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Aborto

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Tenho profundo respeito pela temática do aborto e o considero um dos temas mais importantes e emblemáticos no que diz respeito ao empoderamento das mulheres e para a conquista do protagonismo feminino.

Mas debater este tema me produz imenso desconforto…

Desconforto me descreve, por isso nunca debato abertamente este tema. Peço inclusive que as pessoas que são a favor da humanização do nascimento não tragam essa pauta para os debates. Ela é tão poderosa, e mexe tanto com as emoções, que muitas vezes o movimento pela humanização do nascimento fica eclipsado pelo debate da descriminalização do aborto.

É claro que sou contrário ao aborto, mas quem seria a favor?

Prefiro não debater abertamente a questão do aborto, e por isso que peço que as pessoas que são a favor da humanização do nascimento não tragam essa pauta para os debates. Ela é tão poderosa, e mexe tanto com as emoções, que muitas vezes o movimento pela humanização do nascimento fica eclipsado pelo debate da descriminalização. Eu acho que os congressos e os simpósios de humanização do nascimento deveriam evitar discutir uma temática tão arrebatadora como o aborto. Existem fóruns especiais para isso, e quando misturamos estes temas eles geram muita divisão. No movimento de humanização do nascimento existem defensores dos dois grupos: contra e a favor da legalização. Se nós incentivarmos que a humanização do nascimento se vincule a um deles perderemos pessoas que poderiam estar ao nosso lado mas que se afastarão pela questão do aborto.

Nos Estados Unidos, por exemplo, uma parte considerável das ativistas são cristãs. isto é: são pró-vida. Seria desnecessário e contraproducente estabelecer que os partidários da humanização do nascimento tivessem que se vincular a uma das correntes “pro life” ou “pro choice”. Como eu disse, tenho grande admiração por quem carrega esta bandeira, mas este tema é grande demais para nós, e pode produzir uma divisão desnecessária se ocupar tempo demasiado nos nossos questionamentos.

Entretanto, nada impede que cada um de nós carregue as bandeiras que quiser. Eu, por exemplo, defendo a Palestina Livre e o fim da ocupação, mas não aceitaria que esse tema fosse debatido em um simpósio de parto humanizado, mesmo sendo de imensa importância e estar vinculado com a saúde das mulheres que sofrem no cerco a Gaza.

O problema é que sou inexoravelmente a favor da vida e falar de sua terminação é desconfortável, por mais que eu apoie a descriminalização do aborto e tenha esperança de ver as mortes femininas evitáveis diminuírem com a sua implantação. Respeito quem faz do aborto livre uma bandeira feminina, mas não gosto de debater este tema, até porque a maioria dos argumentos de ambos os lados são inúteis e despropositados, em especial quando tentam produzir o convencimento de alguém que não aceita ser convencido. Por isso que insisto que “a luta pela descriminalização do aborto não pode ser religiosa ou ideológica, mas política. Esta é uma luta que se vence pelo convencimento da maioria e não pela conversão dos opositores”.

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Razão

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Nosso erro frequente ao debater temas difíceis como aborto ou humanização do nascimento é tentar usar a racionalidade contra argumentos surgidos da irracionalidade. É o caso de alguém tentar demover o outro de uma crença que se estrutura sobre o desejo, e não sobre a razão. É nesse ponto que os debates sobre o aborto emperram e não prosperam. A questão do aborto, para além dos conceitos, é uma questão POLÍTICA. De pouco ajudam as pesquisas e os estudos diante da negativa em reconhecer sua validade. O mesmo ocorre com as questões relativas à humanização do nascimento, em especial o tema do “local de parto”; aqui também o que vai valer é a maturidade da cultura em aceitar elementos da ética e dos direitos reprodutivos, acima de questões médicas

Acreditar que a razão e a ciência são forças capazes de iluminar mentes obscurecidas pela ignorância é colocá-las em uma posição para a qual não foram feitas. A verdade da ciência só pode frutificar quando existe um terreno cultural que a faça crescer. Sem terreno adequado a semente da verdade científica não germina; enfraquece, definha e morre. A ciência é incapaz, por si só, de modificar a nossa compreensão do mundo, mas é uma excelente ferramenta para consolidar as decisões e consolidar os caminhos definidos.

