Arquivo da categoria: Parto

Expectativas

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“É comum acreditar que um parto será “lindo” na dependência do que desejarmos. A prática nos mostra que, mesmo acreditando na importância dos desejos e projeções maternas, eles não são suficientes para garantir o destino de um nascimento. Parto é algo que acontece entre as orelhas, de uma forma subjetiva e única. Sua manifestação se encontra alicerçada no inconsciente, como qualquer outra manifestação da sexualidade humana. Assim, não há como se valer dos desejos expressos sem levar em consideração o universo de sensações, memórias da pele, lembranças, frases, marcas, sentimentos, sons, ruídos, luzes e cores que constituem nossa arquitetura psíquica.

Só o que podemos fazer diante das demandas por experiências criativas e enriquecedoras é não criar falsas expectativas ou garantias ilusórias de um parto maravilhoso. Nem todos podem passar pelo parto como desejam: ele é um projeto que se consolida durante toda uma vida. Estar preparado para as frustrações é sinal de maturidade e uma condição essencial para quem deseja se aventurar no campo da maternidade. Auxiliar na construção de uma experiência positiva e realista é dever de todos que se dedicam a acompanhar esta jornada”.

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Educação

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Uma estudante conta de alunas de obstetrícia que,  ao escutarem sua professora explicando porque as episiotomias rotineiras são desnecessárias, exclamam: “mas é mais fácil cortar“. Sim, alunas de obstetrícia.

Mais importante do que se enfurecer ou indignar é tentar entender a motivação inconsciente que estas meninas tem para cortar. Como dizia a personagem médica que Simone Diniz uma vez mencionou: “Eu sei que não devo cortar, mas minha mão vai sozinha e corta”.

O que a médica estava se referindo não era um automatismo neurológico da sua mão, nem mesmo uma possessão demoníaca. Ela se referia ao fato de que as motivações para o corte no períneo não eram CONSCIENTEMENTE determinadas. Sua RAZÃO dizia algo e seu desejo dizia outra coisa. A médica apenas descrevia – de forma curiosa e didática – o conflito entre razão e desejo.

A grande força das intervenções médicas se estabelece exatamente porque elas NÃO SÃO conscientemente determinadas, mas geradas nos estratos inferiores da mente, lá onde moram os nossos medos e os desejos inconfessos.

Ao dizerem “melhor cortar” as alunas apenas estavam sorvendo alguns goles do rio que flui sobre nossas cabeças chamado “campo simbólico”, que a todos afeta em maior ou menor grau. O que elas dizem com sua “vontade de cortar” é que parece muito mais fácil “fazer algo” ao invés de esperar que a mulher ajude a si mesma. Afinal, seus corpos frágeis, incompletos e defectivos demandam de nós ações objetivas para solucionar os dilemas do parto, obra de uma natureza madrasta, cruel e insensata.

Uma episiotomia é um corte simbólico; rasga a carne para atingir a alma. Seu sentido é mostrar o lugar da mulher no mundo: passível, imóvel e alienada do que ocorre ao redor. Por fim a lâmina fria lhe confirma: “Só parirás se for por mim. Eu sou o único caminho à verdade e à vida”.

Em função dessa carga histórica e ideológica, mais do que explicar conscientemente a inutilidade e os malefícios das episiotomias rotineiras (e de outras intervenções sem respaldo científico) é fundamental ensinar a beleza da fisiologia feminina, o processo milenar de aperfeiçoamento dos mecanismos de parto, sua adaptação paulatina à bipedalidade, à encefalização e à consequente fetação e deixar claro aos estudantes que NENHUM recurso tecnológico é capaz de tornar o parto normal mais seguro, e que as intervenções sobre o processo de parto só tem sentido do quando utilizadas em processo patológicos, cuja única finalidade é garantir segurança ao binômio mãe-bebê diante dos desvios da fisiologia.

O bom senso diante das intervenções e a orientação diante dos seus riscos deve ser acompanhada de um processo pedagógico intenso sobre a fisiologia feminina. O inimigo é o desprezo pela mulher e suas especificidades, que herdamos dos tempos mais sombrios do patriarcado.

Se as mulheres já conquistaram uma alma imortal resta-lhes conquistar um corpo digno e que seja respeitado pela medicina.

