Vulvas defeituosas

Poucas coisas são mais emblemáticas do machismo estrutural da Medicina, da ginecologia e (em especial) da obstetrícia do que uma especialidade médica que se ocupa em consertar os erros essenciais da genitália feminina.

Não é necessário usar o argumento sexista de que deveria haver uma especialidade médica para ajustar os equívocos do aparelho reprodutor masculino também, e a razão é simples: nenhuma alteração seria necessária em qualquer dos gêneros, pois esta anatomia foi criada e modificada por milhões de anos de processo adaptativo. Não existe beleza que não seja simbólica, nem feiúra que não se faça pelo olhar que a cultura devota a um fato, objeto ou sujeito. Os conceitos de “belo” são produções de suas épocas, que o digam as divas gordinhas do século XVIII ou as roupas estravagantes dos anos 70.

A idéia de “consertar” genitais femininos só pode partir de um olhar diminutivo, defectivo e preconceituoso sobre a anatomia feminina. Apenas uma sociedade ainda soterrada nos conceitos patriarcais pode admitir que exista um estética “adequada” ou correta para vulvas. Acreditar que existe “algo a melhorar” é aceitar a inferioridade física da mulher como um fato.

Eu ainda fico mais surpreso ao ver tantas mulheres se submetendo à ideologia de defectividade dos seus corpos. Também ficava chocado com mulheres que me diziam ter “nojo” (era essa a palavra usada) de tudo relacionado à menstruação: cheiro, “sujeira”, sangue, manchas, dores, alterações de humor, etc. Nunca escutei um homem reclamando de seus testículos, mesmo sendo uma anatomia muito mais questionável (por quê do lado de fora do corpo??), e muito menos do pênis. Mas, incrivelmente, testemunhei mulheres descrevendo vulvas e vaginas como “feias”, “asquerosas”, e “nojentas”.

Claro que estes discursos são produções culturais. Não existe valor absoluto nestes conceitos. Meninas são ensinadas a desvalorizar seu corpo, a tratá-lo como equívoco e falha, enquanto os meninos o enxergam como potência e beleza.

Outro fato curioso é que na diretoria da “associação brasileira de ajeitadores de x*x*ca” está…. uma mulher, o que mostra que a visão diminutiva da mulher é tão forte e pervasiva que as próprias mulheres médicas precisam acreditar nela para exercer essa função. É verdade, mas bastaria observar como as médicas se comportam em relação ao parto para entender como a visão médica do feminino tem poder sobre as próprias mulheres que se propõe a tratar os corpos de outras mulheres.

Sempre haverá desculpa para explorar este tipo de mercado. A primeira é de que seria para ajustar problemas congênitos ou produzidos pelos partos – o que seria razoável – mas sabemos que a publicidade é direcionada às mulheres normais em busca de uma “xexeca perfeita”, um produto criado de forma proposital para vender todos os artifícios possíveis nesta busca – a exemplo do corpo com formas perfeitas que se busca nas “academias”.

A segunda desculpa é de que isso se deve a uma “demanda das próprias mulheres” a exemplo do que ocorre nas cesarianas, mas sabemos o quanto estas demandas são artificialmente produzidas pelas ideologias hegemônicas, que direcionam as mulheres a desconfiar de suas formas, nunca se satisfazerem do seu corpo e, no caso das cesarianas, não acreditar em na sua capacitação inata para gestar e parir com segurança. Assim, como ação inicial – cultural e subliminar – desacredita-se nas capacidades femininas insuflando-se desde a mais tenra idade uma desconfiança essencial e, como segunda etapa, vendem-se soluções cosméticas ilusórias para suprir esta falta, que vão das cesarianas às plásticas vulvares. Lucra-se com a destruição da autoimagem feminina, vendendo a elas a solução externa para um problema que foi criado no interior de suas almas.

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Filmagens

Sobre permitir filmagens de hospital somente mediante autorização. Para debater…

Sim, mas já pensou quem dá autorização para que o hospital seja filmado e fiscalizado? O delegado? O diretor do hospital? O diretor da maternidade? E dará em que circunstâncias?

