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Deslumbramento

Exatamente por ser tão importante e criativa a função das doulas na construção de uma psicosfera positiva para o parto é que se torna tão fácil que elas caiam no deslumbramento de sua ação no parto. Por outro lado – e isso foi lembrado por muitos – essa constatação não é uma exclusividade das doulas; elas são apenas as últimas personagens a adentrar o cenário do parto e do nascimento. Os médicos há bem mais tempo, ao afirmarem que “fizeram” o parto de fulanas e sicranas, também se deslumbram com sua arte, ao ponto de despudoradamente expropriarem o evento da mulher.

Essa “couvade” contemporânea facilmente nos leva à inveja recôndita e ancestral que os homens carregam da parturição, apanágio do mistério feminino. Até mesmo as parteiras, profissionais ou tradicionais, com muita facilidade escorregam no próprio encantamento e se acreditam mais importantes do que verdadeiramente o são.   Todavia, não se trata de desmerecer a atuação de nenhum desses personagens que constroem o “circulo de apoio” que milenarmente ofereceu o suporte psicológico, físico, emocional, técnico, social e espiritual para o parto, desde que adentramos o universo da linguagem. Trata-se apenas de estabelecer limites à nossa atuação, para que nossa emoção diante do milagre da vida não carregue – escondida entre lágrimas e emoções – a semente da vaidade desenfreada, que colide frontalmente com o principal atributo de um cuidador: a humildade.

A luz que emana do parto, criada a partir da emissão de energia bruta de amor e superação, não pode ser eclipsada pela vaidade daqueles que o acompanham. Para isso é necessário que seja exercitada cotidianamente uma postura de respeito e veneração ao trabalho da mulher.

Doulas, parteiras, médicos que desejam resplandecer deveria se inscrever no “big brother“. Não é função desses personagens brilhar, mas tão somente refletir. O brilho só pode vir da mãe, caso contrário não passa da mesma velha expropriação, agora com novos atores.

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Anjo

“Sonho: um anjo chegou assustado do passado, vestia uma pantalona amarela com nesga, fita na cabeça e cabelo Black Power. Perguntou o que fazíamos nos domingos, entristeceu-se com o Facebook, lamentou pela TV e pela maconha ruim, xingou Bolsonaro e disse que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Acordei”

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Playlist

Eu me aproximo do carro para ir com Zeza para uma pousada próxima a Porto de Galinhas e o motorista que nos levará parece um nordestino típico: jovem, forte, cor de cuia, pescoço virtual e simpático. Sento no banco do carona e coloco o cinto, Zeza também. O motorista ajeita o GPS e mexe no sistema de som. Vejo a palavra “playlist” no display do carro e coloco a mão no bolso à procura dos fones de ouvido para conectar no celular. O motorista liga o carro, pergunta se o ar condicionado está bom, aperta um botão e a playlist inicia.

Os primeiros acordes atingem meus tímpanos como uma flecha pontiaguda e no pequeno espaço que os separam do cérebro  conseguem que uma lágrima furtiva me percorra o rosto, salgando-o com emoção e surpresa. A voz familiar no auto falante fala que o meu amor tem um jeito manso que é só seu, e depois, ainda travestido, canta no feminino e explica que o primeiro lhe chamou como quem vai no florista, mostrou o seu relógio e lhe chamou de rainha.

Peço para aumentar o volume da música e ele sorri. “Ele tem uma músicas lindas, não?”. Concordo timidamente. Durante a viagem ele sussurra as músicas de Chico Buarque como se tivesse a minha idade e não os trinta e poucos que aparenta.

O pulso ainda pulsa. Na miséria cotidiana do deserto criativo em que sofregamente caminhamos ainda há espaço para lembrar da sensibilidade e da arte, que surge inesperadamente à nossa frente como um cálice de água cristalina a saciar nossa sede.

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Livre pensar

Não se passa um dia sequer sem que eu assista de forma clara e definitiva a derrocada espetacular de uma certeza, com a qual convivi durante boa parte da minha vida, e de onde muitas vezes tirei consolo e conforto.

Essa é, para mim, a melhor definição de um livre pensador.