Talvez Carl Rogers tenha mesmo razão em sua frase, que eu sempre vi como perfeita para a medicina: “Perdemos um tempo precioso com treinamento que seria mais bem utilizado em seleção”. De NADA adianta treinarmos médicos e enfermeiras para a atenção ao parto se forem incapazes de sentir o parto e se apaixonarem por esse momento.

Por essa razão os médicos – via de regra – são parteiros sofríveis (para dizer o mínimo); eles foram selecionados em um vestibular pela suas capacidades com geografia, trigonometria e física, e não pela sua capacidade empática. Para piorar eles frequentam uma faculdade de medicina que os empurra para as intervenções – com drogas, cirurgias e palavras – desde os primeiros minutos da faculdade, ao sentirem o formol no nariz durante as aulas de anatomia.

Estamos selecionando de forma errada. Passei toda a minha vida de parteiro escutando o desprezo dos médicos pela arte de partejar. Como pode ser possível que, com todos os dados e estudos que temos das experiências do mundo inteiro, ainda apostamos na intervenção médica como atenção primária ao parto? Pela sua abrangência e capacidade destrutiva, a atenção médica ao parto eutócico é um dos maiores equívocos da história humana no que diz respeito à saúde e ao bem-estar.

Como pedir para estes meninos e meninas que acreditem nas mulheres se todo o seu ensino é focado na patologia e nas formas de intervir? E não apenas na obstetrícia, mas também como solicitar que neonatologistas acreditem nos mecanismos adaptativos dos bebês se todo seu ensino é baseado em catástrofes? Como exigir dos profissionais que “peguem leve” se toda a importância social que eles ganham está relacionada às intervenções?

Muitos médicos recebem prêmios e honrarias por terem salvado vidas, mas quantos recebem elogios manterem vidas a salvo através de uma atitude não violenta?

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Pesos e Medidas

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“O responsável pelo procedimento é o médico xxxxxxx. Familiares de sete pacientes de xxxxxxx alegam que os parentes morreram em decorrência de complicações da cirurgia, e outras sete declaram ter ficado com sequelas graves. O MPF (Ministério Público Federal) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) receberam as reclamações e pedem que a técnica seja proibida até que estudos científicos comprovem a eficácia e segurança do procedimento.” (www vejaagorabrasil. org)

Imaginem se esse médico, ao invés de fazer cirurgias bariátricas questionáveis (em termos de segurança), estivesse atendendo partos domiciliares em sua cidade da mesma forma como países democráticos estimulam e estabelecem como alternativa segura nos seus sistemas públicos de saúde. Como se comportaria o Conselho de Medicina? Sete pacientes já morreram e outros sete estão severamente incapacitados mas é ÓBVIO que este profissional tem TOTAL APOIO e suporte da corporação. Fazer cirurgias com fins fúteis, meramente estéticos, e colocar em risco a saúde dos pacientes NÃO desafia os poderes médicos. Pelo contrário, exalta a medicina como elemento social transformativo e curativo, e o médico como seu condutor por excelência.

Entretanto, o parto domiciliar, ao estabelecer a paciente como participante ativa e PROTAGONISTA do evento retira do médico sua importância capital e diminui sua relevância. Os médicos que dão suporte a estes partos sabem que sua função é outra, e se estabelece como uma vigilância silenciosa sobre os fatos que possam acarretar riscos acima do normal. Não se trata mais de “fazer partos” mas de os “acompanhar respeitosamente”. Essa nova postura dos profissionais ofende a velha guarda da corporação, que não aceita que médicos desafiem a hierarquia secular na atenção à saúde que os coloca acima de todas as outras considerações, inclusive os próprios desejos expressos do paciente.

As formas como a corporação julga estes casos NADA tem a ver com a segurança ou o bem-estar dos pacientes. O critério é sempre a proteção da categoria. Procedimentos que ameacem o valor profissional são atacados impiedosamente, enquanto aqueles que exaltam a sua posição na sociedade tem seus riscos desconsiderados ou despudoradamente negados.

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Hecatombe


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Se você ainda não percebeu que há algo de podre no Reino da Obstetrícia Brasileira, e continua acreditando nas perseguições medievais dos Conselhos de Medicina, preste atenção ao que está acontecendo ao seu redor. O “Caso Adelir” – cesariana sob ameaça da Polícia, em Torres, RS – foi um balão de ensaio. Ali ficou claro que, se for possível dispor do corpo da mulher sem que ela aceite e permita, a porta estará aberta para QUALQUER outra arbitrariedade.