A descoberta científica de que o cigarro produz câncer não eliminou prontamente seu uso. Não foi suficiente expor os danos causados pelo seu uso; era preciso que estas verdades entrassem no coração das pessoas. Entretanto, tais estudos serviram de embasamento para as decisões políticas tomadas depois. A função da ciência é educativa; ela é uma juíza medíocre, mas uma ótima professora.

Não há debate com pessoas que desconhecem a perspectiva do outro. Não se debate, se educa. E do ponto de vista da política o que podemos fazer é mostrar e expor a nossa maneira de ver a realidade e esperar que mais pessoas sejam tocadas por nossa visão. Aprendi a duras penas que não adianta aumentar o volume para que um surdo escute.

O respeito pelas decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos não virá a partir de descobertas da ciência médica, mas da mobilização política das mulheres em torno destes temas.

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Telas Mágicas

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Eu vejo a poesia, a literatura e a ficção em geral como as únicas máquinas do tempo que a mente humana foi capaz de criar até agora. Tais expressões da criatividade são pontes que criamos para o futuro, muitas vezes antecipando-o ou estimulando sua própria construção. Outras vezes a literatura, o cinema e a TV acessam o campo simbólico e traduzem o presente através de suas metáforas e simbologias, abrindo debates que muitas vezes sequer são explícitos, mas que a partir daí poderão se tornar.

Minha curiosidade com esta especial capacidade da literatura e do cinema surgiu quando eu analisava o seriado “Batman” da televisão dos anos 70 e fazia uma correlação entre os personagens da trama e a emergência do movimento gay americano.

Bruce Wayne é um homem maduro, rico e solitário que vive em uma mansão na cidade de Gotham, com seu criado Alfred e sua tia Harriet. Subitamente o coroa milionário convida para morar com ele um “pupilo” (que me faz pensar nos mecenatos gregos) muito mais jovem chamado Dick (um nome de duplo sentido em inglês). Os dois em verdade são Batman & Robin, que, quando a noite recobre Gotham City com seu manto de sombras, colocam “fantasias” e saem para insólitas aventuras.

Ninguém sabe da vida dupla de ambos. Por segurança eles a escondem de todos, menos do fiel ajudante Alfred, o mordomo. Alfred bem sabe o que se esconde por detrás do meramente manifesto. A “dupla dinâmica” tem muitos segredos inconfessos. Inúmeras cenas do seriado corajosamente insinuam a tensão erótica entre Batman e Robin, mas jamais de forma explícita.

Nesta análise da história a tia Harriet e sua ingenuidade representam a todos nós. Ela e incapaz de perceber o que verdadeiramente são os dois rapazes que moram em sua casa, da mesma forma como éramos cegos quanto à manifestação homossexual que muitas vezes estava ao nosso lado sem que a percebêssemos.

Batman & Robin (o da TV, o melhor e mais criativo de todos) é o mais fiel retrato de uma época especial da civilização: a abertura dos armários e o reconhecimento da infinita diversidade sexual humana. Os criadores da série perceberam, de forma consciente ou não, o movimento da cultura no sentido da aceitação de novas formas de relacionamento afetivo, e o aplicaram de forma magistral no vão que se estabelecia entre a “luta contra o crime” e a luta contra o “crime” – de não reconhecer a (nossa) sexualidade de maneira integral.

Pulando algumas décadas adiante me deparo com a fixação contemporânea na temática dos “zumbis”. Existem incontáveis filmes, variando do terror, drama e até comédia, em que os personagens principais são zumbis. Lembro até uma mega-série blockbuster de TV chamada “Walking Dead” que aborda exatamente o “apocalipse zumbi” e a invasão do planeta por estes seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam entre si com grunhidos. Eles são ameaças asquerosas à nossa vida, e o simples contato com eles pode nos contaminar e transformar no que eles são.

