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Morte e dor

Ao voltar para casa fomos surpreendidos por uma confusão na esquina próxima de nossa casa. Pensávamos ser um acidente, mas depois de firmar a vista no breu que recém se avizinhava, vimos que um corpo jazia estirado ao lado de uma motocicleta. Minha filha viu uma pistola na mão de um jovem e grita. Sim, um assalto seguido de morte. Desta vez, o ladrão imprudente levou a pior: havia assaltado um policial civil, que reagindo desferiu três tiros mortais à queima-roupa. Estacionei meu carro no meio fio e corri para acudir o jovem esticado no asfalto. Tarde demais; minha pressa apenas me permitiu presenciar seus últimos suspiros. Os olhos revirados, a boca descorada, o rubro do sangue a colorir de dor o piche negro da rua. O pulso já findava, enquanto os dedos cor de cera se reviravam. Em vão eu tentava achar o pulsar de alguma artéria que resistisse ao destino trágico. Nada, nada…

Ao meu lado o policial à paisana explicava os detalhes da abordagem e sua pronta reação. Pediu que eu não me assustasse com a arma que ainda mantinha em punho. Eu entendi sua preocupação e expliquei que era médico, e que o menino aos meus pés estava se esvaindo em sangue.

O jovem não tinha muito mais do que 20 anos. Pardo, da cor da exclusão. No bolso do casaco pouco, uma navalha. Tiro o capacete envolto em sangue e sua cabeça encosta o chão escuro. “Não vai voltar para casa, para sua mãe e sua família. Não vai saber o resultado do jogo de domingo. Não saberá se a menina que ele tanto gosta um dia vai aceitar uma carona em sua moto. Não dará um abraço derradeiro em seu pai, e nem poderá pedir desculpas para o irmão com quem brigou. Um telefonema na entrada da noite avisará a família, que conformada, sequer vai se surpreender. Havia muito que todos se preparavam para uma ligação como esta“.

Um ônibus passa vagarosamente no contrafluxo, de onde um cobrador grita: “Tem mais é que matar!!“. Não me contive e gritei: “Cale a boca, seu animal. Tenha respeito“. Zeza e Bebel fazem coro comigo, com a voz embargada. Ele não me entendeu, e continuou a vociferar como um cão colérico. Nada havia além ódio naqueles gritos. Nenhuma consternação pelo jovem morto, nenhuma ideia de que uma vida acabava de se desfazer de forma estúpida.

O policial, ao contrário do que eu poderia esperar, estava tenso. Sabia que sua ação foi para preservar sua própria vida. O menino da moto estava armado e ameaçante. Não havia o que fazer, era matar ou morrer. Mesmo assim, ele sabia que alguém havia morrido por suas mãos, e seu semblante denunciava este peso.

A polícia chega ao local, e eu desisto de procurar algum sinal de vida no pescoço magro do menino. Ao longe escuto as sirenes da ambulância. A turba de passantes se aproxima para dar vazão à inescapável curiosidade mórbida das massas. Levanto-me, aperto o ombro do menino e digo: “Siga em paz“.

Ao voltar para o carro Zeza e Bebel tremiam ao meu lado; ninguém consegue dizer nada. Mas havia uma revolta, não contra o crime, mas contra a insensibilidade.

Será que ninguém notou que um menino morreu?

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Violência e Catarse

Rhonde x Bethe


Só eu que acho absurdo do ponto de vista estético, psicológico e cultural as lutas de MMA, em especial o espetáculo grotesco (é o meu ponto de vista) das batalhas entre mulheres? Só eu me escandalizo com a publicidade exagerada sobre algo que aos meus olhos não passa de selvageria – exatamente aquilo de que o processo civilizatório tentou se afastar nos últimos 10 mil anos? Só eu acho que as lutadoras parecem homenzinhos castrados, imitando cara, bocas e trejeitos dos seus ídolos másculos?