(Não esqueçam que no caso de Torres as duas médicas que atenderam a gestante, além da juíza que lhe deu a intimação judicial, eram mulheres, o que expõe uma face cruel do nosso machismo: ele é reproduzido pelas próprias mulheres.)

Estamos muito próximos de uma “hecatombe médica”, quando nenhuma mulher mais tiver chance de ter seus filhos de parto normal pela total incapacidade dos médicos em atendê-las. O caso do Rio de Janeiro é emblemático: a Unimed não disponibiliza mais atendentes de parto normal. O parto, como evento fisiológico, está desaparecendo, consumido pelo monopólio médico que se interessa prioritariamente pelos ganhos e facilidades da cesariana, negligenciando seus riscos multiplicados. (veja aqui a decisão do tribunal do Rio de Janeiro)

Quem defende o parto normal é caçado (pode ser com “ss” também), agredido, violentado, difamado, perseguido e caluniado. Quem abusa de cesarianas recebe tapinhas nas costas dos colegas e jamais é admoestado por seus pares.

Somente a sociedade organizada, forçando a modernização dos operadores do direito, poderá mudar essa realidade. Não podemos mais admitir um ministério publico ainda tão inoperante nos casos de violência obstétrica  (ressalva aqui aos poucos e bravos procuradores que abraçam a causa) e a ignorância constrangedora de magistrados que continuam a julgar casos médicos por senso comum e sem a mínima noção do que seja medicina baseada em evidências.

O que mais precisa acontecer para que as mulheres percebam que seus partos foram roubados para oferecer conforto e dinheiro às corporações?

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Eu e as Doulas

– Você sabe o que é uma doula?

Sua pergunta era direta e seus olhos verde-água me encaravam com a mesma firmeza doce com que segurava Miguel, seu filho recém-nascido. Poucos dias haviam se passado do nascimento, e ela vinha ao meu consultório para a revisão de rotina. Os desafios daquela gravidez e os mistérios daquele parto haviam me oferecido inúmeros ensinamentos sobre as conexões entre o espírito, a mente, o corpo e suas inúmeras e enigmáticas falas. Quando a pergunta de Cristina me chegou aos ouvidos eu sequer sabia que as grandes transformações ainda estavam para começar…

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Não, eu ainda não sabia o que era uma doula, mas Cristina teve paciência para me explicar o que elas faziam. Falou de Wendy, Klaus e Kennell, Dana Raphael, Penny Simkin. Falou do suporte psicológico, afetivo, emocional, físico e espiritual que elas podiam proporcionar. Falou também dos estudos, da biblioteca Cochrane, e de tantas outras verdades as quais eu desconhecia por completo.

– Eu sou uma doula, Ricardo, continuou ela. E nós vamos trabalhar juntos.

O convite inesperado me acertou em cheio. Sua proposta era simples: referência e contra-referência. Ela me encaminharia pessoas interessadas em um atendimento humanizado ao parto e eu encaminharia a ela gestantes que desejam um acompanhamento de Yoga durante a gestação e que desejam a presença de uma doula no parto. Os partos seriam uma tarefa compartilhada entre nós. Ali começava uma parceria que produziu muitos frutos, mas que também acabou atingindo de forma inquestionável um dos pilares da obstetrícia moderna: o poder sobre o corpo da mulher. O preço a ser pago, sei bem agora, seria o pior possível, e o perdão… impossível.

Nosso trabalho se iniciou de forma tímida, mas tinha uma característica importante: a busca de horizontalidade. Não se tratava de uma “auxiliar de médico” a fazer um trabalho acessório para ajudar o “nosso” trabalho. Não, o trabalho da doula vinha inserido em um outro entendimento da atenção, em que diferentes atores executam funções complementares e de igual importância. A doula fazia o trabalho de preparação física para o desafio do parto, e durante o processo se ocupava de oferecer conforto, confiança, determinação e relaxamento. Depois de cada parto conversávamos para ver os pontos positivos e negativos da nossa atuação, o que poderia ser melhorado e o que poderia ser repetido em novos atendimentos.

Todavia, o primeiro grande assombro do meu trabalho com as doulas não ocorreu pelos partos maravilhosos, pelo choro de felicidade, pela alegria de pais e mães envolvidos em um abraço comovido com sua cria, ainda úmida e quente, embalada nos braços. Não foi pelo clima maravilhoso de sensualidade, de carinho, de proteção e confiança. Não, não foram estas as causas do meu assombro.

