Arquivo da categoria: Pensamentos

Sobre “selinhos” e Pentelhos

Selinhos-Pentelhos

Primeiramente, o “selinho” do jogador Sheik não tem nada a ver com um exercício de liberdade sexual, ou uma demonstração de apoio à causa dos homossexuais. O jogador em questão é tosco demais para ter este tipo de refinamento intelectual e postura ideológica em favor da livre expressão da orientação sexual. Mais ainda: mesmo que fosse homossexual não admitiria publicamente exatamente porque seria refém de uma cultura machista (o futebol) que não admite qualquer desvio da sexualidade “normal”. Outro jogador, do citado clube São Paulo, até tentou romper a fechadura do armário da sua sexualidade, mas foi duramente ameaçado pelo presidente do clube e foi obrigado a voltar atrás. O caso do Sheik foi um golpe publicitário, nada mais. Ele beijou o dono do restaurante do qual ela acabava de virar sócio. “Como podemos chamar a atenção para o nosso negócio?”

Ora, simples… todo publicitário sabe como armar um factoide. O jogador e seu sócio fizeram isso exatamente para serem comentados, discutidos, e acabássemos procurando saber quem é o outro personagem e em qual restaurante isso ocorreu. Posteriormente, com a repercussão do caso, as declarações do jogador acabaram desnudando sua óbvia incapacidade defender a causa da igualdade. Ele é tão preconceituoso e limitado quanto todas as outras pessoas que fizeram críticas à sua atitude. Ao fazer piadinhas com o rival São Paulo trouxe seu preconceito à tona. Portanto, o “caso do selinho” deve ser entendido como um “teaser comercial”, uma propaganda em que dois atores contracenam para vender um produto. Nada tem a ver com a postura de ambos quanto à temática da homossexualidade.

Os pentelhos de Nanda Costa são um outro assunto. É claro, pelo menos para mim, que ela fez aquilo de propósito, ou pelo menos com o óbvio interesse em gerar comentários. Posso acreditar até que depilou-se – de forma mais vigorosa – imediatamente após a sessão de fotos. Também podia ela estar atuando (ou não), mas isso pouco importa. O que eu acho digno de debater (porque a questão “higiene e saúde” é tão ridícula que eu me nego a abordar) é o olhar censurador da sociedade sobre a volúpia capilar genital das mulheres e as razões pelas quais entendemos os pelos revoltos como formas ameaçadoras.

Há algo no olhar contemporâneo que criminaliza os enfeites pubianos, a ponto de aceitarmos apenas aqueles milimetricamente recortados e “aparados”. Parece a nós que eles precisam ser delimitados e “controlados”. Uma vulva despudoradamente “cabeluda” parece fora de controle, selvagem, indômita. Cortar pentelhos é uma ação cerceadora, limitadora.

O medo que a sociedade patriarcal tem do desvario sexual feminino faz com que seja necessário manter esta força sob estrito controle. Nossa censura explícita aos pelos pubianos livres parece mesmo a expressão de um desejo de apoderamento sobre a sexualidade feminina. “Tirar o pelo pubiano de uma mulher é tirar sua força, já dizia Freud, em 1932.” Como de costume o velhinho se mantém atual.

Não é a toa que fazem isso, ou “pelo menos” – trocadilho proposital – faziam, em todas as mulheres grávidas que adentram o espaço de um centro obstétrico. Tal qual contrapontos femininos do herói Sansão, raspam-se as forças femininas retirando delas o que resta de poder. Assim é que se expressa o patriarcado falocrata; pelos (de novo) detalhes.

Pelos pubianos são cortados para que assim, curtinhos e comportados, não ameacem a ordem vigente.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Archie Cochrane e a Revolução das Evidências

Nos últimos anos, ao combinarmos pela primeira vez na história da humanidade a capacidade de produção de ciência experimental e a disseminação quase instantânea de seus resultados, chegamos à possibilidade de tratar os assuntos relacionados aos tratamentos com um embasamento inédito nas provas de sua eficiência. Isso foi a revolução da “Saúde Baseada em Provas”, que teve um marcador importante com a criação da Biblioteca Cochrane em Oxford, Reino Unido. A Biblioteca Cochrane, criada em 1996 a partir da Cochrane Collaboration, é um dos principais, mais antigos e mais valiosos recursos de investigação em Ciências da Saúde, especialmente porque fornece sínteses de conhecimentos derivados de pesquisas rigorosas.

Archibald Leman Cochrane foi um médico escocês, nascido em 1909 na cidade de Galashiels. Ele se tornou um dos grandes revolucionários da medicina do século XX ao perceber, num movimento semelhante ao que Ignaz Phillip Semmelweis havia feito na Áustria quase 100 anos antes, que a medicina sofria de uma carência crônica de coerência, método e lógica aplicada aos tratamentos aplicados aos pacientes. Ao invés de mandar seus colegas lavarem as mãos, como o fez o mestre húngaro, Archie exigiu que eles estabelecessem protocolos racionais para as condutas médicas, baseados em provas concretas experimentais e estudos abrangentes de aplicabilidade, segurança, eficácia e eficiência dos tratamentos. Muito do que aprendeu na medicina, a exemplo de Teofrastus Bombastus Von Hohenheim (Paracelso), foi ao lado dos pacientes, sentado ao pé do leito, durante as guerras em que serviu como médico.

