Arquivo da categoria: Pensamentos

Nascer de novo

“A ideia reencarnacionista como pedagogia, é antiga e pertence a várias correntes religiosas (até cristãs, basta lembrar a conversa de Jesus com Nicodemus e a frase “é preciso nascer de novo”), mas não pressupõe ligações diretas de causalidade ao estilo “morreu num acidente de avião, portanto era aviador nazista na vida anterior“. Isso é apenas folclore ou motivo para boas piadas. Um modelo propedêutico não poderia se basear nestas fatalidades para se expressar.

A reencarnação se baseia numa visão teísta, inteligente e teleológica. De forma simplificada, a reencarnação se insere em um modelo de “universo inteligente” onde as múltiplas existências seriam apenas etapas de aprendizado para a depuração evolutiva da alma ou “princípio perene”. Seriam como os anos escolares, em que as lembranças do que foi aprendido no ano anterior se mantém apenas de forma intuitiva e emocional sutil. O esquecimento proporcionaria a oportunidade de “começar do zero” relações outrora complexas, difíceis ou conflituosas, mas também positivas e construtivas.

A reencarnação – dentro da lógica evolutiva espiritual – também ofereceria igualdade de experiências e vivências, diferentemente do que acontece em uma única existência. Sua característica mais marcante é a ideia de oferecer uma enorme multiplicidade de experiências, as mais diversas possíveis, para o desenvolvimento de aptidões e a reparação de erros, mágoas e falhas morais.

Se eu fosse inventar um universo usaria essa estratégia…”

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Primeira pedra

Existem seres humanos que merecem perdão; outros não. Quanto a isso não há dúvidas. A listagem de pessoas (e não seus crimes) imperdoáveis não é muito difícil de achar. Todos os sujeitos que cometeram crimes que estão distantes da nossa realidade são imperdoáveis. Furar fila, não declarar imposto corretamente, matar um ladrão (bandido bom é…) não são crimes, quanto mais imperdoáveis, porque qualquer um de nós pode ter tais atitudes.

E não precisa ser um gênio para entender isso. As tradições religiosas estão cheias de exemplos de que o perdão precisa ser seletivo. Não há porque perdoar todos de forma igual como se todos fôssemos iguais aos olhos de Deus. Se isso fosse verdade Ele não criaria pessoas cheias de virtudes (nós) e outros animalizados e perversos, afogados em seus defeitos (os outros).

Foi exatamente o que Jesus disse quando atirou aquela pedra na puta que – evidentemente – não merecia perdão. Peraí que eu vou achar o versículo certinho e vou postar aqui em baixo.

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Achei a parte que fala aqui na Bíblia mas essa que eu tenho é dos Gideões e deve ser uma versão muito recente porque (olha só que absurdo) está escrito que ele NÃO atirou a pedra, o que é um óbvio erro pois Jesus não era bobo nem nada e jamais permitiria que um crime nojento como esse (eu jamais seria uma prostituta!!!) passasse em branco. Eu tenho nojo das traduções mais novas da Bíblia que trocam arbitrariamente as passagens apenas para apoiar petralhas e defensores de direitos humanos (leia-se bandidos).

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Quer saber? Que se lixe a Bíblia. Estou olhando aqui outros posts de Jesus e acho que esse cara fumava um. “Ame ao próximo como a ti mesmo“, ah…. vá se ferrar!! Amar estuprador, assassino, ladrão???? Tá cheirado barbudo???? “Teus inimigos são teus verdadeiros amigos“: bebeu gasolina??? E só piora, agora vi essa aqui: “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem“. Sério que o pessoal não sabe? Um bando de ladrão vagabundo e não sabem o que estão fazendo?

Te larguei pras cobra, Bíblia…

(according to “irony act” of march 2017 this post follows the fundamental principles of post-truth and explicit irony, therefore is under the protection of that presidential bill)

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Amor romântico

Não acho que amor romântico seja uma “ilusão”, acho apenas que ele ele é um fetiche que tem tanto valor quanto bunda grande, seios voluptuosos, carros esportivos ou peito cabeludo. Acreditar que ele é o “verdadeiro amor” é um erro; ele é tão somente uma forma de amar.

Para mim o amor se resume em três elementos básicos: desejo, cuidado e admiração. A forma como você vai organizar estes sentimentos pode variar infinitamente, mas se eles não estiverem presentes eu penso que uma outra palavra precisa ser usada.

