Arquivo da categoria: Religião

Guerras Religiosas

Guerra Israel

Um erro plantado na cultura ocidental contemporânea é a crença de que as guerras entre israelenses e palestinos ou entre britânicos e nacionalistas na Irlanda tem alguma conotação religiosa. A religião é apenas uma coincidência. Da mesma forma que brancos e negros poderiam ter religiões diferentes na África do Sul, ela nunca foi a origem do Apartheid. Israel domina o território palestino, mas isso nada tem a ver com a religião, até porque os ideólogos sionistas eram declaradamente ateus. O mesmo se dá com as lutas entre “católicos” e “protestantes” na Irlanda, que nada mais são que uma forma de desviar a atenção sobre o colonialismo britânico e colocar sobre a disputa uma conotação religiosa e de intolerância com as crenças alheias.

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Milícias, brigadas, fundamentalismo e …. medo

Há algumas semanas eu escrevi um post perguntando as razões para que a Igreja Universal, do bispo Edir Macedo, mudasse de uma forma tão radical sua forma de expressão. Basicamente eu perguntava porque o foco deixava de ser o Evangelho – a Boa Nova, o novo testamento – para buscar uma ligação intensa e absoluta com o judaísmo, o velho testamento e o sionismo. Os detalhes da cerimônia de inauguração do “Templo de Salomão” (obra que custou mais do que a Arena do Corinthians) são inacreditáveis.

Pois quando eu li (vide link abaixo) que no início da cerimônia de inauguração do templo foram entoados os hinos brasileiros e o de Israel (!!!!) minha perplexidade deu lugar à certeza de que, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos com os televangelistas, tais iniciativas tem relação ideológica e econômica com o sionismo internacional e com o suporte ao governo de ocupação racista de Israel. Os esforços para criar uma consciência global contra a limpeza étnica e o apartheid na Palestina vão esbarrar no pior fundamentalismo religioso existente. A Igreja do bispo Edir continuará sendo um baluarte do atraso e um entrave aos direitos humanos na Terra Santa. Pobres palestinos…

Não por acaso tal conluio com as forças mais violentas e agressoras dos direitos humanos partem do mesmo grupo pentecostal que acaba de anunciar a criação dos “Gladiadores do Altar“, com seus gritos fascistas, uniformes militares, ordem unida, discurso de direita e comportamento agressivo. Como diz o parlamentar Jean Wyllys, falta pouco para espancarem e matarem em nome da religião, ou para jogarem gays e lésbicas do alto das torres.

Mas aí já será em nome de Moisés e das tribos de Judá.

Leia mais no link abaixo:

O que a imprensa não disse sobre o Templo de Salomão

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Religião

Oração_religião

Desculpem-me os religiosos e crentes.

Sei das suas crenças e as respeito, pois um dia também as tive. Quando cito textos retirados das palavras de Jesus e de Deus faço-o para mostrar que a Bíblia é um livro escrito por humanos e para humanos, com valores humanos e não divinos. Qualquer pessoa retira o que bem entender dos livros “sagrados”. Podemos usar qualquer fundamentalismo sobre tais livros , seja ele a Bíblia, o Corão ou o Torá. Podemos olhar as palavras como são, ou interpretá-las da maneira como bem entendermos. É por isso que este e qualquer outro livro “sagrado” não são confiáveis para ditar normas humanas. Eles são num testemunho de histórias contadas há séculos, com valores e personagens daquela época, e que cumpriam funções políticas adaptadas à sua época também.

Quando esprememos a Bíblia e retiramos o sumo doutrinário mais essencial aparecem apenas frases como “amai-vos uns aos outros“, “seja teu falar sim-sim, não-não“, “o amor cobre a multidão de pecado” que, de forma variada, todas as outras religiões dizem no seu intento civilizatório de otimizar o esforço de progresso das sociedades humanas através da fraternidade. Portanto, não é necessário submeter-se a senhores, “intermediários de Deus”, para assumir uma atitude fraterna. Eu, pessoalmente, não procuro ser fraterno ou justo porque Jesus ou Buda me pediram ou exigiram, mas somente porque acho justas e corretas tais ações. Um Deus que criou o universo não poderia ter defeitos piores que os meus, como ódio, vaidade, rancor e raiva, mas a Bíblia é recheada de chiliques divinos, típicos de um menino manhoso e mimado, sujeito a ódios e vinganças. Certamente que a Bíblia – e menos ainda o Corão – não me oferece uma imagem adequada de criador.

Contínuo a crer que as religiões atrasam o mundo, e suas crenças mais separam do que unem os homens. A fraternidade não precisa de palavras mágicas ou gurus; ela se expressa como um roteiro natural de progresso humano, superior a qualquer outra forma de relação entre as criaturas. Esta é sua força essencial, e não as palavras de qualquer Avatar.

