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Iconoclastia

Jorodowsky

Para alguns a “moral”, com sua essência cambiante, humanamente mutante e instável, é superior à “liberdade”, que é um valor absoluto, a estrela ao redor da qual nossa alma gravita e a cada circunvolução mais dela se aproxima. É ponto no infinito que nosso espírito foi construído para almejar.

Eu não aceito tal ponto de vista.

Posso suportar as piores “imoralidades” – como uma mulher casando duas vezes, uma gestante reconhecendo o prazer de parir, ou pessoas do mesmo sexo se amando – porque sei que o tempo dará conta do nosso assombro, mas não tolero qualquer ofensa ao inescapável destino de sermos livres. Pode parecer, para alguns menos avisados, que defender a iconoclastia de Charlie ou de alguns “comediantes radicais” significa aceitar por completo suas ideias ou concordar com seus pressupostos. Jamais. Entretanto, estas vias de escape da indignação social quando fechadas significam a morte da liberdade dentro de cada um de nós. Calar a boca de alguém porque achamos que suas palavras estão erradas é um crime contra nossa própria alma.

O mundo seria um pedaço de merda inabitável sem a iconoclastia, a ousadia e a loucura. Toda a vez que penso nos ataques ao Charlie Hebdo percebo que a maioria das pessoas que habitam este mundo ainda não estão preparadas para a liberdade e a autonomia. Somos, de forma geral, pré-adolescentes da Vida. Gritamos e lutamos para ganhar, como parte da mesada, a sonhada liberdade, mas moramos e comemos por obra de nossos pais. Cruzamos o país para estudar e posamos de “livres”, mas ligamos pra casa quando o dinheiro acaba.

Liberdade é bem mais do que isso; é fazer o que é preciso ser feito sem ferir a liberdade do outro. Quando alguns se ofendem com a ferocidade do ataque e com a violência contra a liberdade de imprensa rapidamente se esquecem de violações semelhantes que suportam ou aceitam, em nome da “moral”, dos “costumes” ou do respeito às outras religiões. Ha poucos anos nos calamos diante da proibição de um filme de Troufaud que mostrava uma Maria humana e mulher, e há menos tempo ainda silenciamos quando a Igreja impediu um “Cristo pobre” na avenida. Deveríamos fazer o dever de casa, aceitar visões discordantes e assegurar a liberdade de expressão, mesmo quando ela contém tolices ou quando afronta nossa visão de mundo.

Sempre que eu cito alguma censura oficial que ainda perdura no Brasil existe alguém que descobre uma ótima desculpa. Eu mantenho minha fé na liberdade e repito que não há tema suficientemente sagrado sobre o qual não possa recair uma piada. Suportar exageros faz parte do combate incessante ao obscurantismo. Para os que reclamam daqueles que ultrapassam dos limites lembro que a genialidade de Voltaire se expressava exatamente pela constante vigilância contra a sacralidade de qualquer pessoa ou assunto. Ele sempre pagou um alto preço por sua iconoclastia sistemática, mas seu legado para a história é inestimável.

Sim, Leonardo Boff, je suis Charlie. Acho que o texto que ele escreveu, que traduz de forma razoável a sua visão sobre o atentado contra o Charlie Hebdo, deixou transparecer a sua formação clerical e mostrou que ainda é um padre, um “servo de Deus”, e que admite a existência de temas “sagrados”.

Eu não admito isso. Eu não acho que nem mesmo a mãe de alguém é sagrada. Ela é apenas uma pessoa, e por isso é possível, sim, falar dela. Sem este tipo de “ofensa” não há entropia. Não vejo como sair de um paradigma qualquer sem que haja algum nível de provocação, alguma violação, algum movimento. Não há como construir cultura sem destruição, por isso precisamos de iconoclastas como Voltaire, Nietzsche e tantos. Não se muda uma sociedade sem a matéria prima sofisticada da inconformidade. O porraloquismo é fundamental para que uma cultura cresça e se depure de elementos obscurantistas. Qualquer construção social necessita uma destruição, e quanto maior a força e a importância cultural de um valor, maior será o estrondo de sua queda.

Charlie Hebdo utilizava sua arte e sua indignação como uma forma de fazer pensar. A sátira tem esse formato desde os gregos, e Voltaire foi mestre no seu uso. Moliére aussi. Ridicularizar, reduzir à essência, mostrar o lado bizarro, destituir, fazer tombar tudo isso está no humor. Se vc não acha graça, não consuma, mas é injusto dizer que que o deboche é inútil. As próprias manifestações de apoio à liberdade de expressão no mundo inteiro provam o contrário.

