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Reflexões de Aeroporto

Aeroporto

Episódio XXIII

Ela nos procurou no segundo tempo da sua gestação. Já havia utilizado o banco de reservas, feito as adaptações necessárias e as estratégias possíveis, mas a prorrogação se aproximava atropelando os dias. Decidiu-se pela radicalidade de trocar a equipe de assistência ao seu primeiro parto. Assim chegou, entre o susto e a esperança

Na sua chegada uma velha e conhecida história: a médica não lhe passava nenhuma confiança no seu desejo por um parto normal. “Faremos seu parto se tudo estiver certo. Nunca corro riscos“, dizia. “Acima de duas horas começo a cobrar uma taxa“, completou, o que a fez imaginar estar falando com um enorme taxímetro. “Meu parto é de acordo com protocolos. Doula?… não.”

A partir desse desencanto, que conhecemos muito bem, passou a nos visitar. Suas consultas, a partir de então, sempre obedeciam uma rotina clara: conversas que duravam o tempo inteiro da consulta. Uma hora de trocas: expectativas, experiências, propostas, ideias e alternativas. As alterações determinadas pela gestação seguiram o curso mais fisiológico e, quando fomos avisados da ruptura da bolsa com 40 semanas, nada poderia ser mais previsível e natural.

As contrações se tornaram logo muito fortes, determinando como consequência a chegada da doula à sua casa. O espaçamento entre as ondas contráteis tornou-se rapidamente menor, fazendo o telefone vibrar no bolso da minha calça jeans.

“Muito fortes, Ric. Uma atrás da outra. Ela quer ir para o hospital”, disse a doula, e sua voz tinha o timbre da urgência.

“Ela apagou?”, perguntei. Aprendi que o apagamento neocortical é o melhor sinalizador de que a fase de transição está em curso ou já foi transposta.

“Sim. Está fora da casinha”, disse a doula, e de longe pude imaginar o sorriso que coloria seu rosto de menina.

Morar ao lado do hospital me oferece a vantagem de vencer todas as “corridas” com as pacientes, e isso nos dá a possibilidade de garantir um “continuum de cuidado”. Nunca há solução de continuidade entre o suporte oferecido pela doula e o acompanhamento médico que ela receberá no hospital. Sou sempre eu quem abre a porta do CO para a chegada da gestante e seu companheiro.

Quando eles chegaram pude logo ver, antes mesmo do abraço de boas vindas, que ela havia colocado firmemente os dois pés na superfície etérea da partolândia, o reino distante e onírico para onde vão as gestantes que conseguem vencer as barreiras – pessoais e institucionais – que precisam ser transpostas até o nascimento de seu bebê. Seu olhar era vago e seu rosto pouco lembrava a mulher sorridente e altiva que há poucos dias havíamos encontrado no consultório. Estava longe, distante, o que me assegurou a proximidade do desfecho.

Sorri baixinho para a doula, enquanto puxava sua mão para dentro do CO. “Ela viajou total; saiu da casinha. Parabéns pelo timing”, disse eu para a doula. Sabemos que a chegada precoce ao Centro Obstétrico é um dos piores indicadores para partos normais, pelo ambiente iatrogênico que o hospital impõe. Chegar no tempo certo é um caminho seguro para a normalidade de um nascimento.

Seguimos para a sala PP e procedemos com os prolegômenos. Dispam-se as vestes humanas e coloquem-se as vestais. Desumanize-se a mulher, transformando-a num ser angelical e assexuado. Retirem-se os anéis, os brincos, os brilhos, os sorrisos, as palavras. É o protocolo.

Alheio às regras ouso falar. Pior ainda, ensaio sorrisos e brinco com sua face lívida. Escuto 150 batidas na parede do ventre, e digo num portunhol forçado: “Mas bah!! Que espetáculo!!”.

Ela então desfaz sua face doída e sorri, mostrando o otimismo que deixara escondido sob o aluvião de temores e contrações. “Não faça força nos braços, relaxe. Respire fundo. Você está fazendo tudo certo”.