Existe uma pergunta: por que as mulheres também querem bater e exercer essa violência explícita, assim como os homens sempre fizeram – em razão dos seus papeis sociais milenarmente construidos – durante a construção de nossa civilização? Esse fato é um processo de “liquefação dos limites de gênero” ou um sintoma de desajuste, se entendermos a violência explícita como uma incapacidade de encontrar formas sublimadas de exercê-la?

Eu sei que as mulheres podem fazer tudo, elas tem o direito de fazer o que bem desejam, até imitar os homens em suas violências atávicas. As mulheres agora se identificam com essas lutadoras da mesma forma como os homens se identificam com os ícones testosterônicos de Rambo e Schwarzenegger? Ou são os homens que adoram ver a carnificina entre as mulheres, num duplo curioso com a pornografia? Não se trata de condenar as pessoas que se aproveitam de uma brecha na cultura para fazer valer suas aptidões. Não desejo impor limites às mulheres no sentido de “isso elas não podem por serem delicadas”. Não, não é isso. Quero apenas problematizar e expor minha dúvida. Minha pergunta é se a popularidade do MMA – e em especial as lutas de mulheres – não é o sinalizador de um desequilíbrio, uma doença social.

Seriam estas demonstrações os estertores da sociedade individualista? Ou estaremos valorizando a violência explícita por desprezar algo que a civilização tão penosamente construiu nos últimos milênios?

Futebol pode ser violento, mas não é seu objetivo machucar ou colocar a nocaute. Futebol é balé. Futebol é “quinta dimensão”, é pensar em conjunto, equipe. Mas eu não consigo ver MMA nem de homens. Acho estúpido e selvagem. Sinto uma angústia estranha vendo lutas, uma espécie de identificação atávica. Mas de mulheres acho apenas triste e grotesco. Mas, verdade seja dita, não sinto o mesmo com judô. Este parece civilizado. A arte de Gigoro Kano tem uma filosofia pacifista em sua origem: a neve nos galhos das árvores, a resiliência e o uso da violência do oponente para neutralizá-lo. Sobre chacoalhar os papéis sociais de homens e mulheres pode ser um bom resultado, mas não é o objetivo, assim como queimar Londres num incêndio (ou Barcelona) teve um resultado bom para a estética da cidade, mas não foram feitos para isso. E sobre as “divas” não faço julgamento de mérito, apenas estendi a pergunta: porque as mulheres de hoje são diferentes na sua estética? O que houve com elas e conosco? É uma pergunta, e não uma posição pois, como eu disse, a minha opinião sobre Marilyn ou Rondha é completamente desimportante.

Minha crítica é com a condescendência que desenvolvemos com a violência explícita do UFC. Não é para vencer com a imobilização ou o golpe: é para destruir o outro, partir sua perna ao meio, dar uma joelhada na cara. No MMA o objetivo é produzir o MÁXIMO de dano. Bater o quanto der. Machucar em lugares específicos, que causam mais dor e mais lesão (cerebral, por exemplo). O “estudo” e as “técnicas” são para otimizar o dano ao adversário, jamais para protegê-lo.

Esses lutadores, que nos “divertem” como galos de rinha, encurtam suas vidas e detonam sua saúde. Fazem lesões cerebrais pelos traumatismos repetitivos por anos a fio. Muhammad Ali é um triste exemplo disso ao desenvolver Parkinson muito cedo em sua vida. Vale a pena mesmo tanto sangue?

As lutas sempre foram privilégio dos homens, algo cultivado e venerado pelo universo masculino, em todas as culturas. No mundo primitivo não faria sentido algum as mulheres se engalfinharem com outras(os) e arriscar suas vidas e gestações. Aos homens coube o peso da guerra, e toda a cultura da violência que ela acarretou.

