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Sentenças

martelo-juiz

Eu digo há mais de duas décadas que o movimento de humanização do nascimento precisa falar para quatro instâncias fundamentais:

1 – Mulheres
2 – Ativistas
3 – Profissionais de saúde
4 – Operadores do direito

Mesmo que nossos esforços tenham se intensificado muito no que diz respeito às mulheres, o campo do ativismo e muitos profissionais da saúde, até agora os operadores do direito – advogados, promotores e juízes – ainda se mantêm profundamente ignorantes sobre o tema do nascimento. Alguns recentes julgamentos e manifestações mostraram de uma forma muito clara a incapacidade do judiciário em tratar de assuntos médicos, em especial dessa área especial da medicina aplicada à mulher. Essa lacuna produz uma profunda insegurança nas mulheres e principalmente nos profissionais que querem sofisticar seu atendimento mas temem ser julgados por pessoas que desconhecem profundamente os elementos mais básicos da Medicina Baseada em Evidência e que se deixam conduzir por mitos contemporâneos, em especial a “mitologia da transcendência tecnológica”. Via de regra os advogados, promotores e juízes se deixam levar pelo “senso comum”, sem enxergar os sistemas de poder que estão em jogo quando ações médicas são julgadas.

É minha convicção que só teremos humanização do nascimento quando obstetras humanizados puderem ser protegidos, quando o judiciário entender elementos essenciais da medicina baseada em evidências, quando promotores puderem entender que “por que não operou antes?” não é uma justificativa válida e que cesarianas não são soluções limpas, nobres e seguras para qualquer desafio no parto.

Enquanto não tivermos essa segurança jurídica para o atendimento ao parto humanizado todos os nossos esforços serão limitados. Sem a incorporação do campo jurídico nesse esforço e a proteção garantida aos obstetras humanizados nunca teremos uma atenção plenamente digna.

Mas qual  seria a saída? Se os pareceres são sempre feitos por médicos, e reconhecendo o viés corporativista que os médicos terão na imensa maioria dos casos, como evitar que os profissionais de saúde continuem a ditar as regras nos litígios?

Como impedir que os lobos determinem as leis da selva?

Exemplo típico, que ocorre aqui e nos Estados Unidos: médicos não querem atender partos após cesarianas, partos pélvicos e partos de gêmeos. Eles conhecem nos riscos e os benefícios dessas abordagens mas…. por que haveriam de se arriscar? E “risco” aqui não se refere àquele que acomete os pacientes, mas o SEU risco profissional. Se um mau resultado for a juízo já terá um parecer condenatório da corporação, pois esta condena quem foge aos SEUS interesses (partos pélvicos, gemelares e domiciliares não interessam aos médicos) e o profissional estará completamente desprotegido. Com isso condenamos, de forma direta ou indireta, milhares de mulheres a realizar cesarianas contra sua vontade, assim como ocorre com os partos domiciliares. Constrangendo os médicos e amedrontando as mulheres conseguimos estabelecer um modelo de assistência que serve aos interesses das corporações e das instituições, mas que não propicia escolhas verdadeiras e nem contempla os desejos das mulheres.

No fim das contas, a forma de parir em uma cultura acaba sendo determinada de forma autoritária pela corporação profissional, e não pelas mulheres. Médicos humanizados são constrangidos pelos interesses corporativos a agir de uma maneira a não questionar ou desafiar o modelo hegemônico, mesmo que as evidências científicas lhes ofereçam respaldo.

Enquanto essa perseguição ocorre, médicos “cesaristas” – aqueles que recorrem às cesarianas sem uma real necessidade – sentem-se autorizados a empilhar quantas cesarianas desejarem, colocando suas pacientes em verdadeiras “linhas de montagem” para se submeterem a esta cirurgia, pois que a utilização de recursos tecnológicos abusivos em que nada vai lhes ameaçar. Profissionais que agem assim estarão sempre blindados contra qualquer acusação. Ninguém ousa criticar um profissional que se posiciona “do lado certo da força“; mesmo nos piores cenários, sempre sobra ao médico a possibilidade de dizer “fizemos tudo que era possível“.

Posicionar-se ao lado da tecnologia, até quando ela é mortal, é uma carta de alforria para qualquer ação médica.