Seu marido, recém chegado da aventura no País da Burocracia, a segura por trás, tentando lhe dar um duplo suporte: físico e emocional. Sorri das minhas piadas, e ensaia uma gargalhada quando, no pico da contração ela grita: “Ricardoooooo“.

Quando me chamam assim é porque falta pouco“, expliquei sorrindo, mesmo que a visão dos cabelos negros de seu bebê brotando da vulva fosse uma evidência suficiente e muito mais clara.

Nesse momento ela interrompe suas vãs tentativas de se arrumar na mesa de parto, e a forma desajeitada de se acocorar, e me pede, quase envergonhada:

“Quero ir para o chão, posso?”

As faces dos três, marido, doula e paciente, me olham, e nesse momento ficou – mais uma vez – claro o inquestionável caráter invisível, e por isso mesmo potente, dos pressupostos do patriarcado a regular as tensões de poder na atenção ao parto.

Que poderia eu responder? Como poderia eu questionar a decisão de mudança de postura para uma outra, a qual a paciente intuía como mais adequada?

Minha resposta foi “Claro, desça daí”. Ajustamos os campos estéreis sob seus pés e pela primeira vez ela se sentiu absolutamente confortável. As plantas dos pés firmemente fixas no piso da sala lhe davam a força que lhe faltava, tanto quanto os braços do marido lhe amparavam e comunicavam confiança.

Subvertidas as leis, modificados os protocolos, trocadas as posições de poder e seu bebê despontou com mais vigor. Dois ou três esforços e ele chegava aos seus braços corado e triunfante.

Risos, gargalhadas, observações emocionadas e uma torrente de palavras, gesto e lágrimas a cobrir de significados o pequeno sujeito que chegava ao nosso convívio. “Um cidadão que testemunhará o século XXII“, pensei, se é que um dia chegaremos tão longe.

Ao sair, penso no pedido que ela me fez. “Posso?”, disse ela. O modelo autoritário e patriarcal do parto se mistura com o nitrogênio da atmosfera e compõe os gases que respiramos. Mulheres ainda pedem licença para livremente escolherem a melhor posição para jogar seu bebê em nosso colo, como se houvesse em qualquer um dos assistente um órgão sensor capaz de sentir o corpo viscoso de seu bebê melhor do que ela própria.

Sem reconhecer a sabedoria inata, visceral e celular que cada mulher tem para parir nunca conseguiremos progredir no entendimento do parto e da sua assistência. Cabe aos novos profissionais encarregados dessa atenção a dura tarefa de abandonar suas capas de autoritarismo, para assim, leves e livres, poderem sentir a poderosa energia que emana do nascimento.

Quem sabe até o século XXII chegar isso será uma realidade. Quem viver, verá._

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Narrativas

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A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos inter-raciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação cria as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como veem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma científica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


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Cultura

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É muito triste ver como a insensatez impera na atenção ao parto em várias partes do mundo. Mais importante do que o acolhimento e a atenção técnica primorosa são o controle e os interesses corporativos. Entretanto, não é a tecnologia o fator fundamental que diferencia um parto no norte da Europa de um no leste europeu. O grande diferencial é a CULTURA e sua especial forma de enxergar – e tratar – as mulheres.

Assim, a principal revolução não será pela aquisição de equipamentos, materiais, drogas e leitos hospitalares, mesmo que saibamos de sua importância e papel na boa atenção ao parto. Não, a verdadeira mudanca será cultural, passando do atual paradigma de atenção para um que respeite as mulheres como sujeitos íntegros, capazes de tomar decisões por si mesmas e com plena autonomia.

Enquanto as mulheres forem consideradas de forma diminutiva e demeritória nenhuma aquisição tecnológica irá contemplar as reais necessidades que o nascimento seguro e empoderador demanda.

