A expressão do rosto de ambos é o que deveria ser mostrado nas novelas, nos filmes e apresentado para as crianças na escola. A felicidade contagiante da imagem conta mais sobre a realidade profunda do parto do que compêndios de obstetricia, por conjugar de forma holográfica uma serie de verdades escondidas. A iconografia do parto, desde que a Medicina se apoderou do evento patologizando-o no seu intento expropriativo, nos deixou como legado as imagens da dor, do abandono, do sofrimento, do medo e do horror. Por muitas décadas a face do parto foi a emergência, a tragédia, o drama e a defectividade essencial do processo. A culpa seria, a partir de então, das das mulheres e seu mecanismo falho, seus úteros débeis e suas vaginas dentadas.
Por outro lado, desde a emergência da especialidade médica no parto, o canto de sereia da alienação feminina do evento se fez ouvir. Primeiro ao admitir que cirurgiões operando na lógica da intervenção tomassem conta de um evento fisiológico, onde a regra deveria ser da não-intervenção, do respeito aos ciclos e da paciência com os tempos. Depois retiraram das mulheres a ambiência calorosa e reasseguradora que por milênios as cercou, levando-as para hospitais frios e assépticos, onde a lógica que contamina suas paredes é a da doença e das ações etiocêntricas.
Ato contínuo, a família foi apartada da gestante, os bebês de suas mães, o leite foi separado do peito e os cirurgiões se tornaram os intermediários entre os núcleos familiares e a cultura patriarcal, usando o momento de pura energia transformativa como uma porta de entrada para doutrinar mães e bebês para seu lugar submisso na cultura.
A obstetricia, assim estabelecida, vem a se tornar um braço poderoso do patriarcado na cultura do Ocidente.
A partir desses dois pontos – os cirurgiões no comando e o parto hospitalar – o caminho para a total alienação do parto estava pavimentado. O controle panóptico do pré-natal, as drogas, os exames, as ultrassonografias (em sua maioria) inúteis e invasivas, a ilusão biologicista do controle total e a mecanização extrema de todo o processo foram os seguimentos naturais.
A foto perturbadora de um casal sorrindo e feliz no momento do nascimento, experimentando essa passagem com êxtase e alegria, causa espanto porque o modelo obstétrico, ao tornar esse momento um “ato médico” não consegue apreender a gama infinita de manifestações sociais, fisiológicas, emocionais, psicológicas e espirituais que esse evento comporta. Ao se ater apenas nas questões mecânicas e biológicas, com foco especial na patologia e cobertos pelo manto do medo, é natural que as cesarianas – com sua imagem ilusória de segurança, limpeza, ciência e silêncio – se tornassem a fotografia padrão dos nascimentos no Brasil.
Criamos um mapa tão distante da realidade que a essência profunda do parto desapareceu e, quando sua real imagem aparece na tela da cultura, ela causa espanto e assombro.
Para mudar a cultura do parto também é necessário mudar sua iconografia. Cabe a nós, testemunhas do milagre, retratá-lo em sua mais completa grandiloquência.
A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.
– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.
Levantei os olhos a procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.
Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva. Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele para os seus.
Inclusive essa.
Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se soubessem à minha volta o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por desejar tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada por meio de cordéis etéreos ao acidente fatal. Uma culpa a mais com a qual teria que lidar.
Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135
Leonard Doohan é um escritor americano nascido em Corpus Christi – Texas em 1977. O romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent”, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) foi escrito imediatamente após cumprir pena no Ventress Correctional Facility em Clayton, Alabama (USA). A partir desse livro, que combina memórias pessoais com relatos recolhidos de colegas de penitenciária, ele inaugurou uma sequência de 14 obras nas quais ele escreve especificamente sobre o universo “white trash”, os “rednecks” do sul dos Estados Unidos, a cultura masculina decadente e a idolatria por figuras como Trump. Vive ainda hoje em Galveston no Texas, com seu cão Jax, e está escrevendo um romance sobre o lado pouco conhecido e obscuro da família Bush.
