No meu pensamento se contorcem no mínimo 5 assuntos sobre os quais gostaria de escrever. Gritam, choram, clamam por liberdade. Agora mesmo, na minha cabeça, se agitam sem descanso e a cada volta se multiplicam, mostram suas outras faces, se transmutam. Incansáveis buscam serem ouvidos e transcritos, antes que a amnésia inexorável os transforme em poeira de reminiscências. Apesar do barulho ensurdecedor que fazem eles são todos…
…. um punhado de temas proibidos. Prometi para mim mesmo que não falaria publicamente sobre esses assuntos sem a intermediação de uma xícara de café e conversaria tão somente com sujeitos cujos ouvidos sejam fortes o suficiente para suportar verdades inconvenientes e perspectivas impopulares.
Tenho umas 20 histórias que não podem ser contadas, crônicas proibidas, novelas inteiras interditadas, contos censurados, pois envolvem pessoas ainda vivas, que poderiam ficar profundamente magoadas e invadidas. Respeitosamente guardarei todas essas histórias para o túmulo, e passarei horas deliciosas contando-as para os vermes enquanto eles alegremente consomem minha carne
A idade nos oferece alguns presentes um pouco desagradáveis como dores nas juntas, a queda dos cabelos, um estômago mais sensível e uma memória que a cada dia se torna mais apagada. Por outro lado, a maturidade nos ensina – pela pedagogia das múltiplas quedas – a não julgar o semelhante com tanto fervor. O tempo de vida recomenda duas coisas: não jogar pedras por erros que você mesmo poderia ter cometido e não sofrer por ser o último a sair do avião.
A ideia muito disseminada em anos passados que tratava o “corpo como embalagem do cérebro” foi uma tese contestada pelo movimento feminista nascente, através de um grupo de mulheres americanas dos arredores de Boston que escreveu um livreto chamado “Women and their bodies”, no ano de 1969. Já em 1970 esta pequena publicação se transformou em um livro que é considerado a Bíblia do moderno feminismo americano, chamado “Our bodies, our selves” – “Nossos corpos, nós mesmas” – que no ano 2020 completou 50 anos da primeira edição e vendeu mais de 4 milhões de exemplares em suas inúmeras edições posteriores.
A principal reivindicação dessa publicação é a conquista da autonomia dos corpos femininos, o direito à beleza e ao prazer e o reconhecimento dos direitos reprodutivos e sexuais femininos. Entre as primeiras editoras estava a jornalista e autora feminista Gloria Steinem. A tese do corpo como mera “embalagem” do espirito sempre foi por elas firmemente contestada. Ou seja, sua visão era “nossos corpos somos nós mesmas”…
Lembrei disso hoje porque minha amiga Robbie participou como articulista em uma dessas edições e porque a falecida atriz Carrie Fisher (Star Wars), quando lhe comentavam que ela havia envelhecido, respondia dizendo que seu corpo era uma “mera embalagem do seu cérebro”.
Pelé e Alcindo Marta de Freitas na inauguração do Colosso da Lagoa – Erechim, em 2 de setembro de 1970. Grêmio 0 x 2 Santos.
… e todos que dizem isso revelam inexoravelmente a idade. Porém, só quem foi menino e jogou bola nos anos 60 e 70 pode entender a verdadeira dimensão desse acontecimento. Sendo gaúcho, e vivendo numa época em que as transmissões de TV eram precárias, isso significa que você teve a rara oportunidade de testemunhar a presença de um Deus.
Um fenômeno como Pelé não existe mais na atualidade, não na dimensão que ocorreu com Sua Majestade. O fenômeno Pelé só poderia acontecer em uma época anterior ao futebol moderno, quando o jogo ainda se confundia com a arte e o balé, quando os jogadores eram pessoas comuns, gente como todos nós, e não milionários exibicionistas que ganham mais com publicidade do que com a arte dos seus pés. Pelé surge como a “grande esperança negra”, o menino pobre, preto, filho de dona Celeste – uma lavadeira – e seu pai “Dondinho” – um jogador de pouco brilho. Era um Brasil que recém acordava como nação, emergindo do grande trauma do “maracanazo“. Pelé mudou a história desse país, tornou-se menino prodígio em 1958 na Suécia, passou a ídolo e de ídolo para “Rei do Futebol” antes de completar 25 anos. Depois disso ainda foi considerado como o maior esportista de todos os esportes no século XX.