As mulheres podem fazer o que bem desejam, mas por que seria vedado aos homens perguntar as razões? Os papéis masculinos e femininos EXISTEM, e isso é um fato, quer se queira ou não, basta andar na rua para ver que eles existem. Quando se fala em papéis femininos não significa que se deseje que isso seja fixo pela “essência” dos gêneros, mas apenas que se reconheça que a civilização assim os estabeleceu. Eles são mutantes e instáveis, e não mudam com a mesma velocidade em todos os lugares, mas papéis são naturais na estrutura social. Talvez estes papeis que temos na atualidade sejam ruins, mas cabe somente a nós trocá-los. Minha pergunta – mais uma vez – é se fazer as mulheres brigarem entre si como espetáculo é um avanço social ou o sintoma de uma doença…

Entendo o sentido da catarse e, mais do que isso, concordo com essa ideia, mas pergunto se a mudança radical do papel feminino na sociedade a partir dos últimos 40-50 anos – diminuição no número de filhos e entrada triunfal no mercado de trabalho formal – não tenha propiciado a elas as mesmas angústias historicamente destinadas aos homens e, como consequência, a mesma necessidade do lenitivo por eles usado: a catarse coletiva através da violência explícita.

Hoje em dia a violência obstétrica existe de igual forma entre homens e mulheres, os comentários sádicos nas notícias da Internet também. Pena de morte aparece de forma igual ou muito parecida no imaginário de ambos os gêneros. As mulheres se brutalizaram?

Meu medo é que essa mudança retire das mulheres uma característica admirável do universo feminino: a candura e a suavidade. Quando mulheres admiram a violência e a força elas podem deixar de lado a delicadeza. Eu disse “podem”, e não que elas “devem”. E não estou falando das atletas, cuja vida ignoro por completo, mas de quem as venera. Acho que, seguindo o pensamento freudiano, as atletas, o esporte e os ícones (como Rhonda), são a consequência de uma mudança estrutural na sociedade através de uma alteração dos papéis. Elas as lutadoras, são apenas o resultado da transformação do campo simbólico. Os gladiadores foram criados para dar conta de uma necessidade dos homens e, ao que parece, agora também das mulheres.

Não tenho coragem de fazer um julgamento de mérito sobre esse fato. Não sei se isso é bom ou ruim para a civilização, mas creio que ver mulheres tentando destruir a cara uma da outra é chocante e – para mim – preocupante.

Sobre a estética masculinizada das atletas isso é um fato, não uma opinião. Se isso é bom ou mau, bonito ou feio… aí é apenas opinião pessoal e a minha consideração sobre isso só vale para mim. Mas não é essa a questão. O que eu pergunto é a razão disso. Alguém falou que essa americana é “a mulher mais linda do mundo”. Mas compare-se ela com as divas de 50 anos passados – Marilyn Monroe, por exemplo – e me expliquem o que houve com a imagem que cultivamos das mulheres.

Podemos concordar que houve um câmbio impressionante? A brutalidade era uma reserva de mercado masculina, mas agora ela também atinge as mulheres.

Acho que a melhor explicação está longe do “isso é um esporte com regras“. As regras foram sendo retiradas paulatinamente. Se você olha “de fora” percebe a semelhança com o boxe, mas sem os aparatos civilizatórios, como as luvas. As regras existem apenas para evitar as mortes, mas as concussões cerebrais, os desmaios e o os knock-outs são celebrados, quase da mesma forma como eram em Roma imperial.

Para mim MMA é catarse primitiva, mas parece que as mulheres começaram a necessitar deste artifício na modernidade. Mas se há tanta raiva para ser desviada através das lutas (como em Roma – panis et circenses) não existe uma pergunta que precisa ser feita?

Curiosamente, eu convivo com uma pessoa que deplora qualquer violência, mesmo verbal. Para ela qualquer expressão explícita de confronto é ruim, deletéria, desnecessária e aviltante ao sujeito. Ela se parece com um arquétipo de feminilidade, pois está longe de ser apática ou acomodada; apenas não acredita – como Gandhi – na solução de qualquer conflito por meio da agressão.

