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Admirável Mundo Novo

Acompanhei meu pai a uma consulta médica em um centro clínico ligado a um hospital da minha cidade. A princípio seria uma consulta banal, para entrega de exames e uma conversa sobre os medicamentos que ele utiliza. Marcada a consulta nos dirigimos ao hospital.

A entrada do prédio é majestosa, por onde seguranças discretos passeiam de um lado para outro, com os indefectíveis fones de ouvido. O hall é grande, amplo, marmóreo e limpo. Se de um lado tal magnitude reforça a imponência do ambiente, por outro lado diminui de forma considerável a importância do sujeito que o procura. Eu me senti pequeno, diminuto, uma minúscula engrenagem num sistema gigante. Apresentamos nossos documentos de identidade para funcionários de uniforme. Meu pai tentou dizer uma gracinha costumeira para a funcionária, para tentar desmanchar seu olhar soturno. Nada conseguiu. Após dizermos o nome da médica e a sua especialidade, recebemos nossos crachás magnéticos e brevíssimas instruções de como usá-los nas catracas eletrônicas.

Ao lado da recepção uma grade é interrompida por pequenos monstrengos cromados: as catracas. Uma leve aproximação do crachá modernoso e uma seta verde brilha no aparelho trifásico. Está liberada. “Catrrracc“, grita o bichano quando meu corpo empurra seus braços de ferro. Sim, ponderei… nada mais é que uma onomatopeia, mas só hoje, depois de mais de 50 anos, eu me dei conta dessa banalidade. Nunca é tarde para se aprender com a experiência cotidiana. Pegamos o elevador que vai para o décimo segundo andar. Impossível não lembrar:

Estranho é gostar tanto do seu All Star Azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te reencontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje

Infelizmente não era Cássia Eller que estava nos aguardando para terminar aquela conversa que começamos no outro dia. Na verdade eu gostaria de lhe dizer muita coisa. Queria ouvir sua voz rouca, falar sobre seu filho, a dureza de uma vida conturbada, suas dificuldades em lidar com a sexualidade sem arreios. Queria também lhe perguntar, por exemplo, naquele fatídico dia, o que ela…

Meu pai interrompe meus pensamentos e aponta para uma máquina pequena à nossa frente. Pequena e amarela, com um botão azul. Sobre ela o lia-se um cartaz: “Retire sua senha e aguarde ser chamado”. Aperto conforme determinado e o aparelho vomita uma tarja amarelo-biliosa com um número destacado: 341. Digo ao meu pai que é melhor sentar e aguardar, pois ainda teremos 340 consultas antes da nossa. Ele sorri, pois sabe que este é um humor típico da nossa família, e a culpa é sua por essa herança maldita. Seguimos em frente e entramos na ampla sala de espera do centro clínico.

A sala estava repleta de pessoas, mas achamos vagas duas poltronas no canto. À nossa frente uma linha de recepcionistas com telefones acoplados à cabeça. As pessoas na recepção não sorriem, parecem tensas ou conformadas. Não existe nenhum vestígio de alegria. Meu pai ainda tenta me contar piadas, ou fazer comentários curiosos sobre as pessoas presentes, mas o ambiente não ajuda. Ficamos alguns minutos aguardando que algo viesse a acontecer, mas a TV ligada à nossa frente com reprises de novelas dos anos 90 era o único som a preencher o ambiente carregado. As janelas mostravam um dia radiante, com temperatura ainda amena e agradável, mesmo que o clima dentro da sala de espera fosse artificialmente controlado. Os raios de sol passavam raspando pela última das janelas, deixando um filete radiante e dourado na parede adjacente, anunciando que o pôr do sol não tardaria.

Resolvi me levantar e perguntar o que ocorreria a seguir. Dirigi-me à recepcionista que estava livre e sem dizer nada apresentei a ela minha “senha”: 341. Ela me cumprimentou sorridente e disse que já ia mesmo chamar. Avisou que a consulta está confirmada com a doutora “P”, neste mesmo andar, e que anunciaria no sistema de alto-falantes quando fosse a hora de entrar. Já haviam transcorrido mais de 30 minutos de nossa chegada e o horário da consulta também já tinha passado.

Voltei para o meu lugar e meu pai apenas deu de ombros. Continuamos a conversar sobre amenidades: meu neto, a comunidade que pensávamos criar, minha mãe. Alguns minutos mais tarde o alto-falante anunciou: “Pacientes da doutora “P”….

