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Emoções Compartilhadas

Amamentação e Cama Compartilhada

Todos haverão de concordar que um tempo de cama compartilhada auxilia tanto a mãe na tarefa de amamentar quanto tranquiliza o bebê – para quem sua mãe e “o mundo” são a mesma coisa. Concordamos também que, em nome da autonomia da criança, esta proximidade de corpos deve ser abandonada em algum ponto da infância. O problema é estabelecer este ponto de corte, esta castração simbólica do poder da criança sobre o corpo da mãe, pois que a nossa própria maturação enquanto sujeitos dependerá desse afastamento.

Eu já fui bem radical sobre esse tema logo após me graduar. Achava justo que esse corte fosse o mais precoce para auxiliar na autonomia e independência das crianças. Também acreditava que a amamentação devia ser interrompida num ponto determinado, por volta dos dois anos, pelas mesmas razões. Pensava, com honestidade, que era função social do médico educar as mulheres a fazer esta separação da forma mais rápida, olhando para o desmame e a colocação no berço como a retirada de um band-aid emocional, uma muleta que devia ser abandonada.

O tempo foi me deixando mais maleável, sem dúvida. Hoje prefiro acreditar que, com raríssimas exceções, mães e bebê acabam encontrando um consenso sobre amamentação e cama compartilhada. Chega um determinado momento em que os dois se “olham estranho”, lançam um sorriso que preenche o espaço entre ambos e percebem que aquela relação, com tamanha proximidade, não cabe mais para eles. Assim se dá um desenlace amigável e ambos passam para uma nova fase da sua relação.

Percebi também que muito do que eu dizia sobre o tema era uma composição complexa entre racionalizações e conteúdos psíquicos inconfessos e inconscientes. Para mim é inegável que a cama compartilhada e a amamentação são movimentos eróticos entre os personagens da “cena primária”, nos quais os homens são fatalmente excluídos. Muito das teorias sobre o tema são produzidas sob essa pressão patriarcal. Para os homens, as emoções ativadas diante dessa cena são angustiantes e conflituosas, mesmo quando existe a alegria esfuziante e genuíno afeto envolvido nesse encontro. No meu caso, era óbvio o quanto a manutenção dessa ligação parecia embaraçosa, mas levou muito tempo para perceber o quanto havia de preconceito e bloqueios pessoais envolvidos.

A medicina, como representante e mantenedora dos valores patriarcais, sempre terá uma postura conservadora, tanto na expropriação do parto – desde sua entrada na atenção – quanto no afastamento das mães de suas crias, exatamente porque este afeto denuncia e desafia os poderes patriarcais estabelecidos.

Manter essa união “mãebebê” sob máxima proteção e cuidado deveria ser a tarefa mais sagrada de todos os cuidadores, pois que os efeitos desse contato harmonioso perduram por toda a existência, fortalecendo a saúde física e mental dos sujeitos. Infelizmente, nossos próprios medos e fragilidades impedem que este encontro seja o mais suave e tranquilo possível.

Nossa missão enquanto profissionais do parto e da puericultura deve ser a proteção da fisiologia e do contato, fugindo sempre que possível da artificialidade e do afastamento. Para isso é preciso que cada cuidador se permita encantar com a magia de uma mãe amamentando seu filho e repousando ao seu lado com total segurança e liberdade.

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Big Brother

Não sei se há respaldo legal para a aplicação de vigilâncias panópticas em centros obstétricos, onde as grávidas em trabalho de parto desfilariam desnudas diante de câmeras, exibindo-se involuntariamente a um observador à distância. Alguns dizem que este controle já é usado em alguns hospitais.

Entretanto, se isso for fato e houver garantias legais para tal, qual o problema? Qual seria a novidade em invadir desta forma o mundo privativo do nascimento na perspectiva da biomedicina patriarcal?

Posso garantir que, se essa pergunta for feita para 10 médicos obstetras, 9 deles vão olhar o interlocutor com cara de assombro, como a não entender do que se está falando. Para quem não consegue entender que “episiotomia é violência obstétrica“, como exigir que entenda a nudez das pacientes na perspectiva delas mesmas, e não de quem as atende?

Via de regra, a resposta a este questionamento será: “Como assim? De onde tirou essa ideia?“, para logo depois arrematarem: “Vocês enxergam maldade em tudo“…

O corpo das mulheres, ao olhar da medicina, é dessexualizado; um corpo real, tornado des-animado para assim oferecer proteção à atuação dos profissionais. Monitorar grávidas desnudas não parece, aos olhos da medicina, configurar uma invasão da intimidade ou da privacidade.