Eu gosto de algumas posições do Jean e muitas das causas que ele defende, apesar de ser critico de algumas outras. Por isso mesmo, por admirar sua coragem e apoiar algumas pautas (como a humanização do nascimento), eu fiquei profundamente decepcionado com sua ida à Palestina, através de um convite mequetrefe da Universidade para debater “diversidade”, caindo no alçapão do pinkwashing sionista. Enquanto estava lá, no “convescote racista” do qual participou, ele chegou a escrever alguns textos defendendo sua presença no seminário. As explicações eram eivadas do mais primário dos relativismos, ao estilo “os dois lados tem suas culpas”, “é preciso paz“, “o terrorismo precisa acabar“, “Israel tem o direito de existir“, “não aceitamos antissemitismo“, etc. Para terminar oferece a novidade de propor a “solução de dois Estados”, um judeu e outro árabe palestino.
Ora, qualquer um que se debruça sobre o tema sabe que a solução de dois Estados foi boicotada por Israel. O plano SEMPRE foi, desde 1948, a limpeza étnica e o genocídio. Hoje, com as invasões sistemáticas da linha verde, a solução de dois Estados é impossível, e só resta a solução de UMA Palestina – como nação multiétnica. Uma nação, vários povos. Como a Bélgica ou a Suíça, por exemplo, ou mesmo a África do Sul, que venceu o Apartheid. Jean é o representante da esquerda sionista no Brasil que precisa ser confrontada, que precisa parar de beber da propaganda de Israel e reconhecer os crimes à humanidade perpetrados contra a população Palestina nativa.
Entretanto, por Jean ser homossexual e negro, ele sabe muito bem o que é preconceito, racismo e exclusão. Tenho a esperança de que esta conversa com Lula seja mais um tijolo a edificar uma troca de postura diante da causa Palestina. As pessoas podem aprender com seus erros e rever suas posturas.
Espero que Jean tenha a sabedoria para apagar esta mácula em sua biografia.
Para que vocês possam aquilatar o que o confinamento é capaz de fazer com uma pessoa, hoje eu assisti o filme piloto dos “Perdidos no Espaço” o original de 1965.
O filme é profundamente tosco, primário mesmo, e serviu como base para a série que lhe seguiria, mas não tinha a figura do Dr Smith. Assim, a série que foi lançada logo após teve que começar do zero e inventar um novo início, incluindo o personagem de Jonathan Harris. O filme tem os mesmos personagens e nomes da serie que o seguiu, com exceção do Júpiter II, que se chamava “Gemini XII”. O ano de saída da terra foi 1997 e eles ficaram viajando até 2001, quando ocorreu a falha do sistema e acabaram descendo em um planeta desconhecido e montanhoso, mas com atmosfera.
No filme piloto as roupas ainda não eram o modelito da série, mas este traje, tipo papel alumínio. Aliás, o problema na nave – que os deixou “Perdidos no Espaço” – foi produzido por um acidente (ao contrário da série posterior, onde a culpa foi do Dr Smith), em que a nave foi atingida por uma chuva de meteoros – que mais pareciam bolotinhas de papel. Muito mal feitos… mas tudo bem, o ano da produção foi 1965. O monstro com o qual lutam no planeta onde desceram é muito pior do que a pior das criaturas do Spectreman. Absolutamente ridículo…
O piloto de Perdidos no Espaço pretendia ter como pano de fundo o que estava acontecendo naquele período: o programa Apolo e as naves Gemini. Apenas 4 anos depois do início da série a Apolo 11 pousaria na Lua. Quando perceberam que o projeto de “Perdidos no Espaço” seria um brutal fracasso (apoiada na ideia de uma nova “Família Robinson” perdida, agora no espaço), resolveram incluir dois elementos novos, essenciais para o sucesso (até inesperado) que tiveram: o Dr Smith e o robô, que salvaram a série.
Eu sou do tempo em que virgindade era um valor social. Caiu estrondosamente sem deixar vestígios. Por isso mesmo acredito nessa dinâmica e na ação do tempo sobre mitos e tabus. A monogamia é um passo mais longo e talvez sua queda leve mais tempo. Quem viver verá…
Entretanto, restará ainda o cuidado com as crianças, que demanda esforço conjunto. Eu vivi desde a minha infância a descoberta da paternidade e dos cuidados paternos. Escrevi sobre isso e desagradei algumas pessoas, mas é fato que os homens dessa geração são muito mais próximos dos seus filhos do que todas as gerações anteriores. Quando comparo os cuidados parentais do meu filho com aqueles oferecidos pelo meu pai e avô (e até por mim mesmo) existe um fosso gigantesco de proximidade, cumplicidade e cuidado direto com os filhos.