Levantamos imediatamente, mas notamos que ao nosso lado outra pessoa também se ergueu. O som do alto-falante continuou: “Pacientes da doutora “P”…. as consultas estão atrasadas em uma hora”. Percebemos que o senhor que se levantou ao nosso lado também esperava por uma consulta com a mesma médica. Olhou para nós conformado e resolveu ligar para alguém da família avisando o atraso. Finalmente, uma hora e meia após o horário previamente marcado, e a recepcionista nos avisou. “Por favor, dirijam-se ao consultório de número 11 no corredor à esquerda”, diz a secretária. Um pequeno passeio pelo labirinto e fomos levados pelos números nas portas idênticas até o consultório. “Consultório 11 – Office 11”, dizia a placa bilíngue, obviamente preparada para a Copa do Mundo.

Era tudo branco. Uma parede branca, cadeiras brancas. Um computador sobre uma mesa branca e nua. A Dra. “P” nos recebeu amavelmente, com um sorriso e boas-vindas. Nem uma palavra sequer sobre o atraso de uma hora e meia. Lembrei das palavras do meu filho, quando costumava almoçar comigo próximo do meu consultório, na época em que ele estudava no centro da cidade. Saíamos do restaurante, depois de muita conversa, às 14h, o exato horário em que estava marcada a minha primeira consulta da tarde. Na verdade o consultório ficava na mesma quadra do edifício onde eu trabalhava, o que me faria chegar 5 minutos atrasado. Diante dessa minha desculpa, meu filho sempre respondia: “Claro, são os SEUS cinco minutos, e não os do paciente. Eles que esperem, afinal são pacientes, certo?” Ele tinha razão, mas os atrasos em consultórios médicos, excetuando-se a parcela menos expressiva de atrasos justificáveis, são derivados da curiosa tessitura que compõe esse encontro. A espera do paciente – muitas vezes torturante – é a primeira parte da consulta; ela serve para mostrar quem manda naquela relação. O chá de banco é uma instituição que normatiza relações de poder desde que o mundo é mundo – ou desde que os bancos foram inventados. O tempo, a mais importante mercadoria, se mantém sob o controle de quem detém o poder. Ao doente, já desempoderado pela sua fragilidade física ou emocional, só cabe esperar. E ser “paciente”.

A Dra. “P” começou a sua consulta e pediu para que o meu pai esclarecesse o que ocorreu em suas últimas entrevistas. Percebi que ela lembrava muito pouco do caso que estávamos trazendo à sua frente. Olhava para meu pai tentando lembrar detalhes, até que ele mencionou um exame realizado, o que a fez ligar instantaneamente uma lanterna mental que iluminou um espaço obscuro de suas lembranças. Depois disso ela perguntou as reações a algumas medicações e os efeitos previstos no organismo.

Nenhum papel, nenhuma anotação. Não havia uma caneta sobre a mesa. Nada, uma mesa branca, limpa, estéril. Não havia marcas da consulta anterior, nenhuma ficha sobre um canto da sala. Este ambiente era idêntico a um pequeno ambulatório, como aquelas salas de hospital onde se aplicam injeções ou se faz uma nebulização. As paredes, alvas e nuas, não tinham nenhuma marca, nenhum prego. Somente atrás da cadeira da doutora havia uma pintura abstrata, igual a várias outras espalhadas pelo centro clínico. Percebi que estas obras eram feitas em série: o mesmo artista, a mesma técnica. “Ah, você é artista? Pois queremos comprar umas obras suas. Quantas? Umas 100, todas do mesmo modelo, assim, como se diz? Ahhh… abstrato

Não havia livros na sala. Ou revistas. Qualquer informação era obtida pelo computador. Percebi que a história do meu pai estava ali, na tela, mas era apenas a fotografia biológica de um sujeito; nenhuma percepção subjetiva, impressão, ideia ou intuição. Não, apenas cálcio, sódio, ferro, hemogramas, eletrocardiogramas, ureia e fosfatases. A nudez absoluta, a minimalização extremada: uma pessoa reduzida aos seus componentes moleculares. A complexidade infinita de um sujeito condensada em poucos elementos químicos e desenhada nas linhas de traçados sinuosos.

Percebi, com uma espécie de espanto, que aquele consultório não era da Dra. “P”. Aquele era um “consultório genérico”. Uma mesa branca, uma maca branca, paredes brancas e um computador. A Dra. “P” provavelmente chegou ao hospital e perguntou às secretárias qual consultório havia sido designado a ela para as consultas daquele dia, e para lá se dirigiu. Não havia nenhuma marca pessoal: a foto do namorado, ou do marido, uma foto de crianças ou de um lugar que lhe trazia lembranças agradáveis. Não, ela era tão alienígena ali quanto nós.