Entrar em um hospital para parir significa perder sua condição de cidadã e sua autonomia, e abrir mão dessas “frescuras” de intimidade, pudores e privacidade. Estas necessidades, tão humanas e banais, ficam no guichê do hospital, junto com os documentos e a carteirinha da Sulamérica. Assim, não causaria nenhum tipo de surpresa se o “big brother” obstétrico achasse normal, natural e benéfico vigiar corpos-máquinas desnudos fazendo seu trabalho de procriação.

Qual o sentido dos corpos já deserotizados pelo sistema de atenção ao parto reclamarem e questionarem a perda de sua privacidade?

Big Brother is always watching you...

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Cavalo de Troia

Diante do efeito dominó nas casas legislativas do país em acatar a ideia das “cesarianas a pedido”, creio que as instituições de proteção à mulher – em especial aquelas que defendem a humanização do nascimento – precisam olhar para o fenômeno com muito cuidado, toda a delicadeza e a devida responsabilidade que ele demanda.

Apesar da frustração inicial e pela perspectiva de vermos aprofundar o intervencionismo obstétrico em nosso país, creio que nossa ação – da ReHuNa e outras instituições afins – deve ser antropofágica. Quero dizer: comer a realidade que nos foi imposta, digerir a nova condição, ruminar suas circunstâncias e contextos e finalmente incorporar essa nova fase, onde a (ilusória) autonomia das mulheres, determinada pela pressão dos profissionais e instituições, será tomada como guia.

Sabemos do “Cavalo de Troia” que está por trás dessa falsa liberdade de escolha. Simone Diniz explicava há muitos anos sobre a estratégia de “oferecer partos violentos para vender cesarianas“. Pior ainda, agora vemos a própria legislação travestir a opção pela cesariana – que nada mais é que uma “escolha pela dignidade” em contextos de violência obstétrica – como um avanço nos direitos humanos e uma vitória para as reivindicações históricas das mulheres.

Temos plena consciência de que estamos diante de um embuste e um retrocesso, mas é difícil fazer esta informação chegar na ponta da atenção para o conhecimento das gestantes e suas famílias.

Todavia, não há como retroceder. Qualquer movimento para obstaculizar esta medida será levada ao público como retrocesso e como insistência na tutela sobre os corpos femininos. Para a imensa maioria das gestantes, embebidas na cultura do “imperativo tecnológico”, a cesariana representa o futuro, a ciência, o progresso e o fim de suas “dores excruciantes”. Bem sabemos o quanto isso está longe da verdade, mas também temos noção do quanto educar mulheres sobre os benefícios do parto fisiológico é tarefa que dura gerações.

O que é necessário agora é absorver o golpe, aceitar o aumento de cesarianas como um resultado inevitável, cuidar dos feridos e dos mutilados (entre pacientes, médicos e parteiras) e continuar nossa campanha incessante e firme por uma pedagogia verdadeiramente libertária para as mulheres, desde a mais tenra idade.

Para as mulheres que se deixaram seduzir pelo canto mavioso da sereia tecnocrática só podemos dizer:

“Se você deseja uma cesariana para fugir da dor, ou porque está consumida por medos, esta é uma escolha sua. Todavia, se deseja saber o quanto custará esta decisão, e os riscos envolvidos nela, pode nos procurar, pois estaremos sempre aqui para ajudar”.

Leia mais sobre este tema aqui

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A angústia necessária

Para que um obstetra procure transformar sua prática é essencial que sua forma de conceber a assistência ao nascimento entre em crise. O choque doloroso entre conceitos precisa ser a tônica do processo. Esta transformação a partir do legado da Escola Médica (tecnocrática e intervencionista) em busca de maneiras mais democráticas de atuação jamais ocorre sem angústia …. e dor. Despir-se dos valores duramente adquiridos no período de formação só pode ocorrer através de sacrifício.

Sacro ofício, trabalho sagrado.

Todavia, é preciso que a humanização, a abordagem suave e a garantia da autonomia à mulher ocorram a partir da dor, pois ela é a energia motriz mais efetiva. A partir disso, a promessa de alívio desse sofrimento assegura a coragem necessária para efetuar as mudanças. A transformação sempre ocorrerá nos estratos emocionais e afetivos do sujeito. O arcabouço teórico só chega bem depois, para dar suporte à reconstrução do nosso proceder, agora sob outras bases.