Assim, houve uma explosão do papel social masculino com os cuidados de bebês e crianças e um decréscimo inegável na importância da maternidade da vida das mulheres, a ponto de haver grupos que a rejeitam por completo. O que era o destino inexorável de todas elas passou a ser apenas uma de tantas vertentes de realização em suas vidas. Para os homens uma descoberta, para as mulheres uma libertação.
Se houve mudanças substantivas no terreno da “posse sobre corpos alheios”, e o questionamento contemporâneo sobre as relações “fechadas”, eu ainda fico reticente com os casamentos abertos onde há filhos para criar. “Abrir” para deixar mulheres (mais uma vez) desamparadas não me parece justo. Precisaremos criar uma nova instituição para isso, caso contrário os casamentos de coabitação e monogâmicos continuarão prevalecendo.
Depois de 35 anos de análise dei uma parada em função da pandemia. Fui convidado a continuar na modalidade “à distância”. Via Skype ou Whatsapp.
De pronto me neguei.
Entendo a necessidade de manter os atendimentos. Entendo que é possível manter uma análise à distância e compreendo o ineditismo da pandemia em termos de confinamento, mas não consegui aceitar para mim este modelo. Até porque não aceitaria atender assim, salvo emergências.
Após receber o convite fiquei pensando sobre as “sessões virtuais” e cheguei a conclusão que minha dificuldade em aceitá-las tem a ver com a sacralidade que reconheço nesse tipo de encontro.
Não apenas o contato direto com o terapeuta me parece essencial mas todo o ritual que o cerca – sair de casa, pensar no caminho, aguardar uns minutos antes de ser chamado, voltar para casa, ruminar sobre o que foi discutido, tomar decisões. Todos esses passos fazem parte do processo. Para além das terapias, também é um ritual que está impregnado na forma como se estabelecem os encontros médicos. Três décadas escutando pacientes me mostrou que existe muito mais numa visita ao médico do que as palavras ditas na brevidade de uma consulta.
Muitas vezes o não dito é mais importante do que o debatido, assim como as palavras podem ser menos importantes do que os silêncios. As vezes sobrevém a sedução de pensar “mas era algo simples, olhar um exame“, mas as coisas são simples tão somente na aparência. Cada encontro desses carrega um fardo de angústias, tensões, histórias, lembranças e um pedido sutil de ouvidos benevolentes em uma escuta gentil e respeitosa. Muitas consultas eliminam sintomas bastando para isso sentar e chorar um pouco.
Em silêncio.
Para além disso, as questões do “olhar”, que considero muito importantes, são fundamentais. Lembro das queixas de pacientes sobre seus médicos quando diziam “ele nem olhou para mim”. Isto é, ele não reconheceu sua dor, sua tristeza, sua angústia.
Sei que sou cafona, boko-moko e saudosista. Sei também que talvez não haja saída ou futuro para este médico que, não só estava presente mas ia na sua casa e sabia o nome do seu cachorro. Sei que os vínculos hoje são tênues e os médicos carregam epítetos estranhos e despersonalizantes como “médico do posto” ou “médico do convênio”, sem rosto, sem nome, sem estilo e sem história. Todavia, a velhice apenas deixou mais evidente uma crença da juventude:
“O maior remédio que um médico pode oferecer ao seu paciente é sua presença e sua escuta isenta de preconceitos, e nenhuma cura verdadeira ocorre sem vínculo” (adaptado de Balint)
A piada era: “qual a pior parte da b*? A mulher que vem junto.”
Na adolescência isso parecia engraçado entre os garotos. A gente estava numa fase “incel”, e agia como a raposa diante de cachos saborosos de uva, desprezando o que não podíamos alcançar. Depois de amadurecer um pouco – e encontrar a alma feminina que se escondia por debaixo das curvas – a piada se revelava em sua objetualização horrenda e, assim, perdia a graça e o sentido.