Meu primeiro grande susto foi ver uma paciente escrever na internet uma nota sobre um parto que nós tínhamos atendido. Nela se lia, com palavras semelhantes a estas: “Agradeço ao meu marido, minha família, meus amigos e à minha doula. Sem ela eu jamais conseguiria.

A sensação que eu tive foi de espanto. “Como assim sem ela eu não conseguiria? E eu? E a minha arte, meu esforço, minha dedicação, meu talento, meus anos de estudo?” Meus pensamentos incontroláveis eram o suporte da minha indignação, mas era preciso absorver o golpe e tentar entender. Com o passar do tempo consegui compreender que minha irritação se dava por não conseguir admitir nada além de mim mesmo como merecedor de qualquer tipo de elogio pelo nascimento. Minha mente ainda acreditava que eu “fazia” os partos de minhas clientes e, sendo assim, não haveria como alguém querer roubar este corpo e este parto que a mim pertenciam.

Era preciso sair deste lugar, e eu sabia disso. Sem abrir mão da posição de “dono do parto” eu jamais poderia dar um passo adiante. “Humanizar o parto é garantir o protagonismo à mulher“, dizia eu. Se o protagonismo a elas pertence, que disputa é essa que se pode estabelecer entre pessoas alheias ao evento? “Se a posição de coadjuvante não lhe é suportável, esqueça esse ofício“, repetia meu amigo Max. “Médicos, parteiras e doulas não são feitos para brilhar, são feitos para refletir e ampliar a luz que emana de uma mulher parindo“. Aquela era a lição mais dura, a mais difícil, a mais complexa e a mais desafiadora. Descer do pedestal de saber auto erigido sobre o corpo da mulher é terrível. Quando vejo os ataques ferozes de elementos da corporação médica às doulas fica claro para mim que eles são tomados pelo mesmo sentimento que me atingiu ao ler aquela nota, mas sem a fidelidade aos compromissos de equidade, justiça e protagonismo garantido às mulheres aos quais eu me propunha.

Meu trabalho com as doulas foi abrindo um portal que eu jamais teria imaginado. Era como se um aspecto gigantesco, imenso e misterioso do meu trabalho houvesse sido trancafiado por 10 anos e só então pudesses ser aberto. Os aspectos psicológicos, absolutamente negligenciados durante toda a minha formação médica e na residência, finalmente faziam sentido. O enigma da página 138 do livro “Nacimiento Renacido“, de Michel Odent, podia ser desvendado: era essa conexão física, emocional, intensa e profundamente feminina que oportunizava às mulheres percorrer os labirintos obscuros do seu ser feminino com mais confiança. Era essa a parte que me faltava, da qual eu carecia e que as doulas poderiam ajudar, acrescentando a feminilidade e o contato amoroso ao trabalho técnico de médicos e obstetrizes.

Duro reconhecer, mas durante muitos anos eu fui um médico manco, claudicante, que andava me arrastando, sem saber como oferecer uma atenção que contemplasse as reais e profundas necessidades das gestantes e seus parceiros. Foi através das doulas, com sua calma, silêncio, tranquilidade, compaixão e arte que eu aprendi muito sobre os intrincados caminhos da feminilidade. Se o parto verdadeiramente é “uma parte da vida sexual normal de uma mulher” como dizia Odent, então a própria sexualidade feminina se desenrolava diante dos nossos olhos no momento sublime do nascimento, o que nos obrigava a uma atitude de solene admiração e respeito.

As doulas me levaram a uma revolução interna sem precedentes. Com elas percebi que a única posição subjetiva coerente de um médico é a humildade, aliada a compreensão do nascimento como um fenômeno para muito além do que conseguimos atingir com a mera pesquisa biológica e mecânica. Existem segredos ainda reclusos, que precisam ser descobertos, e cabe a nós a coragem de procurá-los. Para as doulas, e para Cristina – minha primeira doula – fica a minha homenagem e os meus agradecimentos eternos.

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Parto Adequado

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Fiquei sabendo que 10 mil cesarianas foram evitadas pelo programa “Parto Adequado”, cujo nome foi criado com um único objetivo: tirar o nome “humanização” dos projetos de incentivo ao parto normal. Como sabemos, os médicos sempre se ofenderam com essa palavra (“está nos chamando de desumanos?”). Essa diminuição de cesarianas e a consequente queda nas internações em UTI neonatal parece ser um bom indicador. Entretanto, quando percebemos que são realizadas mais de 1 milhão de cesarianas por ano, esta redução representa menos de 1% de todas as cirurgias realizadas no país.