Todavia, já podemos ver os sinais de mudança no horizonte. Aos poucos está se formando uma consciência nova sobre a questão do nascimento no país, inédita no nosso meio, e por isso incipiente. Não há como exigir que uma cultura se modifique com pressa; ela precisa ser sedimentada entre as próprias mulheres e depois para os outros atores sociais. Hoje já são visíveis inúmeras iniciativas que confluem para o estabelecimento de um novo paradigma. Um caso aqui, outro ali, uma manifestação, um artigo, um filme. Dois filmes. Uma marcha, três marchas, um parlamentar que se associa às nossas propostas. Um juiz que lê os autos com cuidado e responsabilidade; mais tarde um que seja sensível e estudioso. Depois 3 ou 4 se juntam a este. E assim caminham as mudanças.

Os operadores do direito aos poucos vão percebendo as repercussões sociais do parto humanizado e o sentido que estas mudanças vão implicar na cultura. Por isso mesmo precisam estar preparados para a defesa da liberdade, da autonomia e dos direitos reprodutivos e sexuais.

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Grosserias perigosas

Médico brabo

Sobre as grosserias em ambientes de trabalho, em especial nos hospitais, e que colocam em risco o resultado das intervenções e a própria saúde dos pacientes…

Eu sou do tempo em que a violência e a grosseria eram o padrão dentro de blocos cirúrgicos. Tais atitudes era “elogiáveis” e bem vistas pelos estudantes, que acreditavam na sua necessidade para manter claras e transparentes as hierarquias solidamente construídas na assistência aos doentes.

Havia dois elementos preponderantes nas condutas agressivas dos médicos: o viés de gênero e o de classe social, ou “casta”. Os médicos – em especial os cirurgiões – faziam de sua prática um festival de grosserias com subalternos (estudantes, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e limpeza) e um exercício explícito de sexismo e misoginia. Eram comuns os “chiliques” do doutor quando havia um problema qualquer durante os momentos tensos de uma cirurgia. Tesouras, pinças e afastadores voavam pela sala, assim como gritos eram disparados contra indefesas instrumentadoras e circulantes. A humilhação era conduta banalizada. As funcionárias, via de regra, se resignavam, pois qualquer reclamação era vista como insubordinação. Eu fui testemunha de suspensões e punições de técnicas de enfermagem que reclamaram quando a grosseria atingiu a sua própria honra, mas a cena comum e previsível era o choro solitário no vestiário e o silêncio mortificante.

A misoginia dos ambientes hospitalares sempre foi uma marca característica, semelhante demais com outros ambientes de confinamento social (como exército, igrejas e presídios) para não a entendermos como um elemento fundamental na criação de hierarquias rígidas e sistemas de poder baseados no gênero.

Alguns médicos mais antigos (lembrem que falo de uma realidade de três décadas atrás) justificavam sua crueldade e comportamento violento justificando que era essencial que “cada um soubesse seu lugar” ou ainda que “se elas tiverem medo de mim vão cuidar para não cometer erros“. Essa “tática de terror” sabidamente funciona em curtíssimo prazo, mas é uma tragédia quando se torna padrão de atitudes, pois fatalmente gera medo, seguido de raiva, ressentimento, rancor e mágoa. E isso pode ser trágico para o trabalho a ser realizado.

Cultivar um ambiente limpo de sentimentos negativos é tarefa muito difícil, mas as pesquisas comprovam que ele se associa a resultados melhores. Hoje em dia não vejo mais tais violências em hospital, mesmo sabendo que elas ainda existem, e fico esperançoso ao perceber que as mulheres que trabalham junto aos cirurgiões não precisam mais se esconder para chorar no escuro e podem usar de outros instrumentos para exigir o merecido respeito e consideração.

Com o tempo vamos limpando os ranços machistas e preconceituosos do trabalho sagrado de cuidar de quem sofre.

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Droga Milagrosa

fosfoetanolamina

Eu não gosto das manifestações do Dr Dráuzio, até porque tudo que ele fala é “chapa branca”. Nunca se ouvirá dele nada criativo, novo, instigante, questionador, provocativo ou que proponha mudanças na estrutura de poderes na saúde. É tome vacinas, faça pré-natal, exames preventivos, novas drogas etc. Além disso ele é um perfeito tecnocrata, sempre associado ao poder econômico e descaradamente contra o parto normal. Já escrevi um texto há mais de 15 anos chamado “Pumba”, quando de uma entrevista dele à revista Cláudia (ainda existe?) em que ele afirmava que parto era uma coisa muito chata e que era melhor fazer uma cirurgia e…. PUMBA!, se tirava o bebê sem ficar escutando gemidos e reclamações dos familiares, que ficavam de fora do centro obstétrico incomodando. Ele é um exemplar muito fácil de reconhecer da “velha escola médica”, acostumada com uma visão arrogante, pretensiosa, higienista e professoral da saúde. “Escute o que eu tenho a dizer, pois eu entendo da saúde de vocês muito mais do que vocês mesmos“…