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Força Compriiiida…

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A manobra de Valsalva para apressar o período expulsivo é o padrão do parto conduzido e comandado pela obstetrícia contemporânea. “Força comprida”, “Força de cocô” junto com o indefectível “não para, não para, não para” fazem parte do que eu chamo de “mantra obstétrico”, que muito mais serve como um esforço exonerativo das angústias dos profissionais presentes do que como auxílio possível à mulher que esta parindo. Creio que este tipo de discurso existe por razões inconscientes, mas inquestionavelmente poderosas.

O esforço solicitado às mulheres que atravessam o segundo estágio do trabalho de parto é o mesmo que homens fazem para evacuar. Para a percepção masculina, a expulsão fetal precisaria ser feita com a musculatura e o tipo de esforço que – para a nossa experiência corporal – parece ser a mais racional. Por isso pedimos que mulheres, no momento apical de sua feminilidade, sejam “bravas”… como homens.

Como o parto é controlado por uma lógica masculina, e em função da necessidade de criar correspondências sensoriais possíveis aos homens, esse modelo se estabeleceu como o preponderante na obstetrícia ocidental iatrocêntrica.

Para mudar esse padrão talvez seja necessário “repaginar” o parto, transformando-o novamente em uma experiência feminina, controlado por um modelo igualmente feminino.

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Partos e Barbas

“Se o parto ocorresse nos homens ninguém ousaria questionar a decisão sobre onde ele ocorreria. Por outro lado, se a barba crescesse nas mulheres, ela seria tratada como um crescimento anômalo e perigoso de pelos faciais, que demandaria tratamento e intervenção médica.”

A análise do parto – e seus riscos – como um fenômeno meramente biológico, que ocorre sobre corpos reais, sem linguagem e sem alma, é o que mais me espanta nos debates sobre local de parto. A interface que se cria entre questões de gênero e poderes corporativos fazem desse tema um prato cheio para as discussões contemporâneas sobre liberdade e autonomia para as mulheres. O crescimento dessa modalidade, na Europa, nos Estados Unidos e mesmo no Brasil, vem na esteira de questionamentos cada vez mais intensos sobre a interferência do biopoder sobre as decisões soberanas de mulheres sobre seus corpos e seus destinos. Esta tendência crescerá de forma muito intensa nos próximos anos, pois que não há como retroceder quando se trata de liberdades conquistadas.

Cada vez que eu vejo colegas publicando trabalhos enviesados sobre local de parto, negando-se a olhar para trabalhos PROSPECTIVOS de partos PLANEJADOS, embasando POLÍTICAS de saúde – como na Holanda ou Inglaterra, que inserem o parto domiciliar como alternativa válida e recomendável – eu percebo que “risco” e “segurança” são palavras usadas por estes debatedores para encobrir os verdadeiros valores ameaçados: Poder e Controle.

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Estímulo ao Parto Normal

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Se as últimas iniciativas da ANS – entre elas o pagamento triplo para o parto em comparação à cesariana – efetivamente produzirem um incentivo ao parto normal, eu tenho algumas preocupações sobre o que acontecerá com a atenção ao parto na classe média, que é a mais afetada pela epidemia operatória na obstetrícia.

Pelo que percebo ainda existe muita falta de vontade e talento para atender partos normais. Partos são processos complexos, demorados, in…esperados, com uma configuração absolutamente única e subjetiva, exatamente porque fazem parte da “vida sexual normal das mulheres”, como nos alertava o mestre Odent. Por esta razão não existirão jamais duas mulheres que vão amar, gozar, sorrir, chorar ou parir da mesma maneira.

Assim sendo, sem estabelecer uma leitura absolutamente SUBJETIVA de cada nascimento, como perceber seus ritmos e sua fluidez única? Como olhar para cada mulher como a primeira e última a parir naquele tempo, espaço e formato sem entender a singularidade do momento?