Eu acredito que o melhor para o serviço público é ser absolutamente transparente. Como nos Estados Unidos (nas poucas coisas que eu concordo com as leis de lá): pode filmar tudo que seus olhos puderem enxergar em espaços PÚBLICOS. Não há expectativa de privacidade quando se está na rua ou em lugar de livre acesso. Qualquer cidadão com um celular na mão tem prerrogativas de “imprensa” e pode controlar e registrar o que é feito com o seu dinheiro aplicado nos impostos. Cada cidadão se torna um FISCAL do uso do dinheiro público.

Isto é: Pode filmar a polícia, os hospitais, a prefeitura, o trabalho dos funcionários públicos, desde que (e aqui o ponto FUNDAMENTAL) esteja em um local aberto ao público. Assim, você não pode invadir a sala de parto ou a sala cirúrgica de um hospital, mesmo que sejam hospitais PÚBLICOS. Não pode invadir a sala de interrogatório de uma delegacia de polícia ou a sala do prefeito, pois são espaços (de acesso) RESTRITOS, usados apenas por quem lá trabalha.

Uma medida como essa parece ser de proteção aos profissionais da saúde que são ameaçados por familiares pacientes – em especial os bolsonaristas hoje em dia. Entretanto, a resposta da sociedade para proteger profissionais e o seu trabalho não pode ser ESCONDER ou impedir que sejam registradas as suas ações que são públicas. Este tipo de “censura” serve muito bem aos governos totalitários que dificultam o acesso às informações do que ocorre dentro de espaços que, em última análise, pertencem a todos nós.

E vejam só…. percebam o que ocorreu com a assistência ao parto quando os centros obstétricos foram lentamente “invadidos”, primeiro pelos pais e acompanhantes nos anos 80, e depois pelas doulas neste século. Quantas transformações ocorreram exatamente porque as ações dentro do centro obstétrico puderam ser vistas, testemunhadas, fiscalizadas e registradas.

Mesmo que muitos profissionais tenham sido prejudicados por esta vigilância o saldo para a população é positivo. Muito mais importante é descrever as alas restritas dos hospitais e permitir que seja registrado o que está acontecendo, porque o segredo e a censura nunca são estratégias positivas em longo prazo.

Sobre o projeto de lei que deseja proibir as filmagens, clique AQUI.

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Fechamento

Sobre o fechamento de setores do Hospital da PUC de Porto Alegre (obstetrícia, neonatologia, pediatria e cirurgia pediátrica) escreve abaixo um médico que lá trabalhou por vários anos. Acredito apenas que seu diagnóstico final está equivocado; não é “neoliberalismo” o nome dessa doença, mas CAPITALISMO. Esse modelo econômico, quando aplicado à saúde é trágico e desumano. Como fica bem claro no texto, partos, nascimentos e crianças “não dão lucro”. Agora o hospital vai centrar suas ações na áreas que dão mais dinheiro e, via de regra, aquelas que produzem menos impacto na saúde da população. Ou alguém ainda vai discutir que um bom nascimento e uma boa infância são os caminhos mais seguros para uma vida saudável?

Ahhh, não sei se é o caso do colega, mas quando lembro do apoio entusiasmado dessa corporação em favor de Aécio, depois os ataques contra Dilma, pela prisão injusta de Lula e finalmente a favor da eleição de Bolsonaro eu fico pensando… o que esperavam depois de tantas escolhas insensatas e umbigocêntricas?

A partir de agora sugiro aos guardas do hospital que, quando forem obrigados a mandar uma grávida ou uma criança doente à procura de outro hospital, que orientem os pacientes para que peçam ajuda à “mão invisível do mercado”. Talvez assim eles mesmos passem a entender que saúde NÃO é negócio. Talvez pela dor possam compreender que assistência à saúde é um direito humano básico, essencial e inalienável, a que todos devem ter direito, não obstante sua condição econômica.

E viva o SUS.


Texto de José Beltrame Cusco

“Hoje é um dia muito triste para mim. Daqui a pouco vou para o Hospital São Lucas da PUC-RS para o que será o meu último plantão na instituição – e dentro de poucos dias serei demitido, juntamente com outros colegas. Trabalho no Centro Obstétrico e este será fechado, extinto, como também os serviços de Pediatria, neonatologia e Cirurgia Pediátrica. A justificativa? É porque estes serviços “não dão lucro para o hospital.” Alguns colegas, professores com muitos anos de casa e um trabalho de qualidade notável já foram demitidos sem a menor consideração, inclusive pegos de surpresa, porque ninguém da direção teve a mínima decência de consultar os profissionais.