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Transformações

Se o parto em si é incapaz de imprimir transformações positivas na carne e no espírito de quem é ultrapassado por sua energia então, por coerência, NENHUMA ação humana é capaz de abrir QUALQUER porta de percepção. Não é justo esperar tal processo através da chegada de um filho, por amar alguém, por ser amado em resposta, por lutar, vencer, conquistar ou alcançar um sonho. Não existe luz ou transcendência própria em nenhuma coisa, nenhum evento, NENHUM acontecimento.

Pode ser, mas precisamos forçosamente reconhecer que, de outra parte, qualquer evento é capaz de oferecer essa elevação, esse defenestrar, esta transformação, este deslumbramento, desde que o sujeito que delas participe se permita tocar pela sua força transformativa.

Nenhum evento em si, por mais fulgurante e esplendoroso que seja, é capaz de produzir mudanças; só o sujeito podem se transformar diante dele, desde que esteja pronto para tanto.

Não é?

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Desapego

O pensador Sêneca, pintura de Rubens, Sec. XVII

“O Mestre Mahatma Gandhi nos ensinou que a vida na simplicidade era muito mais feliz e plena. Muito antes dele Sêneca, pensador romano, já nos mostrava que “a pobreza não está na falta de recursos, mas na multiplicidade dos desejos”. Não somos pobres por termos pouco, mas por desejarmos demais, nem ricos por termos tudo, mas por encontrar satisfação e alegria nas minúsculas aquisições.

Assim, a busca pela riqueza nos oferece dois caminhos distintos e opostos: a profusão ilimitada de bens, acumulados no limite possível do espaço para guardá-los, ou o desapego de todas a coisas materiais, no limite das necessidades básicas de sobrevivência. No matiz que se produz entre estes polos extremos estamos nós, entre a sedução ofuscante da matéria reluzente e a consciência cada vez mais vívida de que tudo o que possui real valor na vida nos é dado de forma gratuita.”

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Aliado não alinhado

Escrevi um texto enorme já há uns dois anos sobre esta questão, mas resolvi tocar no assunto novamente pois ainda ontem o Justin Trudeau se manifestou como sendo “feminista”, apesar de que, na visão de algumas feministas, ele seria classificado como “feministo”. Quando me perguntam sobre isso eu preciso dar esta singela explicação:

Existem dois conceitos diferentes quando se fala de feminismo e que se confundem com frequência. Existe o feminismo como uma IDEOLOGIA e o feminismo como MOVIMENTO SOCIAL. Eu me associo ideologicamente ao feminismo pois não há nenhum preceito básico feminista (equidade, respeito, protagonismo, proteção à maternidade, amamentação, autonomia, direitos reprodutivos, ampla liberdade sexual, direito ao aborto, escolha do local de parto, etc) com o qual eu não concorde e defenda de forma entusiástica. Portanto sou inquestionavelmente aliado do feminismo.

Por outro lado existe um movimento feminista composto de pessoas. Estas são passíveis de falhas humanas, erros, equívocos de rota, divergências internas, dissidências, rancores e tantos outros problemas que ocorrem em todos os movimentos que pretendem mudar a cultura, e é absolutamente natural que assim ocorra. Feministas são pessoas com sonhos, defeitos e virtudes.

Entretanto, nesse movimento, por mais que eu esteja de acordo com suas premissas fundadoras acima descritas, eu jamais terei voz, jamais poderei solicitar uma troca de rumo, uma mudança de discurso ou uma nova estratégia que me pareça melhor do que aquela até então utilizada. Minha condição masculina me afasta de qualquer possibilidade de mudar o “feminismo movimento”. Desta forma, jamais poderei fazer parte de um movimento que não me considera um igual, mas também reconheço este “lugar” a mim determinado como justo, e jamais me ocorreria reclamar dele.

Portanto, minha posição continua sendo de “aliado não alinhado”.

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Cerimônia de Casamento

Acabo de chegar da igreja onde assisti um casamento católico tradicional. Lindo, emocionante, charmoso. Todo mundo se apertando dentro da roupa. Mulheres segurando lencinhos e homens desengonçados com seus paletós e suas calças justinhas. Nenhuma mulher era mais baixa do que eu, mas a mágica se escondia por sob os vestidos longos. Os homens riem, as mulheres choram.

