Arquivo da categoria: Pensamentos

Novelas e Cesarianas

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Na novela das oito (que não começa nesse horário há uns 20 anos) uma cesariana vai salvar uma vida (ou duas), mantendo no imaginário popular a falácia da segurança e da qualidade superior das intervenções sobre o parto.

Uma cultura se faz dessa forma. As novelas para o brasileiro são como os filmes e seriados para os americanos. O que se diz ali recebe uma marca de validação cultural, um “selo de verdade”, que será deglutido facilmente pelo telespectador. Sim, as verdades novelísticas não tem “osso nem casca”, portanto passam sem dificuldade pela garganta do consumidor. Uma lástima que isso ocorra exatamente agora, quando estão cada vez mais intensas as campanha governamentais a respeito dos perigos decorrentes da banalização da cesariana.

Quando eu vejo estas cenas logo me vem à memória o filme dos Monty Python de 1982 debochando da violência obstétrica – The Miracle of Birth – e percebo que há exatos 32 anos passados eles já percebiam o poder da mídia para – através do humor – estimular importantes transformações sociais. A Inglaterra pôde fazer sua grande virada na atenção obstétrica de agora porque há mais de três décadas plantou no coração de seus cidadãos a semente da indignação contra as práticas obstétricas agressivas, defasadas e que não levavam em consideração o desejo da mulher. Enquanto isso nós ainda mantemos o status-quo: um parto controlado por especialistas, mulheres sem autonomia e altas taxas de intervenção. Muito bom para os poderosos que controlam o nascimento, mas péssimo para mães e bebês, que continuam a pagar esta conta.

Mais uma vez a TV Globo atrapalha as conquistas da sociedade civil. Os que pensam na saúde das mulheres e seus bebês terão uma cota extra de mitos para desfazer.

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Consolo

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“O grande consolo que nos resta é, quando a escuridão se faz silêncio e nenhuma luz desponta no horizonte, olhar para trás e perceber que sua trajetória não foi em vão, e os que vierem depois de ti saberão o caminho acompanhando tuas pegadas.”

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Natal é Parto

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Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o “amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out… a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e amparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.

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Crenças e Descrenças

Bertrand Russell, 1951

Eu sou um crente da descrença. Mas tenho profundo respeito por tudo que porventura exista fora desse pequeno aquário a que chamamos de “realidade palpável”. Assumir sua própria ignorância e respeitá-la nos ajuda a colocar freios na insistente onipotência. Mas, não enxergo nenhum raio de luz nenhuma aura, nenhum Espírito me sussurra. Talvez minha cegueira tenha alguma função, mesmo que eu não entenda. Quiçá seja apenas manter-me atento ao mundo deste lado.

Ter ou não ter “chip para acreditar” não é uma escolha racional, e sequer é uma “escolha”. É como orientação sexual. Não adianta virem me explicar as belezas masculinas; sou um heterossexual incurável. Quanto às crenças digo o mesmo que pensava Bertrand Russell: a ciência mostra o que pode ser visto, mas não é capaz de negar o invisível. Como ele mesmo diz: “A ciência nos diz o que podemos saber, mas o que podemos saber é pouco, e se esquecermos o quanto nós não podemos saber acabamos por nos tornar insensíveis a muitas coisas de grande importância.” (A História da Filosofia Ocidental).

Creio no sentido último do Universo, um princípio geral e impreciso, mas que acalma minhas angústias existenciais. Qualquer coisa abaixo disso não faz muito sentido para mim. Sei que minha crença em um princípio unificador é apenas isso: algo que – estimulado por Pascal – “prefiro acreditar”, mas não acho justo ser acusado de místico, pois essa crença está aquém de qualquer análise da razão. Creio porque assim minha vida e meus sofrimentos parecem ter sentido.

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Defensoras da Mulher

Associacao Portuguesa

Para as companheiras da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gestação e Parto.

“A integridade e dignidade de uma nação se mede pela proteção que oferece aos mais frágeis. Proteger as mulheres no sagrado tempo da espera e do êxtase pela nova vida é a missão nobre que cada um de nós carrega no coração, pois, ainda que apenas elas tenham a condição de gestar em seu ventre, somos todos nascidos de mulher, e carregamos por toda a existência a dívida com o feminino e o respeito com o milagre através do qual recebemos a vida.”

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Desamor Canino

Cão

O ano de 2014 – eu me dei conta agora – foi um dos mais difíceis da minha vida. Resta esperar que 2015 seja mais suave.