Entretanto…. creio que ele está correto em não dar crédito à Fosfoetanolamina, droga que está sendo tratada como a “cura do câncer”. Não se pode vender uma droga – ou mesmo disseminar essa ideia – sem que seus efeitos sejam comprovados. Existem etapas FUNDAMENTAIS que não foram cumpridas, sem as quais não haverá PROVA da eficácia no tratamento de qualquer afecção. Dizer que há boicotes à sua experimentação pode ser até verdade, mas isso não exclui o fato de que sem comprovações ela não pode ser considerada um tratamento adequado para o câncer, seja de que tipo for.

A indústria farmacêutica é uma máfia das mais perversas existentes, e disso temos comprovações muito claras por testemunhos de inúmeros profissionais que foram atacados e perseguidos por suas ações ou descobertas. Entretanto, neste caso específico, não é a ação da “Big Pharma” o problema, mas as etapas que faltam para a comprovação da eficácia do medicamento. Sem isso qualquer atitude será extemporânea e, potencialmente, perigosa.

Não basta parecer um bom medicamento…. é preciso provar. Isso demanda tempo e dinheiro.

E paciência…

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Responsabilidades

delegar

“Humanização do nascimento é uma via de duas mãos. Não existe como ser efetivamente humanizada a atenção ao parto em pacientes alienados e oportunistas, que jamais se responsabilizam por suas escolhas. Humanizar o nascimento é trabalhar em parceria, jamais se deixando seduzir pela expropriação do protagonismo da mulher, tão característica de uma medicina autoritária. Para mudar o nascimento no mundo é necessário mudar a forma de pensar a própria vida, encarando suas escolhas de forma responsável, inclusive sobre aqueles que vão acompanhá-la na trajetória em direção à maternidade”.

Um erro que vem do passado, ainda centrado numa espécie de arrogância profissional, é crer que a medicina pode ser transformada se os médicos se modificarem. Isso é ingenuidade, pois ela é um retrato dos valores e conceitos sociais, expressos ou subliminares. A arte médica (e a política, a polícia, as artes, a justiça, etc.) mudará quando quisermos que ela mude. O médico é arrogante “por demanda“, porque assim o determinamos. O professor ganha pouco e o Ronaldinho milhões porque nossa neurose coletiva e nosso desprezo pela educação assim o determinam. Culpar médicos ou políticos pelo quadro deficiente de nossa medicina ou política é tolice e perda de tempo. A culpa é toda nossa, enquanto sociedade.

Quantas vezes já escutamos alguém despudoradamente dizer: “O presidente X foi péssimo porque enquanto esteve na presidência nossa categoria não recebeu aumentos“. Isto é: um presidente é bom ou ruim se a pessoa teve benefícios PESSOAIS com seu governo, e não se o país como um todo evoluiu e/ou se desenvolveu. Nossa avaliação continua sendo ego centrada, umbiguista. Com a medicina a mesma coisa: criticamos os médicos mas não nos esforçamos para ver qual a parte que nos cabe nesse transformação. A mudança na atenção médica – em especial na assistência ao parto – ocorrerá quando as forças sociais que desejam mudança suplantarem a inércia e colocarem-se em luta por reais modificações.

Enquanto isso não ocorre continuaremos a escutar lamúrias esparsas, que mais refletem nossa incapacidade de mobilização do que um verdadeiro desejo de mudar.

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Slow Medicine

Marco Bobbio

Faz algumas semanas eu publiquei uma série de mensagens sobre um autor que eu havia recentemente conhecido chamado Marco Bobbio e que liderava em seu país, a Itália, uma campanha semelhante a um movimento que existe nos Estados Unidos chamado “Choosing Wisely” que tem como mote principal a ideia de que “Fazer mais não é fazer melhor“. A proposta, que agora percebo se espalhar pelo mundo todo, é a “suavização” da prática médica diminuindo os exames, pesquisas e procedimentos em todas as áreas que não se mostram positivos e que podem inclusive induzir ao erro ou produzir dano.

Por uma coincidência maravilhosa o professor Bobbio esteve palestrando hoje ao anoitecer para um seleto grupo de não mais de 15 pessoas no hospital que eu atendo. Depois de uma maratona de 3 partos e mais de 24 horas sem dormir, fazendo “plantão” no hospital, ainda tive energias para escutar as suas palavras.