Feio e bonito são termos que não uso para isso, a não ser para falar de algo absolutamente desimportante: minha própria opinião. Já falamos acima das razões pelas quais criamos o “circo“: a catarse identificatória. Todavia, o que me atraiu em especial foi a novidade. As mulheres se envolveram nessa atividade em função – minha tese – de mudanças sociais e em especial os papéis femininos. Também o capitalismo e sua vertente individualista, mas esse seria um outro tema. Mas, antes que passe batido, “feio e bonito” não são conceitos que me atrevo a abordar. Prefiro entender que, seja horroroso ou sublime, houve uma mudança, e seria bom entender as razões.

Quebrar a cara das pessoas. Qual a ideologia – ou a filosofia – por trás desta “arte”?

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Discutir

Batalha grega 01

Sempre que eu entro em um debate – em especial nas redes sociais – eu me recordo de uma passagem da Odisseia de Homero onde, durante uma batalha que se iniciava, um soldado pergunta ao seu oponente:

“Diga-me antes de lutar se você é humano ou um Deus. Caso seja um Deus, portanto imortal, não perderei meu tempo numa batalha cuja vitória é, por definição, impossível”.

Em muitas discussões nossos argumentos se comportam como “imortais”. De nada importam as evidências e provas que a nós são lançadas. Somos imunes a elas, infensos ao seu poder destrutivo, pois a couraça que nos protege não é construída pelos tijolos frouxos e débeis da razão cambiante e frágil, mas pelo rochedo inexpugnável dos dogmas.

Quando enfrentamos adversários que se comportam dessa maneira, faz-se necessário agir tal qual o bravo soldado heleno e perguntar ao seu oponente:

“Estarias disposto a deixar morrer seus argumentos se a força dos meus lhes for superior? Permitirias que uma nova ordem invadisse teu pensamento à força de um exército de palavras a mudar a tua mente?”

Se a resposta for negativa, afaste-se da luta. Estás diante de um imortal, que permanecerá intocado pelas novas verdades, preso no cimento de seus preconceitos.

Lembre que “discutir” é “sacudir“. Discutir vem do termo latino “discutere“, que deriva de “quatere” (daí a palavra inglesa “quake“, como em “earthquake“) que significa sacudir. Dessa forma, “discutir” significa sacudir alguma coisa com o fim de separá-la. É o mesmo que fazemos quando discutimos: sacudimos as palavras para verificarmos se o argumento é sólido. Quando se discute com outra pessoa presume-se que os argumentos do seu oponente PODEM mudar sua visão de mundo – ou sua opinião sobre aquele assunto específico – desde que sejam coerentes e lógicos. Também é certo que SEUS argumentos poderão modificar a visão seu adversário sobre a questão debatida, desde que sejam igualmente corretos e abrangentes.

Entretanto, se você aprioristicamente se nega a mudar de posição e fecha as portas para uma nova postura então a discussão é absolutamente inútil. Quem se nega a mudar, mesmo com a força dos argumentos, não tem opinião: tem fé, e esta é irracional por definição. Como regra de ouro, “nunca discuta racionalmente com alguém cujos argumentos não forem racionalmente construídos”.

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Amor e Ódio

vendedor

Amor e ódio

Foi num livro de Dale Carnegie que eu entrei em contato pela primeira vez, há mais de 30 anos,  com a questão delicada das expectativas em relação ao trabalho que realizamos.

O texto, de seu célebre livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” escrito em 1936,   mostrava um profissional que oferecia um trabalho muito diferenciado no setor de vendas, com uma qualidade superior, a qual não era oferecida por nenhum dos seus concorrentes. Ao contrário dos seus colegas, fazia avaliações gratuitas depois de entregue o produto, e mais de uma, para cativar a clientela. Entretanto, não se tratava apenas de uma estratégia  para agradar seus fregueses, mas sim de um compromisso ético, algo que fazia para se sentir bem, auxiliando seus clientes com as orientações que ele julgava necessárias. Ele acreditava que a venda de um produto não se esgotava na entrega e no pagamento de uma mercadoria, mas precisava estar conectada com a utilidade, com a fraternidade e com a ideia de ajuda mútua.