Mais de 2015 eu já aprendi uma lição: Jamais espere que alguém possa lhe perdoar por algo que você não fez. Fico pensando em algumas pessoas que explicitamente me detestam e tento me lembrar algo de rude, torpe ou grosseiro que tenha feito… e, por mais que honestamente tente recordar, não lembro de nada. Nenhuma atitude verdadeiramente má me vem à mente, até porque a própria distância impediria ou dificultaria isso. Pior, algumas dessas pessoas (sim, várias) foram sempre alvo de elogios sinceros e de admiração que – me obrigo a confessar – continuam válidos inclusive agora, quando os laços de amizade foram definitivamente desfeitos.

Todo mundo, eu acho, já passou por isso. Uma coleguinha na escola, um professor, um integrante da turma de amigos, um colega de escritório ou a sogra, um desconhecido no trânsito, um chefe, um motorista de táxi ou uma menina bonita… que não vai com a sua cara. Nada importa o que você fez ou venha a fazer: você está condenado a ser desconsiderado e, se bobear, odiado eternamente.

A questão central, e a mais difícil de entender, é a unilateralidade. Um problema semelhante, mas diferente nas consequências, é quando os desafetos se relacionam com as “santidades“. Isto é: quando ambos os sujeitos confessam suas mútuas malquerências com a famosa expressão: “nossos santos não batem“. Bem, ainda aqui ao menos existe a reciprocidade; a raiva e os sentimentos negativos são compartidos entre ambos. Para estes casos, quando possível, o melhor é um simples distanciamento.

Todavia, existe um modelo muito mais doloroso, o qual chamo de “desafeto canino”. Acreditem, este é bem pior. Existem pessoas que odeiam os cães, os maltratam, desprezam, chutam, deixam passar fome, mas o pobre cão não passa a lhe odiar por causa disso. Ele está lá, sempre olhando, admirando e o considerando alto, forte e vigoroso, sem ter qualquer noção do que leva você a tratá-lo tão mal. Ele o admira e ama, apesar de você desprezá-lo.

Esta é a tristeza do modelo canino: não se trata de algo que o cachorro fez ou deixou de fazer. Ele pode ter os esfíncteres mais educados do mundo, o latido mais gentil, o ferormônio menos ofensivo, e mesmo assim ser maltratado. A verdade é que a sua própria condição canina é o que obstaculiza, e por vezes impede, o afeto.

Desgraçadamente ele não pode, sob pena de desaparecer, deixar de ser cão. É da sua essência, imutável, eterna. Ele está condenado a ser desamado por você.

Para nós humanos, que sofremos no desamor canino, o que sobra é a brutal sensação de impotência ao perceber que a desafeição nunca foi fundada em algo que realmente fizemos, algum ato de desprezo, desconsideração ou maledicência. Não… o desamor vem porque representamos algo, ocupamos um lugar subjetivo, pessoal, inconsciente e independente de fatos objetivos que pautam qualquer relação. Não foi algo que fizemos, mas algo que “somos”. E sobre quem somos, para o imaginário daquelas pessoas, não há nada que se possa fazer.

Podemos apenas lamentar e nos entristecer, mantendo a esperança que um dia  possamos ser vistos com olhos mais condescendentes.

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A gente não quer só comida

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Esse pensamento que li alhures me fez pensar:

“Talvez não devêssemos pensar porque os alimentos orgânicos custam tão caro, mas porque os industrializados custam tão barato”.

Um questionamento razoável seria: porque os partos industrializados pagam tão mal e custam tão pouco para o sistema, e os nascimentos “artesanais”, em contrapartida, são necessariamente mais caros?

Faz sentido?

Ser tratado como um objeto em uma esteira de montagem, como de forma genial preconizou Henry Ford, tinha exatamente esta intenção: baratear os custos e maximizar os lucros. Uma cesariana em hospital faz o “produto” bebê ter um custo de produção muito menor, assim como a couve, a soja, o arroz e o milho tratados como agronegócio. Olhar para o nascimento como negócio e bebês como “mercadoria” nos levaria inevitavelmente para esta crise com que nos deparamos hoje.

Industrializando-se a vida como um todo teremos custos menores, e…. produtos piores. Não seria melhor questionarmos as vantagens de uma abordagem mais subjetiva para a comida e o parto, retirando-os da lógica capitalista e produtiva, e estabelecendo uma nova postura em relação à alimentação e ao nascimento?

Nunca li, mas acho que Michel Odent deve ter falado algo parecido em “O Camponês e a Parteira”….

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Palavras

Olizinho Palavras

“As palavras, vovô, as palavras. Nelas estão as verdades, codificadas, escondidas, nobres guardiãs de sentidos sutis. Conte para mim o que elas dizem, e mais ainda, o que não dizem. Explique para mim aquele silêncio perturbador que habita o vão que as separa. Diga, vovô, qual a razão para tantas palavras”.