Um espetáculo de exaltação da sexualidade, a começar pela porta central da igreja, que só abre nas núpcias, como um colo uterino a receber as sementes em forma de nubentes. A encenação máxima do mais importante dos rituais humanos, que representa a promessa de continuação da espécie.

Cada passo, cada fala, cada personagem, toda a ordem, cada sorriso tem um papel importante na celebração do patriarcado.

PS: Eu coloquei esse texto exatamente como contraponto ao que eu imaginava que alguém escreveria. Isto é: a resposta a uma pergunta ainda não havia sido feita. O que eu vi nesse casamento foi um ritual de reforço do patriarcado e que é TOTALMENTE feito pelas mulheres – e para elas. TUDO é construído em torno da figura central: a mulher e sua importância fundamental na estrutura social humana.

A forma poderosa como ela é apresentada seduz mesmo as mais resistentes críticas. Por isso que, ao escutar tantas queixas das mulheres fico perplexo ao ver que esse ritual do patriarcado sobrevive essencialmente pela luta das mulheres em mantê-lo de pé. Em um mundo onde as mulheres conquistam espaço e criticam a opressão a que são submetidas pelo machismo é curioso – talvez paradoxal – que o ritual mais poderoso para a supremacia do patriarcado seja mantido vivo exatamente por aquelas que se sentem oprimidas por ele.

A tese é simples: os valores profundos de uma cultura de expressam através de seus rituais. Através dessa “regra” fica claro perceber que contextos (culturas) belicosas tem rituais violentos; culturas fraternas e justas tem rituais mais ligados ao congraçamento e à igualdade. Culturas machistas encenam rituais que valorizam o homem. Não há nenhum feminismo (entre todas as suas expressões) que não veja no patriarcado a origem da assimetria de poderes entre os gêneros. Esse sistema de 100 séculos ainda domina a estrutura social apesar dos sinais claros de sua decadência. De todos os rituais que servem como pontos de proteção e exaltação do patriarcado o casamento religioso é o mais forte e o mais importante por sua simbologia. Sendo assim, deveria ser preservado e protegido por quem retira alguma vantagem desse modelo decadente e opressor, mas o que se vê é EXATAMENTE o oposto: o casamento é totalmente edificado em função das mulheres sendo por elas controlado, gerenciado e conduzido.

Um um casamento é uma encenação. Ele REPRESENTA outras realidades que não são explicitadas no texto  por isso ele é um RITUAL. Um ritual precisa ser repetitivo, padronizado e simbólico. Portanto ele ESCONDE dos sentidos seus significados mais profundos. O casamento é um reforço do patriarcado em todos os ângulos que se olhe, basta olhar em profundidade e não apenas na superfície.  Além disso o casamento não tem NENHUMA ligação obrigatória com o amor. NENHUMA. Se quiser ver um exemplo disso assista o casamento do século entre o Príncipe de Gales e Diana. Não havia amor e mesmo assim o ritual se manteve de forma integral. O casamento por amor é uma invenção muito recente na história da humanidade, e tem menos de 200 anos. Os casamentos sempre tiveram função social e por isso tinham solidez. Esses contratos tinham uma clara função de produção e procriação, e não havia nenhum compromisso afetivo entre as partes. Ainda é assim em muitos lugares do mundo.

Pior; o acréscimo do amor nas relações maritais foi numa tragédia para esta instituição, e acredito que o casamento – por causa desse detalhe – nunca vai se recuperar desse golpe e voltar a ter o prestígio de outrora.

Aliás… Eu também sou contra o “casamento gay” enquanto RITUAL. Puxa… a sociedade inteira considerando o casamento uma instituição fora de moda e sem sentido e os gays querendo revitalizar a “união abençoada por Deus”? Que coisa mais cafooooona!!!! E diga-se de passagem que sou a favor de que as uniões gays tenham as MESMAS garantias legais das heterossexuais, mas acho que o “casamento” (enquanto ritual) é um retrocesso (mas um direito que não discuto). Sim o casamento gay (alguns que vi no Youtube) produz a mesma representação patriarcal que os heterossexuais tentam mudar ou abolir, por isso que eu considero algo ultrapassado.

O casamento não precisa ser “machista”, mas inegavelmente simboliza os mais importantes valores do patriarcado

O casamento com todos os seus símbolos ainda é o sonho de muitas mulheres, mas enganam-se os que pensam que isso tem a ver com informação, cultura ou estudo. O casamento ainda é um sucesso em todas as classes sociais.