Maurice Herbert Jones, comunicação pessoal.

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Nascer de novo

“A ideia reencarnacionista como pedagogia, é antiga e pertence a várias correntes religiosas (até cristãs, basta lembrar a conversa de Jesus com Nicodemus e a frase “é preciso nascer de novo”), mas não pressupõe ligações diretas de causalidade ao estilo “morreu num acidente de avião, portanto era aviador nazista na vida anterior“. Isso é apenas folclore ou motivo para boas piadas. Um modelo propedêutico não poderia se basear nestas fatalidades para se expressar.

A reencarnação se baseia numa visão teísta, inteligente e teleológica. De forma simplificada, a reencarnação se insere em um modelo de “universo inteligente” onde as múltiplas existências seriam apenas etapas de aprendizado para a depuração evolutiva da alma ou “princípio perene”. Seriam como os anos escolares, em que as lembranças do que foi aprendido no ano anterior se mantém apenas de forma intuitiva e emocional sutil. O esquecimento proporcionaria a oportunidade de “começar do zero” relações outrora complexas, difíceis ou conflituosas, mas também positivas e construtivas.

A reencarnação – dentro da lógica evolutiva espiritual – também ofereceria igualdade de experiências e vivências, diferentemente do que acontece em uma única existência. Sua característica mais marcante é a ideia de oferecer uma enorme multiplicidade de experiências, as mais diversas possíveis, para o desenvolvimento de aptidões e a reparação de erros, mágoas e falhas morais.

Se eu fosse inventar um universo usaria essa estratégia…”

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Primeira pedra

Existem seres humanos que merecem perdão; outros não. Quanto a isso não há dúvidas. A listagem de pessoas (e não seus crimes) imperdoáveis não é muito difícil de achar. Todos os sujeitos que cometeram crimes que estão distantes da nossa realidade são imperdoáveis. Furar fila, não declarar imposto corretamente, matar um ladrão (bandido bom é…) não são crimes, quanto mais imperdoáveis, porque qualquer um de nós pode ter tais atitudes.

E não precisa ser um gênio para entender isso. As tradições religiosas estão cheias de exemplos de que o perdão precisa ser seletivo. Não há porque perdoar todos de forma igual como se todos fôssemos iguais aos olhos de Deus. Se isso fosse verdade Ele não criaria pessoas cheias de virtudes (nós) e outros animalizados e perversos, afogados em seus defeitos (os outros).

Foi exatamente o que Jesus disse quando atirou aquela pedra na puta que – evidentemente – não merecia perdão. Peraí que eu vou achar o versículo certinho e vou postar aqui em baixo.

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Achei a parte que fala aqui na Bíblia mas essa que eu tenho é dos Gideões e deve ser uma versão muito recente porque (olha só que absurdo) está escrito que ele NÃO atirou a pedra, o que é um óbvio erro pois Jesus não era bobo nem nada e jamais permitiria que um crime nojento como esse (eu jamais seria uma prostituta!!!) passasse em branco. Eu tenho nojo das traduções mais novas da Bíblia que trocam arbitrariamente as passagens apenas para apoiar petralhas e defensores de direitos humanos (leia-se bandidos).

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Quer saber? Que se lixe a Bíblia. Estou olhando aqui outros posts de Jesus e acho que esse cara fumava um. “Ame ao próximo como a ti mesmo“, ah…. vá se ferrar!! Amar estuprador, assassino, ladrão???? Tá cheirado barbudo???? “Teus inimigos são teus verdadeiros amigos“: bebeu gasolina??? E só piora, agora vi essa aqui: “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem“. Sério que o pessoal não sabe? Um bando de ladrão vagabundo e não sabem o que estão fazendo?

Te larguei pras cobra, Bíblia…

(according to “irony act” of march 2017 this post follows the fundamental principles of post-truth and explicit irony, therefore is under the protection of that presidential bill)

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Amor romântico

Não acho que amor romântico seja uma “ilusão”, acho apenas que ele ele é um fetiche que tem tanto valor quanto bunda grande, seios voluptuosos, carros esportivos ou peito cabeludo. Acreditar que ele é o “verdadeiro amor” é um erro; ele é tão somente uma forma de amar.