O que eu mais senti na palestra do Dr Marco Bobbio, além da necessidade urgente de modificar o modelo de atenção à saúde no mundo inteiro, foi a importância que ele – um cardiologista – percebe na atenção ao parto como um dos exemplos mais gritantes do uso excessivo de exames, diagnósticos e tratamentos. Ficou claro que o parto – pelas questões de gênero envolvidas – é um dos campos da medicina mais evidentemente afetado pela tecnocracia. Por outro lado, outro sentimento se apossou de mim. Eu senti um orgulho muito grande do movimento de Humanização do Nascimento no Brasil que faz “slow medicine” (termo que está sendo difundido para uma medicina “low tech – high touch”) há décadas através dos nossos movimentos sociais. Entretanto, entre o discurso histórico da ReHuNa e os propagadores da “Choosing Wisely” existem diferenças marcantes e que são muito evidentes quando se observa a origem, percurso e visão de futuro que cada uma dessas proposta carrega e divulga.

O que se percebe no modelo proposto pelo Dr Marco Bobbio é que o “Choosing Wisely” americano ou a sua vertente italiana “Fazer mais não é fazer melhor” é que ainda são propostas medicamente centradas, iatrocêntricas e que ainda se baseiam em um modelo autoritário mesmo quando a proposta é produzir uma “horizontalização” da atenção. Muito se fala em MBE – Medicina Baseada em Evidências – como condutora principal das ações, mas ainda não é tão marcante a ênfase sobre os paradigmas, as mitologias contemporâneas (como a transcendência tecnológica) a pressão econômica e a violência das grandes corporações farmacêuticas como condutoras de ações na área da medicina. As ideias desses movimentos até abrangem a “medicina defensiva”, e o medo dos processos como propostas de hipermedicalização, mas não tangenciam de forma marcante e clara as outras forças sociais que impulsionam os tratamentos e a diagnose para um caminho diverso da excelência.

O que nós no Brasil temos como grande virtude é que a Humanização do Nascimento, durante os últimos anos, nunca se deixou engolir por um discurso positivista, medicalizado e organicista. Pelo contrário: a Humanização do Nascimento iniciou como um movimento social e até hoje se mantém assim. Este discurso jamais foi cooptado pela Medicina, nem por outros ramos do saber, até porque é da sua origem entender que as verdadeiras mudanças só podem ocorrer pela base, e não por deliberações determinadas por notáveis profissionais da saúde, portadores de verdades inquestionáveis. A característica única e marcante das nossas pautas – que mescla a Saúde Baseada em Provas com a ideia de um movimento social de consumidores, parceiros(as), gestantes, psicólogas, médicos(as), enfermeiras(os) etc – é o que nos oferece singularidade e força.

Tive uma breve oportunidade de conversar com o Dr Marco Bobbio após a sua brilhante exposição, e pude lhe dizer da satisfação de ver este movimento crescer no mundo inteiro. É fundamental observar o momento de crise – ética, profissional, econômica – da Medicina para elevar a sua qualidade. Falei-lhe por poucos minutos da ReHuNa e seu compromisso com partos humanizados e recebi dele a chancela de que estamos no caminho correto. Disse-lhe ainda: “Sem que procuremos uma mudança paradigmática profunda na sociedade, este movimento não irá a lugar algum. O abuso de procedimentos não é uma crise médica, é uma crise da sociedade capitalista, e é sobre ela que devemos agir de forma mais intensa e decisiva“.

O professor concordou com minhas palavras, apertou fortemente minha mão, e sorriu…

Arrivederci maestro!!!“, disse eu. Um dia para ficar na memória.

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Parefeitos

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“A objetualização do paciente, sua coisificação e o tratamento frio a que ele é submetido NÃO SÃO “paraefeitos” do modelo de ensino contemporâneo. Pelo contrário; tais elementos formam a base do paradigma tecnocrático de assistência no processo de produção dos novos profissionais da saúde. Sem a plena compreensão dessa intencionalidade inconsciente e ritualística jamais completaremos a tarefa de humanização da assistência. O problema é que a violência praticada é invisível, como se, assim naturalizada, ela passasse a ser parte integrante da atenção. Com isso ela se torna inquestionável. Afinal, como questionar uma ação que é essencial para o atendimento? Botar alunos em fila para apalpar uma tireoide ou fazer um exame de toque, passa a ser o “certo“, o “essencial” e o “natural“. Como reclamar?”

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Modismos

Nelson Carneiro

Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio.  O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.

Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até.  Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade,  conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.

Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.

A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.

Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.

Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica,  perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.