Pois agora percebo, sem surpresa, que este tipo de piadas vira de lado, com o mesmo caráter depreciativo. São os homens que agora são tratados com desdém, descritos como os “maridos dos programas de TV” – estúpidos, ignorantes, infantis, tolos, limitados e inúteis. A naturalidade com que as meninas contam essas piadas – iguais àquelas da nossa juventude e com sentido trocado – prova que não há nenhuma superioridade moral de um gênero sobre o outro. Para mim sempre foi clara essa semelhança por cima de todas as outras diferenças superficiais: dadas as mesmas condições, homens e mulheres são igualmente grosseiros ou virtuosos, estúpidos ou geniais.
Todavia, as mulheres que amam seus homens – pai, marido, filhos, irmãos – sentem desconforto com estas piadas depreciativas, exatamente porque sabem que elas desprezam o próprio amor que devotam a eles.
Qualquer ideia de uma diferença essencial esbarra na realidade evidente: ambos carregam a mesma centelha de inteligência ou violência.
PS: A razão dessa reflexão foi ler uma menina escrevendo em um fórum do qual participo “eu gosto mesmo é de p*, o problema é o homem que vem de brinde”. As gargalhadas que se seguiram fizeram eco com o que acontecia na minha adolescência. A mesma piada agora sendo contada pelas mulheres, e talvez pelas mesmas razões de antigamente.
“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”.
O cancelamento é um ritual característico de nossa época apesar de que a Inquisição já cancelava gente por pensar diferente quando tudo aqui era – literalmente – mato.
Existe um determinado roteiro para cancelar um sujeito. Primeiro ele precisa ser um expoente em sua área. Não é necessário nem que tenha qualidade ou profundidade, mas é importante que seja referência. Ninguém diz “estou cancelando o motorista do ônibus porque descobri que ele é homofóbico”. Não, “no one gives a sh*t”. Precisa ser alguém relevante para a cultura e/ou para um determinado segmento dela.
Via de regra funciona assim: o sujeito passa a vida defendendo abertamente os setores oprimidos, sejam gays, trans, mulheres, indígenas, imigrantes, etc, seja no foco específico do seu trabalho ou seja por declarações que faz por sua condição de celebridade. A partir disso seus fãs constroem uma imagem idealizada, da qual ele fatalmente se torna prisioneiro. Todas as suas falas passam a ser vigiadas, milimetricamente construídas. Alguns contratam consultores de imagem para monitorar suas ações e suas falas. Tudo para se manter dentro da caixa estreita que foi construída para si, mas que, ao mesmo tempo que o oprime, fomenta sua fama, seu poder e seu dinheiro.
Algumas vezes, por distração, falta de cuidado ou de propósito, estes sujeitos se rebelam contra essa “condição de confinamento pela opinião pública”. Resolvem falar algo que acreditam ou sentem, mas que ofende seu fã clube. Como FHC dizendo que fumou maconha ou que é ateu. Como um presidente americano dizendo que não foi à igreja no domingo, ou como alguém questionando o termo “pessoas que menstruam”.
As vezes fico curioso de saber como seriam as opiniões de algumas pessoas públicas não fossem elas presas ao controle social da opinião. Muitas vezes seria o oposto do que acreditamos.
Pois o cancelamento, via de regra, acontece pelo detalhe. Mesmo que a vida inteira de um sujeito tenha sido dedicada à diversidade, contra o racismo, contra o sexismo e a favor de minorias, basta uma piada, uma observação, uma discordância do núcleo duro dos movimentos para que seja decretado o cancelamento. J. K. Rowling foi assim. Para Woody Allen bastou uma mentira repetida à exaustão. Para outros o uso de uma palavra proibida, como “denegrir”. Para muitos apenas uma frase em momento de descontração.
Quando o processo se inicia ele atinge a moral do sujeito. Assim, retira-se o fundamento espiritual profundo do acusado, como a peça da base do jogo da Jenga, fazendo toda a vida do sujeito desabar. A obra, seu trabalho, suas relações, seus prêmios, suas conquistas são imediatamente destruídas, incineradas na fogueira da opinião pública.
É facil perceber nesse processo o gozo de quem acusa, pois que ele oferece uma imensa satisfação à pessoa comum, aquela que sempre se sentiu secretamente oprimida pelo gigantismo do seu ídolo.
“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”. Essa é a vingança do fã que se sentiu traído quando sua idealização foi rompida. Essa vingança aparece na internet todos os dias quando personagens são cancelados, destruídos, atacados por apresentarem-se como verdadeiramente são, ou por não cumprirem o acordo tácito criado pela idealização: “Você será como eu quero, e eu lhe dou meu amor”.