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“Para que a psicanálise seja eficaz, é necessário que quem se analisa reúna as seguintes características: que sofra, que não suporte mais sofrer, que se interrogue sobre as causas de seu sofrimento e que tenha a esperança de que o profissional que vai tratá-lo será capaz de livrá-lo de seu tormento.”

J. D. Nasio, psicanalista (Apud Maury Gutierrez)

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Punch Theory

Macaca-caranguejeira, como as utilizadas no estudo de Juan Carlos Izpisúa, ao lado do filhote

O alongamento do período fértil das mulheres através da intervenção tecnológica (leia sobre as recentes descobertas aqui) é um exemplo clássico do “modelo de punch” (Punch Theory) do antropólogo americano Peter Reynolds eternizado por Robbie em “Birth as an American Rite of Passage”.

O modelo capitalista determina o retardo da gravidez no mundo contemporâneo, fazendo com que a primeira (em geral a única) gestação ocorra perto do fechamento da janela fisiológica de fertilidade, no início da 5a década. Assim, ao invés de questionarmos os mecanismos sociais que retardam a maternidade – em suma o capitalismo em sua expressão social – criamos novos recursos tecnológicos para “consertar” o desequilíbrio criado por um estilo de vida que agride nossa programação paleolítica.

Evidentemente a criação de soluções para gestações após a época naturalmente determinada pelo processo adaptativo produzirá suas próprias consequências – o desaparecimento do suporte das avós jovens sendo apenas a mais óbvia – mas estas serão igualmente abordadas por outras intervenções tecnológicas, e assim sucessivamente.

O progresso científico é sempre enganoso. O que nos oferece é sempre fulgurante, mas o que nos retira fica ofuscado, as vezes por um tempo tal que impede qualquer retorno. Como… smartphones.

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Prisões

“A prisão mais efetiva é aquela que vem fantasiada de liberdade”.

Será uma tarefa difícil convencer a população de que a “liberdade” de escolher cesarianas em verdade esconde a subordinação das gestantes aos interesses de instituições e corporações. Tudo isso para que o nascimento continue propriedade dos profissionais e sob o controle da medicina.

Em verdade a falsa “liberdade de escolha” das gestantes que escolhem a cesariana tem tanto sentido quanto escolher o Bolsonaro pela sensação de ter votado contra o “sistema”.

Não… escolher cesariana é abraçar-se ao sistema mais alienante e que mais agrada ao modelo patriarcal dominante. Contrário senso, a escolha pelo sexo, pela alegria, pela indignação e pelo parto normal são opções de enfrentamento a um modelo social injusto em nome da liberdade e da autonomia.

Se você não conhece suas escolhas elas não são escolhas verdadeiras, mas opções que alguém determinou para você.

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Teta

Vi há pouco o vídeo da movimentação da língua de um bebê recém-nascido dormindo, simulando os movimentos da amamentação. Minha observação foi:

“Sonhando com teta, um sonho que vai acompanhá-lo por toda a vida”.

A ideia por trás desta observação é de que nesses estratos primitivos pré-verbais é que se alicerça a sexualidade humana. Nessa fase, chamada de “fase oral”, a boca é a grande ferramenta de prazer sexual. Só bem depois, passada a longa infância humana e com a lenta maturação sexual, encontraremos prazer genital, o qual será fundamental para a vida adulta e a reprodução.

Entretanto, as marcas da oralidade manterão resquícios por toda a vida. Arrisco dizer que o beijo é a característica de expressão afetiva mais saliente nas culturas exatamente porque carrega as memórias prazerosas da amamentação. Não fosse por isso – nossa oralidade e a ligação ao seio como fonte de prazer – e teríamos uma humanidade sem bitocas, selinhos ou beijos “desentope-pia“.

É evidente que a amamentação carrega essa carga enorme de erotismo o qual vai entrelaçar de forma amorosa mãe e bebê. “Se amor existe, este é o sentimento de uma mãe pelo seu filho e todos os outros amores são dele derivados“, diria o mestre Freud. É ali na imbricação de mútuos prazeres que uma mãe cumpre seu mais alto fim: ensinar seu filho a amar. Não resta mais muita dúvida sobre esta questão.