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Ultrassom

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Outra sensação agradável em contraposição ao meu notável e inexorável envelhecimento físico: minha mente ainda mantém boa parte dos atrevimento da juventude. Há mais de 25 anos eu denuncio os abusos de ecografias pela obstetrícia ocidental, questionando a validade do exagero e as desvantagens econômicas, médicas e relacionais deste uso.

No podcast do Dr. Stu desta semana ele se reporta a um artigo publicado no Wall Street Journal que expõe o uso excessivo de ecografias sem a contrapartida de melhorias nos resultados pós-natais, tanto para mães quanto para bebês. Aos poucos o cerco se fecha sobre esse “modismo”…

Todas as nossas pacientes grávidas já tiveram a oportunidade de escutar a minha explicação sobre os “três tipos de ultrassom”, quais sejam: médico, sedativo e recreativo. Apesar de soar como uma “restrição” essa explicação faz parte da informação que precisa acompanhar qualquer negativa ou consentimento de exame. É importante que as pacientes e seus(suas) companheiros(as) saibam exatamente do que se trata e quais os limites de uma investigação como esta. Por isso, quando as perguntas recaem sobre a “translucência”, “a morfológica”, a “ecocárdio” – além daquelas típicas “pra ver se está tudo bem” – elas já sabem que receberão uma longa explicação conjugada com a minha visão sobre os riscos inerentes de tais exames.

Felizmente hoje escutei a opinião do meu colega “homebirther” americano, que mais pareceu uma telepatia transoceânica, explicando que se limita a pedir apenas UMA ecografia entre 18 e 22 semanas de gestação e com as mesmas razões que oferecemos às pacientes: certeza do sítio placentário, análise de malformações graves e confirmação da idade gestacional. Mas a justificativa que ele fornece para este pedido único de ultrassom é a mesma que damos: “Só peço porque algumas pacientes planejam partos domiciliares”, que é a mesma ressalva que fazemos para as pacientes que pretendem parir com seus cuidadores (enfermeiras obstetras) em ambientes extra-hospitalares.

Os rituais contemporâneos da medicina, por serem sustentados por elementos pré-racionais e ligados ao desejo, são complexos e, por vezes, impossíveis de eliminar em curto prazo. Episiotomias, enemas, tricotomias e ultrassons são apenas alguns exemplos. Todavia, quando observamos a inexistência em nosso meio de “virgens queimadas” por uma colheita ruim percebemos que os rituais, por mais fortes que sejam, um dia enfraquecem até que, por fim, desaparecerem. A racionalidade é uma luz que nos guia em meio à treva, e que mesmo custando tempo e vidas, um dia vence as resistências e ilumina o pensamento.

Práticas abusivas e exageradas podem levar séculos para serem eliminadas, mas um dia serão apenas páginas amareladas da nossa longa história de equívocos na assistência.

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Impactos

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Seguindo o pensamento de Ivan Illich sobre o significado último das intervenções na saúde das populações, eu pergunto: quem é capaz de causar mais impacto positivo no nível de saúde global, uma nova estatina (medicamento para o colesterol, que gerará bilhões em lucro para um laboratório inglês, americano ou suíço) ou um simples sapato que protegerá os pés das crianças africanas? Sabemos que esta ação provavelmente não vai gerar lucro algum para o seus inventores, mas prevenirá milhares de mortes absolutamente evitáveis através de uma intervenção civilizatória  simples (proteger os pés), de baixo custo e fácil de implementar.

Ainda recordo de uma frase que li no livro “A Nêmesis da Medicina” do mesmo Ivan Illich em que ele dizia “Vidros nas janelas e cuecas limpas fizeram mais pela saúde do que todas as drogas e tratamentos no mundo“. Quando analisamos os impactos que as ações de saúde promovem no sujeito (e também numa determinada cultura) muitas vezes ficamos perplexos em como são limitados os resultados  “drogais” e como são relevantes as alterações positivas decorrentes de mudanças estruturais. Se isso não serve para desconsiderar a importância de alguns medicamentos e seu uso, também deve nos mostrar que o impacto deles sobre a saúde é muito pequeno e circunscrito.

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Judiciário

martelo juiz

“Enquanto o judiciário continuar com seus mitos e preconceitos contra o parto normal, agindo embasado na mitologia da transcendência tecnológica, acreditando na “cesariana salvadora”, aceitando qualquer intervenção como “natural” e necessária, e todo respeito à fisiologia como “risco”, será difícil seduzir os médicos a adotarem uma postura mais serena e embasada em evidências. Sem uma modernização do pensamento jurídico será muito mais lento qualquer progresso na atenção ao parto. Por isso mesmo os “Cursos de Violência Obstétrica” para a área jurídica são tão importantes.”

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