Uma caricatura não precisa ser engraçada. Existem cartoons que prezam exatamente por uma ironia fina, que nos incita à reavaliação de nossos conceitos. Charlie tentava isso, assim como o Pasquim, que foi importante via de expressão da indignação contra a ditadura no Brasil. Impedir isso é tolo ou suicida. Não é necessário gostar das piadas, mas não reclame da sua existência, pois elas são absolutamente indispensáveis para a existencia da democracia.

O humor debochado e satírico é uma das mais eficientes ferramentas de combate à tirania e ao despotismo, assim como ao obscurantismo religioso retrógrado e anacrônico.

Não é admissível se curvar ao simbolismo de outras culturas que não sejam a nossa, no estado de direito por nós definido. Se na Nigéria se faz clitoridectomia, e não fazê-la é uma ofensa à cultura e aos ancestrais, é problema da Nigéria mas aqui não reconhecemos seus santos. E podem ficar ofendidos, pois aqui não vamos mutilar mulheres em nome da fé alheia. O respeito que devemos é às pessoas, mas não curvamos nossas cabeças aos seus símbolos e valores. O simbolismo tem valor para quem o aceita, mas não para mim. Moisés era terrorista, Maomé sanguinário, os Papas corruptos, o clero pecador e assim por diante. Está ofendido? Eu também me ofendo com a danação a que sou submetido por todas as religiões – por não segui-las – mas isso não me faz tentar silenciar nenhuma delas. O nome disso é razão e civilização

Mesmo que as piadas agridam nossas crenças – e ultrapassem os limites do bom gosto – ainda vale a pena investir na liberdade de expressão. Criar sujeitos e temas blindados à crítica nos remete aos porões mais obscuros da história humana.

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Voar

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Os ânimos ficaram tensos ultimamente e algumas manifestações de selvageria explícita ocorreram por parte de colegas na Internet a partir das iniciativas do governo de coibir o avanço – até então impossível de sustar – das cesarianas. É preciso compreender o momento histórico em que estão ocorrendo. Primeiramente, os valores idealizados pelos proponentes das mudanças são apenas metas distantes pelas quais deveremos nos guiar, sem entendê-las como a obrigação de um valor fixo. Como eu digo há vários anos, este tipo de imposição só poderia nos levar à tragédia. Já não existem mais taxas de 15% de cesarianas, no mundo todo (exceção nos locais onde impera a desassistência), mas isso é em função do medo, da indústria, dos ambientes hospitalares, da pressão e do pânico dos profissionais. Em outras palavras, “não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito“. Somos os algozes e as vítimas do mundo que construímos.

O pequeno universo que nos circunda molda os sujeitos que ali transitam, e estes, dialeticamente, transformam o ambiente que os contém. Em lugares onde a tensão no ar é tão densa que se pode cortá-la com uma faca, os partos serão sentidos de uma forma completamente diferente daqueles que ocorrem onde a suavidade acaricia nossas ações, as pacientes bailam ao som de seus hormônios e a descida do bebê pelo canal materno é embalada pela música que emana de seus gestos delicados. Posso me aventurar a pensar que, houvessem ambientes melhores e as taxas cairiam com muito mais facilidade. Minha ideia – e minha proposta – é cambiar o “campo simbólico” da cultura circundante, e não ingenuamente trocar apenas médicos ou hospitais. A mudança deve atingir lentamente todas as consciências.

Isso explica a razão de a parteira Ina May ter 2% de cesarianas em “The Farm“, porém posso ter certeza que ela teria 15 ou 20% de incidência de cesarianas por “falha de progressão” caso morasse em alguma grande cidade brasileira e tivesse que atender nos hospitais daqui, onde impera o medo e a tensão.

A Holanda também é do mundo ocidental, onde da mesma forma puderam entrar – mesmo que de forma menos violenta – a cultura do medo e a tecnocracia. Até ela sofre as agruras do mundo moderno.

O momento é de muita tensão, os médicos se sentem acuados, pressionados, culpados e desprezados. É como você reclamar do serviço que eles fizeram nos últimos 300 anos e achar que todas as conquistas da obstetrícia poderiam ter um resultado melhor. Isso é escutado como ofensa, e não como um convite à reflexão e à mudança. Alguns profissionais, normalmente os mais limitados, partem para a violência verbal, sem perceber que tais palavras apenas demonstram o despreparo para lidar com sua própria autoestima ferida.