Claro, o programa não foi aplicado no país inteiro, mas penso que sem mudar o paradigma médico intervencionista pelo modelo de parteria nenhuma mudança significativa e mensurável será percebida em um futuro próximo. Apesar dos resultados aparentemente promissores, o projeto “Parto Adequado” parece querer provar que é possível melhorar o atendimento ao parto dentro do velho paradigma, baseado na intervenção, no médico e no hospital.

Não creio…

A simples diminuição de cesarianas não fará a menor diferença. Estaremos evitando cesarianas a que preço? Podemos acabar trocando altas taxas de cesarianas por partos cheios de intervenções, além de acrescentar riscos decorrentes de uma atenção vaginalista, mas que mantém o mesmo viés centrado na intervenção.

Humanizar o nascimento é bem mais do que trocar um corte em cima por um mais em baixo.

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Moção de Apoio

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12 de dezembro de 2016 · 17:35

O Ódio ao Parto Domiciliar Planejado

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O parto domiciliar causa tanto ódio, raiva e produz tantos ataques da corporação médica mesmo sendo absolutamente desimportante do ponto de vista estatístico. Ele representa bem menos de 1% dos partos. Por que tanta raiva?

Se a segurança das pacientes fosse o temor, por que se admitem cesarianas a rodo quando sabemos cientificamente que elas multiplicam o risco de morte materna e neonatal, além de elevar exponencialmente os riscos de danos a ambos e produzir custos estratosféricos?

Se a segurança fosse a preocupação por que os hospitais privados não são obrigados a ter anestesistas de plantão exclusivos para a obstetrícia para dar conta de emergências obstétricas? A razão é que não se trata de oferecer segurança, mas de manter “controle”. Em sua casa a mulher está no comando e a corporação patriarcal não pode lhe lançar os olhos. Não se trata de “cuidar melhor”, mas de controlar esta mulher em seu momento mais íntimo. A medicina é um braço do patriarcado, ocupada em conservar e disseminar seus pressupostos. Ela é em essência, conservadora e em oposição aos movimentos que lutam pela liberdade da mulher.

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Icterícia

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Vejam bem, existe uma abordagem da icterícia neonatorum (o amarelão dos bebês ao nascer) por parte da “medicina evolucionista” que é muito criativa. Por volta de 70% dos recém nascidos nasce com algum nível de icterícia. Isso sempre foi interpretado como uma incompetência hepática do recém nascido que se resolve com luz ou apenas aguardar o tempo. Uma versão grave – e extremamente rara – desse transtorno passageiro é o “kernicterus“, um aumento muito grande com impregnação cerebral de bilirrubina. Em 30 anos atendendo partos nunca vi um caso assim.

Mas a novidade da interpretação darwinista é que talvez o aumento de bilirrubina seja benéfico e faz parte da adaptação do organismo à hiperoxigenação que ocorre depois do parto.

Os fetos vivem em um ambiente pobre em oxigênio. Não é à toa que nascem azulados, arroxeados; essa é sua cor natural no útero. No momento do nascimento e com o surgimento abrupto da respiração pulmonar o corpo do bebê é inundado com altas quantidades de oxigênio. O corpo todo se “oxida”, o que pode causar problemas, em especial para os receptores cerebrais. Para contrabalançar essa entrada abrupta de O2 no corpo o organismo lança mão de um potente antioxidante. Qual?

Isso mesmo, a bilirrubina. Ela se combina com o oxigênio absorvido e freia seus efeitos. Portanto, ao invés de entender como um “erro metabólico passageiro potencialmente perigoso” talvez seja mais útil olhar para a icterícia causada pela concentração de bilirrubina como um evento ADAPTATIVO milenarmente construído pelo nosso corpo para se adaptar ao ambiente aerado.

