimento?

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Semmelweis

O médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweis foi o herói que enfrentou sua corporação para salvar as gestantes.

O chefe de Semmelweis na Clínica Obstétrica do Hospital Geral de Viena era o Dr. Klin, o qual Ignaz considerava “o mais idiota de todos os homens”. Foi ele quem o demitiu após receber em mãos os documentos que mostravam o sucesso de sua política de obrigar os médicos a lavarem as mãos numa bacia com ácido clórico colocada na porta de entrada da sua enfermaria. Em um mundo pré Pasteur, que ainda acreditava que as infecções eram determinadas pela direção do vento (entre outras hipóteses), esta ação parecia grosseira e ofensiva aos olhos de seus colegas..

Semmelweis foi duramente perseguido por suas pesquisas sobre o agente causador da febre puerperal e pelas suas conclusões de que os “miasmas” causadores da febre vinham das mãos dos próprios médicos, que levavam os eflúvios “da matéria morta para a matéria viva”. Essa “iluminação” surgiu após a morte de um querido colega patologista, Jacob Kolletschka, causada por um corte no dedo ao realizar uma necrópsia.

“A matéria morta transmite um elemento mórbido à matéria viva através das mãos”, observou Semmelweis. Essa visão da etiologia por trás da morte de mulheres no puerpério o levou a determinar condutas de antissepsia aos médicos da enfermaria que foram por eles consideradas “radicais” e desrespeitosas.

A conduta de obrigar seus colegas à lavagem das mãos em uma bacia com ácido clórico causou primeiramente escárnio e deboche, e posteriormente furor e indignação. Sua condição de húngaro trabalhando como médico no coração do decadente Império Austro-húngaro o colocava na delicada posição de “estrangeiro”, um incômodo invasor, assim visto pela elite vienense em face das aspirações independentistas de boa parte da população da Hungria. Ele não conseguiu viver para testemunhar o que finalmente veio a ocorrer algumas décadas depois, com a morte do Rei Ferdinand em Sarajevo e a eclosão da I Guerra Mundial, que finalmente fragmentou o império liderado pela Casa dos Habsburgo.

Por suas ideias inovadoras sobre a etiologia da febre puerperal e sua condição de “estranho no ninho” na Viena do final do século XIX, ele foi impiedosamente atacado, perseguido e por fim demitido, sendo obrigado a voltar para Budapeste, sua cidade natal, mesmo diante da comprovação da justeza de suas propostas, que levaram à queda vertiginosa da mortalidade materna na enfermaria dos médicos, igualando-se à mortalidade encontrada na enfermaria contígua, comandada pelas enfermeiras.

Associe-se a estas circunstâncias o gênio explosivo e irascível de Semmelweis e temos a imagem perfeita do gênio que virou mártir. Sua personalidade marcante e indômita acabou levando-o à loucura, ao confinamento em um sanatório e à morte prematura por infecção e sépsis, a mesma condição que havia levado ao óbito seu querido amigo Kolletschka e que o fez entender a causa infecciosa das febres mortais das puérperas.

Semmelweis ficará para sempre para a história da medicina como o exemplo de coragem, o senso de propósito, a fidelidade às ideias e o compromisso com seus pacientes, mesmo sabendo do preço violento a pagar pela sua determinação em mostrar a verdade.

Hoje em dia ninguém sabe quem foi o obscuro Dr. Klin, mas todos sabem do gênio húngaro que salvou milhões de gestantes pela sua teoria infecciosa da febre puerperal, finalmente entendida como doença iatrogênica de contágio.

Nesses tempos de Corona vírus é sempre bom lembrar que um dos maiores heróis da medicina ofereceu a própria vida em nome de suas ideias e lutou incansavelmente para proteger seus semelhantes.

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Antibiose

Desde a revolução pasteuriana do final do século XIX que somos fixados na “antibiose”, ou seja, na ideia de que bactérias, vírus, protozoários, fungos, chlamydias, etc. são nossos “inimigos mortais” e que, para assegurarmos nosso lugar no planeta, é necessário destruí-los, aniquilá-los, esterilizando tudo ao redor pois assim – limpos e desinfetados – estaremos mais seguros.