Fui obrigado a fazer uma comparação mental com o meu consultório. Livros pela sala, que servem de consulta à Matéria Médica e ao Repertório Homeopático. Livros de obstetrícia e manuais do Ministério da Saúde. Quadros nas paredes da recepção. Pedras sobre a mesa, presentes de uma paciente geóloga. Ao lado esquerdo dos pacientes um nu feminino e as fotos de meus filhos misturadas – propositalmente – com crianças fotografadas em Serra Pelada por Sebastião Salgado. Papéis espalhados, fichas de pacientes, calendários de data menstrual, anotações de partos futuros e datas de palestras. Café, muito café. Crachás de palestras que participei, coleção que imitei de Debra Pascali-Bonaro. Música no computador, onde uma foto sorridente do meu neto Oliver aparece em alta definição. E Zeza ao meu lado…

A Dra. “P” explicou pacientemente as medicações e as medidas a serem tomadas. Foi educada e mostrou interesse em todas as informações, mas era possível perceber, mesmo que de forma muito sutil, a impaciência para o término da consulta. Sim, não mais do que 20 minutos já haviam passado, mas o que mais há para se falar sobre moléculas, exames laboratoriais e efeitos colaterais de medicações? Meu pai, ingenuamente, espichava a conversa e tentava falar dele, de suas manias, seus jeitos, suas ideias e suas suposições. Arriscava disgnósticos baseados em suas percepções e na sequência lógica de eventos que experimentava. Criava fantasias sobre suas dores e sofrimentos e a possível conexão destes com seu mundo afetivo e emocional. Nada disso parecia cativar a atenção e muito menos atiçar a curiosidade da jovem doutora; nada a fez aprofundar qualquer dessas questões. Meu pai falava de uma conexão para ela inexistente, mundos separados por séculos, onde os desejos, as paixões e a angústia haviam se divorciado da carne crua, e com ela não mantinham nenhum contato. Mas meu pai não sabia desse divórcio litigioso e continuou a falar sobre sua alma até que eu, gentilmente, lhe toquei o braço, anunciando que era tempo de “liberar” a doutora da nossa presença.

Combinamos uma nova consulta para um par de meses, apenas para acompanhar o andamento das novas medicações. Nos despedimos e caminhamos em sentido inverso no corredor branco que nos levava de volta à recepção, e de lá para os elevadores, as catracas e o mundo. Falei ao meu pai que aquela consulta poderia ter sido feita por telefone, durando não mais do que 15 minutos de simples informações, o que ele concordou. Comentei que naquele ambiente nós não somos relevantes; somos peças de uma engrenagem, da qual o médico é também apenas mais um elemento. Percebi que quem fez a consulta foi o computador, o sistema: os exames, as análises laboratoriais, as pesquisas dos remédios, tudo isso é feito por programas específicos que guardam todas as informações. Ao mesmo tempo em que somos estorvo, o médico se torna, paulatinamente, supérfluo.

Eu havia visitado com meu pai o “Admirável Mundo Novo”, ou as clínicas de eutanásia de “Soylent Green”. O cenário futurista e tecnológico servia para deixar claro que o importante no local é o fluxo ordenado, a segurança e o controle; as consultas são meros acessórios para a fluidez mecânica e programada de todos os elementos do atendimento. A identificação, as catracas, as senhas, a espera tediosa, a consulta meteórica, as salas nuas e despojadas, o tratamento educado, gentil e intencionalmente impessoal, tudo me mostrava que ali não éramos as estrelas. Sim, Cássia, ali nós não fomos “All Star“. Não, os pacientes são pontos escuros em um mapa de circulação humana numa central cibernética. Nada naquele dia me mostrou afeto, proximidade, carinho, cuidado centrado no sujeito, entendimento e visão complementar. Tudo era branco demais, limpo demais, claro demais. Estéril.

Pensei na minha abordagem “narrativa” de pedir a uma paciente – que me procurava por um corrimento ou uma dificuldade em engravidar – que discorresse livremente sobre sua vida e suas paixões; sua história e seus sonhos. Percebi que é provável que muitas clientes pensassem nisso como uma absurda perda de tempo, uma conversa sem sentido e que apenas atrasava a chegada “ao ponto”: a mancha, a dor, a cólica, o prurido, as tripas, as angústias e as feridas. Por outro lado, algumas percebiamm que é exatamente nessa conversa e nessa experiência exonerativa que se instalava a verdadeira conexão terapêutica. Não é no remédio, na droga ou no bisturi: é na palavra, a não ser quando o desequilíbrio avançava a ponto de não ser mais possível recuperar o dano que se instituía no corpo.