No aspecto pessoal, vou perder uns 30% dos meus ganhos, o que causa impacto mas não chega a ser nenhuma tragédia, porque ainda dará pra ter um padrão de vida confortável. Muito pior é para alguns profissionais que trabalham exclusivamente lá. E muito pior é o impacto no sistema de saúde pública da cidade, e para as pacientes do SUS que atendemos sempre com toda a atenção e o cuidado que elas merecem. E para as crianças e seus pais aflitos com as doenças que atingem os pequenos. E agora? Que se virem, que procurem outros hospitais – que vão ficar ainda mais sobrecarregados.

Há prejuízo também para os médicos residentes, que prestaram um concurso difícil para fazer sua especialização no hospital de sua escolha, com qualidade, e que serão realocados para outros hospitais que jamais escolheriam. E prejuízo ao alunos do curso de Medicina da PUC, que não terão onde acompanhar atividades práticas em duas áreas importantíssimas da medicina (pediatria e obstetrícia) e terão que “pipocar” por outras instituições… O curso de Medicina da PUC, com mensalidade caríssima, já foi considerado o melhor curso entre as universidades particulares – e vai deixar de ser. Mas a mensalidade não vai baixar, é óbvio.

Eu fiz minha formação como especialista no Hospital de Clínicas, que felizmente tem outra cultura e outra visão como instituição, mas trabalho no hospital da PUC praticamente desde sempre, desde que acabei minha formação. Eu fico muito triste com isso, mas a indignação é maior que a tristeza. O nome disso?

Neoliberalismo.”

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Ainda cloroquina

Não creio em razões políticas para a manutenção da Cloroquina como opção para a pandemia, mesmo após as repetidas informações sobre sua inefetividade, partindo de organizações de saúde e de governos. Creio que o buraco é outro.

As verdadeiras razões jazem nas profundezas do inconsciente e são derivadas da pressão do “imperativo tecnológico” sobre as ações médicas. Existe uma pressão positiva sobre a ação dos profissionais da Medicina, uma expectativa de “algo a ser feito”. Não se admite que alguém com essa responsabilidade social – como o médico – não aja positivamente, ativamente. Essa é uma lei não escrita que regula a medicina.

Se uma pessoa morre de Covid SEM o uso de Cloroquina a família, os colegas e até a opinião pública (mídia) podem acusar o profissional de negligência, por não usar algo que “muitos outros dizem salvar vidas”. Por outro lado, se o sujeito morre de Covid tendo usado a Cloroquina – mesmo que a morte tenha ocorrido pelos seus efeitos tóxicos (!!!!) – ainda restará ao profissional dizer “fizemos tudo ao nosso alcance”. É raro um médico ser acusado por ter FEITO algo, e o comum é o acusarem por NÃO ter feito o que se supõe deveria fazer.

Ciência e evidências científicas desempenham um papel pouco expressivo nas escolhas médicas. Elas são majoritariamente tomadas por pressões de ordem subliminar. Médicos prezam seus empregos, sua qualidade de vida e seu status – como qualquer outra profissão. Enfrentar as acusações em nome do rigor científico e de suas convicções é raríssimo. Se as evidências e estudos sistemáticos REALMENTE guiassem o proceder médico a medicina desta forma empregada seria absolutamente irreconhecível.

Alguns meses depois de formado encontrei colegas de residência que me diziam: “Essa história de parto normal é muito bonita, mas não funciona no mundo real. Na cidade do interior onde trabalho as mulheres chiques (esposas da elite interiorana) marcam cesariana. Se eu negar serei mal falado na cidade, e vão espalhar que ‘não sei operar’. Se eu tentar esclarecer serei chamado de ‘Joãozinho-do-passo-certo’. Todavia, se eu ceder e operar sem justificativa serei abraçado, reconhecido, bem pago, elogiado e jamais serei questionado. Só um maluco suicida faria uma opção diferente desta última.”

Nas escolhas deste colega, onde está a ciência? Mas, quem pode dizer que esta escolha é irracional? Pode ser equivocada e cínica, mas quem a toma tem suas razões.