Eu respeito este tipo de visão de mundo, mas tenho muita dificuldade de entender. Uma coisa que me deixa atônito é os adesivos em automóveis onde pode-se ler: “Propriedade de Jesus“. Como alguém pode se sentir feliz ou orgulhoso por ser propriedade de outro, mesmo que seja um outro supostamente maravilhoso? Eu pergunto: se o seu filho fosse adulto e dissesse “sou propriedade do meu pai” você se sentiria satisfeito, orgulhoso da criação que proporcionou a ele? Você se consideraria um bom pai por ter mantido um filho atrelado a você, dependente de você, idolatrando você, sacrificando-se para agradar as suas vaidades e caprichos? Que tipo de pai acha bonito um filho subir uma escadaria destruindo os joelhos para honrar seu nome? Que tipo de pai acha bonito um filho se humilhar diante de todos confessando sua fragilidade e dependência? Pois eu não consigo entender que o “criador de todas as galáxias e mundos conhecidos” seja mais tolo, vaidoso e egoísta do que o mais mundano dos mortais.

Um Deus poderoso o suficiente para construir o Universo teria que ser pelo menos melhor do que eu. E eu não trataria um filho com tanta displicência como Deus – todo poderoso – trata seus filhos.

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Progresso

Artemis

É importante ter em mente que a que a ideia de resgatar elementos perdidos na aventura tecnocrática humana em relação ao parto, amamentação e maternagem não deve nos seduzir em direção a uma visão nostálgica e ingênua do passado, aquele tempo “perfeito” e estável onde as mulheres podiam livremente amar e cuidar de seus filhos. O progresso (se é que ele existe, pois para cada avanço notável sofremos perdas invisíveis mas igualmente profundas) pressupõe mudança e entropia; choque, atrito, destruição e reconstrução.

O papel da mulher e – por conseguinte – da maternidade haveria de se transformar com o fim do paleolítico superior e a chegada do neolítico, com o sedentarismo, a posse – de coisas e pessoas, a religião, a guerra e o patriarcado. Assim estamos falando de uma transformação adaptativa obrigatória, e não uma mera escolha racional por caminhos distintos. As mulheres de hoje são um produto de milhares de pequenas transformações culturais adaptativas dos últimos cem séculos, que nos leva da “mãe essencial” à algo que se aproxima de Ártemis, a deusa tríplice.

Se é verdade que a forma como as mulheres pariam, amamentavam e cuidavam de suas crias nos tempos distantes nos causa saudade, também é verdadeiro que os avanços em termos de liberdade e autonomia garantidos hoje a elas nos impedem de voltar à ilusória estabilidade de outrora. Nosso desafio é encontrar um paradigma que, ao mesmo tempo que garanta as conquistas modernas de autonomia e segurança, também ofereça às mulheres a possibilidade de viver a maternidade com plenitude.

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O humor e seus limites

jesus-manero

Muitas pessoas me falam sobre a “indecência” de fazer piadinhas com Jesus. Dizem que deveria haver mais respeito com a religião e com o “pai”, e que tais chistes deveriam ser proibidos ou, no mínimo, sofrer uma dura recriminação.

Mas qual a alternativa? Criar uma instância de fé intocável pelo humor? Pois eu ainda prefiro que Jesus seja zoado a “protegido”. Não esqueçam que até os reis permitiam que os menestréis fizessem chacota com o reino e a corte. E se Jesus for mesmo o que dizem que é deve até se divertir com a criatividade dos seus “filhos” em criar piadas e chistes com seu santo nome. Ficar chateado com as brincadeiras denuncia certa insegurança nossa com o valor da mensagem, a exemplo dos islâmicos que até juram de morte quem profanar o nome de Maomé.

Não tenho religião e respeito todas as crenças, mas não coloco nenhuma delas num local inatingível pelo humor, pois isso significa admitir que ela é frágil demais para ser ameaçada. JESUS, seja quem for, deve dar barrigadas intermináveis com algumas boas piadas surgidas em seu nome…

Eu digo isso porque as piadas com Parto Humanizado – minha especialidade é a obstetrícia – devem ser respeitadas. Eu realmente não me importo e acho algumas engraçadíssimas. Certa vez assisti um stand up do Bill Cosby chamado “Natural Birth” – em que ele debocha do método Lamaze – que é simplesmente espetacular!!!

Não existe limite para o humor, e ele é a grande ferramenta contra a opressão. Nem todo o humor precisa investir na humilhação e no escárnio; podemos fazer dele uma arma contra os poderosos. Onde houver poder, haverá humor para relativizá-lo. Fazer troça com Jesus eu não vejo nada demais. Aliás, Monty Python fez isso com maestria… E é muito importante criticar todas as figuras históricas, pois isso as humaniza e até enaltece.