Na verdade os ídolos contemporâneos são construções sociais em que cada um coloca um pouco de suas projeções e aguarda que ele se comporte de acordo com elas.
Ainda impactado com as novidades que vivenciei em meu primeiro plantão em um centro obstétrico, encontrei meu pai recostado em sua poltrona lendo um livro e tomando uma xícara de café. Eu não tinha muito mais do que 20 anos de idade e o contato com o nascimento humano me havia deixado deslumbrado. Mais do que o universo químico, hormonal e mecânico que eu só aprenderia mais tarde, esta oportunidade me havia jogado de cabeça na realidade crua e selvagem do parto. Em verdade, mal eu sabia que esta experiência me transformaria de tal maneira que seria o funil pelo qual, por muitos anos, eu enxergaria o mundo.
No plantão que fiz como estudante em um pequeno hospital de periferia acompanhei, junto ao médico, o nascimento de uma criança. Lembro até hoje do nome do bebê que nasceu: Maurício. Não pude esquecer porque se parecia com o nome do meu pai, “Maurice”, uma provável homenagem ao cantor, ator e humorista parisiense Maurice Chevalier. A explosão sensorial a que fui submetido foi estupenda. Senti-me catapultado para um estrato de percepção completamente diverso daquele a que um menino ainda adolescente vive em seu cotidiano. As dores, os puxos, os esforços, o suor, o sangue, o líquido da bolsa, o grito, o alívio. Depois o cansaço, a dúvida, as incertezas. Também vi o abandono e a superação, todos juntos e embrulhados em um pacote chamado “vida”.
– Acompanhei um parto ontem no hospital, disse-lhe eu, fingindo uma naturalidade que evidentemente era falsa.
– Humm, disse ele. Que tal?
– Interessante, respondi.
– E como é? Em verdade eu sou do tempo em que os pais eram proibidos de entrar em um centro obstétrico. Mas, para ser sincero, nunca me passou pela cabeça assistir algo assim. Mesmo se tivesse esse direito eu declinaria. No nascimento dos meus 4 filhos minha única preocupação sempre foi saber se havia gasolina suficiente no carro para levar até o hospital. O resto era com as freiras e com os médicos.
– Eram outros tempos, disse eu. Pois é muito curioso ver uma criança nascendo. A dilatação, o aparecimento da cabeça, o corte no períneo para permitir a saída e o nascimento e depois os pontos para fechar o corte.
– Corte na vagina?
– Sim, se chama “episiotomia”.
Ele parou alguns instantes, tomou um gole de café. Ficou me olhando com uma face desconfiada. Por fim, perguntou:
– Como é feito este corte na vagina?
– Com bisturi ou tesoura. Fazemos assim para não estragar a vagina. Se o corte não for feito os tecidos esgarçados pela passagem da cabeça podem se romper de forma errática, destruindo a anatomia dessa região, o períneo. É uma forma de “civilizar o parto” que, de outra forma, poderia trazer danos para a mulher.
– Hummm, respondeu ele coçando a cabeça. Ok, eu entendi, mas com qual material é feito esse bisturi? E a tesoura?
– Creio que de aço inoxidável, por quê?
Ele sorriu e respondeu:
– Sua história não faz sentido. Não consigo entender como poderiam usar aço inoxidável para fazer isso.
Eu sabia que havia um truque em sua pergunta, mesmo assim resolvi continuar.
– Qual o problema? Queria que usasse outro material? A questão é que nos hospitais a esterilização e as autoclaves pre….
Ele me interrompeu com a mão espalmada a frente.
– Calma, não estou fazendo críticas ao material, mas não consigo entender como um processo fisiológico e natural como o parto precisa de uma ajuda tecnológica que tem apenas algumas poucas dezenas de anos. Para mim, ajudar tecnologicamente um parto é como furar o nariz para aumentar a passagem de ar, como se nossos narizes fossem insuficientes, defectivos e falhos. Como o processo adaptativo de milhões de anos se esqueceu de dotar as mulheres de um “zíper” neste local para auxiliar na passagem de um bebê? Como as parteiras primitivas cortavam o períneo na pré-história? Com pedra lascada?
Tomou mais um gole de café e continuou a me bombardear com perguntas desconcertantes.