Também é óbvio que na mente da criança haverá marcas indeléveis desse período. A fixação ancestral dos humanos pelos seios produziu um fenômeno único entre os mamíferos: as mulheres humanas são os únicos primatas que mantém a turgidez das mamas fora do período de amamentação. Olhe uma fêmea chimpanzé, gorila ou orangotango e se pergunte: “onde estão as mamas?

Ora… do ponto de vista evolutivo as mamas das fêmeas humanas se mantiveram grandes e túrgidas pelo forte apelo atrativo e sexual que desempenham na nossa espécie. Foi um processo seletivo que ocorreu nos últimos milhões de anos. No Museu de história natural de Nova York, Lucy (australopitecus afarensis) é retratada com as mamas murchinhas, dando a entender que a mama como objeto de desejo ainda custaria a aparecer. Quando então começou essa transformação? Homo erectus? Homo rudolphensis? Ou junto com a razão – no Homo sapiens sapiens?

Por isso podemos apostar na ideia de que o sonho dourado desse bebê vai se manter em sua mente por toda a vida. Essa experiência primitiva de prazer vai acompanhá-lo, mesmo que não perceba. A estética graciosa, redonda, macia e voluptuosa das mamas permanecerá como ícone máximo do prazer.

As mamas, no imaginário humano – em especial no Édipo masculino – vão nos seguir, guiando nossas escolhas, direcionando nossos olhares e construindo nossos sonhos – nem que venham disfarçadas, como balões, flores gigantes e até bolas de futebol (as gorduchinhas).

Pois bastou tocar com essa singela frase na questão da eroticidade da amamentação para – de novo – aparecerem ataques no sentido de questionar a “erotização das mamas”. Ataques, como sempre, violentos.

Claro… mea culpa, mea maxima culpa, respondi de forma exagerada aos ataques. Peço perdão por isso. Entretanto, sempre me assombro com a onda puritana da geração atual. A mera menção do desejo relacionado à amamentação faz com que essas pessoas reajam com ferocidade. A simples ideia de que homens (e mulheres) venerem as mamas como sublime objeto de desejo deixa furiosas(os) as(os) jovens ativistas.

Suspeito que o problema é desnudar a própria existência deste desejo e trazer à tona um gozo escondido, recôndito e dissimulado. O que emerge com tanta voluptuosidade é a denegação do prazer que brota quando se amamenta em liberdade.

Aos envolvidos minhas sinceras desculpas.

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Parto e Trauma

Na minha visão, há muitos anos sustentada, o advento da síndrome pós traumática está diretamente relacionada à ausência de autonomia da mulher no processo e a noção de que os fatos (ruins) aconteceram com ela a despeito de sua ação – ou exatamente por isso.

Além disso é importante que, via de regra, não é o parto que produz a síndrome pós traumática, mas a nossa incapacidade para lidar com um evento essencialmente subjetivo e sexual, que demanda do cuidador a mais extremada delicadeza com o evento. Essa capacidade é difícil de atingir em vista dos conhecimentos técnicos e habilidades de interação pessoal, como a empatia, a afetividade e a intuição conjugadas.

Na ausência dessas valências altamente sofisticadas, o mais comum é tornarmos um evento feminino e subjetivo – e profundamente sexual – em algo que NÓS controlamos, algo cujas decisões partem apenas de nós, a despeito dos valores que as mulheres expressam, produzindo um momento essencialmente autoritário. Da mesma forma como os fatos autoritários da infância produzem marcas no espírito das crianças, as quais produzem consequências por toda a existência, o mesmo pode ocorrer a partir de um parto (sentido como) violento ou desrespeitoso. Em verdade, qualquer mulher que já teve um parto violento há 20, 30 ou 40 anos sabe exatamente do que se trata esta questão.

A cicatriz na alma é indelével, pois atinge os estratos mais primitivos da constituição humana: nossa sexualidade.

Veja mais aqui

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Dores de par(t)ir

No meu modesto ver – e reconhecendo meu lugar de fala de quem jamais vai passar pela experiência de parir – creio ser necessário quebrar a construção cultural da dor do parto como o elemento descritivo e preponderante do evento. Não resta dúvida que a dor existe, às vezes excruciante e violenta – exatamente pela passagem do bebê através da ossatura e pelo colo uterino, da forma como o pediatra Ricardo Chaves demonstrou neste vídeo. Todavia, descrever as infinitas sensações presentes no parto através de apenas UMA delas – a dor – serve apenas para validar uma postura profissional cuja insensibidade às múltiplas funções do parto – psicológicas, afetivas, sociais, emocionais e espirituais – nos faz anestesiar sua expressão mais potente. Calamos esse grito por medo de lidar com algo que extrapola nossa tênue compreensão.