Em uma passagem brilhante de sua história, durante seu período como prisioneiro na Grécia na II Guerra Mundial, ele solicitou ao oficial alemão que conseguisse mais médicos para ajudá-lo na enfermaria de feridos, pois ele era o único em serviço para o atendimento a um campo de detenção de guerra que à época contava com mais de 20 mil prisioneiros. Ao ouvir o pedido de Archie o oficial respondeu, indignado e com rispidez: “Nein! Aerzt sind ueberfluessig!” (Não!! Os médicos são supérfluos!). Quando escutou estas palavras o oficial médico Archibald Cochrane ficou furioso e transtornado, e por isso chegou até a escrever um poema sobre sua indignação. Todavia, Archie era dotado de um excepcional senso crítico, e ficou tentando analisar com profundidade as palavras do oficial alemão. Teria sido ele sábio ou cruel? Algum tempo depois, depois de avaliar o resultado das intervenções realizadas em sua enfermaria, ele chegou à terrível conclusão de que o comandante alemão…. estava correto. Não havia na Medicina do seu tempo protocolos eficazes e baseados em evidências para o tratamento das inúmeras afecções que ceifavam a vida dos prisioneiros que a ele eram entregues. As condutas variavam de país, de estado, de cada um dos hospitais de campanha e até entre os médicos de uma mesma enfermaria, pois que estavam baseadas em percepções pessoais, experiências únicas, crenças, perspectivas subjetivas, e não na solidez de experimentos de larga abrangência. Para alguns médicos as feridas precisavam se manter abertas, pois a “aeração” ajudaria a saída do pus. Para outros, bandagens que eram mantidas até por uma semana, que apodreciam coladas à pele dos pacientes. Para os tuberculosos, calor, chás e o pneumotórax, em casos avançados. Nada tinha consistência; os resultados não eram agrupados e analisados para se encontrar uma rota mais segura – ou menos danosa.

A partir de sua experiência traumática com a falta de protocolos bem estudados Archie Cochrane decidiu-se por dedicar sua vida ao estudo sistematizado de modelos de tratamento, embasados em uma visão científica e experimental. Daí surgiram inúmeros protocolos e tratamentos, e por seu pioneirismo foi criado um instituto na Inglaterra que até hoje carrega seu nome.

Porém, o mais emocionante na história de Archie Cochrane é a sua vívida e intensa conexão com seus pacientes, mostrando que a ciência não precisa ser afastada da vida das relações, formada por carne, osso, fibras e lágrimas. Sua visão cristalina e abrangente das práticas médicas não exclui as emoções e o trato direto com os doentes. Sua descrição do trabalho nos campos de concentração nazistas mostra a determinação que ele possuía de oferecer aos doentes o melhor que sua capacidade era capaz, a despeito da falta absoluta de recursos e das condições terríveis que seus pacientes se encontravam, egressos dos campos de batalha e trincheiras infectas da I Guerra Mundial. Mesmo diante das piores adversidades e dramas sempre havia a possibilidade de um auxílio real e humano. O relato abaixo mostra que “os eventos do nascer e morrer são pontas que se tocam“. A mesma lógica de carinho, afeto e amor que ele demonstra por aquele que se vai, nós precisamos oferecer àqueles que chegam; amor e compaixão pelo semelhante são as únicas respostas.

(Fragmentos do livro “Effectiveness and Eficiency: Random Reflections on Health Services“, de Archie Cochrane)

“Outro evento em Elsterhorst teve um efeito marcante em mim. Os alemães haviam despejado um jovem prisioneiro soviético em minha ala, tarde da noite. A ala estava cheia, então eu o coloquei em meu próprio quarto porque ele parecia estar moribundo e gritando, e eu não queria acordar toda a enfermaria. Examinei-o e percebi que ele tinha uma brutal e óbvia cavitação bilateral , além de um atrito pleural grave. Imaginei que o atrito era a causa da dor e dos gritos. Eu não tinha morfina, apenas a aspirina, que não produziu nenhum efeito. Senti-me desesperado. Eu sabia muito pouco de russo na época da guerra e não havia ninguém na enfermaria que o soubesse. Finalmente, eu me sentei instintivamente em minha cama e levei-o aos meus braços. Os gritos pararam quase que de imediato e ele morreu pacificamente em meus braços algumas horas mais tarde. Não foi a pleurisia o que causou os gritos e o desespero, mas a solidão. Esta foi uma lição maravilhosa sobre o cuidado com os moribundos. Eu tive vergonha do meu erro de diagnóstico e mantive esta história em segredo”

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Medicina, Pensamentos

União e Luta

Zeza Parteira
Protegendo e respeitando o momento sagrado do nascimento

Hoje fomos assistir “Iron and Wine”, no Teatro Paramount, na esquina da sexta com Congress Avenue, em Austin. A apresentação principal foi de um compositor e cantor local bastante conhecido chamado Sam Beam. Eu adorei a apresentação. O estilo é “folk music”, mas de uma forma que se afasta um pouco da música “western” e se aproxima da “world music”. Lembra, é claro, James Taylor, e talvez por isso o meu coração brega e romântico não pôde deixar de gostar.

Mas não foi essa a questão que me fez relatar o acontecido. Esse show acontece todos os anos em Austin no verão, e serve como uma fonte de arrecadação para a MANA – Midwives Alliance of North America (Aliança das Parteiras Norte Americanas). Os ingressos vendidos vão para os cofres desta instituição que conta com milhares de parteiras espalhadas por México, Canadá e Estados Unidos. Fiquei muito feliz de ver Deja, a filha de Robin Lim (parteira em Bali – Indonésia, que recentemente ganhou o prêmio da CNN “Heroína do Ano” entre as mulheres), apresentar o show de Sam, acompanhada de – nada menos que – Robbie Davis-Floyd. Robbie estava nervosa e excitada com o convite, mas saiu-se muito bem. Foi direta, concisa, simpática e trouxe novas estatísticas sobre os 40 mil partos catalogados por MANA nos últimos anos. Apesar da taxa de cesarianas ter aumentado quase 1% (passou de 4 para 5%) a taxa de transferências diminuiu de 12 para 10%. Os valores mostram de uma forma inequívoca que as CPMs – Certified Professional Midwives (Parteiras de entrada direta, tal como as obstetrizes brasileiras) apresentam um trabalho exemplar e digno de aplausos. No fim de sua breve exposição, Robbie pediu que todas as parteiras na plateia se levantassem e fossem aplaudidas (entre elas uma tímida Zeza) para receberem a justa homenagem de todos os presentes ao show. Estava verdadeiramente muito emocionante. Foi uma bela homenagem às parteiras americanas. Uma pena que ainda não chegamos a este momento. O que mais me emocionou no depoimento de Deja, filha de Robin Lim, é a ideia de que as parteiras são as guardiãs de um segredo, de um momento sagrado, que a tecnocracia (e NÃO a tecnologia) está afastando das mulheres, empobrecendo nossa experiência humana. O trabalho das parteiras é a de proteger as mulheres e seus partos, enaltecendo suas virtudes, garantindo-lhes segurança e honrando seus corpos.