Ora, se acredito na ficção como antena de captação do campo simbólico da linguagem, o que teria para nos dizer esta metáfora da “invasão dos Zumbis”?

Não é preciso usar de muita imaginação, e aposto como não sou o primeiro a tratar do tema por este viés. Uma breve avaliação dos discursos de Donald Trump e uma olhada rápida nos noticiários europeus mata a charada em poucos minutos.

Quem são os “seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam com grunhidos” no mundo atual? Quem “infesta” as nossas cidades com a sujeira cultural e nos contamina com seus hábitos bizarros? Quem são os seres que nos ameaçam com sua presença e cuja mordida pode nos transmitir a mesma aberração que eles trazem em seus corpos maltrapilhos?

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A ameaça são os imigrantes e refugiados.

Seus grunhidos arábicos ou castelhanos invadem nossa cultura europeia e branca ameaçando a supremacia de nossos hábitos e valores. Sua pele é invariavelmente “suja”, escura, e contrasta com a alvura de nossa cútis “superior”. Seus costumes bárbaros nos causam estranheza ou nojo.  Quando na TV, em algum documentário, não parecem tão ameaçadores, mas quando andam em bandos, falando palavras desconexas perto de nossas casas, são invasores perigosos. Pior… podem transformar alguém da nossa própria família em um “deles”. Por isso é preciso proteger os seus, cuidar para que os zumbis não se aproximem e os convertam no que eles já são.

Os zumbis contemporâneos aparecem como ficção para que possamos olhar para estas emoções sem o constrangedor (para alguns) sentimento de xenofobia e preconceito. Se é desumano e cruel desprezar imigrantes famintos que fogem de guerras estúpidas que nós mesmos criamos em seus lares, podemos ao menos odiar a desprezar sua vertente ficcional que invade nossas cidades e ameaça nossos valores e conceitos.

Batman e Robin apaixonaram uma geração porque havia uma mensagem instigante criptografada em seu núcleo,  para quem tivesse olhos de ver. Os zumbis só fazem sucesso porque eles existem de verdade.

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Cusparada

Jean cuspindo

A cusparada de Jean Wyllys em Bolsonaro no plenário ontem demonstra os limites claros que ele, Jean Wyllys, tem em relação à vida pública. Se é verdade que Bolsonaro é um fascista abjeto, também é verdadeiro que no plenário sua voz amplifica o desejo de milhares de pessoas a quem representa. Cuspir em um parlamentar é desdenhar da representatividade e daqueles que lhe delegaram seu voto. A defesa que Jean divulgou hoje diz que ele cuspiu em Bolsonaro ao ser chamado por ele de “veado”, “boiola” e “queima rosca”. Ora… agora uma agressão torpe e infantil justifica outra? O congresso é uma casa política ou a hora do Recreio de uma escola primária? Jean, neste episódio, apenas demonstra que não tem preparo para suportar com nobreza estas provocações…

O episódio da visita a Israel e os destemperos contra Bolsonaro apontam para o fato de que as boas intenções, a retórica e a cultura de Jean não são suficientes para o tornar um grande parlamentar. O destaque às suas posturas seria fácil diante da imensa incompetência desse congresso, mas o próprio Jean destrói suas possibilidades.

Cuspir em Bolsonaro exalta a vítima e rebaixa o agressor. Se existem alguns que acham que isso o coloca como um nobre combatente pelas minorias e contra os fascistas eu vejo nisso fragilidade e incapacidade para encarar com serenidade e respeito o contraditório. Tais atitudes rebaixam o debate político e dão um péssimo exemplo de incivilidade, o que é lastimável quando parte de um defensor da democracia e dos direitos das mulheres e gestantes.