Hoje em dia está cheio de torcedor Nutella que chama jogadores absolutamente comuns de “craque”. Nunca houve nada semelhante a Pelé. Pelé parou uma guerra. Pelé expulsou um juiz de campo. Pelé fez mais de 1000 gols na carreira e levantou 3 copas do mundo em 12 anos. Pelé foi o gênio maior da bola. Eu me sinto feliz por ter sido contemporâneo desse monstro sagrado do futebol e, ainda menino, ter assistido o Rei jogar no Estádio Olímpico.
Tamanha foi sua fama que quando o Santos vinha jogar em alguma cidade – e naquela época eram comuns as excursões de clubes ao exterior – as pessoas iam ao estádio somente para ver Pelé, marcar a presença desse talento em suas retinas, torcer e vibrar por ele. Até eu mesmo fui ver Pelé no Estádio do Grêmio (o Imortal) e meu olhar esteve o tempo todo sobre ele; sua desenvoltura em campo era mais importante que a vitória da minha equipe. Ele era um personagem maior do que o próprio futebol.
Com a morte de Pelé se vai essa mística, que não existe em nenhum outro jogador da atualidade. Morre junto com o Rei o menino que havia em mim e que se encantou com o Deus do futebol.
Nesta foto abaixo é do jogo que eu vi Pelé jogar ao vivo, no Estádio Olímpico de Porto Alegre. Se a foto tivesse resolução adequada eu poderia ser visto na social do velho estádio tricolor, ao lado da cintura do craque Atílio Genaro Ancheta. Siga em paz, Pelé.
Grêmio x Santos, na última partida de Pelé no Estádio Olímpico, 27 janeiro 1974. Na foto, Pelé e Ancheta. Gremio 1 x 0 Santos, gol de Carlinhos.
O próprio fato de levantarem o caso de Pelé com a filha durante o processo de morte do Rei Pelé já é uma amostra do viralatismo e do “racismo que não se contém”, marca registrada da nossa classe média. Como já foi dito por “Isuperio” no Twitter, “Desconsiderar o legado de Pelé pelos seus erros humanos também faz parte do projeto de desumanização das pessoas negras. Não esqueça que estamos em um país que tem estátuas, monumentos e nomes de rua dados a escravagistas, ditadores e estupradores”. Mas um fato fica claro nas manifestações que acusam Pelé nas redes sociais: Tudo que você lê agora na Internet sobre o Edson é pura projeção. Na maioria vem através de mulheres que projetam a indiferença do Pelé com Sandra como se fosse sobre elas. Por isso a imensa maioria das críticas nos chega com uma carga violenta de indignação.
“Ahh, mas só as mulheres podem falar dos dramas do abandono parental”, dizem alguns. Ora, e por que seria assim? Meninos não são igualmente abandonados por pais? E eu, por princípio, não acredito em “lugar de fala” como silenciador de divergências. Os homens e as mulheres podem falar das suas experiências pessoais (com a paternidade, por exemplo) a partir de um lugar privilegiado. Todavia, isso não garante que mulheres possam falar de abandono e homens não; afinal, se o abandono for paterno, os homens também deveriam ter a fala garantida. O que acontece é que 99.9% das pessoas que criticam Pelé o fazem sem saber o que ocorreu, mas também porque projetam sobre esse fato os SEUS traumas. É projeção o tempo todo, e isso torna o debate pouco racional, totalmente dominado por questões emocionais e sujeito às paixões.
Essas pessoas olham para o Pelé e enxergam nele a imagem daqueles homens que os(as) decepcionaram, mesmo que os fatos alegados contra Pelé sejam contestáveis. Além disso, Pelé não pode ser julgado pelo abandono parental que homens (e até mulheres) cometem no Brasil; ele só pode carregar suas culpas, e não a de todos os homens.
Como princípio do direito, as vítimas são sempre os depoimentos menos valorizáveis, porque são contaminados por emoções violentas. Minha tese é de que, a críticas violentas contra Pelé dizem muito mais das pessoas que o acusam (muitas delas vítimas de uma paternidade falha ou ausente) do que da relação de Pelé com Sandra, que chegaram até a se reconciliar, e cujos filhos foram sustentados com a pensão do avô Pelé até hoje.
Muitas pessoas colecionam arrependimentos durante a vida, mas vamos combinar que não é possível atravessar o charco da vida sem embarrar os pés. Eu também tenho a minha lista de erros constrangedores, que poderiam ser organizados em lista alfabética, mas sobre eles eu tenho outro sentimento, igualmente pernicioso: a vergonha.
Sim, eu tenho vergonha principalmente por ter cedido a uma tentação terrível, que muitos sequer reconhecem como um defeito, mas que é tão grande a ponto de destruir potencialidades incontestes: a tentação de agradar.
