Cadeia

A camiseta dessa moça é a grande ironia, que ninguém imaginava que viesse ocorrer. A diferença é que o presidente não vai usar uma camiseta “Sara está presa”, muito provavelmente porque – é possível e eu acredito – os mais de 500 dias de Lula na prisão o ensinaram sobre o erro gigantesco de sua gestão carcerária. Lula, por certo, não acredita mais no encarceramento como solução para as tensões sociais e a criminalidade. O aumento da massa carcerária nos governos Lula e Dilma (imitando o mesmo fenômeno nos governos “liberais” dos Clinton) é uma mácula que os próximos governos progressistas precisam eliminar.

Encarceramento = racismo.

Sara Winter não deveria ser presa. Deveríamos estabelecer medidas sérias e bem controladas de reparação social. Cadeia e perda da liberdade apenas para assassinos e perversos, gente cuja presença na sociedade é uma ameaça REAL à vida de outras pessoas. A prisão de Sara apenas reforça o punitivismo tacanho que caracteriza o nosso judiciário.

Sara provavelmente tem problemas mentais e emocionais graves, como fica claro em sua biografia, mas é apenas uma bufona, não representa um real perigo com seu exército Brancaleone. A sua prisão tem um interesse midiático, para reforçar a autoridade de um STF acovardado e pusilânime, mas foi quase um pedido explícito de Sara. Ao ver seu projeto de milícia fracassar, só lhe restava a imolação pública como propaganda final. Queria ser heroína, e para alguns será…

As esquerdas deveriam desconfiar sempre que sua alegria está vinculada a uma decisão do judiciário politizado e partidário que temos. Lembro (faz pouco tempo) de figuras das artes com cartazes de apoio a Bretas, ou de artistas da Globo dando suporte a Moro. Nosso judiciário tem lado, e não é o das esquerdas. Festejar suas decisões apenas por diversão é um erro estratégico. A prisão espetaculosa de Sara pode ser amanhã a de um líder do MTST ou do MST, bastando para isso que um juiz do STF acorde de mau-humor.

O discurso tão usado do “bota na cadeia” é um apanágio da direita. As pessoas que usam estas expressões por certo que não fazem ideia do que seja uma penitenciária no Brasil. Nunca se deram ao trabalho de ver a foto de uma cela superlotada e nunca estudaram o terror que é sobreviver nas condições desumanas de uma prisão de terceiro mundo. Jamais questionaram o preceito básico do direito penal que afirma que “nenhuma pena pode ser pior que o crime cometido”. Mas… o que pode ser pior que o inferno? Aliás, foi um general ignorante e racista, truculento e boçal, quem imortalizou a brutalidade da ditadura militar no Brasil, exclamando: “eu prendo… e arrebento”.

Prender, colocar na cadeia, aprisionar e encarcerar sempre foi a narrativa da direita, em especial da extrema-direita e do fascismo. Sei também que os totalitarismos da cortina de ferro também usaram desse artifício. São estes tiranos que exaltam o poder coercitivo do Estado para estraçalhar as dissidências na busca por um pensamento único. Todavia, eu esperaria da esquerda um passo adiante, rompendo o ciclo nefasto do “vigiar e punir” e acabando com a arbitrariedade das prisões determinadas pelos interesses ou pelo ódio do juiz, como assistimos na Lava Jato.

Entretanto, nosso rancor (compreensível) ainda vai manter o enredo. Agora é nossa vez de sair às ruas gritando “Sara está presa”, dando risadas do seu infortúnio e fazendo chacota, sem perceber que mantemos o círculo do ódio girando, só esperando a vez de nos atacar mais uma vez. Tolamente, colocamos nas mãos de juízes e promotores venais o poder discricionário de quem sofrerá a humilhação e o horror de adentrar os calabouços deste país. E, vale sempre a pena lembrar, a pena pesa sempre muito mais se você for de esquerda, preto e pobre.

Valha-me Valois…
Salve-nos Kenarik…
Nos ajude Igor Leone.

Abolicionismo penal já!!!

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Psicopatia

Eu acho que Bolsonaro é um psicopata e seus filhos também, mas igualmente reconheço que usar essa particularidade – um diagnóstico médico asséptico – como explicação para o que temos agora é pura tolice. Nunca é tarde para lembrar que Bolsonaro é um SINTOMA social, a agudização de uma doença crônica da sociedade, o racismo pervasivo na cultura e o preconceito de classe levando ao despertar do fascismo – que dormia silencioso desde o fracasso da ditadura.