Bolsonaro sai engrandecido desse episódio, mais uma vez, ao espertamente provocar as reações histriônicas de Jean Wyllys. Este precisa aprender a não se colocar como escada para que fascistas, racistas e canalhas possam subir perante a opinião pública.

Mas acho curioso esse tipo de defesa que fazem. Aliás, já escrevi e falei muito sobre isso. É aquela antiga tese: um cara matou um sujeito numa discussão. A polícia o prende e tortura. Ou mata. Ou espanca. Ou nega atendimento jurídico. Aí um tolo e legalista como eu diz: “”.

A resposta que sempre recebo: “ahhh, então tem que ser civilizado com um criminoso que matou a sangue frio?“. Outra muito comum: “Mas deveria ter pensado antes de matar. Agora sofra.” Ou então “Esse torturador – do criminoso preso – me representa.” Também se lê “Se fosse eu, faria pior“. Todos que assim atuam igualam-se aos criminosos que condenam.

Isto é: muitos acreditam que a simples vingança (cometer contra o agressor o mesmo crime do qual ele é acusado) é uma forma de justiça. Para mim, quem assim pensa e age, mostra que está muito mais perto do criminoso do que pensa. A diferença, muitas vezes, é apenas circunstância e oportunidade.

Infelizmente muitas pessoas caem na tentação de interpretar a minha crítica à atitude tola e imatura do Jean como um apoio ao facínora do Bolsonaro. Na verdade é o contrário. Percebi que o elogio ao Ustra foi premeditado por ele de forma cuidadosa para provocar os despreparados… e fiquei morrendo de raiva ao perceber que o estratagema (de novo) funcionou.

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Pedido Primeiro

Pais

Muitas vezes avalio as pessoas que conheci e tento me perguntar sobre as vantagens e desvantagens que elas carregam na vida. Muitas têm dinheiro, outras são inteligentes e cultas. Algumas não têm qualquer atrativo físico, mas carregam virtudes que reconheço como brilhantes. Muitas delas estão contentes com o pouco que possuem, enquanto outras não conseguem se satisfazer com o muito que acumulam. Muitos amigos me falam de “cargo”, materiais, coisas que tem ou que aspiram, projetos que se emperram por falta de dinheiro, façanhas gigantescas produzidas pela riqueza, enquanto alguns outros exaltam detalhes em suas vidas que para mim seriam imperceptíveis.

Afinal o que existe de valor na existência que nos faz procurar durante toda uma vida? O que é que tanto buscamos?

Penso por vezes, no “chiaroscuro” de cada noite, nos momentos que antecedem o mergulho onírico de cada jornada, em qual seria o pedido único que faria antes de nascer. Se me fosse oferecida uma única qualidade, circunstância ou valor, um pedido que não pudesse ser negado, um elemento escolhido para deixar minha vida mais produtiva… o que eu apresentaria como pedido na antessala da vida, antes de chegar a este mundo e cursar uma existência inteira onde a angústia seria minha única, leal e indefectível companheira?

Não seria a beleza. Sei o quanto ela abre portas, facilita os encontros e os amores, deixa os contatos mais fluidos e fáceis. Entretanto, a beleza tanto atrai quanto aprisiona. As histórias de homens e mulheres extremamente belos não são relatos de felicidade obrigatória. Pelo contrário: quanto mais conhecemos a vida de estrelas de cinema, modelos esculturais de perfeição das formas, mais percebemos que sua formosura física jamais atuou como uma garantia de sucesso emocional ou psíquico. A biografia dos personagens da cultura que tiraram suas vidas precocemente, ou que tiveram vidas afetivas e amorosas pobres e doloridas, são evidentes demais para acreditar que a beleza possa nos oferecer qualquer garantia de felicidade.