Durante anos este foi o “paradigm drift” que nos falava Thomas Kuhn. Uma ideia tão poderosa, e tão perfeita, que assumia merecidamente a posição de paradigma hegemônico, reinando por sobre as outras formas de encarar a realidade científica. Tão poderosa essa ideia que acabou impondo tentáculos por toda a sociedade, desde as concepções de saúde e doença, higiene, limpeza, segurança biológica e terapêutica, impulsionando a nascente indústria farmacêutica para a criação de antibióticos após a segunda guerra mundial.

Entretanto, como previa o mestre Kuhn, qualquer paradigma fatalmente encontra sua crise, e não seria diferente com a antibiose. Após um reinado de um século, desde as experimentações iniciais de Koch e Pasteur, a ideia dos “micróbios inimigos” começa a mostrar suas fragilidades. A ação – devastadora em muitos casos – sobre a flora bacteriana normal do corpo humano passou a ser investigada e pesquisada. O efeito imunossupressor dos antibióticos mostrou uma imagem um pouco diferente dos “salvadores” de outrora. O resistência bacteriana causada, em especial, pelo abuso de antibióticos e pela assepsia dos hospitais nos coloca diante de “super bugs” – bactérias resistentes a tudo, o terror das UTIs. A ação antibacteriana desses quimioterápico agora mostra seu preço, e o mundo inteiro fica em alerta.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos, cresce a consciência de que a humanidade não deixa de ser uma parte da natureza e não a culminância dos esforços divinos pela perfeição, como arrogantemente nos comportamos. Darwin deixou claro que somos parte do todo biológico da Terra e temos o mesmo direito à vida quanto qualquer outra espécie – incluindo aí as minúsculas bactérias e vírus. Apenas um especifismo místico pode nos considerar “superiores” e mais merecedores de bênçãos do que o resto dos seres vivos com os quais convivemos.

Novas pesquisas ainda vão mais longe. Temos uma quantidade gigantesca de bactérias que coabitam nosso espaço corporal, de mesma massa que as próprias células do nosso corpo. Somos, em verdade, um “condomínio de vidas”, em que nosso lugar é de zeladoria, resguardando, nutrindo e sendo nutridos por estes micróbios que nos acompanham. No parto, como pode ser visto no documentário “Microbirth”, a boa qualidade das bactérias(!!!) a nos contaminar (enterobactérias maternas) imediatamente após o nascimento será fundamental para nossa vida e nossa saúde.

Segundo a visão da medicina darwinista, chegou a hora de encarar nossa relação com os outros seres de forma mais razoável e respeitosa. A era da “antibiose” encontra seu ocaso, enquanto surge o alvorecer da “probiose” que, ao contrário de se contrapor aos outros seres vivos da Terra – aqui incluídas tanto as baleias jubarte quanto as bactérias minúsculas do nosso sistema intestinal – propõe um respeito ao direito de que todos têm de conviver com harmonia em Gaia.

Evidentemente que não se trata de jogar os antibióticos no lixo e condenar infectados à morte, mas questionar até onde este modelo pode nos levar. Estamos diante de um “paradigm shift” pela evidente falência do modelo anterior de solucionar os problemas em grande escala.

A crise do Corona vírus talvez traga em seu bojo algumas lições muito importantes. O respeito à todas as formas de vida talvez seja uma delas, e a própria crise talvez seja um sintoma claro da reiterada agressão que nosso planeta vem sofrendo de todas as formas.

Sejamos conscientes da nossa responsabilidade nesse episódio global.

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Corona vírus e Homeopatia

As prescrições homeopáticas que estão surgindo nas mídias sociais para uso no quadro gripal causado pelo corona virus são nitidamente genéricas – para sintomas virais comuns – e não devem ser usadas para “prevenção”. Regra básica da homeopatia: se estiver assintomático não use nada. Além disso, evite as drogas, mesmo as aparentemente inocentes. Algumas drogas, como os anti inflamatórios, são prejudiciais em casos de infecção por corona virus. Seja moderado e procure ajuda se sentir que as coisas estão fugindo do controle.