Parto é algo que acontece entre as orelhas“, como diziam as velhas parteiras. A atenção que damos a ele precisa de uma combinação complexa de elementos sutis como conhecimento técnico-científico, atenção, paciência, sensibilidade, disponibilidade e uma inabalável fé nas habilidades femininas de gestar e parir. Como diria Max, é fundamental “acreditar que elas podem“.

Por reconhecer as complexidades e dificuldades da atenção ao parto tenho receio das iniciativas que apenas oferecem incentivos econômicos aos profissionais. Não há como se contentar apenas com este aspecto financeiro.

Tenho medo de testemunhar a multiplicação de ocitocina sendo aplicada, o anacronismo da posição de litotomia, o uso inadequado de fórceps, de Kristeller e episiotomias gigantescas. Sem uma importante redefinição do que seja “parto normal”, e sua aproximação com nosso conceito de “Parto Humanizado”, poderemos ter muitos problemas com assistências equivocadas sendo realizadas.

Uma cesariana é como pintar uma parede; um parto é como pintar um quadro“, dizia Max. No primeiro precisamos pincéis, boa técnica e a repetição quase enfadonha de camadas de tinta sobrepostas, assim como na cesariana se repetem as camadas de tecido a recobrir o amnionauta na escuridão do claustro materno. No segundo, para além das tintas e pincéis, precisamos jogar nosso sentimento, nosso tempo, dedicação e alma, e estes elementos não são facilmente ensinados. O parto se configura como uma amálgama de inúmeros outros talentos, que transformam sua execução em algo que se aproxima da manifestação artística.

Espero que as medidas da ANS sejam acompanhadas de um questionamento mais profundo quanto à formação de profissionais e a multiplicação de atores – como obstetrizes e doulas – a compor o novo cenário da assistência ao parto.

Avanços precisam ser comemorados, sem deixar de reconhecer que muito mais há por fazer.

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Parto e Animalidade

Sobre o texto que andou rolando pela Internet a respeito de “partos animalizados”…

Primeiramente o nome já demonstra o preconceito tolo e infantil com a nossa condição animal. Talvez para o autor suas cesarianas sejam “partos angelicais”, feitas em uma espécie que transcendeu sua essência biológica e que não necessita mais passar pela “brutalidade” de contrações e dilatações. Acho apenas que tal ideia entraria em discordância com uma dupla de pesquisadores chamados Darwin e Wallace no que diz respeito à nossa hereditariedade animal. Aqui, no próprio título, faltou estudo e deixou-se de oferecer uma visão mais ampla do nascimento, além de desmerecer a importância de respeitar a nossa fisiologia, sim, “animal”.

Quanto ao texto eu consegui ler até a metade… parei quando li a defesa da episiotomia. Eu acho que existem muitos argumentos razoáveis para combater a humanização do nascimento, principalmente em relação ao ativismo. Não somos anjos e muito menos infensos a falhas e equívocos. Entretanto este texto tem erros lógicos muito grosseiros, por demais primários, que demonstram um desleixo importante com o estudo da matéria.

Este é mais um artigo escrito com 15 anos de atraso. Essa era a retórica de quando começamos a debater humanização do nascimento nos congressos do final do século XX. Falávamos do termo “humanização” e da sua conexão com o movimento chamado “humanismo”, que se inicia a partir do século XIV, que coloca o “homem no centro de todas as decisões“, além de reconhecer os valores greco-romanos de beleza e “perfeição” humanas, em oposição ao pessimismo das teocracias. Entretanto, o autor se mantém fixado na taxonomia, com mais de uma década e meia de atraso, ao acreditar que “humanização” é uma “obviedade” porque se refere ao gênero “humano”. Este é um erro que não se justifica mais. Talvez ele precise avisar o “HumanizaSus” para trocar de nome também.

As críticas à humanização existentes no artigo são primárias demais para receberem respostas. Como eu já disse, existem críticas pertinentes e debates em aberto, mas não cabe mais questionar o nome do movimento ou fazer apologia a cirurgias ritualísticas e mutilatórias como as episiotomias. Isso já foi deixado de lado, já viramos esta página, e os articulistas precisam estudar antes de se manifestarem. É preciso conhecer o assunto antes de produzir uma opinião, caso contrário teremos apenas leviandades e irresponsabilidades.