A esposa de Sam Beam teve seus filhos em casa e, por esta razão, eles se tornaram grandes apoiadores da causa. Esta é uma história que nós, humanistas do nascimento, conhecemos muito bem: Depois de nascimentos transformadores os novos pais percebem que precisam dar a sua contribuição para que outros possam ter a mesma experiência positiva que tiveram. Mary Barnett, parteira local, atendeu estes partos, e muitos outros entre as famílias que deixaram o Paramount lotado nesta noite de sábado, e por esta razão recebeu uma ovação emocionada de Sam e de muitos na plateia. Fiquei feliz de ter encontrado nesta viagem duas amigas que são símbolos da atuação da parteria livre nos Estados Unidos: Mary Barnett e Marymikel.

Mas o que me deixa preocupado é o fato que ainda não conseguimos reproduzir no Brasil instituições como a MANA. A ABENFO é a instituição mais parecida com a MANA que temos, mas com muito menos poder e influência. Por outro lado, Max me dizia, há mais de duas décadas, que “as ideias devem ser mais importantes que os ideólogos”. Portanto, mais do que fortalecer egos e pessoas, precisamos incentivar o fortalecimento das instituições que lutam pela humanização do nascimento no Brasil. Passamos por uma fase de grandes lutas e dificuldades na consolidação de um ideário de projetos e lutas pela implantação de nossas propostas, e só agora começamos – muito lentamente – a colher os primeiros frutos. A ReHuNa continua sendo o grande carro chefe em nível político e estratégico, mas ainda somos muito desunidos e “feudais”. Nossos grupos, tal como as organizações feudais japonesas lideradas pelos Daimyos, conquistam valor e importância local, mas ainda carecemos de grandes lideranças nacionais, alicerçadas em estruturas e instituições sólidas, que sobrevivam e se sobreponham as personalidades que, momentaneamente, as liderem. A desunião nas propostas atrasa a execução de nossos projetos.

Precisamos de uma organização nacional de doulas, como uma rede, que possa ter uma representação em nível governamental, além de oferecer suporte científico e organizacional, a exemplo do que ocorre com a DONA aqui nos Estados Unidos. Precisamos uma instituição de “parteiras profissionais” (nome que Robbie usa para diferenciá-las das parteiras tradicionais, que já tem seus instrumentos específicos de representação), forte, atuante, arrojada e corajosa, para fortalecer a expressão cultural e científica da parteria urbana. Estas instituições precisam ser criadas e/ou fortalecidas, para que nossos sonhos se tornem realidade.

Precisamos nos unir pois ainda somos poucos e esparsos, e o poder dos que preferem que as coisas fiquem como estão ainda é mais forte do que a nossa vontade de mudar.

Mas não para sempre.

Aqui fica, como presente, um pouco da música de Iron & Wine:

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Sobre as Parterias

PARTEIRA DA ETNIA TUKANO

Não se pode confundir a preservação dos saberes tradicionais, que precisam ser preservados com a NECESSÁRIA inserção formal das parteiras nas sociedades complexas. Esse processo de reconhecimento, controle e avaliação profissional acontece em TODAS as áreas, não só na medicina. Não existe mais necessidade para algo que eu via na minha infância (e que é até personagem de Dias Gomes) o chamado “prático licenciado”.

Ora, o que vem a ser o tal “prático licenciado”?

Era o sujeito que dominava uma prática qualquer, como por exemplo, alguns  dentistas até o início do século XX. Sempre existiram pessoas que arrancavam dentes na comunidade, faziam pequenos reparos, ajudavam nas dores excruciantes e que foram sofisticando as suas práticas, até serem conhecidos como “dentistas”. É notório que a alcunha de “Tiradentes”, recebida pelo personagem histórico e alferes José Joaquim, lhe foi oferecida porque trabalhava como um “dentista sem diploma”.

“Não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de seu tio e padrinho Sebastião Ferreira Leitão, que era cirurgião dentista. Trabalhou como mascate e minerador, tornou-se sócio de uma botica de assistência à pobreza na ponte do Rosário, em Vila Rica, e se dedicou também às práticas farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido (alcunha) de Tiradentes.” (Wikipedia)

O que são as parteiras tradicionais se não “práticas licenciadas”? São aquelas remanescentes de uma época em que não havia estudo formal ou quando este aprimoramento era tão distante das comunidades que alguns integrantes desta se prestavam a fazer trabalhos indispensáveis nestas áreas. Havia engenheiros, contadores, médicos, dentistas, causídicos, farmacêuticos, todos eles “populares”, sem formação acadêmica (e as vezes sem formação escolar, pois muitos eram analfabetos). Com a popularização dos cursos superiores, principalmente na segunda metade do século XX, muitos profissionais universitários entraram no mercado e houve a necessidade de regulamentar a prática destes.

Afinal, quem poderia ser dizer engenheiro, médico, advogado ou dentista?

Uma forma de organizar tal demanda foi através do DIPLOMA de uma universidade, que garantia que aquele sujeito havia cursado adequadamente as disciplinas fundamentais para a prática de uma profissão. Entretanto, um contingente enorme de trabalhadores desta área, sem diplomação alguma, ficaram considerados “fora da lei”, em função de uma regra imposta pelos egressos da universidade. Para solucionar esta injustiça com aqueles que já se encontravam há décadas no mercado foram criadas normas que garantiam o trabalho para os antigos profissionais sem diploma, que aprenderam com a prática diária, longe dos bancos universitários, mas perto da vida e dos pacientes. Eram os práticos licenciados, alguns dos quais ainda conheci quando menino.

O tempo fez com que os últimos “práticos” viessem a falecer, e hoje em dia exige-se dos profissionais uma graduação acadêmica para as profissões que citei acima. Entretanto, na parteria ainda não ocorreu esta migração absoluta e total. Ainda temos muitas, milhares dirão alguns, parteiras “populares”, principalmente no nordeste brasileiro. Como agir em relação a elas?