Sempre é justo e correto individualizar os casos de qualquer doença, em especial as agudas. Nossas doenças são construções subjetivas e demandam uma observação cuidadosa com a forma como são construídas. Entretanto, a exemplo do que já foi observado em outras epidemias (inclusive a “espanhola”), é importante caracterizar o “genus epidemicus”, ou seja, a forma como a epidemia se comporta na maioria dos casos. Para isso será necessário observar centenas (ou milhares) de casos para se perceber a maneira específica como esse patógeno interage com o organismo humano e quais as reações fisiopatológicas mais comuns nos doentes. Algumas observações boas já foram produzidas, e elas poderão ser muito úteis para a seleção do(s) remédio(s) homeopático(s) mais adequado(s).

Muito importante lembrar que o medicamento homeopático não trata doenças, mas produz reações orgânicas no sujeito doente no sentido da cura, oportunizando uma cura pelos processos fisiológicos (e não artificiais) de reação. Entretanto, nenhuma homeopatia – e nenhum outro medicamento!!! – substitui as medidas fundamentais para a erradicação das pandemias:

* Lavar as mãos
* Proteger-se e proteger os mais frágeis
* Isolamento
* Medidas gerais de cuidado e conforto (hidratação, descanso, sono, alimentação, etc)
* Se sintomático (tosse, febre, espirros, mal estar, fraqueza, etc.), não se aproximar de outros sujeitos, em especial velhos, crianças e imunodeprimidos.
* Não comparecer a reuniões, em especial aquelas que desejam o extermínio da democracia. Nesses lugares a contaminação é pior, pois o vírus se mistura com ódio e preconceito e tem seus efeitos potencializados.

Consulte o sistema público de saúde diante de qualquer sinal de agravamento, em especial dificuldade respiratória. Evite procurar serviços de saúde – em especial as emergências – se o quadro não for realmente preocupante. Deixe lugar para quem precisa!!

Acima de tudo seja compreensivo e fraterno. Pense nos outros. Seja um farol de positividade e esperança em um mundo cheio de medos e paranoias. Faça a diferença.

Em verdade Leonardo Boff já dizia que a nossa espécie se caracteriza pelo fato de valorizarmos de forma especial o ato de cuidar. Somos uma espécie em que o cuidado com o outro assumiu importância vital. É hora de mostrar que merecemos pertencer à coletividade humana, cuidando de todos à nossa volta.

Veja aqui as orientações sobre o uso de Justicia Adhatoda para a pandemia de Corona virus.

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Argumentos sobre o abraço

De todos os argumentos para defender a atitude de Dráuzio existem dois com os quais não concordo, mas que são usados por gente da esquerda amiúde.

O primeiro se refere à ideia de que Dráuzio não sabia o crime cometido por Suzy – no que eu acredito. Entretanto, as pessoas afirmam que, caso soubesse, não deveria fazer a matéria. Pois eu discordo. É exatamente nos extremos da perversidade onde encontramos a face mais terrível do ser humano. E o que mais nos causa horror é que nesse recanto sombrio da alma humana sempre encontramos um espelho. Se Dráuzio se negasse a abraçar por saber do crime, estaria sendo o juiz que insistiu em não ser.

Em segundo lugar vejo as pessoas dizendo que Dráuzio estava ali como médico. Ora, é evidente que não. Dráuzio é médico, mas sua ação NÃO foi médica, foi jornalística. Sua atitude como funcionário da Globo foi realizar uma reportagem, não uma ação profissional médica. Uma consulta médica não se propõe a ser espetacular e pública. Também não se presta a ser “Fantástica”, mas procura garantir intimidade, profundidade e – essencial!! – privacidade. O objetivo da entrevista não era semiótica, no sentido de descobrir causas e auxiliar um paciente em suas dificuldades, mas procurava expor um problema comum de prisioneiras trans. Dráuzio foi jornalista – como tantas vezes foi – mas não o médico de Suzy naqueles momentos em que ocorreu a matéria.

Pode-se arguir que ele se portou como “cientista e pesquisador”, mas mesmo neste caso ele falhou terrivelmente ao expor seu entrevistado ao risco. Mesmo nas entrevistas de pesquisa os colaboradores precisam ser protegidos através do anonimato. Suzy agora corre riscos na penitenciária por ter seu passado exposto. Cientistas pesquisadores sequer precisam ser médicos para coletar dados.

O abraço de Dráuzio não foi uma ação de um médico; foi um ato humano de empatia, compaixão e afeto. Não julgar não é uma virtude médica, mas uma ação humana digna de elogios.