Mas, e o dinheiro? Pode ele oferecer alegria? Pode ele nos trazer segurança e acesso aos prazeres que o mundo oferece? O dinheiro é capaz de comprar a felicidade, ou ele apenas oferece boas vestimentas a um sujeito que, diante da sua nudez, sofre como qualquer mortal? Assim como a beleza, a riqueza ofusca e ludibria, engana e distrai. Muitas relações estabelecidas com os ricos e belos só ocorrem pela luz fulgurante da atração que emana dessas qualidades. Todavia, por superficiais que são, elas atraem sujeitos que se embriagam de suas promessas, mas que não suportam a nudez que se evidencia quando surgem as rugas e desaparecem os encantos que o dinheiro oferece.

Então, se a riqueza e a beleza não são garantias, quem sabe a inteligência e a cultura seriam as qualidades que eu pediria antes da minha chegada. Por certo que uma vida cheia de saber poderia me abrir portas, mas que certeza poderia eu ter de que tal virtude me traria o nirvana que tanto ansiamos? Não, a inteligência apurada não pode me garantir uma vida feliz, e os exemplos de gênios consumidos por aflições e angústias terríveis aparecem em toda a história da humanidade. Nada no mundo intelectual me traz a segurança de uma vida plena e tranquila.

Se a beleza, a riqueza, a inteligência e a cultura são insuficientes, que poderia você pedir para lhe oferecer, senão a garantia, pelo menos uma trilha mais firme em busca de uma existência plena e feliz?

Depois de trabalhar por mais de 30 anos escutando as queixas, sofrimentos, dramas e angústias de tantos que me procuraram pela oportunidade de falar de suas dores, eu só penso em uma coisa cada vez que tais pensamentos me afligem. Ela não custa dinheiro algum, e sequer ocorre em pessoas dotadas de beleza ímpar ou com qualidades intelectuais além do comum. Ela se esconde no sorriso de pessoas comuns e nas lágrimas de todos aqueles que um dia puderam ter esse valor. Não aparenta ser muita coisa, de tão banal que se afigura, e as vezes nem aparece nas biografias de famosos. Mas hoje eu não tenho dúvida que, se me fosse dada a oportunidade de escolher um único pedido antes de descer para a Terra e empreender uma nova jornada, seria essa a minha solicitação.

Eu escolheria ter um pai e uma mãe. Somente isso. Meu pai não precisaria ser rico ou inteligente, e minha mãe não precisaria ser um ente cuja beleza infinita me inundasse o corpo físico com seus genes cheios de formosura e charme. Nenhum deles precisaria ter valores que se possam contar, onde a matemática precisasse ser utilizada para avaliar sua grandeza. Também não precisariam ser de sexos diferentes, e até tal desafio seria pequeno diante da vantagem de tê-los por perto.

Se eu tivesse, como tive, pais que me amassem pelo que sou, qualquer outra dificuldade que viesse a aparecer em minha vida seria encarada de uma forma completamente diferente do que seria se sua ausência fosse uma presença viva e sangrante em todas as minhas relações e experiências.

Sim, eu desejaria o amor primordial, a base para qualquer outro afeto, o imprint de carinho e cuidado que é o grande diferencial na vida de qualquer sujeito.

Ok, se for possível fazer outro pedido, pequenino, quase imperceptível, para acompanhar esse singelo desejo de ter ao meu lado pais que me amem como sou… “se der para nascer de parto humanizado eu ficaria agradecido, tá bom“?

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Arte

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“A atenção ao parto, enquanto manifestação artística, percorre a mesma trilha das artes que lhe acompanham: parte da excelência técnica e da extremada sofisticação em direção à simplicidade e à naturalidade; da histeria à suavidade, do grito ao silêncio.”

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Uma graça

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Se o mestre Nazareno de mim se aproximasse e suas mãos vazadas pelas chagas segurassem as minhas oferecendo um pedido qualquer que enchesse meu coração de alegria, que diria eu a ele?

Eu pediria a Jesus que deixasse cumprir tudo o que a mim fosse destinado. Que caísse sobre mim o que for por mim merecido e justo. Jamais aceitaria receber o que fosse por uma graça, por um favor, por uma bênção.

