Por que as pessoas evitam ao máximo consultas médicas?
O problema é o choque hierárquico, o saber que se faz autoritário de um sujeito sobre o corpo de outro. Também tem a ver com a insensibilidade com o sofrimento do paciente causada pelo afastamento afetivo característico da medicina. Esta distância, por fim acaba por obliterar a empatia que deveria fluir em todo encontro interpessoal.
A impotência que o paciente é levado a sentir, na medida em que suas perspectivas são frequentemente negligenciadas, é algo que dói no corpo, e portanto retarda a chegada ao profissional, o que obstrui muitos tratamentos. E não é por negligência com a própria saúde, mas por um mecanismo bem compreensível de defesa.
Nesse terreno os homens são muito mais afetados porque na cultura patriarcal abrir mão da autonomia sobre o próprio corpo é muito mais grave quando se trata do corpo masculino.
Não creio que a mudança deve partir dos pacientes através do aumento da confiança ou forçando docilidade diante dos médicos. Não, deve ser um movimento de pressão por parte dos clientes dos serviços de saúde, exigindo uma medicina menos tecnocrática e mais voltada às necessidades subjetivas de cada sujeito enfermo.
No YouTube vejo mil cursos dizendo para você crescer, sair da sua “zona de conforto”, ser um vencedor e conquistar aquilo que você merece e que só não ganha por preguiça – ou falta de oportunidade. A totalidade deles se baseia na ideia de que você pode ganhar o dinheiro que os outros estão perdendo, aprender a lucrar com as brechas do sistema financeiro, lucrar com “mercados emergentes”, se fartar na flutuação da bolsa ou encher o c* de bitcoins, bastando para isso entender as manhas do grandes vencedores.
Tudo isso terá como resultado final ganhar muito dinheiro, vencer na vida, ser reconhecido, ficar famoso, usar uma peruca legal, viajar pelo mundo, conhecer mulheres incríveis em seus biquínis minúsculos deitadas de bunda pra cima na proa da sua lancha ancorada em uma praia do Mediterrâneo. E eu achando que uma utopia bem mais divertida seria ir com os meus netos passar um fim de semana na praia do Pinhal ou visitar a concha acústica de Cidreira.
O filme da Barbie é o perfeito exemplo da concessão burguesa à crítica sobre seus postulados. Na verdade, nada de muito novo, já que esta estratégia pode ser reconhecida em uma figura que se destaca nos relatos da idade média. É a figura do Bobo da Corte.
Esse sujeito, um palhaço, tinha a especial concessão de debochar do Rei e de outros membros da Corte. Podia fazer piadas sobre sua volumosa pança, suas amantes, sua sujeira, seus modos à mesa. Podia falar de sua inabilidade esportiva e até de sua potência sexual – tudo isso como recheio para suas piadas e chistes. Essa prática era usada para humanizar a figura do monarca, trazê-lo para perto do povo e mostrar o quanto era permeável às críticas e reclamações. Entretanto, havia um limite tácito às bobagens.
Seus gracejos jamais poderiam mostrar ao povo a injustiça de uma sociedade separada entre nobres e plebeus e em hipótese alguma questionar a Realeza e seus direitos divinos. Critique-se o Rei, mas jamais questione sua condição de Rei e a estrutura de classes que determina o ordenamento social. Por isso não deveria causar espanto algum que o Rei pagasse muito bem para alguém falar mal dele, e nem que hoje a Mattel faça um filme que questione a própria Barbie, ao mesmo tempo em que lucra milhões com isso.
É por essa singela razão que os americanos podem fazer tantos filmes críticos à guerra e ao mesmo tempo viver em guerra incessante contra nações autônomas e independentes. O mesmo modelo usado desde muitos séculos, não? Eles bem sabem que as críticas servem para oferecer aos sujeitos (nós) a ideia de que algo está sendo feito e que o poder instituído escuta nossos apelos, quando em verdade tudo o que fazem visa manter este poder intocado. Ou seja: questione-se a estupidez da guerra, mas o limite da crítica é o imperialismo e a consciência dos povos periféricos. Por isso Hollywood pode fazer filmes que esculhambam a própria indústria cinematográfica, desde que não atinjam sua pervasividade no mundo e sua forte propaganda burguesa.