Tudo o que vejo é um franco atirador disparando de uma sacada com balas de festim. Não acerta nada, não fere os princípios norteadores de nossa causa, mas fica fazendo barulho. Os desavisados, ao escutarem os estopins, pensam se tratar de uma batalha. Todavia, com o tempo perceberão que para enfrentar um movimento baseado em provas e ciência precisarão ter muito mais “balas na agulha”.

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Sobre as Pressões

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Por que os médicos insistem em interromper gestações arbitrariamente com 41 semanas (às vezes falam até em 40 semanas)?

Não é por ignorância ou arrogância, é por medo. Se alguma coisa acontecer entre 40 e 42 semanas – período em que o bebê estava bem e pronto (maduro) para nascer – a família não pensará duas vezes e vai atacar impiedosamente o médico que “deixou passar da hora”. Quem já não ouviu uma história assim?

Hoje em dia até o tamanho de uma gestação normal foi contestado, questionando os valores históricos de Friedmann; mais ainda o tempo adequado de maturidade fetal. Entretanto, há alguns anos, houve trabalhos que demonstravam que induzir um parto com 41 semanas melhorava os resultados pós natais, mesmo que hoje eles sejam duramente combatidos. O resultado é pouco expressivo, mas o suficiente para o embasamento de condutas. Esse detalhe vai ao encontro das fantasias ancestrais que falam de um “útero malévolo e sufocante”, determinando aos médicos a nobre tarefa de liberar a inocente criança da angústia desse aprisionamento. Essas histórias nutrem o imaginário das culturas, que cobram dos profissionais uma ação salvadora para o novo membro que está para nascer, assim como culpabilizam o corpo defeituoso da mulher pelo risco em que colocam o bebê. Para as culturas patriarcais as mulheres são vistas como ameaçadoras e seus corpos cópias mal acabadas e defectivas do padrão de perfeição: o corpo masculino, fac simile da estrutura divina.

Como se pode ver com facilidade, de nada adianta mudar os médicos sem modificar os pacientes. Os médicos nada mais são do que o reflexo da sociedade onde vivem, e suas ações acabam reproduzindo os valores disseminados pela cultura em que estão inseridos. Não existe distância entre o padrão dos médicos e dos seus clientes; eles estão próximos e compartilham medos, angústias e modos de compreensão da realidade.

Outro exemplo: gestante da cidade vizinha chega ao hospital público ao anoitecer com dois cm de dilatação e em pródromos (poucas e esparsas contrações). O que é correto fazer? Mandar embora, já que não se configurou a fase ativa do trabalho de parto. Entretanto, o que fazem os médicos? Via de regra, internam e colocam ocitocina para “melhorar a dinâmica uterina”.

Mas por quê, já que sabemos que essa atitude não tem respaldo científico? Ora, porque ao agir de forma correta – pedir que volte mais tarde em fase ativa – o médico plantonista corre o risco de ser ameaçado pela família, que irá na rádio local acusá-lo de “não aceitar internar”.

O médico ainda não tem amparo algum da sociedade para fazer a melhor medicina. Diante das pressões ele interna a gestante, afasta-a da família “adrenalínica” e ansiosa, realiza os rituais de “purificação” (banho, enema, roupa branca, cabelo preso, tricotomia, etc.) e coloca soro (ocitocina) para apressar o parto, já que não pode ocupar um leito por 24 horas com uma única paciente. Por outro lado, o profissional sabe que estimulando agressivamente o útero com hormônios vai aumentar a chance de uma cesariana. No fim ela acaba operada e a família fica feliz e satisfeita. A desculpa já estava pronta mesmo antes de sair de casa: “não houve dilatação“.

