Silêncios

Desculpe a minha confusão, mas as vezes é difícil entender as razões pelas quais algumas mulheres mandam os homens calarem a boca quando o assunto é parto, nascimento e maternagem. Esse silenciamento ocorre porque, para estas pessoas, os homens não têm o direito de falar sobre estes assuntos (afinal mulheres nascem de partos, homens são colhidos em árvores). Sempre fico na dúvida sobre a motivação real para tais atitudes: seria o simples desejo de silenciar os homens ou uma legítima queixa contra a falta de voz das mulheres sobre um assunto do qual elas mesmas foram impedidas de falar nos últimos 300 anos?

Faço um convite apenas para que se lembrem de alguns homens como Gonzales, Marcus, Cláudio e Moyses, Jorge, Bráulio, Paulo, Frederick, Michel e tantos outros que defenderam o protagonismo feminino quando as próprias mulheres ainda estavam socialmente frágeis para lutar com suas próprias vozes. Aliás, foi o exemplo desses homens que auxiliou as mulheres a produzir seu próprio discurso construir seu protagonismo.

Então eu pergunto: será possível lutar por essa causa sem precisar o tempo todo silenciar os homens, em especial aqueles que pavimentaram a estrada quando as trilhas ainda eram escassas e pedregosas?

Eu desconfio que a estratégia das mulheres para buscar solidariedade nas causas femininas é apenas catastrófica.

Ninguém entre os homens contemporâneos deseja roubar o protagonismo das mulheres neste aspecto tão feminino da vida, mas porque a insistência em desautorizar as suas falas? Qual a vantagem disso?

Fico imaginando as opções que surgiram à minha frente nas ultimas três décadas. Eu poderia ter esperado 30 anos até surgir uma mulher para defender essas causas no meu meio, valorizando assim o “lugar de fala” delas. Talvez esses 30 anos de espera não custaram nada para quem está distante, mas muitas mulheres puderam se nutrir dessa prática ao longo desse tempo. Será que a voz dos homens é mesmo tão inútil e desnecessária ou apenas revela um outro silêncio?

Se a estrada era ruim por culpa dos homens (poderíamos ficar mais alguns meses conversando só sobre este tema) mais uma razão para permitir que eles falem e desfaçam os erros históricos do patriarcado aplicado ao parto, nascimento e maternagem.

O que eu não entendo é por que algumas mulheres acham que para que elas sejam ouvidas precisam calar os outros atores sociais que também tem algo a dizer. É como se o “espaço” das falas fosse tão escasso que para que elas falem é necessário que todos os outros se calem.

Lembram daquele tempo quando uma mulher falava de futebol e um ogro próximo dizia: “Amorzinho, cala a boca e vai fazer um café pra nós”. Lembram disso? Pois é, por mais que algumas vezes seja difícil notar, é justo dizer que melhoramos um pouco. Por que então a insistência em imitar o pior de nós?

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Deslumbramento

Exatamente por ser tão importante e criativa a função das doulas na construção de uma psicosfera positiva para o parto é que se torna tão fácil que elas caiam no deslumbramento de sua ação no parto. Por outro lado – e isso foi lembrado por muitos – essa constatação não é uma exclusividade das doulas; elas são apenas as últimas personagens a adentrar o cenário do parto e do nascimento. Os médicos há bem mais tempo, ao afirmarem que “fizeram” o parto de fulanas e sicranas, também se deslumbram com sua arte, ao ponto de despudoradamente expropriarem o evento da mulher.

Essa “couvade” contemporânea facilmente nos leva à inveja recôndita e ancestral que os homens carregam da parturição, apanágio do mistério feminino. Até mesmo as parteiras, profissionais ou tradicionais, com muita facilidade escorregam no próprio encantamento e se acreditam mais importantes do que verdadeiramente o são.   Todavia, não se trata de desmerecer a atuação de nenhum desses personagens que constroem o “circulo de apoio” que milenarmente ofereceu o suporte psicológico, físico, emocional, técnico, social e espiritual para o parto, desde que adentramos o universo da linguagem. Trata-se apenas de estabelecer limites à nossa atuação, para que nossa emoção diante do milagre da vida não carregue – escondida entre lágrimas e emoções – a semente da vaidade desenfreada, que colide frontalmente com o principal atributo de um cuidador: a humildade.

A luz que emana do parto, criada a partir da emissão de energia bruta de amor e superação, não pode ser eclipsada pela vaidade daqueles que o acompanham. Para isso é necessário que seja exercitada cotidianamente uma postura de respeito e veneração ao trabalho da mulher.