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Felicidade

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O segredo do consumo é o incentivo à infelicidade.

Pessoas felizes não consomem além de suas necessidades. O que nos leva a comprar de forma desenfreada é a ilusão de prazer que é vendida com qualquer produto. O problema é que, após cada compra, percebemos que a felicidade não veio; o pedido é feito, mas não é entregue. Ao invés de questionarmos a proposta inicial (a felicidade que se vende) e investirmos mais em valores perenes e menos no efêmero dos fetiches do comércio, decidimos comprar mais e mais, na esperança de que o próximo produto, o modelo mais sofisticado, a última novidade possa, por fim, nos oferecer o que tanto procurávamos.

Em verdade, tudo o que é de fato importante na vida é totalmente gratuito…

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Feios, sujos e malvados

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Já se deram conta do drama terrível que atinge o cantor popular que lança um disco e vende 1 milhão de cópias?

Nunca?

Muitas vezes eu penso nesses temas que normalmente não nos tocam, porque parece a nós que estas circunstâncias não são compatíveis com sofrimento de qualquer natureza. Também fico encucado como “a dor de ganhar muito dinheiro“, as “dificuldades de ser bonito demais” ou as “agruras e sofrimentos de ter muito sucesso“.

Sim, penso em tese. Nunca fui agraciado com nenhuma das benesses acima citadas, o que não me impede de tentar entender como as pessoas podem se sentir prisioneiras de suas próprias virtudes e conquistas.

Imagine o homem bonito e suas dificuldades. Estou usando esse exemplo pela distância evidente e óbvia comigo, mas poderia usar a questão das mulheres lindas. A beleza ofusca todos os outros possíveis talentos. Um homem bonito naturalmente obstrui suas outras potenciais capacidades, pois a beleza lhe oferece um acesso fácil aos seus interesses e desejos. O mesmo se pode pensar do dinheiro. Para que estudar, aprofundar-se em temas, tornar-se crítico e inventivo se o dinheiro oferece um “bypass” para qualquer comodidade? Para enfrentar a beleza e o dinheiro e ainda assim tornar-se humilde, culto e interessante há que se transpor barreiras muito complexas e difíceis, principalmente porque elas se opõe à própria natureza humana e a “lei do menor esforço”. Como ter certeza de que a mulher (ou homem) que se acerca, está encantado pela sua figura completa, ou apenas pela luz que emana de sua beleza ou riqueza?

Um músico de sucesso precisa manter o interesse das pessoas, pois o “amor” a ele devotado é embriagante, sedutor e cativante. Porém, tal devoção cobra seu preço, e o cantor cedo percebe que sua obra deixa de lhe pertencer, e passa a ser controlada pela expectativa que os fãs dele fazem. Os admiradores cobram do artista o amor a ele oferecido. “Vais nos agradar e retribuir nosso amor. Caso contrário será uma traição ao nosso carinho graciosamente oferecido, e por isso te odiaremos eternamente”.

Apesar de ser uma pessoa desprovida de talentos posso entender o quão difícil e tenebrosa é esta tarefa. Uma vez jogados no terreno do desejo alheio, como romper as amarras de dependência criadas? Como manter-se livre para criar, produzir, expor e demonstrar sem o peso da concordância e admiração do outro, que em última análise dá a medida do que chamamos sucesso?

Se o Latino resolvesse cantar música erudita, poderia? Seria perdoado? Seria aceito? O Roberto Carlos canta o que deseja ou o que sente que seu público exige dele? Quanta liberdade criativa existe naqueles em quem depositamos tanta expectativa? Paulo Coelho escreve o que quer, ou o que dele se demanda? Uma menina se apaixona mesmo por Justin Bieber, ou pela figura que ele representa? Como poderá ele saber?

Não estaria a verdadeira liberdade reservada apenas aos feios, pobres e desprovidos de excelência? Estes sim, podem escolher um amor sem que ele esteja contaminado pelos interesses, ofuscado pelo brilho fátuo da beleza ou misturado com a sedução dos talentos exuberantes. Só os feiosos tem certeza que o amor que recebem é verdadeiro. Só eles podem estar seguros de que seu amor é “dar algo que não se têm”.

Para os que escrevem, e aí o gancho que eu percebi no cotidiano, nada alivia mais do que decepcionar algumas pessoas. Assim libertos dessa pressão, é possível usufruir, mesmo que de forma limitada e parcial, um pouco de liberdade.

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