Minha mente me fez lembrar, sorrindo, das minhas consultas na Liga Homeopática. Lá, mesmo que não soubessem, os pacientes marcavam uma consulta mas recebiam duas. A minha, consulta médica propriamente dita, e a “consulta” que tinham com a secretária que os atendia na recepção. Esta mulher, dotada de uma rara sabedoria, acalmava, tranquilizava, oferecia alternativas, orientava e preparava os espíritos para a consulta que ocorreria em alguns minutos. Por mais que entendamos os limites destes encontros, é importante reconhecer e reverenciar seus aspectos terapêuticos. Ali, tudo era conexão: os filhos, o emprego do marido, as dores nas pernas, a gastrite e as gripes; nada fugia à necessária conexão com o todo.

Já na rua me despedi de meu pai. Foi um prazer poder acompanhá-lo à consulta, e penso que os filhos deveriam fazer isso sempre. Infelizmente percebi que o mundo contemporâneo não trata os pacientes como as estrelas no cenário da atenção. A tecnologia, com seu canto sedutor, nos faz acreditar que as paredes brancas e assépticas de uma clínica, o avental impecável de uma jovem doutora, o computador cheio de dados e números, possa – por fim – nos desvendar os mistérios últimos que nos constituem. A pobreza das respostas, a falha de cumprir com sua promessa de nos redimir da dor e da morte, nos mostram que pouco ou nada sabemos de profundo sobre os enigmas que nos rondam. Saímos do centro clínico com algumas angústias a mais do que tínhamos ao chegar. Voltei meu olhar para a rua e caminhei em direção ao estacionamento. Pensei mais uma vez em Cássia… e falei com ela em meus pensamentos. Na minha cabeça chegaram palavras, palavras ao vento…

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar

Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será

Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras

PS: Voltei a ler esse texto 10 anos após ter sido escrito. Coloquei minhas impressões no papel logo depois da consulta com meu pai. Nesta época, tanto ele quanto minha mãe ainda estavam vivos. Na verdade, ao escrever o texto ocultei detalhes importantes. Não era uma “doutora P”, mas um médico, muito jovem, um neurologista com poucos anos de formado, e a consulta era para a minha mãe (que não tinha condições de estar presente). Esse jovem neurologista era profundamente arrogante, insensível e sem qualquer tipo de empatia. Ele havia atendido a minha mãe durante uma crise terrível que ela passou no hospital Moinhos de Vento e chegou 2 horas após ter sido chamado, e para esse atraso sequer pediu desculpas ou se explicou. Chegou ao hospital vestido como se estivesse em uma festa, e fez questão de deixar claro – por suas atitudes – que a crise neurológica de minha mãe estava atrapalhando sua vida social. A consulta havia sido marcada com ele porque foi automaticamente agendada quando minha mãe recebeu alta.

Não revelei isso no texto original porque era a minha irmã quem controlava os médicos do meu pai e da minha mãe e eu não queria que ela soubesse da minha contrariedade; não desejava ser o responsável por atrapalhar uma transferência que podia existir. Muitos anos depois meu pai me disse que havia detestado a consulta e o médico, mas não quis me dizer para que eu não pensasse mal dele. Fiquei muito impressionado com o péssimo atendimento da chamada “medicina de grupo” (meu pai tinha Unimed) e percebi o quanto este tipo de seguro saúde vale muito mais como divisor de classe social do que um verdadeiro “upgrade” na qualidade do atendimento. Uma sociedade realmente evoluída não divide a atenção à saúde por classes: num mundo ideal, o médico do Ministro atenderia também os faxineiros do Palácio.

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Alegria, alegria

Mulher feliz

Das possíveis alegrias na vida de um médico, em especial um obstetra e ginecologista, está o relato de uma mulher, que depois de alguns anos de atendimento e tratamento homeopático – através do que se poderia chamar de “medicina narrativa” – alcançou pela primeira vez um orgasmo, com a idade de 61 anos.

Mais do que uma melhora clínica, a cura de uma “doença”, a suavização de um sintoma ou a alteração de valores laboratoriais, esta mudança em sua sexualidade nos sinaliza para um câmbio de perspectiva de vida, para um olhar mais positivo e livre das amarras pregressas de rancores e mágoas doloridas, as quais a impediam de alcançar seus mais nobres objetivos.

No ocaso de um percurso de mais de 30 anos de escuta, um relato pleno de esperança como este é capaz de nos encher de alegria e contentamento.

Patu Saleh!!