Pode-se admitir que uma mulher, apenas por dizer-se parteira, possa atender um momento crítico (mesmo sendo fisiológico) de uma mulher nos dias atuais?

Minha resposta é: sim. Podemos aceitar o trabalho das “práticas licenciadas em parteria”, desde que estas mulheres, aos poucos, comecem a se adaptar às modificações de suas próprias comunidades.

Na minha opinião nossa ação deve-se dar em duas frentes: A primeira seria o suporte às parteiras tradicionais que ainda existem, com capacitação, interlocução, troca de experiências, ajuda material (medicamentos básicos, transporte, etc.). Isso é algo que eu acredito seja feito por várias Organizações Não Governamentais (como o grupo Curumim, entre outras). Outra ponta de atuação deve ser o incentivo à formalização. Experiências como esta foram realizadas no México, e com sucesso. Trazer estas parteiras para o mundo formal, respeitar suas práticas, oferecer informação básica sobre práticas baseadas em evidências, combater procedimentos reconhecidamente lesivos ou perigosos (barro no coto, teia de aranha, corte nos mamilos do RN para retirada do leite das bruxas, desmame precoce, etc.) e incorporá-las ao SUS (com PAGAMENTO pelo seu importante trabalho) devem ser ações prioritárias.

Mas para isso é importante definir quem são estas parteiras, e isso eu já tratei em outros textos. Para resumir, são de dois tipos: as parteiras “informais”, tradicionais e que se situam em locais de baixos recursos e/ou de um grupamento cultural onde suas práticas são reconhecidas por suas iguais e valorizadas socialmente. Como exemplo temos as parteiras ribeirinhas da Amazônia ou as parteiras Guarani M’bias no Rio Grande do Sul, entre centenas de outros exemplos que poderíamos utilizar sobre parteria tradicional no Brasil e que tem estas características essenciais.

O outro tipo são as(os) parteiras(os) urbanas(os), que são os profissionais egressos de uma formação universitária, regulados por seus conselhos específicos, com conhecimentos acadêmicos e científicos sobre práticas de atenção ao parto e que se originam dos cursos de Medicina, Enfermagem e Obstetrícia, os dois primeiros com a possibilidade de qualificação em obstetrícia.

Os profissionais que não se enquadram nessas categorias não são reconhecidos como “skilled attendants” e não podem ser regulamentados, orientados e/ou punidos por organização alguma e estão, portanto, à margem da formalização. Tais profissionais, via de regra, não tem protocolos bem definidos, registros de casos ou maneiras de aferir suas práticas. Isso, ao meu ver, é um problema para o sistema de saúde, e a formalização de todos os atores sociais que atendem nascimento precisa ser uma meta de todos os países que desejam diminuir as taxas de morbi-mortalidade materna e perinatal.

Ric Jones
ReHuNa

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Vida e Determinismo

Evangelist Reverend Moon reacting as he delivers a speech in Gapyeong
O recentemente falecido Reverendo Moon

Certa vez eu fui abordado por um sujeito na rua que se postava em frente a um cavalete (desses que se usa em aula, com um bloco grande de papel) onde ele escrevia com um marcador de texto. A cena inusitada chamou a atenção de algumas pessoas, entre elas eu. Esta cena aconteceu em Nova York, no início dos anos 80. Parei para olhar por alguns momentos sem perceber que se tratava de uma espécie de “bispo” da seita do Reverendo Moon tentando fazer prosélitos entre os incautos passantes. Esta seita fez muito sucesso há 30 anos, principalmente nos Estados Unidos, onde organizavam reuniões gigantescas, com milhares de participantes, inclusive casamentos instantâneos de milhares de casais ao mesmo tempo. Na realidade ela em nada diferia das religiões contemporâneas que se baseiam no carisma de um guru e no investimento de milhões de dólares em propaganda. Bastaram 2 minutos de atenção com as marcas incompreensíveis que ele fazia no papel sobre o cavalete para que ele voltasse sua atenção para mim e explicasse o que fazia ali.

Em verdade, seu interesse com os gráficos era mostrar os importantes eventos sequenciais que se produziam a cada 500 anos e que mostravam que, exatamente naquele ano (acho que 1981), surgiria uma “nova ordem cósmica” liderada pelo patrão dele, o tal do reverendo. Pediu que eu olhasse os gráficos e confirmasse o nascimento de grandes líderes mundiais a cada lapso de meio milênio – dos filósofos pré-socráticos, passando por Sócrates-Platão-Aristóteles, pelo Nazareno, os Maias, os líderes da ciência na Europa iluminista, os enciclopedistas e por aí afora, até chegar exatamente no ponto onde ele pretendia: o surgimento do ápice de todos esses grandes líderes: o Reverendo Moon.

Mesmo sendo eu um menino de não mais de 20 anos, percebi claramente que se tratava de uma história contada em retrospectiva. Tipo: eu sou o máximo, ok? Preciso que todos vocês acreditem nisso e vou utilizar uma fórmula bem simples: mostrarei que minha importância não está apenas no que digo (na maioria das vezes uma mera repetição de adágios antigos com roupagem nova), mas que a minha “chegada” ao planeta Terra teria sido planejada por uma “ordem invisível cósmica”, que governa o mundo para além do nosso conhecimento. Bem, vou inventar agora que a cada século um novo gênio nasce na humanidade, certo? Para isso usarei de uma análise retrospectiva da história, e procurarei os meus “precursores”. Para fazer isso preciso encontrar alguém muito especial nascido no ano da graça de 1859, outro em 1759, 1659 e assim por diante, e desta forma construo uma pseudo causalidade que ocorre em lapsos de 100 anos.

Claro, eu pensei logo no meu mestre Freud, que nasceu em 1856, mas é fácil construir uma explicação para esta pequena inexatidão. Posso dizer que, por exemplo, são cem anos “lunares”, ou “por volta de um século”, ou Freud foi registrado apenas em 1859, por um erro de seu pai, etc. É evidente que, dependendo do que quero provar, esses detalhes são desprezíveis, e no fim tudo pode ser encaixar, como em um passe de mágica.