Mas não se iludam; nessa história todos são culpados e quem paga a conta salgada das intervenções é a pobre mulher e seu o bebê. Precisa bem mais do que novas leis sobre cesariana e parto normal para que modifiquemos o cenário da assistência ao parto. É necessário mudar uma cultura, o rio de valores em que bebem médicos e pacientes, e isso se faz lentamente através da educação.

Outra história curiosa: Quando eu era plantonista numa cidade da periferia de Porto Alegre vivi muitas vezes esta cena. Revólver na cintura, carteiraço de funcionário da prefeitura e até carteira de doador de sangue (???!!!) eram usadas como elementos de intimidação. Muitas vezes as pacientes chegavam ao centro obstétrico acompanhadas ao plantão do vereador populista da cidade, com 38 semanas de gestação, para fazer a “cesariana com ligadura” que havia sido prometida na campanha eleitoral.

Naquela época, 25 anos passados, eu havia estabelecido o parto de cócoras como o padrão no meu dia de plantão. Não é de se espantar que um vereador da cidade convocou uma reunião na câmara para debater o estranho caso de um médico obstetra plantonista – e louco – que colocava as mulheres para “parir como galinhas” no hospital municipal.

Foi ao saber dessa notícia que eu me dei conta que o protagonismo da mulher, elemento que eu já percebia como central para uma revolução no parto, precisaria de mais um quarto de século para ser entendido. Errei nas contas…  vai precisar um pouco mais.

A solução para esta falta de sintonia entre o “saber e o fazer” não se esgota na velha tese da melhoria do pré-natal. Eu prefiro ir um pouco mais longe. Os valores do parto e nascimento são introjetados na mais tenra infância e fazem parte da nossa arquitetura emocional. Não se derrubam mitos e preconceitos fazendo encontros mensais de 30 minutos com um profissional de saúde, por melhor e mais capacitado que ele seja. Mesmo que eu concorde com a grande importância do pré natal para estimular a autoconfiança e o protagonismo das futuras mães, creio que precisamos agir muito antes disso. É na primeira infância – e depois na escola fundamental – que devemos iniciar a tratar de parto. Sou muito a favor de aulas de parto e nascimento nas escolas, longe dos conceitos biologicistas e próximo de uma visão afetiva, espiritual e social.

Só assim poderemos estreitar de forma certeira a distância que separa o que fazemos daquilo que sabemos ser o melhor para os nossos pacientes.

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Estímulo ao Parto Normal

Medico_Dinheiro

Se as últimas iniciativas da ANS – entre elas o pagamento triplicado para o parto em comparação à cesariana – efetivamente produzirem um incentivo ao parto normal, eu tenho algumas preocupações sobre o que acontecerá com a atenção ao parto na classe média, que é a mais afetada pela epidemia operatória na obstetrícia.

Pelo que percebo ainda existe muita falta de vontade e talento para atender partos normais. Partos são processos complexos, demorados, inesperados, com uma configuração absolutamente única e subjetiva, exatamente porque fazem parte da “vida sexual normal das mulheres”, como nos alertava o mestre Odent. Por esta razão não existirão jamais duas mulheres que vão amar, gozar, sorrir, chorar ou parir da mesma maneira.

Assim sendo, sem estabelecer uma leitura absolutamente SUBJETIVA de cada nascimento, como perceber seus ritmos e sua fluidez única? Como olhar para cada mulher como a primeira e última a parir naquele tempo, espaço e formato sem entender a singularidade do momento?

Parto é algo que acontece entre as orelhas“, como diziam as velhas parteiras. A atenção que damos a ele precisa de uma combinação complexa de elementos sutis como conhecimento técnico-científico, atenção, paciência, sensibilidade, disponibilidade e uma inabalável fé nas habilidades femininas de gestar parir. Como diria Max, é fundamental “acreditar que elas podem”.

Por reconhecer as complexidades e dificuldades da atenção ao parto tenho receio das iniciativas que apenas oferecem incentivos econômicos aos profissionais. Não há como se contentar apenas com este aspecto financeiro.