Eu tenho facilidade em desenvolver empatia com todos esses bandidos cujos rostos são estampados nos telejornais para o gozo do ódio coletivo. A razão para isso é porque – sem dúvida alguma – eu não me considero muito diferente deles. O que nos difere – a mim e aos criminosos – é uma série de pequenos e grandes privilégios, alguns evidentes e outros escondidos nos detalhes de uma vida. Um pai existente, um teto, água corrente, energia eletrica, uma mãe amorosa, irmãos, ética, livros, bons exemplos, escola, comida… enfim, detalhes que só nos ocorrem quando os perdemos.

Quando eu vejo essas pessoas, os deserdados, os párias, os feios, sujos e malvados, honestamente não consigo enxergar nada de tão distante do que sou em essência, apenas diferenças nas rotas que seguimos guiados pelas circunstâncias e pelos contextos.

Acho que o ódio ao criminoso fala muito mais das nossas fraquezas e fragilidades do que das perversões que ele cometeu.

Continuarei achando sua atitude humana, correta, justa, afetuosa e compassiva. Entretanto, ele não a fez por ser um profissional médico, mas por ser um bom ser humano.

Claro que Suzy é TAMBÉM vitima!!!! Que maniqueísmo insensato!! Parece pergunta pra casal que se separa: “de quem foi a culpa?”.

Ora, todos somos vítimas e algozes de muitas coisas na vida. Um casal, via de regra, se separa por uma miríade de fatores, onde as posições subjetivas se alternam entre a vítima e o opressor, atuando com mudos silêncios, raivas, decepções e solidão que ambos compartilham. Um crime horroroso também tem suas origens, muitas vezes recheada com fatos obscuros e inconscientes.

Suzy é vítima do preconceito por ser trans, gay, pobre, negra e marginal. Mas ao mesmo tempo é CRIMINOSA por ter cometido um crime hediondo que a muitos chocou. Vítima e criminosa, qual a dificuldade de entender que somos seres com múltiplas facetas?

O erro infantil de uma parte vingativa da direita bolsonarista é imaginar que sua condição de vítima a desculparia dos erros cometidos. Que tolice!! Apenas mostra que erros – mesmo os mais brutais – podem ser a culminância de uma corrente gigantesca de circunstâncias, contextos, traumas, dores, ressentimentos, violência e dramas terríveis, dos quais a nossa vidinha de classe média não nos permite sequer imaginar.

O fato de ela também ser vítima de inúmeros crimes cometidos contra si não a inocenta de nada, mas a humaniza.

O problema do crime da Suzy e sua questão central, como sempre… é o perdão. A imensa maioria das pessoas acredita que perdoar alguém é o mesmo que inocentá-lo dos seus crimes. Errado; perdoar não significa negar crimes ou minimizar sua gravidade. Perdoar é um ATO SOLITÁRIO e subjetivo. Para além disso, o ato de perdoar é uma demonstração de liberdade em relação ao criminoso.

Quem perdoa de verdade está simplesmente dizendo: “Eu lhe entendo. O que há de humano em mim compreende o que há de humano em você”. Isso jamais significaria negar a violência de um crime, muito menos a reparação que tais crimes demandam. Significa apenas que a distância humana que separa qualquer um de nós do mais doentio dos criminosos pode ser colocada em perspectiva. Somos muito mais parecidos entre nós do que imaginamos. Assumir posturas duras e inexoráveis é criar a ficção arrogante de que jamais faríamos o que um criminoso faz – ou um dia fez.

Mentira. Se cada um tivesse andado mil quilômetros calçando as sapatilhas desses meninos sem pai, sem paz, sem proteção contra os abusos, sem amor, sem afeto, sem condições econômicas mínimas e ainda envoltos em uma sociedade que premia o sucesso e despreza o fracasso, jamais teria coragem de apontar tantos dedos para quem sucumbiu ao crime e ao delito.

Portanto, o perdão é o reconhecimento humilde da proximidade que temos com os que caíram no abismo do crime. Abraçar um estuprador ou assassino significa mais do que dizer da nossa solidariedade com sua solidão e sua dor; significa também aceitar a fragilidade das diferenças entre nós e o detento, entre as “pessoas de bem” e os criminosos.

A recusa em entender isso significa não apenas a dificuldade em compreender o que leva alguém a delinquir, mas também a incapacidade de reconhecer a proximidade humana que todos temos com quem erra.

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