Esse vendedor combinava visitar seus clientes depois de um determinado tempo, para ver se estavam se adaptando adequadamente com a nova peça. Fazia isso porque tinha prazer em ver a alegria dos compradores e para constatar o fato de que, mesmo que de forma humilde, havia sido útil para a realização de um sucesso. Entre seus colegas de venda, ninguém seguia seus passos. Acreditavam ser ele um tolo, que perdia seu tempo quando deveria estar planejando e executando novas vendas. Ele, apesar disso, continuava tendo fé na relação que estabelecia com seus clientes, que assim viravam amigos e parceiros. Hoje em dia isso tem um nome: “pós-venda“, mas na época de Dale, primeira metade do século passado, esse mentalidade ainda engatinhava.

Um dia, após fazer uma transação muito difícil, que incluiu inúmeras ligações para a indústria, fornecedores, empresas de transporte marítimo e rodoviário, alfândega e receita ele conseguiu fechar uma venda de uma máquina que resolveria os problemas graves de uma pequena fábrica. Os compradores ficaram agradecidos e ele combinou uma visita para a próxima semana. Entretanto, por problemas pessoais, não pôde comparecer à visita de cortesia que sempre realizava, e fez uma ligação pedindo que o dono da empresa fosse avisado.

No dia seguinte recebeu um telegrama duro, quase ofensivo, dizendo que a visita esperada não se concretizou e por isso estavam profundamente decepcionados com a venda. A mensagem terminava com um adeus severo, deixando claro que não mais fariam negócios com a empresa deste vendedor.

A questão que martirizava o nosso vendedor era: por que a conexão tão fácil e rápida entre amor e ódio? Por que o seu trabalho exemplar não foi reconhecido, e uma “falha” (era uma questão de saúde) humana cometida não foi perdoada? O que acabou faltando na sua venda foi exatamente aquilo que ninguém mais oferecia, apenas ele.  Por qual razão algo que era oferecido graciosamente foi considerado essencial para o julgamento do seu trabalho?

A única explicação que posso oferecer é de que o vendedor feriu algo de muito sensível para seus clientes: a expectativa.

Os compradores esperavam pouco dos outros vendedores. Sabiam o que poderiam receber. Tinham uma expectativa baixa em relação ao tipo de serviço oferecido. Nosso herói, entretanto, tinha a fama de oferecer um “plus”, algo diferenciado. Quando isso não veio, sentiram-se roubados de algo que, mesmo não sendo uma vantagem prometida ou compactuada, era conhecida por eles.

Quando se frustrou a expectativa, sobreveio o ressentimento.

Lembrei disso quando, há alguns meses, uma paciente – cujo parto natural foi uma grande vitória para todos nós em função dos inúmeros incidentes que o cercaram – queixou-se de maneira explícita e dura de pequenos detalhes que circundaram o nascimento do seu filho. Sentiu-se desconsiderada e magoada; ferida e ressentida. Ao invés de reconhecer o extremo esforço e dedicação oferecidos para garantir um parto empoderador ela preferiu fixar-se num detalhe absolutamente desimportante sob todos os aspectos.

Mas qual a razão disso?

Bem, não me cabe julgar suas razões por estar frustrada. “Cada um sabe a dor que carrega, a tristeza que sente e a mágoa que o corrói“, já me dizia um ébrio, mas perspicaz, Max. Deve haver razões suas, inexpugnáveis para mim, que justifiquem esse dissabor. Entretanto, muito do que ela me falou diz respeito à falha que tivemos em relação a tornar suas expectativas mais realistas. Não fôssemos tão dedicados à sua assistência e talvez os detalhes não ficassem tão evidentes. Tivéssemos agido como todos e nada disso apareceria. A fantasia de parto que ela sonhou não recebeu um contraponto de realidade de nossa parte: ela continuou acreditando que seu parto seria absolutamente isento de qualquer falha humana.

Quem trabalha com esse tipo de evento, como o nascimento humanizado, precisa estar atento a estes desafios. É importante educar os pacientes para que tenham metas factíveis, e que não esperem milagres dos profissionais. Cuidar de alguém também é preservar suas emoções, agindo profilaticamente em relação aos seus sentimentos.