Sim, tenho vergonha de ter dito certas coisas apenas porque sabia que isso ia agradar meus interlocutores. Fico corado ao lembrar das vezes em que falei determinadas palavras sabendo da satisfação que colheria de quem as escutou. Isso é a melhor definição de “lacração“: a ideia que suas manifestações serão aceitas e bem recebidas não pela verdade que contém, mas pelo efeito emocional que geram nas pessoas que as escutam. No meu tempo a isso se chamava “jogar para a torcida“, uma prática corriqueira entre os políticos, mas que atrasa o crescimento pessoal e coletivo.
Hoje eu me envergonho muito de ter aceito a imposição da opinião alheia, de ter acolhido a pressão do contexto, de não ter falado verdades inconvenientes, de não ter sido mais impopular do que já sou. “Mea culpa, mea maxima culpa”.
Meu pai, quando ficou velho (pelo seu próprio critério subjetivo) costumava dizer algumas verdades dolorosas e depois complementava: “Já tenho X anos; conquistei o direito de ser sincero”. Eu ficava satisfeito de poder ouvir alguém que me dizia coisas pouco agradáveis e que o fazia mesmo sabendo que a recepção não seria das melhores. Isso foi algo que invejei demais e que me fez acreditar na promessa das “benesses da senectude“.
Hoje eu creio que, se algum valor há em envelhecer, talvez este seja alcançar o lugar onde é possível ser fiel a si mesmo.
Vamos combinar que as pessoas não questionam a “ciência”, mas questionam o uso que algumas pessoas fazem dela. Aliás, é da essência da ciência ser questionada, seus fatos analisados e suas conclusões desafiadas. O racismo já foi científico, o geocentrismo também; Talidomida, raios x em grávidas e Vioxx, idem.
Eu prefiro dizer que só os tolos tem “fé na ciência”, e a minha relação com ela sempre foi de justificada desconfiança. A ciência é a busca do conhecimento, mas é uma criação humana e, portanto, imperfeita e enviesada. Dentro do capitalismo os achados da ciência serão sempre tendenciosos, constrangidos pelo poder econômico e, por isso, precisam sofrer de nós uma legítima e sistemática contestação.
Porém, ao dizer isso, não afirmo que a contestação às ciência produzidas se fará pela irracionalidade ou pelo misticismo, mas com mais ciência, resolvendo as falhas que porventura ocorrem nas pesquisas e estudos produzidos com intenções espúrias.
Pelé, Rei do Futebol, magia nos pés, Imperador de ébano, orgulho da raça, maior esportista do século XX, homem negro, pobre, periférico, humilde, garoto de 3 Corações que levou o nome do Brasil para além de todas as fronteiras….
… mas eu entendo a dor de quem não suporta ter um herói negão.
Estamos próximos de perder Pelé mas é inacreditável a quantidade de comentários racista contra ele, inclusive análises morais fajutas baseadas neste tipo especial de racismo escamoteado e envergonhado. Existe uma horda de racistinhas identitárias e ferozes que contaminam a internet iludindo a todos e a si mesmas de que são progressistas e de esquerda, quando não passam de sexistas e reacionárias, fazendop o trabalho sujo da direita internacional de dividir a organização do trabalhadores e destruir os símbolos e heróis nacionais. Um exemplo diasso é o que circula entre muita gente – infelizmente também da esquerda – a imagem dos familiares do Pelé reunidos no hospital para oferecer o suporte afetivo para ele, que se aproxima de seu desencarne. A legenda diz que “os herdeiros de Pelé aguardam sua recuperação”, de forma irônica, dando a entender que eles apenas desejam sua morte, ansiosos pela partilha dos bens do Rei do Futebol.
Penso que deveria ser justo anotarmos os nomes de todos que divulgam essa crueldade para publicar algo semelhante quando for sua hora de partir. Acreditar que os filhos, netos e noras dele estão angustiados apenas por dinheiro, como urubus aguardando o último suspiro do seu almoço, diz mais de quem divulga essa crueldade do que da própria vida do Pelé. Não esqueçam as lições duras que surgiram dessa última eleição: a esquerda também tem seu gado e ninguém deixa de lado seus preconceitos – em especial seu racismo – apenas por declarar voto em Lula.
Existe um caloroso debate acerca dos fatos acerca da vida de Jesus de Nazaré, isso porque os indícios de sua existência real não são conclusivos e não conseguem convencer os estudiosos mais céticos. Presume-se, entretanto, que esse personagem foi apenas um entre mais de 400 conhecidos e autoproclamados “Messias” da Palestina no período de dominação de Roma, cujo objetivo principal era tão somente libertar o povo miserável da Palestina do jugo do Império. Todos eles, inclusive o filho de José e Maria, falharam de forma inquestionável e foram sacrificados por seus dominadores. Jesus sequer foi o mais importante em sua época; como diz Reza Aslan, autor do livro “Zelota” que busca analisar os passos deste galileu que teria vivido entre nós há cerca de 20 séculos, “tivéssemos jornais diários naquela época é bem possível que sua execução ocupasse tão somente uma pequena nota no pé da página policial“.