Ao eliminar-se a figura pública do Bolsonaro NÃO decorre o fim das forças que o colocaram no poder. Surgirá a necessidade por parte dessa enorme parcela fascista e racista da sociedade para encontrar um ícone que galvanize seus ideais e sua perspectiva de mundo. E não são poucos os que desejam este posto.

Culpar Bolsonaro et caterva pelo desgoverno atual é apenas parte da solução. Mais importante é combater os golpistas que moram no condomínio, os milicos extremistas anticomunistas, os empresários que os sustentam e a parte deteriorada da sociedade que despreza a democracia e clama pela volta do horror, das torturas, da violência policial e do silenciamento das vozes dissonantes.

Estudo que rotulam o comportamento de Bolsonaro como típico de psicopatas em nada auxiliam na cura do problema social que Bolsonaro representa. Sinto que, a exemplo da Alemanha em meados do século XX, somente uma gigantesca tragédia será capaz de eliminar essa mancha escravagista da sociedade brasileira.

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Estátuas Virtuais

Quando pensamos em retirar as estátuas que homenageiam mercadores de escravos, racistas inveterados, matadores de índios e ditadores eu me pergunto sobre o que fazer com as “Estátuas Virtuais” erigidas a grupos que impuseram terror, genocídio, limpeza étnica e massacres e que ainda hoje são glorificados através de um processo de “limpeza cultural’, que transforma monstros em heróis e crimes contra a humanidade em atos de bravura.

Lembro muito bem das séries de TV da minha época, onde os “colonos” com suas carroças, mulher e filhos loiros rumavam para o Oeste cheios da paixão pela aventura e plenos de coragem para enfrentar os perigos de uma terra selvagem.

Só muitos anos depois pude perceber o engodo dessas narrativas. Em verdade, nós poderíamos com toda a justiça chamar “Os Pioneiros” mais corretamente de “Os genocidas invasores de terras indígenas”.

Sim, eles nada mais eram que selvagens, assassinos, ladrões de terra e genocidas que produziram limpeza étnica de dezenas de nações indígenas nativas da América do Norte, herdeiras das populações Clóvis. O livro “Enterre meu coração na Curva do Rio”, de Dee Brown, deixa muito claro como tudo ocorreu – e o nível inacreditável de crueldade desse genocídio norte americano.

Todavia, a imagem que nos chegava era completamente diferente dessa dura realidade. “Daniel Boone”, “Os Pioneiros”, “Rin tin tin”, etc, eram programas que tentavam retratar estes invasores e assassinos como “bons cristãos”, “cidadãos de bem”, com suas Bíblias e carroças levando a palavra de Cristo aos selvagens. Estas séries se ocupavam de fazer uma limpeza da história, transformando invasores em “colonos” – como se estivessem ocupando terras vazias – enquanto os indígenas eram retratados de duas formas básicas: o “índio ruim”, cruel, bárbaro, traiçoeiro e vil, ou então o “bom índio“, domesticado, civilizado, de feições ocidentalizadas, que auxiliava os brancos e aceitava docilmente sua submissão à invasão europeia.

Em verdade, os índios que moravam nas terras à oeste por mais de 100 séculos foram massacrados por sujeitos movidos pela ganância e pelo desrespeito à posse das terras dos “first nation” – nativos da América. Não há outra forma de descrever as “Guerras Indígenas” americanas com um nome diferente de “massacre colonialista”.

Assim fala a Wikipédia sobre o massacre iniciado pela “Corrida do Ouro” em direção ao “Wild West” durante o século XIX:

“O Genocídio dos povos indígenas dos Estados Unidos durante o século XIX, que resultou no massacre de milhões e na destruição irreversível de várias culturas, feito sob a alegação de uma guerra justa, ou guerra indígena, teve características próprias, que diferem o que aconteceu nos Estados Unidos do que aconteceu no restante da América. A limpeza étnica do oeste americano tornou-se política oficial do governo americano, que passou a declarar guerra às tribos indígenas sob qualquer pretexto.