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Checkpoint

Checkpoint

“Enquanto continuarmos a valorizar os planos de saúde eles funcionarão como uma espécie de “salvaguarda da classe média” que nos alivia da tensão de ficarmos doentes e termos que dividir espaço com os pobres. No Brasil 52 milhões de pessoas usam este artifício. Para mim é apenas segregação. Um país civilizado tem saúde de qualidade para todos e não apenas pra quem paga grandes quantias de dinheiro para empresas privadas. Aqui os planos de saúde – todos – funcionam como um muro de apartheid, como na Palestina, separando os brancos europeus da escuridão epidérmica dos palestinos. Se você tem “Bamerindus Gold” pode passar o checkpoint e entrar no hospital “Middle Class Paradise”. Ah, não tem carteirinha, cabeção? Entre na fila do hospital público, e saiba qual o seu lugar…”

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Um pouco de Homeopatia

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Esclarecimentos gerais sobre homeopatia…

Medicamento homeopático não produz sintomas. entretanto, se houver similitude entre o sujeito que o usa e as características do remédio escolhido poderá haver o despertar de sintomas que pertencem à história daquela pessoa. Caso não haja semelhança a homeopatia não passa de água.

A busca do remédio homeopático parte da investigação das múltiplas características físicas, psicológicas, emocionais, familiares e biopatográficas (a história das doenças) e a confrontação destes aspectos subjetivos com a experimentação de milhares de substâncias homeopaticamente estudadas e catalogadas.

Desta forma, homeopatia funciona como música. Se houver sintonia com a melodia, você pode se emocionar, alegrar ou mesmo entristecer. Ela “desperta” sentimentos e emoções se houver conexão frequencial. Por outro lado, se a música não lhe “tocar” de nada adiantará escutar de novo ou aumentar o volume. É a frequência vibracional que produzirá a sintonia. Você precisa ter aquela música dentro de si

Se não houver esta “similitude” a música que você escuta é apenas barulho.

No caso da homeopatia, é tão somente água

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Invasões

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas. Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário:

Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.

Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos”, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen”, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas.

Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres

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O Mito da Circular de Cordão

Cordão Umbilical

Minha experiência com circulares de cordão é razoável. Muitas pacientes me procuravam com medo de uma cesariana porque o seu médico falava que o cordão está enrolado no pescoço, portanto uma cesariana era mandatária, sob pena do nenê entrar em sofrimento.

Circulares de cordão são banalidades na nossa espécie. Um número muito grande de crianças nasce assim. Eu tinha a informação que a incidência era de 30%, mas talvez seja um número antigo ou inadequado. De qualquer sorte, uma quantia considerável de crianças vem ao mundo desta forma. Já tive partos com 3 voltas bem firmes no pescoço, e com escore de Apgar 9/10.

É engraçado ver a expressão das pacientes quando conto pra elas que o que me preocupa não é o pescoço, mas o cordão. O fato do pescoço estar sendo pressionado é pouco importante se comparado com a compressão do cordão. A fantasia da imensa maioria das mulheres (mas também dos homens) é que a criança está se “enforcando” no cordão. Elas ficam surpresas quando explico que o bebê não está respirando, então porque o medo da asfixia? Acontece que existe espaço suficiente para o sangue transitar pela estruturado cordão, protegido pela geleia de Warthon que o recobre, mesmo com voltas em torno do pescocinho. Além disso, se houver uma diminuição na taxa de passagem de oxigênio pelo cordão isso será percebido pela avaliação intermitente durante o trabalho de parto. E esse evento NUNCA é abrupto. DIPs de cordão, como os chamamos, ficam dando avisos durante horas, e são diminuições fortes apenas durante as contrações, com o retorno para um batimento normal logo após. Marcar uma cesariana por um cordão enrolado no pescoço é um erro.

Sei como é simples e fácil apavorar uma mãe fragilizada contando histórias macabras a esse respeito, mas a verdade é que não se justifica nenhuma conduta intervencionista em virtude deste achado. Por outro lado, a presença deste diagnóstico tão disseminado nos consultórios e nas conversas entre pacientes nos chama a atenção porque, se não é um problema médico, é uma questão sociológica.

Esse exame parece funcionar como um acordo subliminar entre dois personagens escondidos no inconsciente dos participantes da trama, médico e paciente.

De um lado temos uma paciente amedrontada, desempoderada diante de uma tarefa que parece ser muito maior do que ela. Acredita piamente no que o “representante do patriarcado” lhe diz. Não retruca, não critica; sequer pergunta. Nada sabe, mas precisa do auxílio daquele que detém um saber fundamental aos seus olhos. Diante das incertezas, da culpa, do medo e da angústia ela se entrega, aliena-se. Fecha os olhos e coloca o “anel”, que faz com que ela mesma desapareça, entregando-se docilmente aos desígnios dos que detém o poder sobre seu destino. Oferece seu corpo para que dele se faça o que for necessário.