Médicos são guiados pela mão invisível da cultura. São produzidos pelo cadinho de valores que nela transitam. São PRODUTOS culturais, assim como a medicina que praticam. Aqueles que ousam questionar os pilares sobre os quais se assenta esta prática vão receber a resposta dura e inexorável dos representantes do modelo hegemônico. Não há mudança sem luta – e sem mártires.

Não se trata de culpar as ações de médicos que – por medo ou oportunismo – mantém os modelos intocados, mesmo quando claramente insensatos e sem base científica. Mais importante é mudar a cultura através da educação. Um povo educado produz médicos menos agressivos e mais seguros. Houvesse mais educação para todos sobre ciência e a discussão sobre a Cloroquina teria uma face muito mais racional e simples.

É o nosso atraso que mantém o debate em bases tão primitivas.

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Medicina irreconhecível

Se por um decreto divino a prática médica a partir de hoje fosse plenamente vinculada às evidências científicas – mesmo as que já temos – muito rápido a medicina se tornaria uma profissão tão diferente do que existe na atualidade que seria praticamente irreconhecível. O que chamamos de “ato médico” é, em verdade, a encenação de um encontro terapêutico cujo enredo não é necessariamente escrito com as tintas da ciência.

James H. Waldorf, “From the depths to Calicut”, ed Norwegian, para 135

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Educar sem telas

Para mim o debate “educar sem telas” é semelhante ao debate “educar sem violência” com o qual convivemos nas duas últimas décadas, pelo menos. Quando este assunto surgiu no nosso meio as reações eram muito semelhantes. Achava-se inviável; argumentava-se que as pessoas não conseguiriam impor “respeito”, prevenir “erros” ou evitar “mau caminho” sem que fosse usada a força e – mais do que isso – a violência, que é a força usada para submissão. Há 30 anos acreditava-se que sem as palmadas seria impossível educar e colocar as crianças nos “eixos”.

Não há dúvida que a palmada funciona. Sua eficiência é incontestável. Uma criança que apanha aprende a se calar diante da força bruta, baixar a cabeça e obedecer. Criamos gerações de homens e mulheres ensinados a ver no uso da violência uma solução para dilemas e embates. O resultado vemos agora.

Todavia, cabe perguntar: o que conseguimos com isso? Resposta: uma sociedade que reproduz estas ideias.

Sobre as telas, apesar de serem agressões diversas, a mesma lógica pode ser aplicada. É inegável que um celular e um tablet com jogos e músicas hipnótica “funcionam”, assim como a TV igualmente funcionou para a minha geração. As crianças entorpecidas pelas cores, imagens e sons param de observar o mundo ao redor e focalizam no jogo. Entretanto, cabe mais uma vez perguntar: a que custo? As mesmas perguntas sobre o uso abusivo de TV agora recaem sobre os pequenos computadores de mão.

Pesquisas já mostram inúmeros malefícios com seu uso em termos de cognição, aprendizagem e questões afetivas. Por certo que a limitação do uso é um grande desafio, em especial porque não temos mais as mães do passado que devotavam toda a sua vida a cuidar dos filhos. Hoje são mulheres ativas com múltiplas funções e tanto elas quanto os pais sofrem a sedução cotidiana de oferecerem uma tela aos filhos como “tempo de descanso” para quem os cuida.

Esta é, por certo, uma decisão extremamente complexa, mas não há mais como – a exemplo das palmadas – questionar os malefícios da exposição superlativa. Organizar a melhor forma de disciplinar o (inevitável) contato é a grande decisão a ser tomada.

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Prince Charming

The search for chloroquine, ivermectin and now dexamethasone bears a resemblance to the search for love in a man or woman, an ideal of happiness that depends in someone to complete us and offer what we lack. In all cases the answer is always out there, in something that will rescue us from loneliness, degeneration and death. Exogenous healing has never gone out of style. Prince Charming never stopped visiting our dreams.


“A busca pela cloroquina, ivermectina e agora a dexametasona guarda uma semelhança com a busca do amor em um homem ou a mulher, um ideal de felicidade e em alguém a nos completar e oferecer o que nos falta. Em todos os casos a resposta está sempre lá fora, em algo que vai nos resgatar da solidão, da degeneração e da morte. A cura exógena nunca saiu de moda. O Príncipe Encantado jamais deixou de visitar nossos sonhos.”