O mesmo ocorre com a democracia liberal: podemos questionar, brigar, acusar, protestar livremente. Ninguém vai reclamar das críticas, mas esse modelo vale apenas quando os conservadores e liberais vencem, e até quando a vitória é da “esquerda moderna”, como Boric, que jamais vai atacar as estruturas da sociedade de classes. Entretanto, se os setores excluídos são minimamente representados e a mais suave ameaça ocorre ao sistema excludente e concentrador do rentismo, imediatamente soa o “alarme de ameaça comunista”, e não há problema algum em apelar para um iletrado e ignorante como Bolsonaro para “salvar a liberdade”. E se isso falhar, não haverá escrúpulo algum em chamar os militares para que venham “assegurar os valores democráticos” – através de uma ditadura.
Barbie apresenta essa miragem de renovação e empoderamento, reforçando as bases estruturantes do capitalismo – onde tudo vira mercadoria – enquanto oferece aos revolucionários da poltrona a miragem de que algo real está sendo feito para mudar o mundo. Essa sociedade capitalista precisa de pessoas que se contentam com os Bobos da Corte e suas piadas ácidas… e inúteis.
Apenas imaginem um clube que, em função do poderio econômico, construído durante décadas, consegue manter 5 grandes jogadores, de nível de seleção jogando juntos. Todos eles recebem propostas do exterior, mas seus salários já são muito altos aqui, o que impede a troca constante de peças. Isso faz com que o conjunto se mantenha, os jogadores se conhecem, as jogadas fluem com mais facilidade.
Não há nenhum mistério. Times ricos fazem isso, enquanto os times remediados precisam passar pelo terror de vender seus melhores jogadores a cada janela de transferência, e isso apenas para pagar suas contas. E aí entra um novo jogador com a necessária adaptação física, psicológica, social, afetiva e com o modo de jogar do resto da equipe.
A diferença é econômica. Nada a ver com as táticas mirabolantes, técnicos que hablan, modelos europeus de gestão, psicólogos, nutricionistas, etc, mesmo que TODAS estas alternativas sejam importantes e significativas.
Mariah Carey, cantora americana vencedora de vários Grammy, processou Jack Packer, seu ex-marido milionário, e ganhou por volta de 5 milhões de dólares (a pedida inicial era de 50 milhões) com o argumento de que ele, durante o tempo em que passaram juntos, “desperdiçou o tempo dela”. Ela ainda manteve consigo o anel de noivado que o namorado a havia presenteado, cuja avaliação supera os 10 milhões de dólares. O argumento utilizado pela estrela da música foi de que o ex-marido teria feito ela se mudar de Nova York para Los Angeles, e que isso teria atrapalhado sua vida.
Outro argumento é de que seu ex havia feito alguns comentários desagradáveis para uma de suas assistentes durante suas férias na Grécia, o que teria lhe causado desgostos e o cancelamento de shows na América do Sul. Sobre o tema a única coisa realmente relevante é a forma de tratar um antigo parceiro: “alguém que atrapalhou sua vida financeira, desperdiçando seu precioso tempo”. A respeito desse embate sobre as sobras de um relacionamento li algumas piadas (e as piadas são sempre sagradas), alguns chistes e vários comentários maldosos sobre a Diva, mas muitas mulheres comemoraram a decisão. Afinal, quem não se sente representada? Quem não olhou para o seu marido Ken e pensou: “Esse cara é um atraso na minha vida de Barbie”? Pois eu pergunto: deveriam comemorar? O simples fato de penalizar um homem que é descartado vale essa sensação de revanche?