A culpa não é dos médicos, mas da própria medicina e seu olhar objetual sobre os pacientes. Se esta objetualização pode ser entendida em um politraumatizado, ou numa paciente cirúrgica, ela é absolutamente anacrônica e inadequada em uma mulher saudável parindo seu filho. Como eu disse há alguns dias, a melhor metáfora para essa situação na atualidade é imaginar a cena do marido que recebe a notícia de que sua mulher vai deixá-lo.

Passada o susto e o choque da revelação ele, ainda surpreso, exclama:

– Mas porquê? Nada te falta. Tudo que fiz foi por você. Eu me dediquei por anos, trabalhando como um escravo, para que nada faltasse neste lar. Minha dedicação sempre foi para que sua vida fosse melhor, fosse tranquila, e que você pudesse ter seus filhos com segurança. Por quê agora me desprezas? Por quê me jogas fora como um papel velho, um pano imundo e imprestável? O que fiz de tão mal para ser expulso assim? Eu não bebo, não te maltrato e trago tudo para dentro desta casa!! Porque, afinal, você está insatisfeita?

Ela sorri com lábios tristes porque entende sua dor. Sabe que para ele as angústias e desejos – as quais carrega como um pesado fardo – são incompreensíveis. Para seu marido a mulher que sempre teve ao lado era um belo bibelô, uma linda boneca para satisfazer seus olhos. Para isso verdadeiramente se dedicava a ela, oferecendo-lhe o melhor que podia, com todo o seu amor e afinco. Entretanto, durante todos esses anos, mesmo que houvesse uma honesta atitude de ajuda, ele jamais conseguiu olhar aquele relacionamento pelos olhos de sua mulher. Qualquer reclamação de sua bela esposa seria incompreensível, porque a relação com ela sempre foi marcada pela objetualidade. Nunca, por nenhum momento, ele se permitiu perguntar: “afinal, o que você verdadeiramente deseja?“.

Ela se aproxima dele, o abraça e diz:

– Obrigado por tudo. Obrigado por toda a sua dedicação, seu zelo e seu amor, mas agora permita-me voar.

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Corrupção

corrupcao

Minha posição se mantém inalterada: todas as visões moralistas sobre a corrupção no Brasil são ingênuas ou de má fé. A corrupção NÃO TEM bandeira e nem partido. Existe em TODAS as agremiações que desfrutam de algum tipo de poder. Advogados, médicos, partidos políticos, síndicos… ninguém está livre. Essa história infantil de dizer que o PT é corrupto, são os “petralhas” ou os “tucanalhas” do PSDB, ou que “todos os políticos são corruptos” é RIDÍCULA. Os corruptos SOMOS NÓS, cada um em sua esfera. A corrupção é um mal que nos atinge a todos, sem exceção, nas grandes e nas pequenas coisas.

Se existe algum diferencial hoje é que o PT está oferecendo todas as condições para a solução desta mazela social, permitindo que os corruptos sofram a ação da lei, sem perdão. O que nós vemos hoje, patrocinado pelo partido que está no governo, é uma transparência inédita na luta contra a corrupção nas empresas públicas e privadas. Os dirigentes das empreiteiras foram PRESOS, perceberam a diferença? Os corruptores também estão sofrendo a mão pesada da lei. Dilma tem razão em dizer que o caso da Petrobrás vai mudar o Brasil, e para melhor. A “coisa pública” – a “res pública” – será vista com mais responsabilidade no futuro, e com menos oportunismo. Infelizmente teremos que passar pela dor e pela humilhação de agir com rigor contra o atraso, mas é a via necessária.

Espero que estes casos se tornem emblemáticos e sirvam de exemplo para o combate à impunidade, aqui e no resto do mundo.