A cerimônia só não é celebrada por elas no catolicismo. Ainda…

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Youtubers

Uma coisa chata e repetitiva: os jovens YouTubers. Todos usam o mesmo formato, fazem o mesmo estilo de edição, falam do mesmo jeito, mendigam para gente se inscrever no canal e usam o mesmo humor debochado. Parece que todos contrataram o mesmo roteirista. Outro problema é fazer vídeos sobre assuntos que desconhecem por completo.

Esses dias assisti um cara que é um youtuber famoso por ser ateu e atacar os fundamentalistas. Acho até digno, importante até, mas aí ele resolve fazer um vídeo sobre “porque odeio o PT“, cheio de incorreções e análises rasas, mas querendo que as pessoas acreditem que ele parte de uma uma posição “isenta”.

Não há problema algum em atacar o PT. Algumas críticas são essenciais e até podem ajudar o próprio PT a se “recriar”. Entretanto, na primeira frase do seu comentário ele diz: “cresci num ambiente em que fui ensinado desde cedo a odiar o PT“. Podia ter parado ali, mas me obrigou a assistir mais 15 minutos de tentativas ingênuas de provar uma isenção tão inexistente quanto impossível.

Eu acho que os “comentaristas jovens” da Internet se depararam com uma ferramenta poderosa e ainda não perceberam o quanto é fundamental ter embasamento para tratar de assuntos complexos.

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Ratinhos

Um teste que vi em um filme há muitos anos e nunca mais esqueci.

Você visita um restaurante para provar aos seus amigos que ele não tem condições de higiene. Subitamente vê um camundongo andando por entre as mesas. Faz um gesto para pegar o celular e fotografar, mas o camundongo se assusta e entra em uma fissura da parede. Você viu, mas não conseguiu fotografar, o que seria a prova inequívoca.

Então você tem uma ideia: no dia seguinte passa em um terreno baldio próximo e captura um camundongo com uma armadilha. Coloca no bolso e vai até o restaurante. Põe o bichinho no chão e discretamente o fotografa.

Pronto. Ali estava a prova. Claro, não era o mesmo camundongo mas que diferença faz? Não havia dúvida alguma em seu peito sobre a existência de um camundongo(s) no restaurante. Sem a prova não haveria como mover uma ação e o restaurante sujo permaneceria funcionando. Usar o outro ratinho serviu a um fim nobre: a saúde de todos. Não havia prova…. mas havia uma convicção pessoal muito forte.

Os fins justificam os meios?

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Fidelidade

Talvez reste como única infidelidade aquela que parte do engano da alma. Eu costumava brincar com meus amigos fazendo-lhes uma pergunta capciosa, apenas para analisar (e me divertir)  com os malabarismos lógicos para se adaptar a uma ou outra alternativa.

Sei que essa é uma pergunta muito mais dramática quando feita aos homens, até porque sua sexualidade objetual lhes oferece uma possibilidade muito maior de exercer a posse sobre o corpo da mulher, o que é respaldado pelo machismo contemporâneo. O domínio sobre o corpo alheio, resumido a objeto, é muito mais uma questão masculina do que feminina. De qualquer forma, respondam, mesmo que apenas em pensamento.

–  Diante destas duas opções, e sendo obrigado a escolher uma delas apenas, qual seria a menos dolorida e cruel? Saber que sua mulher lhe foi infiel, mas sempre o amou e desejou OU saber que sua mulher SEMPRE lhe foi fiel, mas passou toda a vida ao seu lado desejando, sonhando e fantasiando com alguém que não era você?

O que os homens me disseram variou no tempo. Quando eu fazia essa pergunta há 30 anos os amigos diziam que o corpo precisava ser só deles; esse era o acordo, e a mente delas era impossível de controlar. Hoje em dia os homens tendem a falar mais da alma, e eu atribuo isso à lenta degradação dos valores do patriarcado. Não só o tempo social mudou, produzindo mais limites sobre o desejo de posse sobre o outro, mas a idade do interlocutor também parece ser um fator importante.  Quanto mais jovem mais importância se dá ao controle do prazer alheio; conforme a idade avança mais significativa é a fidelidade afetiva, aquela que vem da alma e não do corpo.

Qual das fidelidades lhes é mais cara, a do corpo ou a da alma?

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