Por outro lado, sabemos bastante sobre o Jesus mítico, por certo, mas ao analisarmos sua existência através dos textos bíblicos é possível encontrar em sua trajetória uma variada compilação das crenças da sua época, uma mistura rica de tradições de várias partes do mundo antigo, desde tradições egípcias, gregas e romanas até persas e babilônicas. Do ponto de vista histórico o Jesus “homem” é uma curiosidade que dura quase 2 mil anos, mas o filho de Deus foi uma criação coletiva que se adaptou às necessidades humanas do tempo em que foi forjada.
Minha percepção é que o “Jesus histórico” realmente existiu e era o que se pode chamar hoje de um reformista do judaísmo, alguém que desejava a transformação da religião judaica por dentro, um judeu falando das crenças judaicas exclusivamente para judeus, visto que Jesus nunca se referiu a outro povo que não o seu durante toda a sua vida. A ideia de levar sua mensagem aos gentios nunca foi dele, mas de seu seguidor Paulo de Tarso. Assim, o cristianismo tal qual o conhecemos, é uma mistura do apóstolo visionário Paulo com a incorporação desta religião pelo Império Romano do Oriente, através de Constantino, mas quase nada tem a ver com o revolucionário libertador que porventura tenha caminhado pela Palestina.
Inobstante os acalorados debates sobre a figura de Jesus, muito mais importante do que a descoberta desse sujeito que perambulou pela aridez Palestina há 2000 anos é a sua mensagem. Para um observador isento de preconceitos, é fácil perceber que as histórias da Bíblia precisam ser entendidas através de uma exegese profunda e sofisticada, olhando para os fatos narrados como ensinamentos e metáforas que carregam valores e ideias, e não como a descrição factual de acontecimentos. Essa é a essência dos livros “sagrados”, e por isso eles sobrevivem por milênios. Desta forma, o que se encontra na Bíblia, no Corão e no Bhagavad Gita não pode ser alvo de uma leitura histórica, fundamentalista e literal – pois isso seria uma perversão do sentido original de sua escrita – mas de um mergulho profundo nos valores e signos de sua época, para que possa ser entendido em seu contexto e significado profundos.
É por isso que durante minha vida inteira sempre tive um dúvida sincera: será que o Papa ou membros dos altos círculos da Igreja acreditam mesmo nesses milagres descritos no velho e novo testamentos, na multiplicação de tilápias, na transformação de água em vinho, na concepção virginal da mãe de Deus, no Cristo redivivo ao terceiro dia, nas curas, etc? Ou será que eles sabem – por serem homens de rara erudição – que tais descrições bíblicas não passam de belas alegorias, ficções escritas mais de um século após decorridos os fatos, exemplos de vida, valores morais, metáforas e histórias cheias de ensinamentos que servem apenas para oferecer um sentido ao caos da existência, mas que por sua força coercitiva e de coesão social funcionam como um cimento cultural poderoso para a formação de identidades?
Este dilema dos poderosos que controlam o cristianismo sempre me faz lembrar um filme do anos 80, um épico de extrema direita chamado “Desejo de Matar”, com Charles Bronson. Depois de ver a esposa sendo morta e a filha estuprada por um grupo de bandidos (claro, todos imigrantes escurinhos e latinos) o heróis vingador do filme resolve se vingar dos elementos que produziram sua desgraça pessoal. Movido por um ódio imparável, e sendo um veterano da Guerra da Coreia, ele conhecia “as manhas” do ofício de matar, mas teve agir à margem da lei. “Desejo de Matar” foi um dos mais importantes filmes do gênero “vigilante”, sujeitos que tomam a justiça pelas próprias mãos por reconhecerem a incapacidade do sistema judiciário de livrar a sociedade dos maus elementos. O filme, como se pode facilmente apreender, é um libelo fascista, que descreve a luta de “gente de bem” contra vagabundos que invadem e promovem a degenerescência dos valores americanos. Depois de muito treinar com a ajuda de um amigo ele encontra os meliantes e se inicia uma carnificina. Na luta, mesmo ferido, ele consegue matar um a um todos os criminosos e consumar sua vingança, até ser pego pelos seus policiais que estavam à caça do “justiceiro”
No hospital acontece a fala mais brilhante do filme. Os oficiais da polícia confidenciam a ele que houve uma diminuição significativa na taxa de crimes desde que ele iniciou sua busca por vingança. Sua prisão, portanto, de nada serviria à polícia. Os criminosos da cidade estavam com medo do “vingador”, e por isso refrearam suas intenções criminosas. Por este fato, os tiras decidiram se calar e não revelar publicamente sua prisão, preferindo deixar o mito vivo e à solta. Assim, ele foi avisado que nenhuma queixa seria dada e que poderia voltar para casa, desde que abandonasse a cidade para nunca mais voltar.