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Feministas Radicais

Latuf Feminazi

Bem… A charge do Latuff sobre as “radfems” é politicamente incorreta. Equivocada mesmo. Eu gosto do ativismo político do Latuff, em especial no que se refere à Palestina. Minha tese sobre o feminismo se mantém, e a crítica ao Latuff só a reforça: as mulheres são vítimas de uma sociedade onde o machismo ainda é brutal, mortal e cruel. Mesmo uma mulher que nunca sofreu na carne essa brutalidade já a sofreu no espírito. Temos uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo arbítrio. A sofisticação da justiça e da democracia passa, inexoravelmente, pela “libertação” das mulheres. Assim, por reconhecer estas realidades, qualquer crítica ao grupo que é historicamente oprimido, mesmo quando sensata ou verdadeira, pode receber a marca da insensibilidade ou parecer um conluio com os opressores. Seria absurdo imaginar que muitas radicais feministas não cometem erros ou que não possuem ódios, rancores e feridas mal cicatrizadas. O mesmo com negros, nordestinos, homossexuais. Se estes sentimentos passam ao ato, e criam violência, deveriam ser criticados. Entretanto, a charge do Latuff extrapola e generaliza. O que seria uma parcela minoritária vira a imagem iconográfica de um grupo que prega a igualdade. Fez bem em se retratar. Ficou legal para ele e acho que as feministas radicais acabaram contempladas em suas justas reivindicações. Os sujeitos erram, mas reconsiderar é muito bonito.

Latuf Feminazi Retratação

Durante este período percorri os debates sobre o professor famoso aquele e sua conduta com as fãs e acabei descobrindo, um pouco espantado, a extrema diversidade do movimento feminista. Algumas dissidências internas parecem brigas de torcida organizada de futebol. Tem muito rancor, mágoa, visões díspares, mas nada além do normal para movimentos nascentes (um movimento é “nascente” se tiver menos de um século, no meu critério pessoal). O meu espanto maior foi meu desconhecimento da extrema diversidade entre tais grupos e os jargões que elas usam. Radfems, transfems, cis, queer, mascus, etc. me mostram a ignorância que tinha/tenho sobre isso. Outro ponto é a divergência, que por vezes se manifesta por repúdio explícito, à presença de homens, chamados de “feministos“. Continuo achando que, mesmo apoiando estes movimentos e os amplos direitos de igualdade pretendidos pelas mulheres, não me identifico com o discurso de várias correntes. Todavia, sigo firme no apoio às liberdades femininas de expressão de sua sexualidade, em especial no parto, que é parte da “vida sexual de toda mulher”.

Nos debates sobre o suposto machismo do famoso professor sobravam acusações de todos os lados entre as várias vertentes feministas. “Transfóbica” era um dos mais comuns. É curioso como elas chamavam os homossexuais masculinos de “viados” com o mesmo “tom” pejorativo que os heterossexuais usam. Mas, longe de mim querer rotular e achar que “isso aí é o feminismo”. Isso é tão tolo como ver uma prostituta e dizer “isso é o capitalismo” ou ver um homem-bomba e chamar de “islamismo”. Não, este movimento é rico exatamente por ser multifacetado e plural. Mesmo me assustando com a violência de alguns grupos é inegável a urgência e a propriedade das reivindicações.

Um exemplo famoso: nos anos 90, nos Estados Unidos, um marido violento, mulherengo e alcoolista chega em casa bêbado e tenta fazer sexo com sua mulher – uma imigrante da América Central – que o rechaça. Ele deita para dormir e a mulher, amargurada e humilhada, resolve se vingar amputando seu pênis com golpes de facão. Lembro que na época eu dizia que uma brutalidade como a que ela cometeu não se justificaria, mesmo que fosse possível entender suas razões. Mas qualquer crítica à ação de uma mulher duplamente oprimida, por ser mulher e imigrante, passava a ideia de que aceitávamos as OUTRAS violências que ela sofria, a do marido e a da sociedade preconceituosa onde estava inserida, estas crônicas e insidiosas.

Era complexo, e por vezes inútil, debater com as vítimas, ou seja, todas as mulheres que se identificavam com o sofrimento e humilhação da imigrante.

No caso do negro acorrentado a um poste via-se o mesmo. As vítimas somos todos nós, reféns de uma sociedade desigual e onde o crime é impune. Qualquer um que defendesse o jovem negro, criticando a indignidade cometida contra um ser humano, recebia uma saraivada de críticas ferozes dos justiceiros, e as mais brandas eram “então leva pra casa”.

Tentar criar uma terceira via, onde NENHUMA violência seria aceitável, sempre recebe críticas daqueles que por anos (ou séculos) sofrem nas mãos dos opressores. Mas eu acredito que esta é a única solução duradoura.