Por isso é que essas histórias de que “as coisas estão escritas para acontecer de uma determinada maneira, obedecendo uma ordem cósmica previamente estabelecida” me irritam, pois elas, em última análise, falam de um determinismo paralisante, que sufoca a natural diversidade humana, a imprevisibilidade da vida e o livre arbítrio. A vida, assim conduzida, pareceria uma versão do filme “Premonição” onde os eventos (trágicos, felizes ou bizarros) estão predeterminados a acontecer. Infelizmente (ou, ao meu ver, felizmente) o mundo não se ordena desta forma. Se realmente existisse um “sentido” oculto no Cosmos, o preço a pagar seria alto demais: a perda da liberdade e da autonomia. Prefiro um mundo caótico e imprevisível construído pelas nossas próprias imperfeições e falhas do que um mundo onde “tudo acaba bem” por que Deus (ou o Reverendo Moon) escreveu nosso destino com as tintas do determinismo.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Consumismo e Superficialidade

878554_rodrigo_faro_e_vera_viel_e_filhas001_g-964x1024

Uma conhecida colunista de minha cidade escreveu uma matéria no site de uma grande empresa jornalística cujo título era “Rodrigo Faro me fez adiar a maternidade”. A palavra “maternidade” me despertou a atenção, e instintivamente procurei saber do que se tratava.

Ao clicar no link aparecia a foto acima, em que um apresentador de televisão aparecia capitaneando a primeira festa de aniversário de seu filho ao lado de uma esguia esposa e de duas outras filhas vestidas com fantasias “rosa choque” de gosto duvidoso. (Ok, eram apenas fantasias de Miss Piggy, dirão alguns…).

Interessado pelo teor e curioso pelo título resolvi investigar o conteúdo da crônica, até porque me interesso pelas questões dos ritos de passagem e a questão do consumismo exagerado à que são expostas nossas crianças. Muito mais do que uma festa as celebrações de um ano de vida, principalmente entre as celebridades (ou aspirantes a famosos) tais eventos costumam ser festivais de exageros, breguices, apelações e exibicionismo descarado.

Claro que a festa do Sr Faro não fugiu à regra, pelo que ficou demonstrado na foto. Mas para mim foi muito pior o comentário da colunista de minha cidade.

“O aniversário das filhas do Rodrigo Faro me fez ter insônia essa noite.”

Eu nunca imaginei que se tratasse de um texto tão superficial. Achei que que a chamada da crônica pudesse me levar a uma crítica ao consumismo sem freios, ao desejo incontido de “coisas” ao invés de momentos para serem lembrados ou talvez uma análise mais profunda sobre a importância dos ritos no desenvolvimento emocional infantil. Achei mesmo que a referida coluna se ocupasse de uma apreciação da glamorização de figuras desimportantes do cenário artístico nacional e de suas festinhas suntuosas. Tais eventos que são produzidos com esse formato exuberante e extravagante apenas para que os enxerguemos como diferentes de nós. Colocam-se como seres superiores, uma espécie de “nobreza republicana” que olha para nós com o mesmo olhar de desprezo que a realeza olhava para a plebe faminta.

Todavia, o texto que encontrei é superficial e até infantil. Com um tema tão complexo, intrigante e até estimulante a jornalista conseguiu construir uma história boba de “como arranjar dinheiro para fazer uma festinha igual”. Uma pena, pois poderia ter feito algo muito mais interessante com este fato.

Mas… vai ver eu entrei mesmo na porta errada, e o blog da referida colunista é para quem curte preços de vestido de noiva, enxoval chique para bebês, onde fazer a cesariana mais chique, a numerologia do nome daquele que vai nascer e os obstetras operadores de barriga da moda. Resolvi escrever para ela a criticar a forma inadequada de abordar o consumo infantil, as festinhas suntuosas e os gastos com tamanhas futilidades.

A resposta à minha crítica, por parte da jornalista, foi a seguinte:

(…) várias pessoas comentaram aqui sobre gente que faz festa mais para si do que para os filhos. Eu, modestamente, acho que quem tem dinheiro faz a festa do tamanho que quiser (que graça tem ser rico se não puder usar a grana?). Só me preocupa – e foi esse o sentido do meu post – que esteja se estabelecendo um padrão. Festa de criança é de arromba ou não é. Daí tem gente que se mata pra poder dar uma para o filho. Meu medo é justamente esse: que a coisa descambe de tal forma que meu filho não pense em festa a não ser assim. Mas aí vai da criação que eu vou dar pra ele, como bem pontuou uma mãe aqui. Um beijo!

Voltei para o post que ela havia colocado e resolvi reler, a seu pedido. Tinha esperanças de ter lido de má vontade e não ter entendido o “sentido oculto”.
Foi em vão.

Normalmente quando o autor pede para “lerem de novo” é porque não conseguiu comunicar adequadamente o que desejava ou porque se arrependeu e está suplicando uma interpretação diferente e mais condescendente. É clássica a desculpa “Vocês não entenderam que eu estava sendo irônico(a)?“

Não, ela não estava. Havia mesmo um desejo de glamorizar as festinhas perdulárias de astros desimportantes da TV brasileira. E não é à toa que escreveu em uma das respostas sobre o “corpão da mulher do Rodrigo” (elogiando a silhueta esguia da mulher do apresentador), por que isso está no pacotão da futilidade do post.

Veja bem, aqui não há nenhuma ironia na sua fala: “Ver as fotos da festinha da família me fez abrir uma poupança para o primeiro aninho do meu piá. O dinheiro ficará no banco como garantia: se sobrar, eu e o pai dele partimos para uma viagem romântica.”

Isso não foi ironia: foi uma ameaça de entrar de cabeça no modelo exibicionista de criação de filhos. Só depois que fui ler outras crônicas desta jornalista e percebi que uma festa deste tipo faz todo sentido em sua trajetória. Ok, se isso satisfaz o ego da moça, nenhum comentário. Cada um glamoriza sua vida como quer, colocando glacê sobre o bolo da vida.