– Quero todas as bolhas que meu caminhar mereceu. Quero todo suor que minha pressa escorreu. Exijo toda a sede que minha palavra produziu e todo calor que minha paixão expulsou. Não quero nenhuma dádiva, nenhum valor que não tenha vindo do meu esforço. Peço as punições que for merecedor, mas desejo que só cheguem a mim as recompensas a que fiz jus.

– Não me dê nada, Jesus. Que sentido teria essa vida se nossas conquistas fossem realizadas através de prêmios recebidos sem merecimento? Que justiça é essa que nos oferece benefício por loteria ou bajulação?

– Obrigado, senhor, pelo oferecimento. Guarde o presente para quem realmente o deseja. Para mim me bastam as alegrias simples e a harmonia fugaz que nosso mundo de expiações oferece.

Nesse momento o Jesus redivivo sorri, larga minhas mãos e desaparece em uma nuvem avermelhada, deixando no ar um inconfundível odor sulfuroso.

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Palmada

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Chego mais cedo ao terminal compelido pela minha neurose. A fila do check in está vazia, mas a tripa em pouco tempo se fará presente. Em tempo: na minha infância se usava a palavra “bicha” para designar fila, expressão que veio de Portugal. Hoje em dia “furar a bicha” é crime de transfobia; “bicha” está para fila assim como “gay” está para alegre. Os costumes sepultam expressões, mas para cada uma que morre outras tantas nascem ou são revividas pela fala.

Solicito a troca do meu assento. Outra neurose: só consigo viajar no corredor. Não adianta me dizer que “a vista quando se chega em… é linda”. Claustrofobia. Urina frouxa.

Troquei. “Viu como é bom chegar cedo?”. Poderei esticar as pernas e visitar o banheiro sem pedir licença.

Resolvo tomar um café com leite, mais para me acalmar de um dia cheio de atribulações do que por qualquer necessidade ou fome. Ao me aproximar do caixa escuto a conversa das atendentes enquanto faço o pedido da “média”.

– … e com cinco anos nunca apanhou. Não sei mais o que fazer.

Olho para a moça que havia falado. Loira, alemoa, carinha redonda de “colona”. Olhos verdes brilhantes e bochechas vermelhas. Parece uma figura que seria facilmente encontrada num “kerb” em Nova Hartz.

Pergunto, consciente da minha indevida intromissão.

– Quem aí disse que nunca bateu?

Elas se olharam intrigadas. Quem é esse velho se metendo na nossa conversa?

– Eu disse, falou a loirinha. Meu filho tem 5 anos e nunca apanhou, mas agora anda impossível. Não sei mais o que fazer.

– Bem, disse eu, não sei exatamente o que podes fazer, mas posso te garantir que bater no seu filho será absolutamente inútil. Se é verdade que as criança precisam descobrir limites para o seu ego em expansão, também é verdade que a violência apenas poderá oferecer a elas um idioma, uma linguagem de respostas imediatas, mas jamais uma comunicação correta ou adequada.

A moça do caixa, mais velha e talvez com filhos adolescentes, entrou na conversa.

– Mas a geração anterior, que recebeu castigos mais severos e até físicos, não é mais educada e respeitosa que esta? Não estou justificando espancar uma criança, mas uma palmada não seria adequada… talvez imprescindível?

A loirinha quis concordar, mas olhou para mim em busca de uma opinião de alguém mais ve…, digo, experiente.

– A minha geração e a anterior não produziu crianças mais educadas ou “com modos”; ela apenas criou crianças com medo. Muitas crianças tiveram sua criatividade destruída pelos castigos brutais que receberam. Não creio que esta opção possa lhe dar qualquer garantia de “educação” ou “bom comportamento”, mas certamente oferecerá a ela um “imprint“, uma marca afetiva e profunda, que determinará efeitos por toda a vida. Esta mensagem afirmará, por partir de uma figura importante e essencial como a mãe, que a violência é um artifício válido para a solução de conflitos ou frustrações. No futuro este adolescente ou adulto, diante de um desafio limítrofe qualquer, recorrerá ao depósito de suas memórias antigas e reconhecerá na brutalidade uma via lícita para resolver seus problemas ou descarregar suas angústias. O ciclo então se mantém: o espancado se identifica com o espancador e garante a linha sucessória da violência. É essa a herança que queremos deixar aos nossos filhos?