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Cidadão de bem

Cidadao de bem

Auto proclamar-se “Cidadão de bem” é pejorativo, sim. Eu acho que não é à toa que a direita mais retrógrada usa tanto essa expressão. E ela se estabelece pela divisão essencialista da sociedade, baseada em critérios morais criados pelas classes hegemônicas. Assim, um cidadão racista, homofóbico, misógino, preconceituoso e golpista como o Bolsonaro pode se considerar um cidadão “de bem”, porque nunca precisou “bater” uma carteira ou roubar um supermercado para conseguir o que comer, ou apenas para ter acesso à felicidade que ilusoriamente vem com o consumo. Já estes últimos, “ou outros”, os “vagabundos”, mesmo sendo pessoas em que o crime existe por contingência – e não por convicção perversa, como em Bolsonaro – são considerados da “banda de lá”, meliantes, criminosos, safados, que merecem cadeia ou, de preferência, a morte.

Uma frase que li em um desses sites de extremistas em apoio à intervenção militar: “Na ditadura se você for uma pessoa de bem não terá o que temer“. Desta forma, para ser “pessoa de bem”, é necessário baixar a cabeça para os poderosos ou ser forte e violento o bastante para obrigar que os outros se curvem quando você passar. Sim, “cidadão de bem” me ofende, pois sou um cidadão IGUAL a todos os outros, e não pertenço a uma estirpe ou casta superior, aquela que pode atirar pedras nos outros por se julgar isenta de pecado.

Abaixo o jornal “Cidadão de Bem” de 1926 (Good Citizen), uma famosa publicação da Ku Kux Klan. Podemos considerar coincidência que esta expressão seja usada pelos defensores de Bolsonaro e outros fascistas contemporâneos?

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Empresários da Intolerância

Eu prefiro ver a emergência de sentimentos discriminatórios nas últimas entrevistas com “pastores” de igrejas evangélicas através de uma análise mais mercadológica. Os tais defensores dessas visões homofóbicas sabem que existe uma parcela minoritária da população que simpatiza com as teses de extrema direita. Os consumidores desse tipo de visão de mundo são frequentemente sexistas e preconceituosos, brancos, moralistas e muitas vezes ligados a uma religião. Fundamentalistas e oportunistas, tentam explicar a sua condição social superior através de uma espécie de “essencialismo”, ao estilo de Calvin Candie em Django Livre, que justifica as diferenças sociais ligadas às raças com explicações genéticas e frenológicas estapafúrdias. Para esse grupo “reacionário” sempre haverá prepostos, “escolhidos” para levar adiante suas ideias. E essa escolha por um “nicho de mercado” está relacionada aos 20 bilhões de reais que verteram para as igrejas brasileiras no ano de 2011. Muito dinheiro para ser dividido entre alguns poucos empresários da fé.

Bolsonaro, militar aposentado e deputado do Rio de Janeiro, é popular por essa mesma razão: ele representa essa parcela minoritária – mas significativa – da população. Os disseminadores das teses da direita falam àqueles que se sentem amedrontados com o surgimento de uma maior liberdade sexual. Quanto mais livre a sexualidade, mas ela é ameaçante à vista de alguns. Enquanto o homossexualismo era a explicação mais fácil, tornado desvio e doença pela oficialidade que redigia o DSM, ele estava restrito aos consultórios médicos. Após a queda do “Muro de Pedra” (Stonewall, boate gay de Nova York que foi invadida pela polícia no início dos anos 70), e a consequente reação do universo homoerótico, o mundo não seria mais o mesmo. Surgia a homossexualidade e os conceitos de “opção” e posteriormente “orientação sexual”.

Mas a liberdade cobra seus preços. Entre eles a “homofobia”, fruto da abertura sexual, exatamente porque a liberdade de expressão é opressiva para aqueles que se julgam ameaçados pela pluralidade de opções. Esses grupos reacionários normalmente atacam o que mais temem, e usam explicações de ordem religiosa (assim como Calvin Candie usou a Genética, em Django Livre, para explicar a escravidão) para levar adiante suas ideias segregacionistas. Minha posição, diante dessa especial visão do problema, é ignorar os arautos da “decência sexual”, não dar publicidade aos seus pressupostos e não difundir suas ideias (que é exatamente o que eles querem quando expõem suas declarações escandalosas). E isso não é omissão, pelo contrário. Trata-se de uma estratégia para manter esses grupos como minoritários, e não permitir que suas ideias grosseiras e discriminatórias se propaguem.

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