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O Papel do Artista

Jerry Seinfeld

O comediante americano Jerry Seinfeld uma vez foi perguntado sobre a razão de ter terminado seu programa no auge da popularidade, quebrando recordes de audiência e sendo o programa mais visto na TV americana. Quando houve o anúncio do fim da “sitcom” até o presidente americano na época, Bill Clinton, solicitou a sua manutenção por pelo menos mais um ano. Apesar de todos os pedidos ele se manteve firma na ideia de terminar este trabalho depois de 9 temporadas de extremo sucesso.

Vou dar aqui a minha interpretação pessoal da sua resposta, já que não recordo das suas palavras exatas. Entretanto, as explicações que ele deu sempre fizeram muito sentido para mim no que diz respeito às ações que os indivíduos produzem para mudar a sociedade em que vivem, em especial nas pressões que tais sujeitos sofrem do entorno.

Ele explicou assim as razões para o fim de “Seinfeld”:

Aprendi com o stand up que você deve parar exatamente neste ponto, quando as pessoas saem de sua apresentação com o riso ainda nos lábios e o desejo de que o show continue. Insistir para além desse ponto é oferecer para as pessoas uma ilusão: a satisfação de seus desejos.

As necessidades podem ser supridas pelo homem, os desejos jamais. Por necessidades básicas entendo comer, beber, dormir, amar e reproduzir-se, e isso podemos oferecer como fundamento para a vida humana. Para além disso temos os desejos, que vão da mulher mais bonita ou o homem mais forte até os mais sofisticados “gadgets” tecnológicos. Estes desejos são, por definição, impossíveis de suprir. Para cada patamar alcançado desejamos mais, e mais, e mais… indefinidamente.

O entrevistador então questionou: “Mas não achas que o desejo das pessoas deve ser satisfeito? Todos queriam que o show continuasse. Ele fazia sucesso, era famoso, trazia alegria a todos. Porque parar diante de tantas conquistas? Porque resistir ao pedido sincero de tantas pessoas que amavam seu trabalho?

Jerry respondeu:

Acima de tudo eu acho que nunca devemos dar o que as pessoas querem. Esse não é o papel do artista. Você deve dar o que VOCÊ acha melhor, as suas ideias, sua arte, seu talento e seu esforço. As pessoas devem segui-lo se assim o desejarem, ou esquecê-lo, se assim for justo. Entretanto, jamais o verdadeiro artista deve entregar às pessoas o que estas lhe pedem.

O reverso dessa postura é o fracasso criativo, mesmo que haja um relativo e efêmero sucesso nas audiências menos exigentes. Quando o artista canta o que o público quer ouvir ele fracassa no seu intento renovador e revolucionário. Quando o ideólogo fala o que todos querem escutar ele falha na sua tarefa de sacudir ideias e conceitos. Quando o ativista caça desesperadamente o afeto de seus seguidores, por medo de decepcioná-los, estará falhando em sua tarefa de despertar mentes e estremecer a cultura.

Nietzsche já nos ensinava que o verdadeiro gênio só é reconhecido um século depois de sua morte. Para quê tanta pressa em ser amado e admirado?

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Alma

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“É exatamente no momento em ela se mostra na radicalidade do feminino levado ao extremo, quando o corpo se enche de alma e suplanta sua arquitetura de carne e veias, é que surge o ponto cego, o significado obscuro, misterioso e incompreensível para aqueles que assumem a visão tecnocrática do parto.”

Jamais entenderão.

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Bruma

A bruma que percorre a humanização do nascimento é feita da névoa da transcendência. Por indefinível, enquanto sopro, e imaterial, enquanto ideia, ainda assim é tão verdadeira e presente quanto a brisa e a paixão. Sem ela, aqui definida como o olhar que percebe o que se esconde atrás do véu das aparentes banalidades da vida, não há como entender o gozo que se instala no corpo em dor, o trinar dos dentes em falsa agonia, o suor que brota no músculo retesado, a lágrima salgada, a boca ressecada, o corpo que se projeta e a mão que se fecha.

Sem levantar o manto que encobre a essência simbólica e espiritual de um nascimento tudo é apenas real, e o real é a mais falsa de todas as verdades.

Sem a transcendência não é possível captar sua dimensão.