Mas precisava mesmo envolver o seu futuro filho em algo tão tolo e comercial? Ao invés de questionar a importância de uma maternidade consciente, de uma gestação sadia, de um parto humanizado para fugir da carnificina do modelo cesarista e para LIVRAR seu filho do consumismo que destrói a mentalidade infantil, ela ressaltou EXATAMENTE o que existe de mais fútil no desenvolvimento de um sujeito: a festinha de primeiro ano de uma criança que sequer participará (menos mal) do absurdo exibicionismo de seus pais.

Cheguei a ficar constrangido e até culpado por ter dado audiência para crônicas fúteis e que ressaltam o consumismo e a deseducação de crianças, colocadas como troféus parentais e bichinhos de estimação, com roupas ridículas para “enfeitar” a festa dos pais. Mas o grande número de críticas que eu vi, de pessoas maduras e que levam o nascimento de uma criança a sério, me fez ver que provavelmente esta crônica cafona e fora de lugar é que prestou um desserviço ao amadurecimento de uma maternidade e uma parentalidade maduras. Ao falar de forma tão frívola das festinhas de “exaltação do dinheiro”, ela trouxe à tona a importância de exigirmos um jornalismo mais responsável e maduro.

Tenho certeza que a jornalista não escreveu nada disso por “mal”, e nem com más intenções, mas por descompromisso com a seriedade na educação das crianças e uma falta de noção sobre a importância de livrá-las da doença do consumismo.

Recomendei a ela o brilhante documentário brasileiro “Criança – A Alma do Negócio”.
Talvez ela consiga ver o estrago que este tipo de atitude pode produzir em um ser em desenvolvimento.

1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Papo de Homem

Cafeteria
A velha fofoqueira não conseguiu se controlar…

Saí da loja de componentes eletrônicos e senti a súbita compulsão de tomar um café. O shopping estava “bom” hoje, e com isso me refiro ao fato de que não estava lotado. Procurei uma mesa e chamei o garçom. Ele se aproximou e, antes que pudesse me estender o cardápio, eu disse “Um expresso, por favor?”. Ele guardou o menu embaixo do braço e respondeu “Pois não. Só um expressinho?”

“Sim”, respondi eu, mas com a clara sensação de que minha condição de pobre, miserável e incapaz foi descaradamente revelada. Afinal, só isso poderia explicar que, podendo comprar um “Extra-supreme café italiano com chantilly e canela” que custa 15 reais, eu me resignei a pedir apenas um mísero expressinho de 3 reais e cinquenta centavos. Para disfarçar a minha vergonha abri meu tablet e conectei com o Facebook, vício do qual me considero irrecuperável. Encontrei Kalu on line, que falou sobre o estatuto do nascituro e me disse da necessidade de debatermos mais sobre esta questão. Ponderei com ela que este documento pretende transformar o feto em sujeito, colocando o pátrio poder abaixo das determinações do estado. Falei para ela do perigo que significa o extermínio do protagonismo feminino sobre seu corpo, que ficará sacramentado como algo tutelado pelos poderes estabelecidos. Em outros países iniciativas como essa, capitaneadas por grupos religiosos, produziram aberrações terríveis, como o “advogado do feto” e as cesarianas por demanda judicial. Veja também esse excelente artigo, que tem mais de 25 anos sobre o tema, escrito por Susan Inwin e Brigitte Jordan.

Repentinamente fui atraído pela conversa que se desenrolava na mesa ao lado. Alguns fragmentos de frases soltas acabaram despertando minha atenção. “A cesariana”… “O médico disse que…”, “Então ela foi para o centro cirúrgico…”. Dois jovens, por volta dos 30 anos, conversam sobre… partos. Sim, o assunto era sobre os nascimentos dos filhos deles, ambos ocorridos recentemente. Um deles estava sentado, e é um cabeleireiro. Sei disso porque ele estava de uniforme, e a cafeteria fica exatamente em frente a um famoso Salão de “Haute Coiffure”. O outro, que se mantinha de pé, era provavelmente um amigo que o havia encontrado tomando um café no intervalo de suas tarefas.

O cabeleireiro toma a palavra e dispara, fazendo minha xícara de café chacoalhar. “Meu médico disse que marcou a cesariana para eliminar os riscos, e eu concordei com ele. Por que deixar passar do tempo e se arriscar?” O rapaz nada mais fez do que reproduzir os preconceitos arraigados no imaginário popular, centrados na “mitologia da transcendência tecnológica” que Robbie nos alertava. O conhecimento autoritativo do profissional conquista, na alienação do marido, um aliado importante. Eliminar riscos através de cirurgias só pode ser entendido se acessarmos as questões ideológicas que estruturam a nossa cultura. O que é do feminino e da natureza não é confiável, mas o que vem da razão e da ciência é digno de total apreço e respeito.

A resposta do seu amigo, o que se mantinha de pé, foi surpreendente. “Pois é, mas uma cesariana é uma cirurgia. E ela abre sete camadas. Existem riscos inerentes em realizar um procedimento assim, não é?” Havia, pelo que pude perceber, pelo menos um pouco de discernimento e informação no seu questionamento sobre as cesarianas.

A conversa rolou mais um pouco sobre o tema e continuei a espichar o ouvido, no melhor estilo “velha fofoqueira”. Que me perdoem os rapazes, mas precisava saber o que dois jovens homens adultos, e que acabaram de passar por esta experiência, tinham a dizer. Na conversa que se seguiu pude perceber que as duas esposas tiveram filhos através de cesarianas. Ambos pequenos, um de 2600g e o outro 2900g. Como saber se não saíram muito antes do que deveriam? Não havia nenhuma justificativa clara nos discursos de ambos, apenas a determinação autoritativa de profissionais que gozavam da confiança de ambos. Não percebi nenhuma indignação, estranhamento e muito menos revolta, apenas resignação com os fatos. O cabeleireiro o tempo todo reforçava as palavras do seu médico, com frases do tipo “Quando ele me disse eu imediatamente concordei…”, ou “realmente não há porque arriscar”, entre outras expressões de concordância.