– Como podemos admitir que um processo fisiológico e natural necessita de um “conserto” que só vai ocorrer milhões de anos depois? Essa conduta – romper as vaginas para alargar a passagem – me parece insensata se formos analisar por uma perspectiva darwinista. Onde estava o processo evolutivo que não olhou para as mulheres? Por que a natureza se esqueceu delas e ficou milhões de anos aguardando um garoto como você para ajudar estas senhoras a terem seus filhos?
Para um eletricitário aposentado ele tinha uma observação muito objetiva da realidade. Eu fiquei sem entender sua posição e por causa disso resolvi fazer o que qualquer um faria: desconsiderei sua fala acreditando ser apenas uma tolice produzida por alguém que não conhecia o tema em profundidade. Troquei de assunto e contei as outras peripécias do meu dia de plantão.
Corta a cena e, oito anos depois, eu fazia plantões – agora como obstetra – em um hospital de periferia. Depois de costurar um períneo na madrugada lembrei das ponderações do meu pai naquele encontro regado a café. Pensei na sua observação e nas suas exatas palavras: “Não faz sentido”. Questionei solitariamente os significados últimos desse procedimento e o que lugar ele ocupava na narrativa contemporânea da obstetrícia. Lembrei de suas origens com De Lee e a emergência da obstetrícia como especialidade médica, ao mesmo tempo em que ocorria o ocaso da parteria. Alguns anos depois Robbie Davis-Floyd escreveria “Birth as an American Rite of Passage” e este enigma, em minha mente, seria solucionado. Antes disso, no início dos anos 90, durante a solidão de um plantão de periferia, eu decidi que não faria mais episiotomias de rotina, que não mais perpetuaria um procedimento que, lentamente, ia se configurando como uma real violência contra as mulheres e sua integridade física. Naquele exato dia, com as lembranças da perspectiva do meu pai sobre esse procedimento, eu abandonei essa prática.
Ainda perplexo pela minha decisão, resolvi escrever nas costas de um manual de obstetrícia, um código pessoal de conduta para os procedimentos obstétricos. Procurei ser o mais sucinto possível e criei uma lista que se baseava em cinco pontos capitais, sendo o sexto adicionado apenas 10 anos depois quando do surgimento das doulas no Brasil:
1- Ambiente acolhedor 2- Posição vertical como padrão 3- Suporte físico e emocional 4- Uso restrito de drogas 5- Uso restrito de intervenções 6- Auxílio de doulas
A observação do meu pai havia plantado uma semente de dúvida sobre o que era, em essência, o proceder médico. Pude enxergar que tais procedimentos são baseados no que eu mais tarde chamaria de “misoginia essencial”, que pode ser definida como a incapacidade da sociedade patriarcal em reconhecer as mulheres como intrinsecamente capazes e aptas para suportar os desafios que lhes cabem, em especial aqueles ligados à reprodução. Por fim, entendi que a tarefa de auxiliar as mulheres durante o parto passava por uma compreensão da real posição de um cuidador: aquele que deve estar ao lado, invisível, como feito de vidro, para que suas intervenções não venham a ofuscar a luz que emana daquelas que devem brilhar.
Mais uma imagem que mostra o apartheid do Rio de Janeiro, e de resto o que ocorria em todo o Brasil. O Rio é uma cidade mestiça, com muitos negros e mestiços, mas a praia sempre foi de exclusividade dos brancos. Os negros e pardos aparecem nestas imagens apenas como serviçais, empregados, trabalhando onde os outros descansam e/ou se divertem.
Para aqueles que diziam não haver racismo nesta época eu apenas lembro que a expressão deste problema social só ocorre quando existe algum tipo de tensão e conflito. Nessa época havia a “paz do silêncio”, quando a questão racial era escamoteada e escondida. Até mesmo os negros sobreviviam se adaptando a uma sociedade que não foi construída para eles, de mulatas do Sargentelli a jogadores de futebol.
Cada um olha para essas imagens e extrai delas o que deseja. Eu não posso evitar o choque de ver a construção racista do nosso país. Não quero abrir polêmica, apenas lembrar do racismo em que vivíamos ao mesmo tempo que sofríamos a repressão de um regime brutal. As imagens concordam comigo.
Mas… sim, como era bom ser branco e de classe média no Rio dos anos 70.