Assim os apaches foram destruídos pela ação do exército americano após a entrada de mineiros e bandidos no território dos apache. A eliminação dos índios também foi defendida por dificultarem o trabalho dos empreiteiros e empresários de ferrovias que construíam e cortavam suas terras com a nova malha viária, ou como uma forma de se desobstruir o solo das planícies, destruindo suas culturas de subsistência, substituídas por lavouras comerciais em contato com os mercados consumidores através do novo sistema ferroviário.

Os indígenas foram paulatinamente empurrados pelo governo americano para territórios cada vez mais áridos, inférteis, isolados e diminutos. O antigo “Território Indígena”, que cobria a superfície de 4 estados da União, acabou sendo abolido e trocado por pequenas e esparsas reservas indígenas.

Em um discurso diante de representantes dos povos indígenas americanos em junho de 2019, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, pediu desculpas pelo genocídio cometido em seu estado. Newsom disse: “Isso é o que foi, um genocídio. Não há outra maneira de descrevê-lo. E é assim que ele precisa ser descrito nos livros de história.”

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Bilionários

A ideologia do acúmulo infinito, da meritocracia irrestrita, leva à criação de ‘monstros’ como Ma, Bezos, Musk, Gates e Zuckerberg, cujo poder acumulado é maior do que o PIB da maioria dos Estados nacionais. Esse modelo é, acima de tudo, antidemocrático, que coloca o capital acima das pessoas, tirando delas o poder e mantendo-o na mão das elites financeiras. A luta contra o imperialismo e a colonização está ligada à necessidade de conter o poder obsceno captado por bilionários, cuja visão de mundo pode ser chamada de qualquer coisa – de visionária a apocalíptica – mas jamais democrática e ampla.

George Mguzue, “On the rise of a new order”, ed. Patch, page. 135

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Motivações e sombras

Em toda mobilização subjetiva no sentido da transformação haverá um deflagrador de origem primitiva, emocional; sexual em essência. Como dizia Dimitri*, as concepções de ordem intelectual jamais oferecem potência para mobilizar as energias criativas de um indivíduo. A real origem delas pode ser recôndita, inconsciente e inconfessa, mas uma busca apurada encontra a semente psíquica e erótica desses movimentos que, multiplicados por contextos e circunstâncias infinitos, produzem guerras, monstruosidades, o amor romântico, a cura das doenças e a até a conquista do universo.

Edouard Davrigny, “The Inner Circle of Mystic Roots – The life and work of Dimitri Czerkow”, ed. Altumus Press, pág. 135

Edouard Davrigny é um escritor belga nascido em 1936 na cidade de Kortrijk, próximo à fronteira da França. Sua mãe era comerciante e seu pai professor de história na escola local. Fez seus estudos na França, tendo estudado psicologia na Sorbonne. Durante seus estudos tomou conhecimento da obra do místico russo Dimitri Czerkow que no século XIX produziu uma extensa coletânea de livretos que poderiam ser considerados precursores da obra de Freud, não fosse que o mestre austríaco jamais poderia ter tomado conhecimento deles, já que somente foram descobertos em 1950 durante a construção da estação Kolhtsevaia (Кольцевая) do metrô de Moscou, quando uma arca com manuscritos muito bem preservados foi descoberta sob uma das casas demolidas. Dimitri passou a ser estudado por vários pesquisadores e historiadores russos, mas nenhum deles produziu uma historiografia tão completa quanto a de Edouard Davrigny. Edouard escreveu vários livros sobre psicologia e participou de coletâneas de vários outros autores. Entre seus livros o mais conhecido é “Psychologie et substances psychoactives”, também lançado pela Altumus Press.

* Refere-se ao místico ucraniano radicado na Rússia Dimitri Czerkow cujo livro “Inner Circle” de 1866 estabelecia as rotas, os rituais e os condicionantes para a elevação espiritual dos iniciados. Ficou conhecido pelo uso de substâncias alucinógenas derivadas de raízes de Eleutheria pragnatis nas suas atividades como místico e por sua devoção à divindade Gorratchin – uma mistura de bondade extremada e desinteressada com hipersexualidade dionísica. Acabou seus dias com distúrbios sérios da sanidade mental e foi enforcado por fraude fiscal.

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Sombra

Desconfie de todo justiceiro; atrás da luz fulgurante de justiça que ele traz à proa se projeta uma gigantesca sombra, cuja extensão não enxergamos, mas que, mais cedo ou mais tarde, aparece à nossa frente, em geral quando ainda estamos ofuscados pela luz.