Manter níveis de expectativas adequados e realistas  para as gestantes e seus companheiros é um dos mais importantes itens do pré-natal.

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Madre Teresa

Mother-Teresa

Há alguns minutos Madre Teresa de Calcutá apareceu na minha frente para conversar comigo. Era um pedido que há muito tempo eu fazia: “uma aparição, uma visão”, para que eu pudesse comunicar a ela meus dissabores. Pois eu fui finalmente agraciado com a materialização que ocorreu aqui, na minha frente.

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, a beata de Calcutá, vestia seu hábito de freira e tinha o corpo encarquilhado que costumamos reconhecer. Sua face enrugada e sua compleição pequena a tornavam inconfundível. Não podia ser um engano, e disso eu estava certo. Se você acha que isso não é verdade, pode parar de ler por aqui mesmo.

Quando a vi resolvi que era o momento de dizer a ela algumas verdades que estavam entaladas em a minha garganta e que eu pretendia dizer há muito tempo, mas nunca tinha tido a oportunidade. Esta chance chegou, finalmente, agora…

– Sra. Teresa, muito me impressiona o fato de ser tão reverenciada pelas suas ações “ditas humanizadas”. Não que sejam vazias ou inúteis, pois posso reconhecer virtude em tais atitudes. Entretanto acredito que elas, na verdade, escondem preconceito e desconsideração. Sim, se puder me escutar falarei o que tenho guardado em meu coração, mesmo que isso possa lhe ferir.

A velhinha apenas levantou a sobrancelha esquerda e continuou a me fitar de longe.

– Continuando, a senhora ajudou centenas de crianças na Índia, o que a fez merecedora do Prêmio Nobel, o que é algo que reconheço ter valor. Porém eu lhe pergunto: porque este elitismo? O que a senhora fez pelas crianças negras da Nigéria? E as crianças vítimas de Napalm no Vietnã? Qual foi sua ação para interromper a guerra que lá ocorria? Qual sua atitude para acabar com o Apartheid? Por que a senhora dedicou-se a uma determinada etnia e desprezou as outras? Por acaso as crianças indianas são melhores do que as demais? Mais limpas, mais dóceis? Ou existem questões financeiras envolvidas? Veja, não estou lhe acusando de nada, mas eu percebo um mercantilismo em suas ações, uma falta de verdadeira fraternidade, e um desejo de ajudar apenas as pessoas que a idolatram. Isso não é exatamente cristão, não lhe parece?

Madre Teresa continuava olhando para mim fixamente e não moveu um músculo sequer além do leve golpe de sobrancelha anteriormente citado. Seu rosto era calmo e sereno, como a tentar entender as razões da minha inconformidade.

Continuei.

– Tudo o que vejo na sua obra é para aqueles que a senhora considera os escolhidos. Pão, afagos, roupas quentes e abrigo. Mas e os que moram longe? E os que estão em outros países? Como a senhora aceita que apenas alguns sejam beneficiários de seu amor e compaixão, enquanto tantos outros sucumbem à dor e à miséria? Como pode manter essa face inexpressiva diante de tanta desconsideração com o que deixou de fazer por tanta gente?

Mantive meu olhar censurador e firme, não me deixando fraquejar pela doçura e calma de sua expressão.

– Olhe bem…. não sou dessa área. A caridade não é uma coisa que me mobiliza ou comove. Prefiro trabalhar aqui, atendendo partos e ajudando algumas poucas gestantes. Mas a senhora poderia ter feito muito mais, mas preferiu ser a “Madre de Calcutá” quando o mundo inteiro estava sequioso de ajuda, de afeto, de uma mão amiga, pessoas estas que a senhora se negou a ajudar por querer se manter apenas nesta cidade. De nada adianta me dizer os lugares que a senhora visitou e nos quais abriu filiais de sua Congregação “Missionárias da Caridade”, pois muito maior será a quantidade de cidades e vilarejos que a senhora NÃO visitou, deixando tais pessoas à própria sorte, à mercê da vilania do mundo.