Na outra ponta está o médico. Sofre em silêncio a dor da sua incapacidade. Pensa baixinho para que ninguém leia seus pensamentos. Sabe que pouco sabe, mas também tem plena noção do valor cultural que desempenha. Nada entende do milagre do nascimento, mas percebe seus rituais, muitas vezes ridículos, outras vezes absurdos e perigosos, produzem uma espécie de tranquilização nas mulheres. Não se encoraja a parar de encenar, porque teme que não lhe entendam. Continua então repetindo mentiras, esperando que não descubram o quão falsas e frágeis elas são. É muitas vezes tomado pelo “pânico consciencial”, ou o medo que surge diante de uma tomada de consciência. Muitas vezes age como um sacerdote primitivo que, por uma iluminação divina ou por conhecimento adquirido, percebeu que suas rezas e ritos de nada influenciam as colheitas, e que o que governa estes fenômenos está muito além de suas capacidades. Entretanto, sabe que os nativos precisam dos rituais, que ele percebe agora como inúteis, porque assim se dissemina a confiança e a esperança. Mente, mas de uma forma tão brilhante, sofisticada e tecnológica, que deveras acredita no engodo que produz.

Ambos, mulher e médico, precisam aliviar suas angústias diante de algo poderoso, imprevisível e incontrolável. Olham-se e tramam o golpe. O plano que deixará ambos aliviados diante do enfrentamento. Mentem-se com os olhos. Eu finjo saber; você finge acreditar. Peço os exames. Todos. E mais um pouco. Procuro até encontrar aquilo que nos fornecerá a chave. A minúscula desculpa. Eu, com ela nas mãos, posso realizar os rituais que me desafogam da necessidade de suportar a angústia de olhar e nada fazer. Você, poderá escapar da dor de aguardar e fazer o trabalho por si. Poderá dizer que “tentou”, mas, foi melhor assim. O nenê poderia correr perigo. O cordão poderia deixar meu filho com problemas mentais, etc.

Feito. Pedido o exame, lá estava: O cordão, mas poderia ser o líquido, a posição, a placenta, a ossatura, as parafusetas protodiastólicas. Quem se importa? O carneiro, a virgem, o milho, todos são sacrificados. Quem se importa? Livramo-nos da dor. Anestesiamos nossas fragilidades e angústias. Ritualizamos, encenamos e todos acreditam. Nem todos! Alguns acordam, mesmo que leve muito, muito tempo.

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Porque patologizamos o parto?

A análise acima do livro “O Doente Imaginado“, de Marco Bobbio, se refere à construção de uma entidade nosológica a partir de sintomas comuns, como constipação. O objetivo é introduzir um medicamento com abrangência gigantesca e com lucros igualmente incalculáveis. Pensem em quantas pessoas conhecidas tem “intestino preso” e imaginem o mercado de drogas para este sintoma.

Entretanto as mesmas regras usadas para transformar transtornos comuns em doenças podem ser utilizadas para fazer a mudança da nossa percepção do parto, de evento fisiológico para uma patologia perigosa e traiçoeira. Toda uma cultura sobre o parto se construiu sobre esta deformação da realidade, que desvia o olhar para a riqueza de fenômenos adaptativos milenarmente construídos por sobre a arquitetura fisiológica do parto e incentiva uma visão demeritória, depreciativa e patologizante da mulher parindo.

O roteiro é o mesmo descrito no texto para a criação de doenças. Basta escutar os especialistas em “patologia obstétrica” para ficar convencido que as mulheres apenas sobrevivem aos horrores dos partos em função das técnicas, drogas, especialistas e os locais altamente tecnológicos elaborados para atender a este evento arriscado.

Os passos são idênticos:

1 – Fornecer números: des-subjetivar o evento e transformar o parto em um fato meramente epidemiológico, longe da subjetividade e da individualidade de cada mulher parindo.
2 – Despertar temores: mostrar cada evento catastrófico como sendo o destino certeiro de toda a mulher que ousar parir de forma natural e fisiológica.
3 – Sugerir exames: ecografias sem embalsamento científico em todas as consultas de pré-natal, uso de vitaminas sem sentido, manipulações exageradas nas consultas e uma postura autoritária dos profissionais.
4 – Banalizar a solução: entregue as decisões na mão de quem “sabe”. Não questione, não pergunte, não desconfie; apenas obedeça. Afinal, eles sabem tudo o que pode acontecer de errado com você.

Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada?