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Chute na Santa

Abuso Vadias
Respeitar os valores alheios, mesmo aqueles que nada significam para nós, é sinal de sabedoria e civilidade.

Durante a recente Marcha das Vadias alguns manifestantes realizaram performances inusitadas e “bizarras”, para dizer o mínimo, nas quais utilizaram símbolos religiosos cristãos como peça íntima de vestuário e para simulação de atos sexuais. Tais atitudes acabaram gerando uma onda de protestos por parte dos integrantes de denominações cristãs, principalmente evangélicos e católicos. Essas exposições de objetos religiosos e práticas libidinosas merecem algumas considerações.

As manifestações públicas, mesmo aquelas de caráter reivindicatório justo e adequado (como a Marcha das Vadias, em que as manifestantes exigem mais respeito e consideração com as mulheres e o feminino em um mundo ainda controlado por uma ideologia machista e falocêntrica), são um prato cheio para o atos de exibicionismo, atitudes histéricas e até mesmo a perversidade explícita. Para além dos pedidos e das queixas (como eu disse, justas e coerentes), alguns dos manifestantes (normalmente aqueles que menos se interessam pela questão em disputa) usam o público, a plateia sequiosa de escândalos e o clima de exacerbada emoção para todo o tipo de baixaria, abuso e exagero. Com isso suas ações acabam atraindo atenções e comentários, bem mais do que os “15 minutos de fama” regulamentares apregoados pelo visionário Andy Warhol.

Todavia, o resultado é invariavelmente negativo e contraproducente pois tais atitudes acabam por corromper a iniciativa, desviando a atenção dos valores em debate e distorcendo o foco das ações. Quando tais exageros são permitidos (e as vezes até estimulados) a própria luta pelos direitos em questão enfraquece. Ninguém estará interessado em apoiar um movimento que luta por respeito com as armas do abuso, do escândalo despropositado e do deboche.

Por outro lado não há como negar: tais ações são absolutamente inevitáveis. São humanas, e não podemos fugir dessa condição. Estes sujeitos são as pedras pelas quais os rios da mudança precisam desviar para que possam atingir seus objetivos. A pior parte da história é que esse tipo de manifestação grotesca, violenta, estúpida e injustificável diminui a força de qualquer movimento e oferece armamento para os inimigos. Se o objetivo era mostrar o valor de um país laico, de uma sociedade livre, de um estado que respeita as diferenças (entre elas as de gênero) o tiro saiu (desculpem o trocadilho) pela cu-latra dos manifestantes. Fica difícil admirar um movimento em que tais ações são consideradas válidas.

Não sou religioso e nem sigo religião alguma, mas acho importante ter respeito pelas crenças alheias, mesmo aquelas que para muitos de nós possam parecer tolas. O “chute na santa” é um bom exemplo. Este fato ocorreu em 1995 quando um pastor evangélico de nome Hélder desferiu vários chutes em uma imagem de Nossa Senhora em um programa da TV Record, em rede nacional. Foi o suficiente para que se gerasse um debate ácido entre evangélicos e católicos, ambos empenhamos em uma árdua disputa de mercado que perdura até os dias de hoje. A recente visita do Papa é apenas mais um capítulo deste embate pela conquista dos fiéis.

O que é interessante é que a “santa chutada” era realmente aquilo que o pastor dizia: um objeto de barro, banal, simples e sem valor intrínseco. Entretanto, o valor de um objeto qualquer (uma bandeira nacional, um crucifixo, a camiseta do clube, o brasão da família, uma imagem de um santo) estará sempre naquilo que o sujeito ou a sociedade emprestam ao tal objeto, e não no valor da matéria nele contida. Uma nota de 100 reais também é tão somente papel, mas ela é investida de um valor simbólico respeitado por todos nós, o que nos possibilita viver em uma sociedade complexa e capitalista. Os símbolos cumprem esta função nas sociedades humanas: eles incorporam valores, que para alguns são valiosos e plenos de significado transcendental.

Por esta razão – por não entenderem ou respeitarem estes valores – é que os tais manifestantes escancararam a face mais incoerente e inaceitável dos movimentos reivindicatórios: a grotesca falta de respeito por parte de quem exige respeito. Para avançar é preciso sempre entender o outro, no exercício mais complexo e difícil que o ser humano precisa encarar: transpor os limites da própria epiderme e sentir o calor do fogo e o gelo do vento com a pele de outrem. A alteridade é ferramenta indispensável para qualquer processo de transformação, e jamais poderemos prescindir dela para a necessária mudança que tanto exigimos.

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