Adm. Walter Scott, on “Writings on Faith and Fear”, ed. Walton, page 135

Walter Scott foi um militar americano nascido em Augusta, no Maine em 1911, que lutou na “Guerra da Coreia” (1950-1953), tendo recebido inúmeras condecorações por bravura. Foi um dos maiores críticos deste conflito, denunciando o genocídio promovido pelo exército americano na Coreia do Norte. Em seu livro de memórias “Writings on Faith and Fear” ele descreve a selvageria dos combates e as bombas jogadas sobre povoados pelos bombardeiros americanos, com imenso desprezo pela vida da população coreana. Segundo ele disse em uma entrevista em 1980, um pouco antes de sua morte por câncer linfático, o nome original do livro seria “The Dark Side of M.A.S.H.”, mas foi vetado pelos editores pelo enorme sucesso da série americana.

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Tempo

“Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo”

(Caetano Veloso)

Uma questão importante de aprendermos – todos – em tempos de internet, mídias sociais e instantaneidades é que os temas precisam de maturação, e maturação requer tempo.

Por mais que você tenha uma visão muito lúcida e plena de razão em seus pressupostos existe um tempo necessário para que as feridas possam cicatrizar. Depois de uma perda, em especial mortes violentas de crianças e jovens, é especialmente válido guardar um tempo de silêncio em respeito à dor de quem sofreu o drama de uma perda tão de perto.

E não importa se a sua análise está correta; estar certo não é o que mais importa. Respeitar os sentimentos alheios durante processo agudo de luto é uma obrigação da civilidade. Sem isso perdemos toda a humanidade, a empatia se esvai e ficamos prisioneiros da realidade crua.

Nesses casos de morte à justiça precisa prevalecer mas não às custas da desumanização dos personagens envolvidos. Muitas vezes a justiça funciona mais quando tardia, exatamente porque as emocionalidades e paixões envolvidas sofrem o desgaste benéfico produzido pelo efeito curativo do tempo.

Se você tiver uma visão clara de um caso pontual e trágico ocorrido em nossa sociedade, espere o tempo adequado para se manifestar. Não se apresse, não seja vitima de seu senso de urgência. Guarde sua análise para depois, para um momento onde suas palavras não terão tanto potencial destrutivo.

Seja humano, pense no sofrimento dos outros. Em momentos de dor exercite sua empatia. Afinal a razão e a lógica vieram muito tempo depois que o cuidado com o semelhante já era um traço essencial para o futuro dessa espécie.

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Vigilância fetal

Sobre vigilância fetal:

Minha pergunta é simples, até singela: haverá uma justificativa comprovada dos benefícios da vigilância ostensiva sobre o bem estar fetal se forem retirados todos os condicionantes tecnocráticos da assistência ao parto?

A ausculta fetal faz parte do cenário da assistência ao parto, assim como os exames de toque sequenciais e sistemáticos. Estes últimos só agora – e muito timidamente – começam a ser questionados. Já a ausculta se mantém intocada e impávida. Ambos os exames produzem poderosas mensagens subliminares: o profissional é quem diz do andamento do parto, e estabelece o bem estar do bebê. Só ele tem o livro de códigos para saber o que houve, quanto falta e se tudo está bem. As mulheres e seus maridos são passivos observadores da tradução que o profissional faz a partir destes sinais. Um poder gigantesco, acreditem…

Porém, sempre houve em mim uma dúvida corrosiva sobre a real necessidade destas invasões, ou quais os limites desta intervenção. Se fosse possível eliminarmos o stress, o isolamento (físico e psíquico), o medo, o pânico induzido, a separação, as drogas indutoras, os anestésicos, a linguagem agressiva e a própria hospitalização – ápice da objetualização da gestante – continuaria sendo válido o tratamento do bebê como “bomba relógio”, prestes a explodir? Qual o real percentual de bebês que produzem transtornos perceptíveis em partos livres do artificialismo da medicina atual? Talvez ninguém tenha essa resposta…

Quem sabe esta ação panóptica sobre o bebê se justifica apenas pelo ordenamento tecnológico que o antecede?

Será esta ausculta o resultado natural que criamos para remendar o estrago anterior criado pela profunda desnaturalização do parto pelas culturas contemporâneas?