Ou seja: apesar de ser um criminoso ele cumpriu a importante tarefa de estancar a sangria de crimes na cidade. Um delinquente, um assassino frio e violento, um justiceiro cruel e um animal ferido, mas que cumpriu uma importante função social – a eliminação de vários criminosos e a instalação de um clima de medo entre os que ficaram. Como é fácil perceber, um filme típico da sociedade americana dos anos 70, assustada com o índice de criminalidade urbana, que pretendia justificar a violência tratando os policiais como heróis e os criminosos como uma casta de perversos e degenerados, acusando as leis de apenas ajudarem os meliantes e limitarem a ação da justiça. Suco de fascismo concentrado.
Aqui é que eu estabeleço minha analogia: Não estaria o Papa diante do mesmo dilema? “Eu sei que tudo isso é mentira, que são apenas histórias, que nada é passível de confirmação. Sei também da história terrível da Santa Sé, dos seus delitos horríveis, do poder e da corrupção. Sei dos malfeitos repreensíveis que colorem de sangue sua história. Todavia, reconheço a importância que estes mitos desempenham na coesão dos fiéis, em nome da Santa Igreja, de Jesus – o Cristo, e da Santíssima Trindade. Por entender isso, melhor calar-me diante do que sei, vejo e sinto. É melhor manter o mito vivo e à solta, porque isso exerce um controle moral sobre o rebanho“.
Costumamos dizer que sair de uma festa sem se despedir dos convivas é “sair de fininho”, mas também pode ser chamada de saída “à francesa”. Entretanto, sair desta forma normalmente é visto de forma negativa, como se a pessoa fugisse do encontro evitando “fechar” sua presença com o ritual da despedida. Sair à francesa é escapar sorrateiramente das normas sociais, burlando os costumes.
Pois, curiosamente, os países anglofônicos chamam esta atitude de “saída irlandesa” (irish exit). Claro que existe uma tendência a nomear determinados costumes pelos países de onde se imagina terem surgido, da mesma forma como os franceses chamavam a sífilis de “doença italiana”, enquanto os italianos a chamavam de “doença francesa”. Porém, mais interessante ainda que os países envolvidos no surgimento dessa convenção social, está o fato de que “sair à irlandesa” era considerado uma atitude polida e educada.
Sim, exatamente isso: uma atitude reconhecidamente correta, adequada e “chique”, e sou obrigado a concordar com as justificativas para considerá-la assim.
Pensem bem: quando alguém – também um casal ou toda a família – resolve sair de uma festa despedindo-se de todos, isso inexoravelmente produz uma ruptura no fluxo da reunião. O sujeito que sai interrompe várias conversas, atrapalha pessoas que estão comendo ou bebendo e cria distúrbio entre os demais convidados. Faz temas em debate serem perdidos, assuntos abortados, piadas cortadas no meio. Mais ainda: induz outras pessoas a saírem da festa, antes de assim o desejarem, imaginando que a saída de alguns sinaliza o tempo adequado e certo para o término da reunião.
Todavia, existe ainda outra questão importante. Ao se despedir de todos chamamos muita atenção sobre nós mesmos, desfocando a importância do anfitrião. Nos consideramos tão importantes a ponto de interromper o prazer e a alegria de todos apenas para avisá-los de nossa ausência iminente. Criamos sobre nós uma relevância presunçosa, quase pedante. Algumas despedidas são como a dizer: “Olha, estou indo. Não sei como essa festa poderá continuar após a minha despedida. Pense bem se pretende ficar aqui, sem minha presença por perto”.
Portanto, é compreensível que a “saída à irlandesa” fosse admirada em uma época em que a sociedade não era tão viciada em exaltação de egos e personalidades. Sair à irlandesa era uma atitude humilde de quem reconhecia ser apenas uma personalidade entre tantas, alguém que não buscava ser o centro momentâneo de tantas atenções e reverências imerecidas.
Bem, era isso. Agora saio “à irlandesa” e os deixo com essas ideias para elaborar…