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Pena de Morte

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Para além das questões éticas e humanas, a pena de morte é burra e estúpida. O assassínio patrocinado pelo estado é absolutamente ineficiente para educar ou coibir. Se a pena de morte funcionasse teríamos uma diminuição significativa de crimes e assassinatos nos lugares onde ela existe, mesmo no Brasil. Sim, porque a pena capital existe no nosso país, apenas não é legalizada. Nas favelas, comunidades e bolsões de pobreza impera esta pena entre as facções do tráfico. Matam-se uns aos outros por penas impostas por eles mesmos. Fosse a morte decretada um anteparo ao crime e reinaria a paz nos domínios do tráfico. Não é o que se vê. Uma porcentagem significativa das mortes em nosso meio são decorrentes da ilegalidade oportunista deste comércio. Sair matando bandidos nunca ofereceu qualquer vantagem e jamais nos conferiu mais segurança.

A morte é IGUAL para quem morreu, tenha sido este assassinato cometido pelo governo ou por outros grupos. Portanto, do ponto de vista de quem teme, ser morto pelo Estado ou pela facção rival dá no mesmo. Pior: a morte pelos grupos paralelos tem julgamento sumário e você não tem defesa, e isso deveria te causar muito mais medo e muito mais cuidado. Pois não ocorre nada disso, e as agressões entre os grupos em disputa por pontos continuam, como se a própria morte fosse apenas um detalhe. Por isso mesmo que a pena de morte não faz diferença alguma para coibir o crime. Os bandidões do velho oeste já diziam isso no tempo do Jake Grandão: “Posso matar quantos eu quiser, mas só conseguem me matar uma vez“.

O Estado precisa ser o condutor da civilidade. Não se admite que ele esteja não animalizado quanto às pessoas a quem procura educar e proteger. Um Estado matador é medieval e inaceitável, sem falar que os sujeitos que caem nas garras desse governo vingativo são os mesmos grupos de sempre: pretos, pobres, miseráveis, inimigos políticos, etc…

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Coligay

Coligay

Para todos que me perguntam se era verdade, aqui está a prova documentada no livro de Leo Gerchmann. Houve um tempo, há 35 anos, que não havia homofobia no futebol. Existia uma torcida alegre, “gay”, assumidamente gremista e que circulava no estádio sem nenhum constrangimento. Essa era a Coligay, mistura de “Coli”, da boate gay Coliseu que havia na cidade e “Gay” que vem do fato de serem…. alegres. Isso acabou, e uma torcida assim em qualquer canto do Brasil seria repudiada pelos homófobos, muitos deles – como Freud ensinou – nada mais do que “meninas que tem medo de seus próprios impulsos”. Mas como explicar essa mudança radical, para o lado oposto do que se imaginaria pela sofisticação da cultura, em direção ao preconceito e à intolerância?

A “culpa”, ao meu ver é da própria conscientização da comunidade gay. Quando o “homossexualismo” caducou e deu origem à homossexualidade, deixando os manicômios e consultórios para ocupar as casas e ruas, a antiga “doença” deixou de existir, dando lugar a uma simples variação da infinita diversidade da orientação sexual humana. Sendo assim, o que era patologia virou comportamento, fazendo com que todos nós estivéssemos sujeitos a ele, e não apenas os “pederastas”, degenerados e doentes. A partir desse novo conceito a homossexualidade virou uma ameaça para o cidadão comum. Ninguém estava livre de que alguém descobrisse um pensamento, um desejo escondido ou uma vontade inconfessa. A masculinidade precisava ser constantemente provada, nem que para isso fosse necessário usar da nossa costumeira brutalidade testosterônica. Era preciso exorcizar tal perigo, uma ameaça terrível à nossa persona social. E qual seria a melhor forma de se livrar desse peso?

Ora, expurgando e negando os desejos, jogando-os no outro. Os outros. A torcida adversária, os gaymistas, os coloridos, as Marias, as frangas, os pó de arroz, bambies, etc. A liberação dos costumes e a aceitação da homossexualidade como uma orientação de objeto sexual deixou-nos a todos inseguros. Este pânico, em especial nos jovens que frequentam futebol, manifestou-se como flagrante sentimento homofóbico.

Eu sonho com o dia em que renasça a Coligay, e juro por Alah que no dia que ela aparecer no estádio estarei ao lado, seja para torcer alegremente ou para fazer um círculo de proteção aos gays que desejam expressar seu amor pelo time do coração. Sei que Bebel, minha filha, estará lá comigo. Talvez esse dia, em que ultrapassarmos o preconceito e a miséria humana, nem esteja tão longe de acontecer. Será uma data memorável, e queria muito que meu time fosse, mais uma vez, pioneiro.