Tive vontade de levantar, puxar os dois pela gola da camisa e gritar: ”Meninos, ACORDEM!!!!!”

É um pouco triste, e um pouco trágico.

Pensei no que Maximilian, com sua positividade e otimismo, me diria ao ouvir o diálogo dos rapazes. “Olhe pelo lado positivo, Ric. Quando é que você se sentou com um amigo e pôde debater o parto de seus filhos? Achas que o seu pai um dia conversou com alguém sobre o seu nascimento?”

Está certo, Max. Prefiro ver a conversa que se estabeleceu ao meu lado como um sinal de que os homens estão se interessando mais por partos, nascimentos e amamentação. Mesmo sabendo que se trata de escolhas tolas, como cesarianas sem justificativas, ainda é melhor isso do que a suprema alienação de tempos idos. Tristemente, ainda hoje presenciamos inversões de valores que nos agridem os sentidos. Os casais grávidos ainda se fixam em detalhes desimportantes do nascimento ao invés de procurarem um atendimento com as características fundamentais da humanização: o protagonismo da mulher, a visão interdisciplinar e as condutas baseadas em evidências. Infelizmente muitos ainda querem um parto no “Sheraton”, muito chique, com piso de mármore e enfermeirinhas de tailleur. Procuram a tecnologia explícita como um artigo de consumo que o dinheiro pode comprar, e não como um recurso extremo, usado em situações limite. O atendimento ainda é equivocado e violento, do ponto de vista humano e médico, mas tem aparência de produto sofisticado.

O amigo em pé coloca um pouco de dúvida sobre a correção das escolhas feitas. “Sabe que a mulher do leito a lado da minha esposa estava dando banho no bebê no mesmo dia em que aconteceu o seu parto, pois para ela foi normal. Isso me chamou a atenção, pois quando olhei para a minha mulher percebi que ela não podia nem se mexer na cama.”

O cabeleireiro ainda respondeu: “Pois é, quando puder ser normal é melhor, não? Infelizmente no nosso caso não foi possível”. Até eles perceberam as diferenças, mas o medo da autoridade médica ainda impera. Como diria Maximilian: ”Ignorantia stercore est” (A ignorância é uma merda)

Mas, não há razão para ser pessimista. Muito conquistamos nos últimos anos. Veja só que beleza essa ultima publicação holandesa sobre parto domiciliar. Há poucos anos ninguém falava desta questão no Brasil, e hoje em dia há uma legião de ativistas questionando local de parto, violência institucional, lei do acompanhante, obstetrícia baseada em evidências e tantas outras questões.

Em 1999 estive em um congresso de humanização do nascimento no Rio de Janeiro e até entre os humanistas o assunto parto domiciliar era tabu. Ninguém atendia, ninguém tinha ideia dos equipamentos essenciais, não tínhamos a proposta de equipes interdisciplinares, e muitos achavam que este era um assunto menor, que sequer merecia ser debatido. Naquela época a gente achava que Casa de Parto era uma pequena clínica fora do hospital, com bloco cirúrgico, e com atendimento feito por médicos. Chegamos a fazer uma assim, que acabou fechando. O modelo de parteria, com a proposta centrada na atenção pela enfermeira obstetra e na obstetriz, só veio muito depois, com o amadurecimento do debate o fortalecimento ideológico, principalmente pelo trabalho da professora e antropóloga Robbie Davis-Floyd. Essa primazia, sou obrigado a reconhecer, é dela. Antes dos seus livros – em especial “Birth as na American Rite of Passage” – ninguém sabia exatamente o que fazer, apesar de já sabermos o que não queríamos mais continuar fazendo.

Robbie estruturou, a partir do seu modelo antropológico, a humanização do nascimento. Ela deu consistência e direcionamento à nossa indignação.

Assim, quando vejo a conversa de dois homens falando sobre o nascimento de seus filhos percebo o alvorecer de um novo tempo, onde a participação masculina ficará cada vez mais intensa e constante. Mesmo que a fala deles seja ainda recheada de equívocos e inconsistências, ainda prefiro encarar como um avanço. Talvez ambos tenham voltado para as suas casas com uma semente de dúvida. A farpa, “ardente e corrosiva”, como me dizia Max. “Será mesmo que era necessário?”

1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Nós e a Internet

Fazemos mobilização social pela humanização na Internet desde 1998, ainda no tempo dos modens de 4.8 e da conexão discada, quando iniciamos os debates cibernéticos contra a violência institucional e a barbárie das cesarianas no Brasil. Naquela época a crítica que recebíamos era de que o meio – a Internet – produzia um movimento tímido, sectário, apenas para “mulheres burguesas” que tinham tempo para “perder” na frente de um computador. A proliferação da Internet para todas as classes sociais mostrou que nossos críticos estavam errados. No tempo em que iniciamos a luta através das listas de discussão não havia parto domiciliar no Brasil, e hoje este debate ganha as ruas. Não havia um movimento de doulas, quanto menos instituições que lhes dessem respaldo. Não havia lei do acompanhante e nem obstetrizes formadas pela mais prestigiosa universidade brasileira. Não havia uma consciência de que o parto se expressava de forma violenta, numa assimetria de poderes em que as mulheres tinham a sua voz abafada, seus corpos manipulados e os profissionais faziam deles objetos sobre os quais aplicavam uma ciência cada dia mais questionável.

Igualmente não existia conexão com as outras lutas, como a amamentação, e não tínhamos contato com grupos de fora do Brasil. Éramos “ilhas”, isolados em nossas indignações e sonhos. Começamos como um grupo pequeno de internautas que acreditavam em suas ideias e utilizavam uma ferramenta nova e estranha. No mesmo dia eu falava com meninas sonhadoras em São Paulo e com um colega humanista em Florianópolis. Criamos um espaço sem distâncias, uma proximidade até então jamais experimentada. Essa realidade parecia a nós uma fantasia louca, devaneios de ficção científica. O longe desapareceu. Um artigo criticando as episiotomias era publicado em um dia e no outro já estava impresso em minhas mãos. Logo após, era espalhado pela rede, nas nossas valorosas “list servers”. As oportunidades de difusão de ideias e propostas tornaram-se realidade ao alcance da ponta de nossos dedos.