Eu creio que essa comemoração não tem muito sentido. Esse tipo de processo acaba fomentando ainda mais a ideia de que o casamento, para os homens em especial, está se tornando um péssimo investimento. A queda vertiginosa no número de casamentos pode estar relacionada com o risco que se cria entre eles de que suas vidas financeiras poderão ser destruídas pela parceira, levando a uma percepção negativa dos compromissos e dos laços familiares. No final resta a pergunta: que tipo de vantagem para as simples mulheres mortais representa essa “vitória” de uma rica artista americana?
Não se trata de voltar no tempo, imaginando ser possível resgatar um passado de “equilíbrio” e paz na família. Freud, em especial, ao analisar a histeria na virada do século XIX para o século XX, mostrou que a construção da família mononuclear é um projeto calcado na repressão e na opressão da sexualidade, e jamais poderia ser considerada um modelo perfeito de estrutura social. A histeria foi, portanto, a forma de desvelar a estrutura corroída da família mononuclear. Entretanto, a monetarização da vida, a transformação de afetos em mercadoria e a indenização pelo tempo compartilhado mostram que invadimos um terreno perigoso, onde a vida passa a ser mensurada muito mais pelas questões econômicas envolvidas do que pela intensidade das emoções vividas.
Na estrutura capitalista da vida cotidiana resta o fato de que, na sua ponta mais extremada, os afetos se transformam em excremento, tudo vira dinheiro, nada resta, nada deixa marcas e os amores se dissolvem como areia ao vento.
A minha tese é que o capitalismo se mantém exatamente por seduzir milhões a serem voluntariamente controlados por ele. Ou seja, uma servidão inteligente e civilizada, que dispensa os grilhões. O frisson atual pela Barbie usa a estratégia de questionar os valores da Barbie para, ao fim, valorizá-la, torná-la ainda mais rentável, vender ainda mais e, quiçá, até transformá-la em um ícone feminista. É possível até imaginar que a gente veja em um futuro próximo mais garotas ostentando camisetas da “Barbie Empoderada” do que usando as manjadas Madonna e Frida Kahlo.
E para quem acha que as mulheres sofrem porque estão sempre tentando se adaptar às exigências do patriarcado, pensem na pessoa que elogia Pablo Vittar e assiste o filme da Barbie só para não correr o risco de ser chamado de transfóbico e machista. É duro manter as aparências, viu gente?
Aliás, a sacada mais genial do marketing do filme foi criar o factoide de que “os evangélicos estavam se mobilizando para boicotar o filme”. Ou seja, tentaram transformar o filme sobre uma boneca anatomicamente bizarra em uma arma cultural. Mas sabe o que é pior que o mi-mi-mi de gente chata que não aceita o conteúdo e fica reclamando do filme da Barbie? Resposta: Gente que não suporta que se critique o filme da Barbie e dá xilique público.
“Se não gosta, não veja o filme. Se não suporta a crítica, não leia”. Ou, alternativamente, veja o filme e leia as críticas. Seja… forte.
Não adianta tentar passar pano… não consigo aceitar esse tipo de preconceito. Passei anos escutando as jogadoras de futebol insinuando que receber menos para jogar futebol do que recebem os homens era algo errado, uma disparidade injusta. Afinal, elas estariam sendo mercenárias por quererem mais dinheiro para jogar? Desejar ser bem pago pelo seu trabalho é uma falha moral? Por acaso as mulheres são mais dedicadas, éticas, corretas do que os homens? Mulheres amam o esporte e homens só o dinheiro?
Os homens têm uma história muito mais antiga com os esportes profissionais, enquanto as mulheres somente há pouco foram se profissionalizando. Todavia, a forma como nos adaptamos à realidade do capitalismo tem a ver com o mercado, não as questões morais. Nada me faz crer que as garotas seriam diferente dos rapazes se fossem colocadas diante dos mesmos dilemas, negociando premiações, salários, “bichos”, etc. Por acaso Serena Williams não se dedica ao esporte de maneira profissional, sendo regiamente paga pelas raquetadas que dá? Por acaso jogaria de graça? É possível dizer que a grande tenista é uma mercenária, uma “vendida”?
Como seria chamado um homem que fizesse uma postagem semelhante a essa, desmerecendo as qualidades morais das mulheres e enaltecendo a dedicação e o caráter dos homens, criando entre os gêneros uma barreira de ordem ética? Tem um nome para isso, não?
Minha tese é que estas publicações sexistas, ao invés de exaltarem as mulheres, apenas validam o machismo.
Estudos sobre os significados sociais e culturais do futebol são – sem dúvida alguma – muito necessários, profundos, interessantes e criativos. Por certo que deve haver milhares já feitos e sendo produzidos nos cursos de ciências sociais. Até eu, no meu primeiro livro, descrevia as torres de iluminação dos estádios como “enormes colunas de artilharia para o ataque aos inimigos”. Tudo é metáfora no futebol (até o goleiro, que na minha juventude, se chamava “arqueiro”), e tudo nos mostra o uso do “esportes bretão” para a sublimação dos nossos pendores violentos, e isso se manifesta através da “guerra” entre bandeiras e comunidades.
Torcer por um clube tem a ver com a socialização, a herança simbólica e a produção de laços sociais. Os clubes nada mais são que clãs modernos, cuja história e grandeza são formadas por episódios épicos, elementos fundadores e atos do mais intenso heroísmo – pense na Batalha dos Aflitos, por exemplo, onde um time ganhou – e se tornou campeão – com 7 jogadores em campo, diante de um estádio lotado de torcedores adversários. São histórias recheadas de narrativas trágicas, lendas fabricadas e mitos, como o de Eurico Lara, lendário arqueiro do Grêmio, corroído pela tuberculose, que defendeu um pênalti no Grenal do centenário Farroupilha (1935), expeliu uma lufada de sangue após defender o tiro livre, saiu do estádio direto para o hospital e morreu pouco tempo depois em decorrência dessa doença. Existe algo mais heroico e dramático que isso?
Desculpe, como sou gremista trago as mitologias do Imortal, mas todos os grandes clubes as têm.
Trata-se de uma narrativa moderna de recuperação, derrotas incessantes e vitórias redentoras. O futebol é a mitologia moderna mais elaborada. Tivesse sido inventado há três mil anos e a guerra de Tróia sequer teria existido, e a charmosa Helena teria sido disputada em uma final com turno e returno, gol qualificado, VAR, com direito a pressão sobre a arbitragem e disputa milionária pelos direitos de televisionamento.
Longa vida ao futebol, e abaixo o futebol moderno.
Quando eu era estudante de medicina tive como colega um rapaz que foi trabalhar com futebol. Coube a ele ser auxiliar do departamento de futebol feminino de um clube da capital. Por convite dele comecei a assistir as partidas de futebol feminino da minha cidade que, naquela época, passavam na TV local (TVCom, talvez?). Bem, há 40 anos o futebol feminino era praticamente um espetáculo humorístico. As meninas não tinham a mais leve noção de como se pratica futebol. Passes errados, chutes ridículos, erros na interpretação de regras simples e total falta de preparo físico. Pareciam crianças de 4-5 anos jogando na pracinha. Uma coisa que me chamava muito a atenção ao assistir os jogos era a quantidade de vezes que se estatelavam no campo e chamavam os médicos – no caso, o meu colega. Ele me contou que faziam isso porque lhes parecia uma boa ideia para descansar, mas também porque “tinham direito”.
Hoje em dia é fácil perceber o quanto o futebol feminino evoluiu, e me arrisco a dizer que é a prática esportiva que mais progrediu nos últimos anos. Em nenhum outro esporte popular se constatou tamanha diferença estética, técnica, tática e física do que no futebol feminino. Apesar dessa inegável evolução, é equivocado tentar fazer paralelos com o futebol masculino, porque são “reinos” distintos. O futebol que as melhores jogadoras do mundo praticam é equivalente ao futebol de meninos de menos de 15 anos, que sequer terminaram a puberdade. Um século e meio de prática entre os homens e as notáveis diferenças físicas são determinantes.
Usando os mesmos argumentos morais que via de regra aparecem nos debates, alguns defensores do futebol feminino afirmam que nenhuma jogadora se joga ao solo simulando lesões como Neymar (vide ao lado). A verdade é que nenhuma jogadora sabe explorar a torcida e condicionar a arbitragem como Neymar – e outros tantos craques do futebol – o fazem. Todavia, no dia em que houver torcida, pressão, dinheiro “de verdade” e emoção à flor da pele as mulheres serão levadas a aprender esse recurso. Com o tempo as mulheres aprenderam a usar o recurso da violência, porque seria diferente com a catimba?
Por outro lado, a idealização do futebol feminino ainda é muito irracional. Apenas analisem dessa forma: na várzea e nos jogos entre amigos de fim de semana também não há jogador que fica rolando no gramado e as faltas nunca são teatralizadas, mas é porque se trata de várzea mesmo, se joga por cerveja, por diversão – ou por nada. No profissionalismo – onde as mulheres recém estão chegando – é muito diferente; os valores são distintos e as pressões incomparavelmente mais fortes. E basta ver cinco minutos de jogos de mulheres para ver como elas estão aos poucos se adaptando ao “ethos” do futebol, com faltas, violência e a famosa malandragem, inclusive essa de ficar rolando no gramado após uma falta para condicionar o juiz.
Aliás, nenhuma jogadora apanha 10% do que o Neymar apanha, e não fazem isso porque são mais éticas, educadas, compreensivas ou corretas. Não, isso não acontece apenas porque até para bater é preciso experiência. A distância entre o futebol dos homens é física, por certo, mas também é temporal. Faltam muitos anos de prática para o futebol das mulheres se tornar semelhante ao masculino. No momento eles são tão distantes que é injusto comparar os jogos, traçando paralelos entre o que ocorre nos jogos dos homens e das mulheres, pois isso só serve para desmerecer a incrível evolução que ocorreu nos últimos anos no futebol feminino.
Digo sobre o futebol feminino o mesmo que digo sobre qualquer conquista feminina: achar que o futebol feminino ficará melhor desmerecendo o futebol e os craques masculinos é um erro absurdo, que gera ressentimento e afasta aqueles que admiram futebol praticado por mulheres. Melhor é fazer como a empresa francesa de telefonia Orange, que mostrou como é possível fazer o grande contingente de torcedores do futebol masculino admirarem o futebol cada vez mais técnico e vistoso das mulheres.
Quem nunca escutou durante a infância a história dos três porquinhos e suas casas de diferentes tipos? Estima-se que a primeira versão desta história infantil tenha surgido por volta dos século X e XI da nossa era. Sua autoria não é conhecida, mas sua origem é anglo-saxônica. Em 1383 foi feita uma adaptação de Os Três Porquinhospara teatro, e mais recentemente, em 1890, o conto foi popularizado depois de ter sido reescrito por Joseph Jacobs. Mas, qual o sentido último dessa história? Seria a fábula dos três porquinhos uma propaganda de materiais de construção ou uma simples leitura da história a partir dos modos de construir abrigos?
Não creio que a verdade esteja tão à superfície. A história dos três porquinhos é rica em simbolismos, e a interpretação que mais me atrai é uma que me foi contada por Robbie Davis-Floyd, antropóloga de nascimento e reprodução de Austin – Texas. Sua perspectiva nos fala dessa história multimilenar como se referindo ao processo de desenvolvimento da relação dos humanos com a natureza, na época em que houve a mais significativa revolução de nossa história, 100 séculos atrás. Não esqueçam que esta história é muito mais antiga do que a nossa memória é capaz de captar, e sua sobrevivência no “catálogo” de histórias contadas em tantas latitudes apenas nos comprova a força dos simbolismos que ela carrega.
O primeiro porquinho, aquele que constrói a casa de palha, representa nessa história os caçadores coletores, humanos primitivos que usavam a estratégia de sobrevivência mais longeva que a nossa espécie utilizou, dominante por 95% do tempo em que habitamos a Terra. Nossos ancestrais construíam casas de um material simples e frágil porque necessitavam de abrigo somente por um ou dois dias, o tempo para recuperar suas energias das longas caminhadas em busca de comida e proteção das intempéries. Como eram nômades, não havia porque criarem casas que seriam imediatamente abandonadas assim que ficassem escassas a caça e a coleta de frutos, folhas e raízes.
O segundo porquinho é o que constrói as casas de madeira, o pastoralista. Após a revolução do neolítico e ao adquirirmos a capacidade de domesticação de plantas e animais, o pastoralista (atual pecuarista) precisava de habitações sazonais, ou seja, casas de madeira que durassem por um tempo maior, o qual era determinado pelas estações do ano e pelas pastagens para alimentar seus rebanhos. A casa de madeira do segundo porquinho simboliza a morada temporária dos vaqueiros e pastores que viajavam muitos quilômetros para levar seus animais para locais distantes, mas que seriam demolidas tão logo fosse adequado voltar para casa. Pela sua alta mobilidade, os pastoralistas foram grandes impulsionadores da migração da espécie humana. Na Idade Média, Genghis Khan, já no século XIII, foi originalmente um pastor que se transformou em guerreiro porque esta atividade necessita de terras, propriedades, pastagens e, portanto, conquistas bélicas para se estabelecer. Suas conquistas levaram genes mongóis para boa parte do leste europeu.
Por último, o porquinho da casa de alvenaria representa a agricultura, o ponto principal da revolução do neolítico. Com a domesticação das espécies vegetais, e o controle da sua reprodução em benefício do homem, tornou-se mais vantajoso manter-se ao lado de sua plantação do que mover-se constantemente para colher espécies silvestres e nativas. Com a sedentarização e a fixação do homem na terra criou-se uma estrutura social absolutamente diferente da anterior, e por isso pode-se entender o surgimento da agricultura como uma verdadeira “revolução”- certamente a maior de todas em sua amplitude de consequências. Com ela veio a noção de posse, a divisão de trabalho e de poderes e o patriarcado, que cuidava das mulheres como “matrizes” e controlava a descendência. As relações econômicas estariam radicalmente modificadas para sempre através da emergência da agricultura e da criação de animais como processos econômicos, com evidentes consequências civilizatórias.
E o “Lobo Mau”, o que representa? Ora, ele é a representação das forças erráticas da natureza, contra quem o homem eternamente se digladia. É evidente que a história dos “Três Porquinhos” exalta as casas de alvenaria, mostrando que elas seriam as mais eficientes para derrotar o lobo mau. Desta forma coloca a agricultura como a mais elevada forma de relação com a Terra. Em verdade essa história tenta vender a vida “civilizada” e sedentária como sendo superior à vida total ou parcialmente nômade. Entretanto, esta opção nunca será unânime entre os civilizados, pois que todos nós, de uma forma mais ou menos intensa, nos ressentimos pela desconexão com a natureza que hoje temos, muito diferente da ligação que os modelos anteriores nos garantiam.
* Os nomes dos três porquinhos em português são Cícero, Heitor e Prático, por ordem de aparição (palha, madeira e tijolos). Já em uma versão em inglês eles são chamados pelos instrumentos que tocam “Fifer” (flautista), “Fidler” (rabeca) e …. “Practical” (prático), que não toca nenhum instrumento por usar a lógica e a razão para construir sua morada. Em outra versão, mais antiga, são chamados de “Browny”. “Whitey” e “Blacky”, mas hoje seria proibitivo usar cores para descrever os porquinhos. Também em versões antigas o inimigo dos porquinhos é uma raposa, e não um lobo.