Doulas, parteiras, médicos que desejam resplandecer deveria se inscrever no “big brother“. Não é função desses personagens brilhar, mas tão somente refletir. O brilho só pode vir da mãe, caso contrário não passa da mesma velha expropriação, agora com novos atores.

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Infâmias

Copiado de um debate em família:

“Existe uma tentação irresistível para algumas pessoas em disseminar “fake news” que destilam ódio e infâmias contra personalidades, em especial àquelas situadas no espectro oposto de nossas crenças políticas. Mesmo quando a notícia é absolutamente inverossímil (Friboi, mansões, roubo de objetos do Palácio, etc.) estas pessoas não resistem ao apelo emocional de destruir a vida de um inimigo distribuindo mentiras absurdas e grosseiras.

Qualquer pessoa minimamente educada percebe que essa tática de atingir a honra de um sujeito é um golpe baixo, mas ela sempre vem de pessoas que não conseguem atingir a fala ou as obras de seus adversários, e por isso mesmo rebaixam o nível do debate. Até crianças discutem assim: quando a razão falha a emoção brota com a máxima intensidade e o idioma se torna a ofensa pessoal, e toda a retórica se concentra nos ataques à honra. “Se você não consegue atingir a mensagem, atire no mensageiro”.

Existem inúmeras formas de criticar os governos de esquerda no Brasil mas a maioria das formas de ataque são baixas e desonestas. Dilma e Lula podem ser criticados (e devem) pela esquerda e pela direita, como qualquer governante, mas apenas por suas obras ou pela falta delas. Ataques pessoais falam muito mais dos acusadores do que dos acusados.

Os adversários da social democracia popular proposta pela esquerda brasileira podem ser interlocutores honestos do modelo conservador, levando adiante sua proposta liberal e a ideia de “estado mínimo”. Por outro lado,  podem se tornar difamadores odiosos de histórias inventadas que são facilmente desfeitas logo depois. É uma escolha, mas se escolherem a segunda vão acabar inexoravelmente cercados de difamadores igualmente fanáticos e mentirosos. Eu insisto em acreditar que uma pessoa honrada não merece essa companhia, esteja ela em qualquer um dos lados do espectro político..

Pensem bem: a escolha está entre fazer crítica firme, dura, intensa mas serena ou semear a mentira e a injúria contra a honra de pessoas no campo adversário. Podemos olhar para o lado que quisermos, mas não é lícito reclamar depois quando ficarmos cercados de gente que tem o ódio como unico idioma.

Tal é a lei da sintonia.”

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Manifestação

“Não havia nada de sincero nessa manifestação do dia 26/03.  Nenhuma das pautas era verdadeira. Se houvesse interesse em combater a corrupção não teriam colocado Temer e tirado Dilma que, junto com Lula, deu toda a liberdade para os exibicionistas da PF e os fanáticos religiosos do MP. Colocaram Temer e toda a camarilha no poder, os mesmo que, junto com Cunha, boicotaram o governo Dilma desde o primeiro dia do segundo mandato.

O movimento de domingo foi contra Lula que SÓ CRESCE NAS PESQUISAS. Foi contra o “comunismo” (leia-se justiça social) e a favor de Temer (era proibido falar mal dele). Por isso mesmo foi um gigantesco fiasco e uma humilhação terrível para o MBL que tende a desaparecer por ser um movimento de aluguel cujo único objetivo era dar uma cara popular ao golpe. Morrerá pela ausência de substância e pela falta de caráter dos fantoches do instituto Millennium.

E quem teria coragem de se associar aos velhos brancos, frustrados e impotentes, viúvas de militares e outros alienados que – pelo fetiche de serem escravos – pedem a volta da ditadura militar?”

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Anjo

“Sonho: um anjo chegou assustado do passado, vestia uma pantalona amarela com nesga, fita na cabeça e cabelo Black Power. Perguntou o que fazíamos nos domingos, entristeceu-se com o Facebook, lamentou pela TV e pela maconha ruim, xingou Bolsonaro e disse que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Acordei”

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Irmãs Dempsey

“Na foto a histórica imagem das irmãs Dempsey, do condado de Bruns, que nasceram com uma espécie rara de gemelaridade siamesa chamada Mamófagos (ligadas pelo seio). Elas trabalharam no circo Rilling Bros durante 25 anos até morrerem de intoxicação por geleia contaminada em 1925. Elas se chamavam Ethel e Erna e se casaram com dois distintos cavalheiros londrinos chamados Ernst e Carlton. Ernst foi um homem conhecido na realeza britânica e chegou a ser condecorado por atos de bravura na batalha de Galipoli, na Turquia. Carlton por seu turno era um escritor de romances e colecionador de selos, e sempre teve uma vida reservada.