Imediatamente o conservadorismo percebeu que a Internet era uma arma poderosa e ameaçadora para acordar mentes morfetizadas. Como reação, iniciaram uma campanha de ataque a estes projetos. “Você não pode acreditar em tudo que lê na Internet, minha filha”, nos dizia o velho profissional, acostumado com uma retórica em que suas “verdades” não podiam ser questionadas. Quem abriria um livro de medicina para se contrapor à autoridade do profissional à nossa frente? Tornaram-se jargões entre os profissionais frases como “Não existe essa coisa de violência institucional. Isso é coisa de Internet”. Ou então diziam, com um supremo desprezo, “Quem te falou isso das episiotomias? O Dr. Google?”.

Não há mais como desprezar o poder da mobilização da Internet e das redes sociais. Ano passado em questão de poucas horas o NuPar – Núcleo de Parteria Urbana da ReHuNa – mobilizou milhares de pessoas em 32 cidades (31 no Brasil e uma na Itália) contra um ato de terrorismo de uma corporação do centro do país, que desejava impedir a livre manifestação de opinião, agredindo um dos pilares da democracia. Milhares marcharam contra a arrogância e a prepotência e a favor das escolhas informadas, o protagonismo feminino no nascimento e o embasamento das condutas em boa ciência.

Os movimentos de conscientização na Internet mudaram a face da democracia. Ela não se expressa mais apenas através dos modelos partidários e da união em torno de megaprojetos. Não temos apenas este meio de expressão. Hoje podemos mobilizar multidões para projetos específicos, como a defesa de um colega que está sendo vítima de perseguição por uma entidade profissional, como vimos no Rio de Janeiro, ou contra práticas abusivas como episiotomias, Kristelleres, cesarianas, e até contra ilegalidades, como o impedimento ao acompanhante no parto.

Não precisamos mais aguardar a manifestação de um “representante” do nosso partido: somos todos protagonistas da mudança. Cada um de nós tem seu próprio megafone, sua arma contra as injustiças e seu fuzil contra a barbárie. As vozes multiplicadas amplificam os desejos e mostram uma nova face na participação social. Estamos num verdadeiro “admirável mundo novo”, mas prefiro acreditar que se trata de um mundo mais justo, mais responsável e mais participativo, onde as palavras de todos receberão acolhimento e respeito.

(Para ler sobre a “Revolução da Internet” leia a coluna de Juremir no Correio do Povo em http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=4409)

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Presentes da Vida

Barriga-de-grávida
O quanto de desejo se esconde numa barriga?

O quanto de desejo se esconde em uma barriga?

Poucas mulheres, percentualmente, chegam ao meu consultório “planejando” engravidar. A ideia de uma preparação prévia, que poderia ser o modelo mais racional possível,  não é o mais prevalente. A maioria das mulheres chega à primeira consulta com um papelzinho na mão e um sorriso maroto nos lábios. As explicações são variadas, mas contém uma linha que pode ser percebida nos espaços dos discursos. “Não estávamos pensando para agora, mas já que veio, que seja bem recebido“. Ou então “Ah, estávamos com uma relação cheia de idas e vindas, e eu acabei engravidando numa dessas voltas“. As gravidezes nos surpreendem mais do que seria de esperar. Afinal, se temos tanta informação, como podemos cair nas artimanhas de uma gestação “fora de hora”?

Todavia, existe mais em nossas ações do que a fina e tênue camada de racionalidade que nos recobre. O que eu percebo, de forma clara e intensa, é que o desejo é o mestre soberano a comandar nossas ações. Essas determinações inconscientes são o vento que empurra a embarcação da vida, e a nossa consciência não passa de um tímido leme, pequeno e frágil, que apenas corrige, quando possível, as rotas sopradas.

Aliás, ainda bem. A previsibilidade racional da vida sempre me assustou. Quando vejo a ponta do desejo aparecendo na teia do cotidiano eu penso na arquitetura inconsciente que arbitra a existência, para além do pensado e planejado. Como diria uma colega psicanalista, “não existem gravidezes indesejadas, apenas aquelas em que o desejo não ascendeu à consciência“. E, nas gestações assim como em outros aspectos da sexualidade humana, a libido se manifesta à despeito da vontade expressa, comandando nossa vida adiante do que as conveniências determinam. Se pode ser adequado, tanto do ponto de vista da saúde como dos aspectos logísticos, um planejamento gestacional, eu ainda consigo ver uma beleza recôndita nas surpresas que a vida reserva, pois elas mostram a roupagem mais humana que vestimos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Belo e Triste

Blade Runner
Agarrado à vida, o replicante espera o derradeiro momento.

Como pode algo ser tão bonito e tão triste ao mesmo tempo?

E porque por tantas vezes tais momentos se conjugam, bizarramente acoplados na teia do tempo? São eventos que parecem nos falar de uma beleza estranha, que se esconde atrás de momentos tão solidamente tristes a ponto de baterem contra o nosso peito como um tijolo arremessado pelo destino.

Mas, se a escolha do olhar ainda me pertence, prefiro enxergar aquilo que verte de belo e resplandecente no breu das lágrimas.

Vi Blade Runner, de Ridley Scott, na adolescência, e a cena final nunca me saiu da memória. O desespero do protagonista, o replicante Roy Batty – o melhor trabalho do Rutger Hauer para o cinema – para descobrir o sentido da vida, que só poderia ser elucidado através da morte, sempre me tocou de uma forma muito especial. As memórias, os amores, as tristezas, as alegrias, as perdas, os fracassos e as vitórias, todas elas desaparecendo, diluindo-se como lágrimas na chuva no triste momento do “desligamento”. E o apego à vida, qualquer uma, mesmo à vida daquele a quem pretendia matar. O replicante salvou seu desafeto porque viu nele algo precioso demais para ser desperdiçado: a própria Vida, preciosa por ser frágil, que agora se esvaía melancolicamente de seu corpo de máquina. Momento épico do cinema…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos