A minha tese é que o capitalismo se mantém exatamente por seduzir milhões a serem voluntariamente controlados por ele. Ou seja, uma servidão inteligente e civilizada, que dispensa os grilhões. O frisson atual pela Barbie usa a estratégia de questionar os valores da Barbie para, ao fim, valorizá-la, torná-la ainda mais rentável, vender ainda mais e, quiçá, até transformá-la em um ícone feminista. É possível até imaginar que a gente veja em um futuro próximo mais garotas ostentando camisetas da “Barbie Empoderada” do que usando as manjadas Madonna e Frida Kahlo.
E para quem acha que as mulheres sofrem porque estão sempre tentando se adaptar às exigências do patriarcado, pensem na pessoa que elogia Pablo Vittar e assiste o filme da Barbie só para não correr o risco de ser chamado de transfóbico e machista. É duro manter as aparências, viu gente?
Aliás, a sacada mais genial do marketing do filme foi criar o factoide de que “os evangélicos estavam se mobilizando para boicotar o filme”. Ou seja, tentaram transformar o filme sobre uma boneca anatomicamente bizarra em uma arma cultural. Mas sabe o que é pior que o mi-mi-mi de gente chata que não aceita o conteúdo e fica reclamando do filme da Barbie? Resposta: Gente que não suporta que se critique o filme da Barbie e dá xilique público.
“Se não gosta, não veja o filme. Se não suporta a crítica, não leia”. Ou, alternativamente, veja o filme e leia as críticas. Seja… forte.
Não adianta tentar passar pano… não consigo aceitar esse tipo de preconceito. Passei anos escutando as jogadoras de futebol insinuando que receber menos para jogar futebol do que recebem os homens era algo errado, uma disparidade injusta. Afinal, elas estariam sendo mercenárias por quererem mais dinheiro para jogar? Desejar ser bem pago pelo seu trabalho é uma falha moral? Por acaso as mulheres são mais dedicadas, éticas, corretas do que os homens? Mulheres amam o esporte e homens só o dinheiro?
Os homens têm uma história muito mais antiga com os esportes profissionais, enquanto as mulheres somente há pouco foram se profissionalizando. Todavia, a forma como nos adaptamos à realidade do capitalismo tem a ver com o mercado, não as questões morais. Nada me faz crer que as garotas seriam diferente dos rapazes se fossem colocadas diante dos mesmos dilemas, negociando premiações, salários, “bichos”, etc. Por acaso Serena Williams não se dedica ao esporte de maneira profissional, sendo regiamente paga pelas raquetadas que dá? Por acaso jogaria de graça? É possível dizer que a grande tenista é uma mercenária, uma “vendida”?
Como seria chamado um homem que fizesse uma postagem semelhante a essa, desmerecendo as qualidades morais das mulheres e enaltecendo a dedicação e o caráter dos homens, criando entre os gêneros uma barreira de ordem ética? Tem um nome para isso, não?
Minha tese é que estas publicações sexistas, ao invés de exaltarem as mulheres, apenas validam o machismo.
Estudos sobre os significados sociais e culturais do futebol são – sem dúvida alguma – muito necessários, profundos, interessantes e criativos. Por certo que deve haver milhares já feitos e sendo produzidos nos cursos de ciências sociais. Até eu, no meu primeiro livro, descrevia as torres de iluminação dos estádios como “enormes colunas de artilharia para o ataque aos inimigos”. Tudo é metáfora no futebol (até o goleiro, que na minha juventude, se chamava “arqueiro”), e tudo nos mostra o uso do “esportes bretão” para a sublimação dos nossos pendores violentos, e isso se manifesta através da “guerra” entre bandeiras e comunidades.
Torcer por um clube tem a ver com a socialização, a herança simbólica e a produção de laços sociais. Os clubes nada mais são que clãs modernos, cuja história e grandeza são formadas por episódios épicos, elementos fundadores e atos do mais intenso heroísmo – pense na Batalha dos Aflitos, por exemplo, onde um time ganhou – e se tornou campeão – com 7 jogadores em campo, diante de um estádio lotado de torcedores adversários. São histórias recheadas de narrativas trágicas, lendas fabricadas e mitos, como o de Eurico Lara, lendário arqueiro do Grêmio, corroído pela tuberculose, que defendeu um pênalti no Grenal do centenário Farroupilha (1935), expeliu uma lufada de sangue após defender o tiro livre, saiu do estádio direto para o hospital e morreu pouco tempo depois em decorrência dessa doença. Existe algo mais heroico e dramático que isso?
Desculpe, como sou gremista trago as mitologias do Imortal, mas todos os grandes clubes as têm.
Trata-se de uma narrativa moderna de recuperação, derrotas incessantes e vitórias redentoras. O futebol é a mitologia moderna mais elaborada. Tivesse sido inventado há três mil anos e a guerra de Tróia sequer teria existido, e a charmosa Helena teria sido disputada em uma final com turno e returno, gol qualificado, VAR, com direito a pressão sobre a arbitragem e disputa milionária pelos direitos de televisionamento.
Longa vida ao futebol, e abaixo o futebol moderno.
Quando eu era estudante de medicina tive como colega um rapaz que foi trabalhar com futebol. Coube a ele ser auxiliar do departamento de futebol feminino de um clube da capital. Por convite dele comecei a assistir as partidas de futebol feminino da minha cidade que, naquela época, passavam na TV local (TVCom, talvez?). Bem, há 40 anos o futebol feminino era praticamente um espetáculo humorístico. As meninas não tinham a mais leve noção de como se pratica futebol. Passes errados, chutes ridículos, erros na interpretação de regras simples e total falta de preparo físico. Pareciam crianças de 4-5 anos jogando na pracinha. Uma coisa que me chamava muito a atenção ao assistir os jogos era a quantidade de vezes que se estatelavam no campo e chamavam os médicos – no caso, o meu colega. Ele me contou que faziam isso porque lhes parecia uma boa ideia para descansar, mas também porque “tinham direito”.
Hoje em dia é fácil perceber o quanto o futebol feminino evoluiu, e me arrisco a dizer que é a prática esportiva que mais progrediu nos últimos anos. Em nenhum outro esporte popular se constatou tamanha diferença estética, técnica, tática e física do que no futebol feminino. Apesar dessa inegável evolução, é equivocado tentar fazer paralelos com o futebol masculino, porque são “reinos” distintos. O futebol que as melhores jogadoras do mundo praticam é equivalente ao futebol de meninos de menos de 15 anos, que sequer terminaram a puberdade. Um século e meio de prática entre os homens e as notáveis diferenças físicas são determinantes.
Usando os mesmos argumentos morais que via de regra aparecem nos debates, alguns defensores do futebol feminino afirmam que nenhuma jogadora se joga ao solo simulando lesões como Neymar (vide ao lado). A verdade é que nenhuma jogadora sabe explorar a torcida e condicionar a arbitragem como Neymar – e outros tantos craques do futebol – o fazem. Todavia, no dia em que houver torcida, pressão, dinheiro “de verdade” e emoção à flor da pele as mulheres serão levadas a aprender esse recurso. Com o tempo as mulheres aprenderam a usar o recurso da violência, porque seria diferente com a catimba?
Por outro lado, a idealização do futebol feminino ainda é muito irracional. Apenas analisem dessa forma: na várzea e nos jogos entre amigos de fim de semana também não há jogador que fica rolando no gramado e as faltas nunca são teatralizadas, mas é porque se trata de várzea mesmo, se joga por cerveja, por diversão – ou por nada. No profissionalismo – onde as mulheres recém estão chegando – é muito diferente; os valores são distintos e as pressões incomparavelmente mais fortes. E basta ver cinco minutos de jogos de mulheres para ver como elas estão aos poucos se adaptando ao “ethos” do futebol, com faltas, violência e a famosa malandragem, inclusive essa de ficar rolando no gramado após uma falta para condicionar o juiz.
Aliás, nenhuma jogadora apanha 10% do que o Neymar apanha, e não fazem isso porque são mais éticas, educadas, compreensivas ou corretas. Não, isso não acontece apenas porque até para bater é preciso experiência. A distância entre o futebol dos homens é física, por certo, mas também é temporal. Faltam muitos anos de prática para o futebol das mulheres se tornar semelhante ao masculino. No momento eles são tão distantes que é injusto comparar os jogos, traçando paralelos entre o que ocorre nos jogos dos homens e das mulheres, pois isso só serve para desmerecer a incrível evolução que ocorreu nos últimos anos no futebol feminino.
Digo sobre o futebol feminino o mesmo que digo sobre qualquer conquista feminina: achar que o futebol feminino ficará melhor desmerecendo o futebol e os craques masculinos é um erro absurdo, que gera ressentimento e afasta aqueles que admiram futebol praticado por mulheres. Melhor é fazer como a empresa francesa de telefonia Orange, que mostrou como é possível fazer o grande contingente de torcedores do futebol masculino admirarem o futebol cada vez mais técnico e vistoso das mulheres.
Quem nunca escutou durante a infância a história dos três porquinhos e suas casas de diferentes tipos? Estima-se que a primeira versão desta história infantil tenha surgido por volta dos século X e XI da nossa era. Sua autoria não é conhecida, mas sua origem é anglo-saxônica. Em 1383 foi feita uma adaptação de Os Três Porquinhospara teatro, e mais recentemente, em 1890, o conto foi popularizado depois de ter sido reescrito por Joseph Jacobs. Mas, qual o sentido último dessa história? Seria a fábula dos três porquinhos uma propaganda de materiais de construção ou uma simples leitura da história a partir dos modos de construir abrigos?
Não creio que a verdade esteja tão à superfície. A história dos três porquinhos é rica em simbolismos, e a interpretação que mais me atrai é uma que me foi contada por Robbie Davis-Floyd, antropóloga de nascimento e reprodução de Austin – Texas. Sua perspectiva nos fala dessa história multimilenar como se referindo ao processo de desenvolvimento da relação dos humanos com a natureza, na época em que houve a mais significativa revolução de nossa história, 100 séculos atrás. Não esqueçam que esta história é muito mais antiga do que a nossa memória é capaz de captar, e sua sobrevivência no “catálogo” de histórias contadas em tantas latitudes apenas nos comprova a força dos simbolismos que ela carrega.
O primeiro porquinho, aquele que constrói a casa de palha, representa nessa história os caçadores coletores, humanos primitivos que usavam a estratégia de sobrevivência mais longeva que a nossa espécie utilizou, dominante por 95% do tempo em que habitamos a Terra. Nossos ancestrais construíam casas de um material simples e frágil porque necessitavam de abrigo somente por um ou dois dias, o tempo para recuperar suas energias das longas caminhadas em busca de comida e proteção das intempéries. Como eram nômades, não havia porque criarem casas que seriam imediatamente abandonadas assim que ficassem escassas a caça e a coleta de frutos, folhas e raízes.
O segundo porquinho é o que constrói as casas de madeira, o pastoralista. Após a revolução do neolítico e ao adquirirmos a capacidade de domesticação de plantas e animais, o pastoralista (atual pecuarista) precisava de habitações sazonais, ou seja, casas de madeira que durassem por um tempo maior, o qual era determinado pelas estações do ano e pelas pastagens para alimentar seus rebanhos. A casa de madeira do segundo porquinho simboliza a morada temporária dos vaqueiros e pastores que viajavam muitos quilômetros para levar seus animais para locais distantes, mas que seriam demolidas tão logo fosse adequado voltar para casa. Pela sua alta mobilidade, os pastoralistas foram grandes impulsionadores da migração da espécie humana. Na Idade Média, Genghis Khan, já no século XIII, foi originalmente um pastor que se transformou em guerreiro porque esta atividade necessita de terras, propriedades, pastagens e, portanto, conquistas bélicas para se estabelecer. Suas conquistas levaram genes mongóis para boa parte do leste europeu.
Por último, o porquinho da casa de alvenaria representa a agricultura, o ponto principal da revolução do neolítico. Com a domesticação das espécies vegetais, e o controle da sua reprodução em benefício do homem, tornou-se mais vantajoso manter-se ao lado de sua plantação do que mover-se constantemente para colher espécies silvestres e nativas. Com a sedentarização e a fixação do homem na terra criou-se uma estrutura social absolutamente diferente da anterior, e por isso pode-se entender o surgimento da agricultura como uma verdadeira “revolução”- certamente a maior de todas em sua amplitude de consequências. Com ela veio a noção de posse, a divisão de trabalho e de poderes e o patriarcado, que cuidava das mulheres como “matrizes” e controlava a descendência. As relações econômicas estariam radicalmente modificadas para sempre através da emergência da agricultura e da criação de animais como processos econômicos, com evidentes consequências civilizatórias.
E o “Lobo Mau”, o que representa? Ora, ele é a representação das forças erráticas da natureza, contra quem o homem eternamente se digladia. É evidente que a história dos “Três Porquinhos” exalta as casas de alvenaria, mostrando que elas seriam as mais eficientes para derrotar o lobo mau. Desta forma coloca a agricultura como a mais elevada forma de relação com a Terra. Em verdade essa história tenta vender a vida “civilizada” e sedentária como sendo superior à vida total ou parcialmente nômade. Entretanto, esta opção nunca será unânime entre os civilizados, pois que todos nós, de uma forma mais ou menos intensa, nos ressentimos pela desconexão com a natureza que hoje temos, muito diferente da ligação que os modelos anteriores nos garantiam.
* Os nomes dos três porquinhos em português são Cícero, Heitor e Prático, por ordem de aparição (palha, madeira e tijolos). Já em uma versão em inglês eles são chamados pelos instrumentos que tocam “Fifer” (flautista), “Fidler” (rabeca) e …. “Practical” (prático), que não toca nenhum instrumento por usar a lógica e a razão para construir sua morada. Em outra versão, mais antiga, são chamados de “Browny”. “Whitey” e “Blacky”, mas hoje seria proibitivo usar cores para descrever os porquinhos. Também em versões antigas o inimigo dos porquinhos é uma raposa, e não um lobo.
“Uma das candidatas [ao concurso da Magistratura] aptas a realizar a segunda etapa entrou em trabalho de parto durante o período de aplicação das provas e deu à luz a uma menina na tarde deste domingo (16/07/2023). A candidata Júnea Fábia Cardoso chegou a realizar a prova discursiva no local de aplicação no sábado, no entanto, ao entrar em trabalho de parto durante a madrugada de domingo, notificou a organização do concurso. (…) Júnea deu à luz a filha pouco antes das 14h e iniciou a prova de sentença logo após receber autorização médica e afirmar à comissão executiva do concurso, de forma tácita, que estava apta a iniciar a avaliação. Conforme previsto no edital, ela poderá fazer pausas para amamentar a filha.” (
Ou seja, uma candidata dá à luz seu bebê durante a realização das provas para a Magistratura e acredita ser justo que sua atenção esteja focada no concurso público e não das condições da criança que recém chegou ao mundo, seu bebê, que vai demandar 100% do seu cuidado e atenção. Não estará nossa busca (justa) por equidade – em especial no trabalho – cruzando uma linha perigosa? Não será temerário para a própria humanidade que as mulheres valorizem sua colocação no mercado de trabalho às custas da ancestral (e vital!!) dedicação materna aos recém-nascidos? Se não… o que precisa ocorrer para que essa linha seja cruzada?
Gente essa coisa de rotular narcisismo e de apontar os narcisistas ao nosso redor… quando essa moda vai parar??? Não há nenhuma – literalmente – característica de narcisistas que eu não tenha e a qual reconheça como peça essencial da minha estrutura psíquica. Quando leio essas “peritas em narcisismo” descrevendo as várias características dessas “aberrações” eu fico falando baixinho “eu…. eu… eu… também eu, eu de novo…”.
“Ahhh, o narcisista vai te manipular, vai te machucar e depois se colocar como vitima”… gente, qualquer um que fique 5 minutos ao lado de dois irmãos de 10 e 7 anos vê esse tipo de manipulação umas dez vezes. E mais, o mesmo vai ocorrer na vida adulta, entre dois namorados, dois sócios, um casal, entre amigos, etc. Quem não se coloca como vítima? Quem não manipula os outros? Quem não dissimula e perverte?
O narcisismo é uma faceta natural do todo e qualquer sujeito e esta rotulagem moderninha pode dar a entender que o “narcisista” é um ser de outro planeta, de outra origem, constituído de uma matéria especial, diferente na “nossa”. Os narcisistas – uns mais outros menos – somos todos nós.
Já pensaram em que etapa do desenvolvimento da humanidade, no que diz respeito ao progresso das ideias, estaríamos se, antes de dizer alguma coisa, levássemos em consideração se o objeto do nosso comentário poderia se ofender? Já imaginaram se isso fosse usado de verdade? Pense apenas: se antes de criticar Bolsonaro ou Trump (ou Lula, ou Mandela, ou Cristo) a gente fosse perguntar se eles se ofenderiam com a nossa observação? Por certo que eles poderiam dizer “Sim, sinto-me ofendido por ser chamado de incompetente e salafrário”, o que nos obrigaria a silenciar imediatamente. Eles, portanto, poderiam impedir qualquer crítica feita a eles apenas por afirmarem-se pessoalmente ofendidos.
Ou seja: teríamos uma sociedade controlada pelos sentimentos, pelas subjetividades, pelas suscetibilidades pessoais. Não esqueça que até chamar alguém de “careca” pode ferir seus sentimentos.
Já pensou que tudo o que dizemos precisasse ser “útil”? Quem decide o que tem utilidade na sociedade? Uma música é útil? Um filme? Uma crítica? Um comentário? Mais ainda: já imaginou se todos os “palpites” fossem considerados inadequados? Palpite vem do verbo “palpitar”, e tem a ver com as batidas do coração. Portanto, os palpites são emissões do “coração”, da intuição, das emoções, dos pressentimentos e das suposições. Oferecer nossas propostas mais emotivas é errado, inadequado ou indelicado? É justo considerar os palpites que damos diariamente sobre tudo e todos como erros, crimes ou ataques?
Duvido que uma sociedade assim organizada conseguisse se libertar do jugo da selva e pudesse alcançar uma organização social mais complexa do que um coletivo de silvícolas, um pequeno grupo de não mais do que meia centena de pessoas. Nenhuma sociedade minimamente organizada poderia sobreviver a este tipo de censura, abdicando de todo o progresso que emana do choque, do conflito e do atrito. A proteção dos sentimentos ocorreria às custas do progresso e da própria paz.
No universo onde vivo, sempre cercado de mulheres por todos os lados, escutar o que dizem os redpills (basicamente masculinistas, cujo nome foi tirado da antológica cena de Matrix) é visto como levantar a mão numa convenção do partido comunista e citar uma frase de Mises. Não há como aceitar este tipo de intromissão. Por isso, algumas pessoas colocam estes personagens como demônios, sexistas, maldosos, excludentes e preconceituosos. Existe uma gama enorme de estereótipos que descrevem estes personagens. Eu diria: escutem os redpill. O sucesso desse movimento merece atenção. Lembrem apenas que a radioatividade deles é semelhante ao que se dizia há poucos anos das próprias feministas. “Destroem a família”, “subvertem a ordem natural”, “não aceitam o progresso”, “malévolas”, “promíscuas”, “abortistas”, etc. Os redpill são apenas os pontas de lança de uma inquietação masculina que se iniciou junto com os próprios movimentos feministas, a qual aponta para um processo de lenta e insidiosa acomodação de placas. Eu falo dos redpill o mesmo que falo da extrema direita: escutem o que eles estão falando para entenderem o que precisamos fazer. E, da mesmo forma que as feministas mais radicais, existe algo de dolorido, mas ao mesmo tempo justo e compreensível nas queixas dessa turma. Acima de tudo, você não precisa ser um redpill para tentar entender sua perspectiva de mundo.
Essa visão não está muito longe da verdade. Porém, como em todo movimento, existe um matiz de ativistas dos masculinistas que deve ser levado em consideração. Essas caricaturas – que variam do Viking ao Orc do Senhor dos Anéis – em nada ajudam a entender o fenômeno. Da mesma forma, os estereótipos produzidos sobre as feministas (não se depila, não gosta de homens, faz aborto por esporte, odeia casamentos, etc) são falsos e não contemplam a complexidade do movimento em suas infinitas facetas. Entre uma “radfem”, uma “feminista de centro acadêmico” e uma dona de casa que exige divisão de tarefas existem milhares de possibilidades.
Como eu disse, esse tipo de crítica poderia ser (e, na verdade o foi) feita às pioneiras do feminismo. Tente olhar para os redpill como aqueles que primeiro se opuseram à uma ordem com a qual não concordam. Existem algumas queixas feitas por eles que, quando racionalmente analisadas, estão plenas de sentido e razão. Entretanto, os redpill caricatos, aqueles que escondem sua misoginia no discurso racional, serão facilmente descobertos com o correr do tempo. Mas eles são apenas os mais grosseiros e violentos, os mais evidenciados pela cultura, mas não é justo olhar suas reivindicações a partir da análise desses expoentes.
“Ok, mas eu não quero ver, escutar e muito menos me relacionar com este tipo de gente”. Você e nenhuma outra pessoa tem obrigação de dar conta. O falecido psicanalista Contardo Caligaris nos falava das experiências que seu pai teve durante a vigência do fascismo italiano. Sendo seu pai um conhecido médico e comunista ele se opunha aos “camisas pretas” de Mussolini. Durante o regime fascista ele foi preso pelos fascistas e sofreu muito em suas mãos. Como médico ele atendeu como pacientes líderes de fábricas que foram atingidos nos joelhos pelos tiros das brigadas fascistas – um método conhecido para aleijá-los e mandar um aviso a qualquer um que quisesse entrar em greve.
Contardo, muitos anos depois e já atendendo clínica psicanalítica, recebe em consulta um paciente de mais idade. No meio dos seus relatos ele fala que participou de brigadas na Itália de perseguição a ativistas comunistas. Naquele momento Contardo percebeu seu limite; não era possível continuar aquela relação. Deu uma desculpa qualquer e encaminhou o paciente para um colega. Para ele era insuportável a escuta de um personagem cujo grupo foi responsável pelos horrores que presenciou em sua infância. Ali estava um paciente cuja neurose poderia – e talvez deveria – ser escutada, mas não por aquele específico analista que tangenciou nos relatos de violência as bordas de sua atuação. Portanto, todo o respeito àqueles que reconhecem até onde são capazes de escutar.
Julgar um livro pela capa é um equívoco, como bem o sabemos. Julgar as teses de alguns masculinistas pelas figuras grotescas de alguns redpills também é. Repito o que disse: assim como me ensinaram a escutar as teses de algumas feministas para extrair dali alguma informação e até ensinamento, eu acredito que estas teses (que crescem muito e no mundo todo) merecem atenção. Não é necessário concordar, apenas escutar e entender. Recomendo o brilhante livro da feminista americana Susan Faludi sobre a traição ao homem americano, que está na raiz desses transtornos no organismo social e que hoje extrapolam os limites da epiderme e nos mostram a purulência acumulada.
O mestre Rubem Alves nos propõe a seguinte reflexão:
“Se você amou muito um lugar não faça a besteira de visitá-lo. Isso porque você vai pensando que encontrará o tempo daquele lugar, mas o tempo não estará mais lá. É melhor você ficar com a antiga imagem na sua cabeça…”
O mesmo vale para as coisas que te emocionaram ou te fizeram rir na infância. Eu, por exemplo, nunca assisto “Três Patetas” por essa mesma lógica. As piadas são as mesmas, mas eu mudei; não sou mais a criança que rolava de rir das palhaçadas que eles faziam. Tenho medo de que a minha incursão às piadas do passado desfaçam a mística que eu nutro pela alegria simples dessa época. E não é sequer necessário se reportar aos programas em P&B dos anos 40; até “Os Trapalhões” não teriam hoje o mesmo impacto dos anos 80 – e talvez fossem cancelados, assim como seria o “humor de bullying” dos Três Patetas.
O tempo é um juiz severo, por vezes cruel, e somente os gênios vencem a barreira dos anos; estes a gente conta nos dedos das mãos. Grace Kelly seria linda ainda hoje, Marylin Monroe(*) não. Beethoven, Bach, Vivaldi, Pixinguinha e Chico ultrapassaram décadas, enquanto a maioria dos músicos de sucesso de hoje serão esquecidos em alguns pouco anos.
Acredito ser possível visitar os lugares que amamos outrora, mas apenas se tivermos plena consciência de que eles se mantiveram parados – num prédio, num filme, numa música, numa piada – mas nós, e o mundo que nos cerca, continuamos seguindo em frente. Se é verdade, como dizia Heráclito de Éfeso, que “é impossível cruzar duas vezes o mesmo rio”, também é justo dizer que não vamos nos emocionar duas vezes com o mesmo filme, lugar ou música, pois que se eles ainda são iguais, nós já não somos mais os mesmos.
Tenho uma amiga que foi abandonada pela mãe no parto. Esta mãe era muito jovem, bonita e ambiciosa, mas sua filha nasceu prematura e com graves problemas de saúde. Deixou a filha ainda no hospital, aos cuidados do pai, e voltou ao seu país de origem. Esta criança cresceu sob os cuidados do pai e da madrasta, que a adotou com poucos meses de vida. Sempre carregou a imagem da mãe linda e frágil que a abandonou por ser imatura demais para as responsabilidades da maternidade.
Passados mais de 30 anos decidiu-se por conhecê-la. Juntou o marido e os filhos e rumou ao encontro da mãe biológica, uma senhora que morava em um continente distante e que formou outra família, já com filhos e netos. Infelizmente para minha amiga esta visita foi o momento mais destrutivo de sua vida. A imagem de mãe que acalentara por tantos anos foi totalmente despedaçada pela mãe real, e desse trauma ela jamais se recuperou totalmente. Conhecer sua mãe verdadeira, para além das idealizações, foi um choque profundo demais, talvez porque ela não estava preparada para entender que o mundo de todos havia andado, seguido o fluxo dos tempos, enquanto sua imagem materna permanecera estática por mais de três décadas.
Se queres mesmo penetrar em seu passado deixe todas as ilusões de fora; não espere encontrar lá algo que tenha para si agora o mesmo valor de então.
(*) De maneira alguma eu acredito que Marylin Monroe seja “feia”. Aliás, quem chamasse Marylin de feia deveria ser preso – ou internado. Todavia, essa Marylin de formas rechonchudas nos dias de hoje não seria Miss nem da escola secundária. Ela está fora dos padrões de beleza de agora. Sua beleza teria valor nos anos 50, mas hoje seria desvalorizada. Mulheres como Marylin nos dias atuais estão fazendo dieta e tratamentos caros para celulite. Não existe aqui um julgamento de mérito; apenas pontuo que os padrões de beleza são mutantes, e nos padrões contemporâneos ela não se encaixaria.