– Eu nunca consegui bater nele, moço.

– Então siga obedecendo seu coração. Não se conserta nada com violência. Pense nisso e…. parabéns.

Ela sorriu e entregou a bandeja com meu café, cujo vapor coloriu a atmosfera próxima com o aroma da nobre semente.

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Mississipi

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Uma historinha…

Quatro jovens entram em uma loja no shopping sem camisa. Três brancos e um negro. Em função da contravenção a polícia é chamada. Todos são interrogados, mas só o negro é detido, espancado, humilhado e levado à prisão. Quando pergunta por que só ele foi perseguido e punido recebe como resposta: “Mas você está justificando seu ato indecoroso porque outros também fizeram? Que vergonha!!” Ele então responde: “Não, meu ato de não usar camisa pode até ser punido, o que me espanta é o fato de que apenas eu sou perseguido e espancado. Por que os meus amigos não estão presos?” A resposta dos policiais é: “Não vem ao caso“….

Nesse momento ele percebeu que não havia sido preso por andar sem camisa, que até é uma contravenção verdadeira. Ele havia sido preso por ser negro em um shopping, um “crime” muito pior, mas que ele não havia percebido.

Sua queixa não é contra a sua punição, mas a intensidade dos espancamentos diários, e a seletividade em escolher sobre quem cai a mão pesada da lei, e sobre quem o julgador apenas diz que “não vem ao caso“….

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Desprezo

Mulher braba

Escrevi um enorme texto e apaguei…

Guardei apenas a última frase: “Nunca despreze a violência de uma mulher que se sentiu desprezada por um homem”. A violência dos homens na mesma situação bem a conhecemos, e ela é trágica. Mas a das mulheres as vezes pode passar despercebida…

A violência de um homem desprezado bem a conhecemos, e ela é trágica. E para essas mulheres já existem sistemas de suporte. Minha frase se referia apenas ao fato de que é natural um homem ser desprezado por uma mulher em um baile, num pedido para sair, numa abordagem qualquer. Para um homem comum isso não é uma desonra. Levar um “não”, “estou cansada”, “sai pirralho”, “vai te criar”, “estou conversando com minhas amigas”, etc… é natural. A imensa e gigantesca maioria dos homens civilizados bota isso na conta da ousadia. “Se colar, colou. Se não der certo, vamos para a próxima“.

Entretanto, as mulheres não tem esse treinamento de milênios oferecido pelo modelo patriarcal. Eles não sabem levar “não”. Ficam contidas e se sentem humilhadas. O problema é que a revolução feminina colocou no “mercado” milhões de mulheres que acham que tem o (justo) direito de tomar a iniciativa. Tiram para dançar e até se oferecem sexualmente. Todavia, não estão ainda preparadas (como nós) a receber um rechaço por suas investidas. Ficam indignadas e, primeira atitude, desqualificam o sujeito. “Bixa“, “frouxo“, “fraco“, etc. Maior ainda é a maledicência sutil e insidiosa que vai ocorrer depois. As mulheres, se quiserem ser livres a ponto de se tornarem “caçadoras”, precisam se adaptar ao fato de que nem sempre a flecha atinge o alvo.

E a culpa não é do alvo.

PS: Eu sei que homens matam mulheres por serem desprezados, por ciúmes, por se sentirem abandonados. Sei que esse problema é muito maior. Entretanto, o fato de haver uma guerra na Síria não me impede de questionar o aumento no preço da farinha de rosca. Até porque um fato não invalida o outro.

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