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Fogo Fátuo

Palavras que Max me passou por telefone, enquanto discutíamos a infinita criatividade de alguns críticos das últimas medidas governamentais sobre as cesarianas abusivas.

“Quando os detratores de uma ideia precisam apelar para o destempero das mentiras é porque sua causa já está perdida há muito tempo, e o que ainda se escuta e lê de seus defensores é apenas o fogo fátuo, eflúvios gasosos dos corpos em putrefação.”

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Novelas e Cesarianas

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Na novela das oito (que não começa nesse horário há uns 20 anos) uma cesariana vai salvar uma vida (ou duas), mantendo no imaginário popular a falácia da segurança e da qualidade superior das intervenções sobre o parto.

Uma cultura se faz dessa forma. As novelas para o brasileiro são como os filmes e seriados para os americanos. O que se diz ali recebe uma marca de validação cultural, um “selo de verdade”, que será deglutido facilmente pelo telespectador. Sim, as verdades novelísticas não tem “osso nem casca”, portanto passam sem dificuldade pela garganta do consumidor. Uma lástima que isso ocorra exatamente agora, quando estão cada vez mais intensas as campanha governamentais a respeito dos perigos decorrentes da banalização da cesariana.

Quando eu vejo estas cenas logo me vem à memória o filme dos Monty Python de 1982 debochando da violência obstétrica – The Miracle of Birth – e percebo que há exatos 32 anos passados eles já percebiam o poder da mídia para – através do humor – estimular importantes transformações sociais. A Inglaterra pôde fazer sua grande virada na atenção obstétrica de agora porque há mais de três décadas plantou no coração de seus cidadãos a semente da indignação contra as práticas obstétricas agressivas, defasadas e que não levavam em consideração o desejo da mulher. Enquanto isso nós ainda mantemos o status-quo: um parto controlado por especialistas, mulheres sem autonomia e altas taxas de intervenção. Muito bom para os poderosos que controlam o nascimento, mas péssimo para mães e bebês, que continuam a pagar esta conta.

Mais uma vez a TV Globo atrapalha as conquistas da sociedade civil. Os que pensam na saúde das mulheres e seus bebês terão uma cota extra de mitos para desfazer.

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Consolo

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“O grande consolo que nos resta é, quando a escuridão se faz silêncio e nenhuma luz desponta no horizonte, olhar para trás e perceber que sua trajetória não foi em vão, e os que vierem depois de ti saberão o caminho acompanhando tuas pegadas.”

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Natal é Parto

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Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o “amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out… a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e amparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.

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Crenças e Descrenças

Bertrand Russell, 1951

Eu sou um crente da descrença. Mas tenho profundo respeito por tudo que porventura exista fora desse pequeno aquário a que chamamos de “realidade palpável”. Assumir sua própria ignorância e respeitá-la nos ajuda a colocar freios na insistente onipotência. Mas, não enxergo nenhum raio de luz nenhuma aura, nenhum Espírito me sussurra. Talvez minha cegueira tenha alguma função, mesmo que eu não entenda. Quiçá seja apenas manter-me atento ao mundo deste lado.

Ter ou não ter “chip para acreditar” não é uma escolha racional, e sequer é uma “escolha”. É como orientação sexual. Não adianta virem me explicar as belezas masculinas; sou um heterossexual incurável. Quanto às crenças digo o mesmo que pensava Bertrand Russell: a ciência mostra o que pode ser visto, mas não é capaz de negar o invisível. Como ele mesmo diz: “A ciência nos diz o que podemos saber, mas o que podemos saber é pouco, e se esquecermos o quanto nós não podemos saber acabamos por nos tornar insensíveis a muitas coisas de grande importância.” (A História da Filosofia Ocidental).

Creio no sentido último do Universo, um princípio geral e impreciso, mas que acalma minhas angústias existenciais. Qualquer coisa abaixo disso não faz muito sentido para mim. Sei que minha crença em um princípio unificador é apenas isso: algo que – estimulado por Pascal – “prefiro acreditar”, mas não acho justo ser acusado de místico, pois essa crença está aquém de qualquer análise da razão. Creio porque assim minha vida e meus sofrimentos parecem ter sentido.

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