“O mundo não se descortina diferente procurando novas paisagens, mas construindo novos olhares”. (Marcel Proust)

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Manifesto

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Caríssimos amigos

Diante da publicação pelo CRM do meu estado, feita no dia 22/11/2016 no jornal Zero Hora referente à cassação do meu registro médico, gostaria de deixar claro que medidas judiciais estão sendo tomadas para a reversão dessa decisão autoritária, equivocada, violenta e que se choca contra os fatos relacionados com este evento. Este julgamento não se resume a um caso médico; para além das questões clínicas existe uma batalha POLÍTICA envolvendo a disputa entre dois modelos conflitantes. De um lado o paradigma médico que não reconhece as necessidades físicas, psíquicas, emocionais, psicológicas e espirituais das gestantes, considerando o parto um ato que se pareia a qualquer outra intervenção médica, onde o paciente é passivo e o médico o ator principal. De outro lado está o novo modelo, baseado nos direitos humanos reprodutivos e sexuais e que AGREGA ao atendimento seguro a atenção centrada na mulher, reconhecendo seus direitos e seus desejos em relação ao nascimento de seus filhos. Desta forma, pretendo demonstrar que este ato inquisitorial se insere em uma longa linha de violências cometidas sobre os profissionais da saúde que se posicionam contrários à violência institucional e que lutam contra o absurdo das cesarianas sem justificativa, as quais são um dos principais problemas de saúde pública no campo do nascimento humano.

1. O objeto dessa punição foi um parto domiciliar atendido há 6 anos passados, e esta é a principal razão da inconformidade do conselho de medicina. Trata-se de uma luta pelo controle da assistência, e não pela sua segurança. O parto ocorreu no domicílio e por razões de segurança o bebê foi transferido para o hospital. O óbito só ocorreu 24 horas depois. O bebê chegou ao hospital em boas condições. Não houve atropelos e nem atitudes precipitadas.

2. O atendimento respeitou os mais rigorosos protocolos europeus de atenção ao parto domiciliar. Infelizmente o CRM do meu estado mantém-se na caça aos profissionais que atendem parto fora do hospital, imaginando com isso poder atingir o soberano direito das mulheres de escolher o lugar de nascimento de seus filhos. A punição máxima de exclusão – para muitos juristas inconstitucional e, portanto, ilegal – visa atingir as lutas pela humanização do nascimento, e não é por acaso que o conselheiro responsável pelo julgamento em nível local é um conhecido inimigo feroz das propostas de humanização, do trabalho autônomo de doulas e enfermeiras obstetras e um defensor do modelo tecnocrático de atenção ao parto. A punição visa atingir não apenas o profissional, mas suas ideias e sua luta contra a violência obstétrica e o abuso de cesarianas em nosso meio. “Se não há como atingir a mensagem, atinja-se o mensageiro”. A mensagem da humanização do nascimento e da atenção domiciliar ao parto estão embasadas em evidências científicas e pelas próprias rotinas preconizadas pelo Ministério da Saúde do Brasil. Negar – ou constranger – aos pacientes este tipo de escolha ameaçando médicos é uma atitude medieval que precisa ser combatida. Não é por acaso que a atenção domiciliar ao parto planejado faz parte das políticas PÚBLICAS na Inglaterra e Holanda, e o são porque estão embasadas em pesquisas muito sérias que atestam sua segurança.

3. O julgamento em questão faz parte de uma série de outros eventos de constrangimento e agressão por parte de diversos conselhos de medicina, e não apenas contra a minha pessoa. Podemos lembrar das agressões a um colega de São Paulo que ousou falar do parto domiciliar planejado, como alternativa válida quando observados critérios rígidos de segurança em rede aberta de TV, no programa Fantástico da Rede Globo. Tal fato mobilizou mais de 5 mil ativistas por todo o país numa manifestação de dois dias e em 31 cidades brasileiras no ano de 2012. Podemos citar as ameaças e o “bullying” sofrido por colegas de Pernambuco por atender partos no quarto da maternidade de um hospital. Podemos citar a perseguição que sofri há 16 anos ao atender um caso de Embolia Aguda por Líquido Amniótico (uma doença impossível de prever ou prevenir) cuja paciente veio a óbito por ter se contaminado por varicela pelas visitas que recebeu na UTI de um hospital luxuoso da cidade. Apesar da escandalosa falha de segurança no hospital o conselho de Medicina do RS resolveu estabelecer que a culpa pela tragédia era do obstetra, por ser um incentivador dos partos normais (esta decisão foi drasticamente atenuada pelos conselheiros nacionais). Esse caso, por si só, mostra o nível em que a cegueira ideológica pode levar. Podemos falar também da colega obstetra que está sendo agora mesmo perseguida em Campinas, suspensa de suas funções, apenas por ser incentivadora de partos vaginais, posicionar-se contra a barbárie das cesarianas e trabalhar com o auxílio de doulas (auxílio este também respaldado pelas evidências científicas). Podemos falar dos colegas de Santa Catarina que sofrem perseguições por atenderem de forma cuidadosa e amorosa. A absurda proibição de atender pacientes egressas de Casas de Parto no Rio de Janeiro, assim como o ataque sistemático pelo conselho de lá ao trabalho das doulas é outra prova do caráter agressivo dos representantes da corporação. Outro caso no Rio de Janeiro, onde um colega recebeu uma punição máxima (posteriormente atenuada) por ser defensor e ativista pelas casas de parto, também não pode ser esquecido.