Parto desnaturalizado = punch 1
Vigilância fetal = punch 2

Ou…

A polícia brutal que temos e a vigilância sobre pretos e pobres não é o resultado da sociedade de classes? Eliminadas as castas e a brutalidade de sua injustiça quanto ainda precisaríamos de polícia?

Creio que tratamos como necessidade o que é, em verdade, a criação artificial derivada de uma deturpação.

Não é?

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Antipetismo

Qual é, afinal, o tamanho desse “antipetismo”? Lula terminou seu mandato com 87% de avaliação “bom e ótimo”. O PT produziu um candidato à galope e conseguiu 45 milhões de votos e a maior bancada do congresso. Todas as pesquisas indicavam a Vitória de Lula na eleição passada, quando foi vítima de um golpe jurídico-midiático de difamação.

O antipetismo é uma criação de mídia diante de uma real insatisfação de setores da classe média com o partido dos trabalhadores, mas com dimensões claramente infladas. Hoje sobrevive apenas com patéticos editoriais do Estadão para sobreviver. O PT é o maior partido de esquerda democrática do mundo, e tem mais seguidores do que todos os outros partidos somados. Tem diretórios em praticamente todas as cidades brasileiras e vários governadores no Nordeste.

A ideia do “antipetismo” é muito mais um desejo das classes dominantes do que o fracasso de um partido ou de suas propostas. Um partido que quebrou recordes de aprovação não poderia sucumbir em apenas uma década. Disseminar esse falso consenso sobre o PT e as esquerdas é atacar a realidade dos fatos e fazer o jogo dos conspiradores.

PS: não sou petista. Sou gremista…

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Idolatrias

A presença de Sara Inverno nas manifestações pelo parto humanizado e pela autonomia da mulher na escolha pelo local de parto deveria nos fazer pensar de forma muito séria sobre a idolatria e a exaltação de personalidades. É por estas posturas que deveríamos ser muito cuidadosos na exaltação de indivíduos para além da ideia que carregam. A vinculação dela com o direito ao parto domiciliar se parece com a adoção do vegetarianismo por aquele outro personagem sombrio da Alemanha, que hoje em dia é usada como exemplo do perigo de colocar alguém no pedestal olhando para apenas para uma faceta de sua personalidade

Já do lado das vanguardas, fugir da sedução da idolatria é uma tarefa das mais difíceis. O amor direcionado às figuras de destaque é visto como “reconhecimento”, “carinho”, “merecimento”, “justiça”, mas em verdade esconde partes sombrias do nosso psiquismo como a idealização e a projeção.

Mais importante ainda é o “backlash”, a “volta”. Toda a adoração é um pagamento por um serviço prestado. Quem faz essa oferenda espera o retorno, que pode ser através do reforço de nossas crenças. Quando o ídolo resolve dizer algo que se afasta da cartilha que produziu sua idolatria, a decepção é nítida. O problema, a partir daí, passa a ser de contabilidade.

Sim…. como receber de volta todo o investimento afetivo colocado na figura de destaque? “Depois de todo o apoio que lhe demos, como ousa nos dar as costas?”. É aqui que aparece a genialidade do poema cru e dolorido de Augusto dos Anjos

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Não foram poucos os ídolos assassinados pelos seus maiores adoradores. Mark Chapman matou John Lennon e Yolanda Saldívar matou Selena ao perceberem que a dívida do seu amor não poderia ser paga. Mas estes são extremos: o amor ao cigarro produz os mais insanos antitabagistas, assim como os piores fascistas são ex-comunistas.

A história está repleta de exemplos desse fenômeno. Vejo isso até nos casais: atrás de uma paixão avassaladora se ergue uma gigantesca sombra. Quando escutava no consultório uma exaltação aparentemente exagerada de um(a) parceiro(a) eu tremia. Em silêncio refletia nos perigos de tamanha idealização. E mais: diante de tal exaltação como seria possível lidar com a inevitável frustração diante das falhas, erros e pequenas traições?

Arrisco dizer que os maiores ódios nasceram das mais intensas paixões. Não é essa uma das histórias mais prevalentes na literatura?

Ter uma relação menos apaixonada com figuras de destaque é importante para a sobrevivência das ideias. Deixar que estas personalidades cresçam mais do que as propostas que carregam é um passo para a cristalização de qualquer projeto. Mais seguro é desinstituir-se dessas posições, apagando o brilho pessoal (ou controlando-o) em nome das construções coletivas.

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