Tenho medo de testemunhar a multiplicação de ocitocina sendo aplicada, o anacronismo da posição de litotomia, o uso inadequado de fórceps, de Kristeller e episiotomias gigantescas. Sem uma importante redefinição do que seja “parto normal”, e sua aproximação com nosso conceito de “Parto Humanizado”, poderemos ter muitos problemas com assistências equivocadas sendo realizadas.

Uma cesariana é como pintar uma parede; um parto é como pintar um quadro“, dizia Max. No primeiro precisamos pincéis, boa técnica e a repetição quase enfadonha de camadas de tinta sobrepostas, assim como na cesariana se repetem as camadas de tecido a recobrir o amnionauta na escuridão do claustro materno. No segundo, para além das tintas e pincéis, precisamos jogar nosso sentimento, nosso tempo, dedicação e alma, e estes elementos não são facilmente ensinados. O parto se configura como uma amálgama de inúmeros outros talentos, que transformam sua execução em algo que se aproxima da manifestação artística.

Espero que as medidas da ANS sejam acompanhadas de um questionamento mais profundo quanto à formação de profissionais e a multiplicação de atores – como obstetrizes e doulas – a compor o novo cenário da assistência ao parto.

Avanços precisam ser comemorados, sem deixar de reconhecer que muito mais há por fazer. Vamos pagar para ver. Minha opinião é que a taxa de cesarianas vai cair na abrangência da ANS. Na verdade eu creio que ela já estava caindo de forma MUITO sutil, quase imperceptível. Entretanto, o resultado – 2 ou 3 pontos percentuais, quem sabe 5 – está longe de ser satisfatório; ainda será vantajoso fazer três cesarianas em duas horas, mesmo ganhando menos. Além do mais, o assunto não se esgota na questão financeira. Existe um elemento essencial, mas dificilmente mensurável: a paixão.

Sem o transcendental é impossível entender o nascimento em sua manifestação plena. Sem o transcendental é impossível entender o nascimento. Sem tesão pelo parto não há solução. Oferecer a atenção ao parto aos profissionais duramente treinados na intervenção é pedir para que a fisiologia sofra a metamorfose para a patologia e essa, por sua vez, se transforme em intervenção.

Por isso peço a mudança da “fotografia”. Precisamos inundar o atendimento ao parto com parteiras profissionais (enfermeiras obstetras), obstetrizes e doulas. Mudar a face da atenção, assegurando às parteiras (midwives) o papel CENTRAL na atenção ao parto fisiológico. Essa atitude, muito mais do que mexer no bolso dos médicos, será capaz de modificar o panorama. De qualquer maneira, a troca da forma de pagamento se configura uma boa medida. Limitada, mas positiva.

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Partos e Espelhos

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A forma como atendemos o parto nada mais é do que um espelho das próprias estruturas sociais. Em sociedades que prezam a dignidade humana, a justiça e a equidade o parto refletirá esses valores, através de condutas e atitudes respeitosas com as mulheres, com seus bebês e fortalecendo o vínculo que se estabelece entre eles no momento do nascimento.

Em contrapartida, em sociedades onde a violência – de todas as formas, em especial contra a mulher – impera, o parto reproduzirá estes elementos em seus rituais, para que ele se alinhe aos valores mais profundos desta cultura.

O parto é, desta forma, uma imagem vívida das características profundas da estrutura social. “Diga-me como atendes os frágeis e te direi como és“. Desta maneira, as sociedades podem ser facilmente traduzidas através da análise de como seus partos são conduzidos. Sociedades justas e igualitárias produzem partos dignos; sociedades autoritárias e machistas propiciam partos marcados pelo signo da violência.

Para mudar a sociedade é necessário mudar a forma de nascer, mas para exterminar todos os traços de violência na maneira como conduzimos o nascimento é preciso lutar pela erradicação de todo e qualquer tipo de desrespeito e indignidade impostos à mulher no seu momento mais sublime.

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