Para mim o amor se resume em três elementos básicos: desejo, cuidado e admiração. A forma como você vai organizar estes sentimentos pode variar infinitamente, mas se eles não estiverem presentes eu penso que uma outra palavra precisa ser usada.

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Transformações

Se o parto em si é incapaz de imprimir transformações positivas na carne e no espírito de quem é ultrapassado por sua energia então, por coerência, NENHUMA ação humana é capaz de abrir QUALQUER porta de percepção. Não é justo esperar tal processo através da chegada de um filho, por amar alguém, por ser amado em resposta, por lutar, vencer, conquistar ou alcançar um sonho. Não existe luz ou transcendência própria em nenhuma coisa, nenhum evento, NENHUM acontecimento.

Pode ser, mas precisamos forçosamente reconhecer que, de outra parte, qualquer evento é capaz de oferecer essa elevação, esse defenestrar, esta transformação, este deslumbramento, desde que o sujeito que delas participe se permita tocar pela sua força transformativa.

Nenhum evento em si, por mais fulgurante e esplendoroso que seja, é capaz de produzir mudanças; só o sujeito podem se transformar diante dele, desde que esteja pronto para tanto.

Não é?

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Desapego

O pensador Sêneca, pintura de Rubens, Sec. XVII

“O Mestre Mahatma Gandhi nos ensinou que a vida na simplicidade era muito mais feliz e plena. Muito antes dele Sêneca, pensador romano, já nos mostrava que “a pobreza não está na falta de recursos, mas na multiplicidade dos desejos”. Não somos pobres por termos pouco, mas por desejarmos demais, nem ricos por termos tudo, mas por encontrar satisfação e alegria nas minúsculas aquisições.

Assim, a busca pela riqueza nos oferece dois caminhos distintos e opostos: a profusão ilimitada de bens, acumulados no limite possível do espaço para guardá-los, ou o desapego de todas a coisas materiais, no limite das necessidades básicas de sobrevivência. No matiz que se produz entre estes polos extremos estamos nós, entre a sedução ofuscante da matéria reluzente e a consciência cada vez mais vívida de que tudo o que possui real valor na vida nos é dado de forma gratuita.”

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Aliado não alinhado

Escrevi um texto enorme já há uns dois anos sobre esta questão, mas resolvi tocar no assunto novamente pois ainda ontem o Justin Trudeau se manifestou como sendo “feminista”, apesar de que, na visão de algumas feministas, ele seria classificado como “feministo”. Quando me perguntam sobre isso eu preciso dar esta singela explicação:

Existem dois conceitos diferentes quando se fala de feminismo e que se confundem com frequência. Existe o feminismo como uma IDEOLOGIA e o feminismo como MOVIMENTO SOCIAL. Eu me associo ideologicamente ao feminismo pois não há nenhum preceito básico feminista (equidade, respeito, protagonismo, proteção à maternidade, amamentação, autonomia, direitos reprodutivos, ampla liberdade sexual, direito ao aborto, escolha do local de parto, etc) com o qual eu não concorde e defenda de forma entusiástica. Portanto sou inquestionavelmente aliado do feminismo.

Por outro lado existe um movimento feminista composto de pessoas. Estas são passíveis de falhas humanas, erros, equívocos de rota, divergências internas, dissidências, rancores e tantos outros problemas que ocorrem em todos os movimentos que pretendem mudar a cultura, e é absolutamente natural que assim ocorra. Feministas são pessoas com sonhos, defeitos e virtudes.

Entretanto, nesse movimento, por mais que eu esteja de acordo com suas premissas fundadoras acima descritas, eu jamais terei voz, jamais poderei solicitar uma troca de rumo, uma mudança de discurso ou uma nova estratégia que me pareça melhor do que aquela até então utilizada. Minha condição masculina me afasta de qualquer possibilidade de mudar o “feminismo movimento”. Desta forma, jamais poderei fazer parte de um movimento que não me considera um igual, mas também reconheço este “lugar” a mim determinado como justo, e jamais me ocorreria reclamar dele.

Portanto, minha posição continua sendo de “aliado não alinhado”.

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