Acontece que Ernst e Carlton também eram gêmeos e igualmente xifópagos, porém unidos pelas nádegas (nadegófagos) e ficaram casados com as irmãs Dempsey até o fim de suas vidas. Os irmãos morreram em um acidente de paraquedas na semana seguinte à morte das irmãs. Esta morte quádrupla foi sentida de forma muito intensa pela sociedade inglesa em meados dos anos 20 e houve um minuto de silêncio de todos os palhaços de circo na Inglaterra naquela semana.”

Curiosidades curiosas de um mundo curioso “, volume 5, maio 1963, pág 135.

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Playlist

Eu me aproximo do carro para ir com Zeza para uma pousada próxima a Porto de Galinhas e o motorista que nos levará parece um nordestino típico: jovem, forte, cor de cuia, pescoço virtual e simpático. Sento no banco do carona e coloco o cinto, Zeza também. O motorista ajeita o GPS e mexe no sistema de som. Vejo a palavra “playlist” no display do carro e coloco a mão no bolso à procura dos fones de ouvido para conectar no celular. O motorista liga o carro, pergunta se o ar condicionado está bom, aperta um botão e a playlist inicia.

Os primeiros acordes atingem meus tímpanos como uma flecha pontiaguda e no pequeno espaço que os separam do cérebro  conseguem que uma lágrima furtiva me percorra o rosto, salgando-o com emoção e surpresa. A voz familiar no auto falante fala que o meu amor tem um jeito manso que é só seu, e depois, ainda travestido, canta no feminino e explica que o primeiro lhe chamou como quem vai no florista, mostrou o seu relógio e lhe chamou de rainha.

Peço para aumentar o volume da música e ele sorri. “Ele tem uma músicas lindas, não?”. Concordo timidamente. Durante a viagem ele sussurra as músicas de Chico Buarque como se tivesse a minha idade e não os trinta e poucos que aparenta.

O pulso ainda pulsa. Na miséria cotidiana do deserto criativo em que sofregamente caminhamos ainda há espaço para lembrar da sensibilidade e da arte, que surge inesperadamente à nossa frente como um cálice de água cristalina a saciar nossa sede.

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Trans

Existe um sujeito que circula no mundo real e virtual a quem todos nós conhecemos. É um indivíduo da classe média, profissional liberal ou comerciante e que diuturnamente fala mal do Brasil e dos brasileiros, mas acima de tudo tenta desmerecer qualquer conquista social dos governos de esquerda. Ele é o “paneleiro”, que saiu às ruas munido de ódio e indignação para pedir o impeachment da presidenta. Se é verdade que para alguns o sentimento era de legítima inconformidade com os erros cometidos pelo governo, para uma enorme parcela a motivação profunda e inconsciente era outra, e esse é o ponto essencial para entender o paneleiro típico.

O comportamento desse brasileiro está na raiz da atitude do colonizador, aquele que explora e vai embora, que goza “na ausência do pai”, sem limites e com total desapego ou lealdade ao lugar onde vive. Sua postura é a do explorador que jamais se conecta com seu lugar, pois não se enxerga nele.

Esse sujeito me lembra muito a figura de um colega médico que há quase 30 anos atrás visitou Paris pela primeira vez. Na volta ao Brasil, rodeado pelos seus colegas no hospital, contava os detalhes da sua viagem exagerando suas virtudes (só o soube muito depois) e minimizando seus defeitos, ainda encantado e deslumbrado pela “cidade luz”.

Todavia, uma frase do seu extenso relato nunca me saiu da cabeça, mesmo após três décadas. Enquanto descrevia os encantos de Paris, em um momento de e abração exclamou: “É esse o lugar que eu mereço viver“. Sua expressão, seu sorriso e sua postura indicavam que a nacionalidade brasileira que carregava como um peso era uma injustiça, mais do que um engano. Ele havia nascido no lugar errado e rodeado da gente “errada”.

Meu colega fazia parte de uma casta brasileira que conheço muito bem por ter transitado pela medicina por quase 40 anos. Eles são os “transidentitários“, sujeitos nascidos no Brasil mas que nunca se sentiram como parte desse país. O sobrenome estrangeiro funciona como um lembrete atávico de que sua identidade “verdadeira” está alhures, em outro país e em outra latitude. Essas pessoas detestam o nosso país, suas misturas, sua pele morena, seu idioma, seus sotaques e seu jeito de ser.