4. Os casos acima deixam claro que não se trata de um médico sendo acusado pelo óbito de um bebê: trata-se de um movimento de REAÇÃO de setores conservadores da medicina que se negam a enxergar a crise ética que se abate sobre a corporação. É a tentativa de negar direitos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, apresentando estudos enviesados e publicados apenas em lugares onde a corporação médica e as companhias de seguro criminalizam o parto domiciliar. Os grandes estudos com adequada seleção, de caráter prospectivo e com grande abrangência são muito claros ao assegurar a qualidade e a segurança dos partos domiciliares planejados, e por isso mesmo países democráticos e progressistas adotam essa modalidade de atenção no próprio serviço público.

5. As alegações do CRM a respeito da não realização de prontuário são evidentemente falsas. O prontuário de pré-natal está absolutamente completo e com todas as informações pertinentes para o caso. O partograma foi realizado e entregue para o CRM, mas não foi aceito pelo conselheiro porque estava sem a assinatura. O partograma utilizado é o mesmo que consta na pasta do hospital onde eu atendia na época, e nele não consta lugar para assinatura. Fosse levada a sério essa negativa e todos os médicos que atenderam pacientes naquela época deveriam ser punidos. Essa negativa de aceitar o documento entregue apenas demonstra a má vontade do conselheiro em tratar com justiça um adversário no terreno das ideias e um crítico feroz da violência obstétrica e do abuso de cesarianas.

6. Para finalizar quero deixar claro que as medidas judiciais para a anulação deste julgamento estão sendo tomadas e serão informadas em breve. Não podemos admitir no Brasil mais um triste exemplo de “justiça dos inimigos”, onde pessoas explicitamente inimigas no terreno das ideias julgam de forma absolutamente facciosa seus colegas que se situam no campo oposto. Não se pode admitir que pessoas sem a mínima isenção sejam capazes de fazer justiça – que necessita de equidistância e equilíbrio para a sua execução. O movimento de humanização do nascimento e as críticas à violência obstétrica e aos abusos inaceitáveis de cesarianas não vão silenciar por este tipo de atrocidade. Os responsáveis pelo atual descalabro de termos 57% de cesarianas no Brasil e 85% de cesarianas na classe média não deixam dúvidas da crise SEVERA de valores pela qual passa a atenção ao parto. Não apenas as cesarianas, mas as múltiplas intervenções desnecessárias e perigosas, além da abordagem anacrônica – segundo as evidencias mais atuais – configuram uma tensão sem precedentes. O modelo centrado na figura do médico – especialista em intervenções – e afastado do modelo europeu centrado nas enfermeiras obstetras e obstetrizes – especialistas no cuidado – estão na gênese dessa tragédia. Infelizmente os conselheiros dos conselhos de medicina preferem atacar as vozes dissidentes ao invés de estimular uma profunda autocrítica aos rumos do trabalho médico, em especial na atenção ao nascimento humano.

É triste observar que após 34 anos atendendo mais de dois mil partos um médico seja excluído por um caso em que sua ação não foi equivocada e muito menos dolosa, mas que resultou num resultado negativo. É nefasto para a medicina criar um clima de medo e angústia entre os cuidadores do parto quando, por questões de ordem política e ideológica, uma fatalidade pode ser usada para obstruir uma carreira e atacar um profissional. Neste exato momento estou na China, desenvolvendo projetos abrangentes de treinamento de profissionais da atenção ao parto em grandes conglomerados hospitalares, mas agradeço a solidariedade que recebi de centenas de colegas e ativistas do parto humanizado que reconheceram nesta agressão um ataque direto aos nossos postulados e à nossa luta. A dignificação da mulher em seu momento mais sublime não será interrompida por atos inquisitoriais como este. Seguimos de cabeça erguida e em frente.

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