“A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação pelas mulheres desta visão, é um dos capítulos mais fascinantes da história da mulher no ocidente, e um dos menos estudados, por razões históricas e contextuais. Entretanto, creio que a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos mais femininos. Pelo contrário, será pelo reforço de suas especificidades.”

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Herói

Herói médico

“A causa essencial dos problemas relacionados com a atenção médica ao parto é o próprio paradigma médico incidindo sobre a fisiologia deste evento. Vejam bem: encarceramos estudantes por 6 a 9 anos numa universidade ensinando-lhes patologia e intervenção, o combate às doenças e os tratamentos – cirúrgicos e medicamentosos. Depois de formados oferecemos a eles a fisiologia e os ciclos vitais normais, que requerem atenção e cuidado, e não intervenções tecnológicas e heroicas, as quais só deveriam existir como exceção. Diante desta encruzilhada, o que fazem os médicos em pânico, a quem oferecemos algo que não sabem fazer, não conhecem a fundo, não querem entender e sentem-se impotentes para lidar?

O que se vê e que estes profissionais transformam a gestação em doença e o parto em processo cirúrgico para assim, aliviados, poderem fazer uso de sua arte. Os médicos, portanto, também são vítimas de um modelo onde se sentem deslocados. Melhor seria que a eles fosse reservada a condição de “heróis”, prontos para agir apenas quando sua arte é necessária. Precisamos de mesmo de personagens de coragem e fibra, prontos a agir diante das ameaças que um parto pode apresentar, e não profissionais que transformam um importante rito de passagem feminino em um evento operatório, frio, asséptico e arriscado.”

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Negros

FMUFRGS 1985

Esta é a foto da minha formatura há 29 anos, na cidade de Porto Alegre. Tenho boas e más lembranças desta época, mas vejo que alguns dos meus colegas mantiveram um espírito crítico e uma visão positiva da profissão, apesar das agruras causadas pela “máquina de moer carne” da escola médica. Todavia, como se pode ver na imagem, não há nenhum negro representado na turma que posou para a foto na escadaria da velha escola médica. Aliás, durante os anos que frequentei a faculdade de Medicina conheci apenas um, que era sobrinho de um famoso político e que acabou também por seguir a carreira do tio. Nenhum outro negro, sequer mulato, compartilhava aquele espaço conosco. Claro, havia porteiros, serventes, auxiliares do biotério, faxineiras, e esses eram mais escurinhos. De resto todos brancos, claros, alvos e cristalinos. O que poderíamos entender do sofrimento de um negro?

Lembrei uma aula de quando eu estava no terceiro ano de medicina passando pela cadeira de semiologia. No ambulatório de clínica da universidade nos dividíamos para atender os prontuários que repousavam sobre a mesa. Nosso grupo ficou composto de 3 alunos, e a nós coube examinar um homem negro de meia idade, cujas queixas se perdem na névoa do tempo. Depois de feita uma anamnese, verificados os sinais vitais e colhida a história biopatográfica chamamos o professor para nos ajudar na continuação do atendimento. Nosso professor, já falecido há muitos anos, adentrou a sala e, ao notar que se tratava de um negro, disparou:

Queridos alunos. Quando temos pacientes “pardos” temos que pensar em três diagnósticos principais: hipertensão, escabiose e gonorreia. Já perguntaram sobre isso?

O senhor jazia deitado na mesa de exame e se manteve imóvel. Àquela época, passados mais de 30 anos, esta atitude não teria a mesma repercussão que hoje, mas mesmo assim eu fiquei estático e chocado. Olhei para o paciente deitado à nossa frente coberto com uma bata branca e esperei sua reação, enquanto eu me cobria de “vergonha alheia”. Passados alguns instantes sua atitude acabou sendo a pior possível, a mais terrível, a mais violenta e a que, por isso mesmo, mais me marcou.

Não, ele não se levantou e golpeou o professor. Sequer dirigiu-lhe palavras de indignação. Não, ele não reclamou do rótulo de promíscuo ou sujo. Ele também não tentou aclarar a situação, explicando as reais razões pelas quais ele procurava o serviço de medicina interna do hospital da universidade. Não, ele não mandou o professor se calar.

Ele apenas baixou o olhar, olhou para mim e tristemente sorriu.

Em seu sorriso eu podia ler toda a resignação com sua condição de negro, a qual nenhum de nós poderia jamais entender. Ser tratado dessa forma em um serviço público – que deveria entendê-lo e ampará-lo, acolhê-lo e tratá-lo sem julgamentos – era apenas mais um capítulo em sua longa história de humilhações cotidianas.