Esse brasileiro que não se aceita como tal, as vezes emigra e se torna um “americano-trans” ou um “europeu-trans”. Era ele mesmo que estava misturado com pobres indignados vestindo verde-amarelo há alguns poucos meses. Esse sujeito transidentitário por vezes usa toga e sempre que pode vai beber civilização nos Estados Unidos. Volta para cá e lamenta sua língua, sua cor, sua história e sonha com o dia em que uma cirurgia transformativa o fará ser o que sempre sonhou e desejou.

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Evangelismos

A atuação das igrejas evangélicas (as outras muito menos) foi fundamental para criar entre a ralé (e aqui uso “ralé” na concepção de Jessé Souza – os despossuídos, o lúmpen, os esquecidos) um sentimento conservador, antipetista, antigay, retrógrado e alienante que atua contra seus próprios interesses e direitos.

Não me parece esdrúxula a tese de que a ralé é o principal mercado do evangelismo nacional e de que a mensagem veiculada pelos governos petistas de união das classes desprivilegiadas através das medidas de inclusão social COMPETIA com o messianismo das igrejas, roubando para a militância política e social os fiéis que aguardavam na fila longa e incerta da graça divina. O PT ao diminuir a miséria e a fome, dar esperanças e consumo para as classes baixas, encher o aeroporto de pessoas que só viam aviões na TV ou no céu e triplicar o número de negros na Universidade ofereceu uma via de realização que se chocava com o mercado da graça, a salvação pela fé e o comércio do dízimo. Isso enfureceu os grandes “missionários”, sendo Malafaia e Edir apenas os exemplos mais contundente.

Isso pode explicar os discursos odiosos e vingativos do “bispo” Malafaia contra o PT e as esquerdas, a evidente (e natural?) vinculação com os setores capitalistas do boi e da bala, e suas ligações com o poder de Israel. O estado laico é mais do que uma obrigação civilizatória; ele representa a luta contra formas sutis de alienação mental representadas por grandes vertentes do evangelismo de direita no Brasil e no mundo.

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O Acampamento

Sentou-se sobre o tronco da velha árvore e tirou do alforje uma pequena caixa de madeira onde guardava o fumo. As labaredas lambiam a madeira fazendo o crepitar dos galhos secos soarem como lamentos de dor. Ao seu lado Willock resmungava enquanto juntava os últimos caixotes. A munição precisava ser guardada em local seco e o céu sem estrelas não lhe garantia uma noite sem chuva. O silêncio na colina era entrecortado pelo uivo dos lobos, enquanto os grilos raspavam suas patas tentando acompanhar a triste melodia do vento. Harding fechou seu cigarro com a palha que trazia no bolso do colete,  mas antes de acender falou para Willock, que se ajeitava no chão ao seu lado.

– O fato de sermos poucos nesta luta não é apenas porque eles não enxergam o mundo com nossos olhos, Wee. Não os vejo como estúpidos, ignorantes ou maus; eles não são tolos, muito menos perversos. Não se trata de uma falha de caráter, mas uma perspectiva distinta na qual já estivemos inseridos, e tu bem o sabes.

Willock aquiesceu arqueando as sobrancelhas para cima enquanto aproximava o bule de café do fogo à sua frente. Harding pigarreou, acendeu seu cigarro e deu uma longa baforada para cima. A fumaça encontrou a brisa fria da noite e foi levada adiante, misturando-se com os aromas úmidos e escuros da mata. Cuspiu no chão à sua frente e continuou:

– Talvez mais relevante do que eles não conseguirem ver o que vemos seja os fato de que desconhecemos por completo o que os move. Não entendemos mais o mundo pelos seus valores e seus sapatos já não nos cabem mais. Se pudéssemos entender porque precisam tanto seguir pelo caminho que há tanto abandonamos seria mais fácil fazê-los ver as razões que nos levaram a uma escolha tão radical.

As palavras de Harding ficaram presas ao silêncio que se seguiu e a única resposta que veio foi o piar das corujas anunciando o início de sua caçada vespertina.

Scott P. Floyd, “Who Killed the Messenger?”, Ed. PubliMar pág 135

Scott Percival Floyd nasceu na pequena cidade de Dighton, no Kansas, tendo feito seu estudos em Wichita. Posteriormente mudou-se para Topeka para trabalhar na UPS, chegando ao posto de gerente regional. Escrevia para o jornal local Topeka Capital-Journal uma coluna de esportes e variedades, mas em 1995 escreveu seu primeiro livro de contos chamado “Marne e a longa viagem”. Costuma escrever sobre a vida no campo, cowboys, pastoreios e longas invernadas. Casou-se com May Shelby e tem 4 filhos: Joe, Harper, Teresa and Bill.

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