Meu final foi apoteótico:

– Muito triste ver o que a senhora fez com os seus ideais…

A humilde senhora finalmente se levantou. Deus dois passos tímidos em minha direção. Colocou as mãos sobre o colo e de forma suave e lenta… sorriu. Pegou em minhas mãos e juntou-as com as suas. Olhou firmemente em meus olhos e disse uma única frase:

Faça diferença para aqueles que te procuram, ofereça o afago para todos ao teu redor e o perdão para quem não te entender, e para o resto procure exercitar a paciência“.

Largou minhas mãos, sorriu e caminhou em direção à porta.

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Amicus Plato

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“Amicus Plato, sed magis amica veritas”

(Sou amigo de Platão, mas amo ainda mais a verdade.) Aristóteles

É por vezes difícil e desafiador reconhecer os valores mais profundos embutidos em nossas atitudes e no nosso discurso. Por vezes nos deixamos ofuscar pelo brilho das teses que defendemos sem nos dar conta de que, por baixo da tela fúlgida que encobre o que ardorosamente defendemos, existe uma questão filosófica mais ampla e complexa. A liberdade de falarem o que não me agrada é um assunto que sempre tomei como “sagrado”, assim como o direito ao contraditório, a busca de pluralidade nas expressões, a liberdade garantida e a resiliência para suportar opiniões contrárias. Desta forma, também considero essencial a necessidade de devolver as agressões com argumentos e não com violência. Quando tratamos das teses humanistas do nascimento é importante ter em mente que para combater o excesso de cesarianas é essencial que fundamentemos nossa causa com ideias e argumentos, e não com agressões e xingamentos. Para a defesa das minorias nossa postura não pode se afastar desse mesmo ideário: devemos utilizar a argumentação embasada na fraternidade e nos ideais humanísticos, sem cair na tentação de usar as mesmas armas cerceadoras daqueles que nos atacam.

A violência cometida contra as nossas opiniões é mais grave por ferir o direito de livre expressão do que por atacar algo que a medicina baseada em evidências comprova como sendo lícito, adequado e até mesmo benéfico. A humanização do nascimento é passível de debate, com profusão de argumentos livremente expressos de ambos os lados. Aliás, essa é a solicitação veemente que fazem os defensores destas ideias: um debate plural, cientificamente embasado e livre sobre a assistência ao nascimento. Entretanto, é fundamental para isso que tenhamos as garantias que o estado de direito oferece aos cidadãos: a certeza de que suas opiniões possam ser expressas sem coerção ou constrangimento.

Posso não concordar com um colega que defenda “cesarianas para todos”, mas não ousaria impedi-lo de manifestar suas teses e seus argumentos. Sem isso teremos uma situação grave, exatamente por agredir um dos preceitos fundamentais das democracias modernas: a liberdade de falar o que os alguns não querem ouvir.

Numa sociedade livre tal preceito está acima de qualquer consideração.

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O Outro

espelho-magico

Venho por meio dessa singela mensagem prestar uma homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida, a qual me mostrou os caminhos a seguir, minhas limitações, virtudes, defeitos e capacidades escondidas.

Minha eterna gratidão ao …. Outro.

Sem o Outro jamais teria a mais tênue noção de quem sou, nem a menor possibilidade de me situar no universo. Sem ele eu jamais compraria uma camisa nova, e nem pentearia meus poucos cabelos. Se não fosse pelo Outro jamais teria estudado ou me aperfeiçoado, e nem tentaria eliminar os constrangedores buracos negros da minha educação. O Outro me ensinou (e continua agindo assim) todos os dias a me comportar nas mais diferentes situações, garantindo que todo avanço é seguido de uma força contrária em sentido oposto. Sem o Outro eu seria um perfeito idiota, incapaz de me situar no mundo.