– De que adiantaria me indignar, jovem? disse ele em pensamentos durante seu breve sorriso amargo. Por acaso eu seria entendido? Tens alguma esperança de que o velho professor poderia entender o que é a dor de ser a vida inteira considerado inferior, sujo e indolente? Achas mesmo, menino, que meu sofrimento poderia ser captado, processado e transformado em empatia por alguém que nunca entendeu o que é nascer com “a cor errada”, ou ter o “cabelo ruim”? De que adiantaria gritar, esbofetear, reclamar ou sair correndo? De nada, meu jovem, de nada. Para vocês deixo apenas meu sorriso dolorido e meu silêncio. Talvez algum de vocês possa um dia entender o que significa nascer pintado de preto num mundo que só aceita o branco.

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Fotografia de Formatura

Formatura Medicina

É difícil que os médicos recém saídos das universidades consigam entender as reais necessidades da população que atendam, e por isso temos tantas dificuldades. Essas pessoas, os novos médicos, são de estratos sociais completamente diferentes daqueles a quem vão assistir e tratar. É complicado entender o sofrimento humano, principalmente as questões carenciais básicas, quando você tem uma casa, comida e afetos e não sabe o que é ter violência doméstica, falta de comida, crack, sujeira, tráfico, pobreza intensa e tantas outras mazelas contemporâneas.

Quando eu era residente escutei uma contratada dizer que achava que toda a ciência “psi” (da psicologia, passando pela psiquiatria até a psicanálise) era pura balela, pois que suas questões (sim, as dela…) eram todas resolvidas com um “banho de loja”, pois isso resolvia suas carências e conflitos. Não, ela não estava brincando; era verdade mesmo. Como ela poderia atender uma mulher em profundo sofrimento psíquico? Como ela poderia entender a dor de uma perda, de um remorso, de uma carência afetiva fundamental e trágica? Da mesma forma, como ela atenderia no posto de saúde uma mulher que não consultou antes porque não tinha dinheiro suficiente para pagar a passagem do ônibus? Será ela capaz de entender o que isso significa? Será ela capaz de entender a dor de ser negro em uma sociedade racista? Uma distância tão gigantesca entre perspectivas e visões de mundo pode ser superposta por boa vontade, empatia e uma visão “carinhosa” com os desvalidos? Ou seria fundamental que essas pessoas tivessem um mergulho nessas sub-culturas para que pudessem entender o que a saúde e os tratamentos significam para elas? Será possível esta visão em uma academia que prepara médicos (mormente especialistas) para dar atenção à burguesia através de tecnologias de ponta e tratamentos curativos terciários? Ou teremos que mudar radicalmente a abordagem à saúde e os sujeitos que a conduzem?

É inegável que existem médicos maravilhosos que conjugam valores técnicos com humanos, mas também é claro que a formação e o sistema abafam a real expressão desses valores. É difícil manter-se conectado a esses princípios diante de tantos estímulos em contrário. É quase impossível ser estudante universitário sem ser da classe média alta, principalmente em universidades públicas. As transformações estão acontecendo, mas uma REAL mudança demográfica nas universidades ainda levará uma geração para se consolidar.

A medicina e o direito, só para dar dois exemplos de cursos universitários clássicos, tradicionais e fáceis de entender, foram criados para servir uma burguesia que aos poucos se organizava. Estas instituições apenas a pouco começaram a ser oferecidas às classes populares. O direito, diferentemente da medicina, só há pouco tem “sistemas populares” de atendimento, como “pequenas causas” ou a defensoria pública. Meu pai me conta que só veio a conhecer um médico em sua vida com mais de 12 anos de idade, quando veio do interior para a capital. E “conhecer” é usado no sentido de “enxergar“, pois consultar com um desses profissionais era inviável há 70 anos.

Fazer essas profissões darem conta das necessidades do povo é um desafio cultural pois que, como eu disse anteriormente, os próprios atores sociais que as compõe não são – com raras e notáveis exceções – oriundos das classes mais baixas. Para se certificar disso basta olhar a história pessoal dos antigos médicos, os que hoje nomeiam enfermarias na Santa Casa, nomes de rua, professores catedráticos da universidade e ver de onde saíram: quase todos da burguesia abastada ou do latifúndio. Assim, democratizar a atenção oferecida por estas profissões – a saúde física da medicina e a saúde social do direito – é uma tarefa complexa e difícil, mas absolutamente necessária. Entretanto, para que ela atinja seus objetivos mais profundos, é fundamental que seus integrantes tenham pleno conhecimento da população que atendem, com seus dramas, valores, idiomas, tragédias e alegrias.

Para isso é necessário sentir na pele o que é ser como eles.

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