Em verdade sou ainda mais radical. Ao meu ver, para que o parto cumpra sua função de partir, cortar, libertar e transpor é essencial que o evento seja marcado no corpo, com a brasa incandescente da ruptura. Assim transformada pela dor criativa de parir, essa mãe terá as melhores condições possíveis para suportar os desafios do ser que se tornou. A dor, como fenômeno inserido na fisiologia do parto, é um poderoso elemento na construção da maternidade.

Como dizia Bárbara Katz-Rothman “Parir não é apenas fazer um filho, mas forjar uma mãe forte, capaz de suportar os desafios da maternagem“. A dor é a tatuagem mais perene a compor este rito de passagem que, como todo ritual, marca os limites do que se foi e do que nos tornamos.

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Dê a eles brioches

Uma história curtinha contada pela Ana Cris, mas que encerra bons ensinamentos sobre como funciona o pensamento biomédico.

“Diálogos surreais – esse entre uma obstetra humanista e um anestesista do plantão.

O que é esse negócio de balão?

Estou induzindo um parto, mas ela tem cesárea prévia, por isso usei esse balão que ajuda a preparar o colo.

Ué, e por que não pode fazer uma cesárea?”

Já eu acho que seria possível fazer uma tese de doutorado baseando-se na pergunta inocente deste anestesista. Em verdade, toda uma cosmologia se encerra neste questionamento que deixa explícita a incapacidade do médico em questão de enxergar do que estamos falando. Não à toa a pergunta veio de um anestesista, o profissional responsável por obliterar os sentidos e cujos pacientes são absolutamente passivos e inertes. Seria, por óbvio, o último a entender o que seja protagonismo e porque tanto o valorizamos.

Essa cena lembra duas outras. A primeira, Maria Antonieta ao responder um seu ministro que desse ao povo brioches, quando avisada que lhes faltava o pão e a fome destruía as famílias francesas. Não era desdém, era a incapacidade de enxergar para além da bolha palaciana.

A outra cena aconteceu comigo ha 25 anos no hospital da Brigada Militar numa reunião privada com o diretor do hospital, um pediatra de carreira. Dizia-lhe eu da importância de manter a equipe de enfermeiras obstetras no plantão como estratégia para diminuir o exagero nas indicações de cesariana. Ao ouvir minha inconformidade com as taxas elevadas de cirurgias ele exclamou:

Nao entendo o que chamas de “exagero”. Digo-lhe que em 26 anos atendendo salas de parto nunca vi uma cesariana ser mal indicada.

Duvido que essa frase, como a da Rainha francesa, tenha sido pronunciada com escárnio ou deboche. Nada disdo; era mesmo pura ignorância, mas uma falta de conhecimento que se assentava sobre o pilar fundamental que sustenta a prática da maioria dos profissionais que atendem o nascimento: a crença na incapacidade da mulher de parir com segurança e a aposta na suprema fragilidade dos recém-nascidos. Ambas, erros da natureza madrasta, só podem ser corrigidas pela intervenção fálica da tecnologia, mesmo que o preço seja a expropriação do parto de quem sempre o teve como seu.

Claro é que estas são construções que se fazem durante o “rito de passagem” do treinamento médico que ocorre desde o primeiro dia de aula até os últimos instantes da residência. Um saber subliminar, pervasivo, não expresso mas que contamina todo o olhar profissional. Algo de tamanha intensidade que coordena as ações, atitudes e o próprio entendimento sobre os pacientes.

Ao dizer “por que não faz uma cesariana” o profissional expressa de forma holofrástica todo um conceito relacionado não apenas à superioridade da tecnologia sobre a natureza, mas também a questão de gênero – pulsante e onipresente – que permeia toda a decisão médica sobre o corpo das mulheres.

A mesma incapacidade de responder ao pediatra do hospital da brigada eu tive nas vezes em que anestesistas me perguntavam (em suas infinitas variedades) a questão “o que está esperando para operar?”

Sem entender a transcendência de um nascimento e a imponderabilidade dos afetos e significados envolvidos não há como explicar a importância de garantir à mulher o direito de parir por suas próprias forças. É exatamente nesses espaço, neste vão de olhares, que se insere a humanização do nascimento, que vai mostrar sentido onde muitos enxergam apenas capricho.

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