Patricia Highsmith, Punxsutawney Chronicles, june 12th,

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O Preço da hegemonia

Uma das questões aqui na aldeia sempre foi que as esquerdas perderam a disputa pela hegemonia discursiva entre as seitas evangélicas, onde a direita e os fascistas “nadam de braçada”. Todavia, resta a questão: deveriam as esquerdas mergulhar no mesmo poço de falsidades, mentiras, mistificações, estelionato da fé e sonegação dos tele-evangelistas para disputar este terreno discursivo e estes eleitores?

Seria justo e eficiente abrir mão de convicções essenciais da esquerda – direito ao aborto, diversidade, educação sexual, estado laico, etc. – para invadir e conquistar o universo dos pentecostais? Não seria esta estratégia uma contradição em si? Seria lícito apostar na exploração maniqueísta da fé para depois propor uma sociedade complexa e cheia de contradições? A batalha deveria ser – mimetizando as redes sociais – pelo conteúdo ou pelos likes? Debate profundo ou lacração?

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O Sapateiro Russo

O filósofo russo Vladimir Egorov Vasiliev foi um famoso sapateiro russo e um dos maiores pensadores do século XIX, apesar de ter escrito de próprio punho apenas um manual para máquinas de costurar botas. Sua obra literária, entretanto, foi toda construída a partir do registro oral de suas histórias, poemas e narrativas feitas por seus discípulos da “Эскола Супериор де Сапатария” Escola Superior de Sapataria de Krasnoyarsk, na Sibéria, sua cidade natal.

Sua obra é gigantesca, e abrange a filologia, a ética, a filosofia, a poética e a literatura. Na Rússia czarista ficou famoso por seus contos políticos satíricos, onde retratava o drama dos agricultores e a miséria do campesinato sob o czar Nicolau. Seu conto mais famoso – o qual lhe rendeu 18 meses de prisão em Irkustk – foi “Блоха в задницу собаки” (uma pulga no c* do cachorro) onde um pequeno cão com o provocativo nome de “Nicolau” viaja pelos prados gelados da Rússia estabelecendo um ácido colóquio com uma pulga alojada no final do seu tubo digestivo. Os diálogos foram elogiados por Lev Tolstoi, que o chamou de “um idiota com uma inteligência admirável, porém imperceptível“.

Egorov foi reconhecido como um dos maiores influenciadores do pensamento russo do século XIX, e suas ideias podem ser vistas nas obras de Bakunin, Lev Shestov, Pavel Florensky, Dostoievski, Gueorgui Plekhanov e em especial Karl Marx. Seu encontro com Marx foi marcante e único, confirmado por inúmeras testemunhas. Durante uma viagem à Sibéria, Marx procurou a sapataria central de Krasnoyarsk para consertar seu velho calçado, gasto por longas caminhadas. Lá encontrou Vladimir Egorov muito ocupado, mas mesmo assim solicitou que ele lhe consertasse as botas furadas. Egorov aquiesceu e, enquanto fazia este serviço, Marx estabeleceu uma profícua conversa com o “sapateiro da Sibéria”, tendo anotado por mais de 3 horas todas as palavras do mestre sapateiro em um caderno. Anos depois se descobriu que esta conversa embasou “Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro“, sua tese de doutorado. Infelizmente, Marx nunca deu o devido crédito a Vadimir Egorov por este seu texto.

Este ano festejamos o centenário da sua morte, tragicamente ocorrida em 1920 quando resolveu velejar no rio Ienissei e foi jogado para fora do bote pelos marinheiros, acusado de fazer trocadilhos cujas rimas não se encaixavam adequadamente. Seu corpo foi resgatado muitos meses depois, e no seu bolso foi encontrada a última de suas poesias:

“Белые скалы
Играет в моче богов
Без соли и горечи
У стойки Игоронова
Они вынули это из голосового туннеля
Твоя последняя трещина
И голос прошептал
Под сибирским небом
Ваш последний крик
Свобода, свобода
И крем для детей”

“As rochas alvas
Jogadas na urina dos deuses
Sem sal ou rancor
No balcão de Igoronov
Tiravam do túnel da fala
Seu último estertor
E a voz sussurrava
Sob o céu da Sibéria
Seu derradeiro clamor
Liberdade, liberdade
E um creme para frieiras”

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