Nem um milhão de anos seriam suficientes para agradecer a você, Outro, o quanto me ajuda a transitar pelo mundo de forma positiva. Seus conselhos, sua ajuda incondicional, seus “toques” e dicas, seus puxões de orelha me ajudaram a ficar de pé até agora.

Sem você minha vida não teria nenhum sentido e nenhum futuro. Você é o espelho que olho todos os dias para seguir caminhando. Você me construiu, fez o que sou, me moldou e me nomeou. Você me define.

Obrigado, Outro.

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Privilégios

privilegio

Para aqueles que adoram exaltar suas próprias virtudes, talentos e qualidades, as quais surgiram do seu valor pessoal e do seu esforço solitário preciso declarar que:

O meio foi SUPER, HIPER, MEGA benevolente comigo, por TODA a minha vida. Faço parte da camada mais privilegiada desse país, e estou no TOP 2% do planeta. Sou um ENDIVIDADO com as circunstâncias que fizeram o que sou. Anotem aí apenas 10 benesses que gratuitamente recebi da vida:

  1. Sou branco e homem
  2. Heterossexual (juro!)
  3. Nasci na classe média
  4. Tive irmãos maravilhosos
  5. Estudei em escolas próximas da minha casa e nunca me faltou um livro, uma caneta ou um caderno.
  6. Conheci meus avós
  7. Tive uma mãe maravilhosa
  8. Tive um pai filósofo e erudito
  9. Fiz uma faculdade PAGA por VOCÊ, e mais alguns milhões de brasileiros.
  10. Casei jovem com uma mulher espetacular, e por pura sorte… Também por pura sorte meus filhos se espelharam nas virtudes da mãe…

Nada do que está escrito aqui consegui por talento ou muito esforço. Tudo isso eu GANHEI da vida. Por isso me sinto devedor da enormidade de privilégios que cercam os burgueses brancos e heterossexuais como eu.

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Responsabilidade e Culpa

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Uma das confusões mais comuns que vejo no mundo das redes sociais é entre os conceitos de “responsabilidade” e “culpa“. Isso gera discussões e até exclusões, como muitos já foram vítimas. Por isso creio ser importante clarificar o que estes termos pretendem, para que fiquem bem assimilados.

Podemos dizer que os negros não tiveram culpa pela escravidão, e nem os gays pela exclusão e preconceito. Nenhuma dessas condições é feita por escolha do sujeito. Entretanto, é responsabilidade dos negros e dos gays mudar sua realidade. Ninguém vai carregá-los no colo, o que seria estúpido e indigno. Somente eles podem protagonizar suas lutas e sua busca por espaço e reconhecimento. Esse protagonismo é deles.

Isso não implica que sujeitos como eu, branco e heterossexual, não possam ser estimuladores de uma nova realidade inclusiva para negros e homossexuais. Faz parte das nossas tarefas eliminar as diferenças possíveis. O mesmo pode ser dito das lutas femininas e em especial pela dignificação do Parto. Não é culpa delas a situação objetualizante e coisificante, mas é responsabilidade delas – com o auxílio de todos nós – a retomada do protagonismo.

Espero que isso ajude a descomplicar esta confusão semântica.

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Profundo e Sagrado

“As doulas representam para o mundo contemporâneo o resgate da mais profunda das relações humanas aplicada ao mais sagrado dos rituais de passagem: a solidariedade e o apoio no auxílio incondicional a quem vai parir.”

Quando eu vejo as manifestações raivosas de colegas em relação às medidas que estão sendo tomadas no Brasil em resposta aos descaminhos do nascimento (cesarianas em excesso, intervencionismo, práticas defasadas, etc…) eu penso que a medicina precisa ser “doulada” para passar por esta crise. Sempre que eu vejo uma manifestação de puro ódio e violência contra o que propomos (ou contra mim mesmo) tento imaginar o que eu diria para estas pessoas se elas fossem meus filhos, cuja raiva se insere num contexto inevitável de passagem pela crise da adolescência. Certamente que jamais responderia com a mesma agressividade da qual somos vítimas; a resposta só poderá